sexta-feira, 30 de março de 2012

Os Incompreendidos

Os Incompreendidos (Les Quatre Cents Coups) - 1959. Dirigido e produzido por François Truffaut. Escrito por François Truffaut e Marcel Moussy. Música Original de Jean Constantin. Direção de Fotografia de Henri Decaë. Les Films du Carrosse e Sédif Productions / França.


Em 1959, aos 28 anos, François Truffaut já era um dos mais respeitados (e polêmicos) críticos de cinema da França, ele já fazia parte do lendário expediente da revista Cahiers du Cinéma, que também empregava outros futuros cineastas como Claude Chabrol, Eric Rohmer, Jacques Rivette e Jean-Luc Godard. Truffaut foi o primeiro a conceituar e defender, através de seus escritos, a politique des auteurs (a teoria autoral), que defendia que cada filme, tal como uma obra de arte, deveria trazer a “assinatura” de seu diretor e expressar os sentimentos, reflexões e visões de mundo que o tornavam singular, diferente dos demais. Naquela ocasião o radicalismo do discurso do jovem acendeu os ânimos do circuíto cinematográfico francês, afinal ele, tomado pela fúria juvenil que lhe era característica, disparava farpas contra toda a indústria fílmica mainstrean de seu país, que estava, segundo ele, até então ancorada em velhas concepções, que prejudicavam o experimentalismo e a inovação.

Truffaut contrariou aquela falsa premissa que diz que todo crítico de cinema é um cineasta frustrado, ele seguiu o caminho inverso. Os Incompreendidos (1959), seu primeiro trabalho como diretor, foi recebido de forma calorosa na 8° edição do Festival de Cannes, onde estreou e conquistou o prêmio de Melhor Direção. O filme foi visto como a manifestação prática daquilo que Truffaut já tinha teorizado como estudioso e crítico, a marca autoral, que ele tanto defendia, pode ser observada em seu roteiro, que ganha ares autobiográficos ao lembrar a turbulenta adolescência do próprio cineasta. Seguindo a escola realista de André Bazin, seu mentor e um dos fundadores da Cahiers du Cinéma, o cineasta desenvolveu através de seu filme a ideia de que o mundo não é mal ou ruim, ele apenas "é como é", tal concepção favorece a criação de personagens não maniqueístas, cujas atitudes não podem ser compreendidas à luz da moral vigente...


Em Os Incompreendidos, o garoto Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), uma espécie de alter-ego do diretor, se vê obrigado a conviver com a repressão imposta pelo professor na escola e em casa com a negligência dos pais, que não se importam tanto com ele e não conseguem enxergar e compreender suas carências e necessidades. Sua situação o leva a cometer atos condenáveis e o empurram para a delinquência, apesar disso, em diversos momentos, a sua postura é mostrada como a mais coerente, uma vez que tantos os seus pais, quanto as outras pessoas com quem ele convive, demonstram em diversos momentos que não conseguem lidar com os próprios problemas, o que os leva a comportamentos por vezes impulsivos e irascíveis, reações estas que os tornam tão ou mais reprováveis que ele, contudo eles estão na maioria das vezes em conformidade com a moral estabelecida, o que os garante uma imunidade diante do olhos da sociedade.


Em uma das sequências do longa, a mãe de Antonie parece querer se vingar dele por considerá-lo responsável pela descoberta de uma de suas imoralidades, tal situação exemplifica na história a fragilidade dos valores defendidos pela sociedade e a hipocrisia sob a qual eles se sustentam, este aspecto do filme no entanto não se configura como uma crítica social, mas sim como uma mera constatação do que seria o real, o que nos remete à já mencionada ideia de que os fatos sociais são o que são e estariam por isso acima das indagação morais. Este tipo de observação que Truffaut faz da realidade, que pouco incita o engajamento e a revolução, o distancia da politização defendida por Godard e torna seu cinema menos combativo e intelectualizado, o que consequentemente faz de seus filmes mais fáceis de cair no gosto popular e de serem  digeridos pelo espectador médio (boa parte de seus filmes foram sucesso de bilheteria na França).



O fato de não ser engajada politicamente não tira de forma alguma o mérito da obra de Truffaut, reconheço que analisá-la tão somente através de uma simples comparação com a filmografia de Godard seria uma grande injustiça, pois apesar de se assemelharem no experimentalismo técnico e no repúdio ao "cinemão" francês da época, seus estilos e suas respectivas marcas autorais são bem diferentes. A excelência do realizador de Os Incompreendidos não está em seu discurso, mas sim na sensibilidade do seu olhar, na forma com que ele captura as imagens e em seu jeito de narrar através delas a sua história. Neste filme estão presentes algumas das cenas mais memoráveis e emblemáticas da Nouvelle Vague francesa, como a aquela que mostra Antoine Doinel em um brinquedo num parque de diversões e a última sequência (que não pretendo contar), que é simplesmente perfeita... 


