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sábado, 29 de dezembro de 2018

O Público e as Verdades da Arte


Oscar Wilde chegou a afirmar, por meio de um de seus personagem mais emblemáticos, Lord Henry Wotton de O Retrato de Dorian Gray (seu alter-ego), que o "objetivo da arte é revelar a obra e esconder o artista"... eu concordo em partes com este pensamento. Se por um lado é impossível, por exemplo, compreender a grandiosidade da obra de Kafka (também escritor) sem conhecer, ainda que superficialmente, a sua trajetória e o contexto em que ele viveu, por outro o foco demasiado no artista pode relegar em segundo plano aquilo de mais importante que sua obra possui, e isso frequentemente acontece. Vivemos atualmente uma inversão extrema do pensamento de Oscar Wilde; a mídia cumpre o papel de desnudar a vida do artista, enquanto o público busca nela, e não na obra, os elementos de identificação capazes de produzir empatia. 

Discorrerei rapidamente sobre três situações que vivenciei recentemente e depois tentarei propor uma breve reflexão sobre o assunto. 

- Em agosto deste ano, Oswaldo Montenegro tocou em Piacatuba, distrito de Leopoldina/MG, no Festival de Viola e Gastronomia. Naquele dia, minutos antes de sua própria apresentação ele estava no meio do público assistindo ao show de dois violeiros locais, um casal então se aproximou dele e pediu para tirar fotos, ele não negou, mas enquanto os flashes eram disparados ele permaneceu na mesma posição em que já estava, de braços cruzados e olhar direcionado para o palco. 

- No último dia 8, na edição do festival Circuíto Banco do Brasil, realizada no Rio de Janeiro, a banda americana MGMT foi vaiada por uma parte do público e um dos motivos foi não ter sido "cordial com a platéia". Uma adolescente, fã da banda que tocaria na sequência, que estava logo à minha frente durante a apresentação resumiu o motivo de sua indignação: "entraram e saíram sem ao menos dar boa noite". 

- No último sábado, Maria Rita se apresentou aqui em Ubá, no Festival de Música Ary Barroso. Apesar de ter feito uma apresentação memorável, ela foi criticada por alguns dos que estavam presentes por não ter recebido o público para uma sessão de fotos e autógrafos. Algumas pessoas chegaram a criticar a organização do evento por tê-la trazido, isso pelo simples fato de não ter conseguido se aproximar dela. 

Chegamos ao ponto: O tratamento seco dado pelo Oswaldo Montenegro ao casal que o abordou, a falta de interação verbal do MGMT com o público e a recusa de Maria Rita a receber admiradores em seu camarim, nenhum destes fatos definitivamente não tornou nenhuma das apresentações menos impactantes pra mim e isso porque o essencial, ao meu ver, não é, e nunca será, a postura do artista em relação aos fãs, mas a proposta e a representatividade que sua obra tem para mim. 

Pode parecer uma afirmação dura, mas artista nenhum tem obrigação de paparicar seu público. Admiro muito aqueles que relacionam de forma natural com seus fãs e repudio os que o faz de forma forçada, por mero sentimento de obrigação. Uma parcela do público aparentemente não consegue compreender isso e para ela bom continua sendo o artista estrangeiro que arrisca algumas palavras em português no palco, o que força sorrisos na hora do selfie e o que bajula o público com frases feitas e falsas afirmações.

Pode parecer contraditório eu escrever uma nota com este conteúdo, afinal sou dos que curte ter o disco original autografado e um dedo de prosa com algum artista cuja a obra eu admiro ou respeito. Mas, a questão é que é preciso separar as coisas, não confundir o artista com a obra, pois tal tipo de simbiose na maioria das vezes não se dá de forma tão harmônica. Quem faz este tipo de confusão corre o risco de acabar frustrado ao descobrir que um determinado compositor não é bem aquilo que se pressupunha que ele era divido à uma interpretação pessoal de suas letras.  

Aqui cabe uma rápida reflexão sobre o que é apreciação artística e sobre a forma com que ela se dá. Quando nos colocamos diante de uma obra (seja ela uma música, um filme ou até mesmo um quadro) estamos diante de pelo menos três verdades que podem ou não ser divergentes, a primeira delas é a que é idealizada pelo artista antes e durante o processo de criação, a segunda é a resultante deste processo, que absolve influências externas, inclusive de outras pessoas envolvidas com ele. A terceira e última verdade é a de quem se coloca diante da obra, que é influenciada pela visão de mundo e pela bagagem que cada um traz consigo. 

O que geralmente ocorre é que uma parte do público confunde a sua verdade com a verdade do artista e por isso passa a exigir dele posturas e comportamentos que validem aquilo que até então não passava de meras impressões. Há neste fenômeno uma negação de todo o processo de criação e de consumo da arte. Desconsidera-se o poder que a obre tem de impactar por si própria e o dever de provocar este impacto é delegado ao artista, como se nele se esgotasse todo o processo. Dai surgem as aberrações criadas pela indústria cultural: os artista cuja obra se resumem à uma única verdade, previamente fabricada para um público que já está de antemão apto para decodificá-la e digeri-la sem maior trabalho.

Felizmente ainda existem artistas cuja grandiosidade de suas obras transcende suas próprias posturas, algumas vezes mesquinhas... Oswaldo Montenegro, MGMT e Maria Rita fazem parte deste grupo! 


Escrito originalmente em 20 de novembro de 2014


sábado, 28 de setembro de 2013

Vanguart - Muito mais que o Amor (disco)


Alguns críticos chegaram a apontar o clima ensolarado de Muito mais que o Amor, o novo disco do Vanguart, como uma de suas características mais marcantes, a percepção de tal clima surge da comparação com o álbum anterior, o excelente e relativamente sombrio Boa Parte de mim Vai Embora. Considero muito pertinente esta constatação, há de fato nas letras e nas melodias de Muito mais que o Amor uma espécie de paz (ou seria satisfação?), que não estava presente no trabalho antecessor, no entanto, ele não deixa de ser um disco melancólico.

A melancolia, tal como notada nas novas canções, é um estado de espírito que não pressupõe uma condição de tristeza, nem tão pouco uma causa específica, tendo mais a ver com o nível de sensibilidade emocional com o qual nos posicionamos diante de uma determinada situação, o que me leva a crer que a grande marca do novo álbum talvez seja justamente a sensibilidade. Isso fica mais claro quando o consideramos uma obra autoral que dá uma espécie de sequência à condição emocional identificada em Boa Parte de mim Vai Embora.


