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sexta-feira, 6 de maio de 2022

Realidade e expectativa em “Madres Paralelas” de Almodóvar


Me proponho a escrever estas breves linhas não como uma resenha do filme em si, mas como uma crítica de parte das críticas que li sobre ele. Decido fazê-lo porque algo que considero um equívoco se mostrou de  forma reiterada em grandes partes das análises que li. Apesar de eu ter gostado muito do filme, eu não o colocaria no topo de meu ranking pessoal das obras do cineasta espanhol. Ressalto de antemão que minha divergência em relação a tais críticas não se dá por elas serem negativas, mas por adotarem premissas que, ao meu ver, estão erradas.

Antes de adentrar no ponto central deste breve texto, penso que é necessário fazer algumas considerações, a primeira é a de que Almodóvar é um homem, e, portanto, sua visão sobre o universo feminino, como autor, sempre vai ser a partir da perspectiva de um homem, não deveria haver dificuldade para entender isso, mas aparentemente ainda há. Algumas análises apontam isso como demérito e não como fatalidade. 

Outro ponto que vale ressaltar é que os filmes de Almodóvar não são e não devem ser analisados como tratados sobre o universo feminino, eles não possuem pretenções sociológicas e possuem pouco compromisso com a ideia de se fazer um retrato da vida como ela é, o que é uma característica essencial do melodrama, subgênero pelo qual Almodóvar sempre transitou.

O problema, extremamente recorrente em muitos críticos, e aqui chegamos no ponto central deste texto, é querer que a obra seja como eles próprios  a imaginaram e não como ela é. Sempre defendi que a análise de uma obra de arte deve ser pelo que é e nunca pelo que poderia ter sido. O campo do “poderia ter sido” será sempre demasiadamente grande e tão diverso quanto o número de críticos que se proponha a idealiza-lo.



Este é o problema em boa parte das análises de “Madres Paralelas” que li. Curiosamente, percebo que há uma preguiça dos autores de tais análises de tentar relacionar os dois arcos narrativos presentes no filme, aí fica a impressão de que um invade o outro em dado momento da narrativa, sendo que ambos estão entrelaçados desde o início. Faltou nestes casos a compreensão de que uma das “madres” às quais o título faz referência é a pátria espanhola e que a conotação política não emerge apenas no final do filme. Deveria ser algo óbvio, mas pra muitos aparentemente não foi. 

Parte das críticas negativas que li se concentrou no fato de que Almodóvar deixou de aprofundar determinados aspectos da narrativa. Porém, este não aprofundamento é em si uma opção narrativa. Se ao escrever um roteiro eu deixo de aprofundar um aspecto em especial, eu estou tacitamente dizendo que o foco deve estar em outro. Mas, parafraseando um personagem de “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, enquanto Almodóvar está apontando para a lua, os imbecis continuam a olhar para o dedo.

Há notadamente nas críticas às quais me refiro um conflito entre realidade, o que o filme é, e expectativa, o que o filme poderia ter sido. O que não é algo novo. Fenômeno semelhante ocorreu há mais de 60 anos, em “A Aventura”, clássico de Antonioni, nele há uma expectativa de que a trama se desenvolva em uma direção, o desaparecimento de uma personagem, mas ela acaba tomando outra, a contemplação do vazio existencial de outros dois personagens. Há também em uma obra clássica de Hitchcock uma formidável quebra de expectativa quando aquela que foi a protagonista durante a primeira parte da trama morre e é substituída por outra. 

Tanto em “A Aventura” e no filme de Hitchcock (que evito nominar por conta do spoiler), quanto em “Madres Paralelas” a expectativa criada é um problema do espectador, não do filme como obra de arte. É o ego do crítico/espectador tentando dizer mais sobre a obra que o próprio autor, e neste processo acaba sendo perdido o essencial, a noção do que de fato a obra se propunha a ser. Em, “A Aventura”, por exemplo, quem esperar pelo reencontro da personagem desaparecida não conseguirá embarcar na reflexão proposta sobre a banalidade da existência e sua completa falta de sentido. Em “Madres Paralelas” a atenção dedicada a aspectos secundários da trama pode impedir a compreensão do essencial, a existência do conflito ético entre o que se espera como ser político e o que se faz ou se pretende fazer como indivíduo.



