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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A Hora Mais Escura

A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty) - 2012. Dirigido por Kathryn Bigelow. Escrito por Mark Boal. Trilha sonora original composta por Alexandre Desplat. Direção de Fotografia de Greig Fraser. Produzido por Kathryn Bigelow, Mark Boal e Megan Ellison. Columbia Pictures, Annapurna Pictures e First Light Production / USA.


Continuo acreditando que serão necessários, no futuro, um bom número de filmes revisionistas para desfazer a visão preconceituosa e reacionária da cineasta Kathryn Bigelow sobre a atuação dos Estados Unidos no oriente médio. O que ela fez em suas duas últimas obras pode ser facilmente confundido com uma propaganda ideológica encomendada pelo governo americano, tamanha a exaltação da atuação das tropas no Iraque e no Afeganistão, que, convenhamos, não está tão distante do terrorismo que elas dizem combater. Em A Hora mais Escura (2012) Bigelow chega ao ponto de tentar justificar a tortura contra prisioneiros de guerra, prática que constitui, ao meu ver, uma distorção de tudo aquilo que os americanos alegam defender. Tal como em Guerra ao Terror (2009), neste filme fica difícil separar a ideologia defendida dos demais aspectos, mas, mesmo considerando reprovável a forma absurdamente parcial com  que ele recria os eventos deste período histórico recente, tentarei avaliá-lo por aqueles que são seus melhores atributos. 

A Hora mais Escura retrata as atividades de uma equipe de elite do exército americano, a responsável pela  suposta captura e morte do terrorista Osama Bin Laden. Maya (Jessica Chastain) é uma agente da CIA que fora enviada para o oriente médio para interrogar prisioneiros de guerra. À princípio ela demonstra uma certa sensibilidade às práticas usadas para forçar os capturados a entregarem outros terroristas e a darem detalhes de suas operações, no entanto, com pouco tempo ela se adapta à esta realidade e se convence de que a tortura é o único meio de arrancar a verdade dos prisioneiros, que tentam permanecer fiéis às suas crenças até o limite do suportável. Em um dos interrogatórios surge uma pista frágil que pode levar à descoberta do paradeiro de Bin Laden e a agente se agarra à esta pista com todas suas forças. Contrariando orientações e sem se preocupar com o descrédito por parte de seus superiores, ela insiste em averiguar a fundo este que pode ser o seu grande achado, se mantendo firme no propósito de fazer o líder da al-Qaeda pagar pelo que fez ao seu país.


Durante todo o filme há a impressão de que a trama é imparcial e de que ela mostra aquilo que os Estados Unidos tentam esconder, mas não se enganem, até isso faz parte da estratégia e da propaganda ideológica feita pela produção, tudo o que vemos nela, inclusive as atrocidades, está previamente justificado (tenho que reconhecer a genialidade do roteiro neste aspecto, ainda que seja algo negativo em uma análise que vá além das questões cinematográficas). Na primeira sequência do filme, ouvimos uma conversa ao telefone que se dá entre uma atendente (aparentemente dos bombeiros) e uma mulher que estava em uma das torres do World Trade Center quando um dos aviões foi lançado contra ela, este diálogo choca e desperta a sensibilidade do espectador, preparando-o para a vingança que será iniciada e para a aceitação das práticas que logo serão retratadas. Olho por olho, dente por dente, esta é a ética à qual o filme recorre em sua cruzada em favor de uma pseudo-democracia e contra um terrorismo, que o governo americano encontraria facilmente em suas próprias práticas, caso deixasse de se ver como o juiz onipotente do mundo.


O filme busca despertar em seu público o mesmo sentimento de vingança que o move, para tal ele transforma qualquer árabe em um potencial terrorista e qualquer prisioneiro em um detentor de alguma verdade que se revelada pode impedir que um novo ataque aconteça. Em boa parte do desenrolar da trama, as cenas de tortura são intercaladas com outras que mostram atentados que realmente aconteceram, isto para nos lembrar que os terroristas (todos os muçulmanos de acordo com o que o filme dá a entender) são desumanos e por isso merecem ser tratados como tal. Os árabes são divididos pelo roteiro entre aqueles que optaram por colaborar com os soldados americanos (agindo como espiões e/ou delatores) e aqueles que merecem ser torturados e mortos por serem inimigos da democracia; não há meio termo. Já dentre os agentes e soldados que está a serviço do Tio Sam só existem heróis; dentre estes estão o torturador que brinca com macaquinhos nas horas vagas,  demonstrando sua sensibilidade; a agente, mãe de duas filhas, que demonstra sua coragem arriscando a própria vida em busca de informações e a personagem central, uma óbvia personificação daquele cidadão reacionário que teima em acreditar que matando um terrorista o mundo estará novamente à salvo e cada um de seus conflitos resolvidos... 