No antecessor a melancolia surge da dor e a causa desta dor pode ser facilmente identificada,  o disco fala de rompimento e perda da primeira à última faixa e mesmo não sendo um álbum triste, há nele um estado de fragilidade emocional que dita o tom das canções e facilita o estabelecimento de alguma conexão entre a banda, como entidade artística criadora, e o público, que de alguma forma se identifica com a condição sobre a qual as músicas falam...  

O excelente clipe de Mi Vida Eres Tu (faixa que abre o Boa Parte de mim Vai Embora) ilustra bem a condição experimentada pelo autor/personagem das letras, ele é alguém que está machucado pelo término de um relacionamento e tenta buscar algo que nem ele mesmo sabe o que é. No clipe, o fato do personagem ser interpretado por uma criança seria a meu ver uma representação de sua fragilidade emocional, o que me leva a acreditar que o que ele busca na verdade não é uma aventura amorosa, mas alguma espécie de afago (o que fica evidente na sequência final do clipe, que evoca o beijo não realizado).


Passada a noite sombria, vem uma ensolarada manhã... “A vida é tão mais vida de manhã, quando eu vejo você, é, saiba você é meu sol... eu já me preparei demais e declaro ‘agora é a hora’. O amor profundo, o amor que salva vem depressa, não demora, meu sol...”.

Em Muito mais que o Amor a dor do rompimento já foi expurgada, já não há mais o sofrimento narrado nas letras do segundo disco. O que dita o tom neste novo trabalho é a satisfação do amor realizado e paz de ter a pessoa amada ao seu lado. Gosto de imaginar Meu Sol, a quarta canção do álbum, como uma continuação de Depressa, a última do anterior, que o próprio vocalista Hélio Flanders chegou a apontar como uma canção que diz muito sobre o disco como um todo - não por acaso ela foi o seu primeiro single.

Depressa encerra Boa Parte de mim Vai Embora com uma espécie de desabafo do personagem/autor sobre a sua ânsia pelo reencontro com a pessoa que ama, ela fala da angústia da espera e da aflição de tentar ter de volta o amor que fora perdido. Ele sabe que talvez ainda não seja a hora de uma reaproximação, pois os fantasmas do passado ainda estão presentes, todavia ele se prepara, há um trecho em que ele diz ter saído com uma 'roupa emprestada' na esperança de encontrá-la, o que evoca a sua disposição de olhar para si mesmo, reconhecer onde errou e ensaiar algum tipo de mudança, representada na música pela vestimenta nova.


Meu Sol, que talvez seja a canção que melhor define o novo disco, descreve uma situação bem diferente da relatada nas letras de Boa Parte de mim Vai Embora, agora o personagem/autor não vaga pelos 'lugares onde nem Deus andaria' (uma clara referência ao seu estado de espírito), aqui ele encontra uma nova motivação, o amor realizado (que é metaforicamente representado na letra pelo sol), que lhe traz esperança e o ensina que a vida continua valendo a pena ('a vida tem mais vida de manhã', ele descobre) e que o que ela lhe cobra é apenas a entrega, da qual a letra da canção fala em seu primeiro verso ('Minha alma, sabe que viver é se entregar').

A paz então observada gera um forte contraste com a dor de outrora e este contraste ajuda a explicar a sensibilidade que conduz ao estado de melancolia. É da vivência anterior que vem a poética que marca as novas composições. A fragilidade do autor/personagem, que potencializa os efeitos daquilo que ele vive, e a ebulição dos sentimentos, que o álbum como um todo evoca, são similares àquele choro de felicidade, que surge em um momento de transição, marcado pela ideia de que a dor pode finalmente ficado para trás e o que vem a partir de então pode ser muito mais que o amor...

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Festival Mundial das Artes pela Paz


A estimativa era de que cerca de 1800 artistas de 118 países estariam presentes na edição do Festival Mundial das Artes pela Paz que foi realizada em Ubá/MG entre os dias cinco e 15 de novembro, mas não foi o que aconteceu. O público, formado em sua grande maioria por pessoas que já estão são ligadas direta ou indiretamente à produção cultural local, foi relativamente pequeno, o povo não compareceu. Já o número de artistas presentes fez parecer utópica a quantidade mencionada acima. Algo deu errado e este já era um desastre anunciado. O amadorismo que pode ser observado na realização do evento caracterizou também aquela que deveria ter sido a fase de planejamento. Muito pouco do que fora prometido na cerimônia inaugural, na qual Ubá foi oficialmente anunciada como sede do Festival, foi cumprido. Todavia, não se pode culpar apenas os realizadores, afinal trazer para uma cidade do interior um evento do porte pretendido não era uma tarefa fácil e talvez o grande erro dos envolvidos no projeto tenha sido o de acreditar que o seria. Ubá está acostumada a consumir entretenimento, não arte, e esta realidade já representava desde o início um grande desafio a ser enfrentado.

A qualidade das apresentações musicais salvou o Festival de ser um enorme fiasco, pois o que se viu durante os onze dias de programação foi uma série de erros grosseiros... Um dos vídeos promocionais, divulgado poucos dias antes do evento, convidava o público para conhecer o mural Guerra e Paz de Cândido Portinari, obviamente tratava-se de uma réplica, mas a chamada não deixava isso claro. A grande surpresa, no entanto, foi descobrir que não só Guerra e Paz era uma réplica, mas também boa parte das obras expostas na galeria improvisada. A má qualidade da impressão conferiu às telas reproduzidas um tom desbotado, que comprometeu seriamente o impacto que acredito que elas seriam capazes de causar aos visitantes. Sem a cor e a textura original, sobrou apenas o tecido descolorido sobre a moldura e sua intenção de recriar aquilo que o originou representava. Destituídas de qualquer valor artístico, tais cópias poderiam ao menos funcionar como material didático (ainda que esta não fosse a proposta do Festival), mas isso também não aconteceu, boa parte dos quadros não tinham nenhum tipo de identificação, o que tornava impossível para um leigo como eu descobrir, por exemplo, em que ano eles foram pintados ou quem eram os autores e os seus países de origem - informações essenciais como estas foram simplesmente negligenciadas. 

