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domingo, 18 de agosto de 2013

Meu Pé Esquerdo

Meu Pé Esquerdo (My Left Foot: The Story of Christy Brown) - 1989. Dirigido por Jim Sheridan. Escrito por Jim Sheridan e Shane Connaughton, baseado no livro autobiográfico de Christy Brown. Direção de Fotografia de Jack Conroy. Música Original de Elmer Bernstein. Produzido por Noel Pearson. Ferndale Films, Granada Television e Radio Telefís Éireann (RTÉ) / UK | Irlanda.


A cinebiografia do pintor e escritor irlandês Christy Brown, que nasceu com uma grave paralisia cerebral, poderia ter optado por trilhar um dos caminhos mais fáceis e óbvios. O resultado poderia ter sido um filme de cunho motivacional sobre superação ou talvez um doloroso drama sobre o sofrimento proporcionado pela doença, contudo, Jim Sheridan, que dirigiu e escreveu a adaptação tendo como base o livro de memórias de Christy, escolheu a sutileza e esta se tornou a característica mais marcante de seu filme. Meu Pé Esquerdo (1989) narra a história do artista de seu nascimento até à sua conturbada vida adulta, o roteiro mantém o foco no núcleo familiar, destacando a relação do protagonista com a sua mãe (vivida por Brenda Fricker), que o protege com todo o cuidado do mundo, apesar das dificuldades. O primeiro ato no filme, no qual é retratada a infância de Christy, possui um forte viés saudosista que é reforçado pela simplicidade com que a realidade da Irlanda das décadas de 30 e 40 é retratada.

Christy Brown teve, durante muito tempo, sua inteligência subestimada até mesmo pela sua própria família, ele demorou para começar a falar e isso reforçou a impressão que as pessoas próximas a ele tinham de que a paralisia cerebral havia comprometido também o desenvolvimento de sua razão e de seu intelecto. Ele então se viu obrigado a se afirmar sozinho diante de sua própria casa e do preconceito dos vizinhos, que o consideravam um fardo pesado demais para a sua já sofrida família. As péssimas condições sociais em que viviam, tornavam a vida ainda mais difícil para Christy, seus pais e seus irmãos, além da doença eles tinham que lidar com a falta de recursos, que atenuava os efeitos da fome e do frio, e ainda com o alcoolismo do pai (vivido por Ray McAnally), que não era uma má pessoa, mas aparentava buscar na bebida uma espécie de refúgio, onde acreditava poder se esconder de seus fantasmas interiores.


Já Christy queria sair de seus esconderijos, ele queria se ver livre das amarras que o prendiam, queria viver e sentir... Através da arte ele começa uma espécie de ensaio de sua própria libertação. Na literatura e na pintura ele encontra meios de expressão, tanto para sua dor, advinda da limitação física, quanto para sentimentos que o tomavam, como o amor, a solidão e a frustração. Nos quadros que ele pinta com o seu pé esquerdo (a única parte do corpo que ele consegue controlar) está transposto tudo aquilo que ele guardou consigo durante tanto tempo, trata-se de uma arte forte, crua e antes de tudo genuína. Seu trabalho logo desperta a curiosidade de outras pessoas envolvidas no meio e este é o primeiro passo para o reconhecimento, que nem ele próprio imaginou que um dia iria conquistar. Porém, a valorização de sua arte não lhe traz e esperado alívio para as questões pessoais que tanto lhe incomoda e daí nasce o maior de seus dramas.


Meu Pé Esquerdo transita por temas complexos e espinhosos, como a rejeição e o preconceito, sem perder em nenhum momento a leveza que o caracteriza, nele. Sua trama constitui uma verdadeira ode à vida, ao humanismo e à uma constante busca pela auto-superação. Não se trata do tipo de filme que nos acaricia com um positivismo tolo baseado em um triunfalismo que só existe em tese, a lição implícita na trama é a de que o mundo pode ser um lugar hostil, povoado por pessoas que podem ser cruéis, mas nada disso não deve nos impedir de viver, de buscar novas experiências e de ousar na transposição de nossos próprios limites, ainda que não tenhamos nesta 'aventura' nenhuma garantia de vitória.


Além do excelente roteiro, o filme de Jim Sheridan tem a seu favor o alto nível das atuações, o Daniel Day-Lewis está excelente na pele do protagonista, sua composição realista do personagem chega a ser assustadora, o que é o resultado de uma cuidadosa e sistemática composição. Reza a lenda que ele se recusava a sair da cadeira de rodas nos intervalos das gravações, isso para não ter que sair do personagem e não colocar em risco, de tal modo, a verossimilhança de sua atuação. Hugh O'Conor, que dá vida ao Christy Brown em sua infância, entrega um desempenho tão formidável quanto o de Day-Lewis, o perfeccionismo de sua composição pode ser notado em seu olhar inquieto, nos seus gestos abruptos, nos movimentos compulsivos e até mesmo no ritmo ofegante de sua respiração; o fato dele não ter falas torna ainda mais impressionante a sua interpretação. 


Brenda Fricker e Ray McAnally também estão muito bem em seus respectivos personagens e isso ajuda a torná-los mais do que meros coadjuvantes. A bela fotografia, onde predominam os tons pastéis e esverdeados, aliada à direção de arte e ao figurino, que mantém a mesma lógica de tonalidades, confere ao filme uma belíssima estética retrô, que potencializa o sentimento nostálgico que emana de trama, principalmente nos primeiros atos. A trilha sonora composta pelo veterano Elmer Bernstein explora bem o viés emotivo da narrativa, sem soar apelativa em nenhum momento, demonstrando assim um consonância com a sutileza notada na trama. Meu Pé Esquerdo traz ainda consigo a relevância de abordar temas que precisam ser discutidos com urgência, como a acessibilidade e o preconceito contra aqueles que possuem limitações físicas ou mentais... Resumindo, o que temos aqui é o cinema no exercício de sua plena capacidade artística, de fato uma obra-prima!


Meu Pé Esquerdo ganhou o Oscar nas categorias de Melhor Ator (Daniel Day-Lewis) e Melhor Atriz Coadjuvante (Brenda Fricker), tendo sido indicado também aos prêmios de Melhor Filme, Roteiro Adaptado e Fotografia. No Globo de Ouro o filme recebeu indicações nas categorias de Melhor Ator em um Filme de Drama (Daniel Day-Lewis) e Melhor Atriz Coadjuvante (Brenda Fricker).


Assista ao filme Meu Pé Esquerdo completo no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

terça-feira, 30 de julho de 2013

No - 2012. Escrito e dirigido por Pablo Larraín, baseado na peça de Antonio Skármeta. Direção de Fotografia de Sergio Armstrong. Música Original de Carlos Cabezas. Produzido por Pablo Larraín, Juan de Dios Larraín e Daniel Marc Dreifuss. Fabula, Participant Media, Funny Balloons e Canana Films / Chile | USA | França | México.


Em 1970 Salvador Allende foi eleito presidente do Chile, ele, que era um marxista convicto, deu início a um processo de nacionalização da economia do país, estatizando empresas e fechando o cerco contra o imperialismo norte-americano. Três anos depois ele foi vítima de um golpe de estado planejado e financiado pelos Estados Unidos. Allende foi morto em 11 de setembro de 1973 (eu pessoalmente não acredito na hipótese de suicídiona ofensiva comandada por Augusto Pinochet, o chefe das Forças Armadas em seu governo. Pinochet assumiu o poder e deu início à uma sangrenta ditadura, que perseguiu, torturou e matou militantes comunistas, críticos e dissidentes de seu regime. 15 anos depois, em 1988, sob forte pressão internacional, Pinochet (cujo governo fora legitimado em 1980 através da promulgação de uma nova constituinte) consentiu a realização de um plebiscito popular, que questionaria a população acerca de sua permanência no poder por mais oito anos

O filme No (2012), escrito e dirigido por Pablo Larraín, busca retratar em sua trama o trabalho da equipe de profissionais, liderada pelo publicitário René Saavedra (vivido por Gael García Bernal), que foi responsável pela campanha dos partidos de oposição, que lutavam contra a manutenção da ditadura militar. Em sua trama, o filme retrata de uma forma brilhante o surgimento de uma tendência que se firmaria nos próximos anos e se tornaria recorrente na propaganda política. Esta tendencia consistia no esvaziamento do discurso ideológico, e direcionamento do foco das mensagens para questões subjetivas e conceitos abstratos, que já eram explorados com maestria pela publicidade desde o final dos anos 50. O interessante é que no período histórico no qual o filme se passa este formato acabou dando certo e o roteiro, baseado na peça de Antonio Skármeta, mostra muito bem o porquê disso ter acontecido.



Mesmo não tendo tanto envolvimento com a política, René Saavedra chegou a ser exilado, isso tão somente por ser filho de um conhecido militante comunista. O tempo que passou no exílio acabou tirando dele o patriotismo e o sentimento de pertencimento, nota-se na trama que o passado do Chile não tem para ele o mesmo peso emocional que tem para os outros personagens... Apesar de jovem, ele acabou se tornando um respeitado publicitário após regressar ao país, seu bom desempenho chamou a atenção de José Tomás Urrutia (Luis Gnecco), que o convidou para dirigir a campanha pelo 'não'. Mesmo relutante, René aceitou o trabalho, em parte por acreditar no que a campanha propunha, mas principalmente por enxergar nela um grande desafio profissional. Seus métodos, no entanto, acabaram se chocando com o pensamento dos militantes, que não queriam que o ideal democrático fosse vendido como um bem de consumo.



Uma significativa parcela dos membros dos partidos de oposição temiam que a campanha, que tinha a alegria como principal conceito, pudesse representar um desserviço à memória histórica do país, por colocar panos quentes sobre as atrocidades cometidas durante o período ditatorial. Saavedra, porém, acreditava que qualquer abordagem negativista pudesse tirar do material que estavam produzindo aquele que era o seu conceito chave: a felicidade, que viria com a mudança na estrutura do país após sua libertação, que se tornara um pouco mais próxima com a remota possibilidade de vitória do 'não'. O embate entre estes dois pontos de vistas e as concessões de ambos os lados que compunham a esquipe acabaram ditando a tônica das propagandas, que eram exibidas na TV aberta, durante os quinze minutos diários, tempo reservado a cada uma das partes.



No filme, é interessante perceber que o próprio Pinochet não levava o plebiscito a sério, sua arrogância não lhe permitia enxergar a ameaça que ele representava para o seu governo, e isso, aliado à pressão internacional, explica o fato dele não ter tentado nenhum tipo de sabotagem ou repressão contra os representantes do lado oposto. O que o filme mostra são apenas tentativas de intimidação, que se mostram falhas frente à coragem e determinação demonstradas pelos partidários do 'não'. Acredito que se a campanha tivesse adotado um tom mais sério, com revelações e denúncias das atrocidades cometidas nos anos de chumbo, a postura de Pinochet teria sido outra. Com uma provável repressão do estado o resultado do plebiscito também poderia ter sido bem diferente... A forma com que o governo enxergava a angulação adotada nas esquetes e no material publicitário do 'não' fica evidente na passagem em que um ministro de Pinochet zomba da escolha do arco-íris como um símbolo dos partidos de oposição. 



No mostra ainda a relação de Saavedra com sua ex-esposa, que também era uma militante de esquerda, ele possui a guarda do único filho que tiveram e se desdobra para conseguir cuidar do garoto, que frequentemente o acompanha nos sets de gravação. Este núcleo familiar, apesar de ser pouco relevante para a história em si, acaba sendo de extrema importância para que conheçamos quem de fato é o protagonista. Uma das abordagens analíticas possíveis a respeito de No (talvez a mais interessante delas) diz respeito ao deslocamento afetivo e ideológico experimentado pelo personagem. A vida de Saavedra é bem diferente da realidade que ele vende em suas criações, o ideal de felicidade presente em suas peças não é um espelho de sua própria vivência. Percebe-se na trama que ele não se encontra naquilo que produz, como se ele estivesse alienado de seu próprio trabalho e isso pode ser notado em uma das melhores sequencias do filme (que é também uma das mais emblemáticas), na qual ele finalmente se vê diante de uma manifestação real da alegria, até então abstrata, que fora associada à campanha.



É interessante ver em
No o trabalho de filmagem das peças, com as discussões sobre aquilo que estava sendo produzido e depois a peça já pronta (em imagens reais da época) sendo exibidas na TV. Sergio Armstrong, o diretor de fotografia, faz verdadeiros milagres no filme, ele consegue extrair imagens belíssimas apesar dos recursos tão limitados. A opção por fotografar o filme com o mesmo aparato técnico com o qual eram produzidos os conteúdos para a TV na época em que ele se passa foi uma decisão muito bem sucedida, a estética resultante do processo de filmagem adotado faz com que imagens reais de arquivo e as do próprio longa se confundam e isso dá a ele uma maior verossimilhança e reforça o tom documental de sua trama. A trilha sonora, por sua vez, é engrandecida pela canções incluídas de foma diegética no filme, principalmente por aquelas presentes nas propagandas. Já a montagem confere ao filme um ritmo rápido, que faz com que a história flua com grande facilidade e leveza.



As atuações são ao meu ver um dos grandes destaques do filme, todo o elenco está muito bem e a composição de cada personagem dá a eles a veracidade e a credibilidade que a trama lhes exige. O Gael García Bernal está muito bem, o que não é nenhuma surpresa, considerando sua já vasta e multinacional trajetória. Alfredo Castro, Luis Gnecco, Néstor Cantillana, Antonia Zegers, Marcial Tagle, Pascal Montero e Jaime Vadell também entregam desempenhos elogiáveis. A direção de Pablo Larraín (que dirigiu outros dois filmes sobre a ditadura no Chile) é segura e eficiente e seu mérito está principalmente no fato de o filme não ter se tornado apenas mais um dentre tantos produzidos na América Latina sobre variações deste mesmo tema. 

No é obviamente um filme político, mas é também sobre a postura do indivíduo frente à falência das ideologias em um mundo cada vez mais imediatista, onde tudo, até mesmo a alegria, se tornou nada mais que um mero emaranhado de imagens e conceitos reunidos para vender produtos... 

No foi indicado ao Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, e recebeu em Cannes o prêmio da Confederação Internacional de Cinemas de Arte na mostra paralela Quinzena dos Realizadores



Assistam ao trailer de No no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

domingo, 21 de julho de 2013

Elena

Elena - 2012. Dirigido e produzido por Petra Costa. Escrito por Petra Costa e Carolina Ziskind. Direção de Fotografia de Janice D'Avila, Will Etchebehere e Miguel Vassy. Música Original de Fil Pinheiro. Busca Vida Filmes / Brasil | USA.


Elena tinha um sonho e lutou para que ele se tornasse realidade, de sua parte não faltou esforço nem dedicação, mas o simples passar dos dias, em um espaço de tempo relativamente curto, se encarregou de mostrar para ela que havia um mundo de solidão, dor e frustração entre o aconchego do lar que ela deixara e aquilo que ela perseguia com tanto afinco. Ela herdara da mãe o sonho de ser atriz, só que, ao contrário dela, Elena não enxergava o casamento como uma opção a ser considerada, ela não cabia no papel de mãe e de dona de casa, sabia disso desde criança. A separação dos pais veio comprovar aquilo que para ela já era uma certeza, a felicidade esperada estava bem longe do monótono conforto de sua casa. Elena, cujo voo no teatro já tinha se mostrado bem sucedido, queria ir mais alto, muito mais alto, ela se mudou para Nova Iorque com a expectativa de tornar mais próxima a sua meta de ser uma atriz em Hollywood. 

Porém, ao contrário do que a ética triunfalista nos diz, não basta acreditar que o sonho é possível e às vezes o maior esforço do mundo não é o suficiente para torná-lo real. Ao se deparar com sucessivas frustrações, Elena se esgota, seu ânimo se esvai pouco a pouco e sua vida perde completamente o sentido. A arte, na qual ela tinha encontrado um razão de ser, acaba se tornando o motivo de sua morte prematura - suicídio em 1990, aos 20 anos. O documentário que leva o nome da jovem foi dirigido por Petra, sua irmã caçula, que tinha apenas sete anos quando ela se matou. No filme, o que vemos é uma tentativa da cineasta de reencontrar a si mesma em meio à culpa e ao sentimento de incapacidade que carregou consigo durante os 23 anos que se passaram desde a tragédia.


Após a morte de Elena, Petra aparenta tomar para si a responsabilidade de preencher o espaço deixado pela irmã e com o tempo a personalidade das duas passa a se confundir, em dado momento, a cineasta, que também narra o filme, conta que pessoas próximas comentavam que ele estava se tornando, fisicamente, cada vez mais parecida com a irmã, com quem não tinha tanta semelhança quando ainda era criança, ela se atormenta com isso mas acaba se apegando a esta ideia numa tentativa de lidar com o sofrimento advindo da perda. A confusão de personalidades parece se estender para outras áreas da vida de Petra e isso fica evidente quando ela opta pela carreira de atriz, aos 17 anos, decisão esta que também lhe atormenta profundamente, ela sente como se tudo isso não fosse o fruto de uma escolha, mas um fardo, legado pelo destino, do qual ela jamais conseguiria escapar.


Na busca pela irmã, que Petra faz através de seu diário, dos vídeos caseiros, recortes de jornais e de entrevistas com amigos, há um verdadeiro mergulho em questões existenciais e de identidade. A coragem da cineasta de lidar com seus próprios fantasmas pode ser notada na autenticidade de seus sentimentos, principalmente de sua dor, que emana quase palpável das cenas que ela mostra e comenta o cuidado, quase maternal que a irmã mais velha tinha com ela, quando ela ainda era um bebê, e na angustiante passagem em que ela descreve a morte de Elena e a reação da mãe e a sua própria ao receber a notícia. É algo extremamente doloroso, até mesmo de ser assistido, mas Petra conta tudo com tamanha sutileza, que torna até a dor mais profunda, sentida por uma criança diante da morte de uma pessoa querida, algo singelo e dotado de uma poética impressionante. 


Li An, a mãe de Elena e Petra, surge no documentário como o galho da árvore genealógica do qual advém a extrema sensibilidade artística, não por acaso, o roteiro destaca o fato de ela também ser uma atriz frustrada, alienada de seu próprio sonho. A dor que ela sente está estampada em seu rosto sofrido, principalmente no olhar, nota-se que ela ainda experimenta o mesmo esvaziamento existencial que levou sua filha mais velha a um destino tão trágico e isso mostra que há um outro fio, além do da experiência compartilhada,  que liga as três. Há entre elas uma troca de projeções constante, como se uma estivesse o tempo todo buscando nas outras as respostas para seus próprios conflitos (isso pode ser notado até mesmo na insistência de Elena, de que a irmã também explore sua própria veia artística).


Longe de ser apenas uma busca pessoal da cineasta por alguma espécie de catarse, Elena se firma como um filme universal sobre perda, dor e frustração. A experiência que ele nos proporciona vai muito além do simples contato com a história de uma garota que morreu jovem demais, diante dele somos instigado à uma reflexão incômoda sobre o sentido que tentamos dar para as nossas próprias vidas, sobre nossos sonhos e nossas expectativas. O documentário é também um tratado sobre a arte, em seu estado mais bruto, e sobre uma entrega visceral a ela, uma entrega tão fascinante quanto destrutiva. Petra soube mesclar de uma forma sublime no filme estes dois elementos - o fascínio e a destruição - e este talvez seja o seu maior trunfo...


Em relação à linguagem, Elena representa uma espécie de rompimento com a estrutura do gênero ao qual foi associado. Ele se distancia do rigor jornalístico e abre margem em sua abordagem da história para um poética, que traz consigo uma verdadeira eclosão de sentimentos. Ao invés de usar as imagens apenas como registro histórico e como comprovação daquilo que está sendo narrado (como é comum no gênero), Petra Costa opta por extrair dos registros em VHS, que sua família guardou por décadas, diversas metáforas visuais e simbolismos, como na passagem maravilhosa em que sua mãe mostra a beleza de uma árvore em Nova Iorque e a câmera se vira sutilmente para a copa frondosa e imponente, que preenche a tela por alguns segundos, após um corte esta imagem é substituída por um registro em preto e branco que mostra galhos secos de uma outra árvore, esta aparentemente já sem vida. 


Esta lógica, que predomina tanto nas imagens de arquivo quanto naquelas que foram produzidas exclusivamente para o filme, demonstra a maturidade da linguagem trabalhada pela cineasta e da eficiência da composição de sua narrativa, que mescla diversos elementos de forma tão harmoniosa  Destaco ainda duas outras passagens que também são carregadas de simbolismos, uma na qual as vozes da mãe e das duas filhas se misturam, evidenciando a confusão de identidades que experimentam, e outra, presente no último ato do filme, que representa a 'libertação' que Petra buscava alcançar com o filme... Ainda que Elena traga consigo uma verdade inconveniente para os que ainda acreditam que exista no universo alguma espécie de mágica que recompensará os esforçados por sua persistência, ele precisa ser lembrado, discutido e principalmente sentido por todos... Não tenho dúvidas, estamos diante de uma obra-prima!

Elena ganhou no Festival de Brasília os prêmios de Melhor Documentário, Direção, Montagem e Direção de Arte e ainda recebeu a Menção Especial no Festival Internacional de Cinema de Guadalajara e no Festival Internacional de Documentários ZagrebDox


Assistam ao trailer e a um dos vídeos promocionais de Elena no You Tube, clique AQUI e AQUI


A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Lincoln

Lincoln (Lincoln) - 2012. Dirigido por Steven Spielberg. Escrito por Tony Kushner, baseado no livro de Doris Kearns Goodwin. Direção de Fotografia de Janusz Kaminski. Música Original de John Williams. Produzido por Steven Spielberg e Kathleen Kennedy. DreamWorks SKG, Twentieth Century Fox Film Corporation e Reliance Entertainment / EUA.


Dramaticamente, Lincoln (2012) de Steven Spielberg representa uma grande evolução quando comparado com o seu antecessor, o irregular Cavalo de Guerra (2011), no entanto, mesmo eu tendo gostado bastante dele, não tenho como negar que ele tropeça em problemas que têm sido recorrentes em alguns dos últimos trabalhos do cineasta. Os mais graves deles são o excesso de melodrama e a superficialidade com que a história é contada. Lincoln transita por um caminho conhecido, mas ainda assim perigoso, onde um pequeno acidente pode causar um grande desastre, o dos dramas históricos/biográficos. O primeiro risco que este tipo de produção corre é o de se tornar atrativa apenas para o público que já conhece ou que está de alguma forma ligado aos fatos nelas contados, já o segundo diz respeito à romantização dos acontecimentos, que ocorre quando a precisão histórica é deixada de lado em favor da construção de mitos e heróis.

O longa de Spielberg esbarra nas duas situações listadas acima e isso o prejudicou muito, tanto junto à crítica, quando ao público médio, este geralmente menos exigente, diante do qual o diretor ainda possui um forte apelo. Pela forma com que a trama do filme é construída, já podemos descartar a possibilidade de que ele venha a ser uma unanimidade, o ritmo relativamente lento e a falta de ação tende a desagradar a parte do público que esperava dele uma secessão de clímax e apelos emocionais (tal como foi em Cavalo de Guerra), isso por outro lado poderia agradar um público restrito, aquele que valoriza a precisão da reconstrução de uma época e o detalhismo dos diálogos e relações, todavia, isso também não acontece. Apesar de ser um filme predominantemente de conversas, discussões e debates, o que se sobressai nele não é a fidelidade aos acontecimentos, mas a simplificação do contexto no qual o personagem central está inserido.


O longa busca recriar os últimos meses de vida do presidente americano Abraham Lincoln (Daniel Day-Lewis) e a batalha dele para conseguir aprovar a 13ª emenda constitucional, que abolia a escravidão no país. Ele, que estava entrando em seu segundo mandato, via no fim da escravatura uma forma de alcançar a igualdade entre os homens, na qual acreditava, e de dar um fim à guerra civil que já tinha feito centenas de milhares de mortos. Para conseguir a aprovação da emenda ele se rende a meios escusos, como a compra de votos e as chantagens políticas. Mas, mesmo estando envolto numa rede de ações, que podem facilmente ser classificadas como corrupção, Lincoln se mantém firme em seu propósito, crendo que o fim justifica os meios... O roteiro de Tony Kushner perde a ótima oportunidade de explorar melhor a dicotomia da controversa postura do presidente, por saber que isso poderia macular a imagem de herói atribuída a ele.


Mesmo tendo um bom número de personagens com relativa importância, a trama não é confusa, com pouco tempo de duração já fica fácil distinguir quem está de qual lado e quais são seus propósitos, a superficialidade dos personagens é um dos fatores que contribui com isso, mas reconheço que este é um aspecto que ao menos torna o filme mais fácil de digerido pelos mais desatentos (ainda que estes o acusem de ser sonolento, não podem o classificar como confuso). É interessante a forma com que o filme retrata alguns dos personagens que estão à volta de Lincoln, como o filho primogênito Robert (Joseph Gordon-Levitt), que sente o peso de ser filho de quem é; a esposa Mary Todd (Sally Field), que não consegue superar a perda de um outro filho e Thaddeus Stevens (Tommy Lee Jones), um congressista abolicionista que age movido pela paixão e que em dado momento se vê obrigado a negar alguns de seus ideais em nome do jogo político; todos estes personagens trazem consigo marcas de suas respectivas relações com o protagonista...


Cinematograficamente, Lincoln é um sem dúvidas um bom filme, seu ritmo, apesar de lento, não é cansativo e está condizente com o foco político dado à trama. Se conseguirmos deixar de lado todas as falhas de seu roteiro, perceberemos melhor aquilo que o torna uma grande obra. As atuações são de longe o seu melhor aspecto, o Daniel Day-Lewis está estupendo, não é a toa que eu o considero o melhor ator em atividade, sua construção meticulosa do personagem é deixar qualquer um boquiaberto, não só pela semelhança física, mas por cada um dos trejeitos, pelo tom de voz e pela expressão facial, elementos estes que denotam uma sutileza incrível, que só um ator com tamanha habilidade poderia explorar. Sally Field e Tommy Lee Jones também entregam excelentes desempenhos, que justificam suas indicações ao Oscar


A direção de arte, figurinos e fotografia evidenciam um enorme cuidado na reconstrução de época que faz, é impossível não se deslumbrar com a beleza estética de cada fotograma. Dentre os aspectos técnicos, a trilha sonora, composta pelo John Willians, é um dos únicos problemas que prejudicam o longa, ela busca despertar no espectador sentimentos que deveriam surgir naturalmente, sem apelos, isso a torna massante e excessivamente melodramática (tal como o foi em Cavalo de Guerra).



