segunda-feira, 30 de abril de 2012

Alien³

Alien³ - 1992. Dirigido por David Fincher. Escrito por David Giler, Walter Hill, Larry Ferguson e Vincent Ward. Direção de Fotografia de Alex Thomson . Música Original de Elliot Goldenthal. Produzido por Gordon Carroll, Dan Lin, David Giler e Walter Hill. Twentieth Century Fox Film Corporation e Brandywine Productions / USA.


David Fincher já tinha um relativo renome como diretor de filmes publicitários e clipes quando aceitou tocar o projeto de dar continuidade à franquia de Alien, que já tinha rendido até então dois filmes, o excelente Alien, o Oitavo Passageiro (1979) de Ridley Scott e o não tão bom quanto Aliens, O Resgate (1986) de James Camerom. Este foi o primeiro trabalho de Fincher como diretor de cinema e definitivamente ele não representou uma boa estreia, Alien³ se tornaria com o tempo uma obra renegada por boa parte dos fãs da franquia e até pelo próprio cineasta, que hoje não o reconhece como parte de sua filmografia. De fato o filme ficou bem aquém de seus antecessores, bem como das produções que o próprio Fincher viria a dirigir no futuro. Se os grandes trunfos dos outros dois filme do monstrengo alienígena eram respectivamente o suspense e a ação, neste terceiro é tão somente a curiosidade em relação ao que seria feito da trama e dos personagens que sobreviveram no filme anterior, o problema é que tal curiosidade já é satisfeita nas primeiras cenas, estas já nos permitem ter uma noção quase precisa do que virá na sequência e isso não é nada bom...

Sem dúvidas o principal problema do filme não está na direção e nem em nenhum outro aspecto isolado, sua visível carência de qualidade é quase generalizada. Seu roteiro não traz nada de novo - algo que possa justificar este uma continuação - o que salienta a ideia de que este se trata apenas de um caça níquel. As atuações são em sua maior parte sofríveis, nem Sigourney Weaver, que fora tão elogiada pelo seu trabalho no filme de Cameron, consegue repetir seu bom desempenho e isto se dá não tão somente por culpa dela, mas principalmente pela má inserção de sua personagem na continuidade da história. Tecnicamente o filme demonstra um nível de qualidade bem precário que aponta ou para a falta de recursos ou simplesmente para o desleixo dos profissionais envolvidos, ele até possui um visual bonito, com bons posicionamentos de câmera e uma boa fotografia, mas os efeitos especiais usados beiram ao ridículo de tão primitivos e isto é uma grande retrocesso em relação ao episódio que o antecedeu.


No filme, a tenente  Ripley (Sigourney Weaver) entra novamente em estado de hibernação após os fatos relatados no final de Aliens, O Resgate, porém algo acontece a bordo da nave onde ela e os outros sobreviventes estavam, a capsula onde ela dormia é então lançada no espaço e acaba caindo em um planeta distante que funciona como colônia penal para presos de alta periculosidade. Ao acordar Ripley descobre que ela é, mais uma vez, a única sobrevivente da expedição da qual participara e que está agora entre assassinos e estupradores, em um lugar tão hostil quanto perigoso, no entanto estes são os menores de seus problemas, sem saber ela trouxera  o maior deles junto consigo em sua capsula, o Alien. Inexplicavelmente, em uma das primeiras cenas em que aparece, o alienígena poupa a vida da tenente, o que a deixa receosa e tomada por preocupações.


O roteiro parece tentar criar um paralelo entre a ameaça do alienígena e a monstruosidade dos detentos que povoam o planeta prisão, como se quisesse com isso ensaiar teorias sobre a natureza humana, todavia este viés não fica tão claro, uma vez que o que se destaca na maior parte das cenas é a iminência do que está para acontecer, não deixando tanto tempo para uma boa construção dos personagens. O desfecho da história já é prenunciado desde as primeiras sequências do filme, o que elimina de seu desenvolvimento boa parte do suspense do qual ele poderia se valer. Os personagens não são tão bem aproveitados e algumas situações nos soam como adaptações de outras que já tínhamos visto nos primeiros filmes.


Alien³ vale ser visto apenas por fazer parte de uma das franquias mais lembradas da história do cinema e por ser o debut de David Fincher, que é um dos melhores e mais importantes cineastas americanos da atualidade, contudo ele funciona como uma mancha, tanto para a franquia quanto para a carreira do diretor. Eu pessoalmente o vejo como um exemplo claro da forma com que diretores iniciantes têm a criatividade castrada pelos interesses das produtoras e de seus dirigentes. Não consigo enxergar nele praticamente nada que o torne um filme autoral, na minha opinião ele não é nada mais que um filme de produtora lançado à sombra de seus antecessores tão somente para lucrar. Fincher, no entanto, soube usar a máquina a seu favor, ter se rendido ao padrão relativamente baixo desta produção o permitiu ganhar o espaço e o reconhecimento necessários para alçar vôos mais altos em Hollywood. Se Alien³ tem um grande mérito a ser lembrado, este é o de ter aberto a porta para Fincher e consequentemente para algumas das maiores obras primas das duas últimas décadas... 


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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra, 



sábado, 28 de abril de 2012

Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras

Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras (Sherlock Holmes: A Game of Shadows) - 2011. Dirigido por Guy Ritchie. Escrito por Michele Mulroney e Kieran Mulroney inspirado na obra literária de Arthur Conan Doyle. Direção de Fotografia de Philippe Rousselot. Música Original de Hans Zimmer. Produzido por Susan Downey, Dan Lin, Joel Silver e Lionel Wigram. Warner Bros. Pictures / USA.


