terça-feira, 20 de setembro de 2011

O Império dos Sentidos

O Império dos Sentidos (Ai no korîda, 愛のコリーダ) - 1976. Escrito e Dirigido por Nagisa Oshima. Direção de Fotografia de Hideo Itoh. Música Original de Minoru Miki. Produzido por Anatole Dauman. Argos, Oshima e Shibata. / Japão | França.

 

Nem consigo imaginar a reação das plateias que assistiram o polêmico filme O Império dos Sentidos (1976) na tela grande, quando ele estreou nos já longínquos anos setenta. O diretor japonês Nagisa Oshima, responsável pela obra, já tinha uma carreira consolidada e uma reputação construída dentro do movimento que ficou conhecido como Nuberu Bagu (a Nouvelle Vague japonesa), quando adaptou para o cinema uma história real acontecida no Japão na década de trinta. A película foi ousada ao recorrer a cenas de sexo explícito, que fazem a clássica cena “da manteiga” de O Último Tango em Paris de Bertolucci parecer coisa de novela das seis. O erotismo escancarado está presente do início ao fim do filme, o que me levou a questionar em alguns momentos o porque de ele não ser rotulado como um simples pornô, uma vez que este gênero já existia e tinha adeptos desde os primórdios do cinema.

Cheguei à uma conclusão apenas após o final da exibição. De fato eu não tenho como analisar um filme sem considerar o contexto cultural no qual ele foi produzido, fazer isso, principalmente neste caso, seria uma verdadeira injustiça. A época em que a película foi rodada era um período de intensas mudanças, de contestação e de liberação dos costumes. Quem ainda não o assistiu pode achar, pelo que estou dizendo, que O Império dos Sentidos é uma exaltação de tudo isso que aquelas décadas representaram, mas definitivamente não o é, e isso é algo que o diferencia de um pornô qualquer. Explico, Oshima, ao que me parece, não estava interessado em despertar a libido dos apreciadores da pornografia tradicional, o que ele pretendia era justamente chocar os cinéfilos comuns que tinham pouca, ou nenhuma, afinidade com o gênero.

 

Como já mencionei, a trama de O Império dos Sentidos é inspirada em um acontecimento real que chocou o Japão em 1936. Na história contada no filme, uma jovem prostituta, Sada (Eiko Matsuda), se muda para a casa de Kichi-Zo (Tatsuya Fuji) após a falência e endividamento de seu antigo amante. Kichi-Zo é casado e vive cercado de gueixas e serviçais, no entanto ele ignora isso e não tenta esconder a relação que começa com a nova empregada. Alheio a tudo que está acontecendo às suas voltas, ambos se entregam a uma paixão carnal avassaladora. O ato sexual é explorado pelo casal em todas as suas possibilidades e, tal como uma droga, ele vai consumindo ambos. Imersos em jogos sexuais que parecem não ter fim, eles transam sem se importar com gueixas e outras empregadas que os observam, algumas vezes ignorando, em outras assustados e constrangidos.

 

À medida que o filme vai se aproximando do fim, a tragédia iminente vai se materializando e as cenas vão ficando mais pesadas e indigestas. Em uma das cenas mais contundentes, alimentos são inserido na vagina da mulher para depois serem ingeridos... bizarro não? Pois acreditem, o final é mais bizarro ainda, assustador por nos lembrar que algo similar realmente aconteceu um dia. Não sei se tenho a resposta para quem me questionar o porquê deste filme figurar na maioria das listas de melhores ou mais importantes obras da história da sétima arte, mas acredito que quem se dispuser a vê-lo com um olhar que vá além das cenas de sexo, enxergará nele quase uma premonição de uma época de paixões fugazes e destrutivas, um tempo destituído de sentimentos e idealismos, onde prevalece apenas a sensação e o imediatismo. 

 

Além da forte carga erótica que o estigmatizou, o filme trás excelentes atuações, aspecto que o distancia ainda mais de um pornô comum, e uma história que consegue escapar da superficialidade, na qual poderia ter se perdido. Numa análise ainda mais profunda, a obra pode ser tida como uma contestação contra o consumismo e o materialismo que vinha tomando conta do país desde o final da segunda guerra, com a influência cultural norte americana. O cunho nacionalista, que se esconde na trama do filme, fica evidente em uma sequência em que Kichi-Zo caminha apressado pela rua no sentido oposto dos soldados que marcham, no que seria um prelúdio da entrada no Japão na segunda guerra, alheio a tudo isso o personagem só quer chegar em casa e dar continuidade aos jogos sexuais que o levarão à sua própria destruição. Eu, que cheguei a dormir durante a exibição (o que não é comum, mesmo nos filmes mais lentos), acho que não o incluiria na minha lista de filmes indispensáveis, no entanto não posso ignorar que talvez ele realmente seja um dos melhores filmes eróticos de todos os tempos!

Assista ao trailer de O Império dos Sentidos no You Tube, clique AQUI !

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Um comentário:

  1. Oi Bruno, esse post foi indicado no links da semana:
    http://blogsdecinemaclassico.blogspot.com/2011/09/links-da-semana-de-18-2509.html

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