quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A Insustentável Leveza do Ser - O Filme

A Insustentável Leveza do Ser  (The Unbearable Lightness of Being) - 1988. Dirigido por Philip Kaufman. Escrito por Jean-Claude Carrière e Philip Kaufman. Direção de Fotografia de Sven Nykvist. Música Original de Mark Adler. Produzido por Saul Zaentz. The Saul Zaentz Company / USA.


Toda adaptação cinematográfica pressupõe transição de linguagens, neste processo, que ocorre durante a escrita do roteiro do filme, acontece uma verdadeira edição que pode eliminar personagens, ideias e acontecimentos presentes na obra original. Por isso é tão comum ouvirmos a máxima que diz que “o livro é infinitamente melhor que o filme”. A linguagem cinematográfica, em audiovisual, possui uma capacidade inimaginável de elaborar conceitos abstratos e materializar situações diversas, no entanto fazê-lo se torna mais complicado quando os mesmos conceitos e situações já ganharam vida através da linguagem literária, que possui uma capacidade igualmente ampla de interagir com o receptor de suas mensagens e de formar em seu imaginário a idealização daquilo que é abordado no texto.

Assisti A Insustentável Leveza do Ser (1988) pela primeira vez há alguns anos atrás, lembro que a princípio foi o título do filme, que até então eu não compreendia, que despertou a minha curiosidade. Tive certeza de que queria vê-lo quando, ao ler a sinopse, descobri o contexto no qual a história se desenvolvia, eu tenho um enorme fascínio pelos anos 60 e por tudo que este período representou no cinema, na música e na política (já deve ter falado disso aqui no blog um incontável número de vezes). Como já mencionei na resenha crítica que fiz do livro de Milan Kundera, que deu origem ao filme, a história se passa na Tchecoslováquia durante o período subsequente à “Primavera de Praga” e, tal como na obra literária, no longa a instável situação política do país serve de pano de fundo e também como alegoria para questões relacionadas às decisões e aspirações de cada um dos personagens centrais.


O impacto estarrecedor que me foi provocado pelo livro é bem superior ao que o longa é capaz de induzir. Ao se fazer uma análise comparativa entre as duas obras é quase inevitável que se chegue à conclusão de que o filme é limitado em suas abordagens e reflexões, no entanto eu acredito que tal tipo de comparação deva ser evitada, pois se tratam de obras distintas, de diferentes linguagens e cada uma delas carrega consigo a “verdade” de realizadores diferentes (o autor no caso do livro e o diretor e o roteirista no caso do filme). Pressupor que toda adaptação deva ser obrigatoriamente fiel à obra que a originou é negar que diretores e roteiristas trazem consigo alguma carga autoral e por menor que ela seja ela irá certamente influenciar no resultado final. Diferenças observadas quando comparadas as obras podem se tratar de uma simples questão de angulação, uma mesma situação vista por olhares diferentes irá inevitavelmente resultar em outras situações diferentes, apenas similares, é o que acontece com A Insustentável Leveza do Ser, filme e livro.


No post anterior disse que a impressão que tive ao ler o livro foi a de que Milan Kundera, talvez quisesse trabalhar uma ideia e não uma história e que para isso ele teria usado os personagens apenas como “ilustrações” de seus pensamentos, no filme não é isso que acontece, em sua trama os personagens vivem os mesmos dilemas, as mesmas crises, porém as reflexões existencialistas ensaiadas no livro acabam se perdendo. Eu penso que seria praticamente impossível trasportar toda a profundidade filosófica da obra literária para a tela, no filme perde-se a presença do autor onisciente e também a relevância de suas ponderações e diante disso o que sobre é apenas os personagens e suas respectivas histórias. Em alguns momentos, citações de Kundera são transformadas em falas de alguns dos personagens, para desta forma serem encaixadas no roteiro, porém este artifício se mostra falho, pois torna alguns diálogos artificiais e notadamente deslocados... felizmente tal recurso não é tão utilizado.


Na história, Tomas (Daniel DayLewis) é um jovem cirurgião que está totalmente alheio a tudo que esta acontecendo em seu país, ao contrário de sua geração que se engajara na militância política, ele esta interessado é tão somente no prazer da busca, a busca pelo prazer, um círculo vicioso do qual ele não pretende escapar, ele valoriza a leveza do desapego em detrimento do fardo do engajamento, porém suas convicções são colocadas em cheque quando ele conhece Tereza (Juliette Binoche), uma garçonete de uma cidade do interior com quem por uma série de coincidências ele se envolve, a relação entre eles poderia ser tão superficial e passageira quanto todas as outras vividas por ele, mas é então que surgem as metáforas, que trazem consigo um significado maior que constrange o médico a se sucumbir diante do peso de um relacionamento amoroso. Tereza está perdidamente apaixonada por Tomas, porém ele não abandona sua vida de aventuras sexuais por causa dela, o que a leva a questionar a natureza do amor que ele diz sentir.