Em meio ao grande número de cópias de má qualidade se sobressaiam as obras originais de artistas e artesões da região, estas sim merecedoras de todo o respeito do público presente. Tenho a impressão de que o evento teria sido melhor sucedido se tivesse aberto mais espaço para obras como estas. Tudo poderia ter funcionado melhor se não fosse a megalomania dos realizadores do evento, que chegaram a considerar irrelevante a participação de artistas da cidade e região, mal sabiam eles que estes possuíam algo que o Festival como um todo não teve: a capacidade de dialogar e interagir com o público não erudito. Penso que talvez tenha faltado aos realizadores um pouco mais de conhecimento sobre as diversas expressões artísticas presentes no Festival e acima de tudo sensibilidade, isso justifica tropeços tão grotescos quanto o de posicionar a frente de um palco atrás de uma grande pilastra, quando suas laterais estavam livres (!)... Não tenho dúvidas, onde abundou negociatas, trocas de favores e politicagem faltou um trabalho sério e competente de curadoria. 

Todavia, há que se reconhecer também os aspectos positivos do evento, que não eliminaram, mas ao menos diminuíram os efeitos dos equívocos cometidos. Infelizmente, por questões de saúde, não consegui estar presente em todos os dias, o que eu queria muito ter feito, sei que com isso acabei perdendo muita coisa boa, mas ainda assim tive a oportunidade de conferir espetáculos memoráveis, como o excelente show da banda Cosmosoul, que foi formada em Barcelona na Espanha por músicos de diversas nacionalidades, e o retorno da banda americana Santa Esmeralda, que voltou à cidade quase um ano após o trágico show em que o baterista Brad Parker teve uma parada cardíaca no palco, enquanto tocava, e veio a falecer a caminho do hospital. As duas bandas presenteou o público minguado com ótimas performances, que mereciam um contingente de pessoas muito, muito maior...

Ainda que não tenha acontecido como o planejado e tenha deixado tanto a desejar, o Festival veio para somar. Só o fato de termos um evento cultural a mais na cidade (ainda que tenha sido uma única edição) já é um motivo para grande comemoração. Por hora, apenas torço para que os erros cometidos sejam reconhecidos e nos tragam algum aprendizado. Vale lembrar também que as críticas, por mais devastadoras que elas possam parecer, também servem para abrir os olhos e colocar pés flutuantes no chão... 

Algumas lições que precisam ser lembradas: Nunca prometa o que não pode cumprir. Jamais pense em cobrar ingressos de um evento que teve a 'entrada franca' divulgada. Convide/contrate pessoas que entendam de fato do assunto para ajudar na organização. Não venda a arte da mesma maneira que se vende um móvel. Aumente o tamanho da letra nos outdoors.  Valorize a produção local. Planeje. Não deixe nada para a última hora. Faça um cronograma compreensível e respeite-o. E, acima de tudo, respeite o público e os artistas convidados... Este já um começo! 

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Pearl Jam Twenty

Pearl Jam Twenty - 2001. Escrito e Dirigido por Cameron Crowe. Direção de Fotografia de Nicola Marsh. Produzido por Cameron Crowe, Kelly Curtis, Andy Fischer, Barbara Mcdonough e Morgan Neville. Tremolo Productions e Vinyl Films / USA.


Cameron Crowe ainda não era um cineasta reconhecido quando se mudou para Seattle no final dos anos 80, naquela ocasião sua principal atividade ainda era a de colunista musical. Ele se tornara nos anos 70 o mais jovem colaborador da revista Rolling Stone e deste então ele trilhara um bem sucedida carreira no jornalismo cultural. Crowe foi para o noroeste dos Estados Unidos atraído pela prolífera cena musical da cidade natal de Jimi Hendrix, que começava a chamar a atenção da mídia e da indústria cultural. Neste período, ele teve contato com aquilo que seria o embrião do hype que a crítica especializada apelidaria de Grunge. Ele estava no lugar certo e na hora certa... em Seattle ele faria o seu primeiro filme, Digam o que Quiserem (1989), e a ebulição cultural  da cidade serviria de pano de fundo para o segundo, Singles - Vida de Solteiro (1992).

O fato de que Crowe conheceu de perto a cena musical da cidade, antes da explosão do Grunge, faz dele o cineasta mais indicado para contar, através de um documentário, a história de uma das bandas mais importantes surgidas naquele período, o Pearl Jam. A relação entre o cineasta e a banda sempre foi bastante amistosa, membros dela fizeram pontas em Singles, como integrantes da banda de um dos personagens centrais do filme e este mesmo personagem teve seu figurino montado basicamente com peças do guarda roupas de Jeff Ament, baixista do banda. A proximidade entre Cameron e os músicos contou muito para que Pearl Jam Twenty se tornasse um documentário quase passional, destituído de qualquer pretensão de ser imparcial ou de se ater a qualquer rigor jornalístico...


Eu diria que Pearl Jam Twenty é um filme de um fã para outros fãs da banda e justamente por isso a parcialidade dele não chega a ser um demérito. Para os fãs não há nenhum problema em ser parcial, desde que desta parcialidade resulte uma abordagem positiva. O documentário não se prende tanto à datas, mudanças de formação e coisas do tipo, ele não funciona tão bem como biografia e este é na minha opinião um de seus grandes acertos. O Pearl Jam sempre se manteve relativamente à margem da indústria fonográfica (ainda que seu primeiro disco permanecendo um tempo enorme nas paradas de sucesso), raramente seus integrantes concediam entrevistas e eles se tornaram conhecidos mais pelas suas atitudes do que por aquilo que diziam diante de câmeras e gravadores. Crowe no entanto quebra esta barreira difícil de ser transposta e nos apresenta para uma banda formada, não por rock-stars, mas por pessoas comuns, que trazem consigo seus próprios dramas e experiências da vida...


Outro ponto positivo do filme é que ele não comete o equívoco (muitas vezes cometido) de mostrar o Grunge como um movimento, ou como um sub-estilo musical. Crowe não despreza a influência , direta ou indireta, que as outras bandas de Seattle exerceram sobre o Pearl Jam, no entanto ele aponta a efervescência cultural da cidade apenas como uma cena musical, que é tão somente o que ela foi... 

Pearl Jam Twenty começa falando da importância de uma das bandas de maior sucesso no underground local antes do hype, o Mother Love Bone, que terminou após a morte prematura de seu vocalista, Andrew Wood, por overdose. O fim desta banda causaria um forte impacto na cena musical da cidade e uma onda de melancolia tomaria os integrantes remanescentes do grupo, dentre eles Jeff Ament e Stone Gossard, futuros integrantes do Pearl Jam. A experiência de ver o amigo agonizando funcionou como um rito de passagem para eles e influenciou diretamente no clima das músicas que eles compuseram naquele período.


