N° de acessos:

Mostrando postagens com marcador Suspense. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Suspense. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Principialismo x consequencialismo: o embate ético em “Conclave”


Na terça da semana passada (18/02), em BH, no caminho entre o Cine Belas Artes e o local onde estava hospedado, tentei colocar em ordem um turbilhão de reflexões sobre o filme que eu tinha acabado de assistir: "Conclave". Estava certo de que tinha acabado de assistir a um dos melhores filmes da temporada, daqueles que abrem caminho para diversos questionamentos. 

Uma dúvida em especial tomou o meu pensamento, fiquei me perguntando se a dimensão ética da conduta do personagem principal, o Cardeal Thomas Lawrence (Ralph Fiennes), poderia ser apenas um possível ângulo de análise da trama como um todo ou se seria ela, mais que isso, não apenas um horizonte de análise, mas a temática principal da obra. Me pareceu que a segunda possibilidade era a mais plausível.


O filme retrata o rito de sucessão ao trono da Santa Sé. Após a morte repentina do papa, Lawrence passa a ser um dos cotados para assumir o pontificado. Mas, apesar de sua evidente preocupação com os rumos da Igreja, ele não deseja assumir este fardo. Diferente de seus pares, ele aparenta não ambicionar tal posição. E, a despeito de sua própria vontade, ele se vê no centro de uma trama de intrigas e conspirações. Por ser o decano (o que há mais tempo foi ordenado cardeal), ele é o escolhido para presidir o conclave.



Na condição de responsável pelo rito, Lawrence se depara com um primeiro dilema moral: deve ele apenas cumprir as formalidades, crendo que a vontade divina é que determinará a escolha do papa, ou deve intervir nos rumos da votação em momentos em que isso lhe parecer necessário? É um conflito entre anular a si mesmo e o voluntarismo de se reconhecer como alguém em quem foi investido um poder de ser não apenas coadjuvante.


Um segundo dilema enfrentado por ele diz respeito à coerência entre aquilo que ele prega e aquilo que ele efetivamente faz. Ele não é um hipócrita, longe disso. As dúvidas substanciais que ele enfrenta são plausíveis, são, por extensão, as dúvidas que a própria Igreja, como instituição, parece condenada a enfrentar. E há aqui um embate entre três concepções éticas: a ética das virtudes, que pressupõe a existência de vetores axiológicos universais, a ética dos deveres, que pressupõe a obediência a um determinado código de conduta, e uma ética consequencialista, centrada nos resultados da ação.


Lawrence parece estar perdido entre essas três concepções. A crença que ainda lhe resta e suas concepções fortes do que é certo parecem indicar um caminho, mas seu dever de clérigo e sua visão pragmática, no entanto, parecem indicar outros. A importância dessa dúvida se sobressai em pelo menos três momentos: na homilia que ele faz na abertura do conclave (uma das cenas mais belas do filme), em um diálogo com outro cardial sobre motivações para o voto (outra sequência magistral) e na passagem em que algo inesperado acontece (seria a intervenção divina) e muda os rumos de tudo.



O terceiro dilema enfrentado por ele é aquele entre seguir de forma acrítica uma tradição ou permanecer aberto à insurgência do novo. E é aqui que parece estar a fonte da crise de fé que Lawrence experimenta. E essa crise que o leva à dúvida essencial: se ele deve seguir aquilo que acredita ser o certo ou se submeter, sem questionamento, aos mandamentos de caráter dogmático impostos pela tradição eclesiástica.


Este último dilema se conecta com os outros dois e, novamente, com o tema da homilia proferida pelo personagem. Há uma passagem bíblica que diz que "a fé é a firma certeza daquilo que se espera e a prova daquilo que não se pode ver" (Hebreus 11:1), e uma leitura descontextualizada dessa passagem pode levar a crer que a fé é uma certeza cega, absoluta. Mas, não é disso que se trata. Na teologia cristã, há duas certezas postas como condição da própria fé: a de que Deus (aquilo que não se pode ver) existe e que a salvação (aquilo que se espera) vem por um ato de graça. É a isso que a carta aos Hebreus faz referência, não a todo e qualquer aspecto da crença, e definitivamente não ao como se deve agir em razão desta mesma fé.



A fé não implica em certezas sobre a questão ética/moral mais fundamental: como devo agir. A tradição eclesiástica apresenta respostas prontas, o que pode ser notado na adoção de procedimentos e esquemas práticos predefinidos (o que o filme ressalta ao demonstrar o extremo cuidado com os ritos). Mas, a conduta ética não tem relação com respostas prontas. Não há ética onde há certezas absolutas; a ética pressupõe a existência da dúvida.


E aqui se revela a contraposição central da trama: de um lado, o pensamento religioso dogmático; do outro, o pensamento ético. Os dois não se misturam, e enquanto o primeiro pode ser usado para justificar atrocidades, é apenas na experimentação do outro que se pode caminhar para uma experiência substancial de justiça e de consideração da dignidade do outro. "Conclave" é sobre tudo isso, ele ele nos diz muito sobre o nosso próprio tempo e talvez seja, dada a sua complexidade e consistência, um dos filmes da temporada que melhor resistirão ao passar dos anos.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Um breve, porém intenso, mergulho no cinema argentino!


