terça-feira, 31 de maio de 2011

Inimigos Públicos

Inimigos Públicos (Public Enemies) - 2009. Dirigido por Michael Mann. Roteiro de Michael Mann, Ronan Bennett e Ann Biderman, baseado no livro de Bryan Burrough. Direção de Fotografia de Dante Spinotti. Música de Elliot Goldenthal. Produzido por Michael Mann e Kevin Misher. Universal Pictures / EUA.


Inimigos Públicos (2009) foi um marco para mim! Não pelo roteiro, pelos personagens ou pela atuação, mas por ter sido o primeiro filme que assisti em Blue Ray. A tecnologia é realmente um troço de doido, como dizemos por aqui. Some a esta experiencia o fato deste ser um filme do respeitado realizador Michael Mann, que é um diretor que valoriza muito o visual de suas obras. Assistir um filme com um belo visual, com a definição do Blue Ray já bastaria por si só para me proporcionar um boa experiência. Mas o filme foi bem além disso.

Filmes de gangster não são uma novidade, todos sabemos bem disso, mas até hoje eles conseguem nos fascinar e mexer com nosso imaginário, de tal forma, que em determinados momentos chegamos a nos flagrar torcendo pelo bandido. De onde vem nosso fascínio por estes fora-da-lei é algo que não me meto a tentar explicar, Johnny Depp tentou o fazer em uma coletiva de imprensa realizada na ocasião do lançamento do filme, ele disse acreditar que tal fascínio venha da projeção que fazemos de nós nos personagens, “eles se safam fazendo coisas que nunca conseguiríamos fazer para nos safar”.

 

A história de Inimigos Públicos, baseada em fatos reais, se passa no período da grande depressão, época em que a economia americana estava despedaçada e que a criminalidade assolava o país. O filme retrata a ascensão de um dos ladrões de banco mais famosos dos anos 30, John Dillinger (Johnny Depp), e como pano de fundo ainda mostra a criação do Bureau de Investigação Federal, o FBI, idealizado pelo famigerado J. Edgar Hoover (Billy Crudup). O nome do filme merece uma reflexão à parte, Dillinger conquistou com sua trajetória o apreço e até a admiração de uma boa parte da população, sendo assim não era ele o verdadeiro inimigo público, os verdadeiros inimigos eram os bancos, a quem o consciente coletivo acusava pela crise. Dellinger era visto como uma espécie de herói justamente por conseguir lesar o sistema financeiro, o maior culpado pela recessão, ele agia como uma espécie de Robim Hood, que tirava dos ricos, mas não dava aos pobres.

 

É muito interessante a angulação que o roteiro deu à história, em ambos os lados existem homens de palavra e de honra, como é o caso do próprio Dillinger, que roubava os bancos, mas não seus clientes, e do agente Melvin Purvis (Christian Bale), que se dedica ao trabalho sem trair seus princípios e suas convicções. No entanto, nos dois lados também têm homens destituídos de qualquer código de conduta, como é o caso do autoritário J. Edgar Hoover e do bandido sanguinário Baby Face Nelson (Stephen Graham). Estes dois microcosmos, formados de um lado pelo bando de Dellinger e de Baby Face e de outro pela divisão do FBI, ilustram bem a antítese dos alicerces, sobre os quais os Estados Unidos de hoje foram erguidos.

  

Inimigos Públicos é um filme de uma inegável qualidade técnica e de ótimas atuações, Deep e Bale, com talentos incomparáveis, dão consistência e humanidade aos seus respectivos personagens, Marion Cotillard está muito bem na pele da namorada de Dellinger e o restante do grande (em quantidade e qualidade) time de atores coadjuvantes conseguem manter o nível sem deixar a peteca cair. Este é um drama policial com um roteiro inteligente, onde a ação não é em si um contraponto para as reflexões que a história pode fomentar. O longa ainda vale como um perspicaz retrato de época e como uma contundente interrogação sobre a legitimidade e princípios de uma das mais poderosas instituições americanas. Vale a pena conferir, e eu recomendo!


Assistam ao trailer de Inimigos Públicos no You Tube, clique AQUI !


Confiram também, aqui no Sublime Irrealidade, a resenha crítica de Colateral,
 também dirigido por Michael Mann. (clique no link) !

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domingo, 29 de maio de 2011

Sherlock Jr.

Sherlock Jr. - 1924. Dirigido por Buster Keaton & Roscoe “Fatty” Arbuckle. Roteiro de Clyde Bruckman & Jean C. Havez. Direção de Fotografia de Byron Houck & Elgin Lessley. Música de Myles Bolsen, Sheldon Brown, Beth Custer, Steve Kirk & Nik Phelps. Produzido por Joseph M. Schenck & Buster Keaton. Metro Pictures / EUA.

 

Acho que já falei bastante de Buster Keaton na resenha que fiz de A General (1927 – clique no link para conferir). Resumindo o cara era um gênio e se tornou um ícone e um dos percursores do humor cinematográfico, sendo referência direta ou indireta para tudo o que o gênero viria a produzir. Quando assisti A General um dos aspectos que mais me chamou a atenção foi o fato de o filme não parecer tão datado, apesar de ter sido filmado há mais de 80 anos. Sherlock Jr. (1924) me surpreendeu e me conquistou pelos mesmos dotes que o primeiro. Lá estão as gags impressionantes, o humor físico que se constrói através dos desastres sofridos pelo personagem principal e toda a áurea lúdica do cinema que ainda engatinhava como expressão artística.

 

Sherlock Jr. conta a história de um pobre projecionista de cinema que sonha em ser detetive. Logo após os créditos iniciais e antes de começar a desenrolar a trama, o filme já nos adverte “Há um antigo provérbio que diz: 'Não tente fazer duas coisas ao mesmo tempo e esperar equidade de ambas'”. O personagem principal, ao que parece não respeitou este ensinamento, mesmo durante o horário de trabalho ele perde tempo imerso em livros/manuais que ensinam técnicas de investigação e de dedução. O rapaz está apaixonado por uma moça rica e ambiciosa, um dia após ir a casa dela para cortejá-la ele acaba sendo vitima de uma armação, sendo acusado de roubar um relógio de pulso do pai dela. Ele é expulso de lá e ao voltar para o trabalho no cinema acaba adormecendo na cabine de projeção e sonha que entrou no mundo cinema, onde passa a ser o detetive Sherlock Jr.

