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sábado, 3 de janeiro de 2015

Um breve, porém intenso, mergulho no cinema argentino!


Não foi algo planejado. Eu estava à procura do filme Relatos Selvagens (2014) - coprodução entre Argentina e Espanha, escrita e dirigida pelo Damián Szifron, produzida pelo Almodóvar e com nomes como Ricardo Darín, Darío Grandinetti e Leonardo Sbaraglia no elenco - e, depois de algumas tentativas frustradas desisti de encontrá-lo, foi então que veio a ideia de colocar em dia, ao menos em parte, a enorme dívida que tenho com o cinema argentino. Minha intenção inicial era assistir a dez filmes, acabou sendo nove, pois não consegui encontrar legenda compatível para um deles. A maioria dos filmes assistidos foram lançados no início da década passada, o que não foi intencional, daria para fazer um passeio semelhante passando apenas por obras mais recentes. Esta seleção, no entanto, acabou sendo um reflexo daquele que foi um dos períodos mais prolíferos da cinematografia no país, o auge do 'movimento', surgido na década de 90, que ficou conhecido como Novo Cinema Argentino. 

Durante esta pequena maratona foi quase inevitável não fazer comparações entre o cinema argentino e o nosso. No tocante à qualidade das obras, acredito que temos uma produção tão prolífera e boa quanto a deles. A diferença está, não no processo artístico/criativo, mas no mercadológico. Os hermanos têm conseguido contornar problemas nos quais ainda tropeçamos, boa parte deles relacionado ao financiamento público da produção (geralmente feito através de políticas de incentivo) e à distribuição. A impressão que se tem é a de que os filmes de lá não visam apenas o mercado interno (diferente de boa parte daquilo que é produzido hoje no Brasil) e as melhores obras não ficam restritas apenas ao circuíto de mostras e festivais, como ainda acontece por aqui, o que indica que a industria cinematográfica se encontra em estágios de maturidade diferentes nos dois países. [Pretendo voltar à estas questões em um post específico]. 

Recomendo esta breve maratona para todos! Para iniciá-la, dispa-se da rivalidade tola que fora alimentada durante muito tempo entre os dois países, abra a sua alma e se permita ser impactado por ótimas produções de diferentes gêneros, com propostas diferentes, mas pertencentes a um todo, que daria orgulho a qualquer país! Abaixo seguem breves considerações sobre cada um dos filmes assistidos: 


Minha modesta maratona, que durou uma semana, foi iniciada com O Filho da Noiva (2001), uma pequena obra-prima de Juan José Campanella. O filme, que é o segundo da fruto da longeva e bem sucedida parceria do diretor com o ator Ricardo Darín, tem em sua composição dois dos grandes trunfos do cinema produzido pelos hermanos: a sensibilidade e a universalidade. No centro da história está Rafael (Darín), ele se formou em direito, mas acabou assumindo o restaurante do pai por não ter alcançado sucesso na carreira de advogado. Sobrecarregado por afazeres e responsabilidades,  ele ainda precisa lidar com problemas e conflitos familiares. A pressão é enorme, ele tenta segurar as pontas mas não resiste, o preço a ser pago vem na forma de um infarto, que o deixa por vários dias na UTI, período no qual ele se vê imersos em reflexões forçadas sobre a sua vida e as escolhas que fez. A oportunidade de Rafael encontrar alguma paz interior vem quando o seu pai, Nino (Héctor Alterio), anuncia que quer finalmente se casar na igreja com a sua mãe, Norma (Norma Aleandro); uma proposta ousada devido a um pequeno problema, Norma tem perda de memória, provocada pelo mal de alzheimer, e é incapaz de responder pelos seus atos. O desenrolar da história é uma verdadeira ode ao amor e à valorização dos pequenos prazeres. 


O segundo filme da maratona foi Nove Rainhas (2000), longa dirigido por Fabián Bielinsky, também protagonizado por Ricardo Darín. No centro de sua trama estão dois trapaceiros profissionais, Marcos (Darín) e Juan (Gastón Pauls), eles se conhecem quase que por acaso e decidem 'trabalhar' juntos por um dia. É justo neste dia que surge a oportunidade de aplicar um golpe milionário, que envolve a réplica de uma série de selos raros e um perigoso colecionador que está hospedado na cidade. A fluidez da narrativa, os diálogos afiados e as ótimas atuações dos protagonistas dão ao filme um diferencial que o distancia da grande maioria das obras do gênero que são realizadas atualmente. O último ato, que não comentarei pelo risco de entregar algum spoiler, só confirma aquilo que os primeiros já indicavam, trata-se de uma grande obra, que soube aproveitar da melhor forma possível uma boa história, sem para tal precisar recorrer a malabarismos técnicos e a firulas estilísticas desnecessárias. 


