segunda-feira, 18 de julho de 2011

The Doors - O Mito de Uma Geração

The Doors - O Mito de Uma Geração (The Doors) - 1991. Dirigido por Oliver Stone. Escrito por Oliver Stone e Randall Jahnson. Direção de Fotografia de Robert Richardson. Produzido por Bill Graham, Sasha Harari e A. Kitman Ho. Bill Graham Films / USA.

 

A fórmula é simples: um grupo de jovens se conhece e decide se juntar e montar uma banda de rock, um deles já aparenta ter um talento nato e estar predestinado ao sucesso. O caminho até ao topo é então mostrado sem grandes obstáculos. Alcançado o estrelato, começa então a fase da decadência, na qual os integrantes se afundam nas drogas e na autodestruição. Geralmente as cinebiografias deste gênero terminam com um final trágico, que em parte justifica a adaptação. Esta mesma fórmula está presente em filmes como Sid and Nancy (1986), Cazuza (2004), The Runaways (2010), Control (2007) e em tantos outros que buscam na trajetória de estrelas do música a inspiração para a construção de seus roteiros. 

The Doors - O Mito de Uma Geração (1991), de Oliver Stone, não foge à esta fórmula, porém o toque estilístico do cineasta está claramente perceptível no roteiro e na direção, tornando o singular quando comparado aos demais. Considero que toda cinebiografia é a priori uma espécie de documentário e como tal tende ou não a ser parcial ou imparcial, em relação a história real que a inspirou. No caso deste filme, temos ainda um grande complicativo, Oliver é um fã confesso dos Doors, e isso poderia ter sido um fator mais negativo do que positivo para a realização do filme. Quando fazemos qualquer análise de forma passional, o resultado é prejudicado, á medida em que é determinado pela limitação do olhar que lançamos sobre o objeto analisado. Contudo este acabou sendo o grande trunfo e o diferencial deste filme, existe no roteiro o olhar do fã, mas existe também uma outra visão, quase jornalística acerca dos fatos. 

 

Oliver Stone provou que conseguiu manter o distanciamento necessário ao desconstruir no decorrer do filme o mito criado sobre a figura de Jim Morrison. Confesso que se eu tivesse visto o filme há uns 10 anos atrás, o efeito dele sobre mim poderia ter sido simplesmente devastador, afinal na adolescência, nunca esperamos que seja possível que um dia, venhamos a nos decepcionar com nossos ídolos. Naquela ocasião, a ideia que eu tinha sobre o vocalista, influenciada principalmente pelas revistas que eu lia, era a de que ele era um gênio, um artista intelectual movido por ideais “revolucionários” e percursor de uma estética musical de vanguarda. O Jim mostrado no filme no entanto é outro...

 

O Morrison reconstruído no longa passa longe de qualquer idealização, ele é um homem comum em antítese com o mundo e consigo mesmo, ele é criativo, porém egocêntrico e hedonista. Ele não sabe lidar com o atrito que surge entre seu “eu artista” e sua condição de simbolo sexual e para complicar ainda mais sua condição, que começa a ser tornar deplorável, ele se deixa ser consumido pelas drogas, numa ilusão quase infantil acerca dos efeitos lisérgicos. Os alicerces que sustentam o mito vão pouco a pouco desmoronando e no final sobra apenas o jovem rebelde com problemas familiares, que projeta no mundo e em suas relações os conflitos que viveu em casa.

 

A indústria cultural engole Jim e a banda, lhes apara as arestas e os torna enquadráveis no sistema, eles que tentavam se impor como vanguarda estética, se tornam marionetes nas mãos de empresários e de homens de negócios da indústria fonográfica. O comportamento autodestrutivo de Morrison, que a primeira vista parece uma reação a tudo isso, não passa no fim das contas de alienação e recessividade. As polêmicas criadas por ele impulsionam e fazem girar a todo o vapor as engrenagens da máquina de fazer dinheiro, que a banda então se tornou.

 

O roteiro do filme, por mais previsível que seja para um fã da banda, ainda consegue surpreender, e são os pequenos detalhes que o tornam grandioso. É memorável, por exemplo, o diálogo alucinado entre Morrison e Andy Warhol, quando eles se encontram em uma festa onde tudo é permitido. Outro artifício interessante é o uso de um personagem fictício como ferramenta dramática, um índio que aparece em diversos momentos do filme em visões e em delírios de Morrison. Quando ainda era criança Jim estava viajando com sua família, quando passou por um acidente e mesmo contra a vontade de seus pais, ele viu o rosto do velho índio que agonizava. Aquela visão o traumatizaria para o resto de sua vida e nos momentos de êxtase no palco, sob o efeitos de drogas, ele acreditava estar possuído por uma entidade indígena, que o impulsionava para uma vida primitiva, baseada apenas em sexo e prazeres sem limites.

 

O filme The Doors levou cerca de 20 anos até ficar pronto, durante este longo período muitos atores estiveram cotados para o papel de Jim Morrison, dentre eles John Travolta, Tom Cruise, Jason Patric e Ian Astbury, vocalista do The Cult. Travolta se empolgou tanto com o papel que chegaram a circular boatos de que o The Doors poderia voltar a ativa com ele nos vocais. No entanto quem se juntaria à banda, já nos idos dos anos 2000, para uma polêmica reunião taxada de tributo, foi Astbury. No fim das contas o papel de Jim no filme ficaria com Val Kimer, este provou que a escolha foi acertada, ele está em uma excelente atuação, que beira à perfeição. Sem contar a semelhança física entre ele e o cantor, que é impressionante (confesso que enquanto selecionava fotos do filme para este post, cheguei a ter dúvidas em algumas, se era o Morrison ou o Val Kilmer).

 

Meg Ryam também está muito bem como uma das namoradas de Jim, e os atores que interpretam os outros membros da banda também ficaram muito parecidos. O filme conta ainda com as participações especias de Billy Idol e do baterista do The Doors, John Densmore. Robbie Krieger, guitarrista da banda deu um grande apoio ao Oliver Stone, como consultor durante as filmagens e durante a produção do roteiro. Ray Manzarek, o tecladista, além de recusar a participar do filme como consultor, ainda disse que o longa contou de forma horrível a trajetória de sua banda. Se o filme foi de alguma forma injusto com o grupo, ou se ele beneficamente desconstruiu o mito, na verdade não importa tanto... eu continuo sendo um grande fã do The Doors (tanto que considerei desnecessário qualquer comentário sobre a trilha sonora) e ainda imagino o quão bom seria ter estado em uma daquelas loucas apresentações deles no auge dos anos 60. Recomendo! Que se abram as portas da percepção!!!


De Oliver Stone, recomendo também Platoon (1986), Nascido em 4 de Julho (1989), JFK - A Pergunta que Não Quer Calar (1991) e Assassinos por Natureza (1994).


Assistam ao trailer de The Doors - O Mito de Uma Geração no You Tube,
clique AQUI !

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2 comentários:

  1. Val Kilmer estava surreal neste filme!
    Ótima lembrança e postagem!!

    ;D

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  2. Nunca assisti! Mas depois de ler o post fiquei na vontade de ver!

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