Há alguns dias, quando escrevi a resenha de X-Men: Primeira Classe (2011), citei a fórmula sob a qual a maior parte dos filmes de super-heróis têm sido construída, esta que consiste em mesclar efeitos especiais, cenas de ação e um toque de humor à uma trama simplória e superficial. Tal fórmula continua funcionando muito bem com o público médio, ela continua rendendo grandes bilheterias e muito lucro para os produtores, mas a verdade é que para quem procura nos filmes algo que vá além da repetição descarada,  ela já não funciona mais como outrora, são poucos os roteiros que conseguem se destacar em meio a tantos iguais e este não é o caso de Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras (2011). A minha expectativa em relação a ele era alta, principalmente pela boa qualidade de seu antecessor, Sherlock Holmes (2009), também dirigido por Guy Ritchie, no entanto ele infelizmente não conseguiu atendê-la. Antes de abordar cada um de seus aspectos, preciso deixar claro que não o considero um filme ruim, ele tem ótimas cenas de ação e um ritmo bem rápido, contudo nada disso o livra de cair na mediocridade, no mais do mesmo fomentado pela indústria cultural.

No filme a dedução e o raciocínio lógico de Sherlock, que sempre foram suas principais características, dão lugar às improváveis cenas de previsão de conflito físicos, que parecem terem sido reaproveitadas do primeiro longa por mera falta de criatividade. Não há no roteiro um mistério real capaz de induzir a nós expectadores a um suspense digno do personagem, o que se tem é apenas o ritmo frenético, que não nos permite pensar. A trama não nos instiga em nenhum momento, não sentimos a urgência de descobrir o mistério, porque simplesmente para nós ele faz pouco ou nenhum sentido, as pistas que são dadas para a resolução do caso investigado são simplórias, o que torna o desfecho do filme altamente previsível. Eu arriscaria dizer que o detetive mostrado no filme é o tipico personagem louvável de nossa época, o público que cultua a superficialidade e repudia a profundidade e a inteligência será capaz de se identificar facilmente com alguém que prefere se valer de esperteza e de disfarces cômicos do que da razão para resolver suas questões.


Na história, que se passa em 1891, atentados terroristas e assassinato misteriosos deixam algumas das principais cidades da Europa em alerta, não se sabe ao certo quem são os responsáveis, o que torna diversos grupos políticos e revolucionários potencialmente suspeitos. É então que Sherlock entre em cena, ele começa a investigar os atos isolados, que formam um enorme teia de ligações que possui apenas um elo em comum, o excêntrico Professor James Moriaty (Jared Harris). Para dar continuidade à investigação o detetive precisará da ajuda de seu fiel escudeiro, o Dr. John Watson (Jude Law), mas este só consegue pensar em seu casamento com a bela Mary Morstan (Kelly Reilly) e em sua viagem de lua de mel. Irene Adler (Rachel McAdams) desaparece misteriosamente e entra em cena uma cigana, chamada Simza (Noomi Rapace), que servirá de ligação entre Sherlock e o caso investigado.


A sensação que experimentei ao ver o filme, pode ser descrita como estranhamento, uma vez que nenhum daqueles personagens me eram de fato familiares, eles foram cruelmente descaracterizados e neste processo sobrou pouco da arrogância e do sarcasmo de Sherlock e da articulosidade e perversidade de Moriaty, estas, características marcantes e determinantes de ambos. O enfrentamento entre eles, que se resume no longa à explosões, lutas e tiros, chega a ser vergonhoso para quem conhece um mínimo dos personagens, este é sem dúvidas o aspecto mais destonante do filme em relação à história original e o que melhor ilustra o quanto a trama teve sua complexidade amenizada para ser melhor entendida pelo grande público.


Mesmo o roteiro pecando pelos excessos e pela superficialidade, o filme poderia ser engrandecido pelas atuações, mas também não é o que acontece. Robert Downey Jr. apresenta um desempenho afetado e por vezes afeminado que nos lembra mais o Capitão Jack Sparrow da franquia Piratas do Caribe, vivido por Johnny Depp, do que o lendário investigador residente na Baker Street 221B. Jude Law e Jared Harris estão bem, mas ambos também são prejudicados pela má construção de seus personagens. Curiosamente, os destaques ficam por conta de dois coadjuvantes, o irmão mais velho de Sherlock, Mycroft Holmes, interpretado por Stephen Fry (l) e a já citada cigana Simza, vivida por Noomi Rapace.


Tecnicamente Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras é quase impecável, a reconstrução, feita de forma digital, das cidades onde a trama se desenvolve é surpreendente, o figurino e a direção de arte também chamam a atenção durante todo o filme, estes aspectos ajudam a compor o belo visual que o longa tem. Os efeitos especiais também são ótimos, as cenas de explosões são bem feitas, o que as torna surpreendentemente impactantes e convincentes. Todavia, ao ser associada a um roteiro tão capenga todo este esmero técnico se torna um glamour medíocre, que só não é um desperdício completo porquê o rendimento da produção, vindo da bilheteria, foi consideravelmente alto. Como eu disse no início desta resenha , O Jogo de Sombras se resume à citada fórmula que tanto tem agradado ao público imediatista ávido por entretenimento, portanto se você procura por um filme do tipo que lhe permita desligar o cérebro durante a sessão este será sem dúvidas uma ótima pedida, caso contrario procure pela série inglesa Sherlock, esta sim uma produção à altura do personagem!


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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra, 


terça-feira, 24 de abril de 2012

Pina

Pina - 2011. Escrito e Dirigido por Wim Wenders. Direção de Fotografia de Hélène Louvart. Música Original de Thom Hanreich. Produzido por Wim Wenders e Gian-Piero Ringel. Neue Road Movies / Alemanha | França | UK.


