sábado, 19 de fevereiro de 2011

Afinal, por que Glee é tão legal?

A série exibida pela Fox está na segunda temporada e já é sucesso de público e crítica


Uma série musical protagonizada por estudantes de um High School (colégio de ensino médio) americano poderia resultar em mais um produto midiático de sucesso fácil, porém de qualidade questionável. A franquia High Scool Musical (2006; 2007; 2008) é o melhor exemplo disso. No caso desta trilogia,  as canções pop, usadas como apelo ao público teen, estavam associada a um roteiro superficial e totalmente descartável. Hoje quando recomendo Glee para alguns de meus amigos, a primeira coisa que digo é que esta série criada por Ryan Murphy, Brad Falchuk e Ian Brennan é bem diferente e bem melhor que o musical de adolescentes colegiais da Disney. Confesso que teria feito a mesma comparação baseado em uma impressão preconcebida, se não tivesse sido convencido da qualidade da série, já no primeiro episódio que assisti ( "Wheels", o 9° da primeira temporada). Glee se tornou um fenômeno nos EUA, arrebatando vários prêmios e elogios por parte da crítica. Sem contar a venda de singles e CDs e número de músicas nas paradas de sucesso, que já bateram vários recordes.

Glee tem o simples, e ao mesmo tempo ousado, intuito de prestar reverência à cultura pop e seus ícones e personalidades. A série transita pelo universo de adolescentes, tendo como argumento seus amores, intrigas, sonhos e desafios impostos pela vida social em um colégio - Acho que estou complicando as coisas - Para quem ainda não assistiu, vai parecer que eu estou falando de algo que reza pela mesma cartilha de folhetins como Malhação e definitivamente não o é. Podem então me questionar: “o que de tão especial tem nesta série que a torna tão legal?” Acho que posso afirmar que se deve ao fato de que Glee foge da mesmice e do convencional, e de tudo aquilo de que já estamos saturados. Para explicar isso um pouco melhor, vamos à trama:

A história de Glee se passa no colégio McKinley, onde é formado o New Directions, um coral que acaba atraindo aqueles alunos que estavam na base da pirâmide social da escola, aqueles que buscam visibilidade e alguns outros que acabam entrando por situações diversas. O coral passa ser o pano de fundo para o nascimento de relacionamentos, confusões e muito aprendizado - Parace banal? Então vamos aos personagens:


Rachel Berry (Lea Michele) é uma espécie de líder do coral, ela foi inspirada na personagem Tracy Flick do filme Eleição (1999) de Alexander Payne. Quem já assistiu a este filme, sabe bem de que tipo se trata. Rachel foi criada por um casal de homossexuais e desde pequena alimenta o sonho de ser atriz da Broadway, ela é egoísta, e ambiciosa e vê a vida escolar como um trampolim para o sucesso a que acredita ser predestinada.

Finn Hudson (Cory Monteith) é no mínimo tapado. Ele é popular por ser quarterback do time de futebol americano do colégio, e acaba entrando para o clube coral por causa de uma chantagem feita pelo professor Schuester (Matthew Morrison), que via em sua participação, uma forma de atrair mais estudantes para New Directions. Schuester coloca maconha em sua mochila e o ameaça dizendo que irá denunciá-lo se ele não tentar se redimir no coral, ele então aceita sem questionar. Durante a primeira temporada Finn passa um bom tempo acreditando ser o pai do filho que sua namorada espera, mesmo nunca tendo transado com ela. Ela o convence de que a concepção aconteceu em um dia que ele ficou excitado, quando estavam semi nus em uma banheira de água quente, que seriam segundo ela condições mais que favoráveis para a fecundação(!), mais uma vez ele aceita sem questionar.

Quinn Fabray (Dianna Agron), a namorada de Finn no início da primeira temporada, era líder de torcida e presidente do clube do celibato e se posicionava contra os anti-concepcionais e qualquer outra coisa proibida pela bíblia. Ela entra no clube do coral como uma das espiãs que pretendiam espalhar a discórdia e manter a treinadora das líderes de torcida Sue Sylvester (Jane Lynch) - a vilã da série - a par de tudo que acontecia no coral. Seus planos e seu status de garota certinha são desfeitos quando Quinn engravida em uma transa casual com Puck (Mark Salling), o “perdedor” do colégio e melhor amigo de Finn.