Não foi algo planejado. Eu estava à procura do filme Relatos Selvagens (2014) - coprodução entre Argentina e Espanha, escrita e dirigida pelo Damián Szifron, produzida pelo Almodóvar e com nomes como Ricardo Darín, Darío Grandinetti e Leonardo Sbaraglia no elenco - e, depois de algumas tentativas frustradas desisti de encontrá-lo, foi então que veio a ideia de colocar em dia, ao menos em parte, a enorme dívida que tenho com o cinema argentino. Minha intenção inicial era assistir a dez filmes, acabou sendo nove, pois não consegui encontrar legenda compatível para um deles. A maioria dos filmes assistidos foram lançados no início da década passada, o que não foi intencional, daria para fazer um passeio semelhante passando apenas por obras mais recentes. Esta seleção, no entanto, acabou sendo um reflexo daquele que foi um dos períodos mais prolíferos da cinematografia no país, o auge do 'movimento', surgido na década de 90, que ficou conhecido como Novo Cinema Argentino. 

Durante esta pequena maratona foi quase inevitável não fazer comparações entre o cinema argentino e o nosso. No tocante à qualidade das obras, acredito que temos uma produção tão prolífera e boa quanto a deles. A diferença está, não no processo artístico/criativo, mas no mercadológico. Os hermanos têm conseguido contornar problemas nos quais ainda tropeçamos, boa parte deles relacionado ao financiamento público da produção (geralmente feito através de políticas de incentivo) e à distribuição. A impressão que se tem é a de que os filmes de lá não visam apenas o mercado interno (diferente de boa parte daquilo que é produzido hoje no Brasil) e as melhores obras não ficam restritas apenas ao circuíto de mostras e festivais, como ainda acontece por aqui, o que indica que a industria cinematográfica se encontra em estágios de maturidade diferentes nos dois países. [Pretendo voltar à estas questões em um post específico]. 

Recomendo esta breve maratona para todos! Para iniciá-la, dispa-se da rivalidade tola que fora alimentada durante muito tempo entre os dois países, abra a sua alma e se permita ser impactado por ótimas produções de diferentes gêneros, com propostas diferentes, mas pertencentes a um todo, que daria orgulho a qualquer país! Abaixo seguem breves considerações sobre cada um dos filmes assistidos: 


Minha modesta maratona, que durou uma semana, foi iniciada com O Filho da Noiva (2001), uma pequena obra-prima de Juan José Campanella. O filme, que é o segundo da fruto da longeva e bem sucedida parceria do diretor com o ator Ricardo Darín, tem em sua composição dois dos grandes trunfos do cinema produzido pelos hermanos: a sensibilidade e a universalidade. No centro da história está Rafael (Darín), ele se formou em direito, mas acabou assumindo o restaurante do pai por não ter alcançado sucesso na carreira de advogado. Sobrecarregado por afazeres e responsabilidades,  ele ainda precisa lidar com problemas e conflitos familiares. A pressão é enorme, ele tenta segurar as pontas mas não resiste, o preço a ser pago vem na forma de um infarto, que o deixa por vários dias na UTI, período no qual ele se vê imersos em reflexões forçadas sobre a sua vida e as escolhas que fez. A oportunidade de Rafael encontrar alguma paz interior vem quando o seu pai, Nino (Héctor Alterio), anuncia que quer finalmente se casar na igreja com a sua mãe, Norma (Norma Aleandro); uma proposta ousada devido a um pequeno problema, Norma tem perda de memória, provocada pelo mal de alzheimer, e é incapaz de responder pelos seus atos. O desenrolar da história é uma verdadeira ode ao amor e à valorização dos pequenos prazeres. 


O segundo filme da maratona foi Nove Rainhas (2000), longa dirigido por Fabián Bielinsky, também protagonizado por Ricardo Darín. No centro de sua trama estão dois trapaceiros profissionais, Marcos (Darín) e Juan (Gastón Pauls), eles se conhecem quase que por acaso e decidem 'trabalhar' juntos por um dia. É justo neste dia que surge a oportunidade de aplicar um golpe milionário, que envolve a réplica de uma série de selos raros e um perigoso colecionador que está hospedado na cidade. A fluidez da narrativa, os diálogos afiados e as ótimas atuações dos protagonistas dão ao filme um diferencial que o distancia da grande maioria das obras do gênero que são realizadas atualmente. O último ato, que não comentarei pelo risco de entregar algum spoiler, só confirma aquilo que os primeiros já indicavam, trata-se de uma grande obra, que soube aproveitar da melhor forma possível uma boa história, sem para tal precisar recorrer a malabarismos técnicos e a firulas estilísticas desnecessárias. 


