quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Crimes e Pecados

Crimes e Pecados (Crimes and Misdemeanors) 1989, escrito e dirigido por Woody Allen, e produzido por Jack Rollins & Charles H. Joffe. MGM/ EUA


"Meu coração diz uma coisa, a cabeça outra, muito difícil fazer os dois se entenderem...", com estas palavras Judah Rosenthal (Martin Landau), um oftalmologista de formação judia, tenta explicar a situação que o levou a cometer um grave crime. Envolto em uma situação em que uma série de iniquidades o levou a pecados cada vez maiores, o personagem de Crimes e Pecados (1989) se atormenta com o peso da culpa e do arrependimento. Na tentativa de se justificar o personagem descreve o principal tipo psicológico que Woody Allen escolheu para compor suas tramas. São pessoas com grande sensibilidade artística, bem sucedidas, mas que não conseguem conciliar suas emoções e a razão.

João Gabriel de Lima, em matéria publica na edição de número 135 da revista Bravo, intitulada "Mergulho a mente do artista", ressalta: "Esses personagens que passaram a povoar os filmes do diretor a partir de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977) e Manhattan (1979) serviram a uma finalidade dramática recorrente: mostrar como pessoas com muita sensibilidade e alto QI podiam se portar de maneira patética ou mesmo bizarra na hora de lidar com as próprias emoções".

 

Allen parece compreende-los como ninguém, e transita com maestria pelos medos, dúvidas e frustrações desta fauna repleta de artistas, intelectuais e gente envolvida com a cultura. A criação a partir de tal tipo de personagem seria recorrente nas suas melhores obras, sem se tornar repetitiva. Woody se tornou uma espécie de estudioso desta fatia da sociedade americana, sendo muitas vezes um, sutil e ao mesmo tempo feroz, crítico dela através de suas comédias de costumes.

O cineasta que completou 75 anos em 01 de dezembro de 2010, até hoje não é muito bem visto nos EUA. Na década de 90 ele se envolveu num "escândalo", quando se casou com Soon Yi Previn, filha adotiva de Mia Farrow sua ex-esposa. Muitos de seus personagens são inspirados em sua própria vida, como contou ao jornalista Eric Lax, em entrevista publicada no livro Conversas com Woody Allen, e se tornam uma espécie de porta-vozes de seus pensamentos nos filmes. O gosto pelos seus filmes continua relativamente restrito não atingindo o grande público, que possui pouca identificação com seus personagens ou que não se sentem bem vendo suas próprias debilidades sendo representadas.

 

Em Crimes e Pecados a trama se desenvolve em torno de duas histórias paralelas: a de Judah Rosenthal, que vê seu casamento e sua vida social ameaçados quando a sua amante Dolores Paley (Anjelica Huston) decide abrir o jogo sobre o "caso" e contar tudo para a esposa dele; e a de Cliff Stern (Woody Allen), um produtor de documentários, sem sucesso profissional, que se apaixona por Halley Reed (Mia Farrow), um produtora de um programa de televisão, mas esta prefere Lester (Alan Alda), este um produtor bem sucedido, cunhado de Cliff. Apenas no final as duas histórias se encontram e numa espécie de anagnorisis aristotélica os dois personagens conversam sobre os pecados da vida real e como são mostrados no cinema.

O personagem Cliff merece atenção especial. Ele uma espécie de alter ego do diretor, é uma materialização da critica que Woody faz ao cinema e si mesmo. Cliff é um apaixonado por cinema, leva a sobrinha todas as tardes a uma matinê, e espera com isso estar colaborando com a formação cultural da menina, ele se empenha com seu trabalho e se indigna ao entender que precisa se vender para conseguir dinheiro para custear suas próprias produções e ao ver que seu cunhado, alguém que ele não julga não ter grande talento artístico, ser um profissional admirado e bem sucedido.

 

Como em grande parte da obra de Woody as referências à arte e a cultura estão presentes em Crimes e Pecados, tais referências vão desde a nítida influência da obra Crime e Castigo, de Dostoievsky, um clássico da literatura russa, a elementos da tradição judaica (influencia da própria formação do diretor), passando pela música clássica e jazz que estão presentes na trilha sonora.
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A critica especializada considera Crimes e Pecados, uma das obras primas da fase áurea do diretor e não é para menos, neste filme estão todos os elementos que o consagraram como diretor. Altamente recomendado, principalmente para quem um parafuso a mais e não tem preguiça de pensar diante da tela.


Crimes e Pecados foi indicado aos Oscars de melhor diretor (Woody Allen), Melhor ator coadjuvante (Martin Landau), e melhor roteiro original (Woody Allen).

De Woody Allen, indico também: Vicky Cristina Barcelona (2008), Interiores (1978), Hanna e Suas Irmãs (1986), Match Point (2005), Manhattan (1979), Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977) e A Era do Rádio (1987).
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