Meu primeiro contato com a obra de Pina Bausch foi através do filme Fale com Ela (2002) de Pedro Almodóvar, que mostra em uma de suas primeiras cenas um trecho da peça Café Müller. Apesar de curto, este recorte da encenação, que funciona no longa como prelúdio de desdobramentos do roteiro, me impactou fortemente. Em movimentos corporais aparentemente simples era possível identificar sentimentos e sensações tão pungentes, como dor, angústia e ânsia de libertação... Almodóvar soube escolher muito bem qual parte da montagem teatral usar em seu trabalho, primeiro porque este fragmento está fortemente relacionado com a história contada em seu filme e segundo porque, mesmo sendo breve, ele compila alguns dos elementos mais característicos do estilo da coreógrafa alemã. A opressão e a melancolia, associadas à dicotomia masculino versus feminino, que ficam tão evidentes na passagem reproduzida, foram as principais marcas da obra desta artista, que nasceu em Solingen em 27 de julho de 1940 e reiventou o teatro e a dança na década de 60.

O projeto de rodar um filme sobre a obra de Pina surgira anos atrás, antes da morte dela em 30 de junho de 2009. O cineasta Wim Wenders estava convencido de que seria capaz, com suporte tecnológico oferecido pelo 3D, de transportar para a tela a experiência artística única que suas montagens proporcionavam nos palcos. Quando ele lhe apresentou a ideia, ela gostou e decidiu acompanhar todo o processo criativo ao lado dele, que era seu amigo de longa data, contudo algo inesperado faria com que o projeto tomasse um outro rumo... Com a morte repentina de Pina (em decorrência de uma doença diagnosticada cinco dias antes), Wenders decidiu dar continuidade ao projeto transformando-o em uma belíssima homenagem póstuma, cujo o foco seria a imortalidade que ela alcançara através de sua arte. 


Implicitamente o documentário defende que a imortalidade artística, que seria uma condição suprema, fora alcançada por Pina e como prova disso ele aponta a riqueza daquilo que ela deixou como legado e o respeito quase surreal que seus amigos e discípulos devotavam a ela.

Dance, dance, otherwise we are lost”- esta citação de Pina é evocada enfaticamente por Wenders como um epitáfio e ao mesmo tempo como uma testificação de que ela, como artista, não estará "perdida", umas vez que sua memória será preservada pela dança, que era sua principal forma de expressão. 

A importância e grandiosidade da obra de Pina se manifesta no filme através da passionalidade de cada um dos depoimentos concedidos por dançarinos que trabalharam com ela e na reverência com que o cineasta estabelece o diálogo entre a arte dela (a dança) e a dele (o cinema).


"Há situações, é claro, que te deixam absolutamente sem palavras. Tudo o que você pode fazer é insinuar. As palavras, também, não podem fazer mais do que apenas evocar as coisas. É aí que vem a dança..."

O olhar de Wenders sobre a obra de Pina denota o enorme respeito dele em relação à ela, esta postura o impede de minimizar a complexidade de suas peças e até mesmo de arriscar interpretações reducionistas sobre cada uma delas e é justamente isso que torna o documentário tão especial e diferenciado dos demais. Quem está acostumado com o formato padrão do gênero (informações históricas + imagens marcantes/raras) certamente irá estranhá-lo, uma vez que ele foge completamente do estilo "jornalístico" (nele felizmente não somos expostos a informações do tipo que poderiam ser encontradas na wikipedia), podendo ser melhor definido como: uma conversão da experiência da apreciação artística em uma nova obra de arte, tão impactante e bela quanto a original... Os posicionamentos de câmera, os ângulos de cada tomada, a edição, todos estes aspectos parecem ter sido trabalhados com a pretensão de nos proporcionar uma experiência similar à de de ter assistido ao espetáculo em um teatro - provavelmente esta experiência chega ainda mais próxima do real no formato 3D - porém com a surrealidade que só o cinema poderia acrescentar, como o deslocamento das encenações do palco para as ruas e outros lugares insólitos...


As belíssimas cenas de dança são intercaladas no documentário à declarações de dançarinos e de outras pessoas que atuaram ao lado da coreógrafa em sua companhia, a Tanztheater Wuppertal. É muito interessante a forma com que estes depoimentos são mostrados ao longo do filme, em nenhum momento vemos os entrevistados conversando, apenas ouvimos suas vozes em off, enquanto eles são filmados rapidamente em posições quase estáticas, que enfatizam apenas suas expressões faciais, em seguida eles são mostrados já em ação, ou seja dançando. Eu entendo a opção por tal tipo de edição como mais uma prova da reverência prestada pelo cineasta, é como se ele se recusasse a mostrar no filme qualquer movimento que não fosse as coreografias criadas por Pina. Outro aspecto interessante, é o fato de o cineasta permitir que cada entrevista fosse concedida na língua original do entrevistado, o que acentua a multietnicidade do elenco da companhia, aspecto este que era muito bem aproveitado por Pina em cada montagem, ela valorizava a individualidade e as experiências de cada membro de sua equipe. 


Somente após assistir Pina eu consegui compreender o nervosismo de algumas críticas negativas que ele recebeu e a sua relativa má recepção em algumas das principais premiações da última temporada, ele meio que repetiu o fenômeno provocado por A Árvore da Vida (2011) de Terrence Malick, ambos não conseguiram se fazer compreendidos pelo grande público, para quem a experiência artística/filosófica tem pouco valor. A escassa verbalidade da linguagem do filme de Win Wenders dificultou a sua digestão por aqueles que são incapazes de sentir a ebulição de sentimentos e sensações que cada uma de suas sequências evocam. A desculpa de que só quem gosta de dança contemporânea seria capaz de compreender e apreciar o filme simplesmente não cola, uma vez que cada uma de suas mensagens transcendem a sua linguagem por serem universais e compreensíveis a cada um que ainda tenha um mínimo de sensibilidade. Pina é uma obra prima cativante e emocionante, porém não ouso a recomendar para todos...