O filme seguinte foi Plata Quemada (2000), triller de Marcelo Piñeyro, baseado em fatos reais, que retrata a fuga de uma quadrilha de bandidos, que vão para o Uruguai após assaltarem um carro forte. O assalto não acontecera conforme o planejado e os dois policiais que estavam  veículo acabaram sendo mortos pelos bandidos. Movida pelo desejo de vingar a morte dos dois militares, a polícia local dá início à uma investigação para descobrir o paradeiro da quadrilha. Os próprios assaltantes reconhecem que é uma questão de tempo até que o local em que se refugiaram seja descoberto, no entanto eles decidem permanecer até que um aliado no Uruguai consiga documentos falsos para eles virem pra o Brasil. A trama é protagonizada por dois dos assaltantes, El Nene (Leonardo Sbaraglia ) e Ángel (Eduardo Noriega ), conhecidos no meio como 'os gêmeos'; apesar desta alcunha eles são bem diferentes um do outro, El Nene é racional e se porta como o cabeça do grupo, enquanto que Ángel se deixa guiar mais facilmente pela emoção, sendo movido frequentemente pela culpa que sente por ser um fora da lei e por manter um relacionamento homoafetivo com El Nene. A narrativa desenvolve de maneira muito satisfatórias os seus dois viés, o romântico/erótico, sustentado pelo relacionamento entre os dois personagens e o suspense, que coloca o filme em uma tensão sempre crescente, que se torna angustiante com a aproximação do último ato.


O quarto filme da maratona foi Lugares Comuns (2002), drama dirigido por Adolfo Aristarain que conta a história de um professor de literatura, já idoso, que é aposentado compulsoriamente devido às ideias que defende em sala de aula. Com o país passando por uma grave crise econômica, Fernando Robles (Federico Luppi), o protagonista, se vê obrigado a vender a casa em que mora e a pegar como parte do pagamento uma propriedade rural para onde se muda. O desenrolar da trama retrata o processo de adaptação do professor à nova vida, processo este que é retratado com uma singeleza enorme, que chama atenção não só pela tentativa do personagem de vencer suas limitações, mas também pela forma com que as suas ideias, quando postas em prática na história, acabam nos impactando. No último ato o filme perde um pouco de sua unidade, à partir de dado momento da narrativa ele abandona alguns dos conflitos que tinham sustentado a narrativa até então para se apegar a outros. Isso faz com que o desfecho soe um tanto forçado, como se tivesse sido construído de tal forma apenas para despertar no público algum tipo de comoção. Todavia, o filme continua acima da média e sendo uma boa pedida para quem valoriza atrativos que dificilmente seriam encontrados no cinema comercial. 


A História Oficial (1985) foi o próximo a ser assistido. Dirigido por Luis Puenzo, ele foi o primeiro filme latino-americano a ganhar o Oscar na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. É sem dúvidas uma obra-prima, grandiosa em todos os aspectos: Roteiro, atuações (Norma Aleandro está sublime), fotografia, direção de arte, trilha sonora... Todavia, creio que o seu maior trunfo foi ter levado para a tela grande a discussão sobre um tema tão polêmico, tão recente na época, que ainda era uma ferida aberta na história da Argentina. Em sua trama, Alicia (vivida pela Norma) é uma professora de história que preza pela disciplina e pela ordem. Ela não percebe que o rigor de suas posições e a unilateralidade de sua visão sobre aquilo que ensina a têm distanciado da história real de seu país. Alienada das questões políticas e sociais ela se recusa a enxergar a cruel realidade que a ditadura militar representava. No entanto, a suspeita de que a menina, que adotara ainda bebê, possa ser filha de militantes políticos mortos pelo regime, começa mudar a visão que até então ela tinha. Como pano de fundo, o filme retrata a luta da Mães da Praça de Maio, mulheres que se uniram para lutar e reivindicar notícias sobre seus filhos desaparecidos durante a ditadura militar. 


O sexto filme da maratona foi outra obra de Juan José Campanella, O Mesmo Amor, a Mesma Chuva (1998), o primeiro fruto da parceria dele com Ricardo Darín. A trama acompanha o relacionamento entre os dois protagonistas, Jorge Pellegrini (Ricardo Darín) e Laura (Soledad Villamil), durante 20 anos, retratando as crises, os términos, os longos períodos de separação e também os bons momentos, que foi o que manteve uma centelha do sentimento inicial acesa por tanto tempo. Sem os clichês do cinema mainstrean, a narrativa nos apresenta a personagens complexos, dotados de vícios e virtudes, que muitas vezes erram tentando acertar e por isso acabam colocando em risco aquilo que têm de mais importante. Em uma análise mais ampla, eu diria que a história de amor contada funciona como uma metáfora daquilo que o país vivia em cada um dos períodos retratados; começa com a utopia, passa pela esperança (representada na esfera social pela abertura política) e por diversas crises, até chegar à uma espécie de maturidade, onde os problemas ainda não estão todos resolvidos, mas há a sabedoria que impede que erros do passado voltem a ser cometidos.


O sétimo da lista foi Um Conto Chinês (2011), filme dirigido por Sebastián Borensztein, que também traz Ricardo Darín no papel principal. Com sua trama construída sobre a ideia de que talvez exista um porquê associado a questões atribuídas ao acaso, o longa direciona o foco de sua narrativa para a vida monótona de Roberto (vivido por Darín), um homem ranzinza, mas de bom coração, que não faz nada além de administrar sua loja de ferragens. A rotina de Roberto muda completamente depois que seu caminho se cruza por acaso (será mesmo?) com o de Jun (Ignacio Huang), um jovem chinês que fora para a Argentina em busca de um tio com quem nunca teve qualquer tipo de contato. Sem saber uma palavra em Espanhol e sem ter lugar para ficar, Jun acaba sendo acolhido por Roberto. A chegada do rapaz mexe com o pacato comerciante e sutilmente muda a forma com que ele enxerga a si mesmo e o mundo à sua volta. Ao observar o rapaz, Roberto descobre que tem tanta dificuldade de se comunicar como ele, talvez venha daí a empatia que surge entre os dois, sentimento este que impactará a vida de ambos. 