Não tenho dúvidas de que a Jessica Chastain seja a atriz certa para o papel (apesar de eu não gostar de vê-la em um filme defensor de uma ideologia tão condenável), ela consegue com uma destreza formidável nos convencer tanto da fragilidade quanto da força de sua personagem, ela está excelente tanto nos momentos em que sente repulsa, medo ou asco, quanto naqueles em que se impõe frente a pessoas mais fortes e poderosas que ela. A construção de sua personagem também está condizente com a proposta do filme, em sua fraqueza há uma grande potencialidade de identificação, afinal ela se considera uma vítima do terrorismo, sentimento que é compartilhado por inúmeras pessoas, principalmente nos Estados Unidos, e a força que ela demonstra ter em algumas passagens a transforma no tipo de herói que cada uma destas pessoas buscam. Este processo de identificação e admiração é crucial, pois é através dele que o filme transmitirá boa parte de sua carga ideológica. A intenção do roteiro é fazer com que cada espectador passe pelo mesmo processo de transformação vivido pela personagem, através do qual ela passa a aceitar as práticas condenáveis que o filme retrata. 


A Hora Mais Escura adota um tom quase documental em sua narrativa, estratégia muito bem utilizada para nos convencer do realismo daquilo que nos é mostrado, a naturalidade das imagens capturadas por uma câmera instável que tremula o tempo todo, atenua a tensão e reforça a ideia de que aquilo que estamos vendo não é tão somente um filme, mas uma reconstrução quase perfeita da realidade, algo próximo do que poderíamos ver em um tele-jornal, por exemplo. Tudo isso denota uma excelente qualidade técnica, mas é ao mesmo tempo algo perigoso, pois corremos o risco de tomarmos como real o que é apenas uma visão unilateral e tendenciosa dos fatos. Outros aspectos técnicos do filme também evidenciam o enorme cuidado que se teve com sua produção. Figurinos, enquadramentos, escolha das locações, direção de arte e a trilha sonora composta pelo sempre competente Alexandre Desplat, funcionam muito bem em favor da narrativa e daquilo a que ela se propõe. 


Tenho que reconhecer que A Hora Mais Escura não deixa a desejar em nenhum de seus aspectos técnicos e artísticos. Tento esquecer do quão reprovável é sua abordagem ideológica para apontá-lo como um dos melhores filmes da temporada (considero merecidas cada uma de suas indicações ao Oscar). Seu roteiro, apesar de toda a parcialidade, é muito bem escrito e a edição e a montagem dão a ele um ritmo frenético que não permite que ele se torne cansativo, mesmo sendo predominantemente um 'filme de gabinetes'. Apesar de tudo que mencionei no decorrer desta resenha, acho que ele merece ser assistido e principalmente debatido por todos, a minha recomendação é a de que ele deve ser visto com o senso crítico o mais aguçado possível, principalmente em relação às verdades que ele tenta nos vender. Recomendo (com as mesmas ressalvas com as quais recomendaria obras clássicas do D. W. Griffit e da Leni Riefenstahl)! 

 
A Hora Mais Escura ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz de Drama (Jessica Chastain) e está indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Atriz (Jessica Chastain), Roteiro Original, Montagem e Edição de Som.

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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra,

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

As Aventuras de Pi

As Aventuras de Pi (Life of Pi) - 2012. Dirigido por Ang Lee. Escrito por David Magee, baseado na obra de Yann Martel, que por sua vez teve como argumento o livro Max e os Felinos, do brasileiro Moacyr Scliar (não creditado). Trilha sonora original composta por Michael Brook. Direção de Fotografia de Andrew Dunn. Produzido por Ang Lee, Gil Netter e David Womark. Fox 2000 Pictures, Haishang Films e Rhythm and Hues / USA | Taiwan.


E se a fé for apenas uma ilusão, uma abstração capaz de dar algum sentido para nossas vidas e de tornar suportável uma existência cruel marcada por dores e perdas? - Este questionamento permanece em aberto no final de As Aventuras de Pi (2012), filme dirigido pelo taiwanês Ang Lee. Através de uma narrativa que flerta o tempo todo com o fantástico, o longa toca em questões seminais da humanidade, como a busca pelo contato com o divino e por respostas que expliquem o porquê do sofrimento que há no mundo. Sem se perder no panfletarismo religioso, nem na crítica à irracionalidade de algumas práticas, o roteiro ensaia uma interessante abordagem sobre a natureza da fé, uma fé que nasce não da interação com um deus, mas de uma manifestação humana, de um dom criativo que cada um carrega consigo, fé à qual Pi (Suraj Sharma), o personagem central do filme, recorre quando já não tem mais em quê se apegar. Este poderoso sentimento nasce no momento em que ele se vê obrigado a confrontar os seus próprios medos e as dores indissociáveis da existência, ameaças estas que são representadas de forma metafórica pelos animais, com os quais ele acabou tendo que conviver em um bote salva-vidas após um naufrágio. 