Acredito que Lincoln tenha funcionado com uma facilidade maior junto ao público médio dos Estados Unidos, que não é indiferente à história que ele conta e que provavelmente não percebeu as falhas de seu roteiro, isso explica a badalação em torno dele na maior parte das premiações que aconteceram por lá. Reafirmo que ele não é um filme ruim, no entanto, acho um tanto exageradas suas indicações aos Oscars de Melhor Filme e Direção, uma vez que ele não consegue ir muito além das limitações que seu próprio roteiro lhe impõe, e discordo completamente das indicações recebidas nas categorias de Roteiro Adaptado e Trilha Sonora Original, pois estes são de longe seus aspectos mais irregulares... Recomendo para todos (com as ressalvas comentadas no texto)! 


Lincoln está indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Diretor, Ator (Daniel Day-Lewis), Atriz Coadjuvante (Sally Field), Ator Coadjuvante (Tommy Lee Jones), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Fotografia, Figurino, Direção de Arte, Montagem e Mixagem de Som.

Assistam ao trailer de Lincoln no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra,

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O Amante da Rainha

O Amante da Rainha (En kongelig affære) - 2012. Dirigido por Nikolaj Arcel. Escrito por Rasmus Heisterberg e Nikolaj Arcel, baseado no livro de Bodil Steensen-Leth. Direção de Fotografia de Rasmus Videbæk. Música Original de Cyrille Aufort e Gabriel Yared. Produzido por Meta Louise Foldager, Sisse Graum Jørgensen e Louise Vesth. Zentropa Entertainments, DR TV, Trollhättan Film AB, Sveriges Television (SVT) e Sirena Film / Dinamarca | Suécia | República Checa.


A trama do filme O Amante da Rainha (2012) tem como pano de fundo a corte da Dinamarca em meados do século XVIII, período em que as ideias iluministas começavam a se espalhar pelos outros países da Europa, o teocentrismo, que justificara os abusos cometidos pelos nobres e pela igreja durante a idade média, começava a dar lugar ao antropocentrismo e aos ideias liberais defendidas por pensadores como  Rousseau, Montesquieu e Voltaire. No entanto, no país escandinavo tais ideais tardaram para ter alguma expressão, isso porque internamente ainda havia forte perseguição e censura, o que impedia a manifestação de opiniões contrárias à monarquia e a circulação de escritos subversivos. A nobreza e o clero da Dinamarca mantinham seus excessos e regalias às custas da passividade do rei Christian XVII (vivido por Mikkel Boe Følsgaard), que era tido como louco pelos seus próprios aliados. O monarca era inconsequente e seu desenvolvimento intelectual era limitado, o que favorecia a atuação do conselho formado pelos seus ministros, que agia em prol de interesses próprios.

Atendendo à cobrança dos súditos, que acreditavam que a sua loucura era provocada pelo excesso de masturbação, Christian se casou com sua prometida, a jovem princesa Caroline Mathilde da Grã-Bretanha (Alicia Vikander). A moça, que já tinha sido contaminada pelos ideias iluministas em seu país de origem, se viu então obrigada a se submeter ao julgo do marido, que a menosprezava e passava a maior parte do tempo bêbado em casas de prostituição. Uma esperança de mudança surge com a chegada do doutor Johann Struensee (Mads Mikkelsen), um médico alemão que também acreditava no iluminismo, ele é contratado como o médico pessoal do rei, de quem se torna grande amigo e conselheiro. Struensee  acaba se aproximando de Caroline, com quem inicia um perigoso relacionamento. Influenciado pelo médico, Christian adota uma postura mais firme diante do conselho, o que favorece o plantio dos novos ideias no país. Tudo parecia estar caminhando relativamente bem, até que conflitos começam a surgir. O clero e a nobreza não queriam perder seus privilégios e os próprios iluministas se deixariam contaminar pelo poder...


Se engana quem pensa que o foco da trama de O Amante da Rainha está só no triangulo amoroso, quem for vê-lo esperando tão somente uma histórica de intrigas da realeza certamente se decepcionará. O foco está é no aspecto político, que emana não do datismo histórico, mas da reflexão proposta acerca do poder e da influência que ele exerce naqueles que o detém. É interessante perceber como os próprios iluministas se tornam semelhantes aos seus inimigos ao se verem diante dos dilemas éticos inerentes ao ato de governar. Outra reflexão pertinente diz respeito ao controle social exercido pela igreja através da imposição de uma moral, que subtraia do povo seu direito ao livre pensamente e à expressão, legando a ele apenas a castração ideológica, que era sustentada pela ideia de que qualquer ato de subversão constituía um grave pecado - O que, convenhamos, não é algo tão diferente daquilo que pode ser observado em diversas situações nos dias de hoje, que nos fazem sentir como se também tivéssemos voltado à idade média...


O roteiro do filme consegue desenvolver bem cada um dos personagens centrais, é possível perceber uma evolução em cada um deles no decorrer da trama. Christian, que é apresentado no primeiro ato quase como um vilão, é humanizado durante o desenvolvimento da história, sua limitação intelectual explica algumas de suas atitudes e principalmente seu comportamento infantilizado; a raiva que sentimos dele no início do filme logo desaparece, dando lugar à empatia, que é reforçada pela excelente atuação de Mikkel Boe Følsgaard. Caroline e Johann chegam a ensaiar um caminho inverso ao percorrido pelo rei, eles, que são apresentados como os heróis românticos da história, acabam demonstrando em diversos momentos atitudes reprováveis, que contradizem todas as virtudes que eles demonstraram ter a princípio. A opção da narrativa de não tentar dar aos personagens a condição de heróis nacionais,   revelando também seus vícios e falhas, torna o filme mais fidedigno em sua reconstrução da história.


