quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Cólera - O Último dos "Gigantes"

.Uma Homenagem Póstuma.
 ao Maior Ícone do Movimento Punk no Brasil.

 

Hoje, quando entrei no facebook pela manhã, recebi a notícia trágica: “Edson 'Redson' Pozzi, vocalista e guitarrista da banda punk Cólera, morreu nesta terça-feira (27), aos 49 anos”. Para a grande maioria das pessoas nem este nome, nem a notícia, têm sentindo algum, mas para mim a aquela manchete caiu como uma bomba! À medida que eu procurava por confirmação daquele fato na rede e percebia que ele ia se tornando mais real, fui sendo tomado por um inesperado sentimento de comoção. De repente eu já tinha sido transportado para uma das épocas mais agitadas de minha vida, o final de minha adolescência, período de transformações, traumas e contato com o que de mais real e cruel a existência pode nos oferecer. Acho que dentre as bandas que eu ouvia com maior frequência neste período, somente o Ramones tenha sido mais importante, do que o Cólera foi. Mas diferente da banda americana, que me ensinou o que era Rock de verdade, o trio paulista me deu algo que ia além de sua sonoridade, suas canções deram voz ao meu engajamento e às minhas utopias, que eram então o que de melhor que eu tinha.

O Cólera foi formado em 1979, sendo uma das primeiras bandas da cena punk, que surgira em São Paulo nos idos de 1978. Em 1982, a banda participou, ao lado de Inocentes e Olho Seco, do primeiro disco Punk lançado no Brasil, o clássico Grito Suburbano, em novembro do mesmo ano o trio se apresentou no lendário festival O Começo do Fim do Mundo, organizado pelo escritor e jornalista Antônio Bivar; o evento rendeu um LP com 19 faixas, uma de cada uma das bandas participantes (apenas o Ulster não quis participar da edição original do disco). No ano seguinte Redson criairia o Estúdios Vermelhos, que mais tarde passaria a se chamar Ataque Frontal, por este selo foi lançado Sub, outra coletânea clássica do período, que trazia o Cólera, o Ratos de Porão, o Fogo Cruzado e o Psykóze, cada uma das bandas com seis músicas. Em 1985 o Cólera lança, pelo selo de Redson, o seu primeiro álbum, intitulado Tente Mudar o Amanhã, que tinha nítida influência do punk/hc finlandês. No mesmo ano é lançado o Split LP, Ao Vivo na Lira Paulistana, junto com o Ratos de Porão.

 

Em 1986 foi lançado o disco mais clássico da banda, Pela Paz em Todo o Mundo, que trazia músicas como Medo, Direitos Humanos, Alucinado, Adolescentes e o hino Pela Paz. A temática pacifista indicava que a banda já havia alcançado a maturidade e era ainda um diferencial em uma cena onde ainda existia uma acentuada segregação entre as bandas da capital e as do ABC Paulista, contexto que favorecia o acontecimento de brigas e outros casos de violência. Diferente da cena de Brasília, onde os integrantes das bandas eram geralmente estudantes filhos de políticos e diplomatas, o cenário paulista era formado por jovens operários e desempregados, mas mesmo sem nenhum recurso aqueles "garotos do subúrbio" fizeram valer o do it yourself teorizado pelo punk inglês, prova disso foi que em 1987, o Cólera encarou uma turnê que passou por vários países da Europa, sem ganhar nenhum dinheiro com isso, apenas as passagens e o alojamento em squaters (casas abandonadas que são ocupadas por ativistas).

 

Em 1987 a banda lançou o disco ao vivo European Tour '87, gravado durante a excursão do outro lado do Atlântico, e o seu segundo álbum, intitulado Verde, Não Devaste, que trazia uma urgente mensagem ecológica em faixas como Verde, Dont Waste It e Presídio Zoo, isso em uma época em que o ambientalismo ainda não era moda. Em 1992 lançaram o regular Mundo Mecânico Mundo Eletrônico, cujo o principal destaque é uma regravação, a da faixa 1.9.9.2., presente no primeiro disco. Após seis anos sem lançar nada de novo, o Cólera grava o excelente Caos Mental Geral, que chega a soar como uma volta aos primórdios. O disco traz músicas memoráveis como a faixa título, Cultural Revolução, Fuck I.U.R.D. e Dia e Noite, Noite e Dia, além de regravações de lados B e músicas presentes até então só em coletâneas como, Dê o Fora, Subúrbio Geral e Quanto Vale a Liberdade?, esta última, a melhor música da banda na minha opinião.

 

Mais outros seis anos sem novidades e então a banda nos presenteia com Deixe a Terra em Paz!, disco que mesclou o pacifismo de Pela Paz em Todo o Mundo e o Ambientalismo de Verde, Não Devaste, em músicas que mostravam uma sofisticação nunca antes experimentada pela banda. A poesia marginal expressa em letras diretas dão lugar a metáforas e alegorias, que ilustram reflexões sobre temas mais maduros e complexos, tirando o foco que até então estava na sociedade e direcionando-o para o indivíduo. Os destaques do disco são as faixas Espelho no Quintal, De ET pra ET, Samba-Core, Circocore, Aperta o Nó, Águia Filhote e São Paulo é Gig. Foram ao todo seis álbuns de estúdio, pode parecer pouco, mas foi o suficiente para transformar a banda em uma lenda, uma verdadeira instituição do movimento punk brazuca. Mesmo nos anos em que não gravou nada de novo, a banda continuou excursionando e se apresentando nos quatro cantos do país.

 

Nenhum dos integrantes chegaram a conseguir viver da banda, eles conciliaram durante anos os shows com seus respectivos empregos, sem nunca conseguirem sucesso comercial, o que fato não era o interesse da banda. O Cólera conseguiu atravessar três décadas se mantendo fiel à sua proposta original, sem se deixar levar por modas e pela pressão do mercado convencional. A banda é na minha opinião a que melhor representou não só a cena punk, mas todo o underground brasileiro nos últimos anos. Como você pode perceber no decorrer deste post, onde tentei resumir a trajetória da banda, eles foram os pioneiros de tudo aquilo que sustentou e ainda sustenta o meio alternativo até hoje. Com a morte prematura de Redson, devido a uma parada cardio-respiratória, a banda encerra suas atividades (uma vez que é quase inconcebível alguém o substituir) deixando um aperto no coração de quem presenciou e viveu ao menos parte desta respeitável trajetória.