Sabina (Lena Olin) é uma das amantes de Tomas, tal como ele, ela não quer o comprometimento de uma relação duradoura e prefere se entregar a um ardente amor carnal, no entanto tal opção que ambos fazem pela leveza possui motivações bem diferentes, enquanto em Tomas ela se dá pela fixação dele na “busca”, em Sabina ela é provocada por uma espécie de compulsão, ela acredita estar presa a uma determinada condição e justamente por isso se rende a ela, tal compulsão seria a traição, que a leva também para um circulo vicioso, dentro do qual ela estará eternamente condenada a começar relacionamentos para depois terminá-los por causa de sua infidelidade. Dentre os quatro personagens centrais do livro, Franz (Derek de Lint) é o menos explorado na obra cinematográfica, ele se torna amante de Sabina depois que ela se exila em outro país fugindo da barbárie da ocupação russa na Tchecoslováquia, no filme ele é apenas um personagem secundário e seu único dilema está em deixar ou não a esposa para viver plenamente seu caso com a amante.


Quando assisti A Insustentável Leveza do Ser esta semana seu impacto sobre mim foi bem diferente de quando eu o assisti pela primeira vez, o que se deve em partes à leitura prévia do livro, à medida que o filme se aproximava do final eu sentia como se estivesse me despedindo dos personagens com os quais eu convivi nas últimas semanas, tamanho meu envolvimento com a história... Apesar de ser filosoficamente inferior ao livro, o filme é uma bela obra de arte, a reconstrução de uma época é impressionante e ela é amparada pela belíssima fotografia, pela direção de arte e pelas ótimas escolhas das locações. As atuações não deixam desejar em nenhum momento e o erotismo do filme não é do tipo que incomoda ou constrange, é tudo muito sutil, belo e dotado de significações... apaixonante! O roteiro pode ter seus pequenos deslises, divergências com o livro podem até ser irritantes em alguns pontos, mas meu veredito é apenas um: A Insustentável Leveza do Ser é um filmaço que merece e muito ser visto! Leia o livro e assista o filme! Recomendo!


Assista ao trailer de  A Insustentável Leveza do Ser no You Tube, clique AQUI !

Confiram também, aqui no Sublime Irrealidade, a resenha crítica
do livro A Insustentável Leveza do Ser de Milan Kundera


18 comentários:

  1. Pela maneira delicada como vc descreveu tanto o filme como o livre, me deu uma vontade absurda de baixá-lo e assistir. Será uma das minhas pedidas pras férias \o/
    Vlw a dica!
    Beijão!!

    evesimplesassim.blogspot.com

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  2. O livro é maravilhoso de fato- e o filme não deve ficar atrás, principalmente contando com o talento do Day-Lewis. Um dos próximos que pretendo assistir! =)

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  3. Meu queridinho do core, esse filme é realmente lindo! De fato, o livro é bem melhor. Acho que não dá nem pra dizer o contrário, mas o filme conseguiu mesmo pegar os pontos importantes do livro e sua essencia. Quando assisti a primeira vez, já havia lido a obra literária. Comecei a ver com um pé atrás, mas não houve decepção. Belíssima atuação desse trio. Juliete é minha DivaMaster, mas, não posso deixar de dizer que a Lena Olin está perfeita com seu chapeu côco... Day-Lewis está impagável!! Excelente postagem, seu lindo!

    bjksJoicySorciere => Blog Umas e outras...

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  4. Também sou fã incondicional do livro e do filme, J. Bruno.
    Vi a obra de Kauffman no cinema. Fiquei enamorado. Tenho medo de revê-lo em tela pequena. Mas um dia desses vou arriscar.

    Cumprimentos cinéfilos e Feliz 2012!

    O Falcão Maltês

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  5. j.bruno eu li as postagens do seu blog e gostei muito saiba que seu blog é um dos blogs que me ensinam pois sou um blogueiro iniciante tenho 14 e tenho muito a aprender.]seu blog é d+ continue vc é uma enspiração pra mim

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  6. Eu tinha muito medo de assistir o filme e me decepcionar por causa da grandeza do livro, mas a pouco tempo tive acesso, e vi que não se mudou muito em questão de fidelidade. Este e "O morro dos Ventos Uivantes" são os meus prediletos relacionados a romance.

    Parabens pela postagem !

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  7. Eita que você fez uma baita postagem aqui hein!
    Dá pra perceber que você realmente manja desse filme e do livro. Belissima crítica! Parabens!

    Um abração.

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  8. Tenho de assistir de novo....é como se milan Kundera fosse o Woody Allen em "Desconstruindo Harry"...tenho de tirar essa impressão !

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  9. Evelin, Gabriela, vocês precisam assistir, mas não deixem de ler o livro também, tenho certeza de que não ficaram indiferentes à nenhuma das duas obras!

