segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O Homem que Mudou o Jogo

O Homem que Mudou o Jogo (Moneyball) - 2011. Dirigido por Bennett Miller. Escrito por Steven Zaillian, Aaron Sorkin e Stan Chervin, baseado no livro de Michael Lewis. Direção de Fotografia de Wally Pfister. Música Original de Mychael Danna. Produzido por Michael De Luca, Rachael Horovitz e Brad Pitt. Columbia Pictures / EUA.


O Homem que Mudou o Hoje (2011) estreou no Brasil já com um desafio, ele precisava conquistar um público que tem pouca, ou nenhuma, afinidade com o esporte em torno do qual sua trama gira, o baseball. Eu, como a maioria dos brasileiros, tenho pouquíssimo conhecimento acerca do esporte e suas regras, mas surpreendentemente isso não impede que o filme funcione tal como deve. Reconheço que o efeito provocado por ele possa até ser bem maior naqueles que acompanham as ligas e conhecem os jogadores, mas tenho dúvidas se isto seria para o seu resultado final um fator positivo ou negativo, falarei sobre isso adiante. De fato, o filme funciona sem tantas dificuldades porque a essência de sua temática, ao contrário do baseball, não nos é estranha. A verdade é que ele não passa de mais um filme sobre superação, baseado em fatos reais. Por mais que o positivismo deste tipo de produção já esteja manjado, ele ainda não está completamente saturado. O público parece frequentemente buscar obras cujos personagens lhes sirvam de inspiração, como modelos de persistência e perseverança.

O longa de Bennett Miller reza pela mesma cartilha que filmes como À Procura da Felicidade (2006) e Julie e Julia (2009), a fórmula usada é bem simples e praticamente invariável: o personagem central está desacreditado e sem expectativas, até que encontra uma solução para seus problemas, porém tal solução não é levada a serio por todos os amigos e familiares, no entanto eles persistem. Eles até chegam a pensar em desistir em alguns momentos, mas se mantêm firmes até que conseguem realizar os feitos que lhes tornaram notáveis. Geralmente a realização de tais feitos compensa todo o esforço e o desgaste do caminho trilhado até o topo... O Homem que Mudou o Jogo tem um roteiro linear sem tantos complicativos, sua trama é relativamente simples e ele convence facilmente boa parte do público com a ideia de que com persistência todos os sonhos podem ser realizados. É um filme redondinho, com arestas bem aparadas, cuja história é moldada de tal forma que cause mais comoção do que desconforto. Pois é, se trata de mais um filme feito nos moldes para cativar o público e a crítica e assim angariar prêmios...


O filme conta a história, inspirada em fatos reais do ex-jogador de baseball, Billy Beane (Brad Pitt), ele é o administrador do Oakland A´s, time tradicional que no final de 2001 amargava uma série de derrotas e o último lugar na tabela do campeonato nacional, a situação que já não estava boa é ainda agravada pela falta de investimentos, que impede o time de negociar novos jogadores e ainda dificulta a manutenção dos atuais na equipe. Billy tenta fazer algo para mudar a situação, porém a falta de recursos lhe deixa de mãos atadas. Quando já está desacreditado pela equipe e pelos dirigentes, Billy conhece Peter Brand (Jonah Hill), um jovem economista formado em Yale, que garante que o baseball pode ser compreendido através de complexas fórmulas matemáticas, capazes de ajudar na formação das equipes e consequentemente na previsão de resultados. O administrador decide então apostar todas as suas fichas nesta idéia que poderia revolucionar a forma de pensar o esporte.


Billy contrata Peter como seu assistente e adota o modelo de administração proposto por ele. A parceria entre eles começa a causar controvérsias, quando eles fazem a contratação de jogadores problemáticos, porém baratos, que nenhum outro time tinha tido a ousadia de contratar. O pressuposto era de que com a escalação certa tais jogadores poderiam atuar em seus potenciais máximos, compondo assim uma equipe quase perfeita, tudo uma mera questão de números... As medidas que Billy toma, sob o aconselhamento de Peter, não são bem aceitas pelo técnico Art Howe (Philip Seymour Hoffman), que se considera o único responsável pela escalação, tanto ele quanto os dirigentes do time enxergam os novos métodos adotados como loucura. O descrédito e o aparente insucesso de seu novo modelo de gestão quase fazem o administrador desistir, mas ele busca em seu passado como jogador e no amor da filha os fatores de motivação capazes de lhe manter firme em seu propósito...


No início desta resenha, eu disse que aquela parte do público que conhece e tem paixão pelo baseball poderia ter tanto reações positivas quanto negativas ao filme, agora explico: O Homem que Mudou o Jogo desconstrói parte do aspecto lúdico do baseball, resumindo-o a um mero resultado de cálculos matemáticos. A racionalização do esporte, reforçada pelas teorias seguidas por Peter, é sem dúvidas um fator negativo, uma vez que ela contraria a ideia romantizada de que os resultados das partidas seriam definidos, não por questões lógicas, mas pelo talento de alguns poucos jogadores e por suas respectivas performances (ideia esta defendida pelos homens de negócios envolvidos com o esporte). Contudo, a verdade é que boa parte deste público terá sim reações positivas, pois provavelmente eles não farão tal leitura do filme, eles se contentarão em ver de forma superficial a dramatização que envolve um time nacionalmente conhecido (nos Estados Unidos) e seus jogadores.