Talvez por estarmos tão apegados a uma narrativa convencional, qualquer ruptura com o esquema baseado em causa/consequência acabe por nos causar certo desconforto. A reação aos saltos no tempo e às abordagens superficiais de temas espinhosos (que não são o foco da narrativa) em “Madre Paralelas” não difere muito da repulsa que filmes com finais abertos normalmente causa em quem se acostumou a ver sempre finais com todas as pontas da trama cuidadosamente amarradas.

Linguagem e Poder

Língua e linguagem não são imutáveis, são construções sociais, sujeitas a mudanças e principalmente capazes de reproduzir os jogos de poder. Língua e linguagem podem ser instrumentos de exclusão e de dominação, há uma vastíssima bibliografia sobre isso. Todo língua é viva, tão viva que pode morrer, o latim é considerado uma língua morta, umas dentre tantas que ruíram junto com verdadeiros impérios, o que deixa evidente a relação entre língua/linguagem e poder. Enquanto viva a língua se transforma, “vossa mercê” se torna “você”, que se torna “vc”.

Há uma tentativa de reduzir a linguagem às normas gramáticas que regulamentam o uso formal do idioma, que na prática pouco ou quase nunca ocorre. É nestas normas gramaticais que aqueles que temem transformações sociais se apegam quando determinado uso da língua é apontado como capaz de validar um mecanismo de dominação, eles se esquecem, no entanto, que, ainda que de forma mais lenta, a norma culta também muda. O Brasil, vale lembrar, passou por reformas ortográficas internas em 1943 e 1971, e em 1990 assinou o acordo ortográfico que visava uniformizar o uso gramatical do português em todos os países que o têm como língua principal (até o momento apenas Brasil e Portugal colocaram o acordo em prática). 

O problema, contudo, é que a coletividade tende a aceitar melhor a imposição de determinado uso como norma culta quando este é posto por setores dominantes da sociedade, ainda que não façam sentido algum. Somos até mesmo capazes de aceitar que há alguma razão para a existência de vários tipos de porquês (junto, separado, acentuado e não acentuado), mas, tendemos a repudiar quando a forma adversa da linguagem (adversa no sentido de oposição mesmo) vem como resposta de setores tradicionalmente dominados.

Quando determinado grupo alerta sobre a carga pejorativa que determinados termos trazem (como no caso de “índios”, termo que deve ser substituído por “povos indígenas” ou “povos originários” ou “escravos”, que deve ser substituído por “escravizados”), a reação primeira de grande parte das pessoas é a de dizer que “este politicamente correto tá ficando muito chato”, “isso são só besteiras” ou que “não tem nada de errado porque todo mundo sempre falou assim”. Todavia, vale recordar: (1) rever posturas sempre será algo “chato” pra quem está apegado aos próprios erros; (2) não são só “besteiras”, são maneiras de exercício de poder que precisam ser confrontadas; (3) não foi sempre assim e não precisa continuar sendo porque a língua é vida. 

Outros poderiam dizer ainda que está em curso uma tentativa de politizar tudo, contudo, não é difícil compreender que tudo aquilo que afeta de algum modo a vida social é em sua essência um ato político, seja de contestação ou de conformação ao poder (ou aos poderes) estabelecido. O uso que fazemos da língua é político, sempre foi assim, ele confere e restringe acessos, reforça ou destrói pressupostos, valida ou desconstrói determinado sistema de dominação. 

A linguagem é, recorrendo a Heidegger e Gadamer, condição de possibilidade para se chegar a aquilo que é, deixando de lado aquilo que aparenta ser. Para se compreender o sistema de dominação como um todo é necessário “revolver o chão linguístico no qual está assentada determinada tradição”, ou em outras palavras é necessário mostrar aquilo que a linguagem está sendo usada para encobrir, pois o exercício do poder consiste justamente na substituição do que é, pelo que aparenta ser, ou vice versa.