Eddie Vedder, que não viveu esta experiência, chegou a Seattle trazendo seus próprios dramas em sua bagagem, ele era fruto de um lar despedaçado, o homem que o criara não era seu pai biológico e ele só descobriu isso quando seu progenitor já estava morto. Cameron Crowe destaca estes dois eventos no filme, a morte de Andrew Wood e o drama familiar de Vedder, pois deles sairiam a inspiração para algumas das músicas do primeiro disco da banda, que se tornariam verdadeiros clássicos. Ele dá continuidade a este tipo de abordagem que aproxima a vivência de cada um dos integrantes da obra produzida por eles.

Crowe ainda dá enfase no relativo distanciamento que a banda manteve do circuíto comercial e da grande mídia e a alguns eventos que marcaram sua trajetória, como a briga com a Ticketmaster pela redução dos preços dos ingressos de seus shows e a tragédia acontecida em 2000 em uma apresentação no  Festival de Roskilde na Dinamarca.


Os depoimentos presentes em Pearl Jam Twenty são em sua maioria de integrantes da banda e de pessoas próximas a eles, o que reforça a postura parcial e passional do filme, todavia Crowe não deixa de mencionar os maus momentos pelos quais a banda passou e crises internas que ela enfrentou, o que funciona como um interessante contraponto à abordagem predominante. 

O documentário está repleto de imagens raras (o que é característico do gênero), várias delas do início da banda, feitas pelo próprio Cameron enquanto ele ainda atuava como jornalista em Seattle, o que é sem dúvidas é um deleite para qualquer fã da banda, principalmente para aqueles que não viveram o início dos anos 90 e a explosão do Rock Alternativo de Seattle. Recomendo para os 'camisa de flanela' e para todos os demais que apreciem e valorizem a boa música! 

Assistam ao trailer de Pearl Jam Twenty no You Tube, clique AQUI !

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade as críticas de Compramos Um Zoológico (2011) e Singles - Vida de Solteiro (1992), também dirigidos por Cameron Crowe!

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Los Hermanos - Turnê de 15 Anos - BH 21/05/2012

"É preciso força pra sonhar e perceber 
que a estrada vai além do que se vê [...]"


Para falar do show de ontem do Los Hermanos em Belo Horizonte e da impressão que ele me causou, preciso antes voltar um pouquinho no tempo, para relembrar, mesmo que de forma bem superficial, a trajetória da banda e a importância dela para a cena musical brasileira... Todos devem lembrar de quando a música Anna Júlia estourou nas paradas nacionais em 1999 e das apresentações da banda nos principais programas de auditório do país, contudo se engana quem pensa que eles conquistaram este sucesso estrondoso da noite para o dia, a história já tinha começado dois anos antes na efervescente cena underground carioca. Antes de lançar o primeiro álbum, autointitulado, eles já tinham gravado algumas demos e conquistado um público pequeno mas fiel na cena indie. Na ocasião o som da banda era um misto de hard core com arranjo de metais que remetiam ao samba antigo das fanfarras e as letras eram em sua maior parte sobre desilusões amorosas. A grande oportunidade surgiu quando Paulo André, organizador do festival Abril pro Rock, que acontece mo Recife, foi atraído pela originalidade da banda e a chamou para integrar o cast da edição do festival de 1998. Após este show no Pernambuco, que também seria lançado de forma independente, a banda fechou contrato com a gravadora Abril Music, começaria ali o hype que os transformaria em um curto espaço de tempo na "melhor banda de todos os tempos da última semana"...

Passada esta efervescência o Los Hermanos teve que enfrentar o risco de se tornar uma dentre tantas bandas de apenas um sucesso (aquelas que duram apenas por um verão). A opção feita pela banda foi a de seguir em frente, mas na contramão daquilo que o hit Anna Júlia significara para eles até então, tal postura gerou conflito com a gravadora que chegou a recusar a mixagem final do disco em determinado momento do processo de produção. Após muitos vai e vens o disco chegou ao mercado... Este segundo Álbum, intitulado Bloco do eu Sozinho (2001), já denotava um grande amadurecimento nas composições, tanto nas letras quanto nos arranjos, todavia a "evolução sonora" tirou quase todo o apelo comercial que o disco poderia ter tido, sendo assim a solução estava em mirar mais uma vez para a cena alternativa e foi isso que eles fizeram, eles não voltaram a ser independentes, mas conseguiram a partir de então estabelecer um bom trâmite entre o mainstrean e o underground. 

O 'cara estranho' da foto sou eu e este é o cartaz da turnê.
A maturidade musical seria alcançada no próximo disco, Ventura (2003), que é na minha opinião o disco nacional mais importante da década passada, e seria ainda aperfeiçoada no quarto álbum, intitulado simplesmente de 4 (2005) - este foi ainda menos "vendável" que seu antecessor, por ser bem mais melancólico e experimental. O distanciamento do Los Hernanos do circuito comercial, que foi muito criticado na época, o favoreceu e muito, com este posicionamento a banda conquistaria o respeito e a admiração de um público que não estava tão sujeito às turbulências da indústria cultural e do mercado fonográfico... Em 2007, no ápice de sua trajetória artística, a banda anunciou que entraria em um hiato por um tempo indeterminado, segundo eles esta seria a oportunidade de cada um dos membros investirem em suas respectivas carreiras solo. O afastamento dos palcos não fez diminuir o culto à banda, pelo contrário, e os constantes boatos sobre uma possível volta não pararam desde então. Alguns shows esporádicos foram  realizados durante este período, mas nada de tão significante, até que no final do ano passado foi anunciada esta turnê na qual a banda se reuniria para comemorar os 15 anos que se passaram desde sua primeira apresentação... 


Algumas das canções do Los Hermanos serviram de trilha sonora para um período de minha vida, no qual eu vivia uma ebulição de sentimentos que nem eu mesmo conseguia compreender, talvez por isso elas tenham ganhado um lugar especial em minha memória afetiva, eu me reconhecia em algumas delas e outras pareciam descrever precisamente situações que eu estava vivendo. Creio que isso não aconteceu só comigo, talvez venha desde mesmo fenômeno uma boa parte dos atuais fãs da banda. Ao meu ver esta identificação acontece porque as canções da banda possuem uma alma, elas têm algo de verdadeiro em suas letras e na forma com que são interpretadas, coisa da qual a música brasileira que toca nas rádios está carente já há um bom tempo. O Los Hermanos consegue falar de amor e de sentimentalismo sem ser piegas e a poética de suas canções está em um nível bem superior ao de outras bandas e artistas que se propõem a falar dos mesmos temas. De uma forma muito bonita eles conseguem nos mostrar através de suas letras que realmente "a estrada vai além do que se vê" e que ainda é possível acreditar no amor, ainda que o sofrimento seja inerente a ele...


