sábado, 31 de dezembro de 2011

Planeta dos Macacos – A Origem

Planeta dos Macacos – A Origem (Rise of the Planet of the Apes) - 2011. Dirigido por Rupert Wyatt. Escrito por Amanda Silver e Rick Jaffa, indiretamente adaptado da obra de Pierre Boulle. Direção de Fotografia de Andrew Lesnie. Música Original de Patrick Doyle. Produzido por Peter Chernin, Dylan Clark, Rick Jaffa e Amanda Silver. Twentieth Century Fox Film Corporation / EUA.


Sempre digo que um bom filme é aquele capaz de nos transportar para além de sua proposta original. Boa parte da impressão que tenho diante de uma obra cinematográfica é devida à carga de conhecimentos e experiências que já trago em minha bagagem. O que acontece durante a exibição é uma espécie de diálogo entre eu, o autor e a obra, como em qualquer processo de comunicação surgem de tal interação diversas variações de uma mesma verdade. Considero que a proposta original do filme, cunhada pelos seus realizadores, seja a primeira verdade, o resultado final deste processo de produção é uma segunda, a ideia que eu elaboro ao decodificar a obra é uma terceira verdade. Diferentes críticos podem valorizar uma destas “verdades” em detrimento das outras, isso fica claro pelas suas resenhas, eu pessoalmente prefiro analisar o filme de acordo com a minha “verdade”, aquela que elaboro sob influência da bagagem que trago comigo, minha “verdade” pode ser ou não condizente com as outras duas “verdades” inerentes à obra, mas em nenhum das situações eu nego a estas, pois de uma forma ou de outra elas são varáveis determinantes na análise fílmica que geralmente ensaio.

Planeta dos Macacos – A Origem (2011) é uma obra do tipo que nos transporta para além da “verdade” de seus realizadores. É perceptível que o principal interesse deste filme, desde a sua concepção, é o de se tornar um sucesso de bilheteria e não o der ser uma ponte para reflexões profundas ou canal de disseminação de ideias, contudo, ao menos em minha “verdade”, ele funciona como tal. Antes de fazer a minha análise, eu preciso lembrar que este é um prequel (termo usado para designar filmes que explicam a origem de outros filmes), cuja franquia original foi inspirada em uma obra literária. Diferente dos filmes a que deu origem, no livro, escrito pelo francês Pierre Boulle, a história ganha em contorno metafórico bem mais forte, nele, que é frequentemente associado à outras obras de temática semelhante, como Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley e 1984 de George Orwell, o planeta dominado pelos símios se torna uma clara analogia das ditaduras e dos governos totalitários.


O primeiro filme da franquia de Planeta dos Macacos estreou em 1968 e se tornou quase um “cult”, ele gerou 4 continuações que não tiveram o mesmo sucesso de crítica. Após ter se tornado uma série de televisão e até desenho animado, a história foi revisitada em 2001 por Tim Burton que fez um remake (injustificável e irregular, diga-se passagem) do primeiro longa. A versão deste ano, dirigida por Rupert Wyatt, passa longe, bem longe, do teor contestatório da obra literária, no entanto ela consegue a proeza de recolocar a franquia nos eixos. Pode não ter sido um objetivo do filme criar analogias ou metáforas, esta pode não ter sido a “verdade” de seus realizadores, contudo ele me conduziu à uma série de reflexões que foram pontuadas pela sua trama e pela minha já citada bagagem. Substitua os símios por uma cultura menos expressiva socialmente e teremos uma alegoria perfeita acerca da adaptação, da inclusão social e da liberdade... Substitua os símios por pessoas “comuns” e teremos uma alegoria de nós mesmos, que desconhecemos nossa própria força e que aceitamos imposições pela falta de questionamentos... Propositalmente ou não, o roteiro toca em outros temos polêmicos como a exploração de animais, a vivissecção e o embate entre a ciência e a ética.


O curioso é que durante boa parte do filme somos induzidos a torcer pelos símios e não pelos homens, isto seria um reflexo da onda do politicamente correto tem tomado conta de boa parte das produções do cinema pipoca. Alguns dos personagens secundários do filme exemplificam bem a ganância e a irracionalidade (!) do homem, isto faz com que não seja tão difícil sentir raiva e repulsa de toda o gênero humano. Torcemos por uma revolução que traga a libertação aos símios e que seja ao mesmo tempo a punição para os sequentes erros da humanidade, da qual deixamos de nos sentir parte durante a história, queremos uma punição que funcione como catarse, queremos a liberdade dos grandes macacos, mas na verdade o que ansiamos é pela nossa própria libertação. Não é difícil imaginar que nós como humanidade possamos estar caminhando para uma catástrofe que pode nos levar à extinção, catástrofe da qual seremos nós os únicos responsáveis, o castigo imposto a alguns personagens humanos no filme ajuda a aplacar nossa própria culpa, pois diante da tela concluímos que os responsáveis (a raça humana - não fazemos parte dela) já foram apontados e punidos... viva la revolucion!


Na trama, o cientista Will Rodman (James Franco) trabalha em uma grande corporação farmacêutica, ele pesquisa em símios os efeitos de uma droga que poderia retardar e até curar em humanos os sintomas do mal de Alzheimer. Sua principal motivação tem sido seu próprio pai, Charles Rodman (John Lithgow), que já está senil e em uma fase bem avançada da doença... A primeira sequência do filme mostra a captura de chipanzés na floresta, dentre eles está uma fêmea, que ao chegar ao laboratório é apelidada de Olhos Azuis, ela é a cobaia que mostra melhores resultados ao ter o novo medicamento testado em si, sua atividade cerebral aumenta, mas ela se torna agressiva. Somente quando já é tarde demais, os pesquisadores descobrem que o motivo de sua agressividade era um filhote, a quem ela tentara proteger, ela dera a luz sem que ninguém no laboratório descobrisse. A pesquisa é interrompida pelos seus financiadores após um grave incidente, o gestor do laboratório toma a decisão cruel de sacrificar todas os chimpanzés que usados como cobaia, compadecido Will aceita levar o filhote de Olhos Azuis para casa, para que ele não tenha o mesmo destino dos outros macacos.


