domingo, 11 de setembro de 2011

Guerra ao Terror

Guerra ao Terror (The Hurt Locker) - 2009. Dirigido por Kathryn Bigelow. Escrito por Mark Boal. Direção de Fotografia de Barry Ackroyd. Música Original de Marco Beltrami e Buck Sanders. Produzido por Kathryn Bigelow, Mark Boal, Nicolas Chartier e Greg Shapiro. Voltage Pictures. / USA.

 

Em quantas vezes o número de civis mortos na “guerra contra o terror” já superou o de vítimas do atentado de 11 de setembro? Esta reflexão é daquele tipo que raramente somos induzidos a fazer, afinal a grande mídia não fala disso. Hoje, dez anos após os atentados de 11 de Setembro, me pergunto se a ação “vingativa “ encabeçada pelos Estados Unidos tornou o mundo melhor e mais seguro, ou se apenas fez derramar mais sangue inocente. A proposta de combater o terrorismo com o terrorismo, como já era de se esperar, não funcionou. Saddam Hussein foi executado e Osama Bim Ladem foi supostamente morto, no entanto tais ações por si só não conseguem justificar uma guerra que assolou dois países e já deixou um incontável número de vítimas. Vítimas estas que não serão lembradas e nem terão memoriais construídos em sua homenagem. Os ataques em 2001 nos deixou perplexos e chocados, no entanto o curioso é a guerra em si não foi capaz de nos provocar o mesmo tipo de reação, é como se concordássemos e achássemos normal a barbárie do conflito, apenas pelo fato de ele estar geograficamente, culturalmente e midiaticamente distante de nós.

Pode parecer uma afirmação dura, mas o 11 de Setembro foi no mínimo conveniente para os interesses americanos. Já naquela ocasião os Estados Unidos já apresentavam indícios de que sua hegemonia econômica estava abalada. A invasão no oriente médio, além de dar ao Tio San o controle das reservas de petróleo da região, ainda reafirmariam seu poderio militar. Os atentados tinham despertado no povo americano uma sede de vingança e uma repulsa contra o mundo árabe e tudo o que ele representava. O apoio popular era o que o governo Bush precisava para tomar a iniciativa de atacar militarmente a região. A caça à Al-Qaeda justificou a invasão ao Afeganistão e pouco tempo depois a busca por armamentos de destruição em massa (que nunca foram encontrados) motivou o ataque ao país vizinho, o Iraque. Guerra ao Terror (2009) exemplifica claramente o tipo de sentimento que motivou e que tem mantido as tropas americanas no oriente médio.

 

O filme, dirigido por Kathryn Bigelow, se passa no Iraque e mostra a realidade de uma equipe do exército americano responsável pelo desarmamento de bombas. Em uma ação mostrada na primeira sequência do filme, o Sargento Matt Thompson (Guy Pearce) tenta neutralizar uma bomba, mas antes que ele consiga, ela é detonada remotamente por um homem que saia de um prédio vizinho. O militar é fatalmente ferido na explosão e para ocupar o seu posto é escalado o Sargento William James (Jeremy Renner), que já havia combatido também no Afeganistão. James tem um jeito próprio de trabalhar e não respeita as normas do trabalho em equipe, isto gera um atrito entre ele e o Sargento JT Sanborn (Anthony Mackie), que segue à risca o “protocolo”. A trama se desenvolve em torno do relacionamento entre os militares e das situações extremas que eles enfrentam. Faltam poucos dias até a data em que ocorrerá um rodízio na equipe, que culminará na dispensa de seus atuais membros. Cada um dos membros aguarda ansioso pelo dia da volta para casa e nenhum deles consegue esconder o medo da morte, que os ronda o tempo todo.