Para nosotros, leigos no que tange ao baseball e suas regras, a desmistificação do esporte que mencionei acima faz pouca diferença, uma vez que independente dela o filme cumpre aquilo a que se propõe. O Homem que Mudou o Jogo desempenha bem o seu papel, que é tão somente o de ser um filme leve, facilmente digerível e motivador, qualquer conotação que vá além destas será, para mim, superestimação... As atuações do filme, principalmente as do elenco principal, são muito boas, porém sem nada de sobrenatural. Brad Pitt está bem, mas já esteve muito melhor em outros filmes, Jonah Hill também está bem, mas não cativa e pouco chama a atenção e Philip Seymour Hoffman poderia estar bem melhor se seu personagem tivesse maior destaque na trama (ele surpreende apenas pela excelente caracterização, que prova mais uma vez o quanto ele é um ator versátil). O roteiro do filme é bem escrito, o que torna seu desenvolvimento ágil e agradável a qualquer público, porém o excesso de clichês acaba o prejudicando. A minha conclusão, é a de que O Homem que Mudou o Jogo é sim um filme bom, mas sem nada de especial que o torne indispensável. Contudo, vale à pena assisti-lo, principalmente se você estiver buscando qualquer tipo de motivação!


O Homem que Mudou o Jogo está indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Ator (Brad Pitt), Ator Coadjuvante (Jonah Hill), Roteiro Adaptado, Montagem e Mixagem de Som. No Globo de Ouro, o filme foi indicado nas categorias de Melhor Filme - Drama, Melhor Ator - Drama, Melhor Ator Coadjuvante (Jonah Hill) e Melhor Roteiro.

Assistam ao trailer de   O Homem que Mudou o Jogo   no You Tube, clique AQUI !

Confiram aqui no Sublime Irrealidade a resenha de Capote, também dirigido por Bennett Miller.


Vencedores do SAG Awards 2012

O Sindicato de Atores de Hollywood promoveu na noite de ontem (29/01) a entrega do Screen Actors Guild Awards (SAG). A premiação é considerada um dos principais termômetros do Oscar, uma vez que muitos membros do Sindicato também são votantes na premiação entregue pela Academia. 


Confiram abaixo a lista dos vencedores:

PRÊMIOS DE CINEMA

Melhor Elenco: Histórias Cruzadas

Melhor Ator: Jean Dujardin por O Artista

Melhor Atriz: Viola Davis por Histórias Cruzadas

Melhor Ator Coadjuvante: Christopher Plummer por Toda Forma de Amor

Melhor Atriz Coadjuvante: Octavia Spencer por Histórias Cruzadas

Melhor Elenco de Dublês: Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte II


PRÊMIOS DE TELEVISÃO

Melhor Elenco em Série Dramática: Boardwalk Empire

Melhor Elenco em Série Cômica: Modern Family

Melhor Ator em Série Dramática: Steve Buscemi por Boardwalk Empire

Melhor Atriz em Série Dramática: Jessica Lange por American Horror Story

Melhor Ator em Série Cômica: Alec Baldwin por 30 Rock

Melhor Atriz em Série Cômica: Betty White por Hot in Cleveland

Melhor Ator em Minissérie ou Telefilme: Paul Giamatti - Too Big to Fail

Melhor Atriz em Minissérie ou Telefilme: Kate Winslet - Mildred Pierce

Melhor Elenco de Dublês em Série: Game of Thrones


sábado, 28 de janeiro de 2012

O Artista

O Artista (The Artist) - 2011. Escrito e dirigido por Michel Hazanavicius. Direção de Fotografia de Guillaume Schiffman. Música Original de Ludovic Bource. Produzido por Thomas Langmann e Emmanuel Montamat. La Petite Reine, La Classe Américaine, JD Prod, France 3 Cinéma, Jouror Productions e uFilm / França|Bélgica.


Desde o advento do cinematógrafo, no final do século XIX, o cinema passou por diversas revoluções no que diz respeito á técnica e à narrativa. Uma das transformações mais radicais aconteceu na segunda metade dos anos 20 do século passado, com a chegada do som. Em 1929 praticamente todos os filmes rodados em Hollywood já eram falados, alguns poucos cineastas tentaram se manter de forma independente no antigo formato, como Charlie Chaplin que ainda lançaria os mudos Luzes da Cidade (1931) e Tempos Modernos (1936). Outros como Buster Keaton não se adaptaram e suas carreiras entraram em declínio a partir de então. Tal transição aconteceu durante um período extremamente duro, não só para cineastas e produtores, afinal eram tempos de crise (em 1929 acontecera o crack da Bolsa de Valores de Nova Iorque), aqueles que não se rendessem à nova tecnologia estariam condenados à falência e ao ostracismo, afinal mais do que nunca a indústria não enxergava o talento ou a arte e sim o lucro que eles eram capazes de produzir. Se a moda era o som, os “mudos” que se adaptassem...