Abraço Partido (2004) de Daniel Burman, o penúltimo filme da maratona, tem como pano de fundo a crise econômica que assolou a Argentina, sua história passa-se quase que totalmente no interior de uma galeria comercial, onde Ariel Makaroff (Daniel Hendler), o protagonista, trabalha. Ariel tenta tirar dupla cidadania (ele é descendente de poloneses) para conseguir finalmente deixar a Argentina e se mudar para a Europa. No entanto, o galho da árvore genealógica que pode o favorecer em sua tentativa de ter a cidadania polonesa aprovada, é o mesmo que o conduz à uma série de dúvidas sobre o seu passado. Seu pai, um judeu idealista, deixara a família pouco tempo depois dele nascer para se alistar no exército de Israel. A recusa da mãe e do irmão mais velho de tocar no assunto indica que pode haver algo que Ariel não sabe. O desenvolvimento da trama retrata a busca do jovem por informações que expliquem o fato do pai não ter voltado e o relacionamento dele com o que sobrou de sua família e com as outras pessoas que também trabalham na mesma galeria. O bom ritmo, a maneira com que diversas sub-tramas são costuradas e a ótima atuação de Hendler ajudam a tornar esta uma grande obra, digna de estar entre as melhores do Novo Cinema Argentino.


Crônica de uma Fuga (2006), dirigido por Adrián Caetano, o último da maratona, é baseado em fatos reais e tem sua trama ambientada durante o período em que a Argentina esteve sob uma ditadura militar. Claudio Tamburrini (Rodrigo de la Serna), o goleiro de um time argentino da segunda divisão, é sequestrado por agentes do governo e levado para uma antiga mansão, usada como campo de detenção e tortura. Lá um grupo de jovens é mantido em cativeiro e submetido a diversos tipos de tortura, métodos estes que são usados para arrancar deles confissões e dados sobre operações suspeitas e outros envolvidos com a militância política de esquerda. Claudio, que não tinha nenhum envolvimento com questões desta natureza, arquiteta junto com outros sequestrados um plano de fuga, que se torna uma última esperança para o grupo, que teme a pena mais alta aplicada pelo tribunal clandestino: a morte. O filme consegue retratar com realismo a angústia e o sofrimento vivenciado no local. A tensão criada pela trama chega a se tornar quase insuportável em alguns momentos. Trata-se, sem dúvidas, de uma grande obra, cujo valor transcende as questões meramente técnicas, é o tipo de história que precisa ser contada para que os erros do passado não voltem a ser cometidos. 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Incêndios

Incêndios (Incendies) - 2010. Escrito e dirigido por Denis Villeneuve, baseado no texto original de Wajdi Mouawad, com a consultoria de Valérie Beaugrand-Champagne. Direção de Fotografia de André Turpin. Trilha Sonora Original de Grégoire Hetzel. Produzido por Luc Déry e Kim McCraw. Produtora: micro_scope / França | Canadá.


O pano de fundo de Incêndios (2010), filme dirigido pelo canadense Denis Villeneuve, é o conflito que há décadas assola o Oriente Médio. Por meio de uma história visceral, que vai de 1970 à 2009, o filme retrata a corrente de ódio que torna aparentemente interminável um conflito que é ao mesmo tempo étnico, religioso e, principalmente, político. Com uma abordagem seca e sem atenuantes, o filme expõe, tal como uma enorme ferida aberta, os diversos tipos de atrocidades cometidos por ambos os lados. Sem maniqueísmos e livre do excesso de dramatização característico do cinema mainstrean, a narrativa abre espaço para um realismo incômodo e extremamente angustiante. 

O desenrolar da trama se incia quando os gêmeos Jeanne (Mélissa Désormeaux-Poulin) e Simon Marwan (Maxim Gaudette) são comunicados sobre as últimas vontades da mãe, Nawal Marwan (Lubna Azabal), manifestas por meio de um testamento que ela deixara aos cuidados de seu ex-patrão, um oficial de um cartório de notas. Ela pede aos filhos que procurem o pai biológico e um irmão, que eles nem sabiam que tinham. De acordo com as instruções deixadas, eles deverão encontrar estes familiares e entregar a eles cartas deixadas por ela. À princípio apenas Jeanne se dispõe a atender estes últimos pedidos, o que a leva, sozinha, ao oriente médio (a um país não revelado na trama) em busca de informações sobre o passado da mãe e o paradeiro do restante da família. 


Através de sucessivas idas e vindas no tempo, o roteiro mergulha na surpreendente história de Nawa, que vai adquirindo ares de tragédia grega no decorrer de seu desenvolvimento. Quando jovem, a mãe de Jeanne e Nawal se envolvera na guerra entre radicais muçulmanos e cristãos, conflito que assolou a região em que ela vivia, destruindo a vida de um incontável número de pessoas, que morreram, foram presas ou expatriadas durante quase quatro décadas de confronto. As marcas deixadas por este envolvimento foram carregadas por ela até o fim de sua vida e, após sua morte, acabaram sendo legadas aos filhos, que se viram então obrigados a lidar com segredos dolorosos, verdades que nunca tinham sequer imaginado.