 

Apesar de acreditar que Guerra ao Terror não deveria nem ter figurado na lista dos indicados ao Oscar de Melhor Filme em 2010, penso que seja injusto afirmar que o filme é de todo ruim. As atuações são legais, a montagem é muito bem feita e ele chega a ter momentos de pura tensão, que compensam as duas horas diante da tela. O ponto fraco do filme é a história. Não tem como disfarçar o viés político e a angulação americanizada que o longa tem e isso, na minha opinião, obscurece quase tudo aquilo que ele tem de bom. Escrever um roteiro deste tipo é simplesmente subestimar a capacidade intelectual de nós espectadores, ou será que seus realizadores realmente esperavam que fossemos engolir a ideia absurda de que os americanos invadiram estes países para edificar uma democracia. O filme é do tipo que reforça a ideia preconceituosa de que cada árabe é um potencial terrorista, defendendo desta forma a existência de algum sentido em todo o conflito.

 

Em alguns poucos momentos do filme, os soldados refletem sobre a realidade que estão vivendo, os riscos que estão correndo e sobre o que deixaram para trás nos Estados Unidos, mas em nenhum momento, nenhum deles questiona o porquê da guerra e por quais motivos estão realmente entregando suas vidas. A arrogância dos soldados americanos, que pode ser vista em diversas passagens, funciona mais como uma exaltação pelo poder conquistado, do que como uma crítica à forma de atuação do exército. Em alguns momentos a reação deles chega a parecer bizarra de tão distante da realidade, os atos de compaixão chegam a parecer surreais. O desfecho da história, que beira ao ridículo, sugere um apego quase masoquista do militar aos riscos que ele se expõe na guerra, coisa que seria normal de se ver apenas em um filme do nível da franquia de Rambo. Não sei explicar como, mas tudo isso que observei no filme foi ignorado pela crítica especializada, que o ovacionou de pé.

 

O sucesso de crítica alcançado por Guerra ao Terror era totalmente inesperado e provocou um fenômeno curioso. Aqui no Brasil, o filme foi lançado direto em DVD, sem passar pelas telonas. Porém, quando começou a ser supervalorizado no exterior, o longa reestreou novamente no país, desta vez nas principais salas de cinema. Naquele ano ele conseguiu ainda a proeza, injusta ao meu modo de ver, de levar, dentre outras, as estatuetas de Melhor Filme, Diretor e Roteiro Original. Naquela edição do Oscar, o favorito a estes prêmios era uma superprodução escrita, dirigida e produzida por James Cameron, ex-marido de Kathryn Bigelow. Avatar (2009), apesar de ser um típico filme do diretor, que apela para histórias clichês e abusa de efeitos especiais, tem ao seu favor o fato de ir na contramão de Guerra ao Terror no tocante aos temas que ambos abordam direta ou indiretamente. O trabalho de Cameron pode ser considerado uma alegoria da atuação dos Estados Unidos no Oriente Médio e de sua ganância pelo petróleo e isso talvez possa explicar porque um e não o outro abocanhou os principais prêmios. Eu, no entanto, não enxergo em nenhum deles qualidades que justifiquem os elogios recebidos por ambos. Indico Guerra ao Terror apenas para quem se dispuser a assisti-lo com olhos bem críticos, caso contrário passe longe!


Guerra ao Terror ganhou os Oscars de Melhor Filme, Diretor, Roteiro Original, Edição, Som e Edição de Som, tendo sido indicado também nas categorias de Melhor Trilha Sonora, Fotografia e Ator (Jeremy Renner). O filme também recebeu três indicações ao Globo de Ouro, nas categorias de Melhor Filme - Drama, Melhor Diretor e Melhor Roteiro.


Assista ao trailer de Guerra ao Terror no You Tube, clique AQUI!

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3 comentários:

  1. otimo post zé ;) vou baixar esse filme!

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  2. Muito boa a sua reflexão,realmente,a midia,faz uma lavagem cerebral na cabeça da população e cada vez mais nós temos que aturar cidadãos,manipulados pelo sistema,enfim,seu post resume boa parte do meu pensamento...Parabéns.

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  3. Excelente resenha. É uma pena que poucas pessoas tenham discernimento suficiente para ver o que está escancarado. Não é preciso de muito para ao menos duvidar dessa visão americanizada por traz do filme. É lamentável que tenha sido tão glorificado e ainda ter levado absurdamente a estatueta por Melhor Filme do Ano.

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