O filhote de chimpanzé (Andy Serkis – através da "captura de movimentos"), que ganha o nome de Cesar (uma clara alusão ao nome de um dos personagens de um dos filmes anteriores da franquia), se torna quase um bichinho de estimação, ele recebe amor e carinho tanto de Will, quanto do velho Charles. À medida que Cesar vai crescendo, Will percebe nele uma evolução intelectual descomunal, que em alguns períodos chega a ultrapassar a de uma criança, é então que o cientista descobre que ele herdara geneticamente da mãe os efeitos do medicamento a que ela estivera exposta. A atividade cerebral intensa desperta em Cesar a consciência de sua própria condição, coisa que pressupomos que só o ser humano tenha. Ao se reconhecer como indivíduo ele passa aspirar uma vida independente, passa a querer ser um humano e se livrar assim de sua condição animalesca. Will não consegue compreender isso e seu carinho por Cesar em algumas situações só faz aumentar o impulso violento do símio.


Por ironia do destino, assisti Planeta dos Macacos – A Origem no mesmo dia que morreu Jiggs, o chimpanzé que interpretou Chita em doze filmes do Tarzan nas décadas de 30 e 40, o curioso de tudo isso é que o filme atual prenunciou uma outra espécie de morte, a morte de algo do qual Jiggs era o maior símbolo vivo, o uso de animais reais no cinema. Não é de fato uma morte decretada, mas o filme de Rupert Wyatt, com o excelente uso de novas tecnologias, ajuda a tornar obsoleta uma prática com a qual eu nunca concordei e isto é, ao meu modo de ver, um de seus pontos mais positivos. Os símios recriados através da técnica de captura de movimento são quase reais, a segurança na utilização da técnica fica perceptível através dos close-ups e dos movimentos ousados, artifícios dos quais o filme usa e abusa. O elenco humano, mesmo sendo quase secundário, está muito bem e a construção dos personagens centrais e de alguns dos coadjuvantes deixam a trama ainda mais convincente. Se o objetivo era mesmo tão somente o de criar um prelúdio para a franquia clássica, o filme merece todas as honras... apenas tenho medo das próximas sequências deste, que certamente virão.


Planeta dos Macacos – A Origem talvez seja o melhor filme pipoca dentre os lançados neste ano que assisti... Ao assisti-lo, desconsidere as pequenas falhas do roteiro, a superficialidade de algumas situações e o exagero de outras, pois são características inerentes ao gênero, e provavelmente você chegará á mesma conclusão que eu. Além da tecnologia de ponta, o filme tem ao seu favor uma história concisa e bem amarrada, um bom ritmo e um desenvolvimento sem muita dualidade ou complexidade, o que o torna uma obra fácil de cair no gosto popular. A maior façanha do filme é conseguir se destacar em um gênero tomado por inúmeras obras descartáveis, gênero este saturado por histórias de super-heróis, lutadores e carros que viram robôs... Vale lembrar que se você se dispuser a ligar o cérebro durante a exibição, esta pode se tornar ainda melhor, a minha dica é que você transcenda a ideia original do filme e encontre nele a sua própria verdade (esta dica não vale tão somente para Planeta dos Macacos)... Recomendo!


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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Histórias Cruzadas

Histórias Cruzadas (The Help) - 2011. Escrito e Dirigido por Tate Taylor, baseado no romance de Kathryn Stockett. Direção de Fotografia de Stephen Goldblatt. Música Original de Thomas Newman. Produzido por Michael Barnathan, Chris Columbus e Brunson Green. DreamWorks SKG, Reliance Entertainment. / EUA.


Acredito que Histórias Cruzadas (2011) seja realmente um fortíssimo candidato na temporada de premiações que se aproxima. Ele é ótimo, mas não é tão somente por isso que eu o aponto como um dos favoritos. Ele é o tipo de filme, que nos faz sentir bem e que ao final da exibição nos deixa uma agradável sensação de paz e harmonia. Quem já leu a sinopse, deve estar se perguntando como um filme que fala sobre preconceitos e racismo pode ser agradável ou trazer sensação de paz para alguém? Pode parecer absurdo mas é isto que acontece. A trama do longa está ambientada no sul dos Estados Unidos e se passa durante os anos 60. Historicamente, os sulistas são lembrados de forma negativa por terem defendido e prolongado durante anos o fantasma da escravidão, mas mesmo com o abolicionismo, que aconteceu após o fim da guerra civil americana, resquícios da exploração e da exclusão social do negro permaneceram bem vivos e intocados.

Durante os anos 60, enquanto as manifestação pelos direitos civis aconteciam em outras partes do país, no sul o destino de mulheres negras continuava sendo, quase que exclusivamente, se tornar empregadas domésticas. Nas casas onde trabalhavam elas não tinham o direito, por exemplo, de comer junto com os patrões e nem sequer podiam usar os mesmos banheiros que eles, no entanto eram elas quem sustentavam boa parte da pirâmide social e do status quo vigentes na época, pois eram elas as educadoras das crianças brancas, a quem davam amor e carinho enquanto seus próprios filhos cresciam sozinhos e desamparados. Histórias Cruzadas mergulha na realidade destas mulheres guiado pelo olhar utópico e sonhador da personagem central, Eugenia 'Skeeter' Phelan (Emma Stone), ela é uma aspirante a jornalista e escritora que se dispõe a escrever sobre o cotidiano das empregadas domésticas.


Skeeter consegue um emprego em um jornal local, onde responde a cartas de leitores se passando por outra jornalista. Para ser convincente naquilo que escreve, ela precisa entender mais sobre afazeres domésticos e o cotidiano de uma dona de casa, ela então decide pedir a ajuda de Aibileen (Viola Davis), a emprega de uma de suas amigas. Através dos relatos da mulher, Skeeter compreende que as histórias acerca daquela realidade precisavam ser contadas de uma forma que nunca antes tinha sido feita, com o apoio de uma editora ela dá inicio à empreitada, sem saber dos obstáculos que teria que transpor para realizar o trabalho e do risco que estaria correndo ao fazê-lo. Surge então a primeira dificuldade a ser enfrentada,  sua editora lhe cobra o depoimento de no mínimo 12 mulheres, mas apenas Aibileen se dispõe a falar, mas logo em seguida Minny Jackson (Octavia Spencer) entra em cena, ela é outra empregada doméstica que, convencida por Aibileen e pela jornalista, também  decide se abrir e contar sua história.


Aibillen e Minny têm em comum as marcas impressas pela vida, ambas já sofreram um bocado com os maus tratos de suas patroas e em suas própria casas, Minny é constantemente agredida pelo seu esposo que responde com violência às situações inerentes à sua dura realidade, Aibileen no entanto é mais marcada pelo seu passado, ela tenta superar uma grande perda e usa a resiliência para lidar com sua patroa, ela tem um forte apego pela criança de quem cuida, uma garotinha carente e desprezada pela mãe. Toda a realidade mostrada no filme aparenta estar maquiada pelas convenções sociais, as mulheres brancas vivem de aparências e se amparam no suporte dado pelas negras, ao contrário destas elas não têm autonomia e não têm a mínima condição de sequer criar seus filhos. No fundo percebemos que todas, tanto as brancas quanto as negras, são vítimas do machismo e de outros tipos de preconceitos, que resultam em feridas e na exclusão e na rejeição do diferente. Curiosamente as patroas aparentam estar mais carentes de aceitação e aprovação da sociedade do que suas empregadas.