Redson - um verdadeiro guerreiro do movimento punkl 
Só quem viveu as mesmas coisas que eu e alimentou as mesmas utopias pode compreender o impacto que a banda provocou em um dos melhores, apesar de tudo, e mais loucos períodos de minha vida... Precisei registrar aqui esta tentativa de homenagem á voz que um dia bradou: “Gostaria de te escutar, gostaria de te entender, por que você é Alguém! Se você quiser pode dizer o que sente, pode até gritar...”. Que traduziu minha indignação: “Às vezes tenho raiva, às vezes sinto que a ilusão me faz recuar, pois muita gente mente, pois muita gente dá a mão só pra empurrar...”. Que me ajudou a tecer inúmeras reflexões: “Se você não se virar pro espelho, sempre vai ter esse vulto por trás, um vulto estranho que te dá medo. Não corra não, é só você. O mundo dá voltas, o mundo dá voltas e a vida se entorta pra gente enxergar. O mundo dá voltas, o mundo dá voltas e a gente volta pra se reencontrar...”. E me deu a noção precisa da força que eu tinha em minhas mãos: “Você percebe que o tempo se vai, como as águas de um rio, vai se afastando, se encolhe mais, deixando um vácuo, um vazio. Voltar, voltar, voltar. Não tem por onde. Onde?! Você está solto, pode se afundar, ou pode se controlar! Forte e grande é você!”... Valeu camarada!
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domingo, 25 de setembro de 2011

Missão Madrinha de Casamento

Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids) - 2011. Dirigido por Paul Feig. Escrito por Kristen Wiig e Annie Mumolo. Direção de Fotografia de Robert D. Yeoman. Música Original de Michael Andrews. Produzido por Judd Apatow, Barry Mendel e Clayton Townsend. Universal Pictures. / EUA.

 

Se no Brasil o trâmite de atores e atrizes entre o cinema e a televisão na maioria das vezes não funciona bem, nos Estados Unidos tal fenômeno tem se dado de forma bem diferente. Em terras tupiniquins, atores são selecionados mais pela aparência física do que pelo talento, o que não faz tanta diferença em se tratando de televisão, deviso à baixa qualidade artística da maioria das produções. Salvo em raras exceções, os rostinhos bonitos da TV não conseguem fazer bem a transição de linguagem e acabam fazendo feio no cinema. Isso explica aquela sensação de estar assistindo a uma novela da Globo, que experimentamos em boa parte das produções de visibilidade do cinema nacional. Ainda pretendo tentar tecer aqui no blog uma análise crítica acerca do cinema nacional, mas isso é conversa para uma outra hora. Recorri a esta relação, por vezes conflituosa, entre o cinema e a televisão, para falar de Missão Madrinha de Casamento (2011), uma das comédias mais elogiadas do ano.

Confesso que fui assistir ao filme com um pouquinho de preconceito, eu não esperava que ele fosse tão legal quanto a crítica especializada tem dito que ele é. Mas para minha surpresa, eu estava errado mais uma vez. Missão Madrinha de Casamento é uma comédia leve e simplesmente hilária, sem para isso precisar apelar para os clichês mais batidos do gênero ou para o besteirol. Algo curioso, e que tem sido muito comentado, é o fato de ser uma comédia protagonizada por um grupo de mulheres, o que não se via há muito tempo. Ao contrário do que os mais machistas podem achar, não é um filme para garotas. As situações vivenciadas pelos personagens na trama são universais e por isso conseguem com tanta facilidade arrancar o riso, mesmo dos mais “machões”.

 

A versatilidade do elenco e sua habilidade com a comédia, não é surpresa na maioria dos casos, uma vez que boa parte da equipe vem de humorísticos da televisão (eles conseguem fazer a transição de linguagem da forma mais natural possível). Kristen Wiig, que interpreta a personagem central do filme, faz parte do elenco de Saturday Night Live há seis anos, Maya Rudolph, também trás no currículo uma passagem pelo programa no período de 2000 a 2007, Melissa McCarthy acabou de receber o Emmy de Melhor Atriz em Série de Comédia pela sua atuação no sériado Mike & Molly e Ellie Kemper está no elenco atual do ótimo seriado The Office. A surpresa é ver atores como Jon Hamm, o sério e enigmático Dom Draper da série Mad Man, e Rose Byrne, a Ellen Parsons da série Damages, tão bem em papéis cômicos.

 

Na história, Annie (Kristen Wiig) é uma mulher cuja vida está uma verdadeira bagunça, a crise levou seu negócio, uma confeitaria, à falência. Junto com a loja ela perdeu o namorado, este se foi quando percebeu o cheiro de prejuízo no ar. Sem ter outra opção, ela começa a trabalhar como balconista em uma joalheria, empregou que a mãe lhe conseguiu. Ela tenta manter uma relação com o bon vivant Ted (Jon Hamm), mas este não quer compromisso, apenas o sexo casual. Por não querer voltar para a casa da mãe, Annie divide um pequeno apartamento com dois imigrantes, Gil (Matt Lucas) e sua irmã tapada Brynn (Rebel Wilson). No meio de todas estas loucuras, ela só consegue encontrar afago na amizade que mantém desde a infância com Lillian (Maya Rudolph).

 

Contudo, a bela amizade entre as duas se vê ameaçada quando Lilian anuncia que vai se casar e convida Annie para ser sua madrinha. Diferente do Brasil, nos Estados Unidos é a madrinha quem organiza a festa e todas as etapas do casamento, ou seja são mais problemas para a já problemática Annie. Aquilo que parecia impiorável, piora com o aparecimento da jovem socialite Helen (Rose Byrne), a nova amiga de Lilian. Helen é casada com um homem rico e tem muito dinheiro para gastar com futilidades, o que a torna a pessoa perfeita para desempenhar o papel que foi confiado a Annie, esta começa a alimentar um ciúme doentio de tudo que está acontecendo de novo na vida da melhor amiga, sentimento este que se acentua com o surgimento de Helen em sua vida. O time fica completo com a chegada das outras madrinhas, a maluca Rita (Wendi McLendon-Covey), a certinha Becca (Ellie Kemper) e a masculinizada Megan (Melissa McCarthy – excelente no papel).

