quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O Amante da Rainha

O Amante da Rainha (En kongelig affære) - 2012. Dirigido por Nikolaj Arcel. Escrito por Rasmus Heisterberg e Nikolaj Arcel, baseado no livro de Bodil Steensen-Leth. Direção de Fotografia de Rasmus Videbæk. Música Original de Cyrille Aufort e Gabriel Yared. Produzido por Meta Louise Foldager, Sisse Graum Jørgensen e Louise Vesth. Zentropa Entertainments, DR TV, Trollhättan Film AB, Sveriges Television (SVT) e Sirena Film / Dinamarca | Suécia | República Checa.


A trama do filme O Amante da Rainha (2012) tem como pano de fundo a corte da Dinamarca em meados do século XVIII, período em que as ideias iluministas começavam a se espalhar pelos outros países da Europa, o teocentrismo, que justificara os abusos cometidos pelos nobres e pela igreja durante a idade média, começava a dar lugar ao antropocentrismo e aos ideias liberais defendidas por pensadores como  Rousseau, Montesquieu e Voltaire. No entanto, no país escandinavo tais ideais tardaram para ter alguma expressão, isso porque internamente ainda havia forte perseguição e censura, o que impedia a manifestação de opiniões contrárias à monarquia e a circulação de escritos subversivos. A nobreza e o clero da Dinamarca mantinham seus excessos e regalias às custas da passividade do rei Christian XVII (vivido por Mikkel Boe Følsgaard), que era tido como louco pelos seus próprios aliados. O monarca era inconsequente e seu desenvolvimento intelectual era limitado, o que favorecia a atuação do conselho formado pelos seus ministros, que agia em prol de interesses próprios.

Atendendo à cobrança dos súditos, que acreditavam que a sua loucura era provocada pelo excesso de masturbação, Christian se casou com sua prometida, a jovem princesa Caroline Mathilde da Grã-Bretanha (Alicia Vikander). A moça, que já tinha sido contaminada pelos ideias iluministas em seu país de origem, se viu então obrigada a se submeter ao julgo do marido, que a menosprezava e passava a maior parte do tempo bêbado em casas de prostituição. Uma esperança de mudança surge com a chegada do doutor Johann Struensee (Mads Mikkelsen), um médico alemão que também acreditava no iluminismo, ele é contratado como o médico pessoal do rei, de quem se torna grande amigo e conselheiro. Struensee  acaba se aproximando de Caroline, com quem inicia um perigoso relacionamento. Influenciado pelo médico, Christian adota uma postura mais firme diante do conselho, o que favorece o plantio dos novos ideias no país. Tudo parecia estar caminhando relativamente bem, até que conflitos começam a surgir. O clero e a nobreza não queriam perder seus privilégios e os próprios iluministas se deixariam contaminar pelo poder...


Se engana quem pensa que o foco da trama de O Amante da Rainha está só no triangulo amoroso, quem for vê-lo esperando tão somente uma histórica de intrigas da realeza certamente se decepcionará. O foco está é no aspecto político, que emana não do datismo histórico, mas da reflexão proposta acerca do poder e da influência que ele exerce naqueles que o detém. É interessante perceber como os próprios iluministas se tornam semelhantes aos seus inimigos ao se verem diante dos dilemas éticos inerentes ao ato de governar. Outra reflexão pertinente diz respeito ao controle social exercido pela igreja através da imposição de uma moral, que subtraia do povo seu direito ao livre pensamente e à expressão, legando a ele apenas a castração ideológica, que era sustentada pela ideia de que qualquer ato de subversão constituía um grave pecado - O que, convenhamos, não é algo tão diferente daquilo que pode ser observado em diversas situações nos dias de hoje, que nos fazem sentir como se também tivéssemos voltado à idade média...


O roteiro do filme consegue desenvolver bem cada um dos personagens centrais, é possível perceber uma evolução em cada um deles no decorrer da trama. Christian, que é apresentado no primeiro ato quase como um vilão, é humanizado durante o desenvolvimento da história, sua limitação intelectual explica algumas de suas atitudes e principalmente seu comportamento infantilizado; a raiva que sentimos dele no início do filme logo desaparece, dando lugar à empatia, que é reforçada pela excelente atuação de Mikkel Boe Følsgaard. Caroline e Johann chegam a ensaiar um caminho inverso ao percorrido pelo rei, eles, que são apresentados como os heróis românticos da história, acabam demonstrando em diversos momentos atitudes reprováveis, que contradizem todas as virtudes que eles demonstraram ter a princípio. A opção da narrativa de não tentar dar aos personagens a condição de heróis nacionais,   revelando também seus vícios e falhas, torna o filme mais fidedigno em sua reconstrução da história.