Mikkel Boe Følsgaard, como eu já disse, está excelente na pele do monarca insano, sua atuação é um dos pontos mais positivos do filme. Mads Mikkelsen  também está muito bem, ele interpreta com muita veracidade cada um dos sentimentos e sensações experimentados pelos seu personagem, que é de longe o mais complexo da trama. Alicia Vikander, que também está no filme Anna Karenina (2012), demonstra um desempenho mais limitado, mas ainda assim bom o suficiente para sustentar sua personagem, que é essencial na narrativa. Figurinos, direção de arte e fotografia conferem ao filme um belo visual, que não deixa nada a desejar quando comparado com grandes produções que já retrataram o mesmo período. Na maior parte das cenas a fotografia ressalta os tons descoloridos e frios, que predominam mesmo nos momentos que retratam a intensa paixão entre a rainha e seu amante, a opção por estas tonalidades tem relação direta com a angulação adotada pelo filme, que opta por mostrar a realidade ao invés de uma idealização romântica dos fatos narrados.


O Amante da Rainha se diferencia de boa parte dos filmes do gênero justamente por retratar um período tão importante da história do país onde foi concebido, sem precisar para isso recorrer a clichês como o do herói nacional, que permanece imaculado diante dos fatos, ou o da supremacia de uma ideia ou ideologia, que torna seus adeptos alheios aos dilemas éticos e morais de seu tempo. A forma contundente com que a história é contada e a abordagem de temas que continuam sendo tabus (aspectos que amenizam a estranheza provocada pela presença de Lars Von Trier no cast do filme, como produtor executivo) tornam o longa digno de ser conferido e ainda justifica sua nomeação aos diversos prêmios aos quais foi indicado desde sua elogiada estreia na edição de Festival de Berlim do ano passado. O Amante da Rainha é um filme que merece ser visto e analisado por todos, principalmente porque às vezes a história se repete e o pano de fundo de sua trama pode ser mais atual do que imaginamos... Recomendo!


O Amante da Rainha está indicado ao Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro.

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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Argo

Argo - 2012. Dirigido por Ben Affleck. Escrito por Chris Terrio, baseado no artigo de Joshuah Bearman e no livro de Antonio J. Mendez. Direção de Fotografia de Rodrigo Prieto. Música Original de Alexandre Desplat. Produzido por Ben Affleck, George Clooney e Grant Heslov. Warner Bros. Pictures, GK Films e Smoke House / EUA.


Atração Perigosa (2010), o segundo filme dirigido pelo Ben Affleck, me proporcionou uma agravável surpresa, confesso que eu não tinha criado expectativas tão boas em relação a ele e ao assisti-lo me deparei com algumas grandes atuações e uma direção coesa, enxuta e ciente de sua própria importância. Cheguei a defender na resenha que escrevi, que foi a direção que salvou o longa de ser uma obra facilmente descartável, uma vez que ele possuía um problema difícil de ser contornado: um roteiro raso e repleto de clichês. Ontem, quando assisti Argo (2012), eu não tive a mesma surpresa, pois minhas expectativas já eram bem superiores, em parte devido às inúmeras críticas positivas que o filme recebeu, mas principalmente porque eu já imaginava que desempenho do Ben Affleck, como diretor, ganharia evidência em uma obra cujo roteiro conseguisse escapar dos lugares comuns, felizmente foi isso que aconteceu. Este seu novo trabalho não chega a abandonar por completo as velhas fórmulas, mas possui um roteiro muito mais maduro e consistente.

A trama de Argo gira em torno do seguinte fato histórico: Em 1979, uma crise internacional começou com a recusa dos Estados Unidos de deportar para o país de origem o Xá Reza Pahlevi, um tirano iraniano, a quem tinham concedido asilo político. A população do país árabe clamava pelo direito de executar o ditador, que fora deposto pelo aiatolá Khomeine. Enfurecido, um grupo de militantes invadiu a embaixada americana no país e fez reféns mais de cinquenta funcionários, eles acreditavam que o lugar estava sendo usado como base por espiões da CIA, que estariam infiltrados entre os diplomatas. O que eles não sabiam é que durantes a invasão seis pessoas conseguiram fugir do prédio, escapando pela porta dos fundos, estes foram acolhidos, secretamente, pelo embaixador do Canadá, Ken Taylor (vivido na trama por Victor Garber), que os manteve escondidos em sua residência. A resistência dos Estados Unidos em deportar o Xá, que estava sendo submetido a tratamentos médicos em Nova Iorque, aumentou a tensão entre os dois países e desencadeou uma onda de ódio contra os americanos no Irã.


A situação tornou quase impossível a saída dos seis refugiados do país. Para conseguir tirá-los de lá, a CIA decidiu colocar em prática um plano audacioso, arquitetado pelo agente Tony Mendez (interpretado no filme pelo próprio Ben Affleck). O agente entraria no Irã se passando por um produtor de cinema canadense em busca de locações exóticas para um filme e sairia de lá junto com os refugiados, como se eles fizessem parte de sua equipe. Para dar credibilidade à ideia, foi criado todo um aparato de marketing para o falso filme, que seria uma ficção científica nos moldes de Guerra nas Estrelas. A pre-produção de faixada envolveu o artista de maquiagem John Chambers (vivido por John Goodman), que ganhara o Oscar por seu trabalho em Planeta dos Macacos (1968), ele, que era conhecido de Mendez, participou da divulgação do filme e ainda criou um escritório para centralizar as operações relacionadas a ele. Na trama ainda é adicionado um personagem fictício (que pode ter sido inspirada em um real), o produtor Lester Siegel (Alan Arkin), que trabalha ao lado de Chambers e faz a mediação junto à imprensa. 