 

Missão Madrinha de Casamento explora os recursos da comédia sem ser excessivamente apelativo em nenhum momento, as gags presentes no filme são ótimas e algumas cenas são realmente hilárias. Quando assisti-lo, preste atenção na cena que se passa em um avião, na passagem em que Annie e Lilian brigam para decidir quem dirá a última palavra no discurso de noivado e na sequência que se passa em uma loja de vestidos, onde as personagens vão após uma passagem por um restaurante de comida brasileira (!)... Mesmo em meio a tantas piadas visuais e situações embaraçosas, um fio dramático é tecido a partir da vida de Annie, o que torna a personagem humana e ainda mais convincente. Cheguei a ler que este filme seria uma versão feminina de Se Beber Não Case (2009), porém com uma alma, ainda não assisti ao filme de Todd Phillips, mas não há dúvidas de que o diferencial de Missão Madrinha de Casamento, quando comparado com outras comédias, é esta “alma” que ele tem.

 

Se a Academia não tivesse mudado os parâmetros para a indicação ao Oscar de Melhor Filme, estou certo de que Missão Madrinha de Casamento figuraria na lista. De fato não é uma obra prima, mas é do tipo de filme que fará surgir uma boa quantidade de similares. Cada uma das críticas positivas que ele vem recebendo são realmente merecidas. Tenho que assumir, eu estava enganado mais uma vez em meu preconceito, pois esta obra se trata de entretenimento da melhor qualidade. Aproveite para assisti-lo na tela grande enquanto ele ainda está em cartaz. Esteja certo(a) de que o risco de arrependimento é quase nulo, este longa certamente irá agradar os mais diversos tipos de público, dos mais exigentes, àqueles que entrarão na sala de projeção apenas para acompanhar as namoradas, dos totalmente leigos, aos fãs dos programas de TV, dos quais os atores são oriundos. Recomendo!

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Por Uma Vida Melhor

Por Uma Vida Melhor (Away We Go) - 2009. Dirigido por Sam Mendes. Escrito por Dave Eggers e Vendela Vida. Direção de Fotografia de Ellen Kuras. Música Original de Alexi Murdoch. Produzido por Peter Saraf, Edward Saxon e Marc Turtletaub. Focus Features. / EUA | UK.

 

Sempre acreditei e defendi que no tocante à música a nossa época seria lembrada por aquilo que está sendo produzido na cena underground e não pelos produtos comercias do mainstream. Os independentes têm a vantagem de não estarem submissos a padrões criativos e estéticos impostos pela indústria, o que favorece a criatividade e a originalidade de seus trabalhos. Cada vez mais me convenço que tal fenômeno, que observo no meio musical, também vale para o cinema. Algumas das melhores obras que assisti nos últimos anos tiveram origem na prolífera cena indie, que tem rompido fronteiras e, graças às novas tecnologias, está presente até mesmo em países que não tinha até então nenhuma tradição no meio. Alheios às megalomanias hollywoodianas, os filmes indies têm conquistado público e ganhado cada vez mais espaço em circuítos maiores. E não é de se estranhar que mesmo realizadores já renomados escolham uma volta ao básico, a um tipo de modelo de produção no qual a liberdade de criação conta mais que o sucesso de bilheteria. 

Por Uma Vida Melhor (2009) (também lançado no Brasil com o título de Distante nós Vamos), o quarto longa de Sam Mendes, é um exemplo perfeito do nível de qualidade que a cena indie tem alcançado, ele é um dentre muitos filmes que podem justificar a premissa que expus acima, a de que a relevância destas obras ainda será apontada no futuro como um dos melhores aspectos do cinema contemporâneo. O longa consegue mesclar a leveza e a despretensiosidade, características marcantes deste estilo de filmes, com a direção precisa de Sam Mendes e um roteiro muito bem escrito. O resultado disso no entanto não é um sucesso imediato de bilheteria e sim um filme simples, delicioso de se assistir e dotado de uma inteligencia tamanha, que pode fazer com que os mais despercebidos não compreendam que estão diante de uma pungente crítica ao “way of life” americano, o que em se tratando de Sam Mendes já era bem esperado. O diretor estaria se repetindo? De forma alguma!

 

Em Por Uma Vida Melhor, Mendes retrata novamente a realidade de uma família nuclear americana, mais uma vez o ideal do sonho americano é o alvo das críticas que seu filme tece. Se em Foi Apenas um Sonho (2008) o foco está sobre uma família que tem tudo aquilo que a sociedade considera necessário para ser feliz e não o consegue ser, desta vez o centro da trama é um casal que não tem nada disso e está a procura de algo que lhe possa trazer realização. Ambos estão um pouco frustrados por considerarem que suas vidas se estacionaram e que eles não chegaram nem perto do ideal comum de felicidade, que se sentem pressionados a alcançar. Burt (John Krasinski – o Jim do seriado The Office) é um analista financeiro que trabalha no ramo de seguros e Verona (Maya Rudolph – ex-Saturday Night Live) ganha a vida como ilustradora de livros de anatomia, ambos trabalham em casa. Na primeira sequência do filme, Burt descobre da maneira mais improvável possível que Verona está grávida. Um corte e já nos deparamos com Verona no sexto mês de gravidez.