Pi, nascido Piscine Molitor Patel em homenagem ao 'monitor' de uma piscina francesa, era o caçula de dois irmãos, seu pai era o administrador de um zoológico em Pondicherry na India e ele cresceu em meio a animais de diversas espécies. Movido pela curiosidade típica da meninice, ele passa a buscar respostas para questionamentos acerca de sua própria vida e isso acaba o colocando em contato com as três maiores religiões do mundo atual. Seu primeiro flerte foi com o induísmo, que ele herdou da mãe, que mantinha um vínculo com a crença como forma de preservar a identidade legada por seus ancestrais, depois, através do contato com um padre, ele descobriu o cristianismo e ficou fascinado com o que lhe foi contado sobre Deus ter dado seu filho para morrer pelos pecados do mundo, por fim, ele conheceu o Islamismo, neste último caso, sua curiosidade foi despertada pelo som das palavras pronunciadas em árabe, ele acreditava que a sonoridade desta língua, que ele pouco conhecia, poderia colocá-lo mais próximo de Deus. Por mais estranho que isso possa parecer e por mais conflitantes que as crenças de cada uma dessas religiões sejam entre si, Pi conseguiu achar algum tipo de equilíbrio entre elas, o que permitiu que ele, ao seu modo, se mantivesse fiel aos ensinamentos das três.


Em uma das passagens, presente ainda no primeiro ato do filme, o pai de Pi, que é racionalista e vê com maus olhos a religiosidade do filho, o coloca diante de uma situação que abala sua fé, ele lhe obriga a ver um tigre estraçalhando um carneiro, isto para lhe alertar sobre os riscos de chegar perto da jaula do felino. Pela primeira vez, Pi, que ainda era um menino, se vê diante da dor e da injustiça que estão presentes no mundo. Ter presenciado aquela cena o deixou chocado e o levou a questionar a veracidade daquilo tudo em que até então acreditava. O tempo passa, Pi agora já é um jovem que está descobrindo o amor ao lado de uma bela dançarina, mas este romance dura relativamente pouco, pois as más condições financeiras fazem com que o seu pai decida deixar a Índia e mudar com toda a família para o Canadá, onde tem uma boa oferta de emprego. O patriarca decide fechar o zoológico e levar os animais de navio para serem vendidos no país para onde estão indo. 


Um desastre inexplicado faz com que o navio cargueiro onde viajavam naufrague naquela que é a parte mais funda do Pacífico, todos perecem, menos Pi, que sobrevive em um bote salva-vidas junto com uma zebra, um chimpanzé, uma hiena e um tigre, o mesmo que ele vira devorar o carneiro anos antes. Em pouco tempo os animais também morrem, devorados uns pelos outros, e sobram apenas o garoto e o tigre faminto, cujo nome é Richard Parker, devido à uma confusão feita pelos frequentadores do zoológico com o nome do homem que fora seu antigo dono. Perdido no mar à deriva, Pi sobrevive com os suprimentos guardados no interior da pequena embarcação, o maior perigo que ele precisa enfrentar não é a fúria do mar, os tubarões que estão sempre à espreita, ou a fome, mas sim  a presença do tigre, que ele teme mais do que qualquer outra coisa. Com o tempo, o jovem descobre que a presença do animal é o que o mantém vivo e desta percepção surge uma confiabilidade mútua entre eles...


Toda a história é relatada por Pi, já adulto, para um escritor canadense (um alter-ego de Yann Martel), este elemento narrativo substitui de forma eficiente a narração em off, no entanto prejudica o filme em alguns momentos, por revelar metáforas, cuja interpretação deveria ficar a cargo de cada espectador. A montagem dá ao filme um ritmo ágil, que flui com relativa facilidade mesmo nas passagens que retratam o isolamento do personagem no mar, é interessante perceber que neste estágio da história os flashforward que mostram os diálogos do protagonista com o escritor diminuem, reforçando assim a sensação de isolamento e despertando ainda mais a curiosidade em relação ao desfecho, uma vez que Pi garante ao seu interlocutor que sua jornada seria capaz de fazer qualquer um se render à fé e acreditar na existência de Deus... Vivenciar através de um mergulho na obra cinematográfica a experiência que ele viveu é fundamental para que possamos compreender, assim como o romancista, aquilo que ele defende ao terminar de contar sua história e compartilhar com ele a sensação de isolamento e de desamparo é crucial para que isso aconteça.


Suraj Sharma está muito bem no filme, sua figura e trejeitos reforçam características marcantes de seu personagem, como a ingenuidade e até um certo tom de infantilidade, que vem à tona principalmente nos momentos em que ele comemora suas pequenas vitórias no mar. Não é uma atuação grandiosa, mas está condizente com aquilo que a trama lhe pede. O elenco secundário, no qual incluo todos os demais atores com participação significativa no filme, também entregam aquilo que a narrativa lhe pede, demonstrando desempenhos também proporcionais à importância de seus respectivos personagens na história. A direção de Ang Lee é, ao meu ver, o fator determinante para que o filme não seja uma simples aventura, o cineasta, juntamente com o roteirista David Magee, busca enfatizar a reflexão acerca da fé, que se torna a essência do filme e o elemento capaz de destacá-lo em meio a tantas obras vazias de significação. 