 

A sequência em que ele entra na tela (algumas décadas antes de A Rosa Púrpura do Cairo de Woody Allen) é uma das mais clássicas e emblemáticas. Ele demora para se adaptar e ser aceito na nova realidade, após sua entrada no filme, o cenário começa a mudar rapidamente, o deixando-o em situações e lugares bem adversos. Após vencer esta incompatibilidade, ele descobre que nesta outra realidade há um novo caso a ser desvendado. Ele precisa descobrir quem é o verdadeiro ladrão de um colar de pérolas. É ai que a verdadeira diversão do filme começa, são hilárias as sequências em que os bandidos tentam se livrar do detetive e aquela na qual este se mete numa persiguição maluca para pegar o culpado e salvar uma moça que é levada como refém. As cenas que Buster protagoniza são espetaculares e um verdadeiro feito, se levada em conta a limitação das tecnologias da época, ele, que não usava dublês em seus filmes, chegou a fraturar um osso do pescoço durante a gravação de uma das cenas.

 

Sherlock Jr. é um daqueles clássicos que transcendem a história que contam, a época em que foram produzidos e as ideologias de seus realizadores. O filme, que tem pouco mais de 40 minutos, já foi estudado à luz da sociologia, pela dicotomia entre as classes representadas no filme, e da psicologia, pela manisfestarão do duplo de Buster, que personifica no mundo do cinema, aquilo que seu personagem não consegue ser ou fazer em sua realidade. Teorização à parte, o que vale mesmo é o ótimo entretenimento que o filme proporciona. Esta é uma ótima comédia, divertidíssima e atemporal, uma boa pedida para os dias frios do inverno que já nos bate à porta. Recomendo!


Assistam Sherlock Jr. completo no You Tube, clique AQUI !
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Confiram também, aqui no Sublime Irrealidade, a resenha crítica de 
A General, outro clássico co-dirigido e estrelado por Buster Keaton 
(clique no link) !

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Além da Vida

Além da Vida (Hereafter) - 2010. Dirigido por Clint Eastwood. Roteiro de Peter Morgan . Direção de Fotografia de Tom Stern. Música de Clint Eastwood. Produzido por Clint Eastwood; Kathleen Kennedy & Robert Lorenz. Warner Bros. Pictures / EUA.


Além da Vida (2010) começa com um plano aberto que mostra uma bela vista de uma praia na Tailândia (não há nenhuma indicação de data ou lugar), após um corte somos levados para um tipico quarto de hotel. No aposento, uma mulher, que já estava acordada, levanta da cama, acorda o homem e o lembra que ele tem de comprar presentes para seus filhos antes de partirem. Ele pede para dormir mais um pouco, ela então decide ir ela mesma comprar os presentes. Outro corte e agora ela já está em frente a uma barraca, num mercado local a céu aberto, neste mesmo momento, ele, que ainda não tinha levantado, escuta um forte barulho de água e ao chegar da janela do quarto, que dá vista para o mar, vê uma grande onda que avança contra o litoral arrastando consigo banhistas e barracas e destruindo tudo que está em seu caminho. Mais um corte e estamos novamente no mercado, a mulher estava perguntando sobre alguns produtos do stand quando também ouve o forte barulho e logo em seguida enxerga a onda que vem em sua direção. As pessoas no mercado não têm nem tempo de ter alguma reação, num piscar de olhos a água já inundou e arrasou todo aquele espaço.


Esta sequência inicial, que dura pouco mais de cinco minutos, é a que mais marca em todo o filme e não é para menos, os efeitos, que reconstroem o tsunami que atingiu aquele país em 2004, colocam no chinelo a grande maioria dos filmes de catástrofes naturais. O efeito que esta sequência nos provoca, eu creio que deva ao fato de que as imagens daquele fenômeno devastador ainda estejam bem vivas em nossa memória. Ver toda aquela destruição nos tira o folego, mas quem espera que o filme mantenha este ritmo até o final terminará a sessão totalmente decepcionado. O brilhantismo dos efeitos especiais param por ai, mas dão lugar a uma fotografia quase impecável, que consegue beirar a perfeição tanto nas cenas mais intimistas quanto nos planos abertos, que reproduzem lindas paisagens.


Comecei a assistir ao filme com um pé atrás, não acreditava que iria muito além da sequência inicial, que já despertava minha curiosidade desde as primeiras críticas que li do longa. Pelo nome do filme percebe-se o cunho de seu roteiro, que tende para o espiritismo e para a crença na comunicação com os mortos. Definitivamente filmes com esta temática, tão em voga ultimamente no Brasil, despertam em quase nada meu interesse. Não compartilho das mesmas crenças desta corrente religiosa e o meu maior receio ao assistir Além da Vida era de que o filme fosse dogmático, o que felizmente ele não é. A maior prova de que o filme não foi produzido para tentar converter ninguém é que este mostra a crença “espírita” por diversos ângulos, sem tomar um destes como verdade absoluta, tocando até mesmo na questão polêmica do charlatanismo.


A trama gira em torno de três personagens: Marie Lelay (Cécile de France - a mulher da primeira sequência), uma jornalista francesa que teve uma experiência de “quase morte” durante o tsunami; George Lonegam (Matt Damon), um médium de São Francisco que está atormentado pela “maldição” que carrega consigo, a de ser o canal de comunicação com o além, ele não quer mais fazer “leituras” e descarta a possibilidade de ganhar dinheiro atendendo pessoas; e Marcus (George McLarem), um menino londrino, que perdeu o irmão gêmeo, Jason (Frankie McLarem) em um acidente e em seguida foi afastado da mãe, por esta ser dependente química, ele não consegue lidar com a solidão, nem superar a perda do irmão. Como dá para perceber o fio que entrelaça as histórias dos três personagens é a morte e o medo e a dor que esta lhes causa.



