sábado, 15 de janeiro de 2011

Chico e as histórias que eu não vivi

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Minha mãe, uma dentre tantas fãs confessas de Roberto Carlos, certa vez me explicou que nem todas as músicas do "rei" eram, na opinião dela, de fato boas, mas mesmo as de menor qualidade eram para ela especiais, pois tinham a capacidade de a transportar imediatamente às inúmeras lembranças de seu passado, que de alguma forma sua mente tinha associado àquela determinada canção...

Dia desses um amigo me disse, que às vezes não conseguia entender a "unanimidade" em torno de tudo que Chico produz. Eu na verdade nem creio que tal unanimidade exista de fato, nem que ele seja assim tão imaculado artística e esteticamente. Reconheço ainda que já faz um bom tempo que ele não compõe músicas extraordinárias, como as que fizera outrora.
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Ontem, assistindo à microssérie Amor em 4 atos, baseada na obra musical de Chico Buarque, fiquei cá imaginando, quantas outras ricas histórias não poderiam ser inspiradas em suas composições, estas renderiam um seriado com um bom número de temporadas. As canções de Chico têm algo de especial, algo que me toca, mas que até então eu não sabia explicar...
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O último capítulo da microssérie acabou deixando um gostinho de quero mais, desliguei a TV e tentei dormir, mas as canções continuavam em minha mente. Num êxtase musical construção, valsinha, samba de orly, vitrines e tantas outras dissonavam em minha cabeça, foi em meio a esta serenata de pensamentos que consegui compreender, ao menos em parte, onde é que reside a genialidade do Chico Buarque cantor.
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Minha mãe, como eu havia dito, se emociona quando as canções de Roberto Carlos trazem de volta à sua memória reminiscências de seu passado e doces lembranças de sua juventude. Chico, no entanto consegue me emocionar com memórias que não são minhas e com histórias que não vivi.

Lembro que quando conheci o Legião Urbana, um das primeiras bandas que realmente gostei, me identifiquei muito com suas letras e isso despertou em mim uma atração pelo trabalho da banda, foi assim com muitas dos outros cantores e bandas que tocaram em meu CD player nos anos seguintes. Porém com Chico foi diferente, ele conseguiu despertar em mim, algo que não vinha de minha vivência nem de minhas experiências anteriores.

Analisando, me parece que talvez exista um espécie de relação de empatia entre o Chico como artista, os personagens de suas composições e quem as escuta. Outros artistas tentam reproduzir tal fenômeno na música, mas o ciclo na maioria das vezes se mostra incompleto. Despertar tal sentimento de empatia e até mesmo de compaixão não é fácil e Chico o fez com tamanha naturalidade, ele como nenhum outro artista conseguiu compreender tão bem a alma feminina, a realidade dos amantes, dos boêmios, dos socialmente excluídos e de tantos outros grupos. É ele, na minha opinião, o artista que melhor expressou a consciência coletiva da sociedade em alguns dos períodos mais marcantes de nossa história.
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Minha mãe com certeza não concordaria, mas acho que, no tocante à música, deveria ser de Chico Buarque a alcunha de "rei".

Um comentário:

  1. lindo seu seu post.gostei da abordagem dele e confesso que para lê -lo escolhi como trilha ''trocando em miúdos''.

    a genialidade de chico está em sua sensibilidade,imaginação e capacidade de se colocar em peles distintas.Chico é um grande contador de histórias e as desempenha com maestria....desde a gota d'água até roda viva,ópera do malandro ,passando pelas angélicas,cecílias,bárbaras e tantas outras mulheres que choram baixinho num tapeta atrás da porta. Eu mesma me considero uma mulher do Buarque,pq me vejo nas mulheres de suas canções.

    um beijo e um cheiro para vc,que me proporcionou boas memórias com seu post!!

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