No exercício de revolver o chão linguístico se descobre que encoberto pela tradição (o “isso sempre foi assim”) estão questões raciais, de classe e de gênero, que não precisam ser perpetuadas. Tanto o poder de outrora quanto o de hoje precisam ser confrontados para que tais questões deixem de ser instrumentos de dominação e esse confronto passa, necessariamente, pela linguagem.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

A lógica do trabalho em uma sociedade capitalista nas canções “Cotidiano” e “Valsinha” de Chico Buarque

Mais uma madrugada insone e eis que me pego refletindo novamente sobre canções do Chico Buarque, mas desta vez não é sobre “Com Açúcar e com Afeto”, objeto da polêmica dos últimos dias, mas sobre outras canções que trazem, igualmente, impregnado em si o peso do tempo no qual foram compostas. “Cotidiano” é uma outra canção na qual o Chico, como autor, adota a posição de um cronista; nela, o personagem narrador descreve o seu cotidiano e a presença da esposa em momentos diversos de seu dia, o café da manhã, o intervalo para o almoço, a chegada em casa no fim da tarde até as juras de amor eterno da esposa antes de dormir.

Na estória contatada, o homem que sai para o trabalho, enquanto a mulher fica em casa, o que aponta para a lógica predominante em um período em que a mulher ainda possuía pouca inserção no mercado de trabalho para além de empregos domésticos e outros cuja visão machista considerava (e ainda considera) inapropriados para homens. É evidentemente um contexto machista, mas, vale lembrar, toda obra é fruto de seu tempo. Compreender a obra tão somente por este aspecto talvez seja um reducionismo, há algo mais profundo ali, há uma crítica à lógica do trabalho em um modelo de sociedade capitalista e à forma com que ela mecaniza as relações.

O tom crítico está nas entrelinhas, as expressões  “todo dia” e “toda noite” indicam a repetição de uma rotina na qual os personagens estão aprisionados. A noção de prisão pode parecer exagerada, mas ela fica evidente na estrofe que fala do intervalo para o almoço: “todo dia eu só penso em poder parar, meio-dia eu só penso em dizer não, depois penso na vida pra levar, e me calo com a boca de feijão”. O personagem pensa em romper com a rotina, mas desiste porque há a “vida pra levar”, reparem que não é uma vida pra ser vivida, é uma vida pra ser levada, como se o sentido estivesse apenas em empurrar a passagem dos dias.

A introdução da musica, os primeiros 12 segundos, sempre me intrigou pois ela destoa do restante, ela me soa como algo que evoca fim, um final triste, opressivo. Mas, ela está no início, é como se o fim fosse o começo, o que já evoca a ideia de repetição. Há, após a introdução, uma rápida marcação de tempo mais lento na bateria, que, já na sequência dá lugar a um toque mais rápido.  É o ato de acordar descrito apenas pelo ritmo da bateria, de súbito se passa para de um ritmo lento para um mais rápido, como se o sujeito já acordasse em um ritmo frenético, correndo contra o tempo, a marcação se assemelha a um tic tac acelerado de relógio, que denota urgência. A cada final de estrofe há uma nova marcação que se assemelha a uma campainha, que indica tempo esgotado. É o dia, deste o seu primeiro minuto, pautado pela lógica do trabalho.

A repetição e a urgência tiram o sentido de tudo, todo dia a mulher diz para o marido se cuidar e “essas coisas que diz toda mulher”, seis da tarde ela o espera no portão “como era de esperar”, na hora de dormir a mulher pede para o marido não se afastar (mas ele já está complemente afastado, alienado), neste pedido está a tentativa dela de romper com a rotina, ela o abraça, ele sente sufocado pelo abraço, mas não faz nada. A marcação que remete ao som de uma campainha interrompe e a rotina recomeça. Não por acaso, a introdução da música evoca fim, talvez morte, algo ali já está morto e reagindo apenas de forma automática.

Algo interessante é que não é apenas o marido que é afetado pela lógica do trabalho, a esposa também é, a mesma lógica está reproduzida também no trabalho doméstico, a mesma prisão, o mesmo sistema de opressão, com o qual nem ele nem ela conseguem romper. Ao menos não nesta canção. 

Não sei se alguém já estabeleceu uma relação entre as duas canções, mas vejo “Valsinha”, também do Chico, como uma continuação de “Cotidiano” (ambas estão no álbum “Construção” de 1971). Esta outra canção também não escapa do peso do tempo, ela também reflete, como crônica, características de um momento histórico no qual situações de machismo eram pouco problematizadas e portando normalizadas. Este tipo de leitura crítica precisa ser feita, contudo, não precisa ser vista como a única leitura possível.