Pina foi indicado ao Oscar na categoria de Melhor Documentário e ao BAFTA na categoria de Melhor Filme de Língua Não-inglesa.

Assistam ao trailer de Pina no You Tube, clique AQUI !

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a resenha crítica de Asas do Desejo (1987), também dirigido por Wim Wenders.

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra, 


domingo, 22 de abril de 2012

Em Busca da Palma de Ouro - Seleção do Oficial do Festival de Cannes 2012


Na última quinta-feira (19/04) foi divulgada a seleção oficial da 65° edição do Festival de Cannes, que acontecerá entre os dias 16 e 27 de maio. Serão exibidos ao todo 54 filmes de longa metragem, de 26 países diferentes, dentre eles estão os aguardados On the Road de Walter Salles e Cosmopolis de David Cronenberg. 

O cinema nacional será considerado convidado de honra nesta edição, ele será homenageado com a presença do documentário A Música Segundo Tom Jobim de Nelson Pereira dos Santos, que está entre os selecionados para a exibição especial, e dos cineastas Cacá Diegues e Ruy Guerra, ambos nomes seminais do Cinema Novo Brasileiro, que participarão como convidados especiais.

Na última edição do festival foram exibidas boa parte daquelas que eu consideraria as produções mais importantes de 2011. A minha expectativa é de que neste ano Cannes funcione novamente como vitrine para obras do mesmo nível de qualidade... Acompanhemos!


COMPETIÇÃO OFICIAL

De Rouille et d'os de Jacques Audiard (França)
Holy Motors de Leos Carax (França)
Cosmopolis de David Cronenberg (Canadá)
The Paperboy de Lee Daniels (EUA)
Killing Them Softly de Andrew Dominik (Austrália)
Reality de Matteo Garrone (Itália)
Amour de Michael Haneke (Áustria)
Lawless de John Hillcoat (EUA)
In Another Country de Hong Sangsoo (Coreia do Sul)
Le Go»t de L'argent de IM Sangsoo (Coreia do Sul)
Like Someone in Love de Abbas Kiarostami (Irã)
The Angel's Share de Ken Loach (Grã-Bretanha)
Dans la Brume de Sergei Loznitsa (Ucrânia)
Beyond the Hills de Cristian Mungiu (Romênia)
Après la Bataille de Yousry Nasrallah (Egito)
Mud de Jeff Nichols (EUA)
Vous n'Avez Encore Rien Vu de Alain Resnais (França)
Post Tenebras Lux de Carlos Reygadas (México)
Na Estrada de Walter Salles (Brasil)
Paradis: Amour de Ulrich Seidl (Alemanha)
The Hunt de Thomas Vinterberg (Dinamarca)

FORA DE COMPETIÇÃO

Moonrise Kingdom de Wes Anderson (EUA) - filme de abertura
Thérèse Desqueyroux de Claude Miller (França) - filme de encerramento
Io e Te de Bernardo Bertolucci (Itália)
Madagascar 3 - Os procurados de Eric Darnell (EUA)
Hemingway & Gellhorn de Philip Kaufman (EUA)

MOSTRA UM CERTO OLHAR

Miss Lovely de Ashim Ahluwalia (Índia)
La Playa de Juan Andres Arango (Colômbia)
Les Chevaux de Dieu de Nabil Ayouch (Marrocos)
Trois Mondes de Catherine Corsini (França)
Antiviral de Brandon Cronenberg (Canadá)
7 dias en la Habana de Benicio del Toro, Pablo Trapero, Julio Medem, Elia Suleiman, Juan Carlos Tabio, Gaspar Noé e Laurent Cantet (EUA, Espanha, Argentina, Palestina, Cuba, França)
Le Grand Soir de Benoît Delépine e Gustave Kervern (França)
Laurence Anyways de Xavier Dolan (Canadá)
Despues de Lucia de Michel Franco (México)
Aimer à Perdre la Raison de Joachim Lafosse (Bélgica)
Mystery de Lou Ye (China)
Student de Darezhan Omirbayv (Cazaquistão)
La Pirogue de Moussa Touré (Senegal)
Eléphant Blanc de Pablo Trapero (Argentina)
Confession d'un Enfant du Siècle de Sylvie Verheyde (França)
11.25 The Day he Chose his Own Fate de Koji Wakamatsu (Japão)
Les Bêtes du Sud Sauvage de Benh Zeitlin (EUA)

EXIBIÇÕES ESPECAIS

Der Müll im Garten Eden de Fatih Akin (Alemanha)
Roman Polanski: A Film Memoir de Laurent Bouzereau (França)
The Central Park Five de Ken Burns, Sarah Burns, David McMahon (EUA)
Les Invisibles de Sébastien Lifshitz (França)
Journal de France de Claudine Nougaret e Raymond Depardon (França)
A Música Segundo Tom Jobim de Nelson Pereira dos Santos (Brasil)
Villegas de Gonzalo Tobal (Argentina)
Mekong Hotel de Apichatpong Weerasethakul (Tailândia)

EXIBIÇÃO ESPECIAL PELO 65° ANIVERSÁRIO

Une Journée Particulière de Gilles Jacob e Samuel Faure (França)

SESSÃO DA MEIA-NOITE

Dario Argento's Dracula de Dario Argento (Argentina)
Ai to Makoto de Takashi Miike (Japão)


sexta-feira, 20 de abril de 2012

X-Men: Primeira Classe

X-Men: Primeira Classe (X-Men: First Class) - 2011. Dirigido por Matthew Vaughn. Escrito por Ashley Miller, Zack Stentz, Jane Goldman e Matthew Vaughn. Direção de Fotografia de John Mathieson. Música Original de Henry Jackman. Produzido por Gregory Goodman, Simon Kinberg, Lauren Shuler Donner e Bryan Singer. Bad Hat Harry Productions, Donners' Company, Marvel e Twentieth Century Fox Film Corporation / USA.


