sábado, 26 de novembro de 2011

Hora de Voltar

Hora de Voltar (Garden State) - 2004. Escrito e dirigido por Zach Braff. Direção de Fotografia de Lawrence Sher. Música Original de Chad Fischer. Produzido por Pamela Abdy, Gary Gilbert, Dan Halsted e Richard Klubeck. Camelot Pictures / USA.


Ouvir uma música pela primeira vez. Voltar à cidade onde cresceu. Enterrar um porquinho da índia de estimação. Fazer algo que nunca fez antes. Estar em uma sala de espera de um consultório. Não saber nadar. Sentir saudades. Ter uma ideia original e ficar rico. Não saber o que fazer da vida. Encarar a culpa. Uma conversa na beira da lareira. Tomar conta de um abismo infinito. Dar um abraço protetor na pessoa amada. Ir a uma pedreira. Descobrir o sentido da vida. Simplesmente gritar... A banalidade da existência se torna fascinante pelo simples fato de estarmos perto de quem gostamos, Hora de Voltar (2011), a estreia de Zach Braff como diretor, é sobre isso. É sobre amor, sobre amizade e sobre perdão, principalmente sobre perdoar a si mesmo. Esta foi a terceira vez que assisti ao filme e o efeito dele sobre mim continuou o mesmo. Eu não tinha tido um dia legal quando o assisti pela primeira vez, mas de uma forma quase mágica ele me fez, não esquecer, mas olhar com outros olhos para tudo que eu estava vivendo. Não por acaso, eu não estava em um dos meus melhores momentos quando decidi o rever nas duas outras vezes.

Andrew Largeman (Zach Braff) tentou ser ator, mas fracassou, o único personagem pelo qual ele é lembrado é um portador de deficiência mental que interpretou em uma série de TV, tal reconhecimento nem sempre é positivo. Para ganhar a vida ele trabalha como garçom em um restaurante de comida vietnamita em Los Angeles, trabalho no qual não se sente nem um pouco motivado. A notícia da morte acidental da mãe faz com que Large volte para Garden State, a cidade onde nasceu e cresceu, ele passara mais de nove anos a exatos 4.827 quilômetros de distância da casa dos pais. Desde as primeiras cenas percebemos que Large é melancólico e tem um comportamento extremamente apático. Ele é dependente de lítio, medicamento prescrito para pacientes portadores de transtorno bipolar ou depressão. Já de antemão fica facilmente perceptível que o atual estado do rapaz é uma consequência de sua relação familiar. O medicamento que ele toma fora receitado pelo próprio pai, Gideon (Ian Holm), após um trauma vivido na infância.


Após o enterro da mãe, Large começa a reencontrar alguns de seus amigos de infância, dentre eles o coveiro Mark (Peter Sarsgaard), que tem uma família totalmente desajustada, Jesse (Armando Riesco) que ficou milionário após inventar e patentear um velcro silencioso e Kenny (Michael Weston), um ex-usuário de drogas que se tornou policial. Mark convida Large para uma festa em sua casa e este aceita o convite, pode parecer estranho ele ir a uma festa no dia em que sua mãe fora enterrada, mas ele parece estar completamente anestesiado, mesmo tendo parado com os remédios desde que saiu de Los Angeles. Na casa do amigo, o estado em que ele se encontra fica ainda mais evidente, ele experimenta drogas e mal consegue se levantar do sofá, passando quase toda a noite como um expectador daquilo que acontece à sua volta. O que se nota é que ele não está dando a mínima para si mesmo, para o que está sentido, ou para as pessoas à sua volta, é, como eu disse, a completa apatia.


Porém no dia seguinte, Large decide procurar um médico por causa de dores terríveis na cabeça, que ele já vinha sentindo a dias, esta consulta pode ser interpretada como uma tentativa dele de se livrar de tudo aquilo que seu pai lhe havia imposto até então. O médico conclui que ele não precisa tomar anti-depressivos e que seriam eles a causa de suas dores de cabeça. Ele sai completamente diferente do consultório, mas o que o mudou não foi o médico ou a consulta, foi o que aconteceu na sala de espera. Após uma sequência de acontecimento inusitados, Large consegue se interagir com uma garota que também estava lá, ela é Sam (Natalie Portman) uma mentirosa compulsiva (suas mentiras são quase inofensivas). Ela é praticamente o oposto dele, ela irradia alegria e esperança e seu alto astral é altamente contagiante. Ainda no consultório, em uma das cenas mais belas do filme, ele pergunta o que ela estava ouvindo, ela lhe empresta o fone e lhe apresenta à banda The Shins... A belíssima canção New Slang simboliza a quebra do gelo, a volta do sentir e da esperança a tanto perdida...


