segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Melancolia

Melancolia (Melancholia) - 2011. Escrito e dirigido por Lars von Trier. Direção de Fotografia de Manuel Alberto Claro. Produzido por Meta Louise Foldager e Louise Vesth. Zentropa Entertainments, Memfis Film, e Liberator Productions / Dinamarca | Suécia | França | Alemanha.


É inexplicável a reação de estar diante de uma verdadeira obra de arte e sendo assim seria uma tarefa árdua tentar convencer do contrário qualquer um que tenha apontado Melancolia (2011) como um filme chato e carente de um bom roteiro. Ele foi pra mim precisamente o oposto disso. Se trata de mais um exemplar daquele tipo raro de produção, que subverte totalmente a ideia de que o cinema serviria tão somente como bom entretenimento. Os desavisados que esperavam do longa uma boa história sobre catástrofes naturais certamente saíram do cinema amargando uma baita decepção. Lars von Trier consegue se superar e me surpreender a cada filme, eu, que considerei Anticristo (2009) uma espécie de ápice criativo, fiquei boquiaberto da primeira à última sequência de Melancolia. Se seu filme anterior evocava o asco ao expor sem atenuantes o mais brutal da natureza humana, neste ele reproduz de forma quase palpável a mais profunda angústia existencial, condição que ele mesmo experimentou nos últimos anos.

Melancolia tem sua trama focada em alguns dias na vida de duas irmãs, Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg), como de praxe Lars von Trier divide o filme em capítulos e dedica cada um deles a uma das irmãs. O primeiro, intitulado "Justine", acompanha a festa de casamento da personagem, ela não está empolgada com a cerimônia e está alheia à tudo que acontece à sua volta. A irmã, o cunhado e outros convidados exigem de Justine uma adequação às formalidades da ocasião, mas ela não deseja, nem consegue, cumprir as normas de etiqueta social que lhe cobram. Ele está imersa em um profunda depressão e todo o lampejo de alegria que esboça não passa de mera fantasia social. Sua melancolia é agravada pelas dúvidas que ela tem acerca de seu casamento, ela visivelmente tenta de tudo para agradar seu noivo, o gentil Michael (Alexander Skarsgård), mas isso também não passa de uma reação superficial, sem uma real entrega aos estímulos oferecidos pelo meio.


A explicação para a aversão de Justine à tudo que está vivendo pode estar na relação de seus pais, que estão separados, sua mãe é uma mulher liberal que não acredita nem no casamento, nem na família, já o pai parece apenas aceitar toda a situação que está vivendo sem questionar ou reclamar. Creio que não é por acaso que o filme comece justamente em uma cerimônia de casamento, afinal não é de hoje que o cinema usa a família como alegoria para situações experimentadas pelo indivíduo e pela coletividade, o casamento fadado ao fracasso aponta para a decadência da família e da própria sociedade, situações que atenuam ainda mais a angústia existencial experimentada pelos indivíduos. Aqui está um ponto chave do filme, o sofrimento e suas consequências seriam algo inerente à condição humana, algo comum a todos os indivíduos, o que varia é apenas a forma com que cada um reage a isso.


A segunda parte do filme, "Claire", direciona o foco para a segunda irmã, é neste capítulo que é anunciada a possível catástrofe, um planeta (isso mesmo, um planeta), chamado Melancholia está em rota de colisão com a Terra. Cientistas defendem que não acontecerá um choque entre os dois planetas, não havendo portanto com o que se preocupar, mas teorias diversas se espalham pela internet e Claire se expõe à elas. Ao contrário do que poderíamos esperar, é Claire, e não Justine, quem se alarma com um possível fim do mundo. Seria este o fim da existência? Em um diálogo Justine afirma: “A Terra é má, não precisamos sentir pena dela... estamos sozinhos, a vida só existe na Terra e não por muito tempo...”. Na primeira parte do filme, Claire faz de tudo para reprimir as emoções da irmã, nesta é ela quem não consegue controlar aquilo que sente, ela é tomada pelo pânico e pelo medo de perder tudo aquilo a que está apegada.