Percebe-se que todas as outras mulheres brancas direcionam olhares tortos para Skeeter, elas reprovam seu relacionamento com as negras e o fato dela ser financeiramente independente e de ainda não ter se casado, de fato as aspirações que a jovem escritora demonstra ter são bem diferentes daquilo que se tinha como padrão de comportamento social... Mas Skeeter não é a única mulher branca que não se permite ser contaminada pelo preconceito, Celia Foote (Jessica Chastain) é outra que leva uma vida alheia às etiquetas sociais, ela é contestadora, porém de uma forma quase simplória, ela não é bem aceita pelas outras mulheres e não consegue viver plenamente a vida de convenções que a sociedade lhe cobra. O preconceito para ela não faz sentido pois ela também não tem a aceitação que busca, isto faz com que ela se sinta mais a vontade na companhia de uma negra do que junto das outras socialites.


Apontei este filme como um dos favoritos para a temporada de premiações pois ele é justamente o tipo de produção que uma boa parcela da crítica gosta de ovacionar, ele é tecnicamente bem feito, possui ótimas atuações (comento cada aspecto a seguir) e como eu já disse, ele traz uma agradável sensação de harmonia, que agora explico: Percebe-se no filme que os personagens antagonistas são bastante maniqueístas, a impressão que o roteiro nos passa é a de que eles são realmente covardes o que nos provoca repulsa, suas atitudes parecem demasiadamente exageradas em várias sequências e isto tem um motivo: Não permitir que nós espectadores nos identifiquemos com eles, assim, diante deles nossos preconceitos (todos os temos) parecem menores e quase inocentes, sentimos raiva, mas logo a sensação de paz vem junto com o convencimento de que definitivamente não somos como eles. Acredito que o filme será bem aceito mesmo no sul dos Estados Unidos, pois ele, ao mesmo tempo que acerca as contas com um passado recente, ainda nos prova que somos melhores por repudiarmos as atitudes extremas mostradas durante a história.


Além de nos provocar esta sensação de bem estar, o filme ainda tem tudo para agradar os cinéfilos mais exigentes e até mesmo o mais autêntico representante do público médio. Dia desses eu discutia cinema com um amigo e ele disse que “geralmente a crítica espera que o filme seja ao mesmo tempo 'cult' e capaz de cair no gosto popular com facilidade”, se isso é de fato uma verdade, Histórias Cruzadas deixa de ser um dos favoritos e se torna o favorito aos tão cobiçados prêmios. Ele tem tudo na medida certa, os toques de humor, a carga dramática... tudo funciona perfeitamente, tornando-o assim capaz de nos emocionar e nos cativar de uma forma maravilhosa. A fotografia é exuberante, a trilha sonora é ótima e o roteiro linear é muito bem escrito e evoca em nós tanto sentimento nobres, como a compaixão e a solidariedade, quanto o o repúdio e o asco.


As interpretações merecem realmente um destaque à parte, este é outro filme que comprova que no tocante às atuações este é o ano das mulheres no cinema. Comecei assistir ao filme esperando um show particular de Viola Davis, ela realmente dá um verdadeiro espetáculo, assim como a bela Emma Stone, no entanto quem rouba a cena são Octavia Spencer e Jessica Chastain, elas estão simplesmente perfeitas, Octavia nos convence apenas com o seu olhar expressivo que comove e ao mesmo tempo provoca ótimas risadas, Jéssica está sublime, não tem como não se simpatizar pela sua personagem, cuja composição caricata se contrapõe a tudo aquilo que o filme nos induz a repudiar. Histórias Cruzadas não é nem de longe um filme original ou inovador, mas nem por isso ele deixa de ser uma grande obra que merece aplausos de pé... Já estou na torcida para que ele arrecada um boa quantidade de prêmios, principalmente na categoria de atrizes coadjuvantes... Fiquem de olho e não o percam! Ultra recomendado!


Histórias Cruzadas está indicado ao SAG Awards 2012 nas categorias de Melhor Atriz (Viola Davis), Melhor Atriz Coadjuvante (Jessica Chastain e Octavia Spencer), Melhor Elenco. No Globo de Ouro ele está indicado nas categorias de Melhor Filme - Drama, Melhor Atriz - Drama (Viola Davis), Melhor Atriz Coadjuvante (Jessica Chastain e Octavia Spencer) e Melhor Canção Original.

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domingo, 25 de dezembro de 2011

A Felicidade Não Se Compra

A Felicidade Não Se Compra (It's a Wonderful Life) - 1946. Produzido e Dirigido por Frank Capra. Escrito por Fabiana Frank Capra, Frances Goodrich e Albert Hackett. Direção de Fotografia de Joseph F. Biroc, Joseph Walker e Victor Milner. Música Original de Dimitri Tiomkin. Liberty Films (II). / EUA.


A Felicidade Não Se Compra (1946) de Frank Capra é na minha humilde opinião o melhor filme de natal de todos tempos, não porque ele tenha sido inovador ou revolucionário, mas por ter captado como nenhum outro, com uma delicadeza suprema, cada um dos clichês que convencionalmente chamamos de espírito natalino. Neste caso específico, quando falo de clichês, falo da maneira mais positiva possível, afinal não tem como falar de natal sem se render a uma boa dose deles. É nesta época do ano que geralmente abaixamos a nossa guarda, que nos permitimos emocionar com mais facilidade e que tentamos nos enganar nos convencendo de que estamos vivendo ao menos um pouquinho melhor que o personagem de Um Conto de Natal de Charles Dickens. Profissionais da área de psicologia já falam de uma espécie de depressão de natal, que seria um sentimento de vazio que acomete algumas pessoas no período antecedente e posterior à data, de fato as pessoas ficam aparentemente mais sensíveis, no entanto isto tem pouco a ver com humanitarismo ou altruísmo, em algumas das vezes se deve a um sentimento de perda ou de culpa motivados pelo que fizemos ou deixamos de fazer no ano que chega ao fim.