 

Burt e Verona se vêm sozinhos na missão de criar e educar o filho que está prestes a chegar, quando os pais dele, que moravam relativamente perto, decidem viajar para Bélgica e lá ficarem por dois anos. É então que o casal decide pegar a estrada, num itinerário predeterminado por Verona, para tentar reencontrar parentes e amigos e achar o melhor lugar para viver a partir de então. Como em qualquer road movie, a viagem trará experiências e autoconhecimento que irão transformar a maneira com que eles enxergam o mundo e a vida familiar. Os personagens com quem eles encontram em cada cidade por ondem passam, apesar de excêntricos e caricatos, representam da melhor forma possível a fauna americana que habita debaixo de um mesmo teto. São diversas concepções de família e várias formas de encarar a paternidade, mas em nenhuma delas Burt e Verona conseguem se encontrar, tal processo mostrado no filme, funciona como uma desconstrução do sonho americano e de toda a concepção deturpada que se tem da vida conjugal e da relação com os filhos.

 

O roteiro de Por Uma Vida Melhor é simplesmente magnífico e faz com que nós expectadores experimentos diversas emoções durante a exibição. Este é um daqueles filmes raros, cujas cenas conseguem nos fazer rir e chorar ao mesmo tempo, tamanha sensibilidade. O longa está repleto de sequências hilárias e memoráveis, como uma na qual uma mãe aponta os defeitos do próprio filho e diz que a filha de 12 anos parece "sapatão", ou na ótima cena que envolve um casal que leva uma vida “alternativa” e um carrinho de bebês... A angulação dramática do filme vem à tona em excelentes diálogos entre os personagens, como na cena em que Burt e Verona conversam sentados em uma cama elástica, à noite no jardim da casa do irmão dele em Miame. Em uma outra passagem, um personagem secundário, que levava uma vida aparentemente feliz, lamenta: “Pessoas como nós esperam até os 30 anos e aí se surpreendem quando fica difícil fazer filhos. E a cada dia, outro milhão de garotas de 14 anos ficam grávidas sem tentar”. Como não ver neste tipo de declaração a falência da família como instituição e consequentemente a do sonho americano?

 

No final das contas, percebe-se que tudo não passa de hipocrisia a aparências, que na verdade é o que guia a sociedade americana (e a nossa por tabela) e o que Sam Mendes vem criticando desde Beleza Americana (1999). Ao contrário dos outros longas do diretor, este é alegre e chega a ser otimista, mesmo tocando em temas por vezes tão dolorosos. A história nos ajuda a compreender que a felicidade verdadeira está bem longe de qualquer ideal materialista e consumista. Entendemos então que os personagens não precisam estar casados, não precisam ter os melhores empregos do mundo, não precisam ter filhos perfeitos e não precisam atingir alguma meta imposta para alcançarem a felicidade, pois a felicidade está nas coisas mais simples da vida, como voltar ao passado e perceber que tudo está surpreendentemente diferente e que o presente precisa apenas ser vivido com a maior intensidade possível! A alegoria da árvore que não dava frutos, enfeitada pelas crianças com frutos falsos, é perfeita para ilustrar a ilusão da qual os personagens tentam escapar, ilusão esta que o cinema indie consegue superar com maestria inigualável.

 

Já poderia ter concluído esta resenha do filme, mas não posso deixar de comentar outros aspectos que o tornaram uma obra tão especial. A trilha sonora é apaixonante e está em perfeita sintonia com aquilo que o filme está tentando nos dizer sobre a simplicidade. Os enquadramentos e movimentos de câmera são muito bons, preste atenção na cena em que os personagens deslizam em uma esteira de um aeroporto, ou no enquadramento e fotografia da cena seguinte em que eles aparecem já no avião... O maior destaque, no entanto, fica por conta das atuações de John Krasinski e de Maya Rudolph, eles criaram tipos comuns, porém cheios de empatia, que nos parecem tão familiares e verdadeiros, ambos estão ótimos em seus personagens e conseguem nos cativar ainda mais à medida em que vamos os conhecendo melhor no decorrer do filme... Se você tiver uma oportunidade de assistir a este filme, não a perca! Por Uma Vida Melhor tem a beleza e a sensibilidade que raramente pode ser encontrada no cinema espetáculo! Ultra recomendado!



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Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a resenha crítica de 
Foi Apenas um Sonho (2008), o terceiro longa de Sam Mendes.

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terça-feira, 20 de setembro de 2011

O Império dos Sentidos

O Império dos Sentidos (Ai no korîda, 愛のコリーダ) - 1976. Escrito e Dirigido por Nagisa Oshima. Direção de Fotografia de Hideo Itoh. Música Original de Minoru Miki. Produzido por Anatole Dauman. Argos, Oshima e Shibata. / Japão | França.

 

Nem consigo imaginar a reação das plateias que assistiram o polêmico filme O Império dos Sentidos (1976) na tela grande, quando ele estreou nos já longínquos anos setenta. O diretor japonês Nagisa Oshima, responsável pela obra, já tinha uma carreira consolidada e uma reputação construída dentro do movimento que ficou conhecido como Nuberu Bagu (a Nouvelle Vague japonesa), quando adaptou para o cinema uma história real acontecida no Japão na década de trinta. A película foi ousada ao recorrer a cenas de sexo explícito, que fazem a clássica cena “da manteiga” de O Último Tango em Paris de Bertolucci parecer coisa de novela das seis. O erotismo escancarado está presente do início ao fim do filme, o que me levou a questionar em alguns momentos o porque de ele não ser rotulado como um simples pornô, uma vez que este gênero já existia e tinha adeptos desde os primórdios do cinema.

Cheguei à uma conclusão apenas após o final da exibição. De fato eu não tenho como analisar um filme sem considerar o contexto cultural no qual ele foi produzido, fazer isso, principalmente neste caso, seria uma verdadeira injustiça. A época em que a película foi rodada era um período de intensas mudanças, de contestação e de liberação dos costumes. Quem ainda não o assistiu pode achar, pelo que estou dizendo, que O Império dos Sentidos é uma exaltação de tudo isso que aquelas décadas representaram, mas definitivamente não o é, e isso é algo que o diferencia de um pornô qualquer. Explico, Oshima, ao que me parece, não estava interessado em despertar a libido dos apreciadores da pornografia tradicional, o que ele pretendia era justamente chocar os cinéfilos comuns que tinham pouca, ou nenhuma, afinidade com o gênero.

