domingo, 20 de fevereiro de 2011

A Malvada

A Malvada (All About Eve) - 1950. Dirigido e escrito por Joseph L. Manklewicz, baseado no conto "The Wisdom of Eve" de May Orr, direção de fotografia de Milton R. Krasner e produção de Darryl F. Zanuck. Fox / EUA.

 

Cisne Negro (2010), um dos longas que estão indicados ao Oscar de melhor filme neste ano, se passa nos bastidores de um teatro e tem como mote principal a disputa entre duas atrizes para ver quem fica com o papel principal na peça Lago dos Cisnes. Curiosamente, quando o cinema trata dos bastidores do teatro, algumas alusões no tom de metalinguagem podem ser observadas. Não é de agora que o cinema usa a Broadway para ilustrar seus próprios bastidores. Até que ponto a metalinguagem pode ser percebida, irá depender de cada obra e de cada espectador. Em A Malvada (1950) as alusões, totalmente irônicas, estão latentes durante todo o filme. Este clássico do cinema americano desmonta o mito da imortalidade da estrela e mostra uma atriz de meia idade que sofre com o medo da perda de espaço no showbiz, esta está inserida em um meio de intrigas e desconcordâncias entre roteiristas, diretores e produtores.

A primeira sequência de de A Malvada começa com um closer no prêmio que será entregue à uma jovem atriz, a câmera recua e mostra um salão lotado, onde estão magnatas do show busines, atores, atrizes, jornalistas e gente que circula por este meio. O que se segue é um discurso inflamado, que justifica a entrega do prêmio à iniciante Eve Harrington (Anne Baxter). Através de uma narração somos conduzidos de volta no tempo para conhecer a trajetória da homenageada, que à princípio parece ser o clichê, a la novela mexicana, da menina pobre, que quando inserida na alta classe, ganha espaço e passa a ser respeitada. Margo Channing (Bette Davis – naquele que foi considerado um de seus melhores papéis) é a estrela mais querida da Broadway, ela é elogiada pelo público e pela crítica especializada. Num certo, dia depois das cortinas abaixarem, a respeitada atriz é apresentada à Eve, uma fã que assistiu todos os espetáculos daquela temporada e nutre uma intensa admiração pela atriz.

Anne Baxter, Betty Davis, Marilyn Monroe e George Sanders, em cena, em A Malvada

Eve conta sua triste história de vida e conquista a todos com seu jeitinho simples, inocente e cativante. Margo tocada sente que deve cuidar daquela jovem que não tem nem família e a contrata como secretária A dedicação de Eve ao trabalho, chama a atenção de todos os amigos e pessoas próximas de Margo, inclusive de seu noivo. Porém com o tempo a veterana começa a se sentir incomodada com o comportamento da moça e tudo piora quando Eve é selecionada para ser a “reserva” de Margo, no espetáculo que está em cartaz. O temor faz a atriz se tornar arredia e a acaba distanciando da “pobre” iniciante. Porém, em determinado momento, o filme dá uma reviravolta que muda completamente o conceito que temos de seus principais personagens. Paro por aqui, para não revelar nada daquilo que pode ter feito deste uma grande filme.

 

De fato a abordagem irônica que o filme traz sobre o mundo do espetáculo é o diferencial que teve em relação a outra películas da época, ele se sobressai ao estar alheio ao clichê e ao maniqueísmo hollywoodiano. Porém o principal destaque é atuação de Betty Davis, que aparece na maioria das cenas envolta numa nuvem de fumaça de seu cigarro. O ar soturno que ela apresenta, ilustra o seu medo de não ser mais respeitada como atriz e de, com isso, perder seu noivo e seus amigos. Betty Davis, que vinha atuações em filmes fracos inexpressivos, estava passando por uma situação semelhante na vida real. Tal tipo de temor é mais natural do que imaginamos no showbiz, onde o que conta, muitas vezes, não é o talento e sim as aparências. Originalmente, o papel de Margo seria de Claudette Colbert, a primeira escolha do diretor e do roteirista. Claudette machucou as costas às vésperas das gravações e então o roteiro foi enviado para Betty, ela o leu de um só vez e afirmou que era o melhor em que já tinha posto as mãos, aquele seria considerado um dos melhores papíes de toda sua carreira.

 

Em A Malvada, também temos a participação de uma atriz até então desconhecida, que interpreta uma atriz iniciante, que acompanha o crítico Addison DeWitt (George Sanders) numa festa na casa de Margo. Ironicamente, tendo em vista o contexto da trama, a atriz que estava ali fazendo apenas uma ponta, conquistaria seu espaço (pela sua juventude e beleza tão valorizadas) e se tornaria uma lenda do cinema. Era nada mais nada menos que Marilyn Monroe, que seria imortalizada e permaneceria no imaginário coletivo eternamente jovem e bela. Coisas do showbiz!

Apesar de ser considerado uma das obras primas do cinema, eu confesso que A Malvada não entraria na lista de meus filmes favoritos. Sinceramente eu esperava um pouquinho mais. Talvez a pequena decepção seja advinda da imensa expectativa que criei, mas isso não lhe tira o mérito de ser uma grande produção, com ótimas atuações e uma boa trama. Talvez eu até o eleve à condição de clássico absoluto em uma próxima assistida, mas enquanto isso não acontece ele é apenas um ótimo filme, detentor da façanha de sobreviver 60 anos e ainda se manter atual, provando que ao contrário das atrizes que envelhecem, os filmes podem ser imortais. Recomendo!

A Malvada foi indicado à 14 estatuetas no Oscar de 1951, um recorde igualado apenas por Titanic em 1998. Ganho 6 deles: Melhor Filme, Direção, Roteiro, Ator Coadjuvante (George Sanders), Figurino em Preto e Branco e Gravação de Som. As outras indicações foram para: Melhor Atriz (Anne Baxter; Betty Davis), Melhor Atriz Coadjuvante (Celeste Holme; Thelma Hitter), Direção de Arte, Fotografia, Edição e Música.


Assista ao trailer de A Malvada no You Tube ! (clique no link) 



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