Eu, que não sou um grande entusiasta do 3D, lamento não ter tido a oportunidade de ver As Aventuras de Pi neste formato, mas independente disso, posso afirmar que o que ele proporciona com sua excelente qualidade técnica é um verdadeiro espetáculo visual. Sua fotografia, direção de arte e efeitos visuais são irrepreensíveis e irretocáveis. A beleza estética que pode ser percebida desde as primeiras sequências é um deleite para os olhos de qualquer cinéfilo e a recriação de toda uma realidade, inclusive os animais, através da computação gráfica é sublime, em nenhum momento a técnica usada deixa brechas para dúvidas acerca do realismo daquilo que vemos na tela, prova disso é a construção do tigre Richard Parker, que eu facilmente acreditaria ser real caso já não soubesse que ele também foi recriado digitalmente na maioria das cenas. 


As Aventuras de Pi não é a mais notável obra de Ang Lee, nem o melhor dentre os filmes que ganharam destaque e prestígio nesta temporada de premiações, todavia é uma obra capaz de nos proporcionar reflexões interessantes que podem em certa medida afetar a forma com que enxergamos nossas próprias crenças e a das pessoas que nos cercam... Ainda que a reflexão sobre a fé não tenha tanto valor para alguns, principalmente por se tratar de um tema que equivocadamente 'não se discute', o filme merece ser visto, pois mesmo depois de subtraída toda a sua essência, sobra uma ótima história de aventura e o já citado espetáculo visual que ele proporciona! Recomendo!  


As Aventuras de Pi ganhou o Globo de Ouro de Melhor Trilha Sonora e está indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Diretor, Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Canção Original, Efeitos Visuais, Fotografia, Direção de Arte, Montagem, Edição de Som e Mixagem de Som.

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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra,

Vencedores do BAFTA 2013


Aconteceu ontem a cerimônia de entrega do BAFTA, premiação promovida pela Academia Britânica de Artes da Televisão e do Cinema. O prêmio é considerado o Oscar britânico.


Confiram abaixo a relação dos Vencedores nas principais categorias:

Melhor Filme

Melhor Diretor
Ben Affleck - Argo

Melhor Ator
Daniel Day-Lewis -  Lincoln

Melhor Atriz
Emmanuellle Riva - Amour

Melhor Ator Coadjuvante
Christoph Waltz - Django Livre

Melhor Atriz Coadjuvante
Anne Hathaway - Os Miseráveis

Melhor Filme Britânico

Melhor Filme Britânico de Estreia de um Roteirista, Diretor ou Produtor
The Imposter - Bart Layton (diretor), Dimitri Doganis (produtor)

Melhor Filme em Língua Não-Inglesa
Amour (Áustria)

Melhor Longa Animado
Valente

Melhor Roteiro Original
Quentin Tarantino -  Django Livre

Melhor Roteiro Adaptado
David O. Russell - O Lado Bom da Vida

Melhor Trilha Sonora Original
Thomas Newman - 007 - Operação Skyfall

Melhor Fotografia

Melhor Edição

Melhor Design de Produção

Melhor Figurino
Anna Karenina

Melhor Som

Melhores Efeitos Visuais

Melhor Maquiagem

Melhor Curta Animado
The Making of Longbird

Melhor Curta
Swimmer

Melhor Atriz/Ator em Ascensão
Juno Temple

Melhor Documentário
Searching for Sugar Man

sábado, 9 de fevereiro de 2013

O Voo

O Voo (Flight) - 2012. Dirigido por Robert Zemeckis. Escrito por John Gatins. Trilha sonora original composta por Alan Silvestri. Direção de Fotografia de Don Burgess. Produzido por Robert Zemeckis,  Laurie MacDonald, Walter F. Parkes, Jack Rapke e Steve Starkey. ImageMovers, Paramount Pictures e Parkes/MacDonald Productions / USA.


Whip Whitaker (Deznel Washington) se tornou um herói depois de conseguir pousar um avião em condições totalmente adversas, haviam 102 pessoas a bordo (97 passageiros e 5 tripulantes), seis morreram, um número relativamente baixo, pois se não fosse pela manobra arriscada feita por ele, provavelmente ninguém teria sobrevivido. O que se disse após o acidente é que nenhum outro piloto teria conseguido fazer o que ele fez, no entanto, a aclamação durou pouco tempo, pois o exame toxicológico realizado com todos os membros da tripulação apontou que Whip tinha uma alta concentração de álcool em sua corrente sanguínea. Ele, que tinha passado a noite com Nicole (Kelly Reilly), uma das comissárias de bordo, tinha bebido muito e dormido pouco. Pela manhã, ao acordar, ele ainda usou cocaína para esconder os efeitos da forte ressaca, que quase o impediu de levantar da cama. Da noite para o dia ele deixa de ser o 'herói americano' para se tornar um suspeito de assassinato, que corre o risco de ser condenado à prisão perpétua. 

