terça-feira, 26 de julho de 2011

Foi Apenas um Sonho

Foi Apenas um Sonho (Revolutionary Road) - 2008. Dirigido por Sam Mendes. Escrito por Justin Haythe, baseado na obra de Richard Yates. Direção de Fotografia de Roger Deakins. Música Original de Thomas Newman. Produzido por Bobby Cohen e Sam Mendes. DreamWorks Pictures / EUA|UK.

 

Nos anos 40, no período do pós-guerra, o ideal do sonho americano, que fora concebido na década anterior, ganhava força. O país tinha se beneficiado muito com o desfecho do conflito entre Aliados e o Eixo, uma sensação de esperança começava a surgir no consciente coletivo e o fantasma da resseção econômica já não amedrontava tanto. O sonho americano renovava as forças e dava sentido para um povo castigado pela crise pós 1929. Este conceito abstrato de realização consiste na ideia de que na América qualquer um pode ser um vencedor, subir na vida e alcançar uma felicidade plena. O reaquecimento da economia transportara para o consumo quase todo o ideal de auto-realização, que se resumia em ter uma família perfeita, uma casa no subúrbio, um carro na garagem e um bom emprego. Posteriormente tal ideal se fundiria à ética protestante e, no mundo capitalista globalizado, transcenderia as fronteiras dos Estados Unidos nasceu, se espalhando também pelos países culturalmente influenciados pelo Tio Sam.

Apesar de ter sobrevivido durante décadas, o sonho americano é um ideal bastante frágil, pois a realização plena almejada dificilmente pode ser encontrada em bens compráveis, no entanto a ilusão coletiva faz com que isso apenas impulsione ainda mais o consumismo, tornando o padrão de posses a ser alcançado maior, a cada vez que o padrão anterior for atingido. O resultado deste círculo vicioso é facilmente perceptível na sociedade atual, que como nunca fomenta o surgimento de neuroses, motivadas por uma constante falta de realização de alguns indivíduos e pela frustração destes com aquilo que tinham idealizado. Certamente este tema renderia uma artigo á parte, mas creio que este não seja o momento, adentrei superficialmente no tema para falar de Foi Apenas um Sonho (2008), filme que considero um dos melhores e mais importantes da primeira década do presente século.

 

Sam Mendes, ao adaptar o livro de Richard Yates, escrito em 1961, tinha uma noção precisa do quanto a história ainda estava incrivelmente atual. O longa fala justamente da fragilidade do sonho americano, que comentei acima, e sutilmente faz uma contundente crítica ao “american way of life”. Em Beleza Americana (1999), Mendes teceu uma crítica ácida à hipocrisia de um povo que vive de aparências, pautado apenas por aquilo que o próximo poderia pensar de si. Neste as maquiagens sociais continuam sendo alvo da contestação do cineasta. Em oposição ao casal central, que vivencia a decadência do frágil ideal, são retratados outros personagens que vivem uma vida aparentemente tranquila e realizada, mas isso somente porque aceitam o próprio conformismo e se valem da abnegação como saída para enfrentar a realidade.

 

A história gira em torno dos Wheeler, uma família que tem tudo aquilo que qualquer outro americano sonharia em ter, uma bela casa com um grande jardim, um carro e dois filhos saudáveis, no entanto eles não estão realizados. O sonho de April Wheeler (Kate Winslet) era ser atriz, porém seus planos são frustrados quando ela descobre que não tem nenhum talento para a atuação. Frank Wheeler (Leonardo DiCaprio) segue os passos do pai, trabalhando em uma corporação que não lhe dá grandes expectativas. April é a primeira a se sentir incomodada com a vida que estão levando, ela não se encontra naquilo que construiu e há muito tempo que não se sente mais “viva”. Ela convence o marido a tomar uma decisão radical para salvar o casamento e suas próprias vidas, eles venderiam a casa e o carro e se mudariam para Paris, lá ela conseguiria um trabalho como secretária e ele teria tempo para descobrir o que realmente gostaria de fazer.