O roteiro chega a ser um tanto clichê em alguns momentos e algumas situações são um tanto absurdas, mas no fim das contas o filme acaba valendo a pena. As atuações são boas e conseguem tornar cada um dos personagens convincentes em seus dramas pessoais, não dá para duvidar por exemplo da dor que Marcus sente ou da negação de Lonegam ao seu dom. Apesar de ser uma história sobre a relação dos vivos com o além, o que fica mais evidente é na verdade as relações dos vivos com os vivos (sic), independente da conotação religiosa que ganham na trama, seus temores e dores são comuns e mais que isso são universais, afinal de contas, a morte continua a nos intrigar, independente de qual credo cada um professe ou deixe de professar. A conclusão mais certa a que cheguei ao final do filme é a de que o que realmente valeu no fim das contas foi o peso de uma direção habilidosa e precisa. O realizador foi ninguém menos que Clint Eastwoody, este imprimiu seu estilo de direção em cada sequência do longa, amenizando os riscos que este corria de se bandiar para o gênero religioso piegas.

Ao assistir Além da Vida preste atenção também na trilha sonora e em uma das sequências que acontecem em um curso de culinária. Não é um filme maravilhoso mas eu recomendo!

Assistam ao trailer de Além da Vida no You Tube, clique AQUI !

Confiram também, aqui no Sublime Irrealidade, a resenha crítica de
Os Imperdoáveis , um dos clássicos dirigidos por Clint Eastwood
(clique no link) !

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domingo, 22 de maio de 2011

Vencedores do Festival de Cinema de Cannes 2011


A 64° edição do Festival de Cannes transcorreu entre os dias 11 e 22 de Maio sem grandes surpresas. Almodóvar e Woody Allen foram aplaudidos pelos seus novos trabalhos. Os filmes The Source, de Radu Mihaileanu e Le Havre, de Aki Kaurismaki, receberam elogios e confirmaram a tedência política da mostra. Terence Malick dividiu opiniões com A Árvore da Vida, mas confrmou o favoritismo e, como de praxe, Lars Von Trier gerou polêmica e acabou expulso do festival.


A premiação intensificou ainda mais minha ansiedade, mal posso esperar para conferir A Árvore da Vida, A Pele em que Habito, Melancolia e os outros. Mas agora é aguardar até que alguns dos filmes exibidos cheguem ao Brasil, e só então conferir se a premiação foi justa ou não. Enquanto isso não acontece, vamos à lista dos vencedores:


Prêmio Palma de Ouro: A Árvore da Vida, de Terrence Malick

Melhor Atriz: Kirsten Dunst, por Melancolia

Melhor Ator: Jean Dujardin, por The Artist

Melhor Diretor: Nicolas Winding Refn, por Drive

Melhor Roteiro: Footnote, de Hearat Shulayim

Grande prêmio: Garoto de bicicleta e Once Upon a Time in Anatolia, de Nuri Bilge Ceylan .

Melhor Curta-metragem: Cross Country, de Marina Vroda

Prêmio Câmera de Ouro (para o diretor estreante em Cannes): Las Acacias, de Pablo Giorgelli

Prêmio de júri: Polisse, de Maiwenn Le Besc

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Lady Vingança

Lady Vingança (Chinjeolhan geumjassi) - 2005. Dirigido por Park Chan-wook. Roteiro de Chan-wook Park & Seo-Gyeong Jeong. Direção de Fotografia de Chung-hoon Chung. Música de Seung-hyun Choi. Produzido por Cho Young-wuk; Lee Chun-yeong e Lee Tae-hun. CJ Capital Investment – Platina Filmes / Coréia do Sul.

 

Vingança não é meu tema favorito, mas o fato é que o assunto já rendeu ótimas histórias e ótimos filmes, tanto que ao produzir uma nova trama focada no assunto os clichês se tornam quase inevitáveis. Comumente o que vemos em filmes do gênero, com raras exceções, são apenas variações daquela que talvez seja a mais clássica dentre as histórias de vingança, a de O Conde de Monte Cristo, obra literária escrita por Alexandre Dumas no século XIX. Escapar dos moldes e estrutura de narração do romance de Dumas é por si só um feito para quem se aventure em escrever qualquer coisa que seja sobre o tema. Park Chan-wook, cineasta sul-coreano, decidiu correr o risco ao filmar não um filme, mas uma trilogia sobre a vingança. 

A primeira produção foi Mr. Vingança (2002que ainda não assisti), este foi seguido por Oldboy (2003 – imediatamente transformado em clássico cult) e Lady Vingança (2005). A primeira vez que assisti Oldboy sofri um verdadeiro choque, eu, que esperava um filme fraco de artes marcais, me deparei com uma trama forte e ousada e uma beleza estética incrível, mas a verdadeira surpresa foi a reviravolta que o filme dá perto do final, que justifica a posição de alguns críticos que classificaram o filme como “moralmente agressivo”.

 

Park Chan-wook conseguiu com genialidade explorar a violência brutal e transformá-la em beleza e a mais cruel vingança na mais angelical poesia. A forma com que a ultra-violência é trabalhada nos filmes, sem poupar os espectadores, remete à estética e à polêmica de filmes como Laranja Mecânica (1971) de Kubrick e Cães de Aluguel (1992) e Pulp Fiction (1994) de Tarantinio. Apesar do tema e da abordagem não serem novos no cinema, o realizador produziu filmes únicos, detentores de um poder que raramente se vê no cinema contemporâneo, no qual a violência já está mais do que banalizada. 

Oldboy foi para mim, alguns anos atrás, a primeira amostra do cinema sul-coreano e um trampolim para um mergulho na produção daquele país, o que na verdade não foi um fato isolado, qualquer com um minimo de conhecimento sobre a sétima arte ao menos já ouviu falar deste segundo filme da trilogia. Já conhecendo o estilo de Chan-wook, eu já sabia o que esperar de Lady Vingança... Porém mais uma vez eu fui surpreendido, este, que é o terceiro filme dentre os três, não é tão bom quanto o segundo, mas é um ótimo filme.

 

Antes de qualquer coisa, é preciso deixar claro que Lady Vingança não é um filme indicado para qualquer um, afinal poucos estão preparados para digerir e encarar produções tão contundentes. O roteiro não linear ainda dificulta o entendimento da trama que, apesar de não ser tão complexa, exige uma dose extra de atenção, principalmente no início. Os mais puritanos com certeza não irão gostar do desfecho da história, que tende para o estilo “no love, no glory”. A sensação ao final do filme não é tão incômoda se comparada àquela provocada pelo desfecho de Oldboy, ela chega a perturbar apenas pelo ideia de que deveria ser, devido ao peso dos acontecimentos, mais incômoda do que na realidade foi. 