Mikkel Boe Følsgaard, como eu já disse, está excelente na pele do monarca insano, sua atuação é um dos pontos mais positivos do filme. Mads Mikkelsen  também está muito bem, ele interpreta com muita veracidade cada um dos sentimentos e sensações experimentados pelos seu personagem, que é de longe o mais complexo da trama. Alicia Vikander, que também está no filme Anna Karenina (2012), demonstra um desempenho mais limitado, mas ainda assim bom o suficiente para sustentar sua personagem, que é essencial na narrativa. Figurinos, direção de arte e fotografia conferem ao filme um belo visual, que não deixa nada a desejar quando comparado com grandes produções que já retrataram o mesmo período. Na maior parte das cenas a fotografia ressalta os tons descoloridos e frios, que predominam mesmo nos momentos que retratam a intensa paixão entre a rainha e seu amante, a opção por estas tonalidades tem relação direta com a angulação adotada pelo filme, que opta por mostrar a realidade ao invés de uma idealização romântica dos fatos narrados.


O Amante da Rainha se diferencia de boa parte dos filmes do gênero justamente por retratar um período tão importante da história do país onde foi concebido, sem precisar para isso recorrer a clichês como o do herói nacional, que permanece imaculado diante dos fatos, ou o da supremacia de uma ideia ou ideologia, que torna seus adeptos alheios aos dilemas éticos e morais de seu tempo. A forma contundente com que a história é contada e a abordagem de temas que continuam sendo tabus (aspectos que amenizam a estranheza provocada pela presença de Lars Von Trier no cast do filme, como produtor executivo) tornam o longa digno de ser conferido e ainda justifica sua nomeação aos diversos prêmios aos quais foi indicado desde sua elogiada estreia na edição de Festival de Berlim do ano passado. O Amante da Rainha é um filme que merece ser visto e analisado por todos, principalmente porque às vezes a história se repete e o pano de fundo de sua trama pode ser mais atual do que imaginamos... Recomendo!


O Amante da Rainha está indicado ao Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro.

Assistam ao trailer de O Amante da Rainha no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

4 comentários:

  1. Quem entende do 'riscado' tecla com maestria, não é?

    Brunão,

    Você tem o dom de fazer seus leitores ficarem ávidos para assistirem o filme(menos Django,rs). Novamente, parabéns.
    Ainda não vi e se um dia assistir creio que irei partilhar da mesma opinião sobre 'vivermos na idade média'.
    Gosto de filmes com essa temática(tal mensagem subliminar ou não,rs).

    Meu amigo e futuro colaborador em nosso coletivo,
    Adoro ler seus textos e só fico triste por não ter um computador digno(que não trave, que não fique lento, que não tenha tela monocromático) sinto que estou perdendo detalhes riquissimos dos posts...Pois, fico desanimada em ficar ON com um PC desses...

    Anyway,quando consigo faço questão de ler vc.

    beijos.

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  2. Oi Bruno,

    Tudo bem? Lendo a sua crítica, percebo o como é grande esse cenário de longas que inquietam a alma. Não levava muito a sério esse filme, mas você me chamou atenção sobre os dilemas éticos e morais que me motivam a desfrutá-lo.

    Bom final de semana.

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  3. Bruninho querido!
    Sinceramente, nem faço ideia como comento sem ter assistido a esse filme :)
    Há pouco assisti um na Cabo TV chamado "Amante" não sei se você conhece com a Nathalia Portman e Scarlet... (não sei escreve o sobrenome dela), em que escolhem uma amante para o rei, e as duas são irmãs e uma chega a ser rainha depois. Então todo o roteiro se centra na questão poder/amor. De certa forma encontrei coisas semelhantes e como não soube comentar necessariamente, me veio essa lembrança.
    Beijos e ótimo fim de semana!

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  4. Olá, José Bruno.
    Não conheço esse filme, mas pelo que você contou aqui, vou tentar vê-lo.
    Abraço.

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