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domingo, 3 de fevereiro de 2013

A Viagem

A Viagem (Cloud Atlas) - 2012. Escrito e dirigido por Tom Tykwer, Andy Wachowski e Lana Wachowski, baseado no romance de David Mitchell. Trilha sonora original composta por Reinhold Heil, Johnny Klimek e Tom Tykwer. Direção de Fotografia de Frank Griebe e John Toll. Produzido por Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski, Stefan Arndt e Grant HillCloud Atlas Productions, X-Filme Creative Pool, Anarchos Pictures, Ascension Pictures, Five Drops e Media Asia Group / USA | Alemanha | Singapura | Hong Kong.



A premissa da história contada por A Viagem (2012) é interessante, sua trama percorre épocas diferentes, retratando vários personagens e as consequências de suas interações, o roteiro tenta mostrar que de alguma forma todas as vidas estão ligadas no tempo e que algo feito no passado, ainda que em uma época remota, pode gerar efeitos através da repetição tanto no presente quanto no futuro. Ao contrário do que se tem dito, este não é um filme baseado na teologia espírita ou em qualquer outra que defenda a existência da reencarnação, o mito em torno do qual a trama gira não é o da existência de vidas passadas, mas o do eterno retorno, segundo o qual estaríamos condenados a repetir para sempre nossos próprios erros e acertos. A diferença é que no filme, o eterno retorno não é um fardo carregado pelos indivíduos, como apontado na teoria original, ele seria um carma de toda a humanidade e sendo assim os mesmos eventos continuariam a se repetir infinitamente mesmo após a morte daquele que o teria vivenciado em algum ponto da história. 

Porém, de acordo com roteiro, existem momentos em que este ciclo de repetição é quebrado, isto acontece quando indivíduos decidem romper com o determinismo de suas vidas e se aventurar em mundos que lhe são desconhecidos ou não tão familiares. O medo então insurge como o maior vilão da história, o amor como o fator de transformação e a criação artística (a música, a literatura e o cinema) como uma forma superior de transmissão, de  uma geração para outra, daquilo que é capaz de mover as pessoas que conseguiram subverter algo que já estava pré-determinado em suas existências. Não é atoa que em uma dada passagem  uma canção soe familiar para uma personagem que nunca tinham a ouvido antes, isto, que muitos confundiram com um indício da existência de vidas passadas, é na verdade uma constatação de que, ainda que vivendo em épocas distintas, pessoas diferentes podem ter um mesmo tipo de percepção ou reação diante de eventos semelhantes e estas sensações, quando expressadas através da arte podem proporcionar a identificação e através dela o autoconhecimento...


A narrativa que vai e volta no tempo a todo momento retrata seis épocas distintas, na primeira sub-trama, que se passa em 1849, um jovem advogado (Jim Sturges) confronta questões morais de seu tempo, diante das quais ele se vê compelido a tentar intervir em sua própria realidade, ele acolhe secretamente um escravo foragido (David Gyasi) no navio em que estava viajando, mesmo estando ciente das consequência que este ato poderia acarretar. Em 1936, um jovem músico bissexual (Ben Whishaw) se torna copista de um renomado maestro (Jim Broadbent), que está compondo sua obra-prima, o Sexteto de Cloud Atlas. Em 1973, uma jornalista (Luisa Rey) descobre, com a ajuda de um físico nuclear (James D'Arcy), um esquema para beneficiar empresas petrolíferas, que envolve um reator atômico e a ameaça de um provável desastre. Em 2012, um editor de livros (Jim Broadbent), que enfrenta sérios problemas financeiros, pede a ajuda do irmão (Hugh Grant) e este o interna contra sua vontade em uma casa de repouso para idosos. 


Em 2144, uma jovem que trabalha em uma rede de fast-food (Doona Bae) começa a ter noção de sua própria realidade após ter sua visão de mundo ampliada com a ajuda de um jovem revolucionário (Jim Sturgess), que arquiteta um golpe contra o governo junto com outros dissidentes. Na última época retratada, cujo ano só é revelado num ponto mais avançado da narrativa, um homem (Tom Hanks) vive uma vida  primitiva ao lado de sua família em uma aldeia, porém a chegada de uma viajante (Halle Berry), que parece vinda de outra época, transforma a noção que ele tem acerca do mundo à sua volta. A estranha salva a vida da sobrinha do aldeão, que estivera à beira da morte, e em troca ela pede que ele a conduza até o topo de uma montanha, um lugar sagrado para o povo daquele vilarejo... Todas estas tramas estão interligadas de alguma forma, porém, diferente do que muitos têm dito o roteiro não é complexo (o tema que ele aborda sim), é possível compreender com relativa facilidade cada uma das histórias, que chegam a parecer superficiais em determinados momentos por serem tão simplicistas. 