A narrativa se distancia ideologicamente do conflito e se aproxima dos personagens e das situações retratadas e isso acaba sendo o seu grande diferencial. Pode soar controverso, dada a frieza observada na condução da história, mas vejo Incêndios como um filme extremamente humanista e é justamente neste humanismo, presente em toda a sua trama, que se baseia a catarse que ele nos proporciona em seu último ato. Porém, diferente do anestésico social que representava na tragédia grega, a catarse funciona aqui mais como um convite à reflexão e à indagação dos porquês da perpetuação de uma realidade tão cruel e, aparentemente, destituída de qualquer senso humanitário...


Todo o elenco entrega atuações carregadas de verdade, condizentes com a visceralidade da trama e com a proposta do filme. Destaco o desempenho de Mélissa Désormeaux-Poulin que torna crível, através de sutilezas como expressões e olhares (principalmente olhares), o drama enfrentado por Jeanne, e o de Lubna Azabal, que se entrega de corpo e alma na composição de uma personagem que é extremamente complexa. O aparato técnico do filme também é soberbo, o que potencializa o impacto que a trama, por si só, já seria capaz de provocar. A composição da mise-en-scène trabalha de uma maneira muito interessante o contraponto entre ambientes claustrofóbicos (como uma cela, o interior de um ônibus e até mesmo escritórios) e outros abertos, mas igualmente aflitivos, que reforçam, através do destaque que se dá às marcas da destruição e à aridez da região, a sensação de que se trata de um meio totalmente inóspito.


A excelente montagem dá fluidez à trama, atenua a tenção e ajuda a localizar no espaço e no tempo a enorme quantidade de personagens e situações retratadas em pouco mais de duas horas de filme. Apesar de cobrir um longo espaço de tempo e da complexidade dos eventos retratados, o filme não aparenta ser demasiadamente superficial ou de difícil compreensão em nenhum momento, há um notável equilíbrio, mérito que atribuo à montagem e à decisão, muito bem sucedida, de focar as relações entre os personagens e não o apego a datas e fatos históricos. Destaco por fim o uso de duas músicas do Radiohead, 'Like Spinning Plates' e 'You and Whose Army?', que retratam perfeitamente a falta de sentido e a brutalidade das situações retratadas nos momentos em que são usadas... Não é nenhum exagero afirmar que Incêndios é uma obra-prima, um dos melhores filmes dos últimos anos.


Incêndios foi indicado ao Oscar na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. 


Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a crítica de Os Suspeitos (2013), também dirigido pelo Denis Villeneuve. 



A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Os Suspeitos

Os Suspeitos (Prisoners) - 2013. Dirigido por Denis Villeneuve. Escrito por Aaron Guzikowski. Direção de Fotografia de Roger Deakins. Música Original de Jóhann Jóhannsson. Produzido por Kira Davis, Broderick Johnson, Adam Kolbrenner e Andrew A. Kosove. Alcon Entertainment, 8:38 Productions e Madhouse Entertainment / USA.


Toda sociedade possui um sistema legal, simples ou complexo, cuja função é proteger a coletividade e o indivíduo de uma provável ruína que poderia ser causada por desvios de conduta, crimes ou contravenções. Ao criar um conjunto de leis e normas a serem seguidas, a sociedade transfere para uma instância maior (no caso o estado) o poder de legislar, julgar e executar penas que corrijam as distorções observadas. Porém, quando um indivíduo ou grupo decide reivindicar para si algum destes poderes que foram outorgados ao estado, todo o sistema legal entra em colapso e isso põe em risco toda a organização social. Tal usurpação de poder geralmente ocorre quando algum tipo de fragilidade é percebido no sistema. Em algumas situações, no entanto, esta fragilidade surge apenas de uma leitura equivocada da realidade, muitas vezes motivada por emoções que se encontram à flor da pele e pelo impulsos que delas decorrem.

Esta questão, que é bastante complexa, está no cerne da trama de Os Suspeitos (2013), o filme mais recente do cineasta canadense Denis Villeneuve. O longa, que já figura em algumas listas dos melhores do ano, nos coloca diante de uma complicada questão moral: até que ponto a intervenção do indivíduo no sistema pode ser justificada pela suposta ineficácia do aparato legal. O roteiro nos aproxima emocionalmente da história contada ao nos colocar na condição de voyers. Nossas emoções são despertadas através do suspense criado de forma magistral por cada um dos elementos de linguagem e o nervosismo e a ansiedade que experimentamos diante de determinadas passagens chega a tornar compreensível as posturas controversas de alguns dos personagens e isso acontece com maior intensidade em pelos menos dois momentos do filme, o que é o resultado de um fenômeno interessante que comentarei mais adiante.


