segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Intocáveis

Intocáveis (Intouchables) - 2011. Dirigido e Escrito por Olivier Nakache e Eric Toledano, inspirado em fatos reais. Direção de Fotografia de Mathieu Vadepied. Música Original de Ludovico Einaudi. Produzido por Nicolas Duval-Adassovsky, Laurent Zeitoun e Yann Zenou. Quad Productions / França.


Intocáveis, de Olivier Nakache e Eric Toledano,  foi um dos grandes fenômenos cinematográficos de 2012, ele se tornou o filme francês com maior arrecadação de bilheteria fora de seu país de origem, batendo assim um recorde que pertencia até então a O Fabuloso Destino Destino de Amélie Poulain (2001). Ele conquistou calorosos elogios e a boa campanha fez com que ele fosse o escolhido pelo seu país para concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, prêmio que ele tem boas chances de ganhar. Mas, como bilheteria e sucesso de público não são por si só garantia de qualidade, é preciso analisá-lo com um senso crítico um pouco mais apurado. Toda esta aclamação não veio do nada, o formato do filme e sua proposta contaram muito para que ele se tornasse um sucesso mundial e é neste ponto que tocarei naquela que eu acredito ser a sua maior ferida: Intocáveis é um bom filme, porém não é tudo o que dizem que é. Eu ousaria dizer que ele é tão somente um bom feel good movie feito nos moldes hollywodianos, apesar de fabricado na França.

Eu gostei bastante dele, me emocionei em diversas passagens e reconheço cada uma de suas qualidades, no entanto não vejo nele nada que justifique o exagero dos elogios que ele vem recebendo. Sua trama tem de fato a capacidade de nos fazer sentir leves e de bem com a vida, contudo, ela é convencional, rasa e repleta de situações forçadas, que surgem ora para salientar a dramatização, ora para diminuir a carga negativa que os temas abordados poderiam ter. A impressão que se tem é a de que tudo no filme é muito fácil, todas as questões expostas por ele possuem resoluções rápidas e simples, que impedem que tenhamos um mínimo de contato com o drama vivido pelos personagens. Drama, por incrível que pareça, é algo que praticamente inexiste na trama. Por ser construído de tal forma, ele se afasta ainda mais da história real que teria o inspirado, o que se torna um problemas a partir do momento em que espectadores passam a acreditar que aquilo que vêm na tela é de fato fiel à realidade e que na vida real as coisas são tão simples e os problemas tão fáceis de serem contornados.


No centro da trama de Intocáveis estão Philippe (François Cluzet) e Driss (Omar Sy), o primeiro é um homem rico que ficou tetraplégico após um acidente de parapente, o segundo é um imigrante naturalizado, recém saído da prisão, que sobrevive com o seguro social oferecido pelo governo. O caminho dos dois se cruzam quando Driss vai até a residência de Philippe para uma entrevista de emprego, a vaga é para acompanhante e o candidato a ela deve ter conhecimentos de enfermagem e experiência no cuidado de incapazes. Driss não tem nenhuma destas qualificaçãos, na verdade o que ele quer é apenas que Philippe assine um documento atestando que ele compareceu na entrevista e que, apesar de estar apto, foi recusado para o trabalho; este atestado garantiria a manutenção do benefício social que ele recebe. Todavia, algo inesperado acontece durante a entrevista e Driss acaba sendo contratado para um período de experiência. 


O diferencial que Philippe encontrou em Driss, que justificou sua contratação, foi o fato dele tratá-lo não como um coitado, mas como um igual, coisa que nenhum dos outros candidatos a vaga conseguiram fazer... A chegada do novo enfermeiro acaba causando atritos e atiçando a desconfiança dos familiares e demais empregados de Philippe. Mas, com o tempo Driss vai conquistando seu espaço neste mundo, que era até então totalmente estranho para ele, seu jeito espontâneo cativa alguns e incomoda a outros, mas ele  transita entre todos com uma autoconfiança quase inabalável, como se estivesse imune à opinião e aos olhares tortos que frequentemente lhe direcionam. Sua presença muda a rotina de todos e dá uma nova perspectiva de vida para o milionário que vinha levando uma vida de restrições, algumas delas autoimpostas. 


As diferenças étnicas e sociais entre os dois personagens centrais são exploradas no filme através de seus hobbies e gostos pessoais. Philippe tem uma formação erudita, ele gosta de música clássica, literatura e pintura, enquanto Driss, que desconhece o valor da apreciação artística, escuta apenas músicas que sejam alegres e dançantes e ainda tripudia do gosto do patrão pela cultura cultivada. O atrito entre as duas posturas produz situações engraçadas e inusitadas, como por exemplo o diálogo que se dá entre eles em uma galeria de arte, no qual eles discutem sobre o preço de uma determinada tela, e a passagem na qual Philippe pede a músicos de uma orquestra que executem peças clássicas para a apreciação do enfermeiro, que escuta a tudo com estranhamento e faz comentários nonsenses sobre aquilo que ouve. 


