domingo, 1 de janeiro de 2012

A Insustentável Leveza do Ser – O Livro

A Insustentável Leveza do Ser de Milan Kundera. Lançado em 1982. Tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. São Paulo. Companhia das Letras, 2008. 


Tudo começou à algumas semanas atrás quando o amigo Celo Silva postou algo sobre o filme A Insustentável Leveza do Ser (1988) em um grupo sobre cinema no facebook, já fazia um tempo que eu queria comprar o livro, do qual o filme fora adaptado e aquela foi a minha deixa, o preço estava acessível e no impulso comprei também o filme em DVD. Com a minha aquisição acabei incentivando as amigas Joicy Doux Sorcière e Joyce Pretah que também compraram. Tão logo o livro chegou, eu comecei a devorá-lo, pela falta de tempo eu o lia na maioria das vezes no ônibus, enquanto estava indo e voltado para a cidade vizinha onde trabalho. Quando eu me dei conta, eu já estava imerso na trama e nas reflexões ensaiadas pelo autor Milan Kundera. Terminei o livro e as reflexões permaneceram, como se eu estivesse vivendo uma espécie de eco da obra na qual eu mergulhara. Não é para menos, A Insustentável Leveza do Ser tem sido frequentemente apontado como um clássico da literatura contemporânea, e isto é facilmente justificado pela sua grandiosidade estética e filosófica. A prosa do autor, impregnada de erotismo, seduz e nos torna em pouco tempo quase íntimos de seus personagens.

“O mito do eterno retorno afirma, por negação, que a vida que desaparece de uma vez por todas, que não volta mais, é semelhante a uma sombra, não tem peso, esta morta por antecipação, e por mais atroz, mas bela, mais esplêndida que seja, essa atrocidade, essa beleza, esse esplendor não tem o menor sentido [...] Se cada segundo de nossa vida deve se repetir um número infinito de vezes, estamos pregados na eternidade como Cristo na cruz. Essa ideia é atroz. No mundo do eterno retorno, cada gesto carrega o peso de uma responsabilidade insustentável. É isso que levava Nietzsche a dizer que a ideia do eterno retorno é o mais pesado dos fardos [...] O mais pesado dos fardos nos esmaga, verga-nos, comprime-nos contra o chão [...] Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é. Em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semi-real, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes...”

A reflexão acima pontua o início da obra e serve de base para tudo o que acontecerá em seu desenvolvimento. Tal dicotomia entre a leveza e o peso está presente na vida de cada um dos personagens, a quem o autor desnuda psicologicamente em busca das reais motivações de seus comportamentos sexuais, sociais e políticos. Desde o primeiro capítulo, Kundera deixa claro que as pessoas das quais ele escreve se tratam e personagens, ele não quer com isso eliminar a possibilidade de que tenham sido histórias reais, sua pretensão é deixar evidente que eles são apenas verossimilhantes e tão somente criações suas, e ele na condição de criador tem a onisciência de tudo acerca de suas vidas... A impressão que eu tive é a de que talvez o autor quisesse trabalhar, não uma história, mas uma ideia, o que faria de seus personagens apenas ilustrações de seus pensamentos e nada mais que isso.

Milan Kundera
A Insustentável Leveza do Ser tem uma intensa carga erótica que serve na trama como alegoria para questões maiores acerca da condição humana e da realidade experimentada. Kundera insere seus personagens em um contexto conturbado de intensas transformações sociais e políticas, a história se desenvolve no final dos anos 60 durante a ocupação russa na Tchecoslováquia, que começara após o período que ficou conhecido como “primavera de Praga”. Aquele foi um tempo de supressão das liberdades individuais, de conflitos e de perseguições de militantes contrários ao regime comunista, então vigente no páis. No entanto, no livro tanto a situação política, quanto as questões envoltas no comportamento sexual dos personagens, são apenas metáforas de algo maior e bem mais amplo... o próprio autor, no decorrer da história, nos alerta sobre a relevância de tais figuras de linguagem e o risco que elas podem oferecer.

“Os personagens de meu romance são minhas próprias possibilidades que não foram realizadas. É o que me faz amá-los, todos, e ao mesmo tempo a todos temer. Uns e outros atravessaram uma fronteira que eles atravessaram (fronteira além da qual termina o meu eu). E é somente do outro lado que começa o mistério que o romance interroga. O romance não é uma confissão do autor, mas uma exploração do que é a vida humana na armadilha que se tornou o mundo...”