    Joicy, ele sem dúvidas uma das melhores adaptações que já assisti, coloco-o ao lado de "As Horas", pelo qual sou apaixonado, surpreendentemente, mesmo subtraindo algumas coisas o filme consegue manter viva a essência do livro...

    Antônio, deve ter sido mesmo uma experiência memorável tê-lo assistido na telona, mas não tenha tanto receio de assisti-lo na tela pequena, pois ele continua uma obra prima! É sempre uma honra receber sua visita por aqui!

    Gabriel, meu amigo, você conseguiu me deixar emocionado agora, obrigado pelos elogios, espero que você possa aprender tanto com meus acertos, quanto com meus erros, teu blog já é excelente e é um prazer enorme receber sua visita. Forte abraço!

    Victor, acabei ficando imune a este receio que você teve porquê assisti o filme primeiro... o livro é simplesmente sublime, ter lido ele parece que deixou o filme ainda mais belo e grandioso!

    André, eu acho que minha resenha ficou ainda bem aquém da grandiosidade da obra, ela merecia algo muito melhor, mas este foi de fato um texto que gostei de ter escrito, afinal é sempre bom falar das obras que nos cativaram... Seja sempre bem vindo por aqui!

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  10. Bruno, como já te disse, tenho q colocar a leitura em dia, não li esse livro. Gosto bastante do filme, mas é muito difícil fazer comparações de filmes com livros, sempre acontecem divergências, como não poderia ser diferente. Porém, acho q o filme se sustenta sozinho, até pelas atuações viscerais da trinca principal, q envolve o espectador. Binoche e Olin nos brindam uma cena mágica, só isso já valeria o apreciação. Abs!

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  11. Concordo plenamente com você Celo Silva!
    E a cena protagonizada por Binoche e Olin é realmente sem explicações!

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  12. Tenho certa relutância em relação ao livro, que não me parece atrativo, mesmo sendo o favorito de um amigo e professor de redação. A produção cinematográfica é bastante bonita, poética na medida do possível, apesar de ter uma duração, ao meu ver, excessiva. Essa comparação da obra original com a adaptação é preferível sempre evitar, eu mesmo sempre faço isso - mesmo tendo conferido o original. Acho que você peca um pouco nisso, disse no inicio que não se deve comparar, mas durante a crítica toda comparou. Cinema é cinema, literatura é literatura. Cada um com sua linguagem, cada um com seus adeptos fervorosos. Tento ao máximo me desvincular da obra ao assistir a adaptação cinematográfica!

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  13. Julio, o tipo de comparação que eu tentei dizer que evitaria era aquele que nos induz a avaliar qual das obras é a melhor, a literária ou a cinematográfica, é este o "tal tipo de comparação" que tento evitar... Não relacionar o filme ao livro, ai sim, eu acho que seria um grande pecado, ainda mais que estou até hoje entorpecido pela obra literária... Acho que não ter sido mais claro na resenha foi o meu maior pecado...

    Ah, eu acho que não consigo ter este mesmo distanciamento que você tem, sou tão apaixonado pelo cinema, quanto pela literatura e isso acabaria de uma forma ou de outra se refletindo na crítica...

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  14. A primeira coisa que me levou a ler este livro, foi fatalmente seu título. Fui adentrando na história cautelosamente, sem saber o que esperar; e me deparei com uma belíssima história filosófica sobre a vida, sobre o amor. Ao assistir ao filme, senti-me num encontro com personagens há muito tão íntimos, tão desprotegidos pela minúscia do autor que os revelava integralmente. Eu chorei ao seu final; e confesso que até hoje não terminei de ler a obra escrita por medo de finalizar essa narrativa tão envolvente e avassaladora.
    Que bom saber que existem tantas outras pessoas que sentem o mesmo!

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    1. Olá Mariana, seja bem vinda, espero que você tenha gostado do post e que volte outras vezes...

      Ainda sinto até hoje os efeitos provocados pelo livro e pelo filme, alguns conceitos trabalhados por Kundera parecem me perseguir, acho que este é o livro que melhor descreve a atual fase de minha vida e talvez este seja o principal motivo de tamanho impacto...

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  15. um filme absolutamente fora de série, adorei ,vi-o há muitos anos mas nunca mais esqueci

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  16. Um filme inesquecivel,quando assisti me impressionol muito,

    impecavel a atuaçao de Day Lews ele esta no olimpo dos atores,JULIET E lena Olin fecham a fatura com um show de interpretaçao, beleza e senssualidade.
    Recomendo tambem o livro para uma viagem filosofica a esta grande obra de Kundera.

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  17. Um filme inesquecivel,quando assisti me impressionol muito,

    impecavel a atuaçao de Day Lews ele esta no olimpo dos atores,JULIET E lena Olin fecham a fatura com um show de interpretaçao, beleza e senssualidade.
    Recomendo tambem o livro para uma viagem filosofica a esta grande obra de Kundera.

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