Este excesso de sensibilidade ajuda a explicar em partes o sucesso que este filme conquistou com o passar dos tempos. A Felicidade Não Se Compra não chegou nem perto do retorno financeiro esperado pelos seus realizadores, o que quase levou sua pequena produtora à falência, o insucesso das bilheterias pesou negativamente e foi determinante para que o filme não tivesse os direitos de sua exibição comprados por nenhum dos grandes estúdios da época, o resultado disso é que com pouco tempo a obra já tinha se tornado de domínio público. Nos anos que se seguiram a exibição do filme na TV aberta americana, na noite de natal, se tornaria quase uma tradição, foi então que ele começou a conquistar e cativar seu público. A admiração por ele só se fez aumentar, ao ponto de ele passar a figurar em boa parte das listas de melhores filmes de todos os tempos. A minha teoria para explicar tal fenômeno é simples, o filme só não conseguiu sucesso imediato porque seus espectadores não estavam prontos para ele. Desassociado do contexto natalino a obra chaga a soar inocente e ingênua demais, só mesmo em um contexto de sensibilidade já aflorada ele é capaz de funcionar em sua plenitude.


George Bailey (James Stewart) é o personagem central de A Felicidade Não Se Compra, desde jovem seu sonho foi fazer uma boa faculdade e viajar mundo afora colhendo experiências, ele acreditava não ter vocação para passar o resto de sua vida em uma cidade provinciana como aquela onde nascera, no entanto no decorrer de sua vida ele vai abrindo mão de cada um de seus sonhos em favor daqueles que estão à sua volta. Após a morte de seu pai ele decide cumprir a vontade do velho e assumir sua função em um pequeno banco que realiza empréstimos e financiamentos imobiliários. Seguindo os mesmos princípios do pai, George conduz o banco de uma forma que poderia ser apontada até como irresponsável, ele se preocupa mais em realizar o sonho da gente simples de sua cidade do que em enriquecer com seu negócio, ele assume um alto risco de crédito confiando apenas no caráter das pessoas para quem empresta altas quantias em dinheiro. George, através do banco, ajuda a tornar os pobres menos dependentes e a tirá-los do aluguel e isso começa a desagradar Henry F. Potter (Lionel Barrymore), um desonesto banqueiro e locatário de imóveis, que praticamente domina a economia da cidade.


O filme, que tem pouco mais de duas horas de duração, pode ser dividido em duas partes, a primeira acompanha George desde sua infância e mostra como suas escolhas definiram a vida adulta que ele tem, a segunda parte está ambientada em apenas uma noite, a véspera do natal, naquele dia uma enorme quantia em dinheiro desaparecera do banco gerenciado por George, ele tomado pelo desespero de ser difamado, de cair em desgraça e até ser preso não vê outra saída a não ser ir para um bar e encher a cara, mas antes de ir ele faz uma oração pedindo a Deus que lhe valesse e lhe apontasse o caminho diante daquela situação, sua esposa, a bela e gentil Mary (Donna Reed) e seus quatro filhos vendo o desespero dele também se põem a orar, os seus clamores são ouvidos no céu... Deus sabia que George pretendia se matar naquela noite, se jogando de uma ponte, para salvá-lo Ele envia Clarence (Henry Travers), um anjo atrapalhado de segunda classe que está em missão para conseguir suas asas e assim ser promovido á primeira classe. Após impedir o suicídio, Clarence convida George para ver como seria sua cidade se ele não tivesse nascido (recentemente o humorístico da Globo A Grande Família fez uma paródia desta passagem do filme) é então que começa a parte mais marcante e tocante do longa, é quase impossível não se emocionar... 


Assistir  A Felicidade Não Se Compra  é reconfortante pois ele nos conduz á uma espécie de catarse que nos ajuda a lidar com com nossos próprios medos e problemas, seu roteiro nos induz à identificação com o personagem principal e com sua trajetória. De repente as dores causadas pelas nossas frustrações são amenizadas, nos convencemos de que se também pudéssemos ver como seria o mundo sem a nossa presença, teríamos o mesmo tipo de reação de George. Como disse no início do texto, nossa sensibilidade se aflora mais pois questões egoístas do que altruístas, o filme então nos consola dizendo que, mesmo quando nos considerarmos fracassados, nós somos de alguma forma importantes e que o mundo poderia ser pior sem nossa presença. Podemos então questionar: Por que não acontece o efeito oposto? Não correríamos o risco de imaginar que o mundo poderia melhor sem a nossa presença? Eu acredito que a probabilidade de isso acontecer diminui simplesmente por ser natal, por estamos buscando não a dor, mas algum tipo de conforto e algo que nos deia um significado maior para tudo que fizemos durante o ano que ora finda.


A Felicidade Não Se Compra é pura magia, ele é sublime em sua simplicidade e ingenuidade. Ele funciona tão bem, mesmo depois de 65 anos, porque no fundo tal simplicidade é o que sempre procuramos, constantemente buscamos algo que nos convença de que nossos dilemas e problemas do cotidiano são simples e não complexos e de que a vida vale a pena ser vivida, simplesmente por ela ser maravilhosa tal como ela é, mesmo com todas as suas dores e frustrações... Além do belíssimo roteiro, ainda merecem destaque a atuação brilhante de James Stewart e a edição, que confere ao filme um ritmo que não permite que ele se torne cansativo em nenhum momento. Ao assisti-lo deixe de lado o repúdio aos clichês e se renda ao espírito de natal, desta forma você dificilmente estará imune aos maravilhosos efeitos que ele é capaz de provocar... assista-o antes que o espírito de natal desapareça e deia lugar egoísmo não poético do cotidiano... Ultra recomendado!


A Felicidade Não Se Compra ganhou o Globo de Ouro na categoria de Melhor Diretor. No Oscar, o filme foi indicado nas categorias de Melhor Filme, Ator (James Stewart), Diretor, Edição e Som.

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sábado, 24 de dezembro de 2011

Não Por Acaso

Não Por Acaso - 2007. Dirigido por Philippe Barcinski. Escrito por Fabiana Werneck Barcinski, Philippe Barcinski e Eugenio Puppo. Direção de Fotografia de Pedro Farkas. Música Original de Ed Cortês. Produzido por Andrea Barata Ribeiro, Bel Berlinck e Fernando Meirelles. Buena Onda, Fox Filmes do Brasil, Globo Filmes e O2 Filmes. / Brasil.