Ainda não consegui compreender se existe um propósito maior por trás dos filmes, mas arrisco a pensar que se existe um, este seria o de nos levar a uma reflexão acerca de nossos próprios atos e de nossa natureza, mostrando a forma com que tentamos justificar nossos erros: buscando uma redenção que não conseguimos conceder aos outros.

 

Lady Vingança conta a história de Lee Geum-ja (Lee Young-ae), uma mulher que confessa um crime brutal que não cometeu, por se sentir ameaçada pelo verdadeiro culpado. O crime foi o assassinato de uma criança de 5 anos e o responsável foi o companheiro de Lee. Ela é condenada a 13 anos de prisão e passa todo este tempo arquitetando uma vingança. Na cadeia ela conquista a admiração e a confiança das outras detentas, que a ajudam a colocar seu plano em prática. No decorrer do filme, através de flashbacks, vamos compreendendo os pequenos detalhes da trama, que no final fazem toda a diferença, como o que realmente levou a moça de apenas 19 anos a assumir a culpa e o castigo pelo crime, do qual era inocente. 

Podemos perceber claramente a evolução, pela qual Lee passa à medida em que vive os acontecimentos mostrados no filme, esta evolução também será determinante na hora dela tomar a decisão final sobre a condução de tudo que havia planejado. No fim das contas percebemos que o tipo de redenção que ela busca realmente só pode ser alcançado através da vingança e que esta, neste contexto, pode ganhar uma áurea quase angelical de justiça e espiação.

 

Lady Vingança possui ainda uma fotografia maravilhosa, que abusa tanto de cores fortes quanto de cenários sombrios, se valendo também de enquadramentos não convencionais, que transformam cada fotograma em uma individual obra de arte. A edição, que conta muito para que o filme funcione tal como deve, é surpreendente e consegue nos inserir na loucura e desconexão dos fatos atordoantes do filme. Se fosse linear, com certeza a história não conseguiria os mesmos efeitos, necessários para criar o suspense psicológico que se desenvolve durante o andamento da história. 

As atuação também merecem destaque, o que se percebe é que cada um dos atores realmente mergulharam em seus respectivos personagens, conseguindo desta forma manter o alto nível da produção, mesmo nas cenas mais difíceis... Ao assistir preste atenção na sequência em que Lee tenta provar sua culpa na reconstituição do filme, creio que nestas cenas tenha um pouco da ideia que Chan-wook talvez queira passar com filme: a de que a violência pode transcender à sua condição de fato-social e se transformar em uma necessidade quase compulsiva de uma sociedade que a cultua como forma de espiação. Recomendo apenas para os cinéfilos mais ousados!


Assistam ao trailer de Lady Vingança no You Tube, clique AQUI !
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quinta-feira, 19 de maio de 2011

Rio

Rio - 2011. Dirigido por Carlos Saldanha. Roteiro de Don Rhymer. Direção de Fotografia de Renato Falcão. Música de John Powell. Produzido por Bruce Anderson & John C. Donkin. Blue Sky Studios – Twentieth Century Fox Animation / EUA.

 

O jornalista e escritor Paulo Roberto Pires fez uma bela análise do filme Rio (2011), comparando-o com Alô, Amigos (1942) e Você Já Foi à Bahia? (1945), os dois filmes da Disney que tiveram Zé Carioca como personagem principal. No artigo “Do Papagaio à Arara”, publicado na edição de número 165 da revista Bravo, ele observa os aspectos dos filmes que exemplificam a ideia que Hollywood produziu do Brasil em cada uma das ocasiões. Ele chega à conclusão de que resguardadas algumas diferenças, ambos os filmes acabam se sustentando sobre os mesmos estereótipos, pelos quais o país se tornou tão conhecido no exterior. O fato de que Rio foi dirigido por um brasileiro, Carlos Saldanha (realizador de A Era do Gelo 1 e 2), com certeza foi determinante para que a animação se tornasse uma verdadeira homenagem à “cidade maravilhosa”, mas isso não a impediu de cair no lugar comum de retratar mais uma vez o Brasil como o país do carnaval, do futebol, do samba e da malandragem.

Tal como nos filmes do Zé Carioca, o fetichismo de Rio se baseia na ideia do Brasil exótico e “selvagem”, o que no presente caso não é de todo um fato negativo. Vale lembrar que antes de qualquer outra coisa, este é um filme infantil e como sabemos o gênero esteve e sempre estará sujeito aos clichês e à estereotipação. Porém é na sua real proposta, a de proporcionar um bom entretenimento, que o filme sai ganhando. A história é bem simples, mas ainda assim a trama é gostosa de se assistir. Em momento nenhum a beleza da parte técnica do filme ofusca o foco do roteiro, que está nas aventuras vividas pelos personagens. O filme consegue arrancar boas risadas e consegue empolgar, mesmo com um final tão previsível. Não tive a oportunidade de assistir Rio em 3D, mas creio que a deliciosa experiência que o filme pode nos proporcionar deve ser ampliada em grandes proporções neste formato.


 

Na história Blue, uma ararinha azul, é tirado de seu habitat natural por traficantes de animais antes mesmo de aprender a voar e é levado para os Estados Unidos. Depois de conseguir escapar acidentalmente dos bandidos Blue é encontrado por Linda, uma moça simpática que lhe dá todo o cuidado e carinho e o cria como se fosse um membro da família. A peripécia na vida dos dois acontece quando eles descobrem que Blue é o último macho da espécie. Um ornitólogo (especialista em aves) brasileiro, chamado Túlio, convence Linda a trazer Blue de volta para o Brasil para ele acasalar com Jade, a última fêmea de sua linhagem, que vive em um zoológico no Rio de Janeiro. Porém ao chegar no Brasil, Blue é é mais uma vez sequestrado por traficantes, desta vez junto com Jade. Eles conseguem fugir, mas para se manter a salvo Blue terá que conquistar a confiança da nova companheira e ainda aprender a voar, o que parece ser o mais difícil.

