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domingo, 19 de maio de 2013

8 Mulheres

8 Mulheres (8 Femmes) - 2002. Dirigido por François Ozon. Escrito por François Ozon e Marina de Van, livremente baseado na peça de Robert Thomas. Direção de Fotografia de Jeanne Lapoirie. Música Original de Krishna Levy. Produzido por Olivier Delbosc e Marc Missonnier. BIM, Canal+, Centre National de la Cinématographie (CNC), Fidélité Productions, France 2 Cinéma, Gimages 5, Local Films e Mars Distribution / França | Itália.


Em sua livre adaptação da peça de Robert Thomas, François Ozon reúne influências de diversos gêneros, inclui um bocado de citações à clássicos do cinema e explora um tipo de humor baseado no exagero e no absurdo. Do texto original, o roteiro, escrito por ele e pela Marina de Van, preservou a crítica social e a visão sarcástica da moral constituída e dos costumes da sociedade no período retratado, além de diversos outros elementos típicos da linguagem teatral. O tom tragicômico que a trama adota em seu desenvolvimento torna menos incômoda, mas não menos contundente, a visão amarga e fatalista dos relacionamentos, que se sobressai no retrato de uma família em processo de desestruturação. Neste ponto está um dos mais notáveis feitos do filme: ele consegue ser ácido sem perder a leveza e criticar sem perder seu senso de humor, que beira ao nonsense em algumas passagens.

A história gira em torno das oito mulheres, às quais o título do filme se refere, elas ficam presas em uma mansão, após um misterioso assassinato, do qual todas são suspeitas. A vítima foi Marcel (Dominique Lamure), o provedor da casa, ele fora encontrado pela manhã em seu quarto com uma faca cravada em suas costas. Isoladas devido à neve alta que cerca a casa e sem poder chamar a polícia, porque os fios do telefone foram cortados, as oito mulheres iniciam uma investigação para elucidar o crime, com um inquérito que acaba pautado pelas inúmeras acusações que trocam e pela revelação de vários segredos, que vêm à tona à medida que o cerco vai se apertando contra cada uma delas. Com o desenrolar da trama, se torna mais difícil apontar uma inocente do que uma culpada, uma vez que todas, sem exceção, são de alguma forma responsáveis pela situação em que a família já se encontrava antes do crime.  


Gaby (Catherine Deneuve), esposa de Marcel, é a herdeira legal de seus bens e isso, somado ao fato de que seu casamento estava em crise, a torna uma das primeiras a serem acusadas. Suzon (Virginie Ledoyen), a filha mais velha, que acabara de chegar para passar o natal,  tem à princípio um bom álibi, não por acaso é ela quem conduz as investigações num primeiro momento, porém, após algumas revelações ela acaba se tornando vítima de sua própria inquisição. Catherine (Ludivine Sagnier), a filha caçula, já não aguenta mais ser tratada como criança e sua revolta adolescente, associada ao seu gosto por livros sobre mistérios e assassinatos, a torna um alvo fácil para acusações e calúnias. Mamy (Danielle Darrieux), sogra do morto, se torna suspeita devido à sua ambição desmedida e seu descontentamento em relação à sua própria situação na casa, a de uma dependente do genro.


Augustine (Isabelle Huppert), cunhada de Marcel, é a típica solteirona afetada, que justifica seu comportamento pedante com seus ataques fingidos e suas falsas doenças, o fato de ela ser uma mentirosa nata a coloca em maus lençóis durante a investigação. Pierrette (Fanny Ardant), irmã da vítima, é dançarina de cabaré e seu comportamento liberal a torna a ovelha negra da família e, óbvio, uma outra grande suspeita, ela, que é a última a entrar em cena, diz ter recebido uma ligação avisando sobre a morte do irmão e por isso resolveu aparecer para checar se a informação era ou não verdadeira. Louise (Emmanuelle Béart), a camareira, desperta a desconfiança das demais com seu jeito sensual e seu comportamento misterioso, típico de uma mulher fatal. Madame Chanel (Firmine Richard), a outra empregada, aparentemente não tinha motivos para cometer o crime, porém ela poderia tê-lo feito para proteger uma outra personagem. 


A reunião deste grupo de personagens caricatos sob um mesmo teto resulta em situações improváveis, que chegam a parecer surreais tamanho o exagero com que são retratadas, todavia, em meio ao absurdo da trama, podem ser percebidos elementos que permitem que ela seja classificada como uma 'farsa', gênero caracterizado pela construção de uma crítica social através de um retrato burlesco das imperfeições e fraquezas humanas. A trama de 8 Mulheres retrata a hipocrisia, a mesquinhez e os preconceitos que a sociedade se nega a aceitar que tem, o tom crítico ganha evidência nas passagens em que são retratados o abismo que existe entre as classes sociais retratadas e o preconceito contra aquele que adota um comportamento diferente do que é tido como padrão, o que se nota na forma com que as empregadas são tratadas e na reação das demais quando uma das personagens assume sua homossexualidade.


O tipo de interpretação que todas as oito atrizes entregam é condizente com a proposta do filme, em seus  gestos largos, empostações vocálicas ritmadas e expressões pitorescas está uma espécie de extensão daquilo que também pode ser observado na direção, no roteiro e na parte técnica da longa. Há uma certa desproporcionalidade em cada um desses aspectos; as interpretações são dramáticas demais, as cores excessivamente saturadas, a trilha sonora recorre aos clichês mais manjados e os números musicais, interpretados por cada uma das oitos personagens, soam deslocados, devido à forma abrupta com que são encaixados na trama. À primeira vista, há a impressão de que estamos diante de uma encenação tosca e pobre em significações, no entanto, a adoção da estética kitsch não se torna um problema para o filme, muito pelo contrário, na verdade, nela se encontram todo o seu potencial reflexivo e originalidade.


François Ozon usa os excessos como elementos da narrativa e imprime em cada um deles a sua marca autoral (a convergência entre linguagens distintas é recorrente em sua obra). Nas mãos de um outro cineasta esta adaptação corria o risco de se tornar um grande fiasco, Ozon, no entanto, elimina todo este risco com seu total domínio da linguagem cinematográfica, o que lhe permite um flerte tão bem sucedido com a linguagem teatral. 


8 Mulheres é uma deliciosa comédia de costume, com ares de mistério e suspense, capaz de nos proporcionar ótimos momentos de entretenimento e reflexão, coisa rara em filmes do gênero hoje em dia. Ao assisti-lo, preste atenção na ótima atuação da Isabelle Huppert (o que constitui um dos melhores aspectos do filme) e no número musical da Fanny Ardant, no qual ela começa um strip tease e para após tirar as luvas  (uma clara referência à cena clássica de Gilda (1946)). 


8 Mulheres ganho o Urso de Prata de Contribuição Artística no Festival de Berlim, um reconhecimento ao desempenho de seu elenco.

Assistam ao trailer de Dentro da Casa no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a crítica de 
Dentro da Casa (2012)também dirigido por François Ozon.

terça-feira, 19 de março de 2013

Os Sapatinhos Vermelhos

Os Sapatinhos Vermelhos (The Red Shoes) - 1948. Dirigido e produzido por Michael Powell e Emeric Pressburger. Escrito por Michael Powell, Emeric Pressburger e Keith Winter, inspirado no conto de Hans Christian Andersen. Direção de Fotografia de Jack Cardiff. Música Original de Brian Easdale. The Archers e Independent Producers / UK.


A efemeridade do sucesso, a busca pela perfeição, as armadilhas do estrelato... Estes temas já renderam excelentes obras no cinema, clássicos como A Malvada (1950) de Joseph L. Mankiewicz e ainda produções recentes como Cisne Negro (2010) de Darren Aronofsky, estes filmes têm comum o fato de que suas tramas funcionam como um retrato sombrio do show business, por mostrar a forma com que ele pode destruir com relativa facilidade a vida daqueles que aceitam participar de seus jogos. Em Os Sapatinhos Vermelhos (1948), obra-prima dirigida por Michael Powell e Emeric Pressburger, tais temáticas também estão estão presentes, seu excelente roteiro aborda a ascensão de duas estrelas, a bailarina Victoria Page (Moira Shearer) e o músico Julian Craster (Marius Goring), ambos são jovens ambiciosos que personificam o prazer do ato criativo e a ânsia de alcançar a perfeição. Boris Lermontov (Anton Walbrook), o diretor do teatro que os contrata, por sua vez, pode ser considerado uma personificação do próprio show biz, ele é um homem elegante, de gosto refinado, porém, detentor de uma aura sombria e de um temperamento rude e cruel.

Na trama, Lermontov descobre Victoria através de uma tia dela, que planejou uma festa em sua casa para ter a oportunidade de expor o talento da sobrinha. Já Julian, se fez ser notado, ele foi até Boris para cobrar pelo uso não autorizado de uma suas composições em um balé produzido por ele. Mesmo não dando o braço a torcer num primeiro momento, Lermontov se rende ao talento dos dois e ambos acabam sendo contratados e, após uma série de eventos, se tornam as estrelas do novo espetáculo da companhia, uma adaptação de Os Sapatinhos Vermelhos, conto trágico escrito por Hans Christian Andersen, autor de clássicos da literatura infantil, como O Patinho Feio, A Pequena Sereia e O Soldadinho de Chumbo. Na estória a ser recontada no palco, a personagem principal é uma bailarina que ganha um par de calçados mágicos e não consegue mais parar de dançar após calçá-los. Sem conseguir tirá-los de seus pés ela dança até não ter mais forças, no final ela cai morta, vencida pela arte que tanto amou.


A trama do filme caminha para um desfecho trágico e a peça encenada é uma espécie de prenúncio do que está para acontecer. Em seu primeiro encontro com Boris, Victoria diz a ele que dançar tinha para ela a mesma importância que viver para ele; não é absurdo acreditar que esta declaração tornou possível a escolha dela para ser a protagonista da nova montagem, naquele momento, ainda que sem saber, ela estava se comprometendo a valorizar mais o balé do que sua própria vida e isso certamente lhe seria cobrado. Ela se apaixona por Julian e o relacionamento iniciado por eles é visto com maus olhos por Lermontov, que não acredita que a moça consiga se entregar com a mesma intensidade aos dois amores, para ele ela deve viver para a dança, tal como havia prometido no primeiro encontro entre eles. A postura do diretor, que à princípio se confunde com mero ciúme, é na verdade muito mais que isso, percebe-se que uma provável atração sexual definitivamente não é o que lhe motiva. 


Boris Lermontov é ao meu ver o personagem mais complexo e intrigante do filme, diferente de Victoria e Julian, que não transcendem a condição de um par romântico, ele não deixa perceptíveis quais são suas reais motivações. Comentei anteriormente que ele personifica o próprio show business e isso pode ser notado na relação dele ele com cada um daqueles com quem ele trabalha; pode-se dizer que ele exerce algum tipo de poder sobre a vida de cada um, afinal todos sabem que estarão condenados ao ostracismo caso se distanciem dele e de sua companhia, ele diz quem deve e quem não deve continuar sob os holofotes e sua visão sobre o futuro de algum candidato ao estrelato tem quase o peso de uma sentença. No entanto, é interessante perceber que ele traz consigo sua própria antítese, ele é visivelmente um homem amargurado e constantemente insatisfeito, como se o poder que detém não lhe fosse o suficiente.


Pela sua insaciedade,  Lermontov pode ser comparado ao titã Prometeu, personagem da mitologia grega que, após tentar roubar o fogo de Zeus para dar aos homens, foi preso a uma rocha e condenado a ter seu fígado devorado por uma águia, esta o dilacerava e voltava tão logo o órgão se restituía, o que acontecia em menos de um dia. Tal como o Titã, Boris tenta dar aos simples mortais algo de sagrado, todavia, ao invés de fogo, ele oferece a aqueles que se subordinam a ele o prazer da busca pela a perfeição artística. A efemeridade do sucesso é águia que o atormenta constantemente. Enquanto uma estrela tem sua carreira devorada pelo simples passar do tempo, ele precisa buscar uma nova, que possa a substituir a atual à altura ou de melhor forma, culminando num ciclo tão opressivo e interminável quanto aquele no qual Prometeu se viu preso. Lermontov vive sua própria tragédia, ele se atormenta com sua obrigação de erguer novas celebridades, uma busca tão angustiante que o faz ansiar por uma estrela que não se apague tão rapidamente, uma que valorize o espetáculo mais do que sua própria vida...


Os Sapatinhos Vermelhos não é uma obra genial e à frente de seu tempo somente por causa da brilhante metáfora que cria do show business; trata-se de uma obra impecável também pelos aspectos técnicos, sua direção de arte é impressionante, associada à fotografia, ela ajuda a compor cada um dos ambientes, tornando-os ao mesmo tempo belos e opressivos, o que é reforçado pela constante presença de sombras e cores desbotadas e de objetos cênicos que evocam alguma espécie de negativismo, como flores murchas e peças de decoração soturnas (o que contrasta com o positivismo que emana do comportamento da personagem principal). A melancolia, implícita na maior parte do filme, se torna evidente na passagem de mais de 15 minutos em que a peça baseada na obra de Andersen é encenada, nesta sequência, que é pura perfeição, a morbidez dos ambientes contrasta com o colorido dos sapatinhos usados pela bailarina, cujo vermelho escarlate é destacado pela direção de fotografia, representando bem tanto a intensidade, quanto a fugacidade do sucesso.


A excelente montagem confere ao filme um ritmo crescente, que ajuda a atenuar a ansiedade despertada em nós expectadores acerca do desfecho da trama, ela ainda torna possível a sensação de continuidade e aceleração, tão importante na já citada sequência que retrata a apresentação de Os Sapatinhos Vermelhos. Os movimentos de câmera e enquadramentos têm uma precisão incrível (prestem atenção na forma com que a câmera acompanha a bailarina em alguns momentos da encenação, parecendo dançar junto ela), o que colabora com a narrativa através da criação de rimas visuais e autorreferências (reparem como a sequência final remete à passagem que mostra a apresentação do balé)... Moira Shearer, que realmente filmou cada uma das cenas de dança, está excelente, este é de fato um momento sublime de sua carreira; Anton Walbrook não está menos formidável que ela, ele compõe seu personagem basicamente com sutilezas, que incluem seus olhares, sorrisos sarcásticos e as suas memoráveis feições de  desdém e deboche.


Os Sapatinhos Vermelhos é de fato uma obra que não envelheceu, depois de mais de seis décadas sua trama e todo seu aparato técnico continuam tão impactantes quanto imagino que tenha sido na ocasião de seu lançamento, a diferença talvez esteja no fato de que hoje o deslumbramento que ele é capaz de nos provocar seja causado mais pela sua potencialidade reflexiva do que pelos seus méritos estéticos. Sua temática central (a fugacidade do sucesso associada a busca ensandecida pelo momento de glória sob os holofotes) é ainda mais atual e pertinente hoje do que era na época em que o filme estreou nos cinemas, com a diferença de que atualmente a elevação de artista ao estrelato pressupõe seu esvaziamento artístico, o que de fato é contraditório. Ta situação, que o filme sutilmente critica, nos priva de ver nos palcos de hoje em dia um momento de glória tão sublime quanto o vivido pela personagem durante sua interpretação... Sobre esta sequência, Darren Aronofsky, que bebeu bastante da fonte de Sapatinhos Vermelhos para fazer Cisne Negro, provavelmente diria: "Eles foram perfeitos!" - Ultra Recomendado! 


Curiosidade: Os Sapatinhos Vermelhos é um dos filmes favoritos do mestre Martin Scorsese, que foi quem investiu no seu processo de restauração, através de sua fundação, a A World Cinema Foundation. Graças ao trabalho do Scorsese temos acesso hoje à uma obra com tamanha qualidade de som e imagem.

Os Sapatinhos Vermelhos ganhou o Oscar nas categorias de Melhor Direção de Arte e Trilha Sonora, tendo sido indicado também nas de Melhor Filme, Roteiro e Montagem.

Assista ao trailer de Os Sapatinhos Vermelhos no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

sábado, 9 de março de 2013

Dançando no Escuro

Dançando no Escuro (Dancer in the Dark) - 2000. Escrito e Dirigido por Lars von Trier. Direção de Fotografia de Robby Müller. Música Original de Björk. Produzido por Vibeke Windeløv. Zentropa Entertainments, Trust Film Svenska, Film i Väst e Liberator Productions / França | Espanha | Argentina | Dinamarca | Alemanha | Itália | USA | UK | Finlândia | Noruega | Holanda | Suécia | Islândia.


Ambientado nos Estados Unidos em meados do século passado, Dançando no Escuro (2000) retrata o calvário de Selma Jezkova (Björk), uma imigrante do leste europeu que fora para a América em busca de condições para pagar a cirurgia de Gene (Vladica Kostic), seu único filho, que corre o risco de ficar cego caso não seja operado a tempo. Ela é vítima do mesmo mal que o garoto tende a desenvolver, porém, para ela já é tarde demais, sua visão já está seriamente comprometida e seu quadro é irreversível. Apesar disso, ela trabalha à exaustão em uma fábrica para juntar o dinheiro necessário para pagar a cirúrgia. As sucessivas peripécias que acontecem em sua vida começam quando o policial Bill Houston (David Morse), seu senhorio, descobre a quantia que ela guarda no trailer onde mora, ele, que está passando por sérios problemas financeiros, passa a cobiçar o dinheiro que ela juntou com tanta dificuldade. O que se segue a partir de então é uma sucessão de injustiças, que são agravadas pelo fato de Selma ser uma imigrante completamente indefesa em uma país hostil.

O microcosmo retratado pelo filme é uma óbvia alegoria da sociedade americana, Bill e sua esposa Linda (Cara Seymour) são personificações do próprio Tio Sam, através de suas atitudes eles ilustram a hipocrisia e a ganância, características estas que o cineasta, através de seu roteiro, associa ao american way of life. A fábrica onde Selma trabalha é uma representação da crueldade e desumanização do modelo capitalista e os absurdos presentes na trama seriam a prova da falência das instituições legais e das autoridades do país. A trajetória da personagem, retratada no filme de uma forma cruel e sem atenuantes, na qual o melodrama choca mais do que emociona, constitui em si uma contundente crítica à uma organização social que menospreza e não dá voz para o fraco, na qual a xenofobia se sobrepõe ao compadecimento pelo sofrimento alheio. Selma não é vítima apenas das pessoas que se aproveitam de sua condição, mas de todo um sistema, cujos tentáculos estão presentes em cada um dos meios com os quais ela tenta se relacionar.


Diferente de Dogville (2003), filme no qual Lars von Trier esboça uma visão bem mais pessimista acerca do americano médio e de seu modo de vida, Dançando no Escuro retrata também a determinação de algumas pessoas em ajudar a personagem principal, Jeff (Peter Stormare), que é apaixonado por ela, e Kathy (Catherine Deneuve), sua colega de trabalho, são amigos dispostos a ampará-la, porém suas boas vontades se mostram incapazes diante da irracionalidade da sociedade da qual fazem parte. No comportamento de Gene é possível perceber uma influência negativa da cultura americana, diferente da mãe, ele se torna materialista e valoriza mais os bens que pode possuir do que as experiências autênticas, que sua progenitora tanto busca, em dado momento da história ele se queixa de que todos os seus colegas da escola têm uma bicicleta e ele não,ele acredita que este fato por si só possa justificar a cobiça que ele começa a alimentar. 


Selma é apaixonada pelos musicais clássicos de Hollywood, neles ela encontra uma espécie de refúgio, onde as dores de sua realidade não podem alcançá-la. Nas poucas horas vagas que tem, ela se desdobra para cuidar do filho e da casa e ainda arruma tempo para ir ao cinema e participar de ensaios de uma remontagem da peça A Noviça Rebelde. Em diversos momentos, ela se imagina dentro de um filme, isso acontece mesmo quando ela está na barulhenta linha de produção da fábrica onde trabalha. Por alguns minutos sua realidade se torna menos angustiante, apesar de ainda ser dolorosa, o que fica evidente no misto de melancolia e libertação, que emana de cada uma das canções que ela interpreta nestes momentos de quimera. Tais sequências musicais são fotografadas com cores mais vivas, que contrastam com os tons desbotados que predominam nas outras passagens, tal efeito nos dá a percepção de que são nestes momentos que a personagem se sente viva de verdade. Curiosamente, ela passa a enxergar quando se vê dentro de um de seus devaneios.


As canções interpretadas nestes números musicais foram compostas pela própria Björk, cada uma delas parece desnudar a alma da personagem, expondo não só a sua intensa dor, mas também a esperança que a mantém firme, mesmo em meio às adversidades. O desempenho da cantora é uma das mais gratas surpresas do filme, ela está formidável, a grandeza de sua atuação pode ser notada na intensidade com que interpreta cada uma das canções (o que não é novidade para quem já conhece a sua obra musical) e pela sua total entrega à personagem, o que chega a ser assustador em alguns momentos. Todos os sentimentos experimentados pela protagonista são interpretados de uma maneira impactante e ao mesmo tempo natural, que parece verossímil mesmo sendo parte de um contexto que não deixa de ser caricato e alegórico.


Os traços característicos da marca autoral de Lars von Trier estão presentes na trama e no minimalismo dos recursos técnicos utilizados, o que remonta à algumas das regras que marcaram o controverso movimento Dogma 95, que ele ajudou a criar em meados dos anos 90. A câmera de mão instável, operada pelo próprio cineasta e a despreocupação com valores puramente estéticos são traços do movimento que foram mantidos no filme (seus trabalhos mais recentes já denotam uma ruptura com tais preceitos). Dançando no Escuro foi todo filmado com uma câmera digital e com relativamente poucos recursos tecnológicos. Ao conceber sua obra de tal forma, Lars cria um interessante contraponto com os musicais clássicos, nos quais frequentemente a forma se sobrepunha ao conteúdo (o que deixa a dúvida se o que ele faz é prestar uma homenagem ou tecer uma crítica ao formato). Se os filmes de outrora ofereciam para seus espectadores uma forma de escapismo (o que Selma tanto valoriza na trama), o roteiro de Lars vai na contramão. Apesar de alegórico, ele nos coloca em contato é com uma realidade que não está tão distante da nossa e é isso que o torna tão indigesto.


Dançando no Escuro não é um filme indicado para aqueles que valorizam tramas reconfortantes e inofensivas, os que buscam um feel good movie sobre superação devem passar o mais longe possível dele. Muitos desavisados tiveram suas expectativas frustradas e o consideraram angustiante, depressivo e até mesmo agressivo, eu, no entanto, acredito que sua grandiosidade artística esteja justamente na intensidade daquilo que ele desperta em nós espectadores, sejam estes sentimentos e sensações positivos ou não. O que ele nos proporciona não é uma sensação artificial e passageira (típica das produções hollywoodianas), mas sim uma reflexão profunda e necessária, acerca das distorções éticas e legais de um sistema composto por leis, costumes e valores que não nos são de todo estranhos... Dizer que se trata de mais uma obra-prima do polêmico diretor dinamarquês é chover no molhado - Ultra recomendado para aqueles que buscam a intensidade das emoções genuínas e se entregam a elas sem medo! 


Dançando no Escuro foi indicado ao Oscar na categoria de Melhor Canção (I've Seen It All) e no Globo de Ouro nas de Melhor Canção (I've Seen It All) e Melhor Atriz em um Filme de Drama (Björk).

Assistam ao trailer de Dançando no Escuro no You Tube, cliquem AQUI !

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade as resenhas críticas de
Anticristo e Melancolia, também escritos e dirigidos por Lars von Trier!

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra, 

sábado, 26 de janeiro de 2013

Os Miseráveis

Os Miseráveis (Les Misérables) - 2012. Dirigido por Tom Hooper. Escrito por William Nicholson e James Fenton, com composições de Herbert Kretzmer, baseado no musical de Alain Boublil e Jean-Marc Natel; no livro de Claude-Michel Schönberg e de Alain Boublil e no romance de Victor Hugo. Direção de Fotografia de Danny Cohen. Produzido por Tim Bevan, Eric Fellner, Debra Hayward e Cameron Mackintosh. Working Title Films e Cameron Mackintosh Ltd. / UK.


Antes de dar início às considerações sobre Os Miseráveis (2012) é preciso deixar claro que este musical dirigido por Tom Hooper não é uma adaptação direta do clássico literário de Victor Hugo, mas sim da peça homônima escrita por Alain Boublil e Jean-Marc Natel. Por conta disso, o que vemos na tela é uma convergência entre a linguagem teatral e a cinematográfica, onde em diversos aspectos se sobressai a primeira. A parte do público que não está acostumada com este tipo de linguagem provavelmente a estranhará. É preciso lembrar também que em musicais, independente da história contada, o senso de realismo diminui para ceder espaço para a criação de alegorias e representações daquilo que seria de fato real, o que neste caso remete ao formato da tragédia grega, na qual os personagens eram definidos, não pelo nível de profundidade psicológica que tinham, mas pelas atitudes que tomavam e pelas consequências delas. 

Aristóteles, em sua obra A Poética, classificou a tragédia como "a imitação de uma ação completa e elevada, em uma linguagem que tem ritmo, harmonia e canto", esta definição se enquadra perfeitamente no filme de Hooper e as semelhanças com o formato clássico vão alémJean Valjean (Hugh Jackman), o personagem central de Os Miseráveis, traz em sua composição diversos elementos característicos do herói trágico, ele é um homem virtuoso, porém um único ato falho lhe conduz à inúmeras peripécias que destroem completamente sua vida, todavia, diferente do herói do teatro grego, ele não acaba sendo determinado por sua falha, mas pelo que resulta dela, é então que nos deparamos com aquele que é o tema central da obra de Victor Hugo, que felizmente foi mantido no longa: o embate entre a justiça, representada pela lei, e a graça, representada pelo perdão. 


A história começa em 1815 com Jean Valjean sendo solto, após 19 anos de trabalho forçado, ele fora condenado por ter roubado um pão para alimentar o sobrinho que estava na beira da morte e sua permanência na prisão foi prolongada devido a uma tentativa de fuga. No entanto, a liberdade condicionada que Valjean acabara de ganhar não lhe restitui sua vida, em cada lugar onde chega, ele precisa apresentar seu termo de condicional, o que desperta o medo e o repúdio das pessoas, que passam a tratá-lo como se ele não fosse digno de qualquer misericórdia. Um bispo (vivido por Colm Wilkinson), que encontra Jean dormindo na rua, lhe oferece comida e abrigo, mas antes do raiar do dia, o ex-presidiário foge levando consigo diversas peças de prata. Ele é novamente capturado e trazido à presença do religioso, que surpreendentemente decide isentá-lo da culpa. 


O bispo conta para o policial que as peças de prata foram dadas a Valjean de presente e que inclusive, na pressa, ele esquecera de levar dois castiçais, também de prata. Em troca, já longe da vista dos policiais, o religioso apenas pede a Jean, que ele use o que lhe foi dado para iniciar uma nova vida (a prataria possuía um altíssimo valor). Este gesto gracioso deixa o personagem envergonhado de seu próprio ato e muda completamente a percepção dele sobre sua própria desgraça, aquele ato de perdão passa a guiar sua consciência a partir de então,  disposto a começar uma nova história, ele rasga sua carta de condicional e troca de identidade. Sua paz, no entanto, não dura muito tempo, pois o cruel Javert, que fora guarda da prisão onde ele esteve por tantos anos, se torna chefe de polícia na cidade para onde ele foi. Passa a ser uma questão de tempo até Valjean ser descoberto e condenado a pagar pela quebra da condicional.


Em sua trajetória, que como eu disse é repleta de peripécias, Jean Valjean cruza o caminho de diversas pessoas, cuja vida ele acaba transformando, nem sempre para melhor. Fantine (Anne Hathaway) é uma mãe solteira que se vê obrigada a descer até o fundo do poço para conseguir sustentar a filha pequena, Cosette (interpretada por Amanda Seyfried na juventude), que mora em uma estalagem administrada por um esperto casal de trapaceiros, os Thénardier (Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter). Éponine (Samantha Barks), Marius Pontmercy (Eddie Redmayne), Enjolras (Aaron Tveit) e Gavroche (Daniel Huttlestone) são jovens militantes que acreditam na liberdade e se juntam à luta armada para tentar proclamar a república e eliminar a pobreza que assolava o país. Todos estes personagens interagem com Valjean em algum momento da história e suas respectivas realidades dão um panorama de qual era a situação na França no período retratado.


O livro de Victor Hugo (que ainda não terminei de ler) desenvolve melhor cada um dos personagens e adentra com uma maior profundidade em cada um dos temas que aborda, todavia, esperar que a peça ou o filme faça o mesmo seria tolice, uma vez que é praticamente impossível condensar em menos de três horas, uma trama que se desenvolve por anos a fio e que no livro ocupa mais de mil páginas na maioria das edições (a obra literária é frequentemente dividida em dois volumes). Contudo, o filme preserva aquilo que ao meu ver é o essencial, o já citado embate entre a lei e a graça, aspecto este que é relativamente bem trabalhado na trama, evocando reflexões sobre o quão difícil é perdoar sem pedir nada em troca e também ser perdoado sem oferecer em favor do misericordioso algum tipo de retribuição (dilema enfrentado por um dos personagens no filme).


Ao contrário do que parte da crítica tem afirmado, os números musicais não deixam tanto a desejar. A dificuldade de alguns dos atores em soltar a voz é notável, mas compreensível, visto que esta é a primeira vez que  boa parte deles participa de uma produção do gênero, no entanto isso não compromete a narrativa, que se mantém ancorada sobre as boas atuações (que não se resumem à técnica vocal). A presença de atores que fizeram parte da montagem teatral ajuda muito neste aspecto, são deles, obviamente, as melhores interpretações musicais, dentre as quais destaco o número solo da Samantha Barks, um dos melhores do filme. O Hugh Jackman e a Anne Hathaway estão muito bem, é possível perceber o quanto eles estão à vontade em seus personagens, diferente do Russell Crowe, que convence mais pelo esforço do que pela destreza. O Sacha Baron Cohen e a Helena Bonham Carter seguram bem o viés cômico do filme, a primeira sequência protagonizada por eles funciona como um alívio para o drama predominante na história até então.


Não creio que Os Miseráveis seja merecedor de todos os prêmios aos quais tem sido indicado, ouso dizer que há um pouco de exagero por exemplo em sua indicação ao Oscar de Melhor Filme, uma vez que ele, apesar de ser uma boa produção, não traz nada tão excepcional e ainda tropeça em alguns aspectos técnicos, como por exemplo a construção das cenas de ação, que deixam bastante a desejar (felizmente são poucas). Ao meu ver, apenas as indicações aos prêmios de Melhor Figurino e Direção de Arte são inquestionavelmente justas, pois nestes aspectos o filme é praticamente impecável. 

Recomendo o filme para todos com a ressalva de que não se pode encontrar nele a mesma profundidade e o mesmo detalhismo do livro que indiretamente o originou. 

Os Miseráveis ganhou o Globo de Ouro nas categorias de Melhor Filme de Comédia ou Musical e Atriz Coadjuvante (Anne Hathaway). Ele está indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Ator (Hugh Jackman), Atriz Coadjuvante (Anne Hathaway), Canção Original (Suddenly), Maquiagem, Figurino, Direção de Arte e Mixagem de Som.


Assistam ao trailer de Os Miseráveis no You Tube, clique AQUI !


A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A Noiva Cadáver

A Noiva Cadáver (Corpse Bride) - 2005. Dirigido por Tim Burton e Mike Johnson. Escrito por Tim Burton, Carlos Grangel, John August, Caroline Thompson e Pamela Pettler. Direção de Fotografia de Pete Kozachik. Música Original de Danny Elfman. Produzido por Tim Burton e Allison Abbate. Warner Bros. Pictures, Tim Burton Animation Co., Laika Entertainment, Patalex Productions, Tim Burton Productions e Will Vinton Studios / USA | UK.


Os últimos filmes em live action dirigidos pelo Tim Burton foram verdadeiros fracassos de crítica, eles deixaram a impressão de que o cineasta tinha perdido sua criatividade e embarcado em uma série de reconstruções de uma mesma fórmula, que diga-se de passagem já estava desgastada há bastante tempo. Filmes como Alice no País das Maravilhas (2010) e Sombras da Noite (2012) derraparam em um aspecto que fora no passado um dos grandes diferenciais da filmografia do cineasta: o roteiro. Em ambos os casos prevaleceu a a percepção de que os malabarismos técnicos, que eram realmente dignos de elogio, serviam apenas para camuflar as várias irregularidades e convencionalismos proporcionados pela trama. Sendo assim, não é de se estranhar que na animação o diretor consiga resultados mais expressivos, uma vez que neste gênero um texto minimalista e sem tanta profundidade acaba funcionando melhor. Frankenweenie (2012), que comentarei em outro texto, é uma prova disso; mas esta não é a primeira vez que ele acerta em um longa neste formato, em A Noiva Cadáver (2005), o objeto desta resenha, ele fez um excelente uso da estética que sempre foi recorrente em sua obra e o resultado foi, ao menos para mim, surpreendente.

No filme de 2005 Burton conseguiu reunir vários dos elementos que caracterizaram sua marca autoral e que o tornaram conhecido em meados dos anos 80, lá estão o flerte com o sobrenatural e a influência do ultra-romantismo e da estética gótica. No filme ele destila um senso de humor ácido, que não destoa em momento nenhum da aura soturna que a história tem. É interessante perceber a forma com que o roteiro desmonta algumas convenções sociais e critica outras, tudo de uma forma leve e sem qualquer tipo de apelo cômico ou dramático, do tipo de que pode ser notado em alguns de seus filmes mais recentes. A Noiva Cadáver possui uma trama simples, quase infantil, que brinca com situações típicas dos contos de fadas, como o amor proibido, o casamento arranjado pela família dos noivos e a quebra de um feitiço ou maldição que  impede que os protagonistas tenham um final feliz.


A história contada pelo filme gira em torno de um triângulo amoroso inusitado, no primeiro de seus vértices está Victor Van Dort (voz de Johnny Depp), um rapaz tímido vindo de uma família emergente, seus pais lhe arranjam um casamento com uma moça rica, para assim conseguirem adentrar no círculo social dominante; sua noiva, que está no segundo vértice, é Victoria Everglot (voz de Emily Watson), a família dela está falida, mas ainda conserva o status outrora conquistado, os pais dela vêem em seu casamento uma chance de voltarem a ser ricos de verdade. Por ser muito atrapalho, Victor não consegue fazer os votos matrimoniais, o que deixa o pastor local bastante nervoso. O religioso se recusa a prosseguir com o casamento enquanto o noivo não estiver realmente preparado para ele. Frustrado, ao descobrir que não conseguiria casar, mesmo tendo gostado da noiva, Victor foge para a floresta. Após declamar perfeitamente seus votos em uma clareira sob a lua cheia, ele coloca a aliança no dedo de uma cadáver, achando que se tratava de um galho.


Os votos acabam despertando a defunta, ela é Emily (voz de Helena Bonham Carter), uma moça que morrera logo após ter se casado com um homem que mal conhecia. Radiante por ter finalmente encontrado um outro noivo, ele toma Victor pelos braços e o leva para o subterrâneo, onde está localizado o mundo dos mortos. A partir de tal ponto, o roteiro entrelaça as duas histórias, a do mundo dos vivos e a do mundo dos mortos, deixando o noivo dividido entre a noiva que lhe espera e aquela para quem declamou os juramentos matrimoniais. Emily é tão ingênua quanto Victor, porém ela não está disposta a abrir mão do marido que acabara de conquistar...


Durante todo o filme o mundo dos vivos é retratado de forma sombria, em todas as passagens nais quais ele é mostrado a fotografia valoriza tons monocórdicos, com predominância do azul e do branco, o que dá a ele um aspecto frio e mórbido, o que nos remete às motivações daqueles que o povoam. Já o mundo dos mortos é todo colorido, nele predominam as tonalidades fortes, o que gera um contraste interessante. Enquanto no primeiro as relações entre os personagens se dão por interesses mesquinhos, no segundo não há egoísmo, distinção de classes sociais ou formalismos, lá todos vivem em uma festa que parece nunca parar e todos os recém chegados são bem recebidos e convidados a se juntarem à comemoração ensandecida.


Em algumas passagens a técnica de stop motion, conhecida pelo uso de bonecos de massinha, me pareceu um tanto primitiva (principalmente quando a comparamos com outras produções nas quais ela foi usada), no entanto, nem isso tira o filme do alto nível de qualidade que ele alcança em praticamente todos os outros aspectos. A composição dos cenários é muito bem realizada, ela ao lado da fotografia, reforça as diferencias mencionadas, que existem entre o mundo dos vivos e o dos mortos. O filme flerta em diversos momentos com o gênero musical e este, que poderia ser um de seus problemas, acaba sendo um de seus atrativos. As canções interpretadas pelo elenco são muito bem encaixadas na trama e auxiliam no desenvolvimento da narrativa, substituindo outros elementos como a narração e o flash back.


A Noiva Cadáver é de fato um ótimo filme, que entretém e diverte mantendo um bom nível de qualidade, sua curta duração, que talvez seja motivada pelo trabalhoso uso do stop motion, é no fim das contas um fator positivo, pois ele não se prolonga além da conta e nem perde o ritmo em nenhum momento. Este é o Tim Burton que dá prazer assistir e comentar. Recomendo para todos! 


Assistam ao trailer de A Noiva Cadáver no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a crítica de Sombras da Noite, também dirigido por Tim Burton!

quarta-feira, 25 de julho de 2012

O Pequeno Príncipe

O Pequeno Príncipe (The Little Prince) - 1974. Dirigido e Produzido por Stanley Donen. Escrito por Alan Jay Lerner, baseado na obra literária de Antoine de Saint-Exupéry. Direção de Fotografia de Christopher Challis. Trilha Sonora Original de Angela Morley. Paramount Pictures / USA | UK.

O musical foi um dos gêneros cinematográficos de maior sucesso nas primeiras décadas que sucederam o advento do cinema falado, durante os anos 30, 40 e 50 o gênero foi um dos grandes filões da indústria Hollywoodiana. Produções realizadas com orçamentos megalomaníacos faziam uma confluência de diversas expressões artísticas; teatro, ópera e arte circense se misturavam em verdadeiros espetáculos sonoros e visuais. Neste período todos os grandes estúdios investiram muito dinheiro em filmes que tinham retorno praticamente garantido, contudo, durante os anos 60 o cenário começou a mudar. Os sucessivos fracassos de bilheteria, que quase levaram algumas produtoras à falência, indicavam que o cinema precisava se reinventar e foi o que aconteceu, era chegada a vez de produções menos espetaculosas, mais realistas e de baixos orçamentos. Os recursos, que antes pareciam ilimitados, diminuíam e junto com eles a influência dos grandes estúdios no processo criativo. Começava a despontar, também em Hollywoody, um cinema mais 'jovem', dotado de um cunho mais autoral, que trazia influências do Neorrealismo Italiano e da Nouvelle Vague Francesa.

Stanley Donen foi um dos mais importantes cineastas deste período, ele, que vive até hoje, tem no currículo alguns verdadeiros clássicos da história da sétima arte, mas mesmo já sendo respeitado e tendo uma trajetória já consolidada ele não escapou de ser afetado pelo arrefecimento do gênero, ao qual sempre teve seu nome associado. Na década de 60 ele passeou por outras vertentes cinematográficas, como o suspense e a comédia romântica, mas sem alcançar o sucesso e o prestígio de outrora. Em 1974, depois de 16 anos, ele voltaria a dirigir um musical (o último tinha sido Damn Yankees! de 1958), esta nova incursão no gênero seria com O Pequeno Príncipe, adaptação da obra literária de Antoine de Saint-Exupéry.


Esta breve introdução serve para contextualizar e localizar cronologicamente o filme O Pequeno Príncipe na linha temporal do gênero ao qual ele pertence, isto para sustentar a minha afirmação (polêmica) de que ele é um exemplo perfeito da decadência criativa de um cineasta e do ostracismo de um determinado formato. A obra não possui sintonia estética alguma com a época na qual foi lançada e eu não consigo ver nela nada que sustente sua volta ao passado. Não se trata de um filme saudosista, nem há a pretensão de prestar homenagem à época a qual ele nos remete e a trama em si não depende deste formato para ser trabalhada. Esta discrepância estilística denota a falta de criatividade de Donen e sua tentativa de restabelecer seu prestígio voltando ao gênero que o consagrou. O problema é que no caminho desta 'volta' há inúmeros tropeços e ele não consegue chegar nem perto do sucesso de outrora.


O primeiro tropeço sofrido pelo filme está no processo de adaptação e na construção de seu roteiro, há uma tentativa exagerada de ser fiel à proza da obra literária e isto faz com que o filme perca toda sua propriedade como obra artística. Alan Jay Lerner, o roteirista, quase não foge do texto original e da sequência dos fatos narrados no livro e quando ele o faz é da pior maneira possível, eliminando personagens e situações de grande importância para a trama. Neste processo toda a aura da história contada por Antoine de Saint-Exupéry é perdida, o que faz com que o filme se torne superficial, ele não consegue nos emocionar e tão pouco nos conduzir às mesma reflexões que o livro nos inspira sobre temas diversos, como a infância, o apego ao 'visível' e as relações interpessoais.


O filme também tropeça naquilo que deveria ser o seu aspecto mais forte, as cenas de música e dança., a maior parte dos números são sofríveis e neste ponto fica mais uma vez evidente o quando o formato tinha se desgastado. As músicas não são ruins, todavia elas não possuem algo a mais, não há quase nenhuma emoção nelas, o que talvez seja culpa do excesso de tecnicismo das atuações (que é outro grande problema do filme). A sequência musical protagonizada por Gene Wilder, por exemplo, beira ao ridículo, aparentemente houve uma tentativa de fazer algo simples e que fosse de alguma forma cativante (desculpem o trocadilho), mas como eu disse, falta emoção e neste caso em especial falta também técnica, não do ator, mas da direção. Já a passagem encenada pelo lendário coreógrafo e diretor Bob Fosse é melhor estruturada, ele obviamente mostra maior destreza que Wilder para dançar e cantar, porém esta sequência em si peca por se alongar demais.


Na construção dos cenários do filme pode-se perceber outra discrepância em relação ao formato clássico, enquanto na época de ouro do gênero os filmes eram rodados não em locações, mas em enormes cenários construídos especificamente para este fim, em O Pequeno Príncipe há também pouquíssimas cenas filmadas em locações, mas não há cenários suntuosos, no longa são usadas técnicas de Traveling Mattes (montagens por composição) para inserir os personagens no ambiente diegético em que se encontram, o problema é que a técnica usada é bastante primitiva, mesmo para a época, o que realça a artificialidade da narrativa. A situação piora em algumas tomadas nas quais são usada lentes especias para passar uma ideia de diferenciação geográfica, isto para distinguir o lugar onde os personagens se encontram naquele momento dos demais, a pretensão foi boa, no entanto o resultado é visualmente horrível.


Apesar de tantos desacertos, o filme tem sim pontos positivos que merecem ser destacados, dentre eles o desempenho do ator-mirim Steven Warner, que interpreta o personagem central, sua atuação não tem nada de tão extraordinária, no entanto ele consegue nos cativar, façanha que nenhum outro ator realiza, nem mesmo Gene Wilder. Dentre os aspectos técnicos, vale destacar os figurinos dos personagens, todos muito bem feitos e condizentes com a imagem formada em nosso imaginário pelas aquarelas desenhadas por Saint-Exupéry, presentes na maioria das edições do livro. 


A história de O Pequeno Príncipe é narrada por um avidar (Richard Kiley) que caiu no deserto do Saara após um acidente, ela gira em torno do principezinho, o único habitante de um asteroide distante, que inicia uma viagem pelo universo em busca do contato com outras pessoas; ele passa por diversos planetas, onde encontra figuras peculiares, como o rei egocêntrico e o homem de negócios ganancioso, até chegar à Terra, onde por fim se encontra com o aviador em pleno deserto... Pessoalmente entendo este último encontro como uma metáfora para a busca da infância perdida, se o aviador é um alter-ego do escritor, o principezinho é a idealização da meninice e de sua magia e simplicidade; de acordo com minha interpretação, o deserto seria um período da vida adulta no qual nos vemos num conflito entre aquilo éramos e aquilo no que nos tornamos... 


Para quem nunca leu a obra literária, o filme pode parecer bonitinho, apesar de ser tecnicamente ordinário, afinal ainda que reduzida a uma trama superficial a história ainda continua bela e memorável, no entanto não recomendo que a opção pelo filme seja feita em detrimento da leitura do livro, afinal, como eu já havia dito, apesar de usar a obra de Saint-Exupéry como muleta, o longa de Stanley Donen não chega nem perto de atingir a sensibilidade e a poesia tocante do texto original. A minha conclusão é a de que o diretor deveria ter buscado reencontrar sua criança interior ante de meter a filmar esta adaptação. Difícil acreditar que este filme foi realizado pelo mesmo cineasta que co-dirigiu aquele que é na minha opinião o melhor musical de todos os tempos, Cantando na Chuva (1952)...


O Pequeno Príncipe foi indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Canção Original e Melhor Trilha Sonora Adaptada (categoria existente na época).

Assistam ao trailer de O Pequeno Príncipe no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

Assisti a este filme na primeira exibição do Cineclube realizado no Centro Cultural Fezefaiz!