Charlie Anderson (Bruce Greenwood), representante do Sindicato dos Pilotos, oferece apoio e assessoria jurídica para Whip, cuja imagem de herói é desfeita à medida que revelações acerca do seu estado psicológico durante o voo vêm à tona, alimentando assim o sensacionalismo midiático. Hugh Lang (Don Cheadle), o advogado contratado para trabalhar no caso, teme que o próprio piloto estrague tudo com seu comportamento autodestrutivo. Whip tenta se esquivar das acusações, porém, à medida que a trama se desenrola sua situação vai se complicando ainda mais, deixando evidente aquele que é o seu maior problema, o alcoolismo. Ele, que é completamente dependente da bebida, não consegue se manter longe dela e isso deixa sua imagem ainda mais fragilizada, colocando em risco não só sua integridade profissional, mas todos os seus relacionamentos...


O Voo (2012) marca a volta de Robert Zemeckis ao formato live action depois de mais de uma década trabalhando com a captura de movimento (motion capture), este definitivamente não é um de seus melhores trabalhos, mas também não é um filme ruim, longe disso, o ritmo de desenvolvimento da sua trama é bom, as cenas que retratam o acidente aéreo são excelentes e  o trabalho de composição da mise-en-scène é ótimo, através dele o filme busca dar o devido destaque para objetos cênicos, que ajudam a construir a percepção sobre os eventos retratados, preste atenção na forma com que os enquadramentos valorizam cada ambiente, reforçando assim a ideia de que eles são extensões do estado psicológico do protagonista. A presença de garrafas e latas de bebidas, por exemplo, reforçam a ideia de que a dependência não é uma coisa nova na vida no piloto e pequenos detalhes nos remetem àquilo que ele busca como forma de redenção: seu próprio passado e a figura do pai, que também fora aviador.


As atuações constituem um outro ponto alto do filme,  Denzel Washington está realmente muito bem, sua indicação ao Oscar foi justa, a forma com que ele constrói seu personagem está de acordo com a proposta do roteiro de humanizá-lo, não retratando-o como vilão ou herói. Mesmo nos momentos em que questionamos sua suposta inocência, não conseguimos lançar sobre ele um veredito condenatório, tamanha sua dubiedade. A força da atuação de Washington fica ainda mais evidente nos momentos de fraqueza de seu personagem, ele expressa muito bem a angústia que o piloto experimenta ao se ver pressionado e a decadência moral provocada pelo vício que ele não consegue controlar... Destaco ainda as interpretações de John Goodman, que faz um traficante de drogas, de Kelly Reilly, que vive uma junkie e a de Don Cheadle, como o já citado advogado do caso. Ao meu ver, o desempenho de cada um deles contou muito para o resultado final do filme, amenizando o efeito de alguns problemas que despontam em seu último ato. 


O roteiro peca ao tentar dar à história um desfecho moralista calcado na redenção do personagem, recorrendo para tanto a clichês que chegam a comprometer o impacto provocado até então pelo realismo angustiante de sua decadência. A trama também peca por não dar o devido destaque para alguns dos personagens secundários, deixando dúvidas acerca da importância deles para a narrativa, dentre estes não tão bem explorados está a jovem vivida pela Kelly Reilly, que desaparece da trama antes de ter mostrado a que veio. Outro problema surge com a percepção de que Whip é o único personagem detentor de alguma profundidade, sendo os demais apenas coadjuvantes, cujas personalidades frágeis são delineadas apenas pela suas respectivas interações com o protagonista, em alguns momentos suas atitudes pareçam ser contraditórias, denotando uma má construção ou furos na narrativa...


O Voo é um bom filme, não tenho dúvidas disso, contudo, seus pequenos tropeços o impedem de se tornar memorável, infelizmente seu último ato coloca muita coisa a perder, inclusive as reflexões que poderiam surgir da abordagem do alcoolismo e do drama relacionado a ele. Se Robert Zemeckis e John Gatins tivessem conseguido tocar neste tema, que continua sendo difícil de ser retratado e assimilado, sem a influência pedante dos moralismos o filme tinha tudo para estar em minha lista pessoal dos melhores do ano, uma pena que não tenha sido desta forma. Contudo, recomendo! 


O Voo está indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Ator (Deznel Washington) e Roteiro Original. 

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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

As Vantagens de Ser Invisível

As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower) - 2012. Escrito e dirigido por Stephen Chbosky, baseado em seu próprio livro. Trilha sonora original composta por Michael Brook. Direção de Fotografia de Andrew Dunn. Produzido por John Malkovich, Lianne Halfon e Russell Smith. Summit Entertainment e Mr. Mudd / USA.



O amadurecimento, a busca por liberdade, as primeiras frustrações, a inconsequência, o amor, as aventuras... A adolescência talvez seja o período mais árduo e ao menos tempo fascinante de nossas vidas, afinal é durante ela que começamos a fazer uma leitura própria do mundo, deixando para trás, através da confrontação, parte da bagagem que nos tinha sido legada pela família e demais instituições durante a infância. É uma fase difícil também por ser um tempo de transição, afinal quando adentramos nela já não somos mais crianças, mas também ainda não somos adultos e desta deslocação etária surgem inúmeros conflitos, que podem determinar quem de fato seremos ao alcançarmos a maturidade. Contudo, acredito que ela também seja a fase mais intensa de toda nossa existência, pois nela acontecem boa parte das descobertas, que vão daquelas relativas à sexualidade às inerentes à busca pela liberdade e pelo sublime, encontrado na arte por alguns e no hedonismo ou nas experimentações por outros... Poucas vezes o cinema conseguiu retratar esta etapa tão conturbada da vida como em As Vantagens de ser Invisível (2012), filme que me proporcionou uma das melhores experiências cinematográficas deste início de ano. 

