terça-feira, 7 de junho de 2011

O Conformista

O Conformista (Il Conformista) - 1970. Dirigido por Bernardo Bertolucci. Roteiro de Bernardo Bertolucci, baseado no livro de Alberto Moravia. Direção de Fotografia de Vittorio Storato. Música de Georges Delerue. Produzido por Giovanni Bertolucci e Maurizio Lodi-Fe. Maran-Marianne-Mars / Itália-França-Alemanha Ocidental. 


Mesmo 50 anos depois, aquela que talvez tenha sido a década mais louca do século XX, os anos 60, ainda despertam a curiosidade, a admiração e a nostalgia de estudiosos, artistas e pessoas comuns, que, assim como eu, buscam naquele período referências no que de melhor se produziu na música, no cinema e na cultura em geral nas últimas décadas. Quando digo que aqueles anos foram loucos, não me refiro às viagens lisérgicas ou ao misticismo que levaram muitos à perda da razão, me refiro sim às pequenas e às grandes revoluções que aconteciam mundo afora, que estavam presentes na contracultura, nos movimentos pacifistas ou contra ditatoriais, na resistência libertária e principalmente nas mentes em ebulição de um parcela da juventude, que se engajava nos movimentos guiados pelos ideias de transformar o mundo.

Os anos 60 marcaram o cinema como a fase da desconstrução do antigo e o advento de novos modelos e formas. Desde que o cinematógrafo foi inventado, no final do século XIX, muitos ícones e mitos já haviam se firmado e já se tinha definida uma boa parte dos padrões que o cinema mainstream seguiria até os dias de hoje. O que a geração sessentista fez foi subverter boa parte das normas e dos pressupostos vigentes até então, nasciam assim os dois maiores movimentos da sétima arte daquele período, a Nouvelle Vague francesa e o Cinema Novo. Nesta época Bernardo Bertolucci ainda era um jovem universitário e um poeta, já respeitado no circuito artístico de Roma, toda a vivência e aprendizado adquiridos naquele meio de efervescência cultural o transformariam em um dos nomes mais importantes do cinema mundial. Dispensável dizer que aqueles anos de antítese seriam uma grande influência e um tema recorrente na obra do futuro cineasta.


Em O Conformista, seu primeiro longa de expressão internacional, Bertulucci volta aos anos 30 e à Itália fascista de Mussolini para traçar uma das mais belas metáforas sobre a passividade das massas, que também podia ser observada nos anos 60 e 70. Enquanto uma minoria lutava por transformações e pelo direito de todos, a grande maioria queria apenas a estabilidade e o sossego de uma vida em conformidade com o sistema vigente. Esta população recessiva é personificada no filme pelo jovem Marcello Clerici (Jean-Louis Trintignant), um professor de filosofia que, mesmo num contexto opressivo, busca apenas a normalidade de um vida familiar convencional. Marcello enxerga o aparato fascista como uma eficiente ferramenta de controle social, que pode lhe garantir a concretização de seu ideal de felicidade. Mesmo não sendo politicamente engajado, ele passa a trabalhar para o governo como agente da polícia secreta e sua  vida muda completamente a partir de então.


Depois de se casar com uma burguesa, Giulia (Stefania Sandrelli), cuja admiração pelo fascismo se confunde com a ingenuidade, ele viaja com ela para Paris. A lua de mel é apenas uma desculpa, pois o verdadeiro motivo da viagem é uma missão que Marcello tem que cumprir com urgência. Ele tem que eliminar um dos mais importantes líderes anti-fascistas que está exilado na França. O regime acredita que ele é a pessoa certa para a missão, pois o intelectual a ser assassinado fora seu professor na faculdade de filosofia. Ao se encontrar com Quadri (Enzo Tarascio), o ex-professor, e com sua esposa Anna (Dominique Sanda - belíssima) em Paris, Marcello começa a questionar o porquê de sua missão. 


Em meio aos seus questionamentos éticos e ideológicos, percebemos que a gênese de sua postura conformista talvez esteja em um trauma reprimido de sua infância, sutilmente descrito através de flashbacks. Numa das sequências mais carregadas de simbolismos, Marcello se encontra no meio de um salão, envolto por uma multidão que dança eufórica, ele é cercado pelos dançarinos, sem ter como escapar, ele apenas olha à sua volta com uma expressão que esboça ao mesmo tempo temor, fragilidade e indecisão. 


O Conformista é do tipo de filme que realmente merece a classificação de “filme de arte”, a fotografia, dirigida por Vittorio Storaro, é estonteante de tão bela, cada fotograma parece um quadro que se pinta a cada movimento da câmera. O filme é de uma beleza estética quase inigualável, em alguns momentos parece que a qualidade visual vai se sobrepor à qualidade da trama, mas então percebe-se que uma está conduzindo e completando a outra. Bertolucci conseguiu captar toda a áurea mágica que pairava sobre sua geração. O Conformista é político, poético e contestador, como poucos filme foram, sua mensagem continua sendo ainda válida, mesmo em tempos de crise das ideologias e das utopias. 

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Desde o lançamento do filme em 1970, o mundo realmente mudou, algumas coisas para melhor e muitas outras para pior. O espetáculo do cinema se divorciou da contemplação e a substituiu pela sensação, já não se acredita mais em revoluções como antigamente e ser poético se tornou inadequado em um mundo que cultua a velocidade. O que não mudou é o fato de que continuamos a ser conformistas... Este é um filme, para ver, ouvir, contemplar e refletir! Um clássico absoluto!

O Conformista foi indicado ao Oscar de Melhor Roteiro. No Festival de Berlin, ganhou o Prêmio Interfilme e o Prêmio Especial dos Jornalistas, tendo sido indicado também ao Urso de Ouro.


Assista ao trailer de O Conformista no You Tube, clique AQUI !
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Confiram também aqui no Sublime Irrealidade, a resenha crítica de 
 outro clássico de Bertolucci !

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3 comentários:

  1. Boa Noite Bruno,

    Cheguei até seu blog ao buscar informações sobre este belo filme, no sentido literal da palavra.

    Adicionei seu blog ao blogroll do meu, merecidamente!

    Também tenho um blog (http://oteatrodavida.blogspot.com)na qual, entre outros assuntos, abordamos música, literatura, arte e filmes.

    Convidamos a nos visitar!

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    1. Olá Jonathan, seja bem vindo!
      Fico feliz que tenha gostado, acabei de acessar tua página e já li o post sobre "O Conformista", gostei do visual do blog e da variedade de assuntos, que vocês abordam sem perder a identidade!
      Já adicionei teu blog também!

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  2. José Bruno, boa tarde!
    Eu praticamente nunca comento em blogs, mas achei esse se texto muito competente e é uma belíssima resenha pra um filme que a merece. Você descreveu muito bem a beleza que o filme retrata e toda a poesia contida nele. Cheguei a esse blog por conta de informações sobre o filme, assim como o amigo acima, e vou favoritá-lo pra ver outras resenhas ou criticas contidas aqui, pois seu texto é sobretudo sincero! Meus parabens!

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