O filme seguinte foi Plata Quemada (2000), triller de Marcelo Piñeyro, baseado em fatos reais, que retrata a fuga de uma quadrilha de bandidos, que vão para o Uruguai após assaltarem um carro forte. O assalto não acontecera conforme o planejado e os dois policiais que estavam  veículo acabaram sendo mortos pelos bandidos. Movida pelo desejo de vingar a morte dos dois militares, a polícia local dá início à uma investigação para descobrir o paradeiro da quadrilha. Os próprios assaltantes reconhecem que é uma questão de tempo até que o local em que se refugiaram seja descoberto, no entanto eles decidem permanecer até que um aliado no Uruguai consiga documentos falsos para eles virem pra o Brasil. A trama é protagonizada por dois dos assaltantes, El Nene (Leonardo Sbaraglia ) e Ángel (Eduardo Noriega ), conhecidos no meio como 'os gêmeos'; apesar desta alcunha eles são bem diferentes um do outro, El Nene é racional e se porta como o cabeça do grupo, enquanto que Ángel se deixa guiar mais facilmente pela emoção, sendo movido frequentemente pela culpa que sente por ser um fora da lei e por manter um relacionamento homoafetivo com El Nene. A narrativa desenvolve de maneira muito satisfatórias os seus dois viés, o romântico/erótico, sustentado pelo relacionamento entre os dois personagens e o suspense, que coloca o filme em uma tensão sempre crescente, que se torna angustiante com a aproximação do último ato.


O quarto filme da maratona foi Lugares Comuns (2002), drama dirigido por Adolfo Aristarain que conta a história de um professor de literatura, já idoso, que é aposentado compulsoriamente devido às ideias que defende em sala de aula. Com o país passando por uma grave crise econômica, Fernando Robles (Federico Luppi), o protagonista, se vê obrigado a vender a casa em que mora e a pegar como parte do pagamento uma propriedade rural para onde se muda. O desenrolar da trama retrata o processo de adaptação do professor à nova vida, processo este que é retratado com uma singeleza enorme, que chama atenção não só pela tentativa do personagem de vencer suas limitações, mas também pela forma com que as suas ideias, quando postas em prática na história, acabam nos impactando. No último ato o filme perde um pouco de sua unidade, à partir de dado momento da narrativa ele abandona alguns dos conflitos que tinham sustentado a narrativa até então para se apegar a outros. Isso faz com que o desfecho soe um tanto forçado, como se tivesse sido construído de tal forma apenas para despertar no público algum tipo de comoção. Todavia, o filme continua acima da média e sendo uma boa pedida para quem valoriza atrativos que dificilmente seriam encontrados no cinema comercial. 


A História Oficial (1985) foi o próximo a ser assistido. Dirigido por Luis Puenzo, ele foi o primeiro filme latino-americano a ganhar o Oscar na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. É sem dúvidas uma obra-prima, grandiosa em todos os aspectos: Roteiro, atuações (Norma Aleandro está sublime), fotografia, direção de arte, trilha sonora... Todavia, creio que o seu maior trunfo foi ter levado para a tela grande a discussão sobre um tema tão polêmico, tão recente na época, que ainda era uma ferida aberta na história da Argentina. Em sua trama, Alicia (vivida pela Norma) é uma professora de história que preza pela disciplina e pela ordem. Ela não percebe que o rigor de suas posições e a unilateralidade de sua visão sobre aquilo que ensina a têm distanciado da história real de seu país. Alienada das questões políticas e sociais ela se recusa a enxergar a cruel realidade que a ditadura militar representava. No entanto, a suspeita de que a menina, que adotara ainda bebê, possa ser filha de militantes políticos mortos pelo regime, começa mudar a visão que até então ela tinha. Como pano de fundo, o filme retrata a luta da Mães da Praça de Maio, mulheres que se uniram para lutar e reivindicar notícias sobre seus filhos desaparecidos durante a ditadura militar. 


O sexto filme da maratona foi outra obra de Juan José Campanella, O Mesmo Amor, a Mesma Chuva (1998), o primeiro fruto da parceria dele com Ricardo Darín. A trama acompanha o relacionamento entre os dois protagonistas, Jorge Pellegrini (Ricardo Darín) e Laura (Soledad Villamil), durante 20 anos, retratando as crises, os términos, os longos períodos de separação e também os bons momentos, que foi o que manteve uma centelha do sentimento inicial acesa por tanto tempo. Sem os clichês do cinema mainstrean, a narrativa nos apresenta a personagens complexos, dotados de vícios e virtudes, que muitas vezes erram tentando acertar e por isso acabam colocando em risco aquilo que têm de mais importante. Em uma análise mais ampla, eu diria que a história de amor contada funciona como uma metáfora daquilo que o país vivia em cada um dos períodos retratados; começa com a utopia, passa pela esperança (representada na esfera social pela abertura política) e por diversas crises, até chegar à uma espécie de maturidade, onde os problemas ainda não estão todos resolvidos, mas há a sabedoria que impede que erros do passado voltem a ser cometidos.


O sétimo da lista foi Um Conto Chinês (2011), filme dirigido por Sebastián Borensztein, que também traz Ricardo Darín no papel principal. Com sua trama construída sobre a ideia de que talvez exista um porquê associado a questões atribuídas ao acaso, o longa direciona o foco de sua narrativa para a vida monótona de Roberto (vivido por Darín), um homem ranzinza, mas de bom coração, que não faz nada além de administrar sua loja de ferragens. A rotina de Roberto muda completamente depois que seu caminho se cruza por acaso (será mesmo?) com o de Jun (Ignacio Huang), um jovem chinês que fora para a Argentina em busca de um tio com quem nunca teve qualquer tipo de contato. Sem saber uma palavra em Espanhol e sem ter lugar para ficar, Jun acaba sendo acolhido por Roberto. A chegada do rapaz mexe com o pacato comerciante e sutilmente muda a forma com que ele enxerga a si mesmo e o mundo à sua volta. Ao observar o rapaz, Roberto descobre que tem tanta dificuldade de se comunicar como ele, talvez venha daí a empatia que surge entre os dois, sentimento este que impactará a vida de ambos. 