Na última década houve um revival dos filmes de super-heróis e de adaptações de HQs, alguns  personagens ganharam as telas pela primeira vez e outros tiveram suas histórias revisitadas em versões bem diferentes das anteriores. A maioria das obras do gênero produzidas desde então foram construídas sobre uma mesma fórmula, que consiste em mesclar uma trama rasa a uma boa dose de ação, efeitos espetaculosos e situações cômicas. Os longas que subverteram este molde já saturado foram ao meu ver os mais bem sucedidos, temos como o melhor exemplo disso o excelente Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008) de Christopher Nolan, que é na minha opinião simplesmente o melhor filme de super-herói já produzido... prequel X-Men: Primeira Classe não alcança nem de longe o nível de qualidade do filme de Nolan, ele também não está totalmente fora da fórmula anteriormente citada (afinal ele reproduz alguns de seus clichês mais batidos), e mesmo não propondo nenhum tipo de abordagem ou narrativa que não sejam as convencionais, ele ainda pode ser considerado um filme bem acima da média.

A franquia protagonizada pelos mutantes já havia rendido uma trilogia - encerrada com o controverso X-Men - O Confronto Final (2006) - e um Spin-off - X-Men Origens: Wolverine (2009) - e nenhum destes escapou da maior polêmica que geralmente acomete as adaptações: a questão da fidelidade aos originais. Isto fez com que cada um deles dividisse a opinião de cinéfilos e de fãs da HQ, da qual eles foram adaptados. Em X-Men: Primeira Classe a situação tenderia a se agravar, uma vez que sua trama entra em conflito não só com a história original, mas também com passagens presentes nos filmes rodados anteriormente e não dá para considerá-lo um reboot, o que o tornaria independente dos demais, por causa das inúmeras referências que ele faz aos outros longas, que vão de cenas revisitadas a pequenas pontas de atores. Este aspecto da fidelidade pode ser sem dúvidas um grande desmotivador para os fãs mais radicais (estes existem aos montes), porém para aqueles, que como eu, decidirem analisar o filme como uma obra individual, isto fará pouca ou nenhuma diferença. 


A história de X-Men: Primeira Classe se passa durante um período da guerra fria que ficou marcado pela "crise dos mísseis de Cuba". Historicamente, em 1961, em meio á corrida armamentista, os Estados Unidos instalaram mísseis em bases localizadas na Turquia. Como resposta a União Soviética montou cerca de quarenta silos que deveriam abrigar mísseis nucleares no território cubano. A possibilidade de que um dos lados pudesse atacar deixou todo o mundo em polvorosa, nunca a ameaça de uma guerra nuclear fora tão iminente. No filme, o roteiro desconstrói este fato histórico, inserindo nele a questão dos mutantes como o fator que teria provocado o acirramento da tensão de ambos os lados. Como já era de se esperar, a trama assume um caráter altamente tendencioso ao adotar o lado americano. No filme os oficiais e militares russos são personagens unilaterais e estereotipados, construídos sob uma personalidade vilanesca que não condiz precisamente com a realidade, enquanto os americanos são retratados como os bons moços que se encarregam de salvar o mundo de uma quase inevitável devastação nuclear.


No centro da trama de X-Men: Primeira Classe estão dois mutantes, o jovem superdotado Charles Xavier (James McAvoy) e o sobrevivente do holocausto Erik Lehnsherr (Michael Fassbender), suas vidas se cruzam quase que por acaso, uma vez que eles são movidos por intenções bem diferentes. Xavier está disposto a lutar pela afirmação daqueles que desenvolveram as mutações provocadas pela presença do gene "x" em seus DNAs, enquanto o que Erik mais quer é se vingar do responsável pela morte de sua mãe em um campo de concentração. Após se conhecerem, ambos se juntam à uma divisão da CIA, liderada pela jovem agente Moira MacTaggert (Rose Byrne), para combaterem inimigos em comum. O oficial nazista que assassinara a mãe de Eric, Sebastian Shaw (Kevin Bacon), se aliara a militares da URSS com o simples objetivo de acelerar o confronto bélico entre as duas potências mundiais. Ele acredita que uma provável guerra nuclear poderia por fim à sociedade tal como a conhecemos, o que deixaria os seres humanos "normais", que por ventura pudessem sobreviver ao conflito, vulneráveis à imposição de um domínio mutante.


Quando as circunstâncias se tornam ameaçadoras para os mutantes que tinham optado por levar uma vida normal, Xavier decide romper com a CIA e criar uma espécie de escola, onde os "evoluídos" pudessem aprimorar seus poderes e aprender como usá-los da melhor maneira possível, como uma arma na manutenção da paz entre os "normais" e os geneticamente modificados (qualquer semelhança com a corrida armamentista não é mera coincidência). Na primeira turma formada, que seria uma espécie de embrião dos X-Men, estavam também Mística (Jennifer Lawrence), que crescera junto com Xavier, e o pesquisador da CIA Hank McCoy (Nicholas Hoult), ambos personagens importantes também nas outras partes da franquia. Outros mutantes são convidados a fazerem parte do grupo, alguns deles bem interessantes e outros nem tanto (preste atenção em quem aparece em uma ponta recusando um dos convites)... 