 

Um aspecto que distancia Rio dos dois filmes de Zé Carioca é a influência que as atuais animações têm sofrido do ideal do “politicamente correto”. Nos filmes da Disney, lançados há quase 60 anos, os personagens principais são os pivôs da malandragem e verdadeiros maus exemplos de comportamento. Em Alô Amigos, Zé Carioca fuma charuto o tempo todo e numas das cenas Donald toma um baita porre de cachaça em um boteco. Em Rio a consciência social e ambiental guia todo o desenrolar da trama, os bandidos são traficantes de animais (que mais parecem traficantes de drogas) e a cidade chega a parecer um reserva natural que precisa ser protegida. Mesmo de forma velada o roteiro toca em temas contundentes como a favelização, a marginalidade e o trabalho infantil, mas o que pode parecer profundidade é na verdade apenas clichês, e o filme realmente não consegue escapar deles.

 

Não preste muita atenção nos clichês, para assim aproveitar ao máximo o ótimo entretenimento que o filme pode proporcionar, deixe um pouquinho de lado o censo crítico e tente ver a animação com o olhar de uma criança deslumbrada, não pense no quão surreal pode ser um bando de macacos roubando turistas no centro da cidade, ou um jogo da seleção contra a argentina em pleno carnaval, preste atenção apenas nas belas imagens, na trilha sonora que tem alguns bons momentos e nas situações cômicas que o filme explora muito bem. Mesmo sem intenção, ele ainda consegue nos lembrar que também costumamos cultivar ideias errôneas sobre a cultura de outros países e até mesmo de outras regiões do Brasil. Se o filme peca não é por maldade e no fundo ele acaba sendo mesmo uma boa homenagem à "cidade maravilhosa". Rio não é um filme estupendo e não chega nem perto das melhores animações que Hollywood produziu nos últimos anos, mas vale a pena o ingresso.Vá voando para o cinema e assista!


Assistam ao trailer de Rio no You Tube, clique AQUI !
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terça-feira, 10 de maio de 2011

Mildred Pierce - minissérie

Mildred Pierce - 2011. Dirigida por Todd Haynes. Roteiro de Todd Haynes, Jon Raymond & Jonathan Raymond, baseado em uma novela de James M. Cain. Direção de Fotografia de Edward Lachman. Música de Carter Burwell. Produzido por Jessica Levin. HBO / EUA.

 

Precisamente no dia 24 de outubro de 1929, na data que ficaria conhecida como “quinta-feira negra”, a bolsa de valores de Nova Iorque teve aquela que seria a mais drástica queda da história, empresas faliram e muito acionistas perderam suas fortunas literalmente da noite para o dia. Mas este que pode parecer um fato isolado na verdade não o foi, a recessão da economia já tinha começado algum tempo antes. O crack da bolsa foi apenas o estopim e a confirmação de que tempos difíceis tinham chegado. No período que se seguiu, que duraria até o final da década de 30, muita empresas fecharam as portas, o desemprego chegou a níveis inimagináveis e a inflação ficou totalmente descontrolada. Muitos pais de família se sucumbiram diante do desespero, a depressão exibia seus reflexos não só na economia, a taxa de suicídio cresceria de forma tão assustadora quanto o índice de desemprego.

É neste contexto conturbado de instabilidade política e econômica que a minissérie Mildred Pierce (2011), exibida pela HBO, se passa. A produção é a segunda adaptação do livro homônimo de James M. Cain, publicado em 1941, a primeira foi com o filme Alma em Suplício (1945), que renderia o Oscar de Melhor Atriz para Joan Crawford, que interpretou o papel principal. Cada uma das adaptações sofreu a inevitável influência do período em que foram realizadas. No filme a personagem Mildred ganha ares de Femme Fatale, o que transforma o longa em um quase Noir, gênero em voga na época. A série ganhou outros rumos, se aproximando mais do texto original, ao invés de explorar o mistério de um assassinato, a produção de 5 capítulos prefere dar ênfase aos relacionamentos (assistam antes de afirmar que eu só presto atenção neste aspecto) e aos problemas familiares vividos pela personagem principal.


 

Mildred Pierce (Kate Winslet) é uma mulher, que em plena crise da depressão descobre uma infidelidade do marido e o expulsa de casa. Hoje em dia, em tempos de crise da família como instituição, tal fato pode parecer banal, mas naquela época definitivamente não era, Mildred precisaria enfrentar o preconceito com que a sociedade olhava para um mulher separada e fazer o impossível para manter a casa e criar as duas filhas que ainda estavam pequenas. Na ocasião mulher e mercado de trabalho eram coisas completamente antagônicas, mulher direita não trabalhava, no entanto Mildred não vê outra saída a não ser deixar seu exacerbado orgulho de lado e aceitar um sub-emprego como garçonete. Dentro de pouco tempo ela, com uma perspicaz visão empreendedora, consegue abrir o próprio negócio, contando para isso com a ajuda de amigos e até do ex-marido. Seu restaurante especializado em frango consegue a proeza de prosperar mesmo em situações tão adversas. Até este ponto a história pode parecer mais uma daquelas que quase ingênuamente tentam reforçar o ideal do sonho americano que diz que tudo é possível (tem muita gente acreditando nisso ainda hoje), porém o grande mérito da minissérie é não se deixar cair neste lugar comum.

 

O roteiro ainda escapa de outro clichê, o de transformar Mildred em um ícone do feminismo; não se pode dizer que ela permaneça submissa aos homens mesmo depois da separação, mas seu sucesso no mundo dos negócios se deve em boa parte à “ajuda” de homens que estão à sua volta. Por outro lado a submissão se torna perceptível é no relacionamento de Mildred com a filha mais velha, Veda (Evan Rachel Wood - na fase adulta), que de fato é a maior tônica da trama. Em algumas passagens cheguei a sentir muita raiva de Veda, mas cada uma de suas atitudes e reações são compreensíveis, tendo em vista o contexto da época e a situação que a família vivia. A minissérie ganha crédito também ao não transformar os personagens simplesmente em mocinhos ou vilões, cada um deles, até mesmo Mildred, estarão sujeitos no decorrer da trama à deslizes morais e éticos, que provocarão diversas reviravoltas na história e mostrarão o lado humano de cada um deles.