 

Como já mencionei, a trama de O Império dos Sentidos é inspirada em um acontecimento real que chocou o Japão em 1936. Na história contada no filme, uma jovem prostituta, Sada (Eiko Matsuda), se muda para a casa de Kichi-Zo (Tatsuya Fuji) após a falência e endividamento de seu antigo amante. Kichi-Zo é casado e vive cercado de gueixas e serviçais, no entanto ele ignora isso e não tenta esconder a relação que começa com a nova empregada. Alheio a tudo que está acontecendo às suas voltas, ambos se entregam a uma paixão carnal avassaladora. O ato sexual é explorado pelo casal em todas as suas possibilidades e, tal como uma droga, ele vai consumindo ambos. Imersos em jogos sexuais que parecem não ter fim, eles transam sem se importar com gueixas e outras empregadas que os observam, algumas vezes ignorando, em outras assustados e constrangidos.

 

À medida que o filme vai se aproximando do fim, a tragédia iminente vai se materializando e as cenas vão ficando mais pesadas e indigestas. Em uma das cenas mais contundentes, alimentos são inserido na vagina da mulher para depois serem ingeridos... bizarro não? Pois acreditem, o final é mais bizarro ainda, assustador por nos lembrar que algo similar realmente aconteceu um dia. Não sei se tenho a resposta para quem me questionar o porquê deste filme figurar na maioria das listas de melhores ou mais importantes obras da história da sétima arte, mas acredito que quem se dispuser a vê-lo com um olhar que vá além das cenas de sexo, enxergará nele quase uma premonição de uma época de paixões fugazes e destrutivas, um tempo destituído de sentimentos e idealismos, onde prevalece apenas a sensação e o imediatismo. 

 

Além da forte carga erótica que o estigmatizou, o filme trás excelentes atuações, aspecto que o distancia ainda mais de um pornô comum, e uma história que consegue escapar da superficialidade, na qual poderia ter se perdido. Numa análise ainda mais profunda, a obra pode ser tida como uma contestação contra o consumismo e o materialismo que vinha tomando conta do país desde o final da segunda guerra, com a influência cultural norte americana. O cunho nacionalista, que se esconde na trama do filme, fica evidente em uma sequência em que Kichi-Zo caminha apressado pela rua no sentido oposto dos soldados que marcham, no que seria um prelúdio da entrada no Japão na segunda guerra, alheio a tudo isso o personagem só quer chegar em casa e dar continuidade aos jogos sexuais que o levarão à sua própria destruição. Eu, que cheguei a dormir durante a exibição (o que não é comum, mesmo nos filmes mais lentos), acho que não o incluiria na minha lista de filmes indispensáveis, no entanto não posso ignorar que talvez ele realmente seja um dos melhores filmes eróticos de todos os tempos!

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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Vencedores do Emmy Awards 2011

 

A entrega dos prêmios da 63° edição do Emmy aconteceu ontem no Teatro Nokia em Los Angeles. A cerimônia não teve grandes surpresas, Modern Family e Mad Men confirmaram o favoritismo e levaram os prêmios de Melhor Série de Comédia e de Drama, respectivamente. A primeira pode ser considerada a grande vencedora da noite, por ter levado outros dois dos prêmios principais, o de Melhor Atriz Coadjuvante de Comédia (Julie Bowen) e o de Melhor Ator Coadjuvante de Comédia (Ty Burrel). A minissérie Mildred Pierce, outra dentre as favoritas, foi a vencedora em cinco das 21 categorias nas quais fora indicada, dentre elas a de Melhor Atriz em Minissérie ou Filme para TV (Kate Winslet - mais que merecido) e a de Melhor Ator Coadjuvante em Minissérie ou Filme de TV (Guy Pearce). Se eu tivesse que apontar uma injustiça nesta edição (tarefa difícil uma vez que não conheço todos os indicados), esta seria a não premiação de Steve Carrel na categoria de Melhor Ator de Comédia, ele não venceu em nenhuma das cinco vezes em que fora indicado ao prêmio e esta foi sua última oportunidade de recebê-lo pela sua excelente atuação como o excêntrico Michael Scott de The Office, esta foi sua última temporada na série. 


Vamos então à lista completa dos vencedores das principais categorias:

Melhor série dramática: Mad Men
Melhor série de comédia: Modern Family
Melhor ator em série dramática: Kyle Chandler, por Friday Night Lights
Melhor atriz de série dramática: Julianna Marguiles, por The Good Wife
Melhor ator de série de comédia: Jim Parsons, por The Big Bang Theory
Melhor atriz de série de comédia: Melissa McCarthy, por Mike & Molly
Melhor ator coadjuvante de série dramática: Peter Dinklage, 
por Game of Thrones
Melhor atriz coadjuvante em série de drama: Margo Martindale, 
por Justified
Melhor ator coadjuvante em série de comédia: Ty Burrel, 
por Modern Family
Melhor atriz coadjuvante em série de comédia: Julie Bowen, 
por Modern Family

Jim Parsons (The Big Bang Theory)
Melhor roteiro de série dramática: Friday Night LightsMelhor direção de série dramática: Martin Scorsese, por Boardwalk Empire
Melhor direção de série de comédia: Michael Spiller, por Modern Family
Melhor roteiro de série de comédia: Steve Levitan e Jeffrey Richman, 
por Modern Family
Melhor minissérie ou filme para TV: Downtown Abbey
Melhor ator em minissérie, série ou filme de TV: Barry Pepper, 
por The Kennedys
Melhor atriz em minissérie ou filme para TV: Kate Winslet, 
por Mildred Pierce
Melhor ator coadjuvante em minissérie ou filme de TV: Guy Pearce, 
por Mildred Pierce
Melhor atriz coadjuvante em minissérie, série ou filme de TV: Maggie Smith, 
por Dowron Abbey
Melhor direção de minissérie, filme ou especial dramático: Brian Percival, 
por Downtown Abbey
Melhor roteiro de minissérie, filme ou especial dramático de TV: 
Downton Abbey

Kate Winslet (Mildred Pierce)
The Daily Show, com Jon StewartMelhor programa de variedades, musical ou comédia: 
Melhor roteiro para programa de variedades, musical ou comédia: 
The Daily Show, com Jon Stewart
Melhor direção de programa de variedades, musical ou comédia: Don Roy King, 
por Saturday Night Live
Melhor reality show ou programa de competição: The Amazing Race



domingo, 18 de setembro de 2011

Asas do Desejo

Asas do Desejo (Der Himmel Über Berlin) - 1987. Dirigido por Wim Wenders. Escrito por Wim Wenders e Anatoule Dauman, inspirado pela obra poética de Rainer maria Rilke. Direção de Fotografia de Henry Alekan. Música Original de Jürgen Knieper. Produzido por Anatole Dauman e Wim Wenders. Argos, Road Movies e WDR. / Alemanha Ocidental | França.