Os Incompreendidos marcou o início de uma duradoura parceria entre Truffaut e Jean-Pierre Léaud, eles trabalhariam juntos em diversos outros filmes e o personagem Antoine Doinel seria revisitado também em Beijos Proibidos (1968), Domicílio Conjugal (1970) e O Amor em Fuga (1979). A atuação de Léaud neste primeiro filme de Truffaut é ótima, ele, que era ainda um pre-adolescente, esbanja talento e maturidade para encenar cenas de grande complexidade dramática. O cineasta não cansava de elogiar a destreza da atuação do garoto, que conforme ele contou em diversas entrevistas, tinha segurança suficiente para ousar e improvisar durante as filmagens. Muitos vêm nesta relação profissional um pouco daquilo que o diretor já tinha vivido junto com o crítico e teórico André Bazin, em ambos os casos era uma relação entre mestre e discípulo, o mais experiente passando para o outro o seu conhecimento e o amor à sétima arte. Outro aspecto do longa que merece ser ao menos citado é a fotografia dirigida por Henri Decaë, ela confere ao filme uma beleza estética indescritível da primeira à última sequência... 


Com o perdão do trocadilho, Os Incompreendidos é um clássico obrigatório para qualquer um que se dedique a compreender a sétima arte, é um filme impregnado de beleza estética e de um sentimento vivo e pulsante, que não o deixam se tornar obsoleto. Esta obra-prima pode ser vista também como o marco inicial de intensas transformações que o cinema viveria nos seguintes em todo o mundo, aspecto este que por si só já seria suficiente para torná-lo indispensável. Ultra recomendado!


Os Incompreendidos ganhou o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes e recebeu uma indicação ao Oscar na categoria de Melhor Roteiro.

Assistam ao trailer de Os Incompreendidos no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra, 

32 comentários:

  1. François Truffaut é um diretor incomparável...

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    1. Sem dúvidas, sua contribuição para a sétima arte é imensurável!

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  2. Sinto muita vontade de ver filmes assim, ainda mais em dias chuvosos. Beijão , www.spiderwebs.tk

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    1. haha, acho que ele casa mesmo com um dia chuvoso!
      Eu também adoro assistir filmes em dias assim!

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  3. Olá, Bruno, estou preparando um post sobre os meus blogs favoritos. Peço que preencha os seguintes dados:


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    Mande as respostas para o meu e-mail:
    ofalcaomaltes41@gmail.com


    O Falcão Maltês

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    1. Que honra poder fazer desta lista Antonio!
      Já enviei os dados para o seu e-mail!

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  4. Olá Brunão!

    Rapaz, grande resenha essa sua! Parabens mano!
    Eu vou te confessar que não curto muito esse tipo de filme apesar de sua crítica ser muito interessante. Quem sabe um dia procure o filme pra ver!

    Um abração vélho e bom final de semana!

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    1. Tendo alguma oportunidade assista sim Andre!
      Abração e ótima semana para ti também!

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  5. Ótima resenha. Apenas meu filme preferido forever and ever! Parabens pelo trabalho incrível!

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    1. Vindo de alguém que gosta tanto do filme o elogio se torna ainda melhor. Obrigado!
      Fico muito feliz que você tenha gostado!

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  6. Ola,
    A resenha está ótima mas me deu a impressão de ser um filme com um estilo que não curto muito. Mas como você disse ser um clássico (e eu respeito muito os clássicos) vou ficar atento para ver!

    Abraços Flávio.
    --> Blog Telinha Critica <--

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    1. Sério, acho que você vai gostar bastante dele, ele apesar de ser denso é um filme gostoso de assistir, principalmente pelo ritmo que muito bom!

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  7. Olá!Bom dia!
    Excelente e completa resenha!
    Apesar de não curtir este estilo de filme,penso que, pelo fato de ser de ter sido dirigido por Truffaut, um grande clássico. E pelo titulo original, que pode ser traduzida por “pintar o sete”, o garoto deve ter "pintado o sete" mesmo,neste filme!rsrs
    Bom final de semana!
    Abraços!
    Obrigado pela visita e comentário pertinente!

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    1. É realmente um clássico Felisberto!
      Acho que você deveria assisti-lo, afinal é um filme que influenciou boa parte das produções que assistimos hoje em dia...
      Ótima semana para ti também!