O planeta que se aproxima não é um mero detalhe, mas é tão somente uma metáfora. Assim como os personagens e suas respectivas realidades não passam de alegoria do que seria de fato real. Para Lars apenas a dor é real e ela contagia cada um de seus personagens, nenhum deles fica ileso. No tocante à metáfora ilustrada pela aproximação do planeta, entendo que a pretensão do roteiro é construir uma associação entre a iminência de uma catástrofe e a forma com que nos relacionamos com a nossa dor e a nossa angústia. A melancolia de Justine a torna imune ao medo, pois ela não tem nada a perder, o fim do mundo significa, ao seu modo de ver, o fim do sofrimento. Já Clarie está completamente indefesa, pois é então que ela passa a ter noção de sua própria fragilidade, Melancholia então a assusta de uma forma bem diferente da dos outros personagens, seu marido, John (Kiefer Sutherland) se apóia na ciência para acalentá-la e para dissimular seu próprio temor.



Mais uma vez a ciência é a extensão da ignorância e da limitação humana, o que aponta para uma visão totalmente cética e niilista. O homem não pode confiar em Deus (estamos falando de Lars von Trier), não pode confiar em si mesmo, nem tão pouco na ciência... O que restaria seria apenas uma opção por se entregar à dor, sentimento que seria capaz de tornar o indivíduo mais forte, à medida que este estivesse exposto a ele. Percebe-se aqui mais um eco da filosofia de Nietzsche na obra de Trier (o roteiro de Anticristo também tem perceptível influência da obra deste pensador, conforme comentei na resenha crítica que fiz do filme), que se manifesta nesta ideia de que o sofrimento seria o estímulo capaz de livrar o indivíduo da sentença de pairar constantemente no ar, se distanciando da terra e do que seria a verdade experimentada. Esta condenação, da qual o homem é liberto, poderia leva-lo a se tornar um ser “semi-real”, sendo assim a dor seria o fardo que empurra para o chão, para a realidade.



O desfecho do filme, que muitos apontaram como o mais positivista de Lars von Trier, não passa, ao meu modo de ver, de mais uma piada do cineasta. Ele ironiza metaforicamente as ilusões criadas para trazer conforto e atenuar a dor que se sente. O filme termina e me sobra uma pequena dúvida, teria Justine transcendido sua condição melancólica e alcançado o ideal proposto por Nietzsche do “super-homem”? Na verdade encontrar a resposta para esta pergunta não é o mais importante, o que importa é ter chegado à ela. Reforçando sua condição de obra de arte, o filme nos conduz a esta reflexão e a tantas outras acerca de nossa natureza, de nossas relações sociais e de nossas angústias. Posso não concordar com esta visão, mas isso também não importa, o fato é que Melancolia é uma verdadeira obra prima, seja pela trama, pelas excelentes atuações ou pela belíssima fotografia. Sem dúvidas um dos melhores filmes deste ano, porém seria uma besteira recomendá-lo para todos...


Melancolia ganhou o prêmio de Melhor Atriz ( Kirsten Dunst) no Festival de Cannes.

Assista ao trailer de Melancolia no You Tube, clique AQUI !

Confira também aqui no Sublime Irrealidade a resenha crítica de
Anticristo, também escrito e dirigido por Lars von Trier!


20 comentários:

  1. Na minha opinião, o melhor do ano até agora. Na minha opinião, o filme é toda uma metafora para o mundo em que vivemos, q na visão de Trier está tão mau e ruim que seria melhor que explodisse e ele faz de fato, causando como vc bem disse uma obra-prima. Otimo Texto, meu camarada!

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  2. Olá Bruno1
    Bom, é a primeira vez que acesso seu blog, que acabei indo por conta de um post seu no blog da Joicy..cheguei aqui e fiquei surpresa com a qualidade literária do seu blog. Não tive a oportunidade de ver Melancolia mas seu artigo aguçou minha curiosidade..tenho muitos filmes para ver e tentarei colocar esse em minha lista. Acho Dunst uma atriz capaz para filmes de drama..ela mostrou isso atuando em um papel dificilimo ainda criança, no Entrevista com o Vampiro.
    Aproveitando, gostei da sua descrição..também sou escritora (ainda ilusão que há de se tornar realidade) e cursei jornalismo por um ano, parando por motivos diversos. Se possivel gostaria de trocar ideias contigo entre nossos blogs.
    Estou te seguindo já!

    http://www.empadinhafrita.blogspot.com

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  3. Adorei Melancolia, mas com um tempo fui percebendo que não era tudo que eu pensava - ainda que seja belíssimo e primoroso! Prefiro ainda Anticristo. Talvez isso tenha acontecido porque pouco tempo depois assisti Árvore da Vida, que ofusca qualquer filme de 2011. Porém, acho que a obra do Lars Von Trier seja a terceira melhor do ano - ficando atrás somente do já citado Árvore da Vida e de A Pele que Habito.

