sábado, 14 de junho de 2008


"Poema do amigo aprendiz
Quero ser o teu amigo. Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar,
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias..."

Fernando Pessoa

quinta-feira, 12 de junho de 2008

...schizofrenia...

Vozes na ante-sala;
Vultos de obsessão;
vezes que torna frio,
con-sentir a ilusão...

/não se sente em sua mente/

vozes... vultos... vezes...

terça-feira, 10 de junho de 2008

Apenas um PERSONAGEM

Há alguns meses completara a idade de 21 anos, cursava o ensino superior e optara por uma carreira que lhe parecia promissora. Não era a área em que se graduava, mas era, principalmente devido à estabilidade, um emprego que lhe fascinava. Ele estava amadurecendo, passara triunfante pela adolescência. Havia ficado para trás boa parte das aventuras e da inconsequência juvenil. Já não sonhava mais com uma banda de rock ou com uma sociedade plenamente justa e igualitária, perdera com o passar do tempo boa parte de sua intensa capacidade de sonhar. Naquela tarde estava em casa, lhe sobrava um pouco da melancolia provocada, não pelo que acontecera, mas pelo que deixara de acontecer na semana anterior. Mais cedo ele tinha estado na casa de um amigo, colega da faculdade, digitou um artigo, que possivelmente ninguém leria, jogou conversa fora e depois voltou para casa com um quê de tristeza no olhar.

Era uma típica tarde de junho, parte de um daqueles dias em que faz frio à noite e pela manhã e à tarde o sol esquenta produzindo um clima seco, propício às doenças respiratórias. Ele era um dos afetados, com as amídalas já irritadas e as narinas escorrendo, os sintomas se repetiam a cada ano nesta mesma época. Os espirros que geralmente o irritavam, naquele momento ainda não tinha lhe furtado a calma que lutava para preservar. Não estava nervoso, estava bem melhor, se refazia do estado de intensa ansiedade dos últimos dias.

A sensibilidade e a alma à flor da pele lhe permitiam observar a poesia que ao seu redor a natureza escrevia, eram os beija-flores que voavam brincalhões, o gato que escalara os muros até o topa da cobertura da igrejinha, era a luz do sol que se refletia nas folhas dos pés de goiaba e abacate... A simplicidade lhe comovia mais do que qualquer outra coisa. Sentia saudades de sua infância, tempo em que pouco era preciso pra se sentir feliz. Ele era considerado um felizardo pelos vizinhos e até por alguns dos amigos; o trabalho, os estudos... Entretanto, não, ele não estava feliz, em seu intimo sentia que algo lhe faltava. Faltava realização, faltava o lúdico, carecia de mais poesia...

A tarde se aproximava do fim, as reflexões que se iniciavam em sua mente, se não fosse a dor de cabeça que já lhe incomodava, poderiam prosseguir pela noite que se aproximava, elas lhe roubariam a atenção durante a aula e talvez o precioso sono daquela noite. Ele não permitiria, tinha medo de que a ansiedade voltasse a lhe perturbar.

Afastou mochila, livros e outras coisas que se amontoavam sobre a cama, abriu um caderno velho e pôs-se a escrever. Sabia que não tinha grande talento literário, mas se sentia bem ao abstrair o real sob a forma de um personagem, alguém sobre quem ele teria total domínio, alguém não tão mesquinho quanto ele se achava, não tão medíocre quanto a maioria das pessoas que lhe rodeavam. Seu personagem não se tornaria conhecido, assim como seu artigo, talvez ninguém se prestasse a ler o que escrevera.


UM ARTIGO DEPRIMENTE


Já há quem diga que o “mal do século presente” é a angustia existencial provocada pelas doenças neuropsicológicas. Dados da Organização Mundial de Saúde indicam que, no ano 2000, a depressão era a quinta causa de incapacitação. Em 2020, poderá ser a segunda. Realmente tais dados à primeira vista podem parecer alarmantes, mas devem ser analisados com muito cuidado. Ainda persiste a falsa ideia de que a depressão seria o resultado direto de uma carência de serotonina no cérebro, ideia difundida pelos anúncios das companhias farmacêuticas. Muita gente que poderia estar apenas precisando de um bom aconselhamento está sendo exposta a riscos ainda não avaliados e enveredando por um caminho que pode não ter volta.