A história começa com o misterioso desaparecimento de duas garotinhas no dia de ação de graças (um detalhe de extrema importância para a narrativa), à princípio as suspeitas recaem sobre Alex Jones (Paul Dano), um jovem mentalmente perturbado que fora visto nas redondezas pouco antes do sumiço das meninas. Alex é detido e interrogado, porém a falta de provas faz com que a suspeita não seja confirmada pela polícia local. Keller Dover (Hugh Jackman), o pai de uma das garotas, se revolta ao descobrir que Jones fora solto após decorrido o prazo legal, durante o qual a polícia podia mantê-lo sob custódia mesmo sem ter provas contra ele. Mesmo sem nenhum indício de que o rapaz tenha algum envolvimento com o caso, Dover se convence de que ele é o responsável, ou um dos responsáveis, pelo desaparecimento de sua filha. Descrente na atuação da polícia, ele sequestra o suspeito e passa a torturá-lo em busca de informações.


Keller Dover usurpa para si o poderes de jurgar e de executar penas, totalmente descontrolado ele age sem ao menos refletir sobre o peso, o significado e as consequências de suas ações. No afã de encontrar a filha, ele acaba envolvendo também os pais da outra menina no sequestro; Franklin (Terrence Howard) e Nancy Birch (Viola Davis) vivenciam de uma forma ainda muita intensa o dilema moral que toda a situação representa, mas mesmo assim acabam sendo coniventes com as ações desesperadas de Dover. Os atos dos três são tão condenáveis quando os do sequestrador de suas filhas, com a diferença de que as ações deste são apenas presumidas enquanto que as deles são reais e extremamente violentas. A postura de Grace (Maria Bello), a esposa de Keller, é bem diferente da do marido, ela se abate terrivelmente com a situação, mas consegue manter um considerável nível de lucidez, mesmo permanecendo na maior parte do tempo sob o efeito de medicamentos tranquilizantes.


Loki (Jake Gyllenhaal), o detetive responsável pelo caso, é outro personagem de extrema importância para a narrativa, ele é a representação perfeita das limitações e da fragilidade do estado. Visivelmente atormentado pelos seus próprios fantasmas, ele recorre a respostas vazias para manter os ânimos dos familiares das vítimas sob controle, todavia fica evidente que nem ele mesmo consegue mais acreditar naquilo que diz. Em uma das passagens mais emblemáticas do filme ele próprio decide ultrapassar os limites da lei em busca de uma informação; esta passagem aponta para um problema maior e deixa evidente qual é a real intenção do roteiro ao abordar as problemáticas em torno desta questão.


Acredito que a proposta da trama de Os Suspeitos não é emitir juízo moral, nem tão pouco condenar as ações de seus personagens, talvez a sua real intensão seja a de colocar as questões abordadas em evidência, chamando assim a atenção para a fragilidade dos poderes constituídos, para as consequência da usurpação destes poderes por pessoas ou grupos que se encontrar incapacitados para administrá-los e principalmente para conduta moral que demonstramos diante de uma situação semelhante. É neste último ponto que se encontra a importância do processo mental criado pelo filme, que nos coloca em uma situação similar à dos personagens que decidem agir à margem da lei. É natural que nós expectadores, ao assistirmos a um filme, aprovemos ou não os atos dos personagens diante de algumas situações complexas, aqui tal avaliação de conduta ganha uma enorme importância, por estar diretamente relacionada à reflexão que o filme propõe.


As ótimas atuações aliadas à excelente construção dos personagens tornam a história ainda mais forte, impactante e plausivelmente real. A trilha sonora, a fotografia, os movimentos de câmera e a edição contribuem para a manutenção de um clima extremamente opressivo e melancólico, que é condizente com o retrato social que o filme como um todo representa. Em um ano em que consegui assistir a um número bem reduzido de filmes, Os Suspeitos foi uma das mais gratas surpresas, não tenho dúvidas, trata-se de uma obra de inegável qualidade, que prova que Hollywood ainda é capaz de dosar na quantidade certa o entretenimento e a profundidade dramática.


Assistam ao trailer de Os Suspeitos no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Passion

Passion - 2012. Escrito e dirigido por Brian De Palma, adaptado do roteiro original de Natalie Carter e Alain Corneau. Direção de Fotografia de José Luis Alcaine. Música Original de Pino Donaggio. Produzido por Saïd Ben Saïd. SBS Productions, Integral Film e France 2 Cinéma / França | Alemanha.


A competitividade, o imediatismo e a busca enlouquecida pelo poder são alguns dos temas abordados em Passion (2012), o novo filme de Brian De Palma,  um triller psicológico ambientado no mundo hostil das grandes corporações. Em seu desenvolvimento, o longa conduz o expectador pelo que seriam níveis diferenciados de realidade, no quais o absurdo kafkiano, que gradativamente toma conta da narrativa, se torna um elemento capaz de chamar a atenção para a irracionalidade de alguns atos e posturas, que evocam a natureza deste meio, no qual não raramente a ambição desmedida se sobrepõe à conduta ética. Algumas sequências do filme chegam a parecer forçadas e improváveis beirando assim ao surreal; acredito, porém, que esta foi a forma encontrada para retratar o quão degenerado é o ambiente no qual a história se passa.