O filme não falha em sua proposta de explicar como tudo começou, ainda que haja alguns tropeços pelo caminho. Tocar ainda que de forma superficial em um fato histórico da dimensão da crise dos mísseis foi uma das melhores sacadas do roteiro, que o faz de forma forma bem surpreendente. A ambientação nos anos 60 dá todo um charme ao filme, que ganha uma estética bem diferente da dos outros.

No tocante às atuações, o maior destaque do filme é inquestionavelmente Michael Fassbender, mesmo interpretando um personagem relativamente raso (o que é algo normal, dado o gênero do filme), ele impressiona,  a caracterização que ele dá ao seu personagem, sem com isso perder aquilo que o define, é impressionante. No geral, o elenco todo dá conta do recado, apresentando desempenhos medianos, porém bem satisfatórios. Confesso apenas que tive um pouquinho de decepção com a atuação de January Jones, que interpreta no filme uma das aliadas de Sebastian Shaw, eu esperava bem mais dela, talvez por já ser um grande admirador de seu trabalho na série Mad Men.


Tecnicamente também o filme é muito bom, as sequências de ação e os efeitos especiais são ótimos, estes aspectos ajudam a manter o desenvolvimento da história em um ritmo rápido, que não permito que nós espectadores sequer percebamos o decorrer do tempo e o filme não se torna chato ou cansativo em momento algum. 

Uma continuação já está prevista para 2014 e, segundo declarações do produtor Simon Kingberg, sua trama estará focada no personagem Erik Lehnsherr, o Magneto, e na trajetória que ele percorre até se tornar um dos grandes vilões da franquia.

A verdade é que X-Men: Primeira Classe não pode ser considerado uma obra prima de seu sub-gênero e na minha opinião nem dá para apontá-lo como o melhor "pipoca" do ano passado como muitos fizeram (eu ainda prefiro O Planeta dos Macacos - A Origem), no entanto há de se reconhecer que seu resultado final é altamente positivo, tendo-se em vista que o seu propósito original era tão somente o de entreter...  Recomendo!


Assistam ao trailer de X-Men: Primeira Classe no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra, 


terça-feira, 17 de abril de 2012

O Palhaço

O Palhaço - 2011. Dirigido por Selton Mello. Escrito por Selton Mello e Marcelo Vindicato. Direção de Fotografia de Adrian Teijido. Trilha Sonora Original de Plínio Profeta. Produzido por Vânia Catani e Carlos Eduardo Rodrigues. Bananeira Filmes / Brasil.


Sinto um prazer enorme quando me deparo com um filme nacional capaz de reascender em mim a esperança de que nosso cinema possa um dia se libertar por completo de suas fórmulas manjadas e da influência negativa da linguagem televisiva. O Palhaço (2011), segundo filme dirigido por Selton Mello, é quase uma preciosidade neste sentido, ele não escapa de reproduzir alguns dos estereótipos já saturados, contudo ele cumpre de forma excelente a sua proposta. Felizmente não vemos nele o pseudorrealismo característico de produções que travestem suas tramas de crítica social e tão pouco somos agredidos pela enxurrada de palavrões de fitas que exploram uma veia cômica pressupostamente mais popularesca. É este aspecto que o torna diferenciado de boa parte dos filmes nacionais que atingem o grande circuíto e as principais salas de cinema.

Selton Mello parece ter bebido bastante da fonte de Federico Fellini, ainda que inconscientemente, a influência do cineasta italiano é nítida em O Palhaço. No filme o burlesco se mistura à reflexões de cunho intelectualizado e a ambientação mescla o tom carnavalesco do espetáculo circense aos olhares melancólicos e às marcas de expressão de um povo visivelmente sofrido. A cultura popular, a religiosidade e o onírico se misturam em uma atmosfera tipicamente Felliniana, onde o lúdico e o surreal parecem estar entrelaçados à própria percepção da realidade. Na trama acompanhamos o pequeno circo Esperança que viaja por cidades pobres do interior de Minas Gerais levando alegria e entretenimento com seu espetáculo simples, porém encantador. Em cada lugarejo onde a lona é erguida há uma pausa no sofrimento, o povo se reúne diante do picadeiro e se permite rir e se emocionar com cada uma uma das apresentações,   principalmente com as piadas e estrepolias da dupla de palhaços. 


Benjamim (Selton Mello) nasceu e foi criado no circo, a vida que ele sempre levou nunca lhe permitiu criar raízes. Vivendo sempre na estrada, viajando de uma cidade para outra, ele nunca teve tanto tempo para si, a rotina nunca lhe deu a chance de se aventurar em outro tipo de vida na qual ele podesse se sentir realizado, isto então o tornou melancólico. Seu pai, Valdemar (Paulo José), é o dono do circo, ele é um homem lutador que sempre batalhou para conseguir manter sua trupe atuante e satisfeita em suas necessidades, contudo ele representa tudo aquilo que seu filho não quer se tornar, Benjamim quer ser diferente, ele quer se autoafirmar e trilhar seus próprios caminhos. O atrito do jovem consigo mesmo o conduz à uma tristeza cada vez mais profunda, que coloca em risco a apresentação do número mais bem sucedido do circo, que ele apresenta ao lado do pai, eles são respectivamente os palhaços Pangaré e Puro Sangue.


Benjamim consegue com facilidade colocar um sorriso nos rostos de crianças e adultos dos lugares por onde o circo passa, no entanto ele não tem ninguém que lhe faça sorrir. Em uma das cenas do filme um policial o aborda e o pede o alvará que concede o circo a licença para se apresentar e os documentos pessoais dele, o palhaço retruca dizendo que o circo ainda não tem a licença e que o único documento que ele trás consigo é a sua certidão de nascimento. Esta passagem é emblemática e ela diz muito sobre o personagem, a certidão de nascimento que ele tem prova a sua existência, mas não quem ele é. Em outro momento ele pondera: "preciso resolver este problema de identidade...", é nesta passagem que fica ainda mais claro que o problema ao qual ele se refere não se resume tão somente à burocracia de tirar um documento... Seguindo a cartilha dos road movies, no filme o trajeto percorrido pelo personagem alegoriza o amadurecimento e a mudança de paradigmas que ele experimenta, se tornando para ele uma espécie de rito de passagem.


