terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Tudo Pelo Poder

Tudo Pelo Poder (The Ides of March) - 2011. Dirigido por George Clooney. Escrito por George Clooney, Grant Heslov e Beau Willimon, baseado na peça “Farragut North” de Beau Willimon. Direção de Fotografia de Phedon Papamichael. Música Original de Alexandre Desplat. Produzido por George Clooney, Grant Heslov e Brian Oliver. Cross Creek Pictures / USA.


Alguns filmes conseguem reproduzir pensamentos e sentimentos experimentados pela consciência coletiva em determinados momentos históricos, como tal eles são capazes de ajudar a sociedade a ver um espelho de si mesma e assim se analisar com uma maior precisão. Tal fenômeno se torna ainda mais forte quando o período histórico abordado é o atual, pois, ainda que o filme não seja capaz de fornecer uma análise aprofundada e precisa, ele consegue ao menos provocar o desconforto da sociedade que se vê retratada nele. Este é o caso de Tudo Pelo Poder (2011), o quarto filme dirigido por George Clooney, cuja trama mostra o desenvolvimento de uma fictícia campanha eleitoral para a presidência dos Estados Unidos. A decepção dos americanos com o governo de Barack Obama parece ressonar por toda o desenvolvimento da história, que retrata tão bem o atual panorama de descrédito na política. Como que imitando a realidade, o roteiro do filme flui do mais ingênuo idealismo (quem não se lembra da posse de Obama?) para a mais completa descrença no jogo político.

Tudo Pelo Poder não é uma crítica aos Democratas (partido de Obama), tão pouco aos Republicanos, seus opositores. Ele funciona mais como uma triste constatação de que a ideologia, por mais sincera e nobre que ela seja, não é capaz de prevalecer diante do jogo de concessões a alianças necessário à obtenção do poder. De uma forma quase ingênua, o filme trabalha a perplexidade motivada pela "descoberta" de que a política partidária e consequentemente o modelo de democracia representativa são falhos. De uma forma brilhante, o longa mostra que a desonestidade e o descompromisso diante dos ideais defendidos não é exclusividade apenas de um dos partidos, ambos estariam degenerados pela corrupção de seus respectivos representantes. A postura do filme se torna ainda mais pessimista quando ele mostra que mesmo alguém bem intencionado pode acabar se sucumbindo diante dos conflitos éticos inerentes ao “jogo”...


Em Tudo Pelo Poder, Stephen Myers (Ryan Gosling) é um diretor de comunicação idealista que trabalha de forma engajada na campanha presidencial do governador Mike Morris (George Clooney). As pesquisas em cada um dos estados, onde acontecem as prévias da eleição, eram desanimadoras para Morris e sua equipe, a esperança era conseguir o apoio dos delegados do estado de Ohio, apoio este que seria estratégico para sua vitória... [O processo eleitoral nos Estados Unidos acontece de forma diferente da do Brasil, lá o presidente é escolhido por um colégio eleitoral formado por delegados escolhidos pelo povo. Cada estado tem direito de nomear um certo número de delegados. A vitória em um determinado  estado é decisiva, pois, independente da margem percentual de aprovação, o número total de delegados daquele estado conta na apuração final em favor do candidato que ali foi vencedor, sendo assim um estado com maior número de delegados tem mais peso que outro com um número menor, ainda que neste o percentual de aprovação tenha sido maior... complicado não?]


Myers realmente acredita na proposta do candidato e o vê como o único homem realmente habilitado para o "cargo mais cobiçado do mundo", seu idealismo chega a nos parecer estranho, uma vez que ele diz já ter trabalho em diversas outras campanhas e também por ele conhecer como ninguém a realidade suja da política partidária. A impressão que a trama nos passa é a de que Morris representa a sua última esperança na política e isso explica a sua total dedicação à promoção das propostas e dos ideais do candidato. A confiança de Myers começa a ser quebrada quando ele descobre um escândalo envolvendo Morris e uma jovem estagiária que trabalha em sua campanha (Evan Rachel Wood), é a partir de então que ele passa a ter uma noção precisa de que a corrida presidencial é tão somente um jogo e nada mais que isso, um jogo onde um único erro pode representar a derrota, o descrédito e a completa decadência profissional.