Este evento histórico era o mote perfeito para um roteiro cinematográfico, afinal de contas era uma história tão absurda que só o cinema poderia ter contado com tanta propriedade. O problema é que nas mãos erradas a trama poderia se tornar uma exaltação da política externa dos Estados Unidos e uma satanização dos árabes. Mas, apesar de ter em seu centro um herói americano, o roteiro escrito por Chris Terrio conseguiu escapar do risco de ser excessivamente tendencioso e ufanista. Já na sequência inicial do longa, que faz uma breve contextualização histórica usando a narração em off e imagens de storyboards, fica evidente que a culpa dos Estados Unidos no conflito não será amenizada, neste ponto já somos informados de que o Tio Sam ajudou a colocar o sanguinário Reza Pahlevi no poder e que ainda lhe deu asilo político após sua deposição, mesmo seus atos, que incluem perseguição e tortura, sendo tão condenáveis. 


Na excelente angulação adotada pela narrativa, a questão nacionalista perde o foco para dar lugar ao humanismo, o que favorece a construção de personagens não tão maniqueístas, o que não é comum em filmes que abordam este tipo de questão. Em Argo até os soldados e radicais islâmicos são retratados de uma forma menos tendenciosa, o que fica evidente na passagem em que militares ficam deslumbrados com os storyboards do falso filme e em outra que mostra a explosão de ódio de um homem contra os americanos, o que é logo justificado pela recente perda de seu filho, supostamente morto pelo Xá com uma arma americana. Esta abordagem confere ao filme um realismo maior, o que é reforçado também pelas atuações, a maior parte delas contidas, e pela excelente reconstrução de época que o filme faz, que pode ser notada nos figurinos, na escolha das locações e na direção de arte. [Prestem atenção na parte dos créditos finais que mostra lado a lado fotos reais do conflito e da mesma situação depois de recriada no filme].


Chris Terrio, o roteirista, ainda acha espaço para incluir uma boa dose de ironia no filme, o que pode ser percebido em diversos diálogos que fazem referência à própria indústria cinematográfica, um exemplo acontece na cena em que Tony Mendez vai até John Chambers para lhe pedir ajuda, o agente da CIA diz: "preciso que me ajude a fazer um filme falso", o artista de maquiagem então lhe responde de forma sarcástica: "você está no lugar certo". Na mesma passagem Mendez interroga: "já ensinaram alguém a ser diretor em um dia?", seu interlocutor então responde: "ensinaram um macaco-rhesus". Hipocrisia ou não, a decisão de manter no roteiro este tipo de piada aponta para a coragem de Ben Affleck de fazer graça com o próprio meio onde atua, o que pode ser visto ao mesmo tempo como protesto e como autocrítica. 


O desempenho de Affleck como ator, que sempre foi alvo de críticas, passou por um significativo amadurecimento. Ele constrói seu personagem de forma sóbria e o resultado é uma interpretação realista (apesar de alguns poucos clichês associados ao próprio personagem) e coerente com o tipo de abordagem adotado pelo filme, seu Tony Mendez é no fim das contas um herói plausivelmente real e não mais um estereótipo construído para alimentar o ego dos americanos e justificar as mazelas da política externa do país. John Goodman e Alan Arkin também entregam ótimas atuações, a maior parte das sequências protagonizadas por eles conferem ao filme um tom mais leve, que contrasta com a tensão da realidade no Irã e com claustrofobia da casa onde os seis funcionários da embaixada estão refugiados. O elenco secundário, constituído em boa parte por nomes oriundos da TV americana, como Bryan Cranston, Tate Donovan, Zeljko Ivanek e Clea DuVall, mantém o bom nível de qualidade das atuações.


A fotografia e a trilha sonora do filme também merecem ser destacadas, afinal ambas são fundamentais para o resultado final do longa. Rodrigo Prieto consegue dar ao filme um visual retrô, que nos remete à época na qual ele se passa e ainda trabalhar de forma diferenciada a iluminação em cada um dos ambientes nos quais ele se passa, ressaltando assim o tipo de sensação experimentada pelos personagens em cada um desses lugares. Alexandre Desplat, que conseguiu sua quinta indicação ao Oscar com a trilha deste filme, também realiza mais um excelente trabalho, elogiá-lo é chover no molhado, para Argo ele compôs uma trilha que toca nos momentos certos, sem apelos emocionais, mas com um grande poder de reforçar o sentimento de urgência que toma conta do filme em seus últimos atos, é interessante perceber os elementos da música árabe que ele inclui em suas canções, que funcionam perfeitamente no universo do filme.


Não posso afirmar que Ben Affleck realizou uma obra-prima, mas Argo é de fato merecedor de cada um dos elogios que vem recebendo, trata-se de um filme competente em cada um de seus aspectos, que nos mostra um pouco daquilo de melhor que a velha Hollywood ainda tem para oferecer. Recomendo!

Argo ganhou o Globo de Ouro na categoria de Melhor Diretor e está indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Roteiro Adaptado, Ator Coadjuvante (Alan Arkin), Trilha Sonora Original, Montagem, Edição de Som e Mixagem de Som.


Assistam ao trailer de Argo no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.