Isabelle James (Noomi Rapace), a protagonista, trabalha no setor de criação de uma grande empresa, seu comportamento nos primeiros momentos do filme evidencia uma certa ingenuidade, à princípio ela aparenta acreditar que sua ascensão profissional acontecerá quando reconhecerem a qualidade de seu trabalho, por conta disso ela acaba se dedicando a ele com total entrega, porém, ao ter seu tapete puxado pela sua superiora hierárquica, a perigosa Christine Stanford (Rachel McAdams), ela decide entrar de fato na disputa e jogar o mesmo jogo que seus pares e superiores aparentam jogar. Tal decisão a coloca em um processo de crescente degeneração moral, que a torna cada vez mais semelhante ao meio no qual está inserida.


Christine Stanford, por sua vez, aparenta ter tomado a forma deste meio já há muito tempo, a naturalidade com que ela lida com a própria falta de escrúpulos evidencia uma total ausência de culpa em seu comportamento. Pode-se dizer que ela é um arquétipo, afinal de contas a aparente complexidade de sua criação não lhe subtrai o maniqueísmo, ela é basicamente aquilo que aparenta ser, não há camadas em sua composição e este acaba sendo o seu traço mais marcante. É por meio de Isabelle - esta sim uma personagem pressupostamente complexa - que o roteiro tenta envolver o expectador com a temática abordada e com a reflexão proposta, nota-se que nas primeiras passagens há uma evidente intenção de aproximar a protagonista do público e a condição de vítima, na qual ela é apresentada, colabora muito para que isso realmente aconteça.


No decorrer do filme, no entanto, há um processo de distanciamento da personagem em relação ao público, que culmina no ato que comprova que ela de fato vendera sua alma, este processo é de extrema importância para a narrativa, pois é através dele que o roteiro desenvolve e alimenta o suspense presente em todo o seu desenvolvimento. É interessante perceber como alguns elementos que compõem a parte visual do longa dialogam com a questão central de sua trama, que é a degeneração moral da personagem principal, à medida em que Isabelle passa a fazer escolhas condenáveis, sua figura adquire uma aura sombria e o reflexo disso se torna presente em todo o ambiente à sua volta, a construção da mise en scène sugere que podemos estar dentro de um pesadelo e tal impressão é reforçada pelos cenários sombrios, que são fotografados em formatos assimétricos e distorcidos (o que remete à estética do expressionismo alemão). 


A assinatura do Brian De Palma pode ser facilmente notada na escolha dos enquadramentos e nos movimentos de câmera, sua perícia técnica é inquestionável, todavia, ainda cabe aqui a seguinte pergunta: Tudo isso realmente funciona? Eu particularmente acredito que sim, mas não em sua plena potencialidade. Se por um lado a adoção do absurdo - que influencia diretamente na escolha dos elementos de linguagem - reforça a sensação de estramento que o filme é capaz de causar, por outro ele acaba diminuindo o impacto provocado pela trama, que, penso, poderia ser mais forte se a história fosse plausivelmente real. Porém, considero o roteiro o aspecto mais frágil de Passion, o ritmo por ele conferido faz com que tudo no filme acontece relativamente rápido demais, inclusive a transformação da protagonista, e esta velocidade reduz consideravelmente a margem para reflexão e o filme como obra autoral acaba perdendo muito com isso. 


Eu, particularmente, não acredito que Passion tenha sido uma grande decepção, como uma boa parte da crítica tem apontado, de fato ele não consegue atender às inúmeras e enormes expectativas criadas em torno de seu lançamento, mas ele não deia de ser um bom filme, que continua merecendo ser visto por diversos motivos, dentre eles os já citados elementos técnicos (nos quais se concentra a quase totalidade da expressão autoral de De Palma) e as boas atuações do elenco principal. Não é nem de longe uma obra-prima, mas também não chega nem perto de ser um dos maiores desacertos do ano.


Assistam ao trailer de Passion no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

sábado, 5 de outubro de 2013

A Caça

A Caça (Jagten) - 2012. Dirigido por Thomas Vinterberg. Escrito por Tobias Lindholm e Thomas Vinterberg. Direção de Fotografia de Charlotte Bruus Christensen. Música Original de Nikolaj Egelund. Produzido por Sisse Graum Jørgensen , Morten Kaufmann e Thomas Vinterberg. Zentropa Entertainments / Dinamarca.



Podem ser desastrosos os efeitos de um julgamento equivocado, vidas inteiras podem ser destruídas em um curto espaço de tempo e ainda que a verdade venha à toda e o julgamento inicial seja revisto, dificilmente o estrago pode ser reparado por completo. É em torno desta temática que o roteiro de A Caça (2012), o mais recente filme do cineasta Thomas Vinterberg, se desenvolve. Sua trama acaba nos proporcionando muito mais do que simples história sobre uma acusação injusta, ao explorar questões ainda mais complexas como a fragilidade dos laços que criamos com as pessoas com quem convivemos no dia-a-dia e a maleabilidade da moral constituída... Em dado momento, um dos personagens, aturdido pela culpa, pondera: "existe muita maldade no mundo...", esta declaração aponta para uma visão amarga da vida (e por extensão das relações humanas) que está presente em todo o filme, isso se reflete na narrativa, que segue a crueza que já se tornou uma das características mais marcantes da filmografia do diretor dinamarquês. 

