quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Tropa de Elite 2 - O Inimigo Agora é Outro

Tropa de Elite 2 - o inimigo agora é outro, 2010. Dirigido por José Padilha, escrito por José Padilha e Bráulio Mantovani e produzido por Marcos Prado. Zazén Produções / Brasil.


Creio que um dos maiores erros que cineastas e produtores podem cometer é apostar no sucesso da continuação de um filme, só por este ter sido elogiado pelo público e pela crítica. Por regra geral as continuações que deram a grandes filmes sempre renderam decepção por parte dos cinéfilos e acusações de falta de criatividade por parte de crítica. Mas toda regra tem exceções, desconsiderando filmes que já nasceram com a sequência pronta como Senhor dos Anéis (trilogia – 2001; 2002; 2003), como exemplo posso citar o feito de Francis Ford Coppola que conseguiu dar uma continuidade á altura para o primeiro Poderoso Chefão (1972), o que não conseguiria repetir com o terceiro filme da série.

José Padilha poderia ser acusado de estar construindo uma casa sobre a areia, quando decidiu dar uma continuidade ao aclamado Tropa de Elite (2007). Felizmente o resultado da audácia do diretor e sua equipe foi um dos melhores filmes já produzidos pelo cinema nacional. Quando o primeiro longa chegou às telonas, um mito já tinha sido criado, antes da pós-produção, uma cópia vazou, para a glória dos camelôs, e deu ao filme uma divulgação “alternativa” nunca antes vista. O mito tinha nome e função: Roberto Olavo Novaes Nascimento, capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE). Em suas palavras e ações (principalmente ações) o Capitão Nascimento (Wagner Moura) personificava toda a raiva contida e o desejo de contra-ataque que a sociedade reprimia.

Tropa de Elite, por levar a realidade nua e crua às telas, ganhou elogios e críticas. Se para uns o capitão do BOPE era tido como reacionário e autoritário, para outros ele era o herói que se esperava ver na luta contra o crime. Uma das maiores críticas que fiz ao filme na ocasião, era a de que a película mostrava a corporação capitaneada por Nascimento como uma entidade infalível e irrepreensível. Entendi que precisava dar uma ressalva a este aspecto, uma vez que a história era narrada pelo ponto de vista do próprio capitão.

A maior parte da trama de Tropa de Elite 2 se desenvolve em gabinetes e plenários.
Se no primeiro filme Nascimento estava seguro de si e certo de que o que fazia era o correto, em Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro ele terá cada uma de suas verdades postas em cheque. A continuação, tal como o primeiro filme, começa num momento de clímax  para retornar em flashbacks e dar a explicação da trama, sempre através da narração do personagem principal. Em sua narrativa fica claro que o mito está prestes a ser desconstruído, ele não tem mais tantas certezas e indaga a verdadeira função da corporação à qual dedicou 22 anos de sua vida. O capitão arredio do filme de 2007 era apenas uma peça do tabuleiro, do que ele mesmo agora chama de “o sistema”. Tudo que o BOPE colocou na conta do Papa, não passava de um reflexo da máquina que controla praticamente todo Rio de Janeiro, conforme mostrado neste filme.

Cheguei a ler em algumas resenhas, que o Tropa de Elite 2 mantinha o foco de seu roteiro sobre o surgimento das milícias nas favelas do Rio, mas não é só isso, o filme destrincha as relações entre milicianos, bandidos, policiais corruptos e o poder institucionalizado. Neste segundo filme fica mais fácil apontar o que seria de fato aquilo que chamamos de poder paralelo. Este leviatã bizarro, que toma conta da capital fluminense, comporta dentro de si os três poderes ilegítimos: executivo (policiais, servidores da segurança pública e milicianos), legislativo (políticos eleitos para garantir os interesses dos bandidos) e judiciário (mídia sensacionalista atrelada a interesses dos dois primeiros que julga conforme seus cabrestos). Toda a violência latente nos dois filmes é a consequência mais visível dos atritos entre tais poderes, que vez por outra se confundem no exercício de sua "função no esquema".

Tropa de Elite 2 não tem tantas cenas de agressão física e tiroteios como no primeiro, se este estava ambientado principalmente nas ruas, o de agora transita, na maior parte das cenas, é por gabinetes e plenários. Mas esta nova contextualização não lhe tira o impacto, a tensão acompanha o longa do início ao fim. Comecei a assistir ao filme e não conseguia me acomodar, eu me remexia e mudava de posição durante todo o tempo e quando menos percebi já estava suado e nervoso. O roteiro, apesar de alguns poucos deslizes, está notadamente mais maduro e as atuação mantêm o nível do anterior. Se me permitem a heresia, ouso dizer que, no conjunto da obra, este está melhor que o primeiro. No entanto quem espera pelas frases feitas e bordões pode se decepcionar, não se ouve mais pede pra sair ou nunca serão , mas a acidez permanece nos diálogos e na narração. Citações como: Cada cachorro que lamba a sua caceta", podem não virar carta marcada nas redes sociais, mas ainda assim são memoráveis.


Na maioria das resenhas deste filme, assim como no do primeiro, vemos a exaltação da direção de Padilha e da atuação de Wagner Moura, mas a genialidade do filme pode estar mesmo é no roteiro, que em Tropa de Elite 2 é assinado por Padilha junto com Bráulio Mantovani (desta vez sem a colaboração de Rodrigo Pimentel, aquele que virou comentarista da Globo). Mantovani (este é o cara) já foi indicado ao Oscar em 2004 pelo roteiro de Cidade de Deus (2003) e tem no currículo outros importantes filmes do cinema nacional como Última Parada 174 (2008), Linha de Passe (2008) e O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006).

Tropa de Elite 2 é mais uma prova que o cinema nacional é capaz de produzir grandes obras e de que o bom momento ainda pode pode durar. O filme bateu o recorde de público da história do cinema brasileiro, que pertencia até então ao filme Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976). Sem sombra de dúvidas Tropa de Elite 2 - O Inimigo Agora é Outro é uma boa pedida. Esqueça a badalação que fez do primeiro filme um brokebuster, este é muito mais que isso! Este é uma daqueles filmes que têm a maldita missão de nos fazer enxergar, na nossa realidade, aquilo que não queremos ver e "missão dada é missão cumprida"! Infelizmente, de ficção no filme de Padilha, parece ser mesmo só o final... Assistam!


Assista ao trailer de Tropa de Elite 2 - O Inimigo Agora é Outro no You Tube, clique AQUI !


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5 comentários:

  1. Ótima resenha... ótimo filme... ótimas referências...

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  2. Muito bem essa resenha, diz tudo!
    garotoforense.wordpress.com
    (arte digital)
    garotoforense.tumblr.com
    (musica cinema tv)

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  3. apresento a vocês MEU BLOG DE TIRINHAS
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  4. gostei dessa resenha pois me ajudou bastante

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