Em “Valsinha” há a ruptura com a lógica do trabalho que não vemos acontecer em “Cotidiano”. A narrativa já começa com a chegada do marido em casa (gosto de imaginar que os persongens das duas canções são os mesmos), porém neste dia ele chega diferente, olha a esposa de uma forma diferente e a convida para dançar. A esposa então se “faz bonita, como há muito tempo não queria ousar”. Aqui duas leituras é possível, uma machista segundo a qual a esposa se produziu para agradar o marido e outra segundo a qual ela se produziu para si mesma, o restante da música aponta para a segunda opção, explicarei.

A ousadia do gesto à qual a letra faz referência não é uma ousadia perante o marido, mas sim perante à lógica à qual ambos estavam até então inseridos. Aqui há uma transferência de lógica do individual para o coletivo e isso fica evidente na letra. O caso vai para a praça da cidade e ali começam a se abraçar, a vizinhança desperta, a felicidade deles ilumina a cidade toda. Nos últimos versos o narrador, que não é um dos personagens, afirma que o “o mundo compreendeu e o dia amanheceu em paz”. O que havia para ser compreendido? Aqui há uma margem enorme para interpretação, mas, eu prefiro retomar a noção que já havia sido explorada em “Cotidiano”, a de que a repetição e a perda do sentidos das coisas é uma consequência da lógica do trabalho em uma sociedade capitalista.

Em “Valsinha” é esta lógica que é rompida, há uma quebra no cotidiano opressivo e o ato de ir para a praça pública no meio da noite é uma metáfora de um romper de uma prisão. A cidade acorda, se ilumina, e compreende que a logica pode ser rompida. O amanhecer em paz é o oposto do amanhecer descrito em “Cotidiano”. Reparem que não há uma ruptura com o capitalismo como modelo de organização social, mas há, por algum momento talvez, uma ruptura com a lógica decorrente deste modelo: a de que somos meros instrumentos de produção e circulação de capital e, como tal precisamos estar sempre prontos para sermos usados, o que acaba por sujeitar tudo, da alimentação ao sono, ao mero utilitarismo. O ato de fazer algo que aparenta não ter utilidade alguma rompe com esta lógica.

E você, o que acha, canções como “Cotidiano” e “Valsinha” ficaram datadas ou têm ainda algo a nos dizer?





terça-feira, 12 de outubro de 2021

"Persépolis" de Marjane Satrapi - Livro

 

Marjane Satrapi ainda era criança quando em 1979 rebeldes xiitas insurgiram contra Xá, autoridade máxima no Irã na época, e o depuseram, instalando em seguida um regime ditatorial e extremamente sanguinário. 

Ela cresceu em meio à imposição de regras de comportamento e de vestimenta  que cerceavam toda e qualquer expressão de liberdade individual. 

A situação de seu país piora com o início da guerra entre Irã e Iraque, conflito que foi financiado por países do ocidente. O número de mortos e desaparecidos só aumenta e diante da ameaça iminente os pais de Marjane decidem mandá-la para a Suíça. 

Já na Europa Marjane tem seu primeiro contato de fato com o movimento punk e a filosofia anarquista, até então seu contato mais próximo com o movimento era através de fitas K7 que circulavam clandestinamente entre seus amigos. 

Marjane passa então a ter contato com uma liberdade quase absoluta, e, acaba não sabendo lidar com ela, indo ao fundo do poço após o término de um relacionamento, ela chega a morar na rua antes de voltar para o Irã. De volta pra casa dos pais, ela passa a ter contanto com um viés de seu país tão cruel quanto a própria guerra: a discriminação. 

 


Resiliente, Marjane consegue vencer seus próprios fantasmas interiores e bater de frente com costumes, tabus e princípios. Ciente de que nunca mais caberá naquele mundo, ela parte de vez para a França, onde começa a escrever uma nova história... 

Em Persépolis, Marjane desnuda de forma crua e muitas  vezes angustiante a realidade que vivenciou em seu país e fora dele. O preconceito por não seguir a doutrina islâmica, por ser questionadora, por ser iraniana, por ter morado na Suíça, por não ser a esposa ideal, todos estes são na verdade males menores diante de um mal muito maior: o fato de ela ter nascido mulher em uma sociedade extremamente machista e autoritária...