 

Kate Winslet, Evan Rachel Wood, Melissa Leo (amiga de Mildred na série), Guy Pierce (que interpreta o segundo marido de Mildred) e todo o elenco secundário estão fantásticos em seus respectivos papéis. Porém Kate é quem dá o show, ela já tinha provado em Foi Apenas um Sonho (2008, filme em que repetiu a dobradinha com Leonardo Di Caprio) o seu talento para papéis dramáticos e complexos, este foi apenas a confirmação de que ela é uma das melhores atrizes da atualidade, sua atuação é na minha opinião a melhor coisa da minissérie e olha que cada um dos outros aspectos em momento nenhum deixam a desejar. A fotografia é excelente, conseguindo dar um ar melancólico à ensolarada Califórnia, e os cenários, figurinos e direção de arte também são impecáveis. Mildred Pierce chega a parecer um drama familiar, ao acompanhar alguns anos da vida da personagem, nós como expectadores testemunhamos cada um dos problemas que ela vive, que vão se desenvolvendo até serem substituídos por outros e estes por outros, a história é marcada por pequenos dramas, por uma tragédia e por vitórias que se enlaçam às demais situações formando um belo simulacro, que mais perece um perfeito retrato da vida real.

 

Em alguns momentos o ritmo da trama pode parecer lento e introspectivo, isto porque o olhar está mais voltado para dentro dos personagens que para a ambientação à suas voltas. A falta de velocidade pode desagradar os mais “hollywoodianos”, mas quem se dispor a assistir a minissérie buscando outros atrativos que não a rapidez do espetáculo, irá sem sombra de dúvidas se deliciar. Mildred Pierce foi um presente para quem não tem mais nenhum atrativo pelos sitcons e melodramas sem originalidade produzidos pela TV aberta (vide nova leva de séries da Globo). É bem possível que o material seja lançado em breve em DVD e/ou Blue Ray, fiquem atentos pois o investimento valerá a pena! Recomendo!

Assistam o trailer da minissérie Mildred Pierce no You Tube, clique AQUI !

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domingo, 8 de maio de 2011

Bananas

Bananas - 1971. Dirigido por Woody Allen. Roteiro de Woody Allen & Mickey Rose. Direção de Fotografia de Andrew M. Costikyan. Música de Marvin Hamlisch. Produzido por Jack Grossberg. MGM - United Artists / EUA.

 

Na crítica de cinema ainda é muito comum o mito sobre a “roupa invisível do rei”, aquela que só os mais inteligentes podem ver. Explico, em muitas situações a assinatura de um profissional cultuado pode transformar um filme fraco em um clássico imediato. Na verdade tal situação se torna uma faca de dois gumes, por exemplo, convencionou se dizer que Godard faz filmes intelectuais de de difícil compreensão, ao lançar um novo filme o cineasta pode colher diversos tipos de reações; dentre elas, a daqueles que dizem que o filme é ótimo apenas por ser de Godard e fingem um entendimento que não tiveram e a daqueles que realmente compreenderam a mensagem da obra e que correm o risco de serem taxados de pseudos intelectuais pelos outros que não entenderam nada. Quanto mais cultuado o cineasta, mais fácil se perder neste tipo de crítica. Acho uma canalhice resenhar positivamente um filme apenas para parecer cult e inteligente, eu não tenho vergonha de dizer que já boiei em muitos filmes ditos "de arte", dentre eles está 2001 – Uma Odisséia no Espaço (1968), cujo roteiro ainda me causa algumas dúvidas até hoje.

Sou um fã confesso de Woody Allen e me identifico muito com boa parte de suas produções, a admiração que tenho por ele foi o que me levou a comprar um box, com 20 dos filmes mais importantes de sua carreira. Alguns destes eu ainda não tinha visto, mas ao invés de começar por aqueles que me despertam mais curiosidade, decidi começar pelo começo. Como de fato seria o mais racional, resolvi assistir aos filmes pela ordem cronológica de lançamento. Antes de iniciar a longa empreitada eu já tinha a noção do risco que eu assumia, de em algum momento acabar caindo na cilada da “roupa invisível”. Se tem uma certeza a que cheguei, depois de 4 anos esquentando cadeira de uma faculdade de jornalismo, é que imparcialidade e distanciamento não existe na prática, mesmo sabendo que a ideia que eu já tinha do cineasta poderia influenciar decisivamente na forma com que assistiria os filmes, decidi tentar manter o olhar crítico sobre cada um dos aspectos dos filmes que viria a assistir, deixando um pouco de lado a idolatria ao realizador.


 

O primeiro da lista era Bananas (1971), o segundo longa dirigido por Woody Allen. O filme faz parte da fase mais cômica do diretor, que é marcada por gags e piadas inteligentes, que normalmente não podem ser bem digeridas pelo público médio. Anos depois o diretor contaria em entrevista, publicada no livro Conversas com Woody Allen, que o filme fora salvo na montagem, ele ainda reconheceu que na época tinha ainda pouca intimidade com a linguagem cinematográfica. Já de início percebemos que o forte do filme são os diálogos e as tiradas do personagem principal, interpretado pelo próprio Woody. De fato não dá para considerar o filme um clássico, ele funciona mais como uma espécie de ensaio para as produções que viriam em seguida (o conto da roupa invisível não colaria comigo). O filme já trás consigo algumas das características que acompanhariam a obra do diretor, como as reverências e referências ao próprio cinema e à alta cultura e ainda inauguraria o tipo clássico que Woody viveria em seus filmes, o homem desajustado socialmente, paranóico, inseguro e sem nenhum jeito com as mulheres.

 

Bananas conta a história de Fielding Mellish (Woody Allen), um testador de produtos, que se apaixona por uma jovem e também desajustada ativista. Depois de levar um fora dela, ele decide fazer uma viagem para o lugar do qual ela tanto falava e fazia planos de “visitar”, um país em algum lugar da América Latina que se chama San Marcos. A pequena república sofrera recentemente um golpe de estado, que tinha deixado o poder nas mãos de um cruel ditador de extrema direita, a quem os Estados Unidos apoiava. Chegando ao país Mellish é recebido pelo presidente, que em seguida tenta o executar, na sequencia ele se junta aos rebeldes que tentam depor o presidente e tomar o governo. O filme faz assim uma bela sátira às ditaduras, tanto de direita, quanto de esquerda, que se proliferavam na América Latina no período. Numa das melhores tiradas do filme, um soldado que está sendo enviado em grupo para o país pela CIA, pergunta por qual lado eles hão de lutar, outro responde que a CIA, para não correr risco, enviou soldados para lutarem pelos dois lados.