       “Até que ponto a tristeza provocada por perdas e frustrações não está sendo confundida com depressão?” Questiona o ex-presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria e atual conselheiro da entidade, Marco Antônio Brasil, “Sofrimento faz parte da vida. Nem todas nossas dores podem ser saradas com remédios.” Para Marco Antônio, a psiquiatria tem deixado em segundo plano a origem psicossocial dos transtornos psicológicos. Muitos deles como a bulimia, a anorexia, o estresse e a síndrome do pânico, ele diz, são provocadas por pressões da vida contemporânea.

Existe atualmente na vida social, uma cobrança ao indivíduo quanto ao seu sucesso, à sua aparência e quanto ao seu desempenho para com o meio e para consigo. Se os modelos preestabelecidos não são alcançados, a frustração e o sentimento de perda e de não pertencimento que lhe são imputados serão decisivos para sua opção pelo início de um tratamento, na maioria das vazes a base de medicamentos. Este quadro, impulsionado pela mistificação dos terapias tem levado a uma banalização do uso dos remédios antidepressivos. As pessoas têm se entupido de calmantes por um simples problema de insônia que poderia ser passageiro ou solucionado, com apenas algumas mudanças de rotina. Cultiva-se a idéia absurda de que um comprimido pode resolver os problemas de auto-estima, timidez ou falta de realização.

O grande perigo ocorre quando se esquece que tais medicamentos, os “tarja-pretas”, são como uma outra droga qualquer, causam dependência e podem provocar males irreparáveis. Estes medicamentos, que só deveriam ser usados em casos extremos, já estão sendo consumidos desenfreadamente, muitas das vezes sem prescrição médica, ou sem acompanhamento de um profissional responsável. Enquanto uma multidão de autopiedosos e insatisfeitos buscam uma espécie de fuga, se drogando, quem lucra são os laboratórios farmacêuticos. A opção das pessoas em não enfrentar sua própria realidade e o medo de encarar seus traumas e pesadelos, as tornam vítimas fáceis para as artimanhas publicitárias destas empresas.

Em 2002, nos Estados Unidos, no programa de Oprah Winfray, o jogador de futebol americano Ricky Willians, disse sofrer de uma “timidez dolorosa e crônica”. Descobriu-se depois que o jogados fora pago pelo laboratório Glaxo Smith-Kline para falar que sua timidez era doentia. Em 2003, uma propaganda do Zoloft (antidepressivo) publicada no American Journal of Psychiatry, mostra uma jovem cabisbaixa e uma pergunta: “Ela é tímida? Ou isto é uma desordem de ansiedade social?” logo abaixo, se lia “Zoloft, agora indicado para desordens de ansiedade social.”

Em Timidez: Como um comportamento normal se tornou uma doença, o autor, Cristopher lane acusa os laboratórios de ocultarem os efeitos colaterais da maioria dos antidepressivos. Só nas versões mais recentes do Prozac foram incluídas na bula advertências sobre a possibilidade de tremores incontroláveis, diminuição da capacidade sexual, idéias de suicídio e autodestruição (sic). Pergunto-me: Será que tais medicamentos são tão menos nocivos que o cigarro, o álcool ou até mesmo que algumas das drogas ilícitas? Eu, sinceramente, creio que não.