Persépolis é uma obra prima em quadrinhos, um livro obrigatório, que nos fará entender e respeitar o outro étnico e valorizar a liberdade que ainda temos...

 

Escrito em 12 de outubro de 2015 e publicado originalmente no Facebook. 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

O Cortiço de Aluísio de Azevedo - João Romão e os recalques de uma classe média ascendente



Terminei minha pequena maratona por clássicos de nossa literatura com a leitura de “O Cortiço” do Aluísio de Azevedo. O livro rende inúmeras análises que vão do racismos estrutural presente em sua narrativa à sua abordagem de dois problemas que estão presentes até hoje na maior parte das cidades brasileiras, a não universalidade da moradia digna e a precarização do trabalho.

Mas, optei, nesta breve análise, por falar não sobre estes assuntos, mas sobre a forma com que um personagem da obra em especial ilustra um fenômeno também observado em nossos dias. O personagem é João Romão e o fenômeno é a ascencao econômica de pessoas pertencentes a classes menos favorecidas, que resulta na formação de uma nova classe média. 

João Romão é um Português que vem tentar a vida no Brasil, ele acaba assumindo o pequena venda onde trabalhava depois que o dono, também português, decide voltar para o país de origem e lhe entrega o controle do comércio como forma de quitação de salários atrasados. Pouco tempo depois, ao vislumbrar uma oportunidade de alavancar o seu negócio, João inicia um relacionamento e uma sociedade comercial com Bertoleza, mulher negra, ainda escrava, que fazia quentinhas para vender. 

Com a ajuda de Bertoleza, que trabalha incansavelmente sete dias por semana, João prospera. Com o dinheiro do comércio e da venda de quentinhas, ele compra parte de uma pedreira e constrói moradias precárias para aluguel. Contudo, quando Miranda, vizinho da venda e do cortiço, conquista um título de nobreza, o de barão,  João vê despertada em si uma grande insatisfação com tudo o que construiu. Ele é tão rico quanto Miranda, mas não tem a mesma “classe” que ele. 

Diante da notícia de que Miranda dará uma grande festa para comemorar a conquista do título, João se angustia. Ao ser convidado para a festa ele reconhece que não seria capaz de se infiltrar no meio ao qual Miranda pertence. Ele não se imagina vestindo sapatos, luvas ou conversando sobre arte e política com outros homens da alta sociedade. Ele não foi educado para as regras de etiqueta, tão pouco tem conhecimento da realidade do país ou sensibilidade artística para conversar sobre o que conversam. 

João ganhou muito dinheiro às custas da exploração do trabalho alheio e da aplicação de pequenos golpes, isso, no entanto não lhe torna menos parecido com as pessoas que moram em seu cortiço. O drama que ele vive vem da necessidade de se elevar, de se diferenciar dos seus, para assim ser aceito pela elite de seu tempo. 

Em sua busca por um atalho para alcançar seu objetivos, João pesará a mão sobre os seus inquilinos, na esperança de que o poder exercido sobre eles lhe alce a uma posição superior. Bertoleza se apresenta, em seus devaneios, como um grande obstáculo para a realização destes intentos. Como ser aceito pela elite racista estando ainda amasiado com uma negra? 

João Romão, em sua mesquinhez, avareza e ambição desmedida, em sua parca formação cultural, em sua limitação de visão para os fatos relevantes de seu tempo e em seu completo desprezo pelos que lhe servem de trampolim, se assemelha muito à significava parte da classe média atual, que se considera elite, sem o ser de fato, e insurge como antagonista dos desprivilegiados. Romão é um espelho da classe média que apoiou o golpe de 2016 e que elegeu um presidente fascista em 2018. 

AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. Jaraguá do Sul: Editora Avenida, 2009. 

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Milagre na Cela 7

Milagre na Cela 7 (Yedinci Kogustaki Mucize) - 2019. Dirigido por Mehmet Ada Öztekin. Escrito por Özge Efendioglu e Kubilay Tat. Direção de Fotografia de Torben Forsberg. Trilha Sonora Original de Hasan Ozsut. Produzido por Saner Ayar, Sinan Turan e Cengiz Çagatay. Turquia.
 