Desde que foram divulgadas as datas dos shows eu já estava certo de que queria ir, na verdade eu precisava de ir, basicamente por dois motivos: Primeiro, porque apesar de gostar tanto da banda, eu nunca tinha ido à uma apresentação dela, eu tinha perdido a oportunidade de ir em um show que aconteceu em Juiz de Fora pouco tempo antes deles anunciarem a separação. Segundo, porque este poderia ser simplesmente um dos últimos shows, portanto uma das últimas oportunidades de eu curti-los ao vivo. A verdade é que eu ainda tinha sérias dúvidas de que o "hiato", no qual a banda se encontra até hoje (a turnê por si só não a tira dele), poderia de fato um dia acabar...

De acordo com o que fora divulgado, seriam à principio duas datas em BH, 19 e 20 de maio, para mim estava perfeito. Devido ao meu trabalho o dia 25, que seria um sábado, era sem dúvidas a melhor data. Combinei com um amigo de irmos juntos e ficamos atentos ao dia no qual se iniciaria a venda dos ingressos. Sem me preocupar tanto, no data marcada eu entrei no site no qual os ingressos estavam sendo vendidos cerca de três horas depois do início da comercialização e para minha surpresa eles já estavam esgotados para as duas apresentações, foi uma decepção enorme...


Alguns dias depois foi anunciada uma terceira data, 21/05, uma segunda-feita (!); mesmo sabendo que aquele seria um dia de trabalho e que a capital mineira fica a 5 horas de minha cidade eu não desisti, na data da venda, alguns minutos antes da hora marcada, eu, que estava de férias, já estava conectado atualizando a página para garantir um rápido acesso aos ingressos  (o meu e o do meu amigo) antes que eles se esgotassem novamente. Toda esta precaução não adiantou de nada, logo que foi aberta a comercialização o site travou devido ao enorme número de acessos, fiquei mais de duas horas na frente do computador esperando um retorno do sistema, até que a página foi atualizada com a mensagem "ESGOTADO", desta vez já não era decepção o que eu sentia, era RAIVA! Mas, por incrível que pareça, entrei novamente no site algumas horas depois já no final da tarde e consegui comprar os bilhetes. Pelo que disseram na página do evento no facebook, simular o esgotamento dos ingressos foi uma estratégia do site para solucionar o bug, o que aparentemente deu certo. Não demorou muito e os ingressos esgotaram de verdade, felizmente os meus já estavam garantidos...


Consegui negociar folgas no trabalho para segunda e terça-feira e cheguei em BH no domingo à noite. A minha expectativa já era a melhor possível, eu já tinha a noção de que todo o esforço despendido valeria a pena, só não tinha nem ideia do quanto... O show começou praticamente sem atrasos e a abertura foi feita com a canção O Vencedor, a segunda faixa do disco Ventura, e o que se seguiu foi algo apoteótico, catártico... A banda estava em um sintonia perfeita com o público, que cantou junto cada uma das canções. O longo período de recesso não parece ter sido um problema, a banda estava muito bem entrosada e em plena forma. O ótimo repertório trouxe músicas dos quatro discos, inclusive algumas do primeiro, que raramente eles tocavam ao vivo; no entanto eu senti falta de algumas como Tudo que Sobrou e Do Lado de Dentro, no entanto a falta destas foi compensada pela execução magistral de outras de minhas favoritas da banda como Sétimo Andar (que pode ser conferida abaixo, no vídeo de péssima qualidade que eu fiz), Ultimo Romance, Condicional e Cara Estranho...


Tivemos o privilégio de ficar em um lugar bem próximo ao palco, de onde pudemos apreciar plenamente o maravilhoso espetáculo musical... O local estava lotado, tanto a pista quanto as arquibancadas, em alguns momentos foi possível sentir o chão tremer (o show foi realizado no segundo andar do prédio) tamanha a reação do público às canções. Eu olhava à minha volta e me perguntava: Qual outra banda surgida nos últimos vinte anos conseguiria lotar três shows seguidos em um mesmo local, sendo um destes em uma segunda-feira? A falta de respostas só fazia crescer o meu respeito e a minha admiração por eles. A apresentação durou cerca de duas horas e quinze minutos e ao final dela eu tinha certeza de que eu presenciara algo único, eu acabara de assistir um dos shows de uma turnê que provavelmente entrará para a história, caso a banda não se reúna novamente... Contrariando as minhas previsões, uma esperança em relação ao fim do hiato, nos foi dada pela própria banda que incluiu uma música inédita no setlist, muito boa por sinal. Contudo eu ainda tenho dúvidas se esta canção estará em um provável quinto disco da banda, ou no disco solo do vocalista e guitarrista Rodrigo Amarante, que será lançado ainda este ano... Apesar de meu ceticismo, torço para que eles voltem e de preferência com mais um disco de inéditas! 


Não deixem de conferir aqui no Sublime Irrealidade a resenha crítica do disco Toque Dela, o segundo solo do vocalista e guitarrista Marcelo Camelo!

sábado, 31 de março de 2012

Milton Nascimento + Ponto de Partida + Meninos de Araçuaí - Ser Minas Tão Gerais

Ser Minas Tão Gerais. Roteiro, pesquisa musical e direção geral de Regina Bertola. Direção de Vídeo de Eder Santos. Direção de Fotografia de Evandro  Roger. Direção Musical e Arranjos de Gilvan de Oliveira.. Figurinos de Alexandre Rousset e Tereza Bruzz. Coreografias de Wagner Moreira e Ponto de Partida. Produção Geral e Realização de Ponto de Partida.