Puck entra para o coral pela influência de Finn e por descobrir que tem uma boa voz ao participar da banda Acafellas, ele é grosso, insensível e não tem muita expectativa de futuro, se diverte bulinando os “excluídos” do colégio e faz bico como lavador de piscinas para se aproximar e transar com mulheres de meia idade, dentre elas algumas mães de seus colegas.

Santana (Naya Rivera) e Brittany (Heather Morris) também são líderes de torcida e entraram para o coral junto com Quinn Fabray como espiãs, mas assim como Quinn elas também passam a gostar do clube com o passar do tempo. Santana também é ambiciosa e um tanto safada, ela já teve um caso com Puck, Finn e Matt (um personagem secundário). Brittany é simplesmente burra e consegue ser mais tapada que o Finn, são dela algumas das melhores tiradas da série. No episódio especial de natal, da segunda temporada a turma descobre que ela ainda acredita em Papai Noel. Santana e Brittany estão sempre juntas, em vários episódios há a insinuação de que exista uma relação homo afetiva entre as duas, que seriam bissexuais.

Kurt Hummel (Chris Colfer – vencedor do Globo de Ouro 2011 na categoria de melhor ator coadjuvante de série de TV) é um garoto homossexual que toma coragem para sair do armário depois de entrar para o coral, durante a primeira temporada nutre uma paixão não correspondida por Finn, que até tenta lhe retribuir com uma boa amizade. Kurt é uma das principais vítimas de Puck e dos valentões da escola, principalmente por seu estilo espalhafatoso.

Mercedes é uma das melhores cantoras do grupo, mas sofre de baixa auto-estima por ser negra e gorda. Artie (Kevin McHale) é um garoto nerd, cujo o maior sonho é poder dançar, ao entrar no coral ele enfrenta vários desafios por ser cadeirante é ele quem toca guitarra em algumas das apresentações do Clube do Coral. Tina é feminista, um tanto rebelde, ms muito emotiva, seu principal problema é a baixo auto-estima que faz com seu talento fique reprimido. Quando entrou para o coral Tina convenceu a todos que era gaga, para que ninguém pensasse em se relacionar com ela.

Will Schuester é professor de espanhol no colégio, é ele quem tem a idéia de reativar o clube do coral, que fizera sucesso no passado, mas que fora fechado depois que o professor responsável foi acusado de abuso sexual. Will se considera um perdedor por sua vida familiar e projeta nos meninos do coral os sonhos que não conseguiu realizar em sua vida. Ele é dedicado e esforçado e um ótimo cantor, mas passa por um período de dificuldades financeiras e de crise no casamento.

Sue Sylvester (um dos melhores personagens da série) é a treinadora das líderes de torcida, ela não admite que tenha que repartir as verbas repassadas pela escola com o Will e seu grupo de “aberrações”, ela está sempre tentando sabotar os planos da turma, mas no fundo ela parece ter um bom coração, o que ficou evidente no último episódio da primeira temporada. O diretor da escola Mr. Figgins (Iqbal Theba - que parece um clono do famigerado Pr. Silas Malafaia) também é um personagem legal, apesar de ser secundário. Ele é corrupto e está sempre metido em escândalos que Sue usa para o chantagear.

Além destes tem mais um monte de outros personagens curiosos, como Terry Schuester, a esposa de Will, que finge uma gravidez para segurar o marido, Emma (Jayma Mays) a paranóica conselheira da escola e o antigo coordenador do coral, que fora acusado de abuso sexual, que aparece em vários episódios da primeira temporada. Como pode se observar os personagens de Glee não são nada convencionais, são contraditórios e ambíguos em suas personalidades e não são modelos pra adolescentes, nem foram concebidos para causar inveja nos expectadores, como acontece na maioria dos casos. As situações absurdas que eles provocam, por viverem os extremos de cada aspecto de suas personalidades, nos proporcionam alguns dos momentos mais divertidos da série. O exagero característico da trama é um dos melhores atrativos.