O Artista (2011), o elogiado longa de Michel Hazanavicious, resgata em sua trama a magia do cinema dos anos 20, retratando de forma simples e bela este período de transição tecnológica que também já foi abordado em obras primas como Crepúsculo dos Deuses (1950) e Cantando na Chuva (1952). Hazanavicious reverencia as produções e os artistas de outrora nesta que é a mais bela homenagem ao cinema clássico que assisto desde Cinema Paradiso (1988) de Tornatore e Os Sonhadores (2003) de Bertolucci, ele parece ter embarcado na mesma onda nostálgica que também inspirou recentemente Woody Allen e Martin Scorssese, porém, diferente dos outros filmes que já prestaram homenagem a esta ou a outra época e de outras películas “saudosistas”, em o O Artista a reverência ao passado não está apenas na temática, mas também na parte técnica do filme. Em plena era do 3D, do IMAX e do motion capture, Hazanavicious nos surpreende com um filme mudo e fotografado em preto e branco.


A ousadia estética de O Artista foi ovacionada pela crítica especializada e por alguns cinéfilos, no entanto parte do público não entendeu a proposta, alguns mais radicais chegaram a pedir o dinheiro de volta na bilheteria do cinema após descobrirem (!) que o filme estava em um formato tido como retrógrado. Apesar de ter uma história simples e cativante, eu não creio que o filme realmente seja de fácil assimilação por parte do grande público. Certamente amantes do cinema clássico e aqueles que já estão familiarizados com filmes neste formato irão se deleitar, afinal não é sempre que vemos uma homenagem tão sincera e tão bem feita a toda uma época. Por esta perspectiva, O Artista soa como um grande obrigado, um reconhecimento tardio, a tantos nomes e carreiras que foram desfeitos em nome da inovação... Se existe um fio de melancolia na trama, ele se dá quando enxergamos no drama do personagem principal a história real de tantos artistas fenomenais cuja obra não foi capaz de sobreviver diante das imposições da indústria do entretenimento...


Em O Artista, George Valentino (Jean Dujardin) é um ator de Hollywood que está no auge de sua carreira, ele é adorado pela crítica, pelos fãs e principalmente pelas mulheres (o nome do personagem é uma clara referência à Rodolfo Valentino, aquele que talvez tenha sido o maior galã do cinema americano nos anos 20). Porém o advento do cinema falado de uma hora para outra transforma Valentino e um símbolo do passado, ele passa a ser ignorado pelos produtores e sua carreira entra em declínio, ele tenta produzir filmes mudos de forma independente, porém sem nenhum sucesso. Paralelamente à sua decadência, o filme mostra a ascensão de Peppy Miller (Bérénice Bejo), uma jovem e bela atriz que George tinha ajudado a ingressar em Hollywood. Com um rostinho lindo e uma bela voz, Pappy parecia predestinada à fazer parte do novo, a brilhar no cinema falado, enquanto seu benfeitor amargava o ostracismo... No decorrer da trama, George terá que lutar contra seu orgulho para assim se redescobrir e provar para os magnatas da indústria cinematográfica que ainda tem talento e é capaz de inovar...


O ritmo de O Artista e a sua qualidade técnica o distancia dos filmes produzidos na época a qual ele se propõe a homenagear, ele também não tem a “áurea” característica das produções de outrora, mas isso não o impede de cumprir sua proposta. Ele consegue ser nostálgico sem com isso deixar de ser atual. Talvez a maior contradição atrelada à sua produção seja a de que ele foi considerado inovador por resgatar algo que há mais de 80 anos foi tido como retrógrado, mas isso não é tão difícil de ser compreendido, uma vez que no filme uma fórmula antiga é desconstruída para ganhar assim uma nova roupagem. Hazanavicious parece brincar o tempo todo com a idéia de que este é um filme mudo; preste atenção na primeira sequência, que mostra um personagem de um filme dentro do filme sendo torturado para falar (é uma alegoria da trama que se desenrolará a seguir), e também na última... Em diversos momentos parece que o som irá simplesmente escapar das palmas, dos objetos cenográficos ou da boca dos personagens, é desta forma que o cineasta nos lembra que estamos diante de um filme alegórico e do quanto estamos condicionados ao formato ao qual nos acostumados.


O Artista tem uma excelente trilha sonora, que preenche os “vazios” deixados pela ausência dos diálogos e ainda evoca as produções dos anos 20, cujas músicas eram interpretadas ao vivo dentro das salas de exibição. A direção de arte, a cenografia e os figurinos são sublimes, eles tornam a reconstrução de época quase irrepreensível. Contudo, são as atuações o aspecto que mais se destaca, o elenco secundário faz bonito, dando uma aula de interpretação corporal; Jean Dujardin e Bérénice Bejo simplesmente brilham, ambos merecem aplausos de pé por suas respectivas interpretações, eles transitam com agilidade por situações cômicas e dramáticas, emprestando aos seus personagens sensações e sentimentos que dificilmente uma fala seria capaz de proporcionar... E eles ainda dançam! O cachorrinho, inseparável do personagem de Dujardin no filme, fornece à história o elemento lúdico que remete à inocência do cinema antigo, apesar de eu não concordar com o uso de animais no cinema, tenho que reconhecer que algumas das cenas que ele protagoniza são ótimas. O Artista é um filme indispensável, principalmente para os verdadeiros amantes do cinema! Ultra recomendado!