Em algum lugar do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, um povo castigado pela vida espera a chegada de uma espécie de salvador, alguém em quem eles depositam todas as suas esperanças, na expectativa de que um dia ele chegue e transforme suas vidas para melhor. Este é o mote do belíssimo espetáculo Ser Minas Tão Gerais, idealizado pela companhia teatral Ponto de Partida. Este musical é uma homenagem à mineiridade, à cultura popular e ao conjunto de mitos e crendices do estado e mais que isso, ele é uma ode à vida, à esperança e à perseverança em meio à adversidade. A montagem mescla poemas de Carlos Drummond de Andrade à canções selecionadas do repertório de Milton Nascimento e do coral Meninos de Araçuaí. Tanto Milton quanto o coral participam do espetáculo, transformando-o em uma convergência de diferentes expressões artísticas, o que resulta em algo belo e dotado de uma poética que só poderia ter saído da manifestação de uma riquíssima cultura popular.

O espetáculo é sensacional; o casamento entre os poemas de Drummond, as canções do Milton e dos Meninos de Araçuaí e as atuações dos membros do Ponto de Partida é formidável, é incrível a sintonia que o roteiro consegue forjar entre cada uma das obras que cita ou que remonta durante seu desenvolvimento. A peça emociona pelo seu lirismo que nos transporta direto para os tempos de meninice, para as brincadeiras de roda e para as manifestações religiosas características do interior. Contudo, a ambientação onírica da peça não perde de vista os problemas sociais, a dor e o sofrimento que imprimem marcas tão forte em um povo muitas vezes esquecido. A história no entanto contorna esta dura realidade ao apontar para o longe, para além do que vê, se apegando assim a uma fé tão forte que é capaz de poupar e preservar o último fio de esperança. De forma metafórica o roteiro aponta para a cultura como sendo o meio através do qual o povo será liberto de seu sofrimento, o que se configura em uma bela analogia aos projetos que o próprio grupo mantém em uma das regiões mais pobres do estado.


Assisti o espetáculo através do DVD, que fora gravado no ano de 2004 no Cine Teatro Central em Juiz de Fora., reconheço que esta experiência poderia ter sido bem melhor se não fossem alguns problemas técnicos bem primários que prejudicam e muito a apresentação. O principal deles está associado á edição e à montagem do vídeo, explico: A apresentação que vemos no DVD foi gravada na verdade em dois dias, um deles com a presença do público e outro com o teatro vazio, o problema surgiu na hora de juntar  as imagens capturadas nas datas diferentes; provavelmente para que não ficassem “buracos” na edição, os montadores recorreram à técnicas como a aceleração, desaceleração e repetição das imagens (era preciso sincronizar o áudio e o vídeo), o que definitivamente não funcionou. Os efeitos, que são bem toscos, tiram toda a naturalidade da apresentação e a noção de tempo cênico fica totalmente perdida. Em nenhum momento vemos os atores deixando o palco ou como se dá a transição de uma cena para outra, há tão somente algum corte abrupto que nos transporta direto para o próximo ato, intervenção que ao meu ver é simplesmente inconcebível.


Apesar dos problemas citados no parágrafo anterior, o DVD vale muito a pena ser conferido, até porquê o espetáculo não está mais em cartaz, o que faz com que esta seja a única forma de conferi-lo, e deixar de fazê-lo seria um verdadeiro pecado... Milton Nascimento mostrou que tem pouca destreza como ator, no entanto ele não precisa disso para nos encantar, à cada vez que ele solta sua voz inigualável é como se o espetáculo atingisse naquele preciso instante o seu ápice, o maravilhoso é que isso se repete em diversos momentos da encenação, na maioria das vezes em coro com os Meninos de Araçuaí ou com os atores do Ponto de Partida. A montagem tem pouquíssimos objetos cênicos, vemos no palco apenas o necessário para nos situar no contexto do "causo" contado. Os figurinos são muito bem feitos e fazem diversas referências à cultura mineira, aos congados e à arte barroca. A iluminação do palco foi muito bem arquitetada, ela ajuda a valorizar e reforçar os tons de amarelo desbotado dos figurinos, o que de acordo com os extras do DVD seria uma referência àquilo que sobrou da corrida pelo ouro, minério que fora tão abundante nas terras do estado...


O grupo Ponto de Partida foi criado em 1980 na cidade de Barbacena, que se tornou conhecida nacionalmente como a “cidade dos loucos” por já ter abrigado sete hospitais psiquiátricos. De alguma forma a trupe absolveu este aspecto histórico e cultural da cidade e hoje eles reconhecem que a “loucura” sempre fez parte do processo de criação de suas peças e isto pode ser facilmente percebido em Ser Minas Tão Gerais. A trupe tem no currículo 26 espetáculos e diversos prêmios conquistados no Brasil e no exterior, suas peças são caracterizadas pelo flerte constante com a literatura, com a música e com a cultura popular. O Meninos de Araçuaí nasceu através de um dos projetos sociais mantidos pelo Ponto de Partida, o Ser Criança desenvolvido pelo Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento na cidade de Araçuaí no Vale do Jequitinhonha. Eles lançaram o elogiado CD Roda que Rola, que vendeu mais de 35 mil cópias,   já se apresentaram ao lado de Milton Nascimento e Gilberto Gil e em 2003 receberam das mãos de Lula, então presidente da república, a Medalha do Mérito Cultural. Já o Milton, Bituca para os mais chegados,  dispensa qualquer apresentação... 


Ser Minas Tão Gerais é um nutritivo alimento para a alma de qualquer apreciador da MPB, do teatro e das expressões culturais de nossa gente brasileira. Recomendo para todos! 

Confiram no vídeo postado abaixo um trecho do espetáculo:



domingo, 22 de janeiro de 2012

Cirque du Soleil - Varekai

Varekai – Escrito e Dirigido por Dominic Champagne. Cenário de Stéphane Roy. Figurino de Eiko Ishioka. Música composta e conduzida por Violaine Corradi. Coreógrafos Michael Montanaro e Bill Shannon. Designer de Montagm Jaque Paquin. Iluminação de Nol Van Genuchten e Luc Lafortune. Som de Fronçois Bergeron. Desigener de Produções Francis Laporte. Guia Guy Laliberté. Diretor de Arte Andrw Watson. Espetáculo apresentado em Belo Horizonte em 21 de janeiro de 2012.