Todo o elenco principal de A Viagem interpreta mais de um personagem, por um lado isso chega a ser algo interessante, pois vemos o bom desempenho alcançado pelo atores e atrizes ao darem vida em um mesmo filme a pessoas diferentes, cada uma delas detentoras de personalidades e trejeitos próprios. Por outro lado, percebo este como um fator negativo, pois trata-se de um elemento que pouco contribui com a narrativa, uma vez que o paralelo criado entre as épocas retratadas não tem relação precisa com este aspecto, tal situação tem levado uma significativa parcela do público e da crítica a perder um tempo precioso durante a longa duração do filme tentando encontrar semelhanças e significados ocultos na comparação entre personagens vividos por um mesmo ator, como se este fosse o único indício de que as vidas deles estão interligadas. Ao assisti-lo, tome cuidado para não fazer o mesmo. 


Como eu disse, a abordagem do mito do eterno retorno constitui em si uma premissa interessante, no entanto o filme peca em alguns pontos ao defendê-la, um deles é na forma com que o seu roteiro amarra todas as histórias em seu desfecho, deixando claro qual é o elemento capaz de motivar a subversão do pré-determinismo, isso restringe a margem aberta para interpretações subjetivas, o que acaba sendo algo prejudicial em uma obra que tem pretensões artísticas tão ousadas. Dentre os pontos positivos, destaco a excelente montagem, que confere ao longa uma fluidez incrível e um ritmo que não é afetado pelas constantes idas e vindas no tempo. A fotografia e os efeitos visuais também merecem ser lembrados, eles dão ao filme uma estética que colabora com a narrativa e com construção de cada uma das épocas retratadas. A maquiagem é, dentre os aspectos técnicos, o mais irregular, em alguns momentos ela denota um grande cuidado e uma habilidade incrível, enquanto em outros ela deixa a desejar e isso acontece quando são cometidos exageros que ao meu ver foram totalmente desnecessários e facilmente evitáveis.


Os irmãos Wachowski assumem a direção em algumas das sub-tramas e Tom Tykwer nas outras, a diferença entre seus respectivos estilos pode ser notada naquilo que cada um deles escolhe destacar e na forma diferenciada com que conduzem a narrativa em cada um dos tempos diegéticos. Apesar de entregarem um trabalho satisfatório, que deixa evidente diversos elementos autorais, os cineastas merecem ser reconhecidos é pela ousadia de adaptar uma obra que fora considerada inadaptável. O agradecimento à Natalie Portman, presente nos créditos finais do filme, é justo, afinal foi ela quem  apresentou o livro de David Mitchell para os Wachowski durante as filmagens de V de Vingança (2006) e os convenceu de que adaptá-lo seria possível... 

Eu não incluiria A Viagem em minha lista pessoal dos melhores de 2012, mas reconheço que trata-se de uma obra que merece no mínimo ser conferida, de preferência sem grandes expectativas, com uma boa disposição para reflexão e sem a ideia errônea de que se trata de um filme sobre preceitos religiosos, pois isso definitivamente ele não é. Recomendo! 


Assistam ao trailer de A Viagem no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

9 comentários:

  1. Não achei este filme tão sensacional como venderam, mas é sim interessante ao ponto de merecer uma conferida.

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  2. Oi Bruno
    Ótima crítica, como sempre, está na minha lista de filmes que quero assistir.
    Bjos. Fique com Deus.

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  3. Eu adorei o filme e concordo que ele não fala sobre reencarnação, mas como passado, presente e futuro estão intimamente relacionados. A história é construída pelos sujeitos históricos e a atitude destes em determinado momento é o que constrói o futuro. Isso o que eu entendi do filme...
    Parabéns pela crítica!

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  4. Adorei a crítica, J. Bruno! Concordo com você sobre não ser um dos melhores do ano, mas merecer ser visto. Beijo

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  5. o filme foi um fracasso de bilheteria
    ouvi críticas regulares
    esperar para ver na locadora

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  6. Baixei o filme e vou ver no final de semana. Li críticas não muito animadoras, mas vou tirar minha própria conclusão. Abraços.

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    1. Olá Gilberto. Poderia me informa POR FAVOR através de que link conseguiu baixar o filme? Estou procurando há 2 semanas.
      Um Grande Abraço, Kátia Roxane.

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    2. Olá Gilberto. Poderia me informa POR FAVOR através de que link conseguiu baixar o filme? Estou procurando há 2 semanas.
      Um Grande Abraço, Kátia Roxane.

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  7. O Bolão do Oscar 2013 já está no ar, e claro, você está convidado!
    (http://dvdsofaepipoca.blogspot.com.br/2013/02/bolao-do-oscar-2013.html)

    Bons palpites!
    As blogueiras do sofá (DVD, Sofá e Pipoca)

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