O Artista está indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Diretor, Roteiro Original, Ator (Jean Dujardin), Atriz Coadjuvante (Berenice Bejo), Trilha Sonora Original, Fotografia, Figurino, Direção de Arte e Montagem. No Globo de Ouro o filme venceu nas categorias de Melhor Filme – Comédia ou Musical, Ator de Comédia (Jean Dujardin) e Música Original, tendo sido indicado ainda nas categorias de Melhor Diretor, Atriz Coadjuvante (Berenice Bejo), Roteiro e Trilha Sonora. O Artista ainda ganhou o prêmio de Melhor Ator (Jean Dujardin) em sua estreia no Festival de Cannes!

Assistam ao trailer de  O Artista  no You Tube, clique AQUI !


quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A Separação

A Separação (Jodaeiye Nader az Simin) - 2011. Escrito, dirigido e produzido por Asghar Farhadi. Direção de Fotografia de Mahmoud Kalari. Música Original de Sattar Oraki. Asghar Farhadi / Irã.


Sempre defendi que na análise de um filme, ou de qualquer outra obra de arte, é preciso contextualizar, é necessário desvendar as condições nas quais ele foi produzido e de que forma ele interage com tais condições; é natural que não seja possível explorar com profundidade todos os vieses deste contexto em uma resenha crítica, no entanto eles são necessários para que a compreensão da obra analisada não seja em nenhum momento prejudicada. Quando analisamos um filme nacional, ou até mesmo o de alguns outros países do ocidente, alguns pontos contextuais podem ser subtraídos do texto uma vez que nós já conhecemos o contexto pela nossa própria vivência, por outro lado, quando se trata de um filme produzido em um país de contexto cultural diferente do nosso, tais pontos não devem ser omitidos.

Embora A Separação (2011) não seja um filme abertamente político, ele reflete claramente em seu roteiro a atual situação política e social do Irã, país no qual ele foi realizado. O longa estreou em janeiro do ano passado no Festival de Berlin, onde foi premiado com o Urso de Ouro, o prêmio máximo do festival e dois Ursos de Prata, um pelo desempenho do elenco masculino (Peyman Moadi, Babak Karimi e Ali Asghar), outro pelo elenco feminino (Sareh Bayat e Sarina Farhadi). Coincidência ou não, nesta mesma edição do festival, uma das cadeiras do juri estava vazia, era aquela que tinha sido reserva para o cineasta, também iraniano, Jafar Panahi, ele não compareceu pois tinha sido preso e proibido de filmar pelo regime ditatorial de Mahmoud Ahmadinejad, a cadeira estava vazia em sinal de protesto...


É este peso, vindo do contexto no qual foi produzido, que torna A Separação ainda mais opressivo e contundente, seu roteiro, muito bem escrito, expõe de forma quase velada (para não ser apontado como subversivo), a fragilidade do sistema judiciário do país, o abismo existente entre as classes sociais e a falta de expectativas em relação ao futuro, situações que levam alguns a sonhar em deixar o país. Tal como em A Canção dos Pardais (2008) de Majid Majidi, neste filme o diretor Asghar Farhadi entrega nas mãos das crianças e dos jovens o poder de sonhar e de acreditar que um mundo melhor seja possível, no filme as duas personagens não-adultas padecem frente à situação de suas respectivas famílias, elas sofrem sem reclamar, uma delas até se impõem uma condição de sofrimento para tentar salvar aquilo que valoriza, curiosamente são elas as únicas capazes de olhar para as tribulações de suas vidas sem alimentar rancores ou se renderem ao desespero. Toda a esperança que as duas simbolizam está condensada em uma sutil troca de olhares compassivos entre elas perto do final do filme (numa das cenas mais brilhantes do longa), nesta sequência é como se uma estivesse dizendo para outra “eu compreendo o que você está sentindo e isto talvez um dia possa ser mudado”...


A separação que dá o título ao filme é praticamente consumada na primeira sequência, Simin (Leila Hatami) e Nader (Peyman Moadi) estão diante de um juiz e esclarecem a ele o porquê de estarem ali. Simin teme a atual situação do país e quer mudar junto com a filha para o exterior, Nader se recusa a mudar por causa de seu pai senil, que tem Alzheimer e está incapacitado de viver sem o apoio de um familiar. Sem ver alternativa, a mulher pede o divórcio para assim poder deixar o Irã, o marido, também impassível em sua decisão, acaba cedendo a contra gosto e assina a papelada da separação. É então que surge o primeiro dos problemas subsequentes, a questão da guarda da filha de 11 anos, Termeh (Sarina Farhadi). A garota escolhe ficar provisoriamente com o pai e o avô doente até que seja dada uma decisão judicial definitiva. Após ser abandonado pela esposa, Nader se mete em uma série de graves problemas, nos quais estão envolvidos a empregada que ele contratou para cuidar de seu pai, Razieh (Sareh Bayat), o marido dela, Hodjat (Shahab Hosseini) e a filha deles de seis anos, Somayeh (Kimia Hosseini).