 

A vida em Paris surge então como uma oposição ao ideal do sonho americano, quando April propõe a venda dos bens que adquiriram para custear a mudança, ela está indo contra tudo aquilo que a sociedade em que vive valoriza. O plano é tido como ilusório e infantil e eles se tornam o alvo de críticas e de gozações de seus vizinhos, amigos e colegas. De fato são propósitos imaturos, mas ninguém consegue enxergar além disso, dentre todo o circulo social em que estão inseridos, eles são os únicos que conseguem enxergar que a vida que estão levando também é ilusória, e que pensam em fazer alguma coisa para mudar isso. Quando a mudança já era tida como certa, April descobre que está grávida e Frank recebe uma proposta de promoção no trabalho, é então que começam os conflitos.

 

Foi Apenas um Sonho é um filme para ser visto e “lido” nas entrelinhas, cada um de seus personagens trazem consigo uma enorme carga de significação, que ajuda a desenhar o contexto e que explica a situação aflitiva e angustiante que o casal está vivendo. A fragilidade e a efemeridade das ilusões que estão vivenciando são materializadas na figura de uma personagem, uma garota que se vê enganada e abandonada após ter se entregue a um homem que mal conhecia, ele sem cerimônias apenas bate a porta do apartamento, deixando-a sozinha após uma transa casual, que ela acreditava que pudesse ser o começo da realização de seus sonhos. O curioso também é que apenas um dos personagens consegue fazer uma leitura coerente daquilo que April e Frank estão vivendo, ele é John Givings (Michael Shannon), o filho da vizinha do casal. John é tido como louco, e acabara de sair de um hospício, ele não consegue se adaptar por ser agressivo e inoportuno.

 

Em uma das cenas mais fortes do filme, Jonh expõe toda a fraqueza e fragilidade dos Wheeler, em um discurso desafiadoramente crítico e carregado de lucidez. Voltando-se para Frank, ele diz: “O que aconteceu Frank? Deu para trás? Decidiu que ficará melhor aqui? Percebeu que é mais confortável aqui no velho vazio sem esperança?” A verdade incomoda e faz doer e a dor é tão profunda que pode levar a consequências terríveis, que vão de uma simples apatia à consequências mais extremas. Em um tom de ironia, o final do filme, carregado de simbolismo, mostra qual a solução mais simples para os questionamentos feitos por Frank e April, contudo a solução mais simples nem sempre é a melhor ou a mais coerente, no fundo ela pode ser apenas um tipo de fuga, que se apresenta em alternativas que podem ir da simples negação da verdade até a tomada de decisões que podem não ter mais volta.


A falta de realização e o sentimento de incompletude e de não pertencimento têm sido males que assolam cada vez mais o mundo pós-moderno, este mesmo vazio existencial já serviu de inspiração para a construção de roteiros ou de obras que deram origem a filmes belos, dolorosos e fortes, como o já citado Beleza Americana de Sam Mendes, Clube da Luta (1999), As Horas (2002), Ghost Word (2001) e Encontros e Desencontros (2003), talvez seja este o mau deste século... Foi Apenas um Sonho é também uma prova incontestável do talento de Leonardo e de Kate, ambos estão estupendos no filme, ela dá um show e nem precisa falar para expressar tudo aquilo que sua personagem está sentindo, é de assustar a forma com que ela entrou de corpo e alma em sua atuação, na minha opinião o Oscar que ela ganhou em 2009, deveria ter sido por esta atuação, que é enormemente superior ao seu trabalho em O Leitor (2008). Só não indico este filme maravilhoso, para quem espera encontrar nele uma espécie de continuação de Titanic (2007), para os demais é simplesmente imperdível!


Foi Apenas um Sonho foi indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Ator Coadjuvante (Michael Shannon), Figurino e Direção de Arte. O filme ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz - Drama (Kate Winslet), tendo sido indicado a este prêmio também nas categorias de Melhor Filme - Drama, 
Melhor Diretor e Melhor Ator - Drama (Leonardo DiCaprio).


Assistam ao trailer de Foi Apenas um Sonho no You Tube,
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