domingo, 12 de junho de 2011

Matar ou Morrer

Matar ou Morrer (High Noon) - 1952. Dirigido por Fred Zinnemann. Roteiro de John W. Cunningham e Carl Foreman, baseado no conto “The Tin Star” de John W. Cunningam. Direção de Fotografia de Floyd Crosby. Música de Dimitri Tiomkim. Produzido por Carl Foreman e Stanley Kramer. Stanley Kramer / EUA.


Um faroeste sem perseguições à cavalo, sem matança de índios e sem nenhum tiro até a sequência final, esta pode muito bem ser a fórmula para desagradar os menos maleáveis fãs do gênero que consagrou diretores como Sergio Leone e John Ford e atores como John Wayne e Clint Eastwood. Mas ao assistir Matar ou Morrer (1952) eu tinha um trunfo a meu favor, eu não sou, como já deixei claro aqui no Sublime Irrealidade, um grande fã do gênero, por isso a ausência dos elementos acima não me decepcionaram nem um pouco, pelo contrário fez do filme ainda mais interessante. Matar ou Morrer é na minha opinião mais fácil de ser enquadrado no gênero suspense psicológico do que no western, mas como também não sou afoito à rotulações, não irei me ater a estas questões de classificação, às quais os críticos de cinema geralmente se apegam.

Matar ou Morrer é do tipo raro de filme cuja a proposta vai bem além das sequências projetadas na tela e sendo assim ele merece uma reflexão um pouquinho mais aprofundada. Ele foi produzido durante a época do marcatismo e da caça às bruxas (falei um pouco deste período na resenha que fiz de Sindicato de Ladrões) e qualquer um que o assistir com um olhar mais atento, poderá ver as metáforas que o roteiro cria daquela época, que deixou muita gente em Hollywood assombrada. O estado intensificava a perseguição aos comunistas no meio artístico, muitos atores, diretores e roteiristas foram presos e torturados, alguns destes foram assassinados em condições misteriosas. Alguns dos perseguidos se renderam às pressões e acabaram mudando de lado, passando de subversivos a delatores, como foi o caso do diretor Elia Kazan. De uma forma velada e incrivelmente poética, o longa consegue exprimir toda a apreensão e o medo daqueles que temiam ser entregues ou descobertos a qualquer momento pelos anti-comunistas. John Wayne, um verdadeiro reacionário de direita e um dos delatores durante a caça às bruxas, conceituou o filme em uma entrevista cedida à Playboy em 1971, como: “A coisa mais antiamericana que eu alguma vez vi em toda a minha vida


Matar ou Morrer trata da solidão e do abandono social, mesma realidade vivida pelos perseguidos pelo marcatismo, a trama gira em torno do delegado Will Kane (Gary Cooper), que conseguira capturar há cinco anos o perigoso bandido Frank Miller, desde então a pequena cidade de Hadleyville gozava de relativa paz. O sossego do lugarejo é quebrado quando Ben Miller, irmão de Frank, chega à estação ferroviária do lugarejo acompanhado de mais dois bandidos, eles trazem a notícia de que Frank fora absolvido pela corte do norte e que ele chegaria no trem do meio dia com um único intuito, a vingança. O delegado acabara de se casar com a quaker Amy Fowler (Grace Kelly) e planejava mudar de cidade, deixando um substituto em seu lugar. Ao receber a notícia de que Frank estava voltando, ele é aconselhado a deixar a cidade antes mesmo das comemorações do casamento, ele aceita fugir, mas acaba voltando devido à honra, que deseja preservar, e à sua preocupação com os moradores da cidade.