Eu normalmente prefiro esperar o hipe passar para assistir a um filme ou série sobre o qual todo mundo esteja falando, mas hoje decidi fazer o oposto e assisti O Milagre da Cela 7. O filme tem dividido opiniões, o público o exalta, enquanto parte da crítica especializada o massacra. Em tempos de polarização, talvez as defesas e ataques extremos tenham sido o que chamou a minha atenção (e olha que eu tenho tentado ao máximo evitar as tretas).

A seguir tentarei tecer algumas considerações, analisando-o não como mero entretenimento, mas como cinema. Se ele funciona bem no primeiro universo (o que se vê pelo sucesso de público), ele tropeça em diversos aspectos no segundo. Antes que me questionem se o cinema não pode entreter ou se o entretenimento não pode ser considerado cinema, explico que para efeito de análise considerarei como cinema a obra dotada de valor artístico, considerando que o valor artístico está no diálogo que a obra é capaz de estabelecer com o espectador.

O mero entretenimento normalmente abre mão do diálogo por entregar pronto aquilo que caberia ao espectador decodificar. Quanto mais “acabada” é a obra, menor o seu potencial artístico. Todo o aparato de linguagem se volta nestes casos para despertar no espectador um tipo específico de reação, não havendo, por isso, tanto espaço para a reflexão, para a contemplação ou mesmo para o questionamento.


O Milagre da Cela 7, como afirmei acima, funciona como entretenimento e de fato esta é a sua proposta, seu objetivo não é o de levantar reflexões profundas que perseguirão o espectador por dias, semanas, ou quiçá pra vida toda, ele te emocionará, todavia, no dia seguinte, quando você lembrar das mesmas passagens, elas já não produzirão mais o mesmo efeito, afinal tudo é muito raso e efêmero, o que não deixa de ser uma característica predominante no cinema mainstrean.

O filme tem inegável qualidade técnica, bela fotografia, movimentos de câmera cuidadosos e belíssima direção de arte, todavia, todos estes aspectos são reduzidos ao propósito de fazer emocionar e isso, confesso, é algo que me incomoda bastante. É possível antever todas as cenas em que algo triste irá acontecer, tão somente pela progressão da trilha sonora. Pode-se, inclusive, afirmar que é a trilha que pontua quando o espectador deve rir ou se emocionar; e isso, meus caros, nada mais é que manipulação barata.

Talvez o filme funcionasse um pouco melhor como cinema se ele tivesse a trilha amputada de si, afinal de contas o argumento dele é bom. O roteiro poderia ter sido melhor desenvolvido, se não estivesse tão sujeito, como os outros aspectos, à pretensão de emocionar. Ele possui boas atuações, mas falha na medida, o que se percebe mas inúmeras reações de personagens que soam forçadas no contexto em que acontecem.


O Milagre da Sela 7 entra, como eu havia previsto, naquele já volumoso grupo que tem como expoentes filmes como A Vida é Bela (1997), Cavalo de Guerra (2011), O Menino do Pijama Listado (2008) e um incontável número de obras de menor expressão. Obras em que o melodrama sufoca todo o potencial e a importância do tema abordado.

No atual caso, a frustração, pra mim, veio do fato de eu cheguei a me alegrar por perceber que o público estava dando atenção a uma obra de fora do mercado hollywoodiano e, tal como aconteceu no caso do francês Intocáveis (2011), o que eu vi no filme foi mera cópia de um modelo explorado à exaustão no cinemão americano... e as coisas podem piorar se Hollywood decidir, daqui a alguns anos, fazer um remake.

Resumindo, O Milagre da Cela 7 será uma boa pedida se você apenas quiser se deixar levar. Para os saudosistas, ele lembrará os inofensivos filmes feitos para a TV que cansamos de assistir no Cinema em Casa e na Sessão da Tarde. Agora, se você quiser experimentar aquilo que boa parte do público tem experimentado, abra mão da reflexão durante a sessão, separe o lenço e laissez faire...




quarta-feira, 17 de junho de 2020

Felicidade ou Morte - Livro

Felicidade ou Morte de Clóvis de Barros Filho e Leandro Karnal. Lançado originalmente em 2016. Campinas. Papirus 7 Mares, 2016.