Ao contrário do que pode parecer à primeira vista, As Vantagens de ser Invisível, apesar de ser um filme sobre a adolescência, não é um filme 'adolescente', sua  trama atinge um nível de profundidade poucas vezes visto em um longa que consegue ser ao mesmo tempo leve, divertido e comovente. Ele discorre sobre temas que já foram abordados inúmeras vezes em outras produções, como o isolamento social, o bullying e a descoberta do amor, porém seu roteiro, que é muito bem escrito, vai muito além do que boa parte das outras obras já foram. Ao partir da visão de um garoto que acaba de entrar no ensino médio e não consegue se relacionar com os novos colegas, a história aponta fatores sociais, educacionais e familiares que podem reforçar ou amenizar a dor provocada pela invisibilidade social. O roteiro ainda passeia por temas espinhentos, que não são exclusivos da adolescência, dentre eles a rejeição, a homofobia, o abuso sexual, a violência familiar, as drogas e a depressão, isso, sem precisar recorrer a lugares comuns e moralismos baratos.


Charlie (Logan Lerman), o personagem central do longa, é um garoto tímido de 15 anos que acaba de entrar no colegial, ele é inteligente, mas possui alguns problemas psicológicos que dificultam sua interação com os outros adolescentes. Ele passara todo o verão recluso, sem ter contato com outras pessoas além de seus familiares e a solidão fez com que ele se refugiasse nos livros e em suas próprias criações literárias. Devido à sua dificuldade de se relacionar, a volta às aulas se torna um verdadeiro desafio, ele teme não ser aceito em nenhum dos grupos. No colégio ele se torna vítima dos veteranos, que o perseguem, mas não demora muito e ele encontra um lugar junto aos outros "invisíveis". Ele faz amizade com Patrick (Ezra Miller), um garoto gay que mantém um relacionamento secreto um dos jogadores do time de futebol da escola. Patrick apresenta sua 'meia-irmã' para Charlie e este logo se apaixona, o nome dela é Sam (Emma Watson) e ela também luta contra seus próprios fantasmas, sua infância conturbada gerou reflexos negativos em sua adolescência e agora ela tenta achar um novo caminho, no entanto, por ser ingênua ela persiste em erros que podem colocar tudo a perder. 



Dr. Burton (Paul Rudd), o novo professor de literatura americana, se torna uma referência para Charlie, passando deste modo a ocupar um importante lugar, ocupado até então somente pela problemática Helen (Melanie Lynskey), tia dele, a quem ele vê, desde a infância, como uma verdadeira heroína. A interação com os novos amigos e com o novo professor conduz Charlie a um processo de autoconhecimento e amadurecimento, que ele jamais imaginou que fosse vivenciar. Na verdade, todos os personagens passam pelo mesmo processo, todos eles amadurecem no decorrer do período retratado e isto acontece porque em diversos momentos eles se veem obrigados a tomarem atitudes que requerem determinação e muita coragem... Em uma das cenas mais belas e memoráveis do longa Charlie redescobre como é se sentir vivo, com uma construção estética relativamente simples, o filme sintetiza nesta passagem tudo aquilo sobre o que a sua trama discorre, que resumindo, trata-se da alegria e da dor de se descobrir em um mundo novo, que pode ser cruel e bastante hostil para alguns...



Não tenho dúvidas de que os aspectos que mais chamam a atenção no filme são a trama e a forma com que ela é contada, o que me leva a crer que o fato de ele ter sido escrito e dirigido pelo autor do livro que lhe deu origem contou muito para seu excelente resultado. A história contada por ele e sua relativa profundidade dramática são sustentadas pelas ótimas atuações do elenco central, Logan Lerman e Emma Watson me surpreenderam muito, ele consegue dar consistência e veracidade a um personagem psicologicamente complexo, que é difícil de ser interpretado (diferenças à parte, acho que sua atuação é muito superior à do injustamente laureado Bradley Cooper, que também deu vida a um personagem psicologicamente complexo em O Lado Bom da Vida); já a Watson se despe por completo de sua personagem mais memorável (a Hermione Granger da Franquia de Harry Potter) e entrega uma atuação digna dos mais sinceros elogios - prestem atenção na forma com que ela expressa os diversos sentimentos experimentados pela sua personagem, como a raiva, a frustração, a melancolia, na maior parte das vezes sem precisar dizer uma só palavra sobre como se sente...