Will Kane tenta reunir um grupo de homens para defender a cidade dos bandidos, porém o medo do perigo iminente dispersa qualquer rompante de coragem que eles pudessem ter, o juiz que condenou Frank Miller é o primeiro a sair da cidade as outras autoridades também se recusam a ajudar o delegado e até mesmo seus amigos mais próximos o abandonam na hora mais difícil. Amy não aquenta ver o marido se colocando em risco e por não concordar com nenhuma manifestação de violência, não importando de que lado ela venha, ela decide sair da cidade no mesmo trem que trará o bandido. Helen Ramirez (Katy Jurado) também planeja ir embora neste mesmo trem, ela é uma das personagens mais misteriosas na trama, conforme percebe-se em alguns diálogos, ela já foi amante de Kane e amiga de Miller.


O curioso é que Kane parece não conseguir aceitar o fato de que terá que enfrentar os bandidos sozinho, ele bate à porta da casa de amigos, passa pelo saloon e tenta encontrar ajuda até na igreja. Num dos diálogos mais tensos, o delegado que o antecedera no posto, com toda a experiência que a idade e a vivência lhe conferiram, lhe explica: “Você se arrisca para pegar bandidos e depois um júri os liberta, para eles voltarem e te matarem, se você for justo, sua vida torna-se miserável. E você acaba morrendo abandonado em uma rua qualquer. Para que isso? Para nada, por uma estrelinha... É assim mesmo, tudo acontece muito rápido. As pessoas falam sobre justiça e ordem mas não fazem nada a respeito, talvez porque no fundo simplesmente não se importam...


A cada sequência vamos compreendendo, junto com Kane, que cada habitante da cidade só está realmente preocupado com o bem estar próprio. O fato de acreditarem que Miller quer se vingar apenas do delegado, justifica a recessividade de cada um daqueles que o abandonaram, eles fingem se esquecer de que Kane se colocou nesta situação, tão somente para defender a cidade e seus habitantes, que viviam há muito sobre o julgo opressor do bandido. A hipocrisia daquela gente fica evidente em uma sequência que não está no filme por acaso: os homens de bem estão congregados na igreja local e cantam com rompante: “Deus é bom, Deus é pai, é seu filho Jesus Cristo que nos une por amor... Deus nos fez comunidade para vivermos como irmãos, braços dados todos juntos caminhando sem parar...”.


São 10:40 da manhã quando Kane, saindo da cerimônia de casamento, recebe a notícia sobre a volta do facínora, faltam então apenas 1:20 para a chegada do trem do meio dia, o filme transcorre quase que em tempo real e o passar do tempo é um dos elementos mais importantes do roteiro. A cada passagem, relógios surgem para anunciar que a hora fatídica se aproxima, a tensão que se cria progressivamente é embalado pela belíssima canção High Noon (Do Not Forsake Me, Oh My Darlin’). Gary Cooper realmente fez por merecer o Oscar que ganhou pela sua atuação, ele está simplesmente perfeito na pele de Will Kane, sua expressão facial e corporal compõem uma primorosa personificação da ansiedade, do medo e do abandono. Grace Kelle está um tanto apagada na trama, mas não faz feio nas cenas e que aparece, no entanto o segundo maior destaque é Katy Jurado, a atriz mexicana está muito bem na pele da enigmática Helen. 

É uma verdadeira pena que o desfecho da história não esteja tão à altura de seu desenrolar, mas isso não tira nem um pouco o mérito do longa. Matar ou Morrer é um clássico que precisa ser visto por qualquer um que se diga amante da sétima arte. Ultra recomendado!


Matar ou Morrer ganhou os Oscars de Melhor Ator (Gary Cooper), Melhor Edição, Trilha Sonora e Canção ( High Noon), tendo sido indicado também nas categorias de Melhor Filme, Diretor e Roteiro.

Assista ao trailer de Matar ou Morrer no You Tube, clique AQUI !

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Um comentário:

  1. Bruno seu texto é incrível, realmente você traz detalhadamente todas as informações importantes sobre o filme, além da ótima sinopse. Muito interessante mesmo, principalmente a parte onde você praticamente realiza uma decoupagem do dialogo entre Kane e o Juiz. O Filme é uma verdadeira obra prima e seu texto realmente esta a altura. Parabéns.
    Obrigado por sua visita e seu comentário,

    Abração

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