O dilema ético experimentado por Myers na história exemplifica bem a forma com que os jogos do poder são capazes de corromper com relativa facilidade qualquer um que se envolva com eles. Na trama, o personagem terá que fazer escolhas, optar por aquilo que é mais importante para si, diante de tais decisões o seu idealismo já fragilizado poderá não ser estruturado o suficiente para se sustentar... A inconstância da postura de Myers e a fragilidade de seus ideais representam muito bem os já citados pensamentos e sentimentos experimentados pela atual consciência coletiva do país... Como não ver em Morris uma representação de Obama e em Myers uma alegoria do próprio povo americano? A postura negativa e dura do filme em relação à decadência da democracia representativa dos Estados Unidos é de fato um de seus melhores aspectos, mas o filme vale a pena ser visto não só por isso...


Ryan Gosling está muito bem no filme (apesar de eu considerar sua atuação em Drive (2011) bem melhor), ele dá consistência e credibilidade a cada uma das emoções de seu personagem e sua presença de cena é incrível. George Clooney, Philip Seymour Hoffman (que interpreta um dos acessores de Morris), Paul Giamatti (o diretor de comunicação do candidato da oposição), Marisa Tomei (que vive uma jornalista) e Evan Rachel Wood também estão muito bem. A competência do elenco aliada à direção precisa de Clooney e ao roteiro bem escrito dão a Tudo Pelo Poder os requisitos necessários para que ele seja considerado um dos melhores filmes do ano passado. Ele merece ser visto e acima de tudo refletido, pois a situação exposta pelo seu roteiro infelizmente não é uma exclusividade dos americaos, nós a conhecemos bem, talvez até melhor que eles... Ultra recomendado!


Tudo Pelo Poder está indicado ao Oscar na categoria de Melhor Roteiro Adaptado. No Globo de Ouro, o filme foi indicado nas categorias de Melhor Filme - Drama, Melhor Diretor, Melhor Ator - Drama (Ryan Gosling), e Melhor Roteiro.

Assistam ao trailer de Tudo Pelo Poder  no You Tube, clique AQUI !


18 comentários:

  1. Bruno,

    Maravilhosa a crítica! No dia que fui assisti esse filme não estava tão animada, mas confesso que na metade do longo o filme ganha outra trajetória, principalmente, com o jogo ideológico. Embora a trama não seja original visto que a figura da estagiária lembra Bill Cliton, entendo que o filme repassa com sutileza o que realmente prevalece em uma campanha política.

    No mais, claro que como mulher, ordenei pensamentos feministas a conduta ali exposta e o filme retrata bem que o mundo sempre é uma conspiração machista.

    Essa semana, estreia o filme que o Cloney tem as indicações sonhadas e espero que não seja o mero clichê pouco original.

    Beijos.

    Lu

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    1. Concordo com seus pontos de vistas Luciana, realmente dá para perceber no roteiro várias referências a casos e escândalos reais da política americana... Concordo também quanto ao machismo, apesar de negarmos, ele continua vivo, porém velado, sobre a temática eu lhe recomendo a excelente série "Mad Men" que se passa nos 60 e retrata, dentre outros assuntos, a inserção da mulher no mercado de trabalho...

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  2. Oi J. Bruno!

    Olha eu me pergunto onde vc arranja tempo para fazer essas resenhas tão bacanas e bem explicativas! E para ver os filmes e colocar bem o ponto crítico! Parabens!
    Então, Cowboy Bebop é um anime bem diferente, que combina vários elementos..não sei se vc chegou á ver mas fiz um artigo recentemente sobre a obra, se quiser dar uma olhada:
    http://empadinhafrita.blogspot.com/2012/01/cowboy-bebop.html. Olha tem um site de anime que meu blog é afiliado que dá pra fazer download, é esse aki:http://www.kanzenanimes.net/home. É só ir no campo de busca e digirar Cowboy Bebop =)
    bjs!!!