Quase toda a trama se desenrola em um tribunal de Teerã, a falta de perdão agrava ainda mais a situação trágica na qual os personagens se meteram. Apesar do comportamento reprovável de alguns deles, não tem como apontar quem são os “bons” e quem são os “maus”, pois são todos humanos, são todos dotados de imperfeições, que, mesmo não sendo justificadas, são ao menos explicadas pelo contexto duro em que vivem. Os personagens evocam em nós expectadores mais compaixão que reprovação, eles parecem estar cegos em relação ao sofrimento alheio e por isso se tornam egoístas e individualistas, contudo não podem ser julgados como pessoas de má índole, pois cometeram apenas erros banais que os levaram, a contra gosto, a erros bem maiores... A falta de diálogo e de compreensão os torna ainda mais arredios e distantes, eles são incapazes de perdoar, pois em algum momento eles também não receberam o perdão...


Ambas as famílias começam a ser destruídas pela sequência de acontecimentos trágicos na qual estão envolvidas, elas recorrem à lei para terem assegurados os seus direitos e seus problemas resolvidos, no entanto o judiciário se mostra cada vez mais incapaz de lhes oferecer uma solução plausível e adequada às duas partes, em um dos momentos um dos personagens conclui: “A lei não pondera!”, de fato ela é desumanizada e arbitrária por estar concentrada apenas nas mãos de um único homem, que decide e sentencia baseado em frágeis informações, como os depoimentos contraditórios dados por ambas as partes... Mas não é só o poder judiciário do país que tem sua fragilidade apontada pelo filme; na trama, a instituição familiar também se mostra incapaz de se sustentar e resolver seus próprios dilemas. A religiosidade exercida por uma das personagens é baseada em aconselhamentos e orientações superficiais, dadas até mesmo por telefone (em determinada passagem ela consulta em um call center para saber se uma atitude sua seria ou não um pecado), o que denota também a inconsistência das instituições religiosas.


A Separação é, sem nenhuma sombra de dúvida, um dos melhores filmes de 2011, seu excelente roteiro consegue manter um clima de tensão durante quase todo o desenrolar da trama, sem para isso precisar se valer dos mesmos clichês e artifícios usados pelos hollywoodianos. Neste filme não tem espetáculo, nem entretenimento, tão pouco efeitos especiais, seu principal atrativo é a visão perspicaz que ele nos proporciona sobre uma realidade tão diferente da nossa em alguns pontos e tão semelhante em outros. A Separação impacta não por mostrar um “outro mundo”, mas sim pelo seu humanismo, que nos prova que independente da cultura, as nossas fraquezas e limitações são as mesmas, pois, tal como os personagens, nós também caminhamos como sociedade à palpadelas, em direção de algo que acreditamos ser o melhor e neste caminho erros serão inevitáveis e nem sempre nós saberemos lidar com eles... Ao assistir ao filme, preste atenção nas atuações, na forma com que cada ator parece realmente viver o drama de seus personagens; preste atenção também nos closes, pois eles dizem muito sobre a complexa ebulição de sentimentos que filme explora e também proporciona... Ultra Recomendado!


Além dos prêmios citados acima no texto, ganhos no Festival de Berlin, A Separação ainda ganhou o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e está indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Roteiro Original.

Assistam ao trailer de  A Separação  no You Tube, clique AQUI !


terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Tudo Pelo Poder

Tudo Pelo Poder (The Ides of March) - 2011. Dirigido por George Clooney. Escrito por George Clooney, Grant Heslov e Beau Willimon, baseado na peça “Farragut North” de Beau Willimon. Direção de Fotografia de Phedon Papamichael. Música Original de Alexandre Desplat. Produzido por George Clooney, Grant Heslov e Brian Oliver. Cross Creek Pictures / USA.


Alguns filmes conseguem reproduzir pensamentos e sentimentos experimentados pela consciência coletiva em determinados momentos históricos, como tal eles são capazes de ajudar a sociedade a ver um espelho de si mesma e assim se analisar com uma maior precisão. Tal fenômeno se torna ainda mais forte quando o período histórico abordado é o atual, pois, ainda que o filme não seja capaz de fornecer uma análise aprofundada e precisa, ele consegue ao menos provocar o desconforto da sociedade que se vê retratada nele. Este é o caso de Tudo Pelo Poder (2011), o quarto filme dirigido por George Clooney, cuja trama mostra o desenvolvimento de uma fictícia campanha eleitoral para a presidência dos Estados Unidos. A decepção dos americanos com o governo de Barack Obama parece ressonar por toda o desenvolvimento da história, que retrata tão bem o atual panorama de descrédito na política. Como que imitando a realidade, o roteiro do filme flui do mais ingênuo idealismo (quem não se lembra da posse de Obama?) para a mais completa descrença no jogo político.

Tudo Pelo Poder não é uma crítica aos Democratas (partido de Obama), tão pouco aos Republicanos, seus opositores. Ele funciona mais como uma triste constatação de que a ideologia, por mais sincera e nobre que ela seja, não é capaz de prevalecer diante do jogo de concessões a alianças necessário à obtenção do poder. De uma forma quase ingênua, o filme trabalha a perplexidade motivada pela "descoberta" de que a política partidária e consequentemente o modelo de democracia representativa são falhos. De uma forma brilhante, o longa mostra que a desonestidade e o descompromisso diante dos ideais defendidos não é exclusividade apenas de um dos partidos, ambos estariam degenerados pela corrupção de seus respectivos representantes. A postura do filme se torna ainda mais pessimista quando ele mostra que mesmo alguém bem intencionado pode acabar se sucumbindo diante dos conflitos éticos inerentes ao “jogo”...


Em Tudo Pelo Poder, Stephen Myers (Ryan Gosling) é um diretor de comunicação idealista que trabalha de forma engajada na campanha presidencial do governador Mike Morris (George Clooney). As pesquisas em cada um dos estados, onde acontecem as prévias da eleição, eram desanimadoras para Morris e sua equipe, a esperança era conseguir o apoio dos delegados do estado de Ohio, apoio este que seria estratégico para sua vitória... [O processo eleitoral nos Estados Unidos acontece de forma diferente da do Brasil, lá o presidente é escolhido por um colégio eleitoral formado por delegados escolhidos pelo povo. Cada estado tem direito de nomear um certo número de delegados. A vitória em um determinado  estado é decisiva, pois, independente da margem percentual de aprovação, o número total de delegados daquele estado conta na apuração final em favor do candidato que ali foi vencedor, sendo assim um estado com maior número de delegados tem mais peso que outro com um número menor, ainda que neste o percentual de aprovação tenha sido maior... complicado não?]


Myers realmente acredita na proposta do candidato e o vê como o único homem realmente habilitado para o "cargo mais cobiçado do mundo", seu idealismo chega a nos parecer estranho, uma vez que ele diz já ter trabalho em diversas outras campanhas e também por ele conhecer como ninguém a realidade suja da política partidária. A impressão que a trama nos passa é a de que Morris representa a sua última esperança na política e isso explica a sua total dedicação à promoção das propostas e dos ideais do candidato. A confiança de Myers começa a ser quebrada quando ele descobre um escândalo envolvendo Morris e uma jovem estagiária que trabalha em sua campanha (Evan Rachel Wood), é a partir de então que ele passa a ter uma noção precisa de que a corrida presidencial é tão somente um jogo e nada mais que isso, um jogo onde um único erro pode representar a derrota, o descrédito e a completa decadência profissional.


O dilema ético experimentado por Myers na história exemplifica bem a forma com que os jogos do poder são capazes de corromper com relativa facilidade qualquer um que se envolva com eles. Na trama, o personagem terá que fazer escolhas, optar por aquilo que é mais importante para si, diante de tais decisões o seu idealismo já fragilizado poderá não ser estruturado o suficiente para se sustentar... A inconstância da postura de Myers e a fragilidade de seus ideais representam muito bem os já citados pensamentos e sentimentos experimentados pela atual consciência coletiva do país... Como não ver em Morris uma representação de Obama e em Myers uma alegoria do próprio povo americano? A postura negativa e dura do filme em relação à decadência da democracia representativa dos Estados Unidos é de fato um de seus melhores aspectos, mas o filme vale a pena ser visto não só por isso...


Ryan Gosling está muito bem no filme (apesar de eu considerar sua atuação em Drive (2011) bem melhor), ele dá consistência e credibilidade a cada uma das emoções de seu personagem e sua presença de cena é incrível. George Clooney, Philip Seymour Hoffman (que interpreta um dos acessores de Morris), Paul Giamatti (o diretor de comunicação do candidato da oposição), Marisa Tomei (que vive uma jornalista) e Evan Rachel Wood também estão muito bem. A competência do elenco aliada à direção precisa de Clooney e ao roteiro bem escrito dão a Tudo Pelo Poder os requisitos necessários para que ele seja considerado um dos melhores filmes do ano passado. Ele merece ser visto e acima de tudo refletido, pois a situação exposta pelo seu roteiro infelizmente não é uma exclusividade dos americaos, nós a conhecemos bem, talvez até melhor que eles... Ultra recomendado!


Tudo Pelo Poder está indicado ao Oscar na categoria de Melhor Roteiro Adaptado. No Globo de Ouro, o filme foi indicado nas categorias de Melhor Filme - Drama, Melhor Diretor, Melhor Ator - Drama (Ryan Gosling), e Melhor Roteiro.

Assistam ao trailer de Tudo Pelo Poder  no You Tube, clique AQUI !