Lucas (Mads Mikkelsen), o protagonista, começou a trabalhar no jardim de infância depois que perdeu seu emprego de professor em um colégio, ele está em processo de divórcio e, devido a uma decisão judicial, ele acaba tendo pouco contato com seu único filho, Marcus (Lasse Fogelstrøm). A vida relativamente pacata que Lucas leva na pequena cidade onde mora é completamente abalada depois dele ser acusado de abuso sexual. Klara (Annika Wedderkopp), uma aluna do jardim da infância de apenas cinco anos, conta para a diretora da escolinha que Lucas teria lhe mostrado seu órgão genital. As perguntas que são feitas para a garota a partir de então são sugestivas e a induzem a dar um falso testemunho acerca dos fatos. Partindo da premissa um tanto absurda de que 'uma criança nunca mente', a diretora afasta Lucas do trabalho e convoca uma reunião com os pais dos outros alunos para expor o ocorrido. A partir de então, mesmo sem uma investigação criteriosa dos fatos, quase todos passam a considerá-lo culpado.


Alguns dos amigos de Lucas se afastam, outros passam a agredi-lo verbalmente e até fisicamente, isso faz com que sua vida se torne um verdadeiro inferno, pouco a pouco ele acaba perdendo tudo aquilo que mais valorizava. Seu filho Marcus escolhe permanecer ao seu lado, contrariando a vontade da mãe, e por isso acaba sendo mais uma vítima da agressividade de vizinhos e conhecidos da família. Em determinada cena o garoto perde o controle, devido à situação a que é exposto, e acaba sendo agredido por um antigo amigo de seu pai, esta passagem deixa claro o tipo de reflexão que o filme evoca, ela nos leva a questionar o valor da moral enquanto regulador social, uma vez que esta mesma moral "permite" a agressão de um garoto por um crime do qual o pai dele (e não ele) é apenas suspeito. O absurdo da situação fica ainda mais evidente pelo fato desta agressão também se tratar de um caso de violência contra uma criança, o que parece ser completamente ignorado no trama.


Theo (Thomas Bo Larsen), o pai de Klara, é o melhor amigo de Lucas, eles se conhecem há muito tempo, no entanto nem a força deste relacionamento é suficiente para que Theo questione a veracidade das declarações de sua filha, sua reação comprova o quão frágil era o laço de amizade que existia entre eles... Na primeira sequência do filme vemos Lucas, Theo e diversos outros personagens (todos eles caçadores) em um momento de descontração á beira de um lado. Nesta passagem nem o tom amistoso das "brincadeiras" tira o aspecto animalesco que pode ser percebido no comportamento de boa parte destes homens. Analisando esta passagem, pode-se perceber que ela constitui um primeiro estudo dos personagens e do ambiente no qual eles estão inseridos. A caça, que é também uma espécie de rito compartilhado na cidade, evoca o embrutecimento daqueles indivíduos, o mesmo embrutecimento que volta à tona no decorrer do filme.


Em A Caça não há praticamente nada do Dogma 95, movimento do qual Thomas Vinterberg foi um dos idealizadores. Tal como Lars Von Trier, outro mentor da corrente, ele optou, já há muito tempo, por subverter as suas próprias regras e o que sobra aqui como distinção de sua marca autoral é apenas a sua visão amarga da vida, perceptível em suas obras na reprodução de um mundo sombrio, inóspito e extremamente cruel com os mais fracos. Desapegado das restrições autoimpostas de outrora, o cineasta entrega um filme de inquestionável excelentcia técnica. A variação de tons na fotografia é sutil, mas coerente com a proposta do filme, é interessante perceber que os tons quentes surgem nos momentos em que há algum tipo de manifestação de humanismo, enquanto os tonalidades frias, predominantes na maior parte do filme, se manisfestam nas passagens que retratam a injustiça, a dor e a falência do ser humano como ser social.


As atuações, que são destituídas de qualquer exagero dramático, reforçam o realismo e a crueza da trama e na sutileza da composição de cada um dos personagens se encontra um dos grandes trunfos do filme. Mads Mikkelsen, por exemplo, constrói um personagem complexo e plausivelmente real, suas ações e reações nos levam a crer que ele próprio é tão embrutecido quanto aqueles que o acusam, no entanto, o sofrimento o torna emocionalmente mais frágil e a expressão de tal fragilidade se dá de forma contida, sem obviedades, e o ator a expressa de uma forma brilhante. Podemos notar a angústia e o medo estampados no olhar trêmulo nas feições abatidas e no olhar trêmulo de Lucas, sua expressão facial remete à imagem de um animal forte, robusto, que se encontra acuado diante da ameça representada pela arma de um caçador, que se encontra apontada em sua direção... Destaco ainda os desempenhos de Thomas Bo Larsen e da pequena Annika Wedderkopp.


A Caça definitivamente não é um filme de fácil digestão, o incômodo que ele é capaz de nos causar não é puramente sensorial. O desconforto que sentimos durante sua exibição não é provocado por elementos técnicos como trilha sonora, fotografia ou movimentos de câmera, mas sim pela reflexão à qual a trama nos conduz. Ouso dizer que seu valor artístico está atrelado à disposição de cada expectador de embarcar na angustiante reflexão que ele propõe sobre a falência do indivíduo e da sociedade que ele integra; sem a participação ativa do público ele é apenas um bom suspense, com ela ele se torna digno do título de obra de arte. 




Assistam ao trailer de A Caça no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.