The Simpsons e Glee - um encontro entre 
duas das séries de maior sucesso da Fox 

O roteiro apesar de simples é outro grande diferencial. Enquanto nós como sociedade valorizamos apenas a vitória e os títulos que acumulamos, os criadores de Glee nadam na direção oposta com a história do New Directions, os personagens são tudo que não desejamos ser. São perdedores e por mais que tentem se esconder por trás de títulos mesquinhos e popularidade ilusória, eles são o exemplo dramático da futilidade da maioria das coisas que valorizamos. Apesar de toda a excentricidade das estórias e dos personagens caricatos, no final o que se sobrepõe é a lição sobre o respeito às diferenças e a valorização das amizades e de se fazer o que realmente gosta ao invés da busca desenfreada por troféus e status social.

O repertório de Glee é composto por sucessos do Pop, Hip Hop, R&B e clássicos do Rock, as performances são uma atração à parte. Mesmo eu, que tenho pouca ou nenhuma atração pela maioria das músicas que fazem e fizeram sucesso e estiveram no topo das paradas do Pop nos últimos anos, que constituem uma significativa parcela das interpretações da série, tenho que reconhecer que é legal ver cada canção sendo trabalhada para ilustrar alguma situação específica na trama. Conseguiram até tornar suportável os episódios especiais sobre Lady Gaga e Britney Spears e atrir um valor a mais a canções que não passavam de material comercial descartável.

Durante a primeira temporada teve momentos excepcionais, como o que o Glee Club canta Imagine de John Lennon junto com um coral de surdos, o midle entre Dont Stand so Close to Me do The Police e Young Girl de Gary Puckett, a interpretação de Artie para Dancing With Myself do Billy Idol (no primeiro episódio que assisti) e a apresentação de Bohemian Rhapsody do Queem no último episódio da temporada. Sem mencionar tantas outra releituras que em perte das vezes ficou bem melhor que a versão original. Vale a pena despir do preconceito e se render a esta série que é uma melhores coisas produzidas para a TV nos últimos tempos. O fato de que a Globo comprou a primeira temporada e decidiu não levá-la ao ar nas manhãs de sábado como fora previsto, sem dúvidas é um bom sinal. Recomendo!


Assistam ao trailer da primeira temporada de Glee no You Tube,
clique AQUI !



2 comentários:

  1. Oi Bruno,eu também estou acompanhando a série Glee, primeiramente gostaria de dar os parabéns pelo post, ficou bem completo.
    Concordo com você, em primeira mão, quando se ouve falar em serie ou filme musical, só nos lembramos de High School Musical, logo vem o preconceito,isso por que o HSM foi uma coisa totalmente superficial sem nenhuma mensagem de fundo,etc... diferentemente do Glee, que é como você falou: "lições sobre o respeito às diferenças e a valorização das amizades e de se fazer o que realmente gosta ao invés da busca desenfreada por troféus e status social", isso é o que torna a serie interessante e mostra a verdadeira realidade, diferente dos personagens do HSM, que se parecem mais com bonequinhos de porcelana.
    Assistam Glee, recomendo.

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  2. NOoossa J. BRUNO, adorei seu posicionamento em relação à esse fenômeno intrigante chamado Glee...
    também sou fã rendido e amordaçado... é simplesmente uma das maiores maravilhas produzidas pela tv, e simplesmente ainda credito q seja muito mais que comercial. Infelizmente tenho q aguentar as criticas de amigos meus q insistem na idiotice de taxar glee de "coisa de gay", afff, santa ignorância a deles, a verdade é que glee é gay sim, assim como é hétero, popular, problemático, contraditório, engraçado, reprimido, marginalizado e outras coisas presentes em cada personagem, porque Glee não é fantasia e sim tudo aquilo q os outros programas tem receio e medo de mostrar, simplesmente pelo medo de não ser tão comercial. Enfim glee é a pura, nua e crua realidade, que cresce e rende cada vez mais.

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