Ezra Miller, de quem eu já esperava muito, pelo talento demonstrado por ele em Precisamos Falar Sobre Kevin (2011), dá um verdadeiro show de atuação, mesmo seu personagem sendo um tanto caricato, ele consegue explorar nele diversas camadas, cuja existência é justificada pelos sentimentos que ele (o personagem) se vê obrigado a esconder. Na maior parte das cenas, Miller rouba as atenções para si, seu Patrick é fascinante, ele personifica todo o prazer das descobertas da juventude. Nas passagens mais dramáticas ele consegue nos convencer de que seu personagem é plausivelmente real e que o drama vivido por ele precisa ser levado a sério. O restante do elenco também entrega atuações boas, desempenhos condizentes com a importância que cada um dos seus personagens têm na trama, na verdade isso também merece ser destacado, Stephen Chbosky explora muito bem cada um deles, trabalhando suas motivações pessoais e respectivas personalidades, criando assim paralelos entre um e outro em diversas passagens. 



Em relação aos aspectos técnicos, As Vantagens de ser Invisível chama a atenção pela eficiência que extrai da simplicidade; em sua fotografia, direção de arte, figurinos não há nada de tão extraordinário e é justamente por isso que tudo aparenta ser tão natural, real até, a sobriedade estética ajuda a manter o foco na trama, que neste caso é o essencial. Algo interessante é que o roteiro aponta a música como um dos elementos capazes de colocar os garotos em contato com o sublime, ela representa a descoberta do novo, a expressão dos sentimentos e, numa análise mais profunda, ela seria o fator capaz de dar aos personagens o sentimento de pertencimento, não é por acaso que Charlie e Sam descobre a afinidade que têm através do gosto compartilhado pela banda inglesa The Smiths. Esta importância que a música tem para a narrativa se reflete na qualidade da trilha sonora, que é composta por excelentes canções de bandas e artistas como The Smiths, Sonic Youth, Pavement, New Order, Joey Ramone e David Bowie, cuja clássica "Heroes" toca em dois momentos essenciais da trama...



É praticamente impossível assistir As Vantagens de ser Invisível sem embarcar em uma nostálgica viagem de volta para a nossa própria adolescência, isso é maravilhoso, mas ele nos oferece ainda mais, mesmo sem ser um filme complexo ou pretensioso ele consegue nos levar a reflexões necessárias acerca de cada um dos temas que aborda e este é sem sombra de dúvidas um de seus grandes diferenciais. Rendo aplausos de pé para Stephen Chbosky e sua pequena obra-prima! Ultra recomendado!!!


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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

A Viagem

A Viagem (Cloud Atlas) - 2012. Escrito e dirigido por Tom Tykwer, Andy Wachowski e Lana Wachowski, baseado no romance de David Mitchell. Trilha sonora original composta por Reinhold Heil, Johnny Klimek e Tom Tykwer. Direção de Fotografia de Frank Griebe e John Toll. Produzido por Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski, Stefan Arndt e Grant Hill. Cloud Atlas Productions, X-Filme Creative Pool, Anarchos Pictures, Ascension Pictures, Five Drops e Media Asia Group / USA | Alemanha | Singapura | Hong Kong.



A premissa da história contada por A Viagem (2012) é interessante, sua trama percorre épocas diferentes, retratando vários personagens e as consequências de suas interações, o roteiro tenta mostrar que de alguma forma todas as vidas estão ligadas no tempo e que algo feito no passado, ainda que em uma época remota, pode gerar efeitos através da repetição tanto no presente quanto no futuro. Ao contrário do que se tem dito, este não é um filme baseado na teologia espírita ou em qualquer outra que defenda a existência da reencarnação, o mito em torno do qual a trama gira não é o da existência de vidas passadas, mas o do eterno retorno, segundo o qual estaríamos condenados a repetir para sempre nossos próprios erros e acertos. A diferença é que no filme, o eterno retorno não é um fardo carregado pelos indivíduos, como apontado na teoria original, ele seria um carma de toda a humanidade e sendo assim os mesmos eventos continuariam a se repetir infinitamente mesmo após a morte daquele que o teria vivenciado em algum ponto da história. 

Porém, de acordo com roteiro, existem momentos em que este ciclo de repetição é quebrado, isto acontece quando indivíduos decidem romper com o determinismo de suas vidas e se aventurar em mundos que lhe são desconhecidos ou não tão familiares. O medo então insurge como o maior vilão da história, o amor como o fator de transformação e a criação artística (a música, a literatura e o cinema) como uma forma superior de transmissão, de  uma geração para outra, daquilo que é capaz de mover as pessoas que conseguiram subverter algo que já estava pré-determinado em suas existências. Não é atoa que em uma dada passagem  uma canção soe familiar para uma personagem que nunca tinham a ouvido antes, isto, que muitos confundiram com um indício da existência de vidas passadas, é na verdade uma constatação de que, ainda que vivendo em épocas distintas, pessoas diferentes podem ter um mesmo tipo de percepção ou reação diante de eventos semelhantes e estas sensações, quando expressadas através da arte podem proporcionar a identificação e através dela o autoconhecimento...