 

Outro aspecto legal do filme são as homenagens que Woody Allen faz a seus ídolos, os cinéfilos mais atentos perceberão no filme referências a outros clássicos do cinema como: Morangos Silvestres (1957) de Ingmar Bergman, Encouraçado Potenkim (1925) de Serguei Eisenstein e Tempos Modernos (1936) de Charles Charplin. Outra curiosidade são as pequenas participações de Sylvester Stallone, ainda no início de sua carreira e de Danny DeVito, o primeiro como um arruaceiro no metrô e o outro como um dos espectadores da noite de núpcias (!) de Mellish. O filme chegou a ser censurado durante o regime militar no Brasil e quando foi liberado ainda teve um pequena cena, que se passa em um tribunal cortada. Este também foi um dos filmes filmes em que Woody contou com colaboração para escrever o roteiro.

 

De fato este não é nem de longe um dos melhores filmes de Woody, mas ele vale pela audácia e experimentalismo de seu roteiro e ainda por testemunhar como é que se nasce um gênio. A fase predominantemente cômica de Woody não demoraria tanto a passar, seu estilo seria amadurecido e não seria a comédia pastelão, mas a de costumes, a marca de seus filmes. Desde então Woody Allen não parou, produzindo uma média de um filme por ano. Sua carreira teria altos e baixos, mas a importância de sua filmografia para a história do cinema contemporâneo é inegável. À medida que for assistindo aos outros filmes do box, as respectivas resenhas serão postadas aqui, não pretendo assistir a todos em uma sequência ininterrupta, até porque creio que seria cansativo tanto para mim, quanto para os poucos leitores deste Blog. Mas pode-se esperar por bastante de Woody Allen no Sublime Irrealidade nos próximos meses!

Assista ao trailer de Bananas no You Tube, clique AQUI !

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a resenha crítica de Crimes e Pecados de Woody Allen, clique AQUI !

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sábado, 7 de maio de 2011

Mau Dia Para Pescar

Mau Dia Para Pescar (Mal Día Para Pescar) - 2009. Dirigido por Alvaro Brechner. Roteiro de Alvaro Brechner & Gary Piquer baseado em um conto de Juan Carlos Onetti. Direção de Fotografia de Álvaro Gutiérrez. Música de Mikel Salas. Produzido por Adolfo Blanco. Baobab Films / Espanha - Uruguai.

 

São filmes como Mau Dia Para Pescar (2009) que me incentivam a continuar direcionando meu olhar para além do espetáculo de Hollywood, esta co-produção entre Uruguai e Espanha, dirigida por Alvaro Brechner, pode parecer à princípio, pela sua sinopse, um tanto estranha e bizarra demais, porém ao assisti-lo percebe-se que seu maior trunfo não é a estranheza e sim o poética retirada justamente do realismo da trama. Mau Dia Para Pescar é um recorte metafórico, tanto belo quanto forte, sobre a natureza humana. O filme nos coloca em contato com pessoas diferentes, mas que de igual forma querem apenas lucrar com a ingenuidade e a boa vontade alheia. Neste sentido o ponto de vista da história pode parecer pessimista, mas é apenas real. Em um emocionante desfecho, um pingo de esperança sobre a superação de tal condição é lançado, mas ele será fruto da culpa e não da benevolência.

Na trama, Orsini (Gary Piquer), que se auto proclama príncipe, é um trapaceiro nato, com sua boa lábia ele se aproveita da ingenuidade alheia para aplicar seus golpes. Ele usa Jacob Van Oppen (Jouko Ahola), um lutador de vale tudo natural da Alemanha Oriental, já velho e mentalmente perturbado, para ganhar dinheiro de pequenas cidades no interior de países da América do Sul. Ao chegar em cada lugarejo ele apresenta o lutador como um campeão mundial e oferece mil dólares para quem o desafiar e conseguir se manter em pé mais que três minutos no ringue. Na verdade, cada luta é previamente combinada, o que explica a invencibilidade do “campeão”. Para que nada de errado aconteça, apenas uma luta é realizada em cada cidade por onde eles passam. Ao chegar na pequena Santa Maria, onde maior parte do filme se passa, o desafio é proposto e Orsini consegue o apoio de um ambicioso jornalista local para a organização e divulgação do evento e de ante-mão encontra e contrata o perdedor ideal para se deixar derrubar por Jacob.

 

Tudo parecia correr conforme o previsto até que o lutador desafiante, que já tinha sido comprado por Orsini, se envolve com a polícia aós uma bebedeira e acaba sendo preso. Para frustrar por completo os planos do trapaceiro, entra em cena a bela Adriana (Antonella Costa), que quer a qualquer custo inscrever o noivo como desafiante, ela cobiça o dinheiro do prêmio pois pretende o usar para realizar seu casamento. Sem outra alternativa, devido às pressões do dono do jornal que o apoiava, Orsini acaba aceitando o desafio do rapaz, que tem apenas 23 anos. Porém o vigor juvenil, aliado ao porte físico e à fama de durão do desafiador coloca o trapaceiro em sérios apuros, ele não tem o dinheiro para pagar o desafio e sabe que Jacob, pelo seu estado de saúde, não aguentaria mais de 1 minuto lutando.

 

Desde as primeiras cenas, percebemos que uma tragedia já está anunciada, o que sustenta o suspense que se arrasta até a sequência final do filme. Alguém irá pagar, e caro, pelo plano que deu errado. Mas enquanto o momento da luta, uma das melhores sequências do filme, não chega, acompanhamos Orsini, que se debate contra o desespero proporcionado por sua situação. Numa sequência memorável, que se passa na noite anterior à luta, ele abre o jogo com Jacob sobre a situação em ambos se meteram, neste momento de temor e fraqueza percebemos a fragilidade de cada um dos personagens, que se aflora para nos lembrar que são apenas humanos e sendo assim dotados de falhas de caráter e iniquidades.