 

A Alemanha estava completamente devastada ao final da 2° guerra mundial, com o término do conflito bélico um período de reconstrução interna se iniciara. De fato era um recomeço, o país precisava se reerguer fisicamente, economicamente e politicamente. A reestruturação no entanto era relativamente simples perto daquilo de mais valioso que a nação perdera, sua identidade. Isto já havia acontecido ao final da primeira guerra, o que forjara o contexto ideal para que Hitler chegasse ao poder, o ditador criara então uma pseudo identidade para o povo Alemão, baseando-se em princípios absurdos de superioridade racial. Com a derrocada da ideologia nazista, a Alemanha experimentou pela segunda vez esta crise de identidade, que ainda seria intensificada em 1949, com a divisão do país em quatro zonas de ocupação militar. As três zonas a oeste viriam a formar a República Federal da Alemanha, que se estabeleceria como um regime capitalista, enquanto a área a leste, ocupada pela União Soviética, se tornaria a República Democrática da Alemanha, e se firmaria como um estado comunista.

Os reflexos da situação política e econômica da Alemanha podem ser observados na produção cinematográfica do país das décadas seguintes. A partir dos anos 50, com o início da guerra fria, a Alemanha ocidental passaria a receber uma influência bem mais acentuada da cultura norte-americana, e nomes do cinema clássico dos Estados Unidos serviriam de base para obras de cunho mais autoral, que começavam a ser produzidas no país. Os gênero Noir e o Western foram a inspiração para o Manifesto de Oberhausen, escrito por alguns daqueles que seriam o precursores do Novo Cinema Alemão, que se propunha a recriar a produção cinematográfica do país a partir do zero, se livrando assim dos fantasmas do passado e recriando uma nova identidade artística para o país. Mas este movimento não foi só um resultado da influência americana, foi também um reflexo do que já estava acontecendo ao redor do mundo com o desbunde cultural da década de 60. Características semelhantes, além do conceito de “cinema de autor”, podem ser observadas também no Cinema Novo do Brasil, no British New Cinema da Inglaterra e na Nouvelle Vague Francesa.

 

Os três principais expoentes do Novo Cinema Alemão foram Werner Herzog (diretor de Fitzcarraldo), Rainer Wener Fassbinder e Wim Wenders. Wenders, diferente dos outros dois, não se contentou em apenas desconstruir o modelo de cinema hollywoodiano, que tinha até então como influencia. Após conquistar o prestígio como um dos mais importantes realizadores de seu tempo, ele decidiu se aventurar cá do outro lado do atlântico, no entanto sua tentativa de ser comercial resultou em obras apontadas como “menores” pela crítica especializada e pelo público que o respeitava pelos seus primeiros trabalhos. Demorou para que Wenders reconhece o erro que fizera ao tentar se “vender”. Depois de uma sequência de trabalhos mal sucedidos esteticamente e comercialmente, ele percebeu que seu valor estava era justamente na forma poética e nada comercial com que ele retratara o consciente coletivo alemão do período pós-guerra. Asas do Desejo (1987) é considerado uma das obras primas do diretor e foi produzido na fase que antecede o período hollywoodiano de sua carreira. Com nítidas influências do romantismo (escola literária surgida na Alemanha), o filme se mostra como uma belíssima alegoria de Berlin no período da guerra fria.

 

No filme, dois anjos Damiel (Bruno Ganz) e Cassiel (Otto Sander) atual como vigilantes, ou anjos da guarda da cidade. Eles podem escutar os pensamentos angustiados das pessoas à sua volta e, apesar de não poderem interferir nos acontecimentos, eles tentam oferecer uma espécie de conforto espiritual aos necessitados. A presença dos anjos só é sentida por crianças e por cegos, de alguma forma estes conseguem ver além das ruínas, que são as únicas coisas que os demais conseguem enxergar. O conflito da história se inicia quando Damiel se apaixona pela trapezista Marion (Solveig Dommartin), a quem ele tentara confortar. Após conhece-la, ele passa a se sentir um ser cada vez mais limitado por não ter a capacidade de sentir aquilo que os homens sentem. A ausência do sentimento do mundo sob a perspectiva dos anjos é mostrada através de uma belíssima fotografia em preto e branco, que se diferencia da visão dos humanos, onde o mundo pode ser percebido em todas as suas cores. Para viver sua paixão e experimentar aquilo que tanto anceia, Damiel tem que negar sua imortalidade e assumir a condição humana.

 

Paralelamente à história protagonizada pelos anjos, vão sendo desenvolvidas tramas menores, que se materializam apenas pelo pensamento de uma pessoa de quem um dos anjos está cuidando, ou pela perspectiva dos personagens secundários, dentre eles o ator Peter Falk (que interpreta a si mesmo), o velho poeta Homero, que raramente sai de uma biblioteca pública e a própria Marion que está profundamente angustiada. Tal como Bergman em O Sétimo Selo (1956), Wenders recorre à arte circense para representar um fio de esperança e de felicidade que resta à humanidade em um mundo tão hostil. Na trama Marion perde até isso e seu estado psicológico desperta em Damiel a urgência da decisão que precisa tomar. O conflito vivido pelo personagem reside no egoísmo que seus desejos representam, uma vez que ao se tornar humano ele não poderá mais ajudar a todos (não é por acaso que ambulância passa em disparada logo após ele acordar em sua nova condição). Em uma das sequências mais memoráveis do filme, Peter Falk sente a presença de Damiel e começa um diálogo (na verdade um monólogo) com ele. O ator o fala sobre os pequenos prazeres da vida humana pela qual ele pode optar, o de desenhar, o de fumar um cigarro tomando café, o de tomar um banho, o de ser barbeado...