Não Por Acaso (2007) não abusa de palavrões, não fala de favelização, de banditismo ou da realidade do sertão nordestino. Ele não é uma cinebiografia de um artista ou de uma banda. Ele também não narra uma história inspirada em fatos reais de militantes de esquerda dos anos 60. E o mais importante, ao assisti-lo não se tem a impressão de estar diante de mais um capítulo de uma novela global. Cada aspecto do filme, incluindo roteiro, atuações, fotografia e trilha sonora beiram a perfeição e é por isso que eu afirmo sem medo de estar exagerando que esta é uma das melhores obras já produzidas pelo nosso cinema. Tive a oportunidade de vê-lo na tela grande em meados de 2007, ele fora um dos últimos filmes exibidos pelo extinto cinema da minha cidade. Naquela noite estávamos apenas eu, um amigo e um outro desconhecido no cinema, este último chegou após o início do filme, antes da exibição o gerente da sala tentou de tudo para nos convencer a voltar no dia seguinte, segundo ele o valor das duas entradas não compensava os gastos com a projeção, teimamos e assistimos ao filme naquele dia mesmo, saímos de lá com a certeza de que tínhamos visto um dos melhores filmes do ano.

Poucos são os filmes nacionais que conseguem sair do circuíto de festivais e chegar às salas de cinema, o fato de que Não Por Acaso chegou, quase sem atrasos, à minha cidade é a prova de que ele conseguiu realizar este feito. Por que então ele parece ter sido esquecido por todos, apesar de sua visível qualidade? O cinema vazio naquele dia citado acima é algo que responde ao menos em parte a esta pergunta, além da problemática em torno da distribuição, o nosso cinema ainda sofre com a falta de público e talvez este último seja o problema mais grave. Quem tem público cativo em terras tupiniquins são as temáticas supra citadas, que agradam tanto a crítica, quanto alguns cinéfilos e alguns intelectuais, no entanto elas já estão mais do que saturadas. Infelizmente quando surge uma obra prima capaz de trazer a libertação que o cinema brasileiro carece, a libertação de tais clichês, ela é renegada e rapidamente cai no ostracismo. A questão da distribuição pode ser resolvida com uma mudança radical das políticas de incentivo à sétima arte no país, mas para o problema referente ao público não existe uma solução que se possa apontar, afinal sensibilidade artística não pode ser ensinada em escolas, nem tão pouco se aprende pela repetição.


Não Por Acaso não traz consigo o nacionalismo ufanista que nos coage a mostrar nossas “belezas naturais”, tão pouco a pseudo-contestação que nos leva a mostrar as mazelas de nossas instituições e autoridades, o que ele traz é uma realidade que poderia estar ambientada em qualquer cidade, de um outro país qualquer, com pessoas normais e situações que apesar de cotidianas trazem consigo uma intensa carga poética e reflexiva. O filme gira basicamente em torno de quatro personagens, Ênio (Leonardo Medeiros), Lúcia (Letícia Sabatella), Pedro (Rodrigo Santoro) e Teresa (Branca Messina), cada um deles construídos minuciosamente sem nenhum maniqueísmo ou caricaturização. Apenas uma característica une Ênio, Lúcia e Pedro, eles são metódicos e avaliam cada uma de suas atitudes e decisões tendo em vista os efeitos que pressupõem que elas provocarão. Ênio é controlador de tráfego, Lùcia é operadora de futuros na Bolsa e Pedro trabalha fazendo mesas de sinuca em uma oficina de marcenaria que herdou do pai, além de ser um exímio jogador do esporte. Teresa, diferente deles, representa a inconstância, conforme mostrado no filme, ela não sabe ao certo o que quer da vida e aparentemente não se preocupa tanto com o futuro quanto os outros.


Engraçado, a gente se esforça para prever as coisas e uma coisa 
acontece agora e a gente não sabe onde vai dar...

Um acidente muda completamente a forma com que os personagens encaram suas próprias vidas, eles se tornam ainda mais humanos á medida que vão perdendo suas certezas acerca do porvir, o acaso insurge como uma força avassaladora incapaz de ser dominada, trapaceada ou controlada. A perda das convicções, ilustrada de uma forma belíssima no filme, não traz sofrimento mas uma leveza que os personagens não experimentavam há tempos, é justamente quando eles saem do controle que eles começam a viver a vida em sua plenitude. O diretor Philippe Barcinski nos conduz de forma excepcional a um tour pelas vidas dessas pessoas e ao invadirmos suas realidades nós descobrimos quem eles realmente são e a empatia com cada um deles é inevitável e quase imediata.


O elenco todo está muito bem e a naturalidade de suas atuações é um dos pontos mais altos do filme, o destaque fica por conta de Rodrigo Santoro e Leonardo Medeiros, eles estão fantásticos, Letícia Sabatella, belíssima, esbanja sensualidade com seu visual clássico e estilo meigo. A cidade de São Paulo é também quase um personagem, nunca o nosso cinema fotografou tão bem uma metrópole quanto neste filme, as tomadas externas são de uma beleza estonteante, preste atenção nas imagens áreas e na forma com que a câmera contemplativa perscruta o emaranhado de vias que se entrelaçam entre prédios. A trilha sonora do filme também merece destaque à parte, ao contrário da maioria das produções que compõem seus repertórios com hits batidos das rádios ou com sucessos da música pop internacional, Não Por acaso busca é no melhor de nossa música as lindas canções que ajudam a contextualizar e ilustrar a sua trama, o destaque musical fica por conta de Laços interpretada por Nasi e Só Deixo meu Coração na Mão de Quem Pode interpretada por Katia B.


Não Por Acaso é o tipo de filme que cativa, que emociona e que nos ajudar a tecer uma profunda reflexão sobre nossas próprias vidas... Indagamos: Até que ponto a nossa ambição por controle tem nos impedido de viver? Será que é preciso um acidente para nos mostrar que, por mais que tentemos, não temos como prever cada uma das próximas jogadas (tal como em um jogo de sinuca)? Estaríamos de fato sujeitos ao acaso, esta força anti-determinista que muda os rumos de tudo, sem ordem, sem regra e sem controle?... Poucas são as produções capazes de evocar tantos questionamentos com uma trama tão simples e singela... Eu incluiria, sem titubear, este filme em um top 10 dos melhores (dentre os que já assisti) de nossa cinema e o elevaria ao mesmo patamar onde já estão Cidade de Deus (2002), Lavoura Arcaica (2001), Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963), Terra em Transe (1967), e outras obras, que, resguardadas as devidas proporções, ajudaram a inovar e reestruturar o cinema na época em que foram lançadas. Não Por Acaso precisa ser visto, precisa ser pensado... Ultra recomendado!


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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O Silêncio de Melinda

O Silêncio de Melinda (Speak) - 2004. Dirigido por Jessica Sharzer. Escrito por Jessica Sharzer e Annie Young Frisbie, baseado no romance de Laurie Halse Anderson. Direção de Fotografia de Andrij Parekh. Música Original de Christopher Libertino. Produzido por Fred Berner, Matt Myers e Matthew Myers. Speak Film Inc. / USA.