Abraço Partido (2004) de Daniel Burman, o penúltimo filme da maratona, tem como pano de fundo a crise econômica que assolou a Argentina, sua história passa-se quase que totalmente no interior de uma galeria comercial, onde Ariel Makaroff (Daniel Hendler), o protagonista, trabalha. Ariel tenta tirar dupla cidadania (ele é descendente de poloneses) para conseguir finalmente deixar a Argentina e se mudar para a Europa. No entanto, o galho da árvore genealógica que pode o favorecer em sua tentativa de ter a cidadania polonesa aprovada, é o mesmo que o conduz à uma série de dúvidas sobre o seu passado. Seu pai, um judeu idealista, deixara a família pouco tempo depois dele nascer para se alistar no exército de Israel. A recusa da mãe e do irmão mais velho de tocar no assunto indica que pode haver algo que Ariel não sabe. O desenvolvimento da trama retrata a busca do jovem por informações que expliquem o fato do pai não ter voltado e o relacionamento dele com o que sobrou de sua família e com as outras pessoas que também trabalham na mesma galeria. O bom ritmo, a maneira com que diversas sub-tramas são costuradas e a ótima atuação de Hendler ajudam a tornar esta uma grande obra, digna de estar entre as melhores do Novo Cinema Argentino.


Crônica de uma Fuga (2006), dirigido por Adrián Caetano, o último da maratona, é baseado em fatos reais e tem sua trama ambientada durante o período em que a Argentina esteve sob uma ditadura militar. Claudio Tamburrini (Rodrigo de la Serna), o goleiro de um time argentino da segunda divisão, é sequestrado por agentes do governo e levado para uma antiga mansão, usada como campo de detenção e tortura. Lá um grupo de jovens é mantido em cativeiro e submetido a diversos tipos de tortura, métodos estes que são usados para arrancar deles confissões e dados sobre operações suspeitas e outros envolvidos com a militância política de esquerda. Claudio, que não tinha nenhum envolvimento com questões desta natureza, arquiteta junto com outros sequestrados um plano de fuga, que se torna uma última esperança para o grupo, que teme a pena mais alta aplicada pelo tribunal clandestino: a morte. O filme consegue retratar com realismo a angústia e o sofrimento vivenciado no local. A tensão criada pela trama chega a se tornar quase insuportável em alguns momentos. Trata-se, sem dúvidas, de uma grande obra, cujo valor transcende as questões meramente técnicas, é o tipo de história que precisa ser contada para que os erros do passado não voltem a ser cometidos. 

sábado, 10 de maio de 2014

A Professora de Piano

A Professora de Piano (La Pianiste) - 2001. Escrito e dirigido por Michael Haneke, baseado na obra de Elfriede Jelinek. Direção de Fotografia de Christian Berger. Produzido por Veit Heiduschka. Produtoras: Les Films Alain Sarde, MK2 Productions, Wega Film, Arte France Cinéma e Österreichischer Rundfunk (ORF) / França | Alemanha.


O maior risco que se corre diante de um filme complexo como A Professora de Piano (2001) de Michael Haneke é o de avaliá-lo de forma reducionista, tomando como critério apenas os seus aspectos mais aparentes. É em parte devido a isso que, nos anos que seguiram seu lançamento, o filme se tornou vítima da repulsa de muitos críticos e cinéfilos que o consideraram uma obra agressiva demais. Todavia, a pressuposta agressividade de algumas sequências se torna um detalhe pequeno diante da profundidade dos temas que ele aborda, mas, se tal profundidade não for percebida ou for negligenciada sobra apenas aquilo que está na superfície. A percepção limitada dos significados realmente pode tornar a experiência de assisti-lo ainda mais incômoda - neste ponto, vale lembrar que a compreensão dos temas abordados, no entanto, não torna esta experiência menos angustiante, principalmente se chegarmos à conclusão de que aquilo que nos é mostrado, apesar de ser uma situação extrema, é o resultado de questões existenciais e de aspectos presentes nos relacionamentos que não nos são totalmente estranhos. 

Classifico A Professora de Piano como um filme sobre relações de dominação e os conflitos que elas provocam nos relacionamentos interpessoais e no psicológico de cada indivíduo. Para que eu possa tentar explicar tal interpretação, é necessário primeiro comentar quem é a personagem central, e relembrar alguns de seus relacionamentos e o meio social no qual ela está inserida. Erika Kohut (Isabelle Huppert), a professora à qual o título do filme no Brasil se refere, é uma mulher de meia idade que vive com a mãe (Annie Girardot) em um pequeno apartamento. Especialista nas obras de Schubert e Schumann, ela é respeitada por todos no conservatório em que trabalha. Sua rigidez no trato com os alunos evidencia o seu perfeccionismo e sua dedicação extrema aquilo que faz. Com certa maestria, ela consegue intercalar sua vida social em um meio repleto de pompa e circunstância e suas incursões por um submundo de depravação, no qual ela mergulha em busca por prazeres doentios.


A chegada de um novo aluno, Walter Klemmer (Benoît Magimel), faz com que Erika vislumbre a possibilidade de finalmente vivenciar algumas de suas fantasias. O jovem rapaz não consegue esconder a paixão que sente por ela e a aparente submissão no qual este ardente sentimento o coloca o torna um alvo em potencial para os jogos que ela anseia por em prática. À princípio, Erika se nega a ceder às vontades de Walter, mas logo em seguida ela o coloca de volta no controle (ainda que de forma relativa), ao entregar para ele uma lista daquilo que ela espera que ele faça com ela. Similar a um manual de masoquismo, esta lista contém o passo-a-passo de jogos sexuais repletos de violência. Ao entregar a a lista, a professora pede que durante a realização dos jogos a sua vontade seja completamente ignorada e que seu atos contrários ao roteiro combinado sejam impedidos e/ou silenciados, ainda que de forma violenta, se necessário.

A análise da relação de Erika com sua mãe é o ponto de partida para que se possa compreender alguns de seus atos; não é por acaso que filme tenta deixar evidente, já em sua primeira sequência, os conflitos presentes neste relacionamento. Aqui se constrói a primeira relação de domínio presente na trama: apesar de já ser adulta Erika continua sendo tratada pela mãe como uma adolescente que precisa ter seus atos vigiados e sua vontade silenciada. Totalmente submissa, a pianista se vê diante de uma situação com a qual não sabe lidar. Apesar de tudo, nota-se que ela ainda sente um amor um tanto distorcido pela mãe e é este amor que a torna tão vulnerável e suscetível à culpa que lhe corrói em diversos momentos. É a ânsia de se libertar deste julgo que a leva a tentar construir outras relações de domínio, nas quais possa ocupar posições diferentes. Curiosamente, a primeira destas relações se dá com a música (o ato de tocar pode ser analisado aqui como o exercício do domínio sobre o próprio corpo e sobre os próprios sentimentos). 


No entanto, a música é apenas uma válvula de escape incapaz de libertar Erika da influência exercida pela progenitora e é então que a subversão surge como um caminho possível. Mas, as incursões pelo submundo apenas alimentam e potencializam aquilo que ela sente e lhe indicam a urgência de quebrar o julgo imposto pela mãe. É então que Walter entra na história e tem início a mais complexa de todas as relações. É interessante observar que a princípio o rapaz acredita ter controle sobre o relacionamento que se inicia entre os dois, mas, logo a professora reivindica este controle para si, para em seguida devolvê-lo ao rapaz. Ela acredita poder se livrar da influência materna se subjugando a alguém capaz de exercer sobre ela uma força maior, ainda mais opressiva, alguém criado e controlado (aqui está o ponto mais interessante) por ela mesma. 


Walter chama a atenção de Erika não apenas por sua virilidade, mas principalmente por causa da liberdade irrestrita que seus atos representam, ele quebra regras, não se coloca sob o domínio de ninguém e tem plena confiança em si mesmo (o que pode ser notado na avaliação que ele faz para entrar no conservatório), tudo isso, aliado ao seu ponto fraco - que é representado pela paixão que ele sente - o torna a pessoa ideal para viver os jogos sexuais propostos por ela, ele é a pessoa perfeita para desempenhar o papel esperado por ela na relação de domínio que ela pretende criar. Ela imagina poder transferir para ele domínio exercido pela mãe e acredita exercer controle o suficiente para romper esta relação quando os jogos chegarem ao fim. Mas, algo dá errado, toda a virilidade do rapaz parece cair por terra no momento em que ele lê a carta com o roteiro proposto por ela, por medo ele recua alguns passos e este é o primeiro indicativo de que algo pode dar errado e o resultado pode ser não ser o esperado por ela.


Michael Haneke constrói e correlaciona tudo, do roteiro adaptado aos elementos técnicos, de uma forma magistral. Nenhum elemento ou personagem é descartável na trama, tanto que a questão da dominação, que vejo como o mote principal da história contada, pode ser observada até mesmo nas relações entre personagens secundários. É curioso observar que apenas em uma passagem o ato sexual é mostrado de forma explicita no filme e isso acontece em uma cena que mostra a protagonista assistindo vídeos pornográficos em uma cabine; entendo isso como uma maneira sutil do cineasta de dizer que naquele filme que a personagem assiste o foco é o ato sexual em si, enquanto no dele o foco está sobre questões bem mais complexas, questões estas que o ato por si só é incapaz de retratar (apesar de ser através dele que a protagonista ensaia sua libertação na trama).


Isabelle Huppert está monstruosa na pela da protagonista, sua composição é visceral, o que confere um alto grau de realismo e consequentemente de credibilidade aquilo que sua personagem sente e vive. Annie Girardot e Benoît Magimel também entregam composições muito bem trabalhadas, que também chamam a atenção pelo realismo, o que chega a ser assustador dada a força que possui algumas das sequência nas quais eles contracenam com Huppert. A trilha sonora também merece destaque, fugindo dos caminhos óbvios como lhe é característico, Haneke opta também neste filme apenas pelo uso da trilha sonora diegética e este é um outro elemento que reforça o realismo da trama e seu intento de apelar mais para o racional do que para o sensorial. 


Não ouso recomendar A Professora de Piano para todos, justamente por saber que muitos negligenciarão a profundidade de sua trama e se aterão à superficialidade daquilo que é mostrado na tela, mas não tenho dúvidas de que estou diante do tipo raro de filme que mantém vivo o meu tesão de escrever sobre cinema: o tipo que transcende os limites da linguagem cinematográfica e explora todo o potencial filosófico e reflexivo que a sétima arte ainda possui... 


A Professora de Piano ganhou em Cannes os prêmios de Melhor Ator (Benoît Magimel), Melhor Atriz (Isabelle Huppert) e o Grande Prêmio do Juri. 

Assistam ao trailer de A Professora de Piano no You Tube, clique AQUI !

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade as críticas de Amour (2012), A Fita Branca (2009) e Caché (2005), também dirigidos pelo Michael Haneke.

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Azul é a Cor Mais Quente

Azul é a Cor Mais Quente (La vie d'Adèle) - 2013. Dirigido por Abdellatif Kechiche . Escrito por Abdellatif Kechiche e Ghalia Lacroix, baseado na comic book de Julie Maroh. Direção de Fotografia de Sofian El Fani. Produzido por Brahim Chioua, Abdellatif Kechiche e Vincent Maraval. Quat'sous Films e Wild Bunch / França | Bélgica | Espanha.



Adèle (Adèle Exarchopoulos), que até então nunca tinha ficado com outra garota, teve algo despertado dentro de si logo na primeira vez que viu Emma (Léa Seydoux), ela fora tomada por um sentimento desconcertante, que a fizera perder o chão por alguns minutos. Ainda que haja um certo ceticismo em relação ao amor à primeira vista, pode-se afirmar que foi desta forma que nasceu a paixão que transformaria completamente sua vida em um espaço de tempo relativamente curto. Não demorou muito até que as duas se conhecessem, o que se deu quase ao acaso. É interessante perceber que já no primeiro encontro são assumidos alguns papéis que iriam determinar os rumos da relação que se iniciaria entre elas. Emma, mais velha e experiente, assume uma função de protetora, uma quase mentora de Adèle, esta por sua vez se entrega de corpo e alma à paixão que queima dentro de si e a intensidade desta entrega à torna relativamente vulnerável quando começam as primeiras crises no relacionamento.

Nas relações entre as garotas e seus amigos e familiares também é possível notar a extensão dos papéis que foram assumidos no dia em que se conheceram. Emma é bem resolvida, seus pais tratam com naturalidade a sua sexualidade, sem qualquer tipo de preconceito, e seus amigos a aceitam tal como ela é. Já Adèle não consegue conversar com seus pais sobre sua relação com Emma e as piadas e de suas amigas sobre sua suposta amizade com a 'garota dos cabelos azuis' a impede de abrir o jogo com elas também. Em uma evidente ânsia de se resguardar, ela se esconde e adota uma personalidade que não condiz com a sua verdadeira essência. Este é um traço da personalidade de Adèle que não está relacionado apenas à sua homossexualidade, em dado momento ela diz ter receio de compartilhar seus escritos por eles serem pessoais demais. Nota-se que o que ela está vivendo não é só um processo de descobertas, é também um processo de autoaceitação.



Não é por acaso que o filme tenha sido dividido em dois capítulos (que acabaram sendo lançados juntos), a sua história pode ser dividida em dois momentos bem distintos um do outro. O primeiro é caracterizado pela descoberta, nele vemos a transformação da paixão avassaladora que uniu Adèle e Emma em algo mais sólido, este processo é retratado de uma forma brilhante pelo filme. Neste primeiro capítulo a ingenuidade, a fragilidade e a insegurança podem ser apontados como os traços que melhor caracterizam o comportamento da protagonista. Ela ainda carrega consigo os medos e os dilemas típicos da adolescência, mas isso logo mudará. Em um segundo momento, Adèle passará por um amadurecimento forçado, que mudará completamente sua postura em relação ao mundo à sua volta e por fim sua visão sobre os relacionamentos.


Com o surgimento das primeiras crises a idealização criada em torno do relacionamento começa a se desfazer em um processo que é extremamente doloroso, principalmente para Adèle. A sucessão de erros cometidos por ambas as garotas torna a relação cada vez mais complicada e nenhuma delas consegue lidar tão bem com isso. A abordagem adotada pelo filme se abstém do olhar romantizado para retratar os relacionamentos tal como eles são, os problemas enfrentados pelas duas e os temores que elas sentem são extremamente comuns e a verdade é qualquer relação, por mais sólida que ela seja, sempre estará sujeita a ser afetada por eles. A trama de Azul é a Cor Mais Quente ganha ainda mais significado e profundidade por conseguir evocar diversas características atribuídas aos relacionamentos pós-modernos, nela podem ser observados aspectos como a fragilidade dos laços criados, a transitoriedade das relações e, principalmente, a angústia de projetar no outro aquilo que se espera da vida a dois.


As cenas de sexo explícito, que causaram bastante polêmica quando o filme foi lançado, são condizentes com a trama e eu diria até que são necessárias para o seu pleno funcionamento, afinal de contas é através delas que a narrativa trabalha as mudanças (boa parte delas sutis) que ocorrem no relacionamento entre as duas garotas e a forma com que estas mudanças impactam na relação de dominação que existe entre elas. A primeira transa entre elas, retratada em uma sequência que dura mais de seis minutos, retrata perfeitamente o processo de descoberta que se encontra em curso, o ato é selvagem e nele está evidente a explosão da paixão que ambas sentem. Porém, pouco a pouco, as sutilezas e as carícias vão ganhando mais espaço, o que indica que o sentimento primitivo, observado até então, estava finalmente se transformando em amor.


O curioso é que mesmo com o evidente amadurecimento do relacionamento, a relação de dominação é mantida, o que pode ser percebido em uma outra cena de sexo (aquela que considero a mais bonita do filme), em dado momento Emma interrompe o ato por acreditar que Adèle gritaria devido ao orgasmo, o barulho certamente chamaria a atenção de seus pais (esta é a primeira vez que elas transam na casa de Adèle); esta construção tão simples deixa mais uma vez evidente que é Emma quem está conduzindo, não só a transa, mas toda a relação, ainda que este domínio seja exercido por meio do afeto. Em última análise, é a existência deste afeto que torna tudo ainda mais complicado e doloroso... A consequência da intensidade da entrega de Adèle remonta à principal causa da superficialização das relações: o temor provocado pela ameaça de que o amor e o afeto, quando não mais correspondidos na mesma proporção, se tornem insuficientes para sustentar um relacionamento, levando assim à uma frustração que pode ser aniquiladora...


Adèle Exarchopoulos está excelente no filme, sua atuação é caracterizada por uma completa entrega à personagem, o que fica evidente na verdade contida em cada um de seus sorrisos e olhares. É a grandiosidade de sua atuação que torna a protagonista ainda mais humana e seus sentimentos ainda mais palpáveis, por isso nos identificamos tanto com sua história e com sua ventura, nos vemos nela, afinal seu drama não nos é de todo estranho. Destaco ainda a fotografia e os enquadramentos, que são também essenciais para o desenvolvimento da narrativa, e o ótimo trabalho de edição de som, que prioriza os ruídos diegéticos na ausência de uma trilha sonora. Eu, sinceramente, tenho pena daqueles que deixarão de assistir ao filme, ou de apreciá-lo, pelo preconceito que, infelizmente, pode ser despertado pela sua trama, estes certamente perderão uma das melhores obras lançadas em 2013, sem mais.


Assistam ao trailer de Azul é a Cor Mais Quente no You Tube, clique AQUI !


A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

domingo, 23 de junho de 2013

A Febre do Rato

A Febre do Rato - 2011. Dirigido por Cláudio Assis. Escrito por Hilton Lacerda. Direção de Fotografia de Walter Carvalho. Música Original de Jorge Du Peixe. Produzido por Cláudio Assis e  Júlia Moraes. Belavista Cinema e Produção e Parabólica Brasil / Brasil



Dar voz aos que não têm voz, esta é a principal proposta de Zizo (Irandhir Santos), um poeta anarquista, que edita um zine chamado A Febre do Rato. Ele mora junto com a mãe em um bairro pobre de Recife e divide seu tempo entre a confecção de seu periódico, que ele faz com uma rústica prensa tipográfica em sua própria casa, e a distribuição do mesmo, que é feita tanto na vizinhança quanto nas regiões mais nobres da cidade. Ébrio pela própria utopia, Zizo mergulha com a alma naquilo que acredita e dedica a sua vida à busca por uma liberdade, que inclui a independência em relação às classes dominantes e a superação da moral constituída, contra a qual ele bate de frente com o seu comportamento libertário e transgressor.

É pouco provável que Zizo tenha uma bagagem intelectual que embase sua postura contestadora, mas isso definitivamente não importa, percebemos rápido que a sua identidade vem da vivência prática e não da abstração teórica. Seu comportamento ambíguo não pode ser julgado por uma ótica maniqueísta, sua conduta é, numa última análise, um fruto do meio no qual ele está inserido, que é tão estranho e ambíguo quanto ele próprio. Após uma rápida reflexão sobre a postura do poeta e suas reivindicações, chego à conclusão de que o anarquismo pelo qual ele luta não é aquele que ambiciona a queda do estado e a ausência de governantes, mas sim um anarquismo pessoal, baseado na premissa de que cada um deve ser livre para viver à sua maneira, ainda que à margem do estado e de suas instituições.


É esta a liberdade que Zizo quer e em seu projeto de sociedade livre o amor, a amizade e o apoio mútuo são os elementos capazes garantir a subsistência, mesmo em um contexto social tão adverso quanto aquele no qual ele vive. Com seus versos, ele tenta chamar a atenção para a realidade de sua gente, eles, mesmo estando à margem, querem ter reconhecido o direito de serem tratados como gente. Percebe-se que no ambiente no qual a história do filme se passa não há qualquer tipo de intervenção do estado, nem para a garantia de políticas públicas, nem tão pouco para a repressão, prova disso é que em diversos momentos personagens consomem e comercializam drogas ilícitas e isso sequer parece ser visto como uma contravenção, dada a forma com que o uso das mesmas é aceito pela comunidade. 

Zizo está sempre rodeado por seu grupo de amigos, fato este que o torna um personagem mais humano e cativante, e é interessante perceber de que forma se dá o relacionamento entre eles, há uma espécie de cumplicidade e uma sensação de pertencimento compartilhada, coisas que não são tão fáceis de serem encontradas nos laços cada vez mais frágeis que criamos em nossos próprios relacionamentos. Este peculiar grupo de personagens, que está sempre à volta do poeta, inclui, dentre outros, Dona Marieta (Ângela Leal), mãe do poeta, o traficante Boca (Juliano Cazarré) e a namorada dele, Rosângela (Mariana Nunes), o coveiro Pazinho (Matheus Nachtergaele), melhor amigo de Zizo e sua convivente, a travesti Vanessa (Tânia Granussi) e as senhoras Stella Maris (Maria Gladys) e dona Anja (Conceição Camarotti), parceiras sexuais frequentes do poeta.


O núcleo no qual estão todos inseridos parece entrar em ebulição com o aparecimento da colegial Eneida (Nanda Costa), por quem Zizo fica completamente apaixonado. Ela não dá bola pra ele nem valoriza os seus poemas. O fato de ela parecer ser, à primeira vista, um objeto de desejo inalcançável torna o sentimento que ele passa a alimentar ainda mais intenso e embriagante. Tendo-a como sua musa inspiradora, ele passa a se consumir ainda mais com sua própria arte, como se cada verso de seus poemas fosse uma labareda de fogo ateada contra o próprio corpo.


Há muito da personalidade do cineasta Claudio de Assis na construção do protagonista do filme. Tal como acontece com Zizo, a arte de Assis aparenta ser uma extensão de sua própria personalidade. Abraçando posições radicais em relação ao meio em que atua, o cineasta chama a atenção para aquilo que está fazendo sem precisar para isso se render ao padrão estético exigido pelo mercado. O incômodo que seus filmes causam não pode ser confundido com apelação, como alguns críticos defendem, este incômodo vem na verdade é do choque entre concepções de mundo tão distintas, a dele e a nossa, e é isso que torna sua marca autoral tão instigante e perigosa para as arcaicas concepções do meio.


O último ato do filme começa com uma passagem emblemática, que remete de imediato à atual situação social/política em que o Brasil se encontra, nesta sequência vemos a forma de agir do Estado diante de algo que não compreende e não consegue cooptar - A subversão acaba sendo tratada como mero banditismo e as semelhanças com a realidade não são mera coincidência, o que me leva a classificar A Febre do Rato como um filme completamente político. Paulo Martins, personagem central do clássico Terra em Transe (1967) de Glauber Rocha, fora alertado de que 'a política e a poesia eram demais para um homem só', ele no entanto se deixou ser consumido pelas duas. Tal como ele, Zizo (a criatura) e Claudio de Assis (o criador), aparentam não temer as contradições que ardem como chamas em suas mentes. 


Não fiz o paralelo acima por acaso, pode ser notada uma forte influência do pensamento e da obra de Glauber Rocha no filme de Claudio de Assis. Os pressupostos da estética da fome, defendida pelo cineasta baiano, estão evidentes em A Febre do Rato, bem como o engajamento político e o experimentalismo formal, que remete também a Godard, que pode ser notado na maneira com que a fotografia de Walter Carvalho e a trilha sonora do Jorge Du Peixe (vocal do Nação Zumbi) integram a narrativa e na opção de filmar situações que fogem ao convencionalismo e ao suposto bom senso das produções maisntreans. A reverência a Godard, por sua vez, pode ser notada numa sutil referência à uma das cenas mais clássicas de Bande à Part (1964), filme escrito e dirigido pelo cineasta francês. 


Destaco por fim o desempenho de todo o elenco, com destaque para a atuação visceral de Irandhir Santos, que aparenta entrar no personagem de corpo e alma, emprestando a ele emoções que chegam a ser quase palpáveis por serem dotadas de uma intensidade brutal e avassaladora que se manifesta nos gestos, no olhar e principalmente na voz. A Febre do Rato definitivamente não é o tipo de filme que tende a agradar aos mais diversos públicos, esta também não é a sua proposta, por isso, ao assisti-lo é necessário que nos dispamos de qualquer preconceito em relação a aquilo que nos é estranho e que estejamos com os nossos olhos suficientemente aberto para captar a beleza que emana mesmo das situações mais incômodas.


A Febre do Rato ganhou o prêmio de Melhor Filme da Associação dos Críticos de Arte de São Paulo.

 Assistam A Febre do Rato completo no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Amor à Flor da Pele

Amor à Flor da Pele (Fa yeung nin wa) - 2000. Escrito, dirigido e produzido por Kar Wai Wong. Direção de Fotografia de Christopher Doyle, Pung-Leung Kwan e Ping Bin Lee. Música Original de Michael Galasso e Shigeru Umebayashi. Block 2 Pictures, Jet Tone Production e Paradis Films / Hong Kong | França.


Em Amor à Flor da Pele (2000), o cineasta chinês Kar Wai Wong provou que é possível retratar os efeitos de uma paixão arrebatadora através da linguagem cinematográfica, sem que para isso seja necessário apelar para o excesso de cenas de sexo, ou de nudez. Todos os aspectos do filme, incluindo trilha sonora, fotografia, enquadramentos, figurinos e direção de arte, colaboram para tal e o resultado é simplesmente impressionante, uma obra de arte tão bela quanto melancólica e tão fascinante quanto a própria sensação de estar apaixonado; trata-se de um filme esteticamente belo, dramaticamente consistente e muito bem sucedido em sua proposta. Sua história gira em torno de um casal que vive uma paixão impossível de se concretizar, devido ao fato de que ambos são casados e temem transpor as barreiras morais que se levantam em torna da situação.

Na trama, ainda que resistam em assumir aquilo que sentem um pelo outro, o jornalista Chow Mo-wan (Tony Leung Chiu Wai) e a secretaria Su Li-zhen (Maggie Cheung) acabam alimentando um sentimento que só se intensifica no decorrer da trama, a falta de contato físico e a não consumação deste amor parece aumentar ainda mais a ardente paixão que sentem um pelo outro. O roteiro explora tal situação de uma forma maravilhosa, todo o desenvolvimento da história é sustentado pelos curtos passos que cada um dos personagens tentam dar em direção ao outro, passos estes que ora parecem não levar a lugar nenhum, ora aparentam distanciá-los ainda mais. Ao retratar este sentimento reprimido, o filme levanta diversas questões morais, principalmente acerca do adultério e da confiança depositada em outrem. A trama nos leva a questionar onde de fato começam a traição e a culpa daqueles que a cometem. 