Realizei na noite de ontem um dos sonhos que cultivava desde menino, assisti a um dos mais belos espetáculos de minha vida: Varekai, uma das montagens itinerantes do Cirque du Soleil. Quando uma amiga me convidou para ir, ainda em setembro do ano passado, eu sequer cheguei a ponderar sobre a minha disponibilidade no mês de janeiro (eu ainda não sabia que estaria de férias), ou se eu teria dinheiro para a viagem e para o ingresso, eu apenas sabia que queria ir, na verdade eu tinha que ir, afinal oportunidades de termos sonhos realizados não podem ser perdidas! Comprei o pacote e passei quase cinco meses me corroendo de ansiedade para que este dia chegasse, por diversos momentos alguns problemas quase me fizeram abrir mão da viagem, mas felizmente tudo se resolveu... A tenda estava armada em Belo Horizonte, que fica cerca de 280 quilômetros distante de Ubá, a minha cidade, saímos daqui por volta de meio-dia, fomos em uma excursão organizada por uma agência de viagens local. Das cerca de quarenta pessoas que foram, apenas três já tinham assistido ao vivo a alguma das montagens anteriores do circo, mas mesmo para estas a expectativa era a melhor possível, afinal cada encenação da trupe é considerada uma experiência única, transcendente e indescritivelmente bela.

Chegamos em BH e aproveitamos o tempo livre até o início do espetáculo, que começaria às nove da noite, para passarmos no shopping (mais uma vez não contive meu consumismo e comprei 5 livros e um DVD). Conforme combinado, nos encontramos às oito horas no estacionamento do shopping e de lá fomos em direção ao local do espetáculo e foi aí que veio o susto. Descobrimos tarde demais que apenas uma hora poderia não ser o suficiente para chegar a tempo à tenda, pegamos um enorme engarrafamento e o motorista, na tentativa de pegar um atalho, acabou se perdendo (ele não admitiu isso)... Eu simplesmente gelei, era a realização do meu sonho que estava em risco. Faltavam cinco minutos para as nove horas, o transito não andava, alguém então comentou que após o início do espetáculo, que começaria estritamente em cima do horário, ninguém entraria ou sairia da tenda principal até o fim da primeira parte (são duas partes de uma hora cada), a possibilidade de perder metade do show aparentemente me assustava como a nenhum outro no ônibus... Mas, como que por milagre, de uma hora para outra o trânsito fluiu, conseguimos chegar! Foi como se estivessem nos esperando, pois acabamos de entrar, nos assentamos, e as luzes se apagaram...


Varekai, que estreou em 2002, é definido pelo seu diretor, Dominic Champagne, como uma homenagem à “alma nômade”, no dialeto cigano da Romenia Varekai significa “onde quer que seja”, o nome é uma alusão à descoberta do novo e ao constante processo de mutação em que vivemos, que nos leva a “lugares” diferentes à cada nova experiência. É mais ou menos esta viagem de descobertas que o espetáculo tenta nos proporcionar. A montagem narra a história de Ícaro, personagem da mitologia grega que, após realizar seu sonho do voar, teria tido suas asas derretidas pelo calor do sol e supostamente caido no mar Egeu. O Cirque du Solei conta a parte da história que até então não tinha sido contada, mostrando aquilo que teria acontecido com Ícaro após insucesso de sua tentativa de chegar ao sol, na montagem ele não cai no mar, mas sim em uma floresta que fica no topo de um vulcão, chamada Varekai... Na floresta Ícaro se redescobre ao entrar em contato com o novo. Através de suas interações com os seres fantásticos que habitam aquele mundo tão estranho, ele reencontra a esperança e o sonho de voar.

Se eu tinha alguma dúvida quanto à suposta perfeição dos espetáculos do Cirque du Soleil, agora não tenho mais, Varekai é de fato perfeito, fiquei boquiaberto diante do belíssimo show de acrobacias e malabarismos, tudo executado com uma incrível perícia e uma sensibilidade tamanha que cheguei a crer que estava diante de algo surreal, inimaginável... O show, que mistura elementos do circo, da ópera e do balé, não se limita à uma simples apresentação de malabaristas e acrobatas, há sempre um conceito por trás de tudo que nos é mostrado e é isto que torna a apresentação tão grandiosa, digna realmente de ser chamada de arte...


Os artistas, vindos de diversas partes do mundo, trazem consigo a magia do espetáculo circense mambembe, magia esta que não se perdeu mesmo diante de tantas evoluções tecnológicas e do advento de novas expressões artísticas e culturais... Achei fabulosa a forma com que eles conseguem convergir as mais diversas expressões artísticas em um mesmo espetáculo; as danças, as lindas músicas (que são executadas ao vivo durante o show), os figurinos, o cenário, a iluminação, os objetos cenográficos, tudo, tudo é impecável e de estonteante beleza estética. Infelizmente não pude filmar ou tirar fotos do espetáculo, era expressamente proibido fazê-lo mesmo antes ou depois da encenação... Contudo nenhuma foto ou vídeo seria capaz de traduzir ou expressar a sensação de presenciar o espetáculo ao vivo. Ao término da apresentação, os meus olhos mareados eram a confirmação de que eu acabara de viver uma das melhores experiências de minha vida, que compensava cada centavo gasto e as quase 10 horas de viagem!

O Cirque du Soleil ainda permanece em BH até o dia 10 de fevereiro, neste ano ele ainda armará sua tenda nas cidades de Brasília, Salvador, Recife e Curitiba; confiram a programação completa AQUI! Se você ainda não foi e tiver alguma oportunidade de ir não a perca por nada, pois lhe garanto valerá a pena!



quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Cólera - O Último dos "Gigantes"

.Uma Homenagem Póstuma.
 ao Maior Ícone do Movimento Punk no Brasil.

 

Hoje, quando entrei no facebook pela manhã, recebi a notícia trágica: “Edson 'Redson' Pozzi, vocalista e guitarrista da banda punk Cólera, morreu nesta terça-feira (27), aos 49 anos”. Para a grande maioria das pessoas nem este nome, nem a notícia, têm sentindo algum, mas para mim a aquela manchete caiu como uma bomba! À medida que eu procurava por confirmação daquele fato na rede e percebia que ele ia se tornando mais real, fui sendo tomado por um inesperado sentimento de comoção. De repente eu já tinha sido transportado para uma das épocas mais agitadas de minha vida, o final de minha adolescência, período de transformações, traumas e contato com o que de mais real e cruel a existência pode nos oferecer. Acho que dentre as bandas que eu ouvia com maior frequência neste período, somente o Ramones tenha sido mais importante, do que o Cólera foi. Mas diferente da banda americana, que me ensinou o que era Rock de verdade, o trio paulista me deu algo que ia além de sua sonoridade, suas canções deram voz ao meu engajamento e às minhas utopias, que eram então o que de melhor que eu tinha.