Ao nos contar sobre os quatro personagens centrais (Tomas, Tereza, Sabina e Franz), o autor narra fatos históricos e descreve a instável situação política da Tchecoslováquia, ele recria assim todo um panorama cultural de uma época, que fora marcada em boa parte do mundo pela revolução sexual, por transformações sociais e pelo desbunde artístico. Através das ponderações de Kundera sobre o engajamento político, gostos e fetiches dos personagens, nós leitores somos convidados a refletir sobre a nossa própria condição e sobre a forma assustadora com que nossas atitudes podem ser determinadas não pelos nossos próprios erros e acertos, mas também pelas decisões de nossos antecedentes (eterno retorno). Teresa por exemplo repudia algumas atitudes de sua mãe, até perceber que está se tornando parecida com ela; Sabina guarda consigo um chapéu-coco que fora de seu avô, o objeto ilustra a forma com que ela está ligada, diria até presa, ao passado por um vínculo genealógico, que nem ela mesma sabe explicar...

"O que precisamente aconteceu com Sabina? Nada. Deixara um homem porque quisera deixá-lo. Ele a perseguira depois disso? Quisera se vingar? Não. Seu drama não era o drama do peso, mas da leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza dos ser."

Tomas leva uma vida pautada pelo desapego, suas aventuras sexuais ilustram bem a leveza sobre a qual o autor pondera, porém um série de acontecimentos o leva a uma situação em que ele se deixa ser esmagado contra o chão pelo fardo que passa a carregar, a partir de então é a leveza que se torna seu fardo, ele deixa de flutuar acima dos acontecimentos e experimenta o que seria de fato a vida real, esta pautada por uma existência cheia de dúvidas e dilemas com os quais ele não sabe lidar.

Teresa ao contrário de Tomas, busca viver a realidade, ela repudia a leveza, pois esta pressupõe repetição e decididamente ela não quer reviver ad infinitun a vida mesquinha que leva trabalhando como garçonete em uma cidade do interior e tão pouco quer cometer os mesmos erros cometidos pela mãe. Ela busca algo de superior que possa "elevar" sua existência a uma outra condição e frequentemente ela associa isso às artes, seja à literatura que constantemente devora ou à fotografia que se torna para ela uma forma de expressão, no entanto o que ela busca é um fardo sob o qual se vergar, um peso que a faça se sentir viva e que a sua vida é de fato real...

Franz, ao contrário do que pode denotar seu posicionamento político, está tão preso à leveza quanto Tomas, ele no entanto tenta negar isso se juntando à "grande marcha", que seria uma idealização da multidão que caminha rumo a um mundo melhor (o Kitsch da esquerda política), ele não tem uma posição ideológica definida, quer apenas sentir que faz parte de algo, que está marchando rumo a algo e que caminha ao lado de alguém, ainda que tudo isso não seja nada mais que uma mera repetição...

Sabina, talvez mais que os outros personagens, traz profundas marcas que a impede de se libertar do eterno retorno, a traição seria a repetição da qual ela não consegue se desprender, a leveza se torna insustentável para ela a partir do momento que ela toma consciência de sua condição... ela deixara de viver algo bom tão somente pelo seu medo de deixar de ser livre, de se prender a alguém e assim se sucumbir diante de um  fardo que torne sua vida verdadeira...

A complexidade da obra é quase impossível de ser condensada em um breve resumo, por isso me perdoem a superficialidade desta análise, para que se tenha uma real noção do que estou falando só mesmo lendo o livro e mergulhando, assim como eu fiz, na reflexão proposta pelo autor... A Insustentável Leveza do Ser, além de ser brilhante como romance histórico/filosófico, é também apaixonante pela explosão de sentimentos que tão bem consegue reproduzir em suas páginas, sentimentos estes que vão da compaixão ao asco, do amor fraternal ao mais ardente tesão... Uma obra prima que recomendo para todos sem restrições!

Post dedicado às amigas Joicy Doux Sorcière e Joyce Pretah que se lançaram junto comigo neste maravilhoso mergulho literário!

Aguardem , nos próximos dias postarei a minha crítica do filme ao qual a obra deu origem...


17 comentários:

  1. Suuuuublime... vim só pra avisar que amanhã estarei aqui, degustando bem devagarinho essa lindeza de post, tão esperado por mim! Dei uma lida rapidinha, mas ele merece uma leitura com a alma e o coração! Então, até amanhã!

    Ahh, eu não posso deixar de agradecer à dedicatóóóória, J. Bruno! Vc é um lindo...

    bjkssss JoicySorciere => Blog Umas e outras...

    ResponderExcluir
  2. Olá, olá.

    Estou louca para ler esse livro, você nem imagina e depois dessa brilhante resenha fiquei mais com vontade ainda.

    ResponderExcluir
  3. J. Bruno, voltei para reler... só posso dizer que nada tenho a acrescentar! Vc foi perfeito em cada detalhe! Sua resenha ficou maravilhosa.

    Essa dicotomia entre a leveza e o peso está aqui em minha cabeça. Estava falando sobre isso com minha best friend, Karla, na passagem para o ano novo. Parabéns!!!! Vc arrasou em mais um post. Aliás, garoto, vc é ótimo com as palavras escritas. Fico imaginando como deve ser lindo conversar com vc pessoalmente.