O Silêncio de Melinda (2004) começa em um dia de volta às aulas, a garota à qual o título do filme no Brasil se refere parece ser uma estranha no colégio onde já estudava, ela não consegue mais se relacionar com aqueles que foram seus amigos e o ambiente escolar se tornou para ela opressivo e hostil... Parece à primeira vista ser uma história simples e na verdade ela é, porém a força que ela tem é inexplicável, só mesmo assistindo ao filme para entender. Seria injustiça dizer que ele vale a pena ser visto tão somente pela ótima atuação de Kristen Stewart ou pela forma poética com que aborda um tema tão pesado, pois ele consegue ir muito além de tais feitos, sua grandiosidade está no tom de alerta com que ele constrói sua trama e na importância de se falar de algo que poucos se dispõem a falar. 

O silêncio pode ser por vezes a pior postura diante de uma situação que nos traumatiza e provoca intensa dor... Pode parecer clichê de livro de autoajuda, mas a verdade é que se abrir e desabafar com alguém alivia o peso que tal tipo de situação exerce sobre nós. Melinda no entanto prefere se fechar para o mundo, a dor que ela sente é tão intensa que ela se torna introspectiva e inexpressiva, sua solidão e melancolia aumentam à medida que ela percebe que seu silêncio e sua angústia já não são sentidos por mais ninguém. Ao seu modo de ver, pouco adiantaria se ela se pusesse a chorar ou se gritasse até esgotar suas forças, pois provavelmente ela não seria ouvida, todos à sua volta tinham se tornado egoístas demais para se compadecerem de seu sofrimento.


O que teria acontecido com Melinda que mudara tão drasticamente sua vida em tão pouco tempo? Lentamente, através de flashbacks, o filme nos revela aquilo que teria deixado sua vida em pedaços e a transformado em um pesadelo, a explicação de tudo está em uma festa que acontecera no final do semestre anterior, naquela noite alguns dos colegas de Melinda haviam passado dos limites, inexplicavelmente ela chamou a polícia e alguns deles foram parar na delegacia, todos na escola sabiam desta história, mas ainda havia algo de estranho nisso tudo, algo não revelado que a garota guardara consigo e que continuava a lhe atormentar dia após dia. No primeiro dia de aula após as férias, ela conhece uma garota, nova em sua classe, que também tem problemas de relacionamento, mas ao contrário dela, esta fala até pelos cotovelos e sua necessidade de se auto afirmar a torna incapaz de ouvir qualquer coisa que Melinda tivesse a dizer, a forma com que o relacionamento entre elas é construído exemplifica perfeitamente o tipo de isolamento experimentado pela personagem central.


Os pais de Melinda (vividos por Elizabeth Perkins e D.B. Sweeney) estão distantes demais para perceberem o estado no qual a filha se encontra, o alarme soa apenas quando eles recebem o boletim escolar da garota, as péssimas notas os deixam alarmados, ela que fora uma das alunas exemplares de sua turma, se transformara então em uma das piores, sua relação com a maioria dos professores varia da total indiferença ao repúdio, a exceção é o seu professor de artes, Mr. Freeman (Steve Zahn), de longe o melhor personagem do filme, ele é meio atrapalhado e parece não conseguir se expressar tão bem, mas é dotado de uma sensibilidade imensa, ele consegue enxergar além daquilo que todos vêm e mesmo sem saber de nada do que aconteceu com Melinda, ele a ajuda a descobrir  a necessidade de se abrir e de compartilhar com o mundo suas angústias. A arte passa a desempenhar um papel primordial na vida da garota, através dela Melinda começa expor seus sentimentos e assim começa a tomar coragem de se posicionar de uma forma não tão recessiva diante de seus pais e de sua escola...


Eu nunca tive dúvidas de que Kristen Stewart é uma boa atriz e este filme é uma prova cabal disso, ela consegue já nas primeiras cenas do longa provar que não é verdadeira a constatação de que seus personagens não têm expressão facial (estigma da mediocridade de sua personagem mais conhecida), aquela história de que ela está sempre com a mesma cara não procede e ela prova isso da melhor forma possível, seu mergulho no personagem é incrível e chega a ser assustador dado o contexto da trama. É realmente uma pena que O Silêncio de Melinda seja frequentemente lembrado como "um dos primeiros filmes da Bella da saga Crepúsculo", pois ele consegue ter em sua curta duração a densidade que a famigerada saga possivelmente não alcançará nem após o lançamento de seu quinto e último capítulo.


O Silêncio de Melinda precisa ser visto por pais, professores e principalmente por garotas que tenham ou não vivido uma experiência semelhante à de Melinda, ele é um verdadeiro grito contra o silêncio que acua e que pode destruir toda uma vida... Gostaria de fazer uma análise bem mais detalhada deste contundente filme, mas para isso eu teria que publicar de forma explícita alguns spoilers e eu não pretendo fazê-lo aqui (ainda que eles estejam espalhados por todo o texto nas entrelinhas), a minha recomendação é portanto a de que você o assista e tire suas próprias conclusões e de que você reflita ao menos por alguns instantes acerca daquilo que o filme propõe. O fato de  O Silêncio de Melinda  ser a adaptação de um romance escrito por uma mulher e de ele ter sido dirigido e escrito por outras duas conta, e muito, para que a sua abordagem seja ainda mais contundente e real, sem nenhum tipo de hipocrisia... É um filme belo, melancólico e marcante. Recomendo!


Assistam ao trailer de  O Silêncio de Melinda  no You Tube, clique AQUI !

Assisti O Silêncio de Melinda por causa de uma indicação do amigo Celo Silva, editor do Blog

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O Garoto de Bicicleta

O Garoto de Bicicleta (Le gamin au vélo) - 2011. Escrito e Dirigido por Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne. Direção de Fotografia de Alain Marcoen. Produzido por Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne e Denis Freyd. Les Films du Fleuve / Bélgica | França | Itália.


O Garoto de Bicicleta (2011) tem sido um dos filmes mais elogiados pela crítica nesta temporada. Desde que ganhou em Cannes o Grande Prêmio do júri, o longa dirigido pelos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardnne passou a ser apontado como um dos melhores filmes do ano. Ao contrário de tantas outras produções que lidam direta ou indiretamente com a infância, esta adota um realismo seco e duro em detrimento de uma amenização ou romantização da realidade recriada. A história não é em si um drama tão pesado, tão indigesto, mas é contundente justamente por lidar com as dores e os traumas de uma criança. Com uma direção concisa que apara bem cada uma das arestas do filme, os cineastas conseguiram produzir uma obra sensível e humanista que evoca em nós espectadores sentimentos e reações bem singulares. Em alguns momentos durante a exibição cheguei a sentir uma espécie de raiva do personagem central, o garoto Cyril (Thomas Doret), mas à medida que a trama nos apresenta o contexto no qual ele cresceu, fui compreendendo, ao menos em parte, o porque de seu comportamento arredio e rebelde.