 

Após a decisão, já preanunciada, de abdicar da imortalidade, Damiel se depara com o mesmo vazio existencial que Marion experimentava, o que ele então classifica como uma doença. A trama nos propõe a seguinte reflexão: Seria este vazio inerente à condição humana? Talvez sim, mas próprio o desfecho da história nos mostra que, se não eliminado, ele pode ao menos ser amenizado. A resposta que o anjo caído encontra é a mesma buscada pelo povo alemão. Os questionamentos propostos e a resposta encontrada, conferem ao filme uma grandiosidade que poucas outras obras alcançaram e justificam cada um dos elogios que ele já recebeu... O doloroso vazio, o amor, a esperança, a saudade, a dor, o desespero, a paz... todos estes sentimentos são condensados na poética desta obra cheia de significados e analogias. Wenders construiu nos anjos uma alegoria perfeita para tecer uma observação quase onisciente sobre o consciente coletivo do povo alemão. A divisão, quase antagônica, que se dá entre o mundo dos anjos e o mundo dos homens é uma clara analogia à divisão de Berlin pelo muro.

 

Poucos filmes conseguiram a proeza de transitar por gêneros tão diferentes sem se perder na história que está sendo contada. Não seria nenhum erro classificá-lo como um romance, um drama, um road movie, ou até mesmo um filme político, pois ele trás consigo todas estas facetas, sendo cada uma delas construídas com uma habilidade narrativa e poética louvável. O desenrolar da trama é bem lento no início, isto aliado á linguagem poética dos diálogos entre os dois anjos e dos pensamentos humanos, podem afastar os desavisados já no início da exibição. Mas quem, como eu, vê nisso uma qualidade e não uma falha irá apreciar cada passagem do longa. Vale relembrar também aqui a participação especial de Nick Cave and The Bad Seeds, que aparecem tocando Fron Here to Eternity em uma cena em pub frequentado por Marion. Asas do Desejo ganhou uma continuação, Tão Longe, Tão Perto (1989) dirigida pelo próprio Wenders e um remake, Cidade dos Anjos (1998), protagonizado por Nicolas Cage e Meg Ryan, que não conquistaram nem de longe o mesmo reconhecimento. Corra atrás do original e não perca tempo com continuações e refilmagens! Recomendo!


Asas do Desejo ganhou o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes, tendo recebido também uma indicação à Palma de Ouro, o prêmio máximo do festival.

Assista ao trailer de Asas do Desejo no You Tube, clique AQUI!

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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Vencedores do Festival de Cinema de Veneza 2011




O Festival de Cinema de Veneza é um dos mais importantes do circuito mundial, a mostra visa promover o cinema internacional em seus diversos aspectos, valorizando tanto a arte, quanto o entretenimento. A 68° edição do festival aconteceu neste ano do dia 31 de agosto, ao dia 10 de setembro e foi presidida por Marco Müller. A cerimônia de premiação aconteceu no último domingo e surpreendeu parte do público e da crítica especializada que apostara no longa Carnage de Roman Polanski, que tem Christoph Waltz e Kate Winslet no elenco. O grande vencedor foi o obscuro Faust (uma livre adaptação da obra literária homônima de Goethe), do diretor russo Alexander Sukurov. Vamos à lista dos premiados:


Leão de Ouro (Melhor Filme) - Fausto de Sukurov. 

Leão de Prata (Melhor Diretor) - Shangjun Cai por
People Mountain, People Sea.

Melhor Ator - Michael Fassbender por Shame.

Melhor Atriz - Deanie Yip por A Simple Life.

Grande Prémio do Júri - Terraferma de Emmanuele Crialese.

Prémio Marcelo Mastroianni (Melhor Novo Ator ou Atriz) - Shota Sometami 
e Fumi Nikaido por Himizu.

Osella Para Melhor Roteiro - Yorgos Lanthimos por Alps.

Osella Para Melhor Fotografia - Robbie Ryan por Wuthering Heights.

Leão de Ouro do Futuro - Là-Bas de Guido Lombardi.

Prémio Cinema Europeu (Fora de Competição) - Présumé Coupable de Vincent Gareng.

Prémio Pequeno Leão de Ouro (Leoncino d’Oro Agiscuola) - Carnage de Roman Polanski.

Prémio UNICEF - Terraferma.

Prémio Francesco Pasinetti (SNGCI) - Terraferma.

Prémio Inovação Digital - Faust.

Menção Honrosa - Kotoko de Shinya Tsukamoto.


Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a relação dos vencedores da 64° edição do Festival de Cannes,
que aconteceu em maio deste ano. Clique AQUI!

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domingo, 11 de setembro de 2011

Guerra ao Terror

Guerra ao Terror (The Hurt Locker) - 2009. Dirigido por Kathryn Bigelow. Escrito por Mark Boal. Direção de Fotografia de Barry Ackroyd. Música Original de Marco Beltrami e Buck Sanders. Produzido por Kathryn Bigelow, Mark Boal, Nicolas Chartier e Greg Shapiro. Voltage Pictures. / USA.

 

Em quantas vezes o número de civis mortos na “guerra contra o terror” já superou o de vítimas do atentado de 11 de setembro? Esta reflexão é daquele tipo que raramente somos induzidos a fazer, afinal a grande mídia não fala disso. Hoje, dez anos após os atentados de 11 de Setembro, me pergunto se a ação “vingativa “ encabeçada pelos Estados Unidos tornou o mundo melhor e mais seguro, ou se apenas fez derramar mais sangue inocente. A proposta de combater o terrorismo com o terrorismo, como já era de se esperar, não funcionou. Saddam Hussein foi executado e Osama Bim Ladem foi supostamente morto, no entanto tais ações por si só não conseguem justificar uma guerra que assolou dois países e já deixou um incontável número de vítimas. Vítimas estas que não serão lembradas e nem terão memoriais construídos em sua homenagem. Os ataques em 2001 nos deixou perplexos e chocados, no entanto o curioso é a guerra em si não foi capaz de nos provocar o mesmo tipo de reação, é como se concordássemos e achássemos normal a barbárie do conflito, apenas pelo fato de ele estar geograficamente, culturalmente e midiaticamente distante de nós.