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  4. Lars Von Trier surpreende mais uma vez. Melancolia é um filme tristíssimo e nos deixa questionamentos. O que faríamos se o mundo fosse acabar dentro de pouco tempo? E as coisas que não fizemos e não daria mais tempo de fazer? Abraços.

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  5. Não sou muiiito fã desse tipo de filme mas ele tem um roteiro interessante, e atores muito bons tbm gosto muito desse blog,estou aprendendo a me acustumar com criticas enfim muito bom o post bjs* http://aquelejeitoc.blogspot.com/

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  6. Eu sou fã do Lars Von Trier... Fiquei muito chateada por não ter assistido Melancolia no cinema. Nada como poder ver na telona... mas, me contentei por assistir na "telinha" mesmo. Baixei e vi... Só sei que esse filme, por dias, não saiu da minha cabeça! O.O

    Agora, deixe-me relatar minha experiência com AntiCristo. A primeira vez que assisti, simplesmente não consegui ver! Comecei e parei bem no início... Acredita!!? Absurdamente, não consegui... tenteiii, juro!! Mas, não deu! Parece que deu um bloqueio! Aí, resolvi ver pela segunda vez, aí foi! Gostei!!! Tenso e intenso!!! Valeu a pena ter tentado mais uma vez.

    bjão JoicySorciere - Blog Umas e outras...

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  7. Ps. Vejo que minha querida TSU passou por aqui... uma lindona que eu adooooro!!!! :)

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  8. É um bom filme, duro e poético, com grandes atuações.

    O Falcão Maltês

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  9. Resolvi visitar esse Blog pq fiquei apaixonado por esse filme, e claro, pela Kristen Durnst, perfeita e linda(resumindo, gostosa pra caramba).
    Mas é inegável a obra que esse diretor fez, talvez um dos três mehores diretores da atualidade.
    Qto a crítica só vou discordar num único pontinho, talvez até eu esteja errado, mas qdo justine fala para sua irmã que não existe vida fora da Terra, eu não entende como se Deus não ligasse pra gente mas que se quer ele exista, acho que Von Trier foi mais nilista do que parece, e um pensamento como esse pra mim é o auge da depressão e ao mesmo tempo pode ser tbm o auge da trancedência a dor

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  10. Gostei do seu texto e amei este filme. A dualidade existente entre as duas irmãs coloca em evidência o que elas esperavam para seus futuros; Enquanto uma parecia totalmente forte para as decisões da vida - decisões mundanas - fica fraca ao descobrir que o mundo acabará; A outra irmã aparentemente mais fraca com várias questões acerca da vida e o sobre os desalinhos da vida, se torna forte quando descobre do final do mundo, como algo que acabaria com toda a angústia do viver, já que não adiantaria mais problematizar as questões da sua vida interna. Alem de ótima ideia e ótimo roteiro, o filme é simplesmente uma obra de arte cinematográfica de alto estilo, já que com grande talento Lars usa efeitos de câmera, luz e cores para dar um toque especial e magnífico a obra, detalhes que com um pouco mais de atenção pode ser visto à olho nu - digo isto das pessoas leigas da arte do cinema.

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    1. na verdade ela não queria que o mundso acab-se e sim não teve apego ao que a sociedade coloca como desejos. Por exemplo, quando ela destruiu seu casamento ao perceber que não esta feliz. Logo ai, ela percebeu que bens materiais e ostentar não passa de coisas mediocres. Ela quebrou o sistema, logo não fazia sentido mais pra ela "chorar" pelo fim do mundo e sima aceitar. Justine não se importava com os desejos humanos impostos pela sociedade.

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  11. Tsu, é um prazer receber sua visita, fico imensamente feliz que tenha gostado deste humilde espaço virtual... Júlio, minha reação, acho que foi meio que o oposto da sua, durante toda esta semana, quanto mais eu penso no filme, mais genial ele me parece... Joicy, imagino que deva ser formidável assistir a uma obra dessas na tela grande, também não me conformo de não ter conseguido... "imagens", até reli o trecho de minha resenha que você citou e não consegui encontrar a parte que você diz que discorda (?), concordo com a sua ponderação acerca da declaração da personagem... Celo, Gilberto, Antônio, Marcel, concordo plenamente com vocês!
    "Amores Cruzados" recomendo para você esta obra magnífica, ela é uma ótima forma de estabelecer um melhor contato com o cinema autoral... Harry, Have a SUPER weekend! Obrigado a todos pela visita!

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  12. Oi J.Bruno!
    É eu passo pela mesma situação. Os filmes atuais tem me decepcionado bastante..tanto é que até evito de assistir porque smepre acho forçados ou mal-feitos em questão de efeitos exagerados e más atuações. Entretanto, Ritual foi uma excessão. Eu nem vejo o filme tanto como terror memso sabendo que é. Gostei demais do tratyamento realístico que deram ao filme, cenário, fotografia..e as atuações são excelentes... Hopkins é incomparável. E que bom que mminha critica do filme despertou o seu interesse de ver a obra.
    Ah voltarei ao seu blog sim! Isso é, se vc voltar ao meu também1
    Vamos trocando idéias! Topas?
    bjs

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  13. J. BRUNO, olha eu aqui de novo... seu comentário lá no blog, me fez lembrar de minha história de leitora! Qualquer dia desses elaboro um texto falando sobre como isso aconteceu em minha vida.

    Como vc, tbem não tive contato desde pequena. Isso surgiu já em minha adolescência de uma forma apaixonante... quase um amor a primeira vista! Foi algo do tipo “como não soube que existia esse mundo, antes?” Mas, a história é grande! Precisarei de um tempo para escrever a respeito...

    Assinado embaixo de tudo o que vc escreveu!
    Ahhh, sobre ser uma mãe maravilhosa! Eu me esforço... confesso que as vezes sou um tanto “chata”. Nesse chata, lê-se exigente e “mandona”... rsrsrsrs... mas, faço sempre uma auto avaliação para ver em que pontos preciso melhorar! Acho que a gente erra na tentativa de acertar... mas, sempre espero que o acerto venha mesmo, logo em seguida!

    Bjkssss, seu lindo!!! :D

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  14. Está aí um filme que eu quero ver,fiquei curiosa!

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  15. Olá J. Bruno, não conhecia o seu blog, cheguei aqui por sites referentes e me deparei com essa bela e completa análise de um dos melhores filmes do ano.

    Parabéns pela crítica! Amarrou muito bem o universo de von Trier na fita, é mesmo um filme impressionante, e nada daquilo que ele disse em Cannes - na coletiva, ele declarou que achava que seu filme tinha muito "chantilly", bobagem...

    O que eu achei incrível em "Melancolia" é o estudo das protagonistas e seus estados de espíritos opostos, pois enquanto uma exala confiança e serenidade, a outra se mostra vulnerável e insegura. Achei esse jogo espetacular e as atrizes estão um estouro.

    Abs!

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  16. Bem interessante o olhar de cada espectador diante de uma obra. Como eu coloquei no meu post, o que mais me interessou nesse filme foi a primeira parte, talvez por ainda estar contagiado com Festa de Família, que assisti no começo do ano e que, inevitavelmente, enxerguei tais referências na primeira parte de Melancolia.
    Talvez por gostar tanto da primeira parte, é que minha empolgação diminuiu na segunda, pois mudou o ritmo da história. De qualquer forma, a sua visão "global" do filme me fez dar mais valor à segunda parte. Apesar de eu achar um pouco pobre, ela, somada à primeira parte, resultam em um grande filme.

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    1. Eu gosto mais da segunda porque é nela que se encontram as explanações filosóficas que o roteiro ensaia, o que na minha opinião é de longe o melhor aspecto do filme...

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  17. Se vc perceber, a Justine tem justamente o que a sociedade cria na gente, Desejo de ostentar, te rum casamento, Noivo bonito, emprego e por ai vai... Quando Justine percebe que isso não afastou sua melancolia, Ela chegou na conclusao de que ela não precisa disso. Por isso quando o planeta vai acabar, ela simplesmente não se importa pois seus desejos humanos foram destruidos. Desejo é diferente de necessidades. Desejos é algo imposto para nos acreditarmos que com aquilo nos seriamos felizes. Justine não tinha isso e acha isso medíocre. No pensamento dela deve ser assim : O que é aquela limousine que eu cheguei no casamento perto do imenso universo? nada, apenas um desejo humano de ostentar que não faz sentido.

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