A reflexão proposta pelo roteiro do filme aborda a busca do indivíduo por algo que ele ainda não tem, que não lhe é ainda familiar, é nesta procura, que às vezes demora anos, que ele passa a conhecer a si mesmo, quais são suas aspirações e reais necessidades. Benjamim está vivendo este processo, ele procura por algo que lhe é estranho - que na verdade ele ainda nem conhece - e isso lhe leva a questionar sua vocação. Ser palhaço é até então algo que o define, mas não algo que ele é, explico, ele se apresenta junto com o pai no picadeiro simplesmente por ter sido criado para tal, sua vivência no circo o conduziu a este caminho, que ele traçou movido pelas circunstâncias e não por um propósito; esta é a sua vida e ele não se reconhece mais nela. Encontrar um propósito que seja realmente seu significa para ele encontrar a si mesmo e assim se tornar alguém. Valdemar o exorta a ter calma para não colocar risco o espetáculo, mas sua frustração só se faz aumentar e isso começa a ser percebido por todos à sua volta, principalmente depois que o show começa a perder a qualidade e a naturalidade...


Em Feliz Natal (2008), seu filme de estreia (que eu ainda não assisti), Selton Mello já havia abordado a temática da autodescoberta, sua volta ao assunto neste segundo trabalho aparentemente não indica repetição e isso pode estar mais relacionado à uma marca autoral, que ele como cineasta quer deixar impressa em seus trabalhos, do que à uma questão de limitação de criatividade. Ao assistirmos  O Palhaço é possível perceber o cuidado com que Selton apara cada uma das arestas do filme, deixando-o com ritmo lento, porém impregnado por uma poética, que nos conquista já desde as primeiras sequências. O longa no entanto peca um pouco em pelo menos dois aspectos, um deles são as atuações de uma pequena parte do elenco secundário, que simplesmente não consegue convencer, não há verdade nem naturalidade em suas interpretações, o que gera um contraponto com desempenhos formidáveis de Selton, de Paulo José e de outros renomados atores que aparecem em pequenas pontas, como Jackson Antunes e Moacyr Franco. Outro problema são algumas piadas que surgem totalmente deslocadas em determinados momentos da trama, penso se algumas delas tivessem sido deixadas de fora com certeza o resultado final seria ainda melhor.


No fim das contas, os problemas se tornam irrelevantes diante de tantos aspectos positivos que o filme tem  e este podem ser notados não só no roteiro e nas reflexões propostas pela trama, O Palhaço também merece aplausos de pé pela sua excelente qualidade técnica. A belíssima fotografia é um de seus aspectos que mais chama a atenção, ela valoriza a beleza natural das locações e o perfil psicológico dos personagem em cada enquadramento e iluminação. O esmero também podem ser observado nos figurinos, na direção de arte e na escolha das locações, este aspectos como um todo compõem o visual belo e fantástico que o filme tem. 


O filme teve um retorno considerável, ele conseguiu ser um grande sucesso de bilheteria, o que por si só já é um bom sinal, todavia este é um fato no mínimo curioso, uma vez que não é o tipo de filme que tende a agradar plenamente a todos os públicos. A sensibilidade e a serenidade que conferem lentidão à condução da trama não tende a ser vista com bons olhos pelo público médio, o que faz com que comentários do tipo: "que filme ruim, não acontece nada nele, quase dormi", não sejam exceções. A minha conclusão no entanto é a de que o longa foi muito bem sucedido ao inverter a história do menino que foge do circo para abordar a temática da autodescoberta, este é sem dúvidas um dos melhores filmes nacionais dos últimos tempos, que merece ser visto e apreciado por todos que nutrem a mesma esperança que eu em relação ao nosso cinema...


O Palhaço ganhou na edição do ano passado do Festival de Paulínia (que não acontecerá neste ano) os Prêmios de Melhor Direção, Roteiro, Figurino e Ator Coadjuvante (Moacyr Franco).

Assistam ao trailer de O Palhaço no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra, 


quinta-feira, 12 de abril de 2012

Shame

Shame - 2011. Dirigido por Steve McQueen. Escrito por Steve McQueen e Abi Morgan. Música Original de Harry Escott. Direção de Fotografia de Sean Bobbitt. Produzido por Iain Canning e Emile Sherman. Film4, See-Saw Films e UK Film Council / UK.


Brandon Sullivan (Michael Fassbender) é um executivo muito bem sucedido, ele mora em um belo apartamento e sua postura rígida e autoconfiante, aliada à sua boa aparência, o envolvem em uma imagem que nos remete a um padrão de sucesso e realização pessoal, no entanto isto constitui apenas um disfarce social, que nós expectadores vemos ser desfeito já na primeira sequência do filme. Brandon vive em uma constante e compulsiva busca pelo orgasmo, o prazer sexual se tornou para ele um vício tão incontrolável, que chega em determinados momentos a perder o sentido. O que lhe importa não é o ato sexual em si, também não é a conquista e muito menos os seus relacionamentos, que na verdade inexistem, é tão somente o momento do orgasmo e a explosão do prazer doentio. Nós espectadores somos introduzidos à realidade desde homem solitário e atormentado na condição de voyeurs, testemunhamos sua obsessão e sua consequente decadência psicológica, enquanto na trama as pessoas próximas a ele sequer desconfiam de sua tara.