O sucesso conquistado por Leandro Karnal e Clóvis de Barros Filho é um fenômeno no mínimo interessante. Bestsellers, eles conseguiram transpor as paredes da torre de marfim e atingir um público além dos universitários das respectivas áreas que lecionam, história e filosofia.
O fenômeno é curioso porque em um país de poucos leitores e parco interesse pela dita alta cultura, eles se tornaram verdadeiros gurus, de quem se espera um posicionamento ou uma resposta para as inúmeras crises pelas quais o país passa.

Não é um disparate dizer que o sucesso dentre o público não universitário de humanas se deve ao trânsito fácil pela linguagem simples, ainda que não coloquial, que torna reflexões complexas acessíveis a todos os públicos, mas também ao notável domínio da retórica e da comunicação nas redes sociais.

Em "Felicidade ou Morte", livro constituído na forma de um diálogo entre os dois intelectuais sobre o tema proposto, ambos tecem reflexões acerca da ideia de felicidade, da resignação como forma de driblar a angústia existencial, da construção social e histórica do que se tem como padrões de vida bem sucedida e da inevitabilidade da dor, que torna a própria noção de felicidade efêmera.

Sem precisar recorrer a academicismos, os autores transitam pela história e pela filosofia em busca ora de respostas, ora de algum eco para aquilo que defendem. A escrita flui fácil e, em alguns pontos, o texto chega a parecer uma transcrição de um diálogo tal como ele se deu, sem cortes e sem qualquer outro tipo de edição.

Tal noção vem justamente do fato de que tanto o Barros Filho quanto o Karnal se fizeram conhecidos do grande público antes pelos vídeos e só depois pela escrita, o que ajuda explicar o fenômeno que citei no início desta rápida resenha.

A manutenção do mesmo tipo de linguagem presente nos vídeos, inclusive com passagens já contadas ou citadas em outras oportunidades, cria uma espécie de aproximação (por meio da autoreferência), que conta muito no processo de trazer os seguidores das redes para o consumo da obra escrita.

Em um tempo em que ainda há certo repúdio pelo conhecimento e pela complexidade da leitura de um mundo pautado pela velocidade e pelo imediatismo, vejo com bons olhos o hipe e popularização do pensamento e do ato filosófico.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Da Arte Poética - Livro

Da Arte Poética de Aristóteles. Escrito provavelmente no século IX a.C.. Tradução de Maria Aparecida de Oliveira Silva. São Paulo. Martin Claret, 2015.



"Da Arte Poética" seria, de acordo com estudiosos da obra de Aristóteles, uma compilação de anotações feitas para serem usadas por ele nas aulas que ministrava no Liceu em Atenas.
Apesar de pequena, a parte da obra que sobreviveu ao decorrer dos mais de dois mil anos é de uma densidade tamanha, dado o brilhantismo da análise, que serviria não só para esmiuçar cada um dos elementos narrativos da tragédia grega, mas como um verdadeiro manual sobre a literatura e o teatro clássico, que continuaria inspirando poetas, dramaturgos e cineastas até hoje.

É uma obra seminal pra entender a arte ocidental produzida nos dois últimos milênios, e aqui incluo a literatura, o teatro e o cinema. "Da Arte Poética" é tão importante que é cabível a simplificação de reduzir tudo o que veio depois como confirmação ou ruptura em relação às ponderações de Aristóteles.

Meu primeiro contato com a obra foi há quase 10 anos, por meio do livro "O Teatro do Oprimido" de Augusto Boal, que faz uma leitura crítica do pensamento de Aristoteles e, à luz das teorias de Brecht sobre o teatro épico, propõe uma superação do modelo clássico.

A crítica feita por Boal me deu uma noção ampla do quão arraigado o modelo trágico ainda está na produção literária/teatral/cinematográfica de nosso tempo. E, posições contrárias à parte, o que cabe destacar aqui é que o fato de ter perdurado por mais de dois mil anos por si só já é um indício da força que tal modelo possui.

Entender conceitos e elementos como a imitação, a peripécia, o reconhecimento, o patético e principalmente a catarse é essencial pra qualquer um que se proponha a compreender, analisar ou criticar qualquer obra dotada de narrativa.