A narrativa que vai e volta no tempo a todo momento retrata seis épocas distintas, na primeira sub-trama, que se passa em 1849, um jovem advogado (Jim Sturges) confronta questões morais de seu tempo, diante das quais ele se vê compelido a tentar intervir em sua própria realidade, ele acolhe secretamente um escravo foragido (David Gyasi) no navio em que estava viajando, mesmo estando ciente das consequência que este ato poderia acarretar. Em 1936, um jovem músico bissexual (Ben Whishaw) se torna copista de um renomado maestro (Jim Broadbent), que está compondo sua obra-prima, o Sexteto de Cloud Atlas. Em 1973, uma jornalista (Luisa Rey) descobre, com a ajuda de um físico nuclear (James D'Arcy), um esquema para beneficiar empresas petrolíferas, que envolve um reator atômico e a ameaça de um provável desastre. Em 2012, um editor de livros (Jim Broadbent), que enfrenta sérios problemas financeiros, pede a ajuda do irmão (Hugh Grant) e este o interna contra sua vontade em uma casa de repouso para idosos. 


Em 2144, uma jovem que trabalha em uma rede de fast-food (Doona Bae) começa a ter noção de sua própria realidade após ter sua visão de mundo ampliada com a ajuda de um jovem revolucionário (Jim Sturgess), que arquiteta um golpe contra o governo junto com outros dissidentes. Na última época retratada, cujo ano só é revelado num ponto mais avançado da narrativa, um homem (Tom Hanks) vive uma vida  primitiva ao lado de sua família em uma aldeia, porém a chegada de uma viajante (Halle Berry), que parece vinda de outra época, transforma a noção que ele tem acerca do mundo à sua volta. A estranha salva a vida da sobrinha do aldeão, que estivera à beira da morte, e em troca ela pede que ele a conduza até o topo de uma montanha, um lugar sagrado para o povo daquele vilarejo... Todas estas tramas estão interligadas de alguma forma, porém, diferente do que muitos têm dito o roteiro não é complexo (o tema que ele aborda sim), é possível compreender com relativa facilidade cada uma das histórias, que chegam a parecer superficiais em determinados momentos por serem tão simplicistas. 


Todo o elenco principal de A Viagem interpreta mais de um personagem, por um lado isso chega a ser algo interessante, pois vemos o bom desempenho alcançado pelo atores e atrizes ao darem vida em um mesmo filme a pessoas diferentes, cada uma delas detentoras de personalidades e trejeitos próprios. Por outro lado, percebo este como um fator negativo, pois trata-se de um elemento que pouco contribui com a narrativa, uma vez que o paralelo criado entre as épocas retratadas não tem relação precisa com este aspecto, tal situação tem levado uma significativa parcela do público e da crítica a perder um tempo precioso durante a longa duração do filme tentando encontrar semelhanças e significados ocultos na comparação entre personagens vividos por um mesmo ator, como se este fosse o único indício de que as vidas deles estão interligadas. Ao assisti-lo, tome cuidado para não fazer o mesmo. 


Como eu disse, a abordagem do mito do eterno retorno constitui em si uma premissa interessante, no entanto o filme peca em alguns pontos ao defendê-la, um deles é na forma com que o seu roteiro amarra todas as histórias em seu desfecho, deixando claro qual é o elemento capaz de motivar a subversão do pré-determinismo, isso restringe a margem aberta para interpretações subjetivas, o que acaba sendo algo prejudicial em uma obra que tem pretensões artísticas tão ousadas. Dentre os pontos positivos, destaco a excelente montagem, que confere ao longa uma fluidez incrível e um ritmo que não é afetado pelas constantes idas e vindas no tempo. A fotografia e os efeitos visuais também merecem ser lembrados, eles dão ao filme uma estética que colabora com a narrativa e com construção de cada uma das épocas retratadas. A maquiagem é, dentre os aspectos técnicos, o mais irregular, em alguns momentos ela denota um grande cuidado e uma habilidade incrível, enquanto em outros ela deixa a desejar e isso acontece quando são cometidos exageros que ao meu ver foram totalmente desnecessários e facilmente evitáveis.


Os irmãos Wachowski assumem a direção em algumas das sub-tramas e Tom Tykwer nas outras, a diferença entre seus respectivos estilos pode ser notada naquilo que cada um deles escolhe destacar e na forma diferenciada com que conduzem a narrativa em cada um dos tempos diegéticos. Apesar de entregarem um trabalho satisfatório, que deixa evidente diversos elementos autorais, os cineastas merecem ser reconhecidos é pela ousadia de adaptar uma obra que fora considerada inadaptável. O agradecimento à Natalie Portman, presente nos créditos finais do filme, é justo, afinal foi ela quem  apresentou o livro de David Mitchell para os Wachowski durante as filmagens de V de Vingança (2006) e os convenceu de que adaptá-lo seria possível... 

Eu não incluiria A Viagem em minha lista pessoal dos melhores de 2012, mas reconheço que trata-se de uma obra que merece no mínimo ser conferida, de preferência sem grandes expectativas, com uma boa disposição para reflexão e sem a ideia errônea de que se trata de um filme sobre preceitos religiosos, pois isso definitivamente ele não é. Recomendo! 


Assistam ao trailer de A Viagem no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.