À princípio Brandon se sente seguro no mundo particular que criou para si, ele não tem relacionamentos duradouros e o mais próximo que tem de um amigo é o seu chefe, que frequentemente o acompanha na noite. Nesta realidade quase alternativa em que vive, ele cria meios de dissimulação e métodos de escape para saciar sua compulsão, em casa ele tem uma maior liberdade e se expõe a conteúdos pornográficos e participa de chats e sessões de sexo virtual; e mesmo no trabalho, onde o risco é maior, ele acessa sites sobre sexo, entope a memória de seu computador com pornografia e se masturba, escondido no banheiro, em momentos de intervalo. Aparentemente com uma menor frequência, ele contrata prostitutas e as leva para casa, ou sai para flertar em boates e clubes noturnos. Sua boa aparência chama a atenção das mulheres, todavia sua dificuldade de se relacionar o impede de levar o flerte adiante. Curiosamente, ele não consegue alcançar com um relacionamento normal o mesmo prazer que encontra nos atos que lhe trazem vergonha, o que à primeira vista não nos parece fazer sentido.


As cortinas que mantém Brandon oculto em seu mundo particular começam a ser abertas com a chegada de  Sissy (Carey Mulligan), sua irmã caçula. Sem lugar para morar ela o procura e o pede para abrigá-la em seu apartamento, ele mesmo relutante a aceita. De um modo um tanto diferente, Sissy se torna vítima do mesmo mal que acomete o irmão - a busca pelo prazer constante em detrimento da manutenção de um relacionamento duradouro - sua visível melancolia se deve aos traumas provocados pelos relacionamentos  anteriormente desfeitos, pelo abandono. Diferente dele ela não quer a inconstância dos envolvimentos casuais, no entanto ela não consegue encontrar em nenhum de seus parceiros aquilo que procura... A presença da irmã em seu apartamento torna Brandon ainda mais arredio e em diversos momentos agressivo, a vergonha e o medo de ser descoberto vão se transformando em raiva à medida que ele percebe que sua sensação de segurança pode ser violada.


Shame (2011) me fez lembrar bastante de Drive (2011) - não apenas pela presença de Carey Mulligan no elenco - ambos os filmes trazem consigo temáticas que o tornam alegorias de diversos fatos sociais contemporâneos. Ambos são sombrios e melancólicos e exploram a realidade de indivíduos atormentados, deixando à mostra um lado obscuro da natureza humana. Contudo, enquanto Drive evoca a fábula do sapo e do escorpião para discursar sobre a natureza humana, da qual seria impossível fugir, Shame aponta para uma possível redenção, mas não de forma conclusiva, deixando em seu desfecho pairar no ar algumas das questões que direcionaram toda a sua trama... É possível para o indivíduo negar sua real natureza? Seria a compulsão o resultado de uma escolha consciente ou o fruto de um instinto proveniente do lado animalesco do comportamento humano? Até que ponto a própria sociedade seria a responsável pelo surgimento e alimentação de tal tipo de neurose? Estas são reflexões às quais o roteiro nos induz, sabiamente ele perpassa por elas, sem no entanto tentar nos fornecer possíveis respostas...


Brandon, tal como o personagem principal de Drive, representa um vértice, um extremo de um retrato obscuro de nossa própria sociedade, podemos perceber nele e em sua realidade a influência dos estímulos midiáticos, aos quais estamos tão acostumados, e a manifestação de comportamentos e atitudes que não nos são de todo estranhos. A vergonha que ele sente, induzida pelo fardo da culpa,  é similar aquela que sentimos quando nos vemos diante da frustração do desejo de nos enquadrarmos em um determinado padrão de comportamento, ou quando percebemos que somos incapazes de interferir no rumo de determinadas situações em nossas  vidas, sensações estas que têm se tornado cada vez mais comum em um mundo que cobra de nós um status social quase inatingível... O personagem central de Shame é humano e acima de tudo universal, seu comportamento nos parece à primeira vista repulsivo, mas passamos a observá-lo de uma forma totalmente diferente quando conseguimos perceber nele a dor provocada pelo peso da angústia existencial, sentimento tão familiar e marcante em nosso tempo.


O roteiro de Shame é ótimo, uma pena que uma grande parcela do público provavelmente o apontará como um filme pornográfico, carente de reviravoltas e cenas de ação, todavia aqueles que se dispuserem a vê-lo com um olhar um pouco mais aguçado irá perceber a profundidade de sua trama e o quanto as temáticas percorridas por ela são ainda mais contundentes que os nus frontais mostrados durante o seu desenvolvimento. Michael Fassbender está excelente, percebemos em cada uma de suas feições e até  mesmo nos seus momentos de total falta de expressão, a inadequação, a fissura e a angústia de seu personagem. Carey Mulligan também está muito bem, apesar de sua personagem neste filme lembrar aquela que ela interpretou em Drive, sua atuação não parece nem de longe uma reprodução da outra, ela protagoniza algumas das cenas mais marcantes do filme, como aquela em que ela canta em um bar uma versão melancólica da canção “New York, New York” de Frank Sinatra.


Como se não bastasse a relevância e a grandiosidade de sua temática, o bom desempenho do elenco e a habilidosa direção de Steve McQueen, o filme ainda se destaca pela beleza de sua estética e pela sua excelente parte técnica, a trilha sonora, por exemplo é simplesmente perfeita... Shame não é do tipo de filme recomendado para todos, porém sua qualidade é inegável, é sem dúvidas um excelente filme!


Shame foi indicado ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Ator - Drama (Michael Fassbender). No BAFTA, o filme recebeu indicações nas categorias de Melhor Filme Britânico e Melhor Ator (Michael Fassbender).

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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra,