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sábado, 3 de janeiro de 2015

Um breve, porém intenso, mergulho no cinema argentino!


Não foi algo planejado. Eu estava à procura do filme Relatos Selvagens (2014) - coprodução entre Argentina e Espanha, escrita e dirigida pelo Damián Szifron, produzida pelo Almodóvar e com nomes como Ricardo Darín, Darío Grandinetti e Leonardo Sbaraglia no elenco - e, depois de algumas tentativas frustradas desisti de encontrá-lo, foi então que veio a ideia de colocar em dia, ao menos em parte, a enorme dívida que tenho com o cinema argentino. Minha intenção inicial era assistir a dez filmes, acabou sendo nove, pois não consegui encontrar legenda compatível para um deles. A maioria dos filmes assistidos foram lançados no início da década passada, o que não foi intencional, daria para fazer um passeio semelhante passando apenas por obras mais recentes. Esta seleção, no entanto, acabou sendo um reflexo daquele que foi um dos períodos mais prolíferos da cinematografia no país, o auge do 'movimento', surgido na década de 90, que ficou conhecido como Novo Cinema Argentino. 

Durante esta pequena maratona foi quase inevitável não fazer comparações entre o cinema argentino e o nosso. No tocante à qualidade das obras, acredito que temos uma produção tão prolífera e boa quanto a deles. A diferença está, não no processo artístico/criativo, mas no mercadológico. Os hermanos têm conseguido contornar problemas nos quais ainda tropeçamos, boa parte deles relacionado ao financiamento público da produção (geralmente feito através de políticas de incentivo) e à distribuição. A impressão que se tem é a de que os filmes de lá não visam apenas o mercado interno (diferente de boa parte daquilo que é produzido hoje no Brasil) e as melhores obras não ficam restritas apenas ao circuíto de mostras e festivais, como ainda acontece por aqui, o que indica que a industria cinematográfica se encontra em estágios de maturidade diferentes nos dois países. [Pretendo voltar à estas questões em um post específico]. 

Recomendo esta breve maratona para todos! Para iniciá-la, dispa-se da rivalidade tola que fora alimentada durante muito tempo entre os dois países, abra a sua alma e se permita ser impactado por ótimas produções de diferentes gêneros, com propostas diferentes, mas pertencentes a um todo, que daria orgulho a qualquer país! Abaixo seguem breves considerações sobre cada um dos filmes assistidos: 


Minha modesta maratona, que durou uma semana, foi iniciada com O Filho da Noiva (2001), uma pequena obra-prima de Juan José Campanella. O filme, que é o segundo da fruto da longeva e bem sucedida parceria do diretor com o ator Ricardo Darín, tem em sua composição dois dos grandes trunfos do cinema produzido pelos hermanos: a sensibilidade e a universalidade. No centro da história está Rafael (Darín), ele se formou em direito, mas acabou assumindo o restaurante do pai por não ter alcançado sucesso na carreira de advogado. Sobrecarregado por afazeres e responsabilidades,  ele ainda precisa lidar com problemas e conflitos familiares. A pressão é enorme, ele tenta segurar as pontas mas não resiste, o preço a ser pago vem na forma de um infarto, que o deixa por vários dias na UTI, período no qual ele se vê imersos em reflexões forçadas sobre a sua vida e as escolhas que fez. A oportunidade de Rafael encontrar alguma paz interior vem quando o seu pai, Nino (Héctor Alterio), anuncia que quer finalmente se casar na igreja com a sua mãe, Norma (Norma Aleandro); uma proposta ousada devido a um pequeno problema, Norma tem perda de memória, provocada pelo mal de alzheimer, e é incapaz de responder pelos seus atos. O desenrolar da história é uma verdadeira ode ao amor e à valorização dos pequenos prazeres. 


O segundo filme da maratona foi Nove Rainhas (2000), longa dirigido por Fabián Bielinsky, também protagonizado por Ricardo Darín. No centro de sua trama estão dois trapaceiros profissionais, Marcos (Darín) e Juan (Gastón Pauls), eles se conhecem quase que por acaso e decidem 'trabalhar' juntos por um dia. É justo neste dia que surge a oportunidade de aplicar um golpe milionário, que envolve a réplica de uma série de selos raros e um perigoso colecionador que está hospedado na cidade. A fluidez da narrativa, os diálogos afiados e as ótimas atuações dos protagonistas dão ao filme um diferencial que o distancia da grande maioria das obras do gênero que são realizadas atualmente. O último ato, que não comentarei pelo risco de entregar algum spoiler, só confirma aquilo que os primeiros já indicavam, trata-se de uma grande obra, que soube aproveitar da melhor forma possível uma boa história, sem para tal precisar recorrer a malabarismos técnicos e a firulas estilísticas desnecessárias. 


O filme seguinte foi Plata Quemada (2000), triller de Marcelo Piñeyro, baseado em fatos reais, que retrata a fuga de uma quadrilha de bandidos, que vão para o Uruguai após assaltarem um carro forte. O assalto não acontecera conforme o planejado e os dois policiais que estavam  veículo acabaram sendo mortos pelos bandidos. Movida pelo desejo de vingar a morte dos dois militares, a polícia local dá início à uma investigação para descobrir o paradeiro da quadrilha. Os próprios assaltantes reconhecem que é uma questão de tempo até que o local em que se refugiaram seja descoberto, no entanto eles decidem permanecer até que um aliado no Uruguai consiga documentos falsos para eles virem pra o Brasil. A trama é protagonizada por dois dos assaltantes, El Nene (Leonardo Sbaraglia ) e Ángel (Eduardo Noriega ), conhecidos no meio como 'os gêmeos'; apesar desta alcunha eles são bem diferentes um do outro, El Nene é racional e se porta como o cabeça do grupo, enquanto que Ángel se deixa guiar mais facilmente pela emoção, sendo movido frequentemente pela culpa que sente por ser um fora da lei e por manter um relacionamento homoafetivo com El Nene. A narrativa desenvolve de maneira muito satisfatórias os seus dois viés, o romântico/erótico, sustentado pelo relacionamento entre os dois personagens e o suspense, que coloca o filme em uma tensão sempre crescente, que se torna angustiante com a aproximação do último ato.


O quarto filme da maratona foi Lugares Comuns (2002), drama dirigido por Adolfo Aristarain que conta a história de um professor de literatura, já idoso, que é aposentado compulsoriamente devido às ideias que defende em sala de aula. Com o país passando por uma grave crise econômica, Fernando Robles (Federico Luppi), o protagonista, se vê obrigado a vender a casa em que mora e a pegar como parte do pagamento uma propriedade rural para onde se muda. O desenrolar da trama retrata o processo de adaptação do professor à nova vida, processo este que é retratado com uma singeleza enorme, que chama atenção não só pela tentativa do personagem de vencer suas limitações, mas também pela forma com que as suas ideias, quando postas em prática na história, acabam nos impactando. No último ato o filme perde um pouco de sua unidade, à partir de dado momento da narrativa ele abandona alguns dos conflitos que tinham sustentado a narrativa até então para se apegar a outros. Isso faz com que o desfecho soe um tanto forçado, como se tivesse sido construído de tal forma apenas para despertar no público algum tipo de comoção. Todavia, o filme continua acima da média e sendo uma boa pedida para quem valoriza atrativos que dificilmente seriam encontrados no cinema comercial. 


A História Oficial (1985) foi o próximo a ser assistido. Dirigido por Luis Puenzo, ele foi o primeiro filme latino-americano a ganhar o Oscar na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. É sem dúvidas uma obra-prima, grandiosa em todos os aspectos: Roteiro, atuações (Norma Aleandro está sublime), fotografia, direção de arte, trilha sonora... Todavia, creio que o seu maior trunfo foi ter levado para a tela grande a discussão sobre um tema tão polêmico, tão recente na época, que ainda era uma ferida aberta na história da Argentina. Em sua trama, Alicia (vivida pela Norma) é uma professora de história que preza pela disciplina e pela ordem. Ela não percebe que o rigor de suas posições e a unilateralidade de sua visão sobre aquilo que ensina a têm distanciado da história real de seu país. Alienada das questões políticas e sociais ela se recusa a enxergar a cruel realidade que a ditadura militar representava. No entanto, a suspeita de que a menina, que adotara ainda bebê, possa ser filha de militantes políticos mortos pelo regime, começa mudar a visão que até então ela tinha. Como pano de fundo, o filme retrata a luta da Mães da Praça de Maio, mulheres que se uniram para lutar e reivindicar notícias sobre seus filhos desaparecidos durante a ditadura militar. 


O sexto filme da maratona foi outra obra de Juan José Campanella, O Mesmo Amor, a Mesma Chuva (1998), o primeiro fruto da parceria dele com Ricardo Darín. A trama acompanha o relacionamento entre os dois protagonistas, Jorge Pellegrini (Ricardo Darín) e Laura (Soledad Villamil), durante 20 anos, retratando as crises, os términos, os longos períodos de separação e também os bons momentos, que foi o que manteve uma centelha do sentimento inicial acesa por tanto tempo. Sem os clichês do cinema mainstrean, a narrativa nos apresenta a personagens complexos, dotados de vícios e virtudes, que muitas vezes erram tentando acertar e por isso acabam colocando em risco aquilo que têm de mais importante. Em uma análise mais ampla, eu diria que a história de amor contada funciona como uma metáfora daquilo que o país vivia em cada um dos períodos retratados; começa com a utopia, passa pela esperança (representada na esfera social pela abertura política) e por diversas crises, até chegar à uma espécie de maturidade, onde os problemas ainda não estão todos resolvidos, mas há a sabedoria que impede que erros do passado voltem a ser cometidos.


O sétimo da lista foi Um Conto Chinês (2011), filme dirigido por Sebastián Borensztein, que também traz Ricardo Darín no papel principal. Com sua trama construída sobre a ideia de que talvez exista um porquê associado a questões atribuídas ao acaso, o longa direciona o foco de sua narrativa para a vida monótona de Roberto (vivido por Darín), um homem ranzinza, mas de bom coração, que não faz nada além de administrar sua loja de ferragens. A rotina de Roberto muda completamente depois que seu caminho se cruza por acaso (será mesmo?) com o de Jun (Ignacio Huang), um jovem chinês que fora para a Argentina em busca de um tio com quem nunca teve qualquer tipo de contato. Sem saber uma palavra em Espanhol e sem ter lugar para ficar, Jun acaba sendo acolhido por Roberto. A chegada do rapaz mexe com o pacato comerciante e sutilmente muda a forma com que ele enxerga a si mesmo e o mundo à sua volta. Ao observar o rapaz, Roberto descobre que tem tanta dificuldade de se comunicar como ele, talvez venha daí a empatia que surge entre os dois, sentimento este que impactará a vida de ambos. 


Abraço Partido (2004) de Daniel Burman, o penúltimo filme da maratona, tem como pano de fundo a crise econômica que assolou a Argentina, sua história passa-se quase que totalmente no interior de uma galeria comercial, onde Ariel Makaroff (Daniel Hendler), o protagonista, trabalha. Ariel tenta tirar dupla cidadania (ele é descendente de poloneses) para conseguir finalmente deixar a Argentina e se mudar para a Europa. No entanto, o galho da árvore genealógica que pode o favorecer em sua tentativa de ter a cidadania polonesa aprovada, é o mesmo que o conduz à uma série de dúvidas sobre o seu passado. Seu pai, um judeu idealista, deixara a família pouco tempo depois dele nascer para se alistar no exército de Israel. A recusa da mãe e do irmão mais velho de tocar no assunto indica que pode haver algo que Ariel não sabe. O desenvolvimento da trama retrata a busca do jovem por informações que expliquem o fato do pai não ter voltado e o relacionamento dele com o que sobrou de sua família e com as outras pessoas que também trabalham na mesma galeria. O bom ritmo, a maneira com que diversas sub-tramas são costuradas e a ótima atuação de Hendler ajudam a tornar esta uma grande obra, digna de estar entre as melhores do Novo Cinema Argentino.


Crônica de uma Fuga (2006), dirigido por Adrián Caetano, o último da maratona, é baseado em fatos reais e tem sua trama ambientada durante o período em que a Argentina esteve sob uma ditadura militar. Claudio Tamburrini (Rodrigo de la Serna), o goleiro de um time argentino da segunda divisão, é sequestrado por agentes do governo e levado para uma antiga mansão, usada como campo de detenção e tortura. Lá um grupo de jovens é mantido em cativeiro e submetido a diversos tipos de tortura, métodos estes que são usados para arrancar deles confissões e dados sobre operações suspeitas e outros envolvidos com a militância política de esquerda. Claudio, que não tinha nenhum envolvimento com questões desta natureza, arquiteta junto com outros sequestrados um plano de fuga, que se torna uma última esperança para o grupo, que teme a pena mais alta aplicada pelo tribunal clandestino: a morte. O filme consegue retratar com realismo a angústia e o sofrimento vivenciado no local. A tensão criada pela trama chega a se tornar quase insuportável em alguns momentos. Trata-se, sem dúvidas, de uma grande obra, cujo valor transcende as questões meramente técnicas, é o tipo de história que precisa ser contada para que os erros do passado não voltem a ser cometidos. 

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Wish I Was Here

Wish I Was Here - 2014. Dirigido por Zach Braff. Escrito por Zach Braff e Adam J. Braff. Direção de Fotografia de Lawrence Sher. Produzido por Zach Braff, Adam J. Braff, Michael Shamberg e Stacey Sher. Produtoras: Worldview Entertainment, Double Feature Films e Wild Bunch / USA.


Como reagir em um daqueles momentos em que tudo aparenta estar fora de seu devido lugar e a vida nos surpreende com peripécias que parecem estar muito além daquilo que conseguimos suportar? Esta questão é o alicerce da trama de Wish I Was Here (ainda sem título nacional), o novo filme dirigido por Zach Braff. Diferente do que o seu mote sugere, não se trata tão somente de um drama, aqui, tal como em seu primeiro longa, Hora de Voltar (2004), Braff consegue a proeza de dosar na medida certa o trágico e o cômico e o resultado é uma obra que encanta e que emociona sem perder em momento algum a leveza, que se sobressai em situações inusitadas, diante das quais um riso, que chega a ser inocente, é quase inevitável. 

Seguindo o que considero ser uma tendência no cinema indie americano atual, Wish I Was Here retrata em sua trama uma América bem diferente daquela que Hollywood sempre mostrou; distante do padrão "terra das oportunidades", o que vemos aqui é um país de oportunidades minguadas, ainda assolado pelo fantasma do desemprego. É neste contexto que Aidan Bloom (vivido pelo próprio Zach Braff), o personagem central, está inserido. Ele é casado, pai de dois filhos e está desempregado. Aspirante a ator, ele ainda espera conseguir um papel de destaque e enquanto isso tenta sobreviver de pequenos trabalhos em comerciais. Sua esposa, Sarah (Kate Hudson), se torna a provedora da casa e, mesmo sendo frequentemente assediada por um colega de trabalho, ela se mantém no emprego para não tirar do marido a chance de viver um sonho cada vez mais distante, que ele continua a alimentar. 


A situação se complica ainda mais quando Gabe (Mandy Patinkin), o pai de Aidan, descobre que está com uma doença terminal, ele decide se submeter a um tratamento experimental que é bem caro e por isso deixa de ajudar no pagamento do colégio das netas. O protagonista se vê então diante de duras missões: conseguir um emprego rentável, reunir a família que está se desintegrando, não deixar que os filhos sejam obrigados a ir para a escola pública e ainda dar todo o suporte que o pai precisa. O problema é que ele não tem a mínima ideia de como fazer tudo isso e a sua falta de jeito no trato com estas situações torna cada tarefa ainda mais difícil. Durante o desenvolvimento do filme, é interessante notar o destaque que os enquadramentos dão para o rosto cansado e as rugas já salientes de Aidan; o fato dele já não ser tão jovem é apenas mais um complicativo, que atenua seu drama. 


Temas ásperos como a proximidade da morte, a desestruturação familiar e a crise econômica são retratados pelo filme com uma sutileza tamanha, que pode ser facilmente confundida com despretensão, ledo engano, afinal Braff demonstra ter plena ciência de onde quer chegar, sabiamente ele costura situações que, destituídas da sutileza, poderiam ser facilmente confundidas com um amontoado de clichês; aqui no entanto elas compõem um retrato tragicômico da atual situação dos Estados Unidos; situação esta que é marcada não só pela crise econômica, mas também pela crise de referenciais (tão bem exploda em uma das instituições retratadas no filme: o colégio judeu ortodoxo onde os filhos de Aidan estudam).   


Wish I Was Here provavelmente não figurará nas listas de melhores do ano, não será indicado a prêmios importantes para a indústria cinematográfica e tão pouco será apontado como uma obra-prima. Ele, no entanto, tem a seu favor a capacidade de cativar pela simplicidade e este pode ser o seu grande trunfo para envelhecer tão bem como Hora de Voltar... Destaco a ótima trilha sonora, composta  por nomes como Cat Power e Coldplay, Bob Dylan, The Shins (como já era de se esperar) e os brasileiros do Bonde do Rolê; e o ritmo bem conduzido, que faz com que seu tempo de duração passe em um piscar de olhos. 

Curiosidade: A produção do filme, que custou dois milhões de dólares, foi realizada com o apoio do próprio público por meio de uma campanha de crowd funding (forma de financiamento coletivo). 


Assistam ao trailer de Wish I Was Here no You Tube, clique AQUI !


Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a crítica de Hora de Voltar (2004), também dirigido pelo Zach Braff. 

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

A Grande Beleza

A Grande Beleza (La Grande Bellezza) - 2013. Dirigido por Paolo Sorrentino. Escrito por Paolo Sorrentino e Umberto Contarello. Direção de Fotografia de Luca Bigazzi. Música Original de Lele Marchitelli. Produzido por Francesca Cima e Nicola Giuliano. Indigo Film, Medusa Film, Babe Film, Pathé e France 2 Cinéma / Itália | França.



Em A Doce Vida (1960), clássico absoluto de Federico Fellini, acompanhamos Marcello Rubini (vivido por Marcello Mastroianni), um jornalista amargurado e apático que transita por diversos meios sociais sem fazer ou ao menos se sentir parte de nenhum deles. Por meio de um roteiro quase episódico, o filme retrata a fluidez da vida e a solução encontrada pelo personagem para lidar com ela, ele busca na velocidade dos acontecimentos uma forma de preencher o vazio de sua existência, isso, já naquela época, remetia à uma das características mais marcantes de nosso tempo, que seria tão bem definido pelo sociólogo Zigmunt Bauman como a 'modernidade líquida'. A Grande Beleza (2013), o novo longa de Paolo Sorrentino, além de ser similar em diversos aspectos, repete o mesmo feito realizado pelo filme de Fellini, ele, através de uma trama igualmente episódica, consegue captar a essência do mundo contemporâneo, se tornando assim um recorde bizarro e ao mesmo tempo realista da vida na alta sociedade italiana.

No centro da trama de A Grande Beleza está o jornalista Jep Gambardella (vivido por Toni Servillo, em uma excelente interpretação), um bon vivant convicto que aprecia ao máximo os prazeres que seu dinheiro pode comprar. Tal como Marcello Rubini em A Doce Vida, ele circula por meios sociais distintos, onde aparenta buscar algo que nunca consegue encontrar... Para que se posa compreender o drama de Jep e a reflexão proposta pelo filme basta que se faça uma breve análise de duas passagens presentes no primeiro ato. Na primeira delas, um grupo de turista orientais passeiam por Roma, um deles, embriagado pela beleza do lugar onde se encontram e pela música que toca, quase hipnótica, acaba se distanciando um pouco dos demais. Ele tira várias fotos na esperança de captar e eternizar a beleza do momento, que ele sabe que é efêmero, percebemos em seu rosto a satisfação de estar em contato com algo maior, quase sublime. Em um sutil movimento, a câmera gira em torno dele, ele enxuga o suor da testa com uma das mãos e desfalece, vítima provavelmente de um ataque cardíaco.



A segunda passagem retrata uma festa repleta de excessos e extravagâncias, é o aniversário de 65 anos Jep Gambardella que está sendo comemorado. A experiência fugaz e hedonista proporcionada pela música eletrônica quase ensurdecedora, pelas performances bizarras, pelo sexo e pelas drogas, não consegue aplacar a sensação de vazio que Jep sente. Ainda nesta passagem, há um momento em que ele literalmente se destaca da multidão e do ambiente diegético e se volta para a câmera para explicar que sempre acreditou que estava destinado à sensibilidade - uma sensação que, diga-se de passagem, é incapaz de ser saciada pelos exageros que seu dinheiro podia comprar. Ao compararmos as duas passagens, percebemos uma questão interessante, da qual resulta uma lógica que se manterá durante o restando do filme: A beleza real não está na extravagância, mas na simplicidade, ela não pode ser forjada, pois precisa ser natural, espontânea e antes de tudo autêntica, tal como fora no momento singular vivido pelo personagem da primeira sequência.



Nem o oriental, que sucumbe ao se sentir preenchido pela beleza, nem tão pouco Jep conseguem realizar aquilo que vejo como o principal objetivo deles na trama: perpetual os momentos sublimes. O drama do protagonista é ainda mais complexo, ele se perde ao tentar eternizar uma beleza que sequer é real e ele tem plena ciência disso. No decorrer da trama, percebe-se que a aversão que ele tem à realidade está diretamente relacionada ao seu medo de encarar o vazio de sua vida e aos inúmeros fantasmas do passado que ainda lhe atormentam. 



Jep ainda colhe os frutos do lançamento bem sucedido de seu único livro, publicado já há mais de quarenta anos, mas desde então ele nunca conseguiu escrever outra obra. O status que o sucesso lhe proporcionou e o dinheiro que conseguiu acumular lhe garantiu, durante todo este tempo, acesso irrestrito aos meios frequentados pela nata da sociedade de Roma. Porém, ao completar 65 anos ele vê tomado por uma reflexão acerca daquilo que sua vida se tornou, é então que ele decide buscar inspiração para um novo projeto literário. A reflexão lhe transporta para a sua juventude, uma época na qual ele viveu aquele que talvez tenha sido o seu único amor verdadeiro. Entorpecido palas reminiscências, ele tenta buscar no mundo à sua volta, algo que possa ter um significado tão valioso quanto o deste amor, que de repente volta a mexer com os seus sentimentos de uma forma tão intensa. 



Em sua procura por inspiração, Jep se depara com o que ele mais temia: o vazio. A percepção de que tudo em torno de si é superficial e falso se torna ainda mais incômoda à medida em que sua sensibilidade é aguçada pelos fatos do passado que sua mente trás à tona. Ao acompanhar a busca do personagem por respostas e por um significado maior, que possa lhe dar inspiração e um sentido para a sua própria vida, o filme acaba abordando também a incapacidade da arte, da ideologia e da religião de proporcionarem para o indivíduo soluções definitivas para boa parte de suas questões. Ao procurar por respostas, o que Jep encontra são apenas novas perguntas. As pessoas à sua volta, no entanto, se contentam com as meias verdades, com aquilo que se tornou convenção, com a superficialidade e com a falta de significado da vida. Nota-se que este contentamento e o apego às mentiras, que elas contam para si mesmas, foram as formas que estas pessoas encontraram para lidar com o vazio...


A artista performática que se joga contra um muro; a menina pintora que, em um acesso de raiva, preenche uma tela atirando latas de tinta contra ela; o dramaturgo que escreve para impressionar a mulher que ama; o rapaz que fotografou a si mesmo todos os dias durante 15 anos e organizou, ele próprio, uma exposição para mostrar o resultado do trabalho; a stripper que, apesar da idade já avançada, continua a trabalhar para não perder as regalias que a atividade lhe proporciona; o mágico que não se preocupa em quebrar a magia de seu espetáculo ("é apenas um truque', ele diz); a mulher que se gaba da relevância de sua obra e de sua militância política, sem que elas sejam de fato relevantes; a freira anciã, tratada como santa, que também se encontra tão perdida quanto todos os outros em relação às questões inerentes à vida... todos estes personagens e cada um dos outros que surgem na tela durante as duas horas e vinte minutos de filme trazem junto consigo a representação de algo maior, em suas composições caricatas (outro aspecto que remete a Fellini) é possível identificar uma crítica aos valores e aos costumes adotados pela sociedade retratada.  



O que difere Jep Gambardella de Marcello Rubini é apenas a disposição que o primeiro tem de compreender o mundo no qual está inserido, enquanto o outro apenas transitava pelos meios que fraquentava sem intervir neles e nem ao menos questioná-los. Creio que não é forçação de barra pensar que o que A Grande Beleza proporciona é na verdade um choque de gerações, que se dá entre a geração atual e aquela à qual o protagonista pertence (curiosamente, a mesma retratada em A Doce Vida de Fellini). Não é um choque tão grande, afinal de contas tais gerações são similares em diversos aspectos, mas ainda assim é notável o atrito entre as duas, principalmente nas forma de lidar, pensar e questionar a sensação de vazio, que tem se tornado cada vez maior e mais intensa... O interessante é perceber que a beleza da qual o título do filme fala está presente durante toda a sua duração, porém poucos são os personagens que a percebem. 



A fotografia dirigida por Luca Bigazzi transforma Roma em um deleite à parte no filme, a cidade aparenta nunca ter estado tão bela. A escolha das locações e dos enquadramentos captam uma aura que torna cada fotograma uma obra de arte individual, que traz consigo uma carga de significados muito mais ampla do que aquela observada nas 'performances artísticas' que o filme retrata em seu desenvolvimento. A leveza com que a câmera caminha pelos cenários, como se já esperasse captar deles algo que não está sendo verbalizado, remete mais uma vez ao cinema de Fellini, tal sutileza coloca o filme em um ritmo relativamente lento (por favor, não confundam lentidão com algo depreciativo) abre margem para inúmeras reflexões sobre a arte, sobre as coisas às quais apegamos para tentar aplacar o vazio e sobre  vida como um todo. Não tenho dúvidas de que A Grande Beleza seja um filme pretensioso, mas ele cumpre com relativa facilidade tudo aquilo a que se propõe, não deixando nada a desejar. Volto a dizer, a cortina dos clássicos ainda se encontra aberta!



Assistam ao trailer de A Grande Beleza no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.


Confiram também aqui  no Sublime Irrealidade a crítica de Aqui é o Meu Lugar,
também dirigido pelo Paolo Sorrentino.

sábado, 30 de novembro de 2013

Frances Ha

Frances Ha - 2012. Dirigido por Noah Baumbach. Escrito por Noah Baumbach e Greta Gerwig. Direção de Fotografia de Sam Levy. Produzido por Noah Baumbach, Scott Rudin, Rodrigo Teixeira e Lila Yacoub. Pine District Pictures, RT Features e Scott Rudin Productions / USA.


Frances Halladay (Greta Gerwig) é uma aspirante a bailarina que tenta encontrar um lugar para si em um mundo no qual aparenta não caber. Ela divide um apartamento com Sophie Levee (Mickey Sumner), sua melhor amiga, juntas eles tentam driblar a monotonia e e falta de rumo de suas vidas, elas se completam e este vinculo afetivo é a relação mais consistente que ambas possuem. É a intensidade desta amizade que leva Frances a recusar o convite que o namorado lhe faz para morarem juntos e esta recusa acaba os levando ao rompimento. Sophie, no entanto, não faz a mesma escolha ao se ver diante de uma situação semelhante e sua repentina mudança torna ainda mais evidente o vazio da vida de Frances, que se vê então obrigada a lidar com a solidão, com a carência afetiva e com a falta de dinheiro. Sem ter tanta coisa em que se apegar, ela tenta se esconder atras de uma falsa felicidade, mas, sob a camuflagem de uma alegria fingida existem feridas não curadas e uma forte melancolia. O alto astral, que ela tenta demonstrar, é tão superficial quanto os relacionamentos que ela cria depois da partida da amiga e do término com o namorado.

Frances concentra em si diversas características atribuídas à geração 'y', ela é imediatista, não consegue estabelecer planos de longo prazo, age muitas das vezes movida pelo impulso e a falta de inteligência emocional acaba sendo um de seus maiores entraves. Tudo isso faz com que ela seja uma personagem extremamente empática e cativante, afinal de contas nela estão representados alguns de nossos próprios medos e dúvidas, isso leva ao surgimento de um processo de identificação entre o filme e parte de seu público e este processo é capaz de potencializar um dos principais efeitos do longa: o de chamar a atenção para a fragilidade dos princípios que nos regem na vida em sociedade e para o descolorido do mundo à nossa volta, que parece se tornar menos interessante à medida em que nossos relacionamentos se tornam mais inconsistentes e menos duradouros. 


Até ser surpreendida, Frances parecia acreditar que seu relacionamento com Sophie estava imune à qualquer tipo de crise, todavia, isso era uma mera ilusão. Por estar despreparada para enfrentar uma situação inesperada, ela recorre à tentativas falhas de se restabelecer de outras formas, que não através das relações. Percebe-se que ela quer provar para todos à sua volta que está bem e isso explica o exagero quase caricato de sua felicidade, que é tão frágil quanto as ilusões que ela criara anteriormente em relação à amizade com Shophie. Recai então sobre ela o peso das inúmeras cobranças que lhe são feitas pela sociedade: ela tem 27 anos e ainda não tem um emprego estável, não conseguiu alcançar sucesso em nada do que já fez e parece incapaz de viver relacionamentos amorosos que superem a condição de uma mera aventura efêmera... Sophie, por sua vez, tem tudo isso, mas ela também não está feliz, o que nos leva a crer que o padrão de felicidade que ela conquistou (o mesmo adotado pela sociedade) é incapaz de satisfazer seus anseios mais íntimos.


O drama de Frances é o mesmo de toda uma geração que optou pela liberdade em detrimento da segurança, o temor provocado pela incerteza em relação ao futuro e pela ameaça de que uma nova frustração possa reabrir velhas feridas tornou os laços afetivos ainda mais vulneráveis, transformando-os em algo extremamente assustador, indesejável até. É o vazio existencial e a falta de significado da vida que se levantam contra a protagonista e diante deles ela não sabe o que fazer, afinal de contas nem a segurança nem a liberdade são capazes de aplacá-los, resta-lhe então a difícil tarefa de conviver com a sensação de estar em uma realidade à qual não se pertence - Prestem atenção na situação que explica o porquê do sobrenome de Frances ter sido abreviado no título do filme, trata-se de uma metáfora que traduz a condição na qual ela se encontra. 


A fotografia em preto e branco dá ao filme uma aura melancólica, quase opressiva em algumas passagens, que reforça a dor presente em sua trama. Isso pode ser percebido em sequências como aquelas que retratam uma curta viagem que Frances faz para a França; a Paris retratada nessas cenas é bem diferente daquela que estamos acostumados a ver em outros filmes. Aqui o descolorido reforça a frieza da cidade e a solidão que a protagonista sente enquanto está lá, a passagem na qual ela tenta acender um cigarro, à margem do Rio Sena, é simples, mas dotada de uma grande carga de significação e representatividade - o isqueiro não funciona e isso basta para que ela esboce uma reação que deixa evidente a sua frustração, é como se nada mais desse certo e diante deste fatalismo até mesmo a "cidade luz" perde o seu brilho. O filme chega a causar um leve aperto no peito, por retratar um mundo plausivelmente real e tão próximo das nossas próprias realidades.


Greta Gerwig está brilhante no papel da protagonista, a sua construção da personagem é cuidadosa e de uma notável entrega. Não tenho dúvidas, Frances Ha é dela e este talvez venha a se tornar o seu papel mais emblemático. O fato dela também assinar o roteiro pode ser uma explicação para a intensidade de sua interpretação, que adquire por isso um viés ainda mais autoral... Noah Baumbach conseguiu o notável feito de dirigir um filme cômico, que passa longe da superficialidade da maioria das comédias românticas, e ao mesmo tempo dramático, sem precisar para tal apelar clichês ou exageros sentimentais... Por enquanto Frances Ha é apenas uma ótima produção com 'algo a mais', mas o tempo pode torná-lo ainda maior, afinal o que temos aqui é um filme sobre a nossa época, sobre nossos amores, sobre nossas amizades, sobre nós... Tudo isso tende a ficar ainda mais claro com o distanciamento proporcionado pelo passar dos anos.


Assistam ao trailer de Frances Ha no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

sábado, 12 de outubro de 2013

Bling Ring: A Gangue de Hollywood

Bling Ring: A Gangue de Hollywood (The Bling Ring) - 2013. Escrito e dirigido por Sofia Coppola, baseado no artigo The Suspect Wore Louboutins de Nancy Jo Sales, publicado na revista Vanity Fair. Direção de Fotografia de Christopher Blauvelt e Harris Savides. Música Original de Daniel Lopatin e Brian Reitzell. Produzido por Sofia Coppola, Roman Coppola e Youree Henley. American Zoetrope e NALA Films / UK | USA | França | Alemanha | Japão.


Bling Ring: A Gangue de Hollywood (2013), o novo filme da Sofia Coppola, pode causar inicialmente a impressão de que a temática que marcou seus antecessores fora finalmente deixada de lado, ledo engano, o que vemos nele é apenas mais uma explanação em torno de um tema que esteve nitidamente presente em todos os outros trabalhos da cineasta: o vazio existencial. A trama, que é baseada em fatos reais, gira em torno de um grupo de adolescentes que invadem casas de celebridades em Hollywood para roubar jóias, roupas e acessórios. Eles não o fazem tão somente pelo dinheiro que podem conseguir, prova disso é que em determinada passagem eles vendem parte do que tinham roubado por uma quantia que chega a ser irrisória se comparada ao real valor dos objetos, na verdade, o que os motiva é a experiência fugaz e efêmera de provarem do cobiçado estilo de vida dos famosos. Em uma busca imediatista pela sensação, o grupo se lança em uma inconsequente aventura, que inclui as invasões das mansões e outros delitos, além do consumo desenfreado de drogas.

Marc (Israel Broussard), o personagem central, se matriculou em um novo colégio depois de passar algum tempo em um modelo de educação domiciliar, ele, que possui baixa auto-estima, teme não conseguir se relacionar com os novos colegas, mas o medo de ser excluído praticamente desaparece depois que ele conhece a problemática Rebecca (Katie Chang). A garota o apresenta para o restante de sua turma, da qual também fazem parte as belas e igualmente problemáticas Nicki (Emma Watson), Chloe (Claire Julien) e Sam (Taissa Farmiga). A sequência de aventuras do grupo começa quando Marc e Rebecca decidem invadir a casa de Paris Hilton, enquanto esta estava, segundo um site de fofocas, dando uma festa em Las Vegas. A ideia parece à princípio um tanto surreal, no entanto eles conseguem aquilo que queriam: entrar na mansão da atriz e roubar joias, roupas e objetos pessoais. O 'sucesso' desta primeira empreitada motiva o restante do grupo, que passa a participar das invasões que sucedem esta primeira.


Em Bling Ring, Sofia Coppola se abstém de fazer julgamentos morais, a realidade diegética é retratada com um determinado distanciamento, que não chega a tornar a narrativa impessoal. Na maior parte do tempo a trama adquire uma perspectiva relativamente próxima da dos jovens que a protagonizam, principalmente da de Marc, e a adoção de tal perspectiva não se dá por acaso. O roteiro do longa foi baseado em um artigo escrito pela Nancy Jo Sales, colunista da revista Vanity Fair, que teve como principal fonte de informações os relatos daqueles que integraram a gangue, sendo assim é natural que a história sofra a influência do ponto de vista destes jovens que a viveram e a narraram... O filme não chega a exaltar o estilo de vida autodestrutivo e superficial que retrata e é possível perceber nas entrelinhas não uma crítica a este estilo de vida, mas uma constatação de que ele é um fruto do mesmo vazio existencial que acometeu os protagonistas dos outros filmes da cineasta.


Marc é o único personagem a ganhar um tratamento mais elaborado e consistente, é através de sua construção que Sofia trabalha na trama a questão do vazio. Em uma entrevista dada à articulista da Vanity Fair, retratada em uma das primeiras cenas do filme, ele deixa transparecer uma de suas motivações: ele se sente deslocado por não se achar tão bonito quanto os outros garotos, esta confissão deixa evidente a sua busca por autoafirmação, que é o que o leva a cometer a série de crimes. No decorrer da trama testemunhamos sua fixação em relação à sua própria imagem, é tal fixação que o leva a atualizar suas redes sociais com fotos em que ele e as garotas aparecem usando os objeto que foram roubados das celebridades. Ciente da falta de significados de sua vida, Marc encontra nas invasões das residências dos famosos e no consumo de drogas pesadas alguma espécie de realização, como se o risco que ele compartilha com as garotas lhe fizesse se sentir de fato vivo e lhe desse finalmente a sensação de fazer parte de alguma coisa, com a qual ele acredita se identificar.


No entanto, Marc volta a se deparar com a realidade depois que uma das garotas o trai, neste momento é como se todas as experiências que compartilharam perdessem o significado. Ele é então posto novamente em contato com o vazio, que conforme a entrevista mostrada no início do filme deixava claro, já não lhe era algo de todo estranho. Porém, neste estágio do filme (o último ato), o vazio já não precisa ser verbalizado como no início, demonstrando a sutileza que lhe é característica, Sofia o deixa expresso apenas no rosto do personagem, que de repente perde a expressão de fascínio, que esteve estampada nele durante quase todo o desenvolvimento da história. É como se o filme todo caminhasse para estas duas passagens, que se insurgem como um interessante contraponto para o tipo de sequência (com linguagem tipicamente publicitária) predominante nele até então.


Como eu disse, não há julgamento moral em Bling Ring, o peso da constatação de que o prazer efêmero não pode aplacar a sensação de vazio por si só já deixa evidente a posição da cineasta em relação à realidade retratada em seu filme. Quem atentar para o que está nas entrelinhas perceberá outros elementos que ajudam a tornar a obra um retrato plausível da época em que vivemos, nela estão a falência das instituições tradicionais (uma personagem educa as filhas baseada em uma religião inspirada pelo livro de autoajudo O Segredo) e crise de referenciais (Paris Hilton e Lindsay Lohan se tornam modelos a serem seguidos, enquanto um comportamento contido, como o da atriz Angelina Jolie, é tripudiado pelas garotas). A presença de todos estes elementos dão consistência ao filme e o tornam muito mais do que uma divertida história sobre um grupo de delinquentes. 


Assistam ao trailer de Bling Ring: A Gangue de Hollywood no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

domingo, 19 de maio de 2013

8 Mulheres

8 Mulheres (8 Femmes) - 2002. Dirigido por François Ozon. Escrito por François Ozon e Marina de Van, livremente baseado na peça de Robert Thomas. Direção de Fotografia de Jeanne Lapoirie. Música Original de Krishna Levy. Produzido por Olivier Delbosc e Marc Missonnier. BIM, Canal+, Centre National de la Cinématographie (CNC), Fidélité Productions, France 2 Cinéma, Gimages 5, Local Films e Mars Distribution / França | Itália.


Em sua livre adaptação da peça de Robert Thomas, François Ozon reúne influências de diversos gêneros, inclui um bocado de citações à clássicos do cinema e explora um tipo de humor baseado no exagero e no absurdo. Do texto original, o roteiro, escrito por ele e pela Marina de Van, preservou a crítica social e a visão sarcástica da moral constituída e dos costumes da sociedade no período retratado, além de diversos outros elementos típicos da linguagem teatral. O tom tragicômico que a trama adota em seu desenvolvimento torna menos incômoda, mas não menos contundente, a visão amarga e fatalista dos relacionamentos, que se sobressai no retrato de uma família em processo de desestruturação. Neste ponto está um dos mais notáveis feitos do filme: ele consegue ser ácido sem perder a leveza e criticar sem perder seu senso de humor, que beira ao nonsense em algumas passagens.

A história gira em torno das oito mulheres, às quais o título do filme se refere, elas ficam presas em uma mansão, após um misterioso assassinato, do qual todas são suspeitas. A vítima foi Marcel (Dominique Lamure), o provedor da casa, ele fora encontrado pela manhã em seu quarto com uma faca cravada em suas costas. Isoladas devido à neve alta que cerca a casa e sem poder chamar a polícia, porque os fios do telefone foram cortados, as oito mulheres iniciam uma investigação para elucidar o crime, com um inquérito que acaba pautado pelas inúmeras acusações que trocam e pela revelação de vários segredos, que vêm à tona à medida que o cerco vai se apertando contra cada uma delas. Com o desenrolar da trama, se torna mais difícil apontar uma inocente do que uma culpada, uma vez que todas, sem exceção, são de alguma forma responsáveis pela situação em que a família já se encontrava antes do crime.  


Gaby (Catherine Deneuve), esposa de Marcel, é a herdeira legal de seus bens e isso, somado ao fato de que seu casamento estava em crise, a torna uma das primeiras a serem acusadas. Suzon (Virginie Ledoyen), a filha mais velha, que acabara de chegar para passar o natal,  tem à princípio um bom álibi, não por acaso é ela quem conduz as investigações num primeiro momento, porém, após algumas revelações ela acaba se tornando vítima de sua própria inquisição. Catherine (Ludivine Sagnier), a filha caçula, já não aguenta mais ser tratada como criança e sua revolta adolescente, associada ao seu gosto por livros sobre mistérios e assassinatos, a torna um alvo fácil para acusações e calúnias. Mamy (Danielle Darrieux), sogra do morto, se torna suspeita devido à sua ambição desmedida e seu descontentamento em relação à sua própria situação na casa, a de uma dependente do genro.


Augustine (Isabelle Huppert), cunhada de Marcel, é a típica solteirona afetada, que justifica seu comportamento pedante com seus ataques fingidos e suas falsas doenças, o fato de ela ser uma mentirosa nata a coloca em maus lençóis durante a investigação. Pierrette (Fanny Ardant), irmã da vítima, é dançarina de cabaré e seu comportamento liberal a torna a ovelha negra da família e, óbvio, uma outra grande suspeita, ela, que é a última a entrar em cena, diz ter recebido uma ligação avisando sobre a morte do irmão e por isso resolveu aparecer para checar se a informação era ou não verdadeira. Louise (Emmanuelle Béart), a camareira, desperta a desconfiança das demais com seu jeito sensual e seu comportamento misterioso, típico de uma mulher fatal. Madame Chanel (Firmine Richard), a outra empregada, aparentemente não tinha motivos para cometer o crime, porém ela poderia tê-lo feito para proteger uma outra personagem. 


A reunião deste grupo de personagens caricatos sob um mesmo teto resulta em situações improváveis, que chegam a parecer surreais tamanho o exagero com que são retratadas, todavia, em meio ao absurdo da trama, podem ser percebidos elementos que permitem que ela seja classificada como uma 'farsa', gênero caracterizado pela construção de uma crítica social através de um retrato burlesco das imperfeições e fraquezas humanas. A trama de 8 Mulheres retrata a hipocrisia, a mesquinhez e os preconceitos que a sociedade se nega a aceitar que tem, o tom crítico ganha evidência nas passagens em que são retratados o abismo que existe entre as classes sociais retratadas e o preconceito contra aquele que adota um comportamento diferente do que é tido como padrão, o que se nota na forma com que as empregadas são tratadas e na reação das demais quando uma das personagens assume sua homossexualidade.


O tipo de interpretação que todas as oito atrizes entregam é condizente com a proposta do filme, em seus  gestos largos, empostações vocálicas ritmadas e expressões pitorescas está uma espécie de extensão daquilo que também pode ser observado na direção, no roteiro e na parte técnica da longa. Há uma certa desproporcionalidade em cada um desses aspectos; as interpretações são dramáticas demais, as cores excessivamente saturadas, a trilha sonora recorre aos clichês mais manjados e os números musicais, interpretados por cada uma das oitos personagens, soam deslocados, devido à forma abrupta com que são encaixados na trama. À primeira vista, há a impressão de que estamos diante de uma encenação tosca e pobre em significações, no entanto, a adoção da estética kitsch não se torna um problema para o filme, muito pelo contrário, na verdade, nela se encontram todo o seu potencial reflexivo e originalidade.


François Ozon usa os excessos como elementos da narrativa e imprime em cada um deles a sua marca autoral (a convergência entre linguagens distintas é recorrente em sua obra). Nas mãos de um outro cineasta esta adaptação corria o risco de se tornar um grande fiasco, Ozon, no entanto, elimina todo este risco com seu total domínio da linguagem cinematográfica, o que lhe permite um flerte tão bem sucedido com a linguagem teatral. 


8 Mulheres é uma deliciosa comédia de costume, com ares de mistério e suspense, capaz de nos proporcionar ótimos momentos de entretenimento e reflexão, coisa rara em filmes do gênero hoje em dia. Ao assisti-lo, preste atenção na ótima atuação da Isabelle Huppert (o que constitui um dos melhores aspectos do filme) e no número musical da Fanny Ardant, no qual ela começa um strip tease e para após tirar as luvas  (uma clara referência à cena clássica de Gilda (1946)). 


8 Mulheres ganho o Urso de Prata de Contribuição Artística no Festival de Berlim, um reconhecimento ao desempenho de seu elenco.

Assistam ao trailer de Dentro da Casa no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a crítica de 
Dentro da Casa (2012), também dirigido por François Ozon.