sábado, 12 de janeiro de 2013

Kon-Tiki

Kon-Tiki - 2012. Dirigido por Joachim Rønning e Espen Sandberg. Escrito por Petter Skavlan e Allan Scott. Direção de Fotografia de Geir Hartly Andreassen. Música Original de Johan Söderqvist. Produzido por Aage Aaberge e Jeremy Thomas. Recorded Picture Company (RPC), Nordisk Film Production, DCM Productions e Roenbergfilm / Noruega | Dinamarca | UK.


Acredito que o maior prazer da cinefilia é ser surpreendido positivamento por uma obra da qual não se esperava tanto, esta ótima sensação é aumentada quando se trata de um gênero no qual as chances de surpresas são relativamente reduzidas. Kon-Tiki (2012) me proporcionou esta agradável sensação, ele foi o filme escolhido pela Noruega para representá-la na corrida pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, escolha bem feita, diga-se de passagem, uma vez que ele conseguiu ser um dos cinco indicados na categoria. Ele é uma aventura baseada em fatos reais que retrata os feitos de seis homens que partiram do Peru em 1947 em uma balsa rumo à Polinésia, que está do outro lado do Pacífico, a 8000 quilômetros de distância. O líder da expedição era o explorador norueguês Thor Heyerdahl (Pål Sverre Valheim Hagen), um antropólogo e arqueólogo experimental que se especializara na cultura e na história dos habitantes do arquipélago. 

O longo espaço de tempo em que Thor e sua esposa Liv (Agnes Kittelsen) viveram juntos com nativos da Polinésia serviu para que ele formulasse uma teoria que contrariava todos os estudos publicados até então, a de que as ilhas foram povoadas por etnias vindas do leste e não do oeste como se acreditava. Tal teoria esbarrava no fato de que era totalmente improvável que alguém conseguisse, 1500 anos antes, atravessar o oceano Pacífico, sem os recursos que só estariam disponíveis quase 1000 anos depois, na época em que começaram as grandes navegações. A determinação de Thor em provar sua tese era tão grande que ele decidiu refazer o suposto trajeto que os indígenas peruanos teriam feito 15 séculos antes, com os mesmos recursos que eles tinham disponíveis naquela época. 


O primeiro a se juntar a Thor na aventura foi Herman Watzinger (Anders Baasmo Christiansen), um engenheiro que trabalhava na época como vendedor de frigoríficos, ele decidira ir junto na expedição por estar descontente com seu emprego e com seu casamento, que estava em ruínas. Mais tarde se juntam ao grupo Erik Hesselberg (Odd Magnus Williamson), amigo de infância de Thor e Knut Haugland (Tobias Santelmann) e Torstein Raaby (Jakob Oftebro), dois veteranos de guerra que tinham algum conhecimento de navegação. Bengt Danielsson (Gustaf Skarsgård) foi o último a entrar para a equipe, ele era um etnólogo sueco que deu crédito à teoria defendida por Thor e decidiu também arriscar a vida por ela.


O filme possui uma longa introdução, que mostra a busca de Thor por reconhecimento na comunidade científica e em seguida por financiamento para a expedição, todo este tempo não é perdido, ele serve para mensurar o tamanho da obstinação do personagem e para delinear os princípios que nortearão seu comportamento e suas atitudes durante a viagem. O filme aborda também o relacionamento entre Thor e sua esposa, mas este não é nem de longe o seu foco dramático, que está na verdade é na descoberta do humanismo de cada um dos personagens, o que fica evidente nas reações que eles demonstram frente ao perigo e ao desconhecido.  Herman, Erik, Knut, Torstein e Bengt são retratados com uma menor profundidade, mas ainda assim o roteiro não deixa de trabalhar suas motivações individuais e a influência de seus vícios e virtudes em seus respectivos comportamentos e em suas interações com o grupo.


Herman apenas se juntou à expedição por não ver mais sentido na vida que levava, sua reação frente às adversidades que surgem no mar diz muito sobre o tipo de pessoa que ele é  (ele é o que mais se transforma no decorrer da expedição); Torstein e Knut passam a impressão de que são destemidos e fortes, afinal eles são dois sobreviventes da guerra, no entanto, em diversos momentos eles ficam à beira de perderem o controle de seus atos - naquela que considero a melhor sequência do filme, Knut explode de raiva após uma fatalidade e só então que conhecemos a verdadeira força que ele tem e o que é capaz de despertá-la - Bengt não aparenta trazer consigo marcas ou traumas, o que o motiva é apenas a busca pelo desconhecido e o prazer da descoberta. Erik confia tanto na obstinação de Thor que se dispõe a acompanhá-lo, decisão que se confunde em alguns momentos com puro protecionismo.