O Cólera foi formado em 1979, sendo uma das primeiras bandas da cena punk, que surgira em São Paulo nos idos de 1978. Em 1982, a banda participou, ao lado de Inocentes e Olho Seco, do primeiro disco Punk lançado no Brasil, o clássico Grito Suburbano, em novembro do mesmo ano o trio se apresentou no lendário festival O Começo do Fim do Mundo, organizado pelo escritor e jornalista Antônio Bivar; o evento rendeu um LP com 19 faixas, uma de cada uma das bandas participantes (apenas o Ulster não quis participar da edição original do disco). No ano seguinte Redson criairia o Estúdios Vermelhos, que mais tarde passaria a se chamar Ataque Frontal, por este selo foi lançado Sub, outra coletânea clássica do período, que trazia o Cólera, o Ratos de Porão, o Fogo Cruzado e o Psykóze, cada uma das bandas com seis músicas. Em 1985 o Cólera lança, pelo selo de Redson, o seu primeiro álbum, intitulado Tente Mudar o Amanhã, que tinha nítida influência do punk/hc finlandês. No mesmo ano é lançado o Split LP, Ao Vivo na Lira Paulistana, junto com o Ratos de Porão.

 

Em 1986 foi lançado o disco mais clássico da banda, Pela Paz em Todo o Mundo, que trazia músicas como Medo, Direitos Humanos, Alucinado, Adolescentes e o hino Pela Paz. A temática pacifista indicava que a banda já havia alcançado a maturidade e era ainda um diferencial em uma cena onde ainda existia uma acentuada segregação entre as bandas da capital e as do ABC Paulista, contexto que favorecia o acontecimento de brigas e outros casos de violência. Diferente da cena de Brasília, onde os integrantes das bandas eram geralmente estudantes filhos de políticos e diplomatas, o cenário paulista era formado por jovens operários e desempregados, mas mesmo sem nenhum recurso aqueles "garotos do subúrbio" fizeram valer o do it yourself teorizado pelo punk inglês, prova disso foi que em 1987, o Cólera encarou uma turnê que passou por vários países da Europa, sem ganhar nenhum dinheiro com isso, apenas as passagens e o alojamento em squaters (casas abandonadas que são ocupadas por ativistas).

 

Em 1987 a banda lançou o disco ao vivo European Tour '87, gravado durante a excursão do outro lado do Atlântico, e o seu segundo álbum, intitulado Verde, Não Devaste, que trazia uma urgente mensagem ecológica em faixas como Verde, Dont Waste It e Presídio Zoo, isso em uma época em que o ambientalismo ainda não era moda. Em 1992 lançaram o regular Mundo Mecânico Mundo Eletrônico, cujo o principal destaque é uma regravação, a da faixa 1.9.9.2., presente no primeiro disco. Após seis anos sem lançar nada de novo, o Cólera grava o excelente Caos Mental Geral, que chega a soar como uma volta aos primórdios. O disco traz músicas memoráveis como a faixa título, Cultural Revolução, Fuck I.U.R.D. e Dia e Noite, Noite e Dia, além de regravações de lados B e músicas presentes até então só em coletâneas como, Dê o Fora, Subúrbio Geral e Quanto Vale a Liberdade?, esta última, a melhor música da banda na minha opinião.

 

Mais outros seis anos sem novidades e então a banda nos presenteia com Deixe a Terra em Paz!, disco que mesclou o pacifismo de Pela Paz em Todo o Mundo e o Ambientalismo de Verde, Não Devaste, em músicas que mostravam uma sofisticação nunca antes experimentada pela banda. A poesia marginal expressa em letras diretas dão lugar a metáforas e alegorias, que ilustram reflexões sobre temas mais maduros e complexos, tirando o foco que até então estava na sociedade e direcionando-o para o indivíduo. Os destaques do disco são as faixas Espelho no Quintal, De ET pra ET, Samba-Core, Circocore, Aperta o Nó, Águia Filhote e São Paulo é Gig. Foram ao todo seis álbuns de estúdio, pode parecer pouco, mas foi o suficiente para transformar a banda em uma lenda, uma verdadeira instituição do movimento punk brazuca. Mesmo nos anos em que não gravou nada de novo, a banda continuou excursionando e se apresentando nos quatro cantos do país.

 

Nenhum dos integrantes chegaram a conseguir viver da banda, eles conciliaram durante anos os shows com seus respectivos empregos, sem nunca conseguirem sucesso comercial, o que fato não era o interesse da banda. O Cólera conseguiu atravessar três décadas se mantendo fiel à sua proposta original, sem se deixar levar por modas e pela pressão do mercado convencional. A banda é na minha opinião a que melhor representou não só a cena punk, mas todo o underground brasileiro nos últimos anos. Como você pode perceber no decorrer deste post, onde tentei resumir a trajetória da banda, eles foram os pioneiros de tudo aquilo que sustentou e ainda sustenta o meio alternativo até hoje. Com a morte prematura de Redson, devido a uma parada cardio-respiratória, a banda encerra suas atividades (uma vez que é quase inconcebível alguém o substituir) deixando um aperto no coração de quem presenciou e viveu ao menos parte desta respeitável trajetória.


Redson - um verdadeiro guerreiro do movimento punkl 
Só quem viveu as mesmas coisas que eu e alimentou as mesmas utopias pode compreender o impacto que a banda provocou em um dos melhores, apesar de tudo, e mais loucos períodos de minha vida... Precisei registrar aqui esta tentativa de homenagem á voz que um dia bradou: “Gostaria de te escutar, gostaria de te entender, por que você é Alguém! Se você quiser pode dizer o que sente, pode até gritar...”. Que traduziu minha indignação: “Às vezes tenho raiva, às vezes sinto que a ilusão me faz recuar, pois muita gente mente, pois muita gente dá a mão só pra empurrar...”. Que me ajudou a tecer inúmeras reflexões: “Se você não se virar pro espelho, sempre vai ter esse vulto por trás, um vulto estranho que te dá medo. Não corra não, é só você. O mundo dá voltas, o mundo dá voltas e a vida se entorta pra gente enxergar. O mundo dá voltas, o mundo dá voltas e a gente volta pra se reencontrar...”. E me deu a noção precisa da força que eu tinha em minhas mãos: “Você percebe que o tempo se vai, como as águas de um rio, vai se afastando, se encolhe mais, deixando um vácuo, um vazio. Voltar, voltar, voltar. Não tem por onde. Onde?! Você está solto, pode se afundar, ou pode se controlar! Forte e grande é você!”... Valeu camarada!
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