 

O roteiro não se atem a estereótipos e todos os personagens são muito bem construídos, sendo dotados de profundidade psicológica e características singulares e marcantes. Jacob é um belo exemplo disso e tal situação se reflete nos diálogos (muito bem escritos) que ele tem com o “príncipe”. Adriana, mesmo sendo movida por uma causa mais nobre que a de Orsini, demonstra pelas suas atitudes, que tem um caráter semelhante ao dele, o que exemplifica bem a visão pessimista do filme sobre a natureza humana. Os habitantes da cidade, que pareciam tão ingênuos à princípio, reforçam ainda mais tal ponto de vista negativista, eles acabam mostrando para o trapaceiro que ele também pode ser vítima da mesma fraqueza que explora nos outros: confiar demais...

 

O roteiro de Mau Dia Para Pescar é ótimo e a forma com que a história começa a ser construída com constantes flashbacks, que nos inserem no contexto que os personagens centrais estão envolvidos, é altamente eficaz. Apesar de ser uma trama de pouca ação, onde predominam os diálogos, o filme não é arrastado, nem se torna chato em momento nenhum. Seu ritmo nos aproxima das tramas individuais de cada um dos personagens, o que acaba despertando nossa compaixão por eles, mesmo sendo eles tão ambíguos e condenáveis, compreendemos no final que eles são humanos e que a trama é mais real do que o absurdo da sinopse pôde nos sugerir. Ao assistir, preste atenção na beleza da fotografia, da direção de arte e da trilha sonora, realmente é uma pena que produções do tipo permaneçam restritas a um circuito ainda tão fechado. Indicado para quem ainda é capaz de ser sensibilizado por uma grande obra de arte! Corra atrás!


Assista ao trailer de Mau Dia Para Pescar no You Tube, clique AQUI !
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terça-feira, 3 de maio de 2011

Sexta-Feira 13 - Aumenta que Isso aí é Rock´n´Roll


Ainda tenho o orgulho de dizer, que vivi aquela, que deve ter sido até então a melhor fase do circuito musical underground em Ubá. O período entre o inicio da década de 2000, até 2005/2006 foi o mais produtivo para a cena, creio eu. Durante um bom tempo, shows aconteciam com grande frequência e as bandas pipocavam pelos pelas garagens da cidade. A boa fase não durou muito, as casas que nos abriam as postas, fecharam e o município se tornou muito mais rigoroso quanto à presença de menores (que representam boa parcela do público) em eventos abertos ao público, a maioria das bandas se desfizeram e as poucas que sobraram só tocam esporadicamente. Por vários motivos, a maioria deles involuntários, acabei me distanciando um pouco da cena nos últimos anos, durante este tempo acompanhei as coisas meio de longe, sem me envolver tanto quanto antes. Atualmente a cena ainda me parece estranha, existe uma galera nova que parece mudar a cada contato que eu tenho com o meio.

A show do Sexta-Feira 13, no último domingo, foi uma boa forma de sair de minha reclusão e reencontrar velhos amigos. Sainos de Ubá em um micro-ônibus fretado em direção a Cataguases, a turma de malucos que acompanharam a banda, era formada e sua maior parte pela galera que viveu o mesmo período que eu, talvez seja uma prova de que os novatos não têm mais a mesma consciência de cena, que tínhamos num passado não tão distante, não sei explicar o motivo. O público do show não foi a minha única surpresa, este foi o segundo show que assisti do S13, o primeiro foi no ano passado no 2° Ubá Rock, porém desta vez a banda me surpreendeu ainda mais com a sua proposta e postura.


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O S13 já merece grande mérito apenas pelo fato de ser original, numa cena que já foi povoada por tantas cópias “xerox” de Iron Maiden e Nirvana. O S13 é a volta ao básico, à filosofia sexo, drogas (leia-se biritas) e rock´n´roll e ao som visceral, escrachado e debochado. Este segundo show mostrou que a banda está mais concisa e entrosada e que já tem a segurança de se apoiar nas músicas próprias sem precisar abusar dos covers. Por falar em covers, eles têm sido muito bem escolhidos, as versões têm ficado a cara da banda e ajudado a compor a temática “cafajeste” que esta vem desenvolvendo. Se boas referências, bagagem e tempo de estrada é o que conta, o S13 ganha mais um ponto extra de vantagem, cada um de seus integrantes trazem já consigo influências distintas e um curriculum extenso, preenchido pelas atuações em algumas das bandas mais importantes da cena nos últimos anos.



Voltando ao Show, que aconteceu no La Rock em Cataguases, tenho que reconhecer, o evento tinha tudo para, digamos, não dar certo. Ao contrário do que o nome sugere, o público do estabelecimento não era, ao menos naquele dia, composto por amantes do bom e velho rock´n´roll, para complicar ainda mais as coisas era o dia da final de um campeonato estadual de futebol, o que explicava as cores de camisa predominantes no local. Grande parte do pessoal, que lá estava, não tinha ido para ver o S13 e sim para assistir à bendita partida. Quando o jogo acabou, a torcida perdedora sumiu e os vitoriosos começaram a algazarra do lado de fora. O campeonato em questão era o carioca, o vencedor o Flamengo, dispensável dizer que o que se ouvia em frente ao bar, em alto e péssimo som, era o batidão do funk carioca. Mas bastou o S13 plugar os instrumentos par a verdadeira festa começar. Quem estava do lado de dentro presenciou um ótimo show e boas doses do mais puro e verdadeiro rock´n´roll, o pequeno garoto (de uns 3 anos), que bateu cabeça e pulou o show todo que o diga.


O Sexta-Feira 13 já está trabalhando em seu primeiro CD, que deverá se chamar “Baseado em Fatos Reais”. Se a banda conseguir reproduzir em estúdio a energia que tem emanado de suas apresentações (com destaque para a postura de palco do vocalista), estará nascendo aí um daqueles trabalhos, que podem não levar a banda ao sucesso, mas que ficará marcado como um importante exemplo da retomada do underground ubaense, que começa a dar ares de que irá acontecer... É esperar para ver!

A S13 é composta por: Big Mayck (bateria) , Anselmo (guitarra solo), Thiago Braga (guitarra líder), Markin (vocais) e Braga (baixo).
 
Acessem o My Space do Sexta-Feira 13 e conheçam melhor o trabalho da banda, clique AQUI !

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