Indicados ao Oscar 2012

Saiu esta manhã a lista de indicados ao Oscar 2012, como de costume a Academia fez justiça a alguns nomes, surpreendeu em algumas indicações e cometeu erros terríveis! Gostei de ver a presença de A Árvore da Vida na relação, com 3 indicações o filme tinha sido ignorado em várias outras premiações. A indicação de Carlinhos Brown na categoria de Melhor Canção por Rio foi uma das maiores surpresas... Mas, novamente erros terríveis foram cometidos, Kung Fu Panda 2 e Gato de Botas foram indicados ao Oscar de Melhor Animação ao invés de As Aventuras de Tintim. Drive, um dos melhores filmes do ano, recebeu apenas uma indicação à uma categoria técnica, e pasmem, Leonardo DiCaprio e Michael Fassbender não foram indicados... A cerimônia de entrega do Oscar acontece em Los Angeles, no Teatro Kodak, no dia 26 de fevereiro. Confira abaixo a lista completa dos indicados:


Melhor Filme

Melhor Diretor
Woody Allen - Meia Noite em Paris
Michael Hazavicius - O Artista
Alexander Payne - Os Descendentes
Martin Scorsese - A Invenção de Hugo Cabret
Terrence Malick - A Árvore da Vida

Melhor Ator
Jean Dujardin - O Artista
George Clooney - Os Descendentes
Demian Bichir - A Better Life

Melhor Atriz
Meryl Streep - A Dama de Ferro
Glenn Close - Albert Nobbs
Viola Davis - Histórias Cruzadas
Rooney Mara - Millennium - Os Homens Que Não Amavam as Mulheres
Michelle Williams - Sete Dias com Marilyn

Melhor Ator Coadjuvante
Kenneth Branagh - Sete Dias com Marilyn
Max Von Sydow - Tão Forte e Tão Perto
Christopher Plummer - Toda Forma de Amor
Nick Nolte - Guerreiro

Melhor Atriz Coadjuvante
Octavia Spencer - Histórias Cruzadas
Janet McTeer - Albert Nobbs
Berenice Bejo - O Artista
Jessica Chastain - Histórias Cruzadas
Melissa McCarthy - Missão Madrinha de Casamento

Melhor Roteiro Original

Melhor Roteiro Adaptado

Melhor Filme Estrangeiro
Bullhead (Bélgica) 
Monsieur Lazhar (Canadá)
Footnote (Israel)
In Darkness (Polônia)

Melhor Longa de Animação
Gato de Botas
Kung Fu Panda 2
Chico & Rita

Melhor Trilha Sonora Original

Melhor Canção Original
"Man or Muppet" - Os Muppets
"Real in Rio" - Rio

Melhores Efeitos Visuais
Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2
Gigantes de Aço
Transformers: O Lado Oculto da Lua

Melhor Maquiagem
Albert Nobbs
Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2

Melhor Fotografia

Melhor Figurino
Anônimo
Jane Eyre
W.E. - O Romance do Século

Melhor Direção de Arte
Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2

Melhor Documentário
Hell and Back Again
If a Tree Falls
Paradise Lost 3: Purgatory
Undefeated

Melhor Documentário de Curta-Metragem
God is the Bigger Elvis
The Barber of Birmingham: Foot Soldier of the Civil Rights Movement
Incident in New Baghdad
Saving Face
The Tsunami and the Cherry
Blossom

Melhor Montagem

Melhor Curta
Pentecost
Raju
The Shore
Time Freak
Tuba Atlantic

Melhor Curta Animado
Dimanche
The Fantastic Flying Books of Mister Morris Lessmore
La Luna
A Morning Stroll
Wild Life

Melhor Edição de Som
Transformers: O Lado Oculto da Lua

Melhor Mixagem de Som
Transformers: O Lado Oculto da Lua


domingo, 22 de janeiro de 2012

Cirque du Soleil - Varekai

Varekai – Escrito e Dirigido por Dominic Champagne. Cenário de Stéphane Roy. Figurino de Eiko Ishioka. Música composta e conduzida por Violaine Corradi. Coreógrafos Michael Montanaro e Bill Shannon. Designer de Montagm Jaque Paquin. Iluminação de Nol Van Genuchten e Luc Lafortune. Som de Fronçois Bergeron. Desigener de Produções Francis Laporte. Guia Guy Laliberté. Diretor de Arte Andrw Watson. Espetáculo apresentado em Belo Horizonte em 21 de janeiro de 2012.