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    1. Fica mais fácil agora que estou de férias, mas por ser algo que faço por prazer acaba n~]ao pesando e sempre consigo encontrar algum tempo livre para escrever...

      Vou conferir o anime e depois volto lá para comentar!

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  3. É um super filme! Sua análise está impecável! Parabéns!

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  4. Esta sensação de "atualidade" é um dos melhores pontos do filme; Ver uma reflexão desesperançosa quanto a política americana - clara alegoria a Obama, bem levantado por vc - dá aquela impressão de história do hoje. E o elenco... na medida!

    Parabéns... excelente crítica!

    ;D

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    1. Este é, como eu disse, um dos pontos positivos do filme Karla. Geralmente estamos acostumados a ver no cinema mainstrean uma exaltação da política e das instituições públicas americanas, dificilmente vemos algum filme que explora a fragilidade do país...

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  5. Só acho uma pena Gosling não ter sido indicado. Adorei o filme e concordo contigo!

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    1. Também acho que ele merecia, mas a indicação seria mais justa ainda se viesse pelo excelente "Drive"

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  6. Olá Brunão!
    Rapaz que resenha bem feita hein meu irmão!
    Puxa falou tudo e mais um pouco e ainda deu seus toques pessoais. Vou ter que assistir esse filme agora sem falta!

    Um abraço!

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    1. Obrigado André!
      Assista sim, o filme vale a pena, ele tem um bom roteiro e ótimas atuações!

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  7. José Bruuuninho do meu coração... estamos no meio da semana e já estou pedindo arrego! kkkkk... cansada pacas... preciso me acostumar com a rotina de trabalhar o dia todo, novamente! Estava mal acostumada...

    Bom, vamos ao filme. Não assisti, porém alguns amigos me indicaram e fiquei com grande vontade de conferir. Ando muito chateada, pois não tenho conseguido assistir todos os filmes que pretendia da listinha que fiz ano passado. Precisarei me organizar melhor...

    bjks JoicySorciere => Blog Umas e outras...

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    1. Joicy, não é só você, eu também não consegui fazer nem metade do que tinham planejado para estas férias e acho que estarei mais cansado quando voltar ao trabalho do que quando parei...

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  8. Ótimo texto. "Tudo pelo Poder" foi certamente um dos melhores filmes de 2011 que infelizmente e aparentemente foi boicotado pela academia.

    A direção de Clooney excedeu as minhas expectativas, climatizando o filme com suspense de primeira, mantendo sempre o espectador na ponta da poltrona à medida que a trama toma forma.

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    1. Obrigado Francisco!
      De fato a Academia comete algumas injustiças que eu simplesmente não consigo compreender, algumas categorias me surpreenderam da pior forma possível... Concordo com sua observação, Clooney tem explorado muito bem este viés político em seus filmes, este provou mais uma vez seu talento e me deixou curioso em relação às suas obras que ainda estão por nascer...

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  9. E aí J. Bruno!
    Pois é, acho que existe corrupção na política de cada país, ninguém está imune. Mas é interessante ver que os "grandes" norte-americanos tem problemas com a política, já que eles se acham tão superiores. Pra falar a verdade não ligo muito pro que acontece com a política deles, mesmo sabendo que nos afeta de alguma maneira. Pra mim é mais importante arrumarmos a nossa política primeiro, depois prestamos atenção ao mundo.
    Muito legal seu ponto de vista sobre o filme. Assim que der, tentarei ver.

    Eu já sabia sobre a técnica de captura de movimentos utilizada para fazer o filme do Tintim, apenas não quis me ater nessa parte. Mas valeu por complementar ;D

    Abraços

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    1. O mais interessante, como eu disse, é ver eles assumindo a debilidade da política deles, situação que só um grave momento de crise poderia proporcionar... O que me deixa perplexo é a complexidade do processo eleitoral deles, eles que se gabam de ser a maior economia do mundo, mantêm um sistema eleitoral onde não é a maioria que decide...

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