Ao abordar as motivações de cada um e o impacto delas em suas respectivas reações aos imprevistos, o filme acaba se tornando um frágil, porém belo, tratado sobre a importância de se ter um propósito e o significado que ele pode dar para toda uma vida. Antes de se lançarem ao mar para tamanha aventura todos eram vistos como inconsequentes ou suicidas, ao anunciarem o provável êxito da missão eles passam a ser admirados, todavia o filme mostra que o que tornaria a aventura compensadora não são os louros conquistados, nem a chegada ao outro lado, mas o caminho e o aprendizado que ele proporcionou a cada um. O que tornou o ato destes seis aventureiros heroico não foi portanto a conclusão da aventura, mas a coragem e a determinação que estavam presentes quando eles partiram rumo ao perigo. 


Os realizadores de Kon-Tiki provaram que souberam aproveitar os recursos que tiveram disponíveis para a produção do longa, que foi o filme norueguês de maior orçamento já realizado. Todo o aparato técnico do filme é impressionante, a fotografia cria quadros belíssimos ao dar ênfase à beleza natural presente em todo o percurso. A escolhas das locações e a forma com que elas foram trabalhadas com efeitos visuais, principalmente as que são mostradas nos primeiros atos do filme, conferem a ele um visual ainda mais impressionante. A direção de arte e os figurinos dão veracidade à ótima recriação de época que a produção faz e os efeitos especiais possibilitam a criação de cenas de uma beleza estonteante, como aquela, reproduzida em peças promocionais do filme, que retrata o momento que um gigantesco tubarão-baleia ronda a embarcação deixando todos apreensivos.


Todo o elenco, sem exceções, entrega atuações fortes e dotadas de veracidade, destaco o desempenho do Pål Sverre Valheim Hagen, que além de estar muito parecido com o Thor Heyerdahl real, ainda consegue expressar de uma maneira fantástica mesmo aqueles sentimentos que seu personagem tenta dissimular, como o medo e a insegurança. Diferente de Intocáveis, filme francês sobre o qual escrevi recentemente, Kon-Tiki não tenta transformar os fatos reais em uma lição de vida reducionista típica de livros de autoajuda e isso fica evidente em seu desfecho. Ele escapa da armadilha representada pela tentação de encerar a trama com um happy end e não esconde que mesmo os atos heroicos na vida real têm um preço, que em determinadas situações pode ser alto demais... Kon-Tiki é um excelente filme que merece ser visto por todos, ultra recomendado! 



Kon-Tiki recebeu uma indicação ao Oscar, na categoria de Melhor Filme Estrangeiro.


Assistam ao trailer de Kon-Tiki no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

4 comentários:

  1. Bruno,

    Tudo bem? Voltando aos poucos. Parabéns!

    Estava com saudades das suas crônicas. Gostei dessa indicação porque é um filme que trata a questão da busca. Acabo de ler a crítica de Amor e penso que talvez esse seja o filme que deve merecer a estatueta.

    Boa semana e beijos.

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  2. Seu texto está mesmo ótimo, me fez até repensar algumas considerações próprias sobre o filme. Entretanto, continuo a achar o protagonista um tanto fraco, caricato, enquanto o elenco protagonista mera alegoria. Mas concordo quanto a parte visual: deslumbrante. Abração!

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  3. Olá, José Bruno.
    Lembro de ter lido numa crônica do Luís Fernando Veríssimo que os cientistas que estudavam estas embarcações desconheciam o sistema de quilhas (chamado kon-tiki) que permitia aos navegadores antigos manobrarem as embarcações para onde quisessem.
    Me parece ser um ótimo filme, valeu pela dica.
    Abraço.

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  4. Sem sombra de duvida o filme é digno de uma estatueta, seus comentários falam por se só muito bem retratado, quem não assistiu deve assisti-lo e verá que todas as palavras desse texto tem relatividade!

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