As atuações dos dois protagonistas constituem um dos pontos mais positivos do filme, François Cluzet e Omar Sy estão muito bem (apesar de eu considerar a composição do personagem do segundo um tanto forçada), a química que há entre eles é um dos fatores que tornam a narrativa tão leve e descontraída (esta certamente seria a maior qualidade do longa se ele não tivesse pretensões biográficas). A trilha sonora é sem nenhuma dúvida a melhor aspecto de Intocáveis, ela reforça tanto a leveza quanto o melodrama sem precisar ser apelativa em nenhum momento, música pop e peças clássicas se intercalam e ajudam a manter a sutileza que caracteriza o desenvolvimento da narrativa. A direção de arte também merece destaque, é ela quem torna os mundos dos dois personagens tão diferentes entre si, o cuidado que se teve com ela pode ser notado na composição cênica de cada um dos quadros, principalmente naqueles que retratam a suntuosidade da mansão de Philippe...


Há no filme uma situação que é capaz de nos proporcionar uma reflexão acerca de seu próprio valor artístico; em dado momento da história Driss começa a pintar e o que o motiva a isso não é o prazer do ato criativo, mas a expectativa de ganhar algum dinheiro com a produção de quadros abstratos. Em um curto espaço de tempo ele pinta uma quantidade enorme de telas, dentre as quais uma se destaca, Philippe então consegue vende-la por um alto preço para um de seus parentes, a quem ele convence acerca do suposto valor artístico que ela teria. Todavia, o que o enfermeiro produz não é arte, não há um sentimento real em seus quadros, apenas a expectativa de lucro. Intocáveis é no fim das contas similar a tais pinturas, ele bonito e de fácil digestão, porém é vazio e por isso destituído de qualquer valor artístico. Em meio a tanto outros filmes feitos nos mesmos moldes ele acabou se destacando e, tal como o quadro feito pelo personagem, achou tolos que o comprassem como obra de arte, o que ele definitivamente não é. 


Na resenha que escrevi de Ferrugem e Osso (2012), comentei que ele tinha conseguido captar através de sua trama a aura obscura de desesperança e temor que paira sobre vários países da Europa atualmente, diferente dele, Intocáveis parece estar situado em uma outra realidade, um mundo onde o desemprego não é tão assustador, o abismo entre as classes sociais não é tão injusto e o maior dilema da vida de um imigrante naturalizado é descobrir como conquistar a secretária do patrão, esta situação dentre tantas outras (incluindo a troca de etnia de um dos personagens) faz com que a afirmação de que filme é inspirado em fatos reais nos pareça um tanto estranha... É pelos motivos explanados no decorrer do texto que continuarei defendendo que se o quesito fosse de fato o valor artístico, o escolhido pela França para entrar na corrida pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deveria ter sido Ferrugem e Osso... 

Recomendo Intocáveis para todos, porém, com a ressalva de que as únicas coisas que ele pode nos oferecer é alguns momentos de escapismo e uma efêmera sensação de bem estar...


Assistam ao trailer de Intocáveis no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

7 comentários:

  1. J. Bruno, amei a resenha! Achei todas as suas críticas muito oportunas. E, embora eu tenha gostado muitíssimo do filme,inclusive pelos aspectos "negativos" que você destacou: certa superficialidade e a maneira "fácil" e muito "pronta" com que ele foi conduzido. Acho que no caso específico desta obra a "leveza" e o ar "happy end" levam a um maior número de pessoas a pensarem sobre assuntos tidos como um tanto indigestos como: preconceitos de todos os tipos e xenofobia,por exemplo. E, é aí que, para mim, reside a "beleza" desta obra.
    Beijos

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  2. Assim como o comentário acima, amei seu texto.

    Adoro filmes que nos obriguem a reflexão. Estou ansioso para ver esse filme, tantos foram os elogios.


    Abraços

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  3. Realmente é um filme feito para fazer o espectador se sentir bem, mostrar que mesmo num mundo cruel como o atual, ainda existe espaço para amizade.

    Abraço

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  4. "Ele é tão somente um bom feel good movie feito nos moldes hollywodiano, porém fabricado na França."

    Concordo em número e gênero. Intocáveis é um filme bonitinho e tal, mas nem de longe é uma maravilha. Assim como pode ser caracterizado como tudo, mas não um filme da tradição francesa de ser fazer filme. Ótimo texto!

    Abração.

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  5. Como filme, e convencional, mas a história é emocionante.
    Feliz 2013, J. Bruno. E viva o cinema!

    O Falcão Maltês

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  6. Incrível como esse filme vem conquistando cada vez mais fãs e presença na listinha de melhores do ano.

    Não detesto o filme (muito pelo contrário, acho uma graça), mas o considero redondinho e carismático demais, seguindo a cartilha ideal pra arremedar plateias.

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  7. José,

    Feliz 2013 !!
    Este filme consegue ser daqueles que nos deixa bem.

    bjs e adorei o texto.

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