Cyril foi deixado pelo pai em um orfanato, este lhe prometeu que voltaria para buscá-lo tão logo tivesse acertado sua vida pessoal, que se complicara após a morte da avó do garoto. No entanto o tempo passa e o pai nem aparece, nem tenta estabelecer qualquer tipo de contato, ele sumira sem deixar qualquer informação sobre seu paradeiro. Ao contrário do que imaginei no início do filme, o orfanato onde Cyril está vivendo não é um lugar de todo ruim, ele é bem cuidado lá e todos demonstram uma enorme paciência, mesmo diante de seu comportamento irascível. O garoto não aceita a possibilidade de que seu pai possa nunca mais voltar, ele então decide fugir da instituição para ir até o apartamento onde morava com ele até bem pouco tempo atrás, chegando lá ele encontra o apartamento vazio e nenhum sinal do pai. Quase que por acaso, durante esta fuga não tão bem sucedida ele acaba se encontrando com Samantha (Cécile De France), ela é uma cabeleireira solteira e sem filhos que acaba sensibilizada pela sua história.


É então que é criada a metáfora que caracteriza o garoto no título do filme, a bicicleta fora um presente do pai, e sendo assim era uma prova de seu amor, de que ele se importava e se preocupava com o filho, mas a bicicleta desaparecera também do apartamento, junto com os outros pertences, tal perda deixa o garoto ainda mais machucado, mas para sua surpresa, Samantha, que ele conhecera em uma situação bem adversa, aparece no orfanato lhe trazendo de volta a bicicleta, segundo ela, seu pai a vendera para alguém da vizinhança e ela comprara de volta. Cyril se recusa a acreditar que a bicicleta, a prova do amor de seu pai, tenha sido vendida por ele, não demora e ele descobre que, por mais que não a queira aceitar, esta é a verdade. A trama não pouca o garoto de ter seus sonhos desfeitos em um reencontro com o pai. Este, pressionado por Samantha, põe fim às ilusões nas quais permitira que o filho acreditasse, aquele era de fato o fim, ele não pretendia mesmo voltar para buscá-lo.


A partir de então Cécile passa a levar Cyril para passar os fins de semana consigo, mas não demora até que o comportamento dele começa a trazer sérios problemas para ela. O garoto fora embrutecido pela realidade na qual cresceu, ele não conhece o amor e por isso vê toda tentativa de aproximação de sua ajudadora como afronta. A situação piora quando ela descobre que ele está sendo aliciado pelo traficante local, ela tenta alertá-lo e protegê-lo mas ele não aceita a repreensão. Ao se colocar na condição de uma espécie de irmão mais velho, o delinquente substitui para Cyril a figura paterna e este laço se torna difícil de ser desfeito. Mesmo no limiar de suas forças, mesmo sofrendo até fisicamente, Samantha permanece amando e lutando pelo garoto... O amor incondicional demostrado pela personagem tem sido o alvo de comentários negativos de uma pequena parcela da crítica, que a apontam como maniqueísta por ser boa demais, eu no entanto vejo isso apenas como uma questão de angulação da história, o foco não está sobre a vida dela e este distanciamento pode explicar sua aparente perfeição, que é facilmente quebrada com uma análise mais apurada da personagem.


Mesmo sendo tão altruísta, Samantha tem uma visível dificuldade de expressar por completo todo seu amor, é então que surge a pergunta: Teria ela algum ressentimento similar ao do garoto, que justificasse sua decisão de ampará-lo? A sua total entrega, que a leva a abdicar de coisas importantes para si por causa dele, a torna de fato quase surreal e é triste constatar tal tipo de coisa, é como se negássemos por completo que qualquer expressão de bondade pudesse vir de um ser humano "real". Contudo apesar desta falsa impressão causada pelo nosso próprio coração endurecido, a personagem é sim dotada de todo um realismo, o mesmo realismo que permeia toda a história, a prova disso é o sofrimento que ela aceita viver com a intenção de proteger o menino órfão. Em uma atuação quase impecável Cécile consegue transmitir pelo olhar, pela expressão facial, e pelo tom de voz, tudo aquilo que sua personagem está sentindo, desde o amor incondicional, à dor e a frustração de se ver por vezes incapaz de transformar o destino do menino.


Não sei se posso considerar O Garoto de Bicicleta uma obra prima, mas sem dúvidas ele é um tipo de filme raro, que com certeza merece ser assistido, ele, apesar de minimalista em alguns aspectos, se torna grandioso pela trama, pelas excelentes atuações (Thomas e Cécile estão ótimos), pelos belos enquadramentos e principalmente pelas reflexões que ele evoca sobre a infância, o abandono, o altruísmo e a paternidade. Jean-Pierre e Luc Dardnne acertaram em não permitir que o filme se tornasse um melodrama, a experiência deles com documentários, tem sido evocada em algumas críticas para justificar tal posicionamento sem passionalidade diante da história relatada. É justamente esta angulação não passional, quase documental que torna o filme tão impactante, o desfecho, o qual não pretendo revelar, é fantástico, um dos mais marcantes do ano para mim... Se tiver uma oportunidade de assisti-lo não a perca. Recomendo!


O Garoto de Bicicleta ganhou no Festival de Cannes o Grande Prêmio de Juri 
e está indicado ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Filme Estrangeiro.

Assistam ao trailer de O Garoto de Bicicleta no You Tube, clique AQUI !


domingo, 18 de dezembro de 2011

Um Lugar Qualquer

Um Lugar Qualquer (Somewhere) - 2010. Escrito e Dirigido por Sofia Coppola. Direção de Fotografia de Harris Savides. Música Original de Phoenix. Produzido por Roman Coppola, Sofia Coppola e G. Mac Brown. Focus Features, Pathé Distribution, Medusa Film, Tohokushinsha Film e American Zoetrope / USA.