    Vejo que minha querida Kely veio aqui... vou emprestar o livro para ela, nessa sexta feira.

    bjs JoicySorciere => Blog Umas e outras...

    ResponderExcluir
  4. Tenho que concordar com a Joicy e a Kely. A resenha está ótima. Não! Maravilhosa!!!
    Eu conheço o livro de nome, mas nem sabia do que se tratava, muito menos da existência do filme. Sua resenha está regada com tanta honestidade e paixão que irei procurar tanto o livro quanto o filme.
    BjO
    http://the-sook.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  5. Uou, o livro deve ser mesmo muito interessante! Você foi extremamente rico em sua resenha.
    Obrigada pela dica! Com certeza vou procurá-lo!
    Beijos
    http://www.giselecarmona.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  6. Joicy, sério, você consegue me emocionar com cada um de seus comentários, fico muito muito feliz que você tenha gostado da minha resenha, ter este veredito de uma entusiasta do livro é um honra sem tamanho!

    Kely, mergulhe nele sem medo, tenho certeza que ele te marcará de alguma forma, depois que você ler volte aqui e comente o que achou... será sempre um prazer recebê-la aqui neste humilde web espaço...

    Blake, a resenha ficou legal porque o livro é realmente maravilhoso! Lhe indico tanto o filme (cuja crítica postarei em breve) quanto o livro! Obrigado pela visita vê-la por aqui mais vezes!

    ResponderExcluir
  7. Gisele, procura sim, não sei a promoção que eu aproveitei ainda está valendo, mas ter comprado o livro e o DVD se revelou um daqueles impulsos consumistas dos quais não nos arrependemos!

    ResponderExcluir
  8. Bruno,
    gostei da visita e do comentário e estou passando pra retribuir a visita e aproveitar pra segui-lo, se desejar siga-nos tb: www.sitok-sitak.blogspot.com

    bj, graci

    ResponderExcluir
  9. Grande Bruno, cara, esse filme é clássico, já o vi há anos atrás, mas nem lembro direito dele, mas é uma estória clássica, tanto ele quando 9/1/2 semanas de amor, em relação ao livro não li, mas deve ser excelente, não sei se o filme segue à risca o livro, mas tua dica foi de muito bom gosto, parabéns.

    Abração pra ti.

    ResponderExcluir
  10. Pela primeira, nos ultimos 3 anos, vejo aqui um dica quente de livro, esse já é meu com certeza, vou ler com tudo de bom que eu possa oferecer ao meu espirito. Obrigado.

    ResponderExcluir
  11. Um dos meus top 10 de literatura, ainda não pude assistir o filme, e olha, eu queria tanto...vejo nossa sociedade a merce da sindrome de Sabina, onde as pessoas largam mão do comprometimento em busca de uma liberdade utopica. Ser livre é amar, li esse livro em 2008 e nunca me esqueci dele. Parabens pela postagem.Te coloquei na minha lista de blogs..espero que aumente suas visualizaçoes !

    Abraço

    ResponderExcluir
  12. querido,eu comprei o livro e o filme ,mas ainda não li ... estava esperando o filme ser totalmente degustado para depois me aventurar às páginas.


    Gostei do post e achei fofo vc ter dedicado à mim e a Joicy ... vc é mesmo um querido.

    Ter assistido à adaptação mexeu demais comigo e agora que li seu post,estou PRONTA para ler o livro.

    Prometo voltar aqui neste post ao findar a leitura,para reler com outros olhos.


    beijoca!!!

    ResponderExcluir
  13. Graci, obrigado pela retribuição, você será sempre bem vinda aqui! Bjss

    Paulo, que bom que você gostou, sua opinião conta demais para mim caro colega, já postei a resenha do filme, confira depois! Abraços

    Pois é Victor, o livro é realmente inesquecível e não perca de forma alguma uma oportunidade de ver o filme... Concordo com você no que se refere à "sindrome de Sabina"

    Joyce tenho certeza que você irá devorar o livro rapidinho, lhe espero aqui depois disso, com seus comentários sobre ele.

    ResponderExcluir
  14. Primeiramente quero elogiar seu blog!Muito bacana mesmo!Em relação as reflexões desse post sobre esse livro,achei bem interessante vc dizer que são ensaios de nossas vidas. È meu livro preferido.Pelo menos uma vez no ano estou relendo.
    Espero uma visita!
    http://mardeletras2010.blogspot.com/2012/02/uma-festa-no-meio-do-caminho.html

    ResponderExcluir
  15. Eu me apaixonei por ele Vanessa, acho que não irei demorar para lê-lo mais uma vez, a reflexão à qual Kundera me induziu com sua obra deixou marcas e ainda sinto seus ecos até hoje...

    ResponderExcluir
  16. Esse livro é magnífico! Me apaixonei pelos personagens, especialmente as femininas. O filme também é ótimo, mas não consegue se igualar à grandiosidade do livro.

    ResponderExcluir