Tal como seus personagens, Hora de Voltar é cheio de imperfeições, mas estas não diminuem em nada sua maravilhosa capacidade de nos emocionar (continuo me emocionando a cada vez que escuto New Slang) e renovar em nós o brilho e o colorido da existência, que por vezes parece se esconder atrás de nossos medos, mesquinhez e falta de perdão. Zach Braff acertou em sua estreia como diretor principalmente por não tentar fazer nada de tão extravagante e tão extraordinário, a simplicidade do filme, alidada às ótimas atuações e aos personagens muito bem construídos, o tornam, não uma obra prima, mas algo extremamente belo e sensível, que precisa ser visto por todos, principalmente por aqueles que não acreditam que são capazes de serem felizes.


O principal destaque do filme fica por conta de Natalie Portman, ele está perfeita e linda como sempre. Não tem como não ser contagiado pela alegria estonteante de sua personagem, que consegue transformar o momento mais banal em uma experiência memorável. A trilha sonora, escolhida a dedo pelo próprio Zach, também é ótima e encaixa perfeitamente com o filme e com as sequências onde é utilizada. Dentre os temas estão canções do já citado The Shins, do Coldplay, do Zero 7 e de Simon & Garfunkel. Vale lembrar também a ponta feita pelo ator Jim Parsons, como o estranho Jim, que chega a lembrar seu personagem mais famoso, o Sheldon Cooper da série The Big Bang Theory. Se ao assistir ao filme, você experimentar metade do que senti em cada uma das três vezes que o vi, já terá valido a pena. Deixe passar algumas pequenas falhas e apenas aprecie a simplicidade e a autenticidade da história contada... Recomendo sem restrições o filme e a trilha sonora! O que está esperando, corra atrás!


Assista ao trailer de Hora de Voltar no You Tube, clique AQUI !


12 comentários:

  1. Nunca vi esse filme, apesar de lembrar, vagamente, dele na locadora. Mas, seu ótimo texto me deixou interessado. Vou procurar, gostei da premissa e, claro, só em saber que Portman está já me deixa mais motivado a conferir. Muito bom seu texto, como sempre. Vc tem o dvd desse filme é? manda pra mim, rs! abraço

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  2. José Bruno, também fiquei com vontade de assistir depois de ler seu texto. Quando o filme foi lançado assisti a uma entrevista do Zach Braff e achei interessante, mas, depois deixei de lado. Agora a vontade de ver veio total, espero sentir o que vc sentiu ao ver, depois te conto. Bjo

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  3. Carol pode assistir, tenho certeza de que não se arrependerá e não deixe de me contar depois... Cristiano vou ver se tem como e se der eu t envio!

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  4. J.Bruno... esse eu ainda não vi, mas já falaram dele para mim. Vai pro bloquinho. Sou apaixonada pela Natalie Portman... acho-a uma lindaaaaa de viver e uma excelente atriz! Adorei seu texto, que só veio aguçar minha curiosidade ainda mais...

    Ps. Vc comprou filmes a 2 reais!!?? Pela internet!!??? Eu queeeeeeeeeeeerooooooooo!!!
    bjão JoicySorciere Blog Umas e outras...

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  5. Já lhe enviei o link Joicy, aproveita porque não é algo que vemos todos os dias!

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  6. Bruno, amigo, prometo voltar para te ler com mais tempo... agora tenho que preparar provas, aulas e corrigir alguns trabalhos de alunos... Daqui a algumas horas volto com mais tempo para lê-lo como merece!!! Prometo!!!

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  7. Preciso ver esse filme. Gosto de qualquer filme com a Natalie Portman.

    O Falcão Maltês

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  8. Bruno, grande texto como sempre. Esse filme eu vi logo qd foi lançado e lembro q tinha umas cenas bem poeticas q me agradaram bastante. Alem da Portman em um bom momento, quem manda bem nesse filme tb é o Zach Braff, q anda meio sumido no cinema. Deu vontade de rever. Abração!

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  9. a característica que mais me salta aos olhos quando leio seus posts é o fato de vc atrelar o filme às suas emoções.

    Fiquei interessada pelo filme...Na verdade ,o primeiro parágrafo do post me conquistou.
    Gosto de filmes que retratam coisas simples da vida... coisas tão cotidianas que acabam por passar desapercebido.

    Vou baixar.

    Gosto daqui.

    Beijo meu!

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  10. Gostei do seu texto e pelo que li, vou gostar muito de ver este filme. Nunca tinha visto-o, mas já vou coloca-lo na minha lista de filmes para ver. Valew. Quando eu tiver mais detalhes comento com mais informações.

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  11. Nó, ja tem um tempo que eu vi esse filme!! E sempre que perguntava o pessoal ninguém tinha visto, mas o filme é sim muito bom!! Recomendo!!

    Boa Resenha Zé ^^

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  12. Bruno, acabei de ler este texto, pow, esse filme parece ser muito legal. Obrigada pela dica!

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