sábado, 3 de setembro de 2011

4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias

4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (4 Luni, 3 Saptamani si 2 Zile) - 2007. Escrito e dirigido por Cristian Mungiu. Direção de Fotografia de Oleg Mutu. Produzido por Cristian Mungiu e Oleg Mutu. Mobra Films. / Romênia.

 

É quase impossível tocar em um tema tão polêmico como o aborto, sem fomentar discussões acaloradas e radicalismos. Mesmo sendo tão difícil, o cinema realizou esta façanha em pelo menos duas ocasiões. A primeira foi com O Segredo de Vera Drake (2004), de Mike Leigh, este excelente filme abre espaço para questionamentos profundos sobre esta prática e consegue colocar pulgas atrás das orelhas, mesmo daqueles que já têm uma opinião consolidada sobre o tema, como é o meu caso, sem com isso parecer panfletário ou unilateralista. 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (2007) foi outro longa que construiu sua trama sobre o tema, sem precisar ser taxativo ou defender posições radicais, neste filme o aborto ganha um significado maior, ao ser o fato social tomado como objeto de uma analogia com os tempos da ditadura comunista na Romênia. 

O filme é ambientado no final da década de 80, ocasião em que a Romênia ainda estava sob o governo ditatorial de Nicolae Ceauşescu, a história tem seu foco direcionado para a vida de Otilia Mihartescu (Anamaria Marinca) e Gabriela Dragut (Laura Vasiliu), duas jovens universitárias com vinte e poucos anos que dividem um quarto em um alojamento estudantil em Bucareste. O drama, seco e amargo, característico do filme, permeia a obra da primeira a última cena. Já nas primeiras sequências descobrimos que Gabriela está grávida e que ela não pretende ter a criança, ela decide então fazer um aborto, procedimento ilegal no país desde os anos 60. Pode parecer estranho que um país comunista, que estaria livre de dogmatismos religiosos, pudesse condenar o aborto, mas isso acontece não motivado por uma crença ou pela justa defesa da vida, mas sim porque o estado acreditava que investir em altos índices de natalidade pudesse ser bom para o futuro do país.

 

A gravidez de Gabriela, conforme o título do filme sugere [em uma alusão brilhante à uma contagem regressiva], já tinha passado do quarto mês, o que classificaria o ato abortivo como homicídio e não apenas como delito contra o estado. Se, como é mostrado no filme, na Romênia era difícil comprar até cigarros, anticoncepcionais e sabonetes, produtos adquiridos apenas através do contrabando, imagina então o quão difícil poderia ser fazer um aborto. Através da indicação de amigas, as duas garotas descobrem como contactar pessoas que realizavam o procedimento. Após juntar uma modesta quantia em dinheiro as duas jovens entram em contato com Bebe (Vlad Ivanov), um profissional clandestino que induzia o aborto, introduzindo uma sonda no útero da paciente. O que Otilia não sabia é que o preço que pagaria pela decisão de ajudar a amiga a interromper a gestação seria muito mais alto do que imaginava e que em algum momento as coisas poderiam sair de seu controle.

 

O filme não deixa de ser uma crítica à sociedade Romênia e aos seus costumes. Ao partir exclusivamente da visão de Otilia, a angulação aponta a fraqueza, a falta de atitude e a ingenuidade de Gabriela, que numa analogia mais ousada, pode ser comparada à situação angustiante da população do país, que temia o confronto com os costumes impostos, vivendo numa condição de hipocrisia e conformismo. Este olhar pessimista e evasivo de alguém que não consegue se adaptar ao meio, fica ainda mais evidente em uma sequência que mostra um jantar em família, no qual vêm à tona o preconceito e o moralismo cego daquela sociedade. Mais uma vez é o olhar de Otila que pontua e personifica tudo aquilo que o filme está querendo transmitir. É então que percebemos que o aborto em si é um tema quase secundário na trama, tal como fora em O Segredo de Vera Drake...

 

Algo curioso é que durante quase o todo o filme, o plano usado na captura das imagens mostra apenas o campo de visão suficiente para se enxergar um personagem à meia altura. Na verdade, na maioria das cenas os personagens estão sentados dialogando, ou observando algo, o que nos leva a crer que tais conversações e ponderações são muito mais importantes que as pessoas em si, é como se fossemos convidados o observá-las apenas quando elas estão nestas circunstâncias, pois ao saírem delas, ao ficarem ficarem de pé, eles são cortados pelo plano de filmagem, como se estivessem sendo descartadas. Outra interpretação possível seria a de que isto se deva ao fato de o filme transitar por situações consideradas subversivas, ou abaixo da linha do que se tem convencionado como “normal” pela moral vigente.

 

Os atores principais estão muito bem e os diálogos são muito bem escritos, preste atenção nos diálogos da sequência que se passa em uma quarto de hotel e na já citada cena do jantar em família. A câmera instável que persegue uma das personagens na maior parte do longa atenua a tensão que vai se desenvolvendo e nos envolvendo no decorrer do filme. O final, que obviamente não pretendo contar aqui, é do tipo mais simples possível, porém é também de uma força tamanha, é daqueles que nos induz a uma reflexão acerca da tema abordado, que poderá nos acompanhar por dias... Sem dúvidas é uma grande obra, forte pela sua temática e pelas reflexões que alimenta. Recomendo!


4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias ganhou a Palma de Ouro, prêmio máximo do Festival de Cannes. O filme foi indicado também ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Assista ao trailer de 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias no You Tube, clique AQUI !

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2 comentários:

  1. olá, gostaria de convidá-lo a participar de nosso grupo de blogs. Li um texto seu sobre o filme Sindicato dos Ladroes, e gostaria de tê-lo em nosso grupo. Aguardo uma resposta via email ou comentarios charchaplin@hotmail.com
    http://blogsdecinemaclassico.blogspot.com/

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