Pode parecer uma afirmação dura, mas o 11 de Setembro foi no mínimo conveniente para os interesses americanos. Já naquela ocasião os Estados Unidos já apresentavam indícios de que sua hegemonia econômica estava abalada. A invasão no oriente médio, além de dar ao Tio San o controle das reservas de petróleo da região, ainda reafirmariam seu poderio militar. Os atentados tinham despertado no povo americano uma sede de vingança e uma repulsa contra o mundo árabe e tudo o que ele representava. O apoio popular era o que o governo Bush precisava para tomar a iniciativa de atacar militarmente a região. A caça à Al-Qaeda justificou a invasão ao Afeganistão e pouco tempo depois a busca por armamentos de destruição em massa (que nunca foram encontrados) motivou o ataque ao país vizinho, o Iraque. Guerra ao Terror (2009) exemplifica claramente o tipo de sentimento que motivou e que tem mantido as tropas americanas no oriente médio.

 

O filme, dirigido por Kathryn Bigelow, se passa no Iraque e mostra a realidade de uma equipe do exército americano responsável pelo desarmamento de bombas. Em uma ação mostrada na primeira sequência do filme, o Sargento Matt Thompson (Guy Pearce) tenta neutralizar uma bomba, mas antes que ele consiga, ela é detonada remotamente por um homem que saia de um prédio vizinho. O militar é fatalmente ferido na explosão e para ocupar o seu posto é escalado o Sargento William James (Jeremy Renner), que já havia combatido também no Afeganistão. James tem um jeito próprio de trabalhar e não respeita as normas do trabalho em equipe, isto gera um atrito entre ele e o Sargento JT Sanborn (Anthony Mackie), que segue à risca o “protocolo”. A trama se desenvolve em torno do relacionamento entre os militares e das situações extremas que eles enfrentam. Faltam poucos dias até a data em que ocorrerá um rodízio na equipe, que culminará na dispensa de seus atuais membros. Cada um dos membros aguarda ansioso pelo dia da volta para casa e nenhum deles consegue esconder o medo da morte, que os ronda o tempo todo.

 

Apesar de acreditar que Guerra ao Terror não deveria nem ter figurado na lista dos indicados ao Oscar de Melhor Filme em 2010, penso que seja injusto afirmar que o filme é de todo ruim. As atuações são legais, a montagem é muito bem feita e ele chega a ter momentos de pura tensão, que compensam as duas horas diante da tela. O ponto fraco do filme é a história. Não tem como disfarçar o viés político e a angulação americanizada que o longa tem e isso, na minha opinião, obscurece quase tudo aquilo que ele tem de bom. Escrever um roteiro deste tipo é simplesmente subestimar a capacidade intelectual de nós espectadores, ou será que seus realizadores realmente esperavam que fossemos engolir a ideia absurda de que os americanos invadiram estes países para edificar uma democracia. O filme é do tipo que reforça a ideia preconceituosa de que cada árabe é um potencial terrorista, defendendo desta forma a existência de algum sentido em todo o conflito.

 

Em alguns poucos momentos do filme, os soldados refletem sobre a realidade que estão vivendo, os riscos que estão correndo e sobre o que deixaram para trás nos Estados Unidos, mas em nenhum momento, nenhum deles questiona o porquê da guerra e por quais motivos estão realmente entregando suas vidas. A arrogância dos soldados americanos, que pode ser vista em diversas passagens, funciona mais como uma exaltação pelo poder conquistado, do que como uma crítica à forma de atuação do exército. Em alguns momentos a reação deles chega a parecer bizarra de tão distante da realidade, os atos de compaixão chegam a parecer surreais. O desfecho da história, que beira ao ridículo, sugere um apego quase masoquista do militar aos riscos que ele se expõe na guerra, coisa que seria normal de se ver apenas em um filme do nível da franquia de Rambo. Não sei explicar como, mas tudo isso que observei no filme foi ignorado pela crítica especializada, que o ovacionou de pé.

 

O sucesso de crítica alcançado por Guerra ao Terror era totalmente inesperado e provocou um fenômeno curioso. Aqui no Brasil, o filme foi lançado direto em DVD, sem passar pelas telonas. Porém, quando começou a ser supervalorizado no exterior, o longa reestreou novamente no país, desta vez nas principais salas de cinema. Naquele ano ele conseguiu ainda a proeza, injusta ao meu modo de ver, de levar, dentre outras, as estatuetas de Melhor Filme, Diretor e Roteiro Original. Naquela edição do Oscar, o favorito a estes prêmios era uma superprodução escrita, dirigida e produzida por James Cameron, ex-marido de Kathryn Bigelow. Avatar (2009), apesar de ser um típico filme do diretor, que apela para histórias clichês e abusa de efeitos especiais, tem ao seu favor o fato de ir na contramão de Guerra ao Terror no tocante aos temas que ambos abordam direta ou indiretamente. O trabalho de Cameron pode ser considerado uma alegoria da atuação dos Estados Unidos no Oriente Médio e de sua ganância pelo petróleo e isso talvez possa explicar porque um e não o outro abocanhou os principais prêmios. Eu, no entanto, não enxergo em nenhum deles qualidades que justifiquem os elogios recebidos por ambos. Indico Guerra ao Terror apenas para quem se dispuser a assisti-lo com olhos bem críticos, caso contrário passe longe!


Guerra ao Terror ganhou os Oscars de Melhor Filme, Diretor, Roteiro Original, Edição, Som e Edição de Som, tendo sido indicado também nas categorias de Melhor Trilha Sonora, Fotografia e Ator (Jeremy Renner). O filme também recebeu três indicações ao Globo de Ouro, nas categorias de Melhor Filme - Drama, Melhor Diretor e Melhor Roteiro.


Assista ao trailer de Guerra ao Terror no You Tube, clique AQUI!

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