Sofia Coppola constroi neste filme belíssimas sequências que, edificadas sobre trivialidades, evocam uma simplicidade capaz de, se não aplacar, ao menos diminuir o efeito do vazio existencial experimentado pelos seus personagens. Uma sensibilidade tocante emana de cenas banais como a que mostra um personagem jogando videogame, ou a do choque de idiomas durante uma entrevista, ou então aquela na qual o personagem contempla com estranheza, da janela do hotel, a vista de uma cidade, na qual ele se sente totalmente perdido; são coisas comuns, coisas que fazemos todos os dias, mas que só ao serem percebidas com um outro olhar ganham um significado maior, uma aura... Esta introdução bem que poderia descrever aquela que considero a obra prima da cineasta, Encontros e Desencontros (2002), no entanto estou falando é de Um Lugar Qualquer (2010), seu filme mais recente... Sim, a temática e também as cenas mencionadas acima, meio que se repetem neste filme, mas, absurdamente não vejo nisso um aspecto negativo como parte da crítica o fez. 

Acredito piamente que o tempo ainda irá confirmar a genialidade de Sofia, ela tem captado com enorme maestria um sentimento que está encrustado na consciência coletiva do mundo pós-moderno. O vazio existencial, pelo qual seus personagens são acometidos, talvez seja a característica mais marcante do contexto social em que vivemos. Mesmo que tentemos negar, este vazio tem se tornado cada vez maior, costumo aponta-lo como uma consequência da atual fase do capitalismo em que vivemos e do colapso das ideologias. Como bem definiu Tyler Durden em O Clube da Luta (1999): “Nós não temos uma guerra mundial, nós não temos uma grande depressão... nossa guerra é a espiritual, nossa depressão, são as nossas vidas”. De fato, não temos mais um “inimigo” real contra o qual lutar, não temos mais as respostas para as dores do mundo, porque hoje já nem sabemos quais são as perguntas, as questões se tornaram subjetivas e por isso mais complexas, também não temos mais ideais e na falta deles tentamos suprir nossa necessidade de propósitos com o hedonismo, com o consumismo e com o sexo vulgar... No entanto todas estas tentativas são vãs e é daí que vem o vazio, a frustração...


Johnny Marco (Stephen Dorff) é a personificação deste vazio em Um Lugar Qualquer, ele é um aclamado ator de cinema, que leva uma vida desregrada de abusos e prazeres intermináveis, no entanto nada disso lhe satisfaz, ele parece estar constantemente ausente, como se estivesse alheio a tudo que acontece à sua volta, sua consciência parece flutuante enquanto dançarinas de pole dance se apresentam em seu quarto de hotel, ou durante uma coletiva de imprensa sobre seu trabalho mais recente. Sua relação com todos à sua volta, é efêmera e superficial, principalmente com as mulheres, toda sua vida é aparentemente um compromisso de trabalho. Tal como em Encontros e Desencontros, neste filme quase toda a trama se desenvolve em um hotel, Sofia não poderia ter achado uma alegoria melhor para retratar o mundo pós moderno, os hotéis com seus aposentos padronizados e impessoais ilustram a morte do indivíduo diante de uma sociedade que não é capaz de reconhecê-lo como alguém dotado de sentimentos e aspirações singulares que o diferenciam dos demais.


Apesar de ter um boa aparência, de ser rico e famoso, Johnny não consegue se afirmar como indivíduo, ele se perde em meio a compromissos sociais e uma vida de aparências. Ele não está depressivo, apenas melancólico e a dor que ele sente não tem uma causa específica que a justifique, é apenas o vazio... Mas assim como em Encontros e Desencontros, Sofia aponta um caminho, uma luz no fim do túnel, a resposta para amenizar esta dor que seu personagem sente, esta solução seria encontrada em um relacionamento, se no outro filme a resposta estava uma belíssima amizade cheia de cumplicidade, neste ela está em uma relação entre pai e filha. Johnny se vê obrigado a repensar sua vida a partir do momento em que Cleo (Elle Fanning), sua filha de onze anos, aparece inesperadamente para passar uma temporada com ele. Na convivência com ela, ele encontra um sentido, de repente ele não está mais rodando em círculos na esperança de chegar a um lugar qualquer (como alegorizado na primeira sequência do filme), agora ele tem o propósito, redescobrir a maravilha de ser um pai presente.


Voltemos então à questão da repetição, como eu já havia dito, acredito que o tempo tornará a filmografia de Sofia Coppola ainda mais respeitada e cultuada, a minha teoria é a de que de alguma forma os filmes escritos e dirigidos por ela estejam dialogando entre si, eles estariam compondo algo maior, como uma espécie de tratado cinematográfico sobre o vazio. Se realmente existe de fato esta pretensão, não seria exagero afirmar que cada uma das cenas que aparentemente se repetem teriam sido planejadas para funcionar desta forma. Analisando isto à luz da temática abordada pelo filme, percebo que uma provável intenção seria a de mostrar que são experiências comuns à qualquer indivíduo (desde o momento de lazer à contemplação daquilo que nos causa estranheza), são repetições que comprovam que estaríamos em teoria fazendo parte de uma massa homogenia que consome os mesmos tipos de coisas e demonstra os mesmos tipos de reações a estímulos similares... O que poderia nos libertar desta repetição? De acordo com Sofia, seria o olhar diferenciado impulsionado pela descoberta de algo que nos possa dar este sentido maior que continuamente buscamos, estando nós conscientes disso ou não...



Além das cenas que mencionei no primeiro parágrafo, o filme ainda traz outras sequências belíssimas como a do mergulho dos dois personagens centrais em uma piscina e aquela que mostra a personagem de Elle Fanning patinando no gelo, como se estivesse sendo levada pela melodia melancólica da música que toca de fundo. Por falar em música, este é sempre um dos aspectos que mais merecem destaque nos filmes de Sofia ,e Um Lugar Qualquer não é uma exceção, ele traz em sua trilha belíssimas canções de bandas como The Strokes, The Police, Foo Fighters, T. Rex e Phoenix (esta última uma presença elementar meus caros leitores). Outro aspecto que merece destaque são as ótimas atuações de Stephen e Elle, eles transbordam naturalidade e demonstram uma química que faz toda a diferença nas cenas mais intimistas do filme. A direção e o roteiro de Sofia Coppola dispensam qualquer comentário adicional, o papito deve estar orgulhoso de tudo isso. O filme certamente não é do tipo que agradará a todos, mais uma vez a ausência de um clímax e a lentidão contemplativa podem afastar os ávidos por velocidade, no entanto aqueles dotados de alguma sensibilidade irão se deliciar... Recomendo!


Um Lugar Qualquer ganhou o Leão de Ouro, prêmio máximo do Festival de Veneza.

Assistam ao trailer de Um Lugar Qualquer no You Tube, clique AQUI !

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a resenha crítica 
de Encontros e Desencontros, também escrito e dirigido por Sofia Coppola.