Realizei na noite de ontem um dos sonhos que cultivava desde menino, assisti a um dos mais belos espetáculos de minha vida: Varekai, uma das montagens itinerantes do Cirque du Soleil. Quando uma amiga me convidou para ir, ainda em setembro do ano passado, eu sequer cheguei a ponderar sobre a minha disponibilidade no mês de janeiro (eu ainda não sabia que estaria de férias), ou se eu teria dinheiro para a viagem e para o ingresso, eu apenas sabia que queria ir, na verdade eu tinha que ir, afinal oportunidades de termos sonhos realizados não podem ser perdidas! Comprei o pacote e passei quase cinco meses me corroendo de ansiedade para que este dia chegasse, por diversos momentos alguns problemas quase me fizeram abrir mão da viagem, mas felizmente tudo se resolveu... A tenda estava armada em Belo Horizonte, que fica cerca de 280 quilômetros distante de Ubá, a minha cidade, saímos daqui por volta de meio-dia, fomos em uma excursão organizada por uma agência de viagens local. Das cerca de quarenta pessoas que foram, apenas três já tinham assistido ao vivo a alguma das montagens anteriores do circo, mas mesmo para estas a expectativa era a melhor possível, afinal cada encenação da trupe é considerada uma experiência única, transcendente e indescritivelmente bela.

Chegamos em BH e aproveitamos o tempo livre até o início do espetáculo, que começaria às nove da noite, para passarmos no shopping (mais uma vez não contive meu consumismo e comprei 5 livros e um DVD). Conforme combinado, nos encontramos às oito horas no estacionamento do shopping e de lá fomos em direção ao local do espetáculo e foi aí que veio o susto. Descobrimos tarde demais que apenas uma hora poderia não ser o suficiente para chegar a tempo à tenda, pegamos um enorme engarrafamento e o motorista, na tentativa de pegar um atalho, acabou se perdendo (ele não admitiu isso)... Eu simplesmente gelei, era a realização do meu sonho que estava em risco. Faltavam cinco minutos para as nove horas, o transito não andava, alguém então comentou que após o início do espetáculo, que começaria estritamente em cima do horário, ninguém entraria ou sairia da tenda principal até o fim da primeira parte (são duas partes de uma hora cada), a possibilidade de perder metade do show aparentemente me assustava como a nenhum outro no ônibus... Mas, como que por milagre, de uma hora para outra o trânsito fluiu, conseguimos chegar! Foi como se estivessem nos esperando, pois acabamos de entrar, nos assentamos, e as luzes se apagaram...


Varekai, que estreou em 2002, é definido pelo seu diretor, Dominic Champagne, como uma homenagem à “alma nômade”, no dialeto cigano da Romenia Varekai significa “onde quer que seja”, o nome é uma alusão à descoberta do novo e ao constante processo de mutação em que vivemos, que nos leva a “lugares” diferentes à cada nova experiência. É mais ou menos esta viagem de descobertas que o espetáculo tenta nos proporcionar. A montagem narra a história de Ícaro, personagem da mitologia grega que, após realizar seu sonho do voar, teria tido suas asas derretidas pelo calor do sol e supostamente caido no mar Egeu. O Cirque du Solei conta a parte da história que até então não tinha sido contada, mostrando aquilo que teria acontecido com Ícaro após insucesso de sua tentativa de chegar ao sol, na montagem ele não cai no mar, mas sim em uma floresta que fica no topo de um vulcão, chamada Varekai... Na floresta Ícaro se redescobre ao entrar em contato com o novo. Através de suas interações com os seres fantásticos que habitam aquele mundo tão estranho, ele reencontra a esperança e o sonho de voar.

Se eu tinha alguma dúvida quanto à suposta perfeição dos espetáculos do Cirque du Soleil, agora não tenho mais, Varekai é de fato perfeito, fiquei boquiaberto diante do belíssimo show de acrobacias e malabarismos, tudo executado com uma incrível perícia e uma sensibilidade tamanha que cheguei a crer que estava diante de algo surreal, inimaginável... O show, que mistura elementos do circo, da ópera e do balé, não se limita à uma simples apresentação de malabaristas e acrobatas, há sempre um conceito por trás de tudo que nos é mostrado e é isto que torna a apresentação tão grandiosa, digna realmente de ser chamada de arte...


Os artistas, vindos de diversas partes do mundo, trazem consigo a magia do espetáculo circense mambembe, magia esta que não se perdeu mesmo diante de tantas evoluções tecnológicas e do advento de novas expressões artísticas e culturais... Achei fabulosa a forma com que eles conseguem convergir as mais diversas expressões artísticas em um mesmo espetáculo; as danças, as lindas músicas (que são executadas ao vivo durante o show), os figurinos, o cenário, a iluminação, os objetos cenográficos, tudo, tudo é impecável e de estonteante beleza estética. Infelizmente não pude filmar ou tirar fotos do espetáculo, era expressamente proibido fazê-lo mesmo antes ou depois da encenação... Contudo nenhuma foto ou vídeo seria capaz de traduzir ou expressar a sensação de presenciar o espetáculo ao vivo. Ao término da apresentação, os meus olhos mareados eram a confirmação de que eu acabara de viver uma das melhores experiências de minha vida, que compensava cada centavo gasto e as quase 10 horas de viagem!

O Cirque du Soleil ainda permanece em BH até o dia 10 de fevereiro, neste ano ele ainda armará sua tenda nas cidades de Brasília, Salvador, Recife e Curitiba; confiram a programação completa AQUI! Se você ainda não foi e tiver alguma oportunidade de ir não a perca por nada, pois lhe garanto valerá a pena!