Há pouco mais de um ano uma médica, clinica geral, (sem nenhuma formação na área de psicologia), me diagnosticou um quadro de ansiedade, na ocasião ela me receitou um medicamento controlado, disse que eu me sentiria melhor tomando-o e que poderia pegar no próximo mês uma outra receita, sem precisar de nova consulta. Ao ver na bula que o tal remédio poderia causar dependência, decidi não toma-lo. A ansiedade voltou a me incomodar tempos depois, mas a situação já era bem diferente, eu já compreendia que era um quadro “normal”, resultado de fatores externos, incomodava um pouco e depois se ia junto com a situação que a tinha provocado. Eu não caí na armadilha... Perdi a chance de quem sabe num futuro próximo passar por sessões de eletro-choque, terapia quem tem voltado com força total em clínicas e hospitais do Brasil.

(Alguns dados foram extraídos da Matéria “Eletrochoque” de Consuelo Dieguez, publicada na Revista Piauí – Nº 21)


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quarta-feira, 4 de junho de 2008

Saudades...

"Quando seus amigos

Te surpreendem

Deixando a vida de repente

E não se quer acreditar...


Mas essa vida é passageira

Chorar eu sei que é besteira

Mas meu amigo!

Não dá prá segurar..."


(versos da música vida passageira - IRA)



(Desenhado há cerca de 4 anos por um amigo que me "surpreendeu"...
às vezes as pistas são tão claras, mas parecemos não compreender...)

Valeu por todos os abraços, sorrisos e por todos momentos de alegria...
desculpe qualquer coisa... Sempre lembrarei das rodas de violão... dos shows...

Rock`n`roll can´t never die! (nem seus verdadeiros representantes...)


Crisálida


Evoluir num casulo chamado existência,
entre paredes, a verminosa carcaça se oprime.

sem luz, sem brilho, sem mundo, só esperança...

O bater de asas na vida futura...
________________compensará a dor da transmutação?

Talvez seja sina de todo grande homem;
não caber em um mundo tão pequeno;
se sentir sozinho num mundo tão grande...



Lutei luta que não devia;

Pelejei em batalha que não era minha;
Cansado, frustrado, até peço perdão;
Achei minha resposta... /não resolvi a questão\.
"A poesia e a política são demais para um só homem"
(Paulo Martins - personagem de Terra em Transe)

"Amamoas mais o desejo do que ser desejado" (Nietzsche)

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Sobre a nostálgica época em que, ao menos pra mim, amigos não se compravam...


Às vezes bate um tristeza e ai vem uma saudade...
Penso nos meus amigos. Penso naquela época em que tudo era ao menos um pouco mais simples. Não precisava estourar meu cartão de crédito pra me sentir bem entre as pessoas de quem gostava. Pouco importavam a camisa, a calça ou qualquer outro bem material, o que valia era o que se sentia, o que se fazia uns pelos outros. Éramos poucos, uma ilha, tinhamos problemas, discussões, mas estávamos unidos,.. erámos amigos. Independente do bolso vazio, da estética pobre, independente da hipocrisia e da mediocridade dos valores capitalistas, éramos amigos... O saudade!!!

O Fardo


Do dia que se esgotava, lhe restava apenas o fardo, o pesado fardo da reminiscência de cada encontro, de cada diálogo, de cada situação... O corpo estava exausto, a alma estava sombria. Naquela noite ao chegar em casa, só o que pedia era um pouco de descanso, deitou-se em sua cama, ainda desarrumada, tal como a deixara ao se levantar naquela manhã. Agitado e despedaçado emocionalmente, tentou refletir sobre sua condição. não chegou a lugar algum... Perderia o sono dentro de instantes. Estava cansado demais e a consciência não lhe permitiria adormecer, estava tenso, cada vez mais tenso... Abriu a mochila, tirou o caderno e pôs-se a escrever. Falou de seus sonhos, seus medos, criticou os amigos e depois chorou... Chorou sobre as folhas em que rabiscara seus sentimentos. Dentro de alguns minutos elas estariam, rasgadas ou amassadas, atiradas pelo chão do quarto. Mais uma vez tentou dormir, o sono não veio... veio na tristeza, acompanhada de raiva e de uma forte dor de cabeça.

(escrito na noite do dia 30 de maio)