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  8. "Ultra recomendado!"...e você fechou o seu texto com chave de ouro meu caro! Belo panorama desta obra.

    O cinema de Truffaut é cativante!
    Clássico mesmo!

    Abraço.

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    1. Creio que em breve estarei publicando outras resenhas de obras dele aqui no Sublime Irrealidade, acompanhe...

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  9. Olá, Bruno. Obrigado pela visita e mais ainda pelo comentário... Eu tenho pensado muito sobre o que você disse e cada vez mais parece o caminho mais certo a seguir.
    Bem, quanto ao posto, já disse antes e repito: suas resenhas são as mais inteligentes. Não conheço esse diretor, mas pelo que li do post e comentários acima, vale a pena conferir. Vou assistir qualquer coisa dele pra tirar uma opinião.
    Um abraço

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    1. Gostei muito do teu blog e dos teus escritos Alexandre, você tem talento, aguarde pois o reconhecimento virá!

      Se você tiver alguma oportunidade de assistir o filme, não a perca, afinal ele é um clássico obrigatório para todos que buscam analisar o cinema com um olhar diferenciado!

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  10. Opa, Bruno. Ótimo texto, como de costume. Os Incompreendidos, embora não seja meu Truffaut favorito (quem recebe esse título é Jules e Jim), é uma obra-prima importantíssima para o Cinema. Talvez, por isso, seu texto tenha se preocupado em demasia em dizer a importância do filme, do diretor (comparando ainda com o Godard), da Nouvelle Vague e da política de autor, do que o filme em si, em diversos momentos. Não que falar de curiosidades e importância da orba seja um defeito, pelo contrário, é sensacional. Mas o interessante é o equilíbrio. ;)

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    1. Acho Julio, que não tem como desassociar o filmes destes outros temas, falar deles é também falar do filme, esta é a primeira resenha que faço de um filme do Truffaut aqui no blog e também por isso eu quis dr um tom mais didático ao post... Ah, em breve pretendo trazer "Jules e Jim" pra figurar aqui nestas páginas...

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  11. Vou baixar o quanto antes este. Deve ser um espetáculo. Obrigada pela dica. Truffaut é sempre bem-vindo. Seu texto está muito legal. Quando crescer quero ser assim! ;)

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    1. Que isso Sintia, lembre-se que você é uma de minhas inspirações na hora de escrever sobre clássicos! O filme é ótimo e você precisa assistir o quanto antes!

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  12. Oi Bruno,

    O que posso dizer da sua critica? Um esbanjar de detalhes e sentimentos que permitem captar o filme em sua integra. Já tinha ouvido falar sobre esse filme, mas não tinha pensado em assistir, embora com esse diretor seja impossível rejeitar tal convite.

    Parabéns!

    Beijos.

    Lu

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    1. Obrigada Lucina!
      Não deixe de assisti-lo Luciana, como eu já disse, é um clássico que precisa ser visto!

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  13. Oie Bruno!
    Antes , agradeço com beijinhos a sua visita lá no Sementes Preciosas! Adorei te ver por lá...Ahh, meu querido, pense positivo sempreeee...( atrai coisas positivas...hehehe)

    François Truffaut um grande diretor, que ou emociona , ou deixa a gente com raiva. No caso de "De Repente num Domingo", fiquei meio nostágica. Quem sabe "Os Incompreendidos" eu assista aqui em minha cidade, e saia do cinema sorrindo!

    Beijinhos otimistas pra vc, meu amigo!!

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    1. Ainda não assisti "De Repente num Domingo", mas antecipo que eu costumo gostar muito dos filmes que despertam sentimentos fortes!

      Beijinhos recebidos!
      Beijão para retribuir!!!

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  14. Uma das suas melhores resenhas meu amigo, onde consigo baixar para assistir ?
    Esses cinquentoes são obras primas.

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    1. Victor você deve o encontrar por um preço bem camarada nas bancas de revista, ele foi lançado na coleção Cine Europeu da Folha de São Paulo.

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  15. Felicitaciones por tu blog, tiene muchísimo materal!
    Bellísimo sitio, abrazos desde Uruguay:

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    1. Gracias, me alegro que te haya gustado!
      Espero verte por aquí más a menudo!
      Besos!

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  16. Como fã de Truffaut, óbvio que amo este filme e tive o prazer de cobrir seus 21 longas metragem no especial que dediquei ao autor.

    Recomendo Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague, documentário disponível nas locadoras sobre o início do movimento, o envolvimento dos diretores e a sua posterior ruptura.

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    1. Já faz muito tempo que quero ver o documentário, mas ainda não tive oportunidade, mas pretendo fazê-lo o quanto antes!

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