Chow e Su Li se mudaram no mesmo dia para um prédio decadente localizado em um subúrbio de Hong Kong, ambos, com seus respectivos cônjuges, alugaram quartos em minúsculos apartamentos. A pobreza do local nos salta aos olhos já nas primeiras cenas do filme. Paredes descascadas, instalações elétricas precárias e a claustrofobia proporcionada pela falta de espaço denotam alguns dos problemas sociais que a cidade/estado já vivenciava no início da década de 60, época em que o filme se passa. A vivência neste ambiente opressivo, a carência afetiva e a constante ausência de seus parceiros fazem com que Chow e Su Li acabem se aproximando um do outro e a cumplicidade que encontram nesta amizade aparenta aliviar as feridas provocadas pelos seus casamentos, que já estavam em crise antes mesmo de se conhecerem. 


O efeito do choque entre tradição e contemporaneidade está evidente na trama, sendo potencializado pelo dilema criado em torno do relacionamento entre os personagens. O tradicionalismo da cultura oriental se manifesta através de pequenos costumes, dos tabus preservados e de outros traços presentes na vida cotidiana. Já os reflexos da pós-modernidade estão presentes na subversão de cada um desses elementos e no vazio existencial experimentado pelos protagonistas, que seria ao meu ver uma evidência do distanciamento emocional e da fragilidade dos laços e das relações que tentam construir. As reflexões fomentadas pelo filme nascem desta dicotomia entre passado e presente, mas também das questões morais que envolvem os personagens, questões estas que seriam de certa forma atemporais.


O decorrer do tempo tem uma importância enorme na trama, em diversas passagens são feitos closes em relógios e isso não é por acaso, a ideia é justamente mostrar que toda a ambientação está localizada em uma espécie de quebra temporal, onde o passado se encontra com o presente e o futuro, exercendo juntos efeitos sobre a vida dos personagens. O ritmo lento que o filme adota em seu desenvolvimento reforça esta ideia, é interessante a percepção de que não é possível saber ao certo quanto tempo se passou desde que os personagens se conheceram, podem ter sido dias, semanas ou até mesmo meses ou anos. A montagem ajuda a desconstruir a noção do decorrer do tempo, sem que haja para tal a necessidade de 'quebras' na narrativa, isso torna o desenrolar da trama um fluxo contínuo e ininterrupto, no qual predominam o desejo e paixão que o longa retrata tão bem através de seus elementos técnicos e artísticos. 


Amor à Flor da Pele beira à perfeição em cada um de seus aspectos, sua trilha sonora evoca nostalgia, melancolia e principalmente sensualidade. A fotografia, aliada à beleza dos figurinos e da direção de arte, constrói planos de um lirismo tão estonteante, que torna cada fotograma uma obra de arte individual. Ao olhar para o filme como um todo, concluo que Kar Wai Wong fez aqui uma obra-prima, que eu facilmente incluiria em minha lista pessoal dos mais belos filmes das últimas décadas. Terminei de assisti-lo ciente de que eu estivera diante de uma das mais belas expressões artísticas da paixão. Recomendo!!!!! 


Amor à Flor da Pele ganhou em Cannes o prêmio de Melhor Ator (Tony Leung Chiu Wai ) e o Technical Grand Prize (pela edição e fotografia).

Assistam ao trailer de Amor à Flor da Pele no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

sábado, 3 de novembro de 2012

Lolita

Lolita - 1962. Dirigido por Stanley Kubrick. Escrito por Stanley Kubrick e Vladimir Nabokov,  baseado na obra literária de Nabokov.  Direção de Fotografia de Oswald Morris.  Música Original de Nelson Riddle. Produzido por James B. Harris. Metro-Goldwyn-Mayer (MGM), A.A. Productions Ltd., Anya e Transworld Pictures / USA | UK.


O livro Lolita de Vladimir Nabokov foi considerado por editoras dos Estados Unidos e da Inglaterra como um atentado ao pudor e aos bons costumes, ele precisou ser lançado primeiro na França, como livro pornográfico, para depois ser reconhecido pela crítica como uma obra séria. De fato sua temática era demasiadamente pesada para a época, contudo, ele tinha mais a oferecer do que uma história erótica, da relação entre seus personagens emanava um humanismo pungente, que foi o que chamou a atenção do diretor Stanley Kubrick na época e fez com ele se dispusesse a recontar aqueles fatos pela ótica de sua câmera. O cineasta fez da adaptação uma obra de grande profundidade dramática, cada um dos personagens transcendem a condição de meros estereótipos, seus conflitos psicológicos os tornam complexos e suas atitudes isentas de qualquer maniqueísmo. Ao abordar a pedofilia, o longa se firma como um contundente tratado sobre a sexualidade e a degradação moral de um indivíduo.

Tal como aconteceu com o livro, o lançamento do longa foi marcado por polêmicas, sua estreia foi adiada por diversas vezes e quando aconteceu foi com uma versão remontada e sem algumas das sequências mais polêmicas. A edição, no entanto, não o livrou da perseguição. Quando já estava nos cinemas, ele foi condenado pela igreja católica, que emitiu avisos nas igrejas afirmando que era um pecado assisti lo. O propósito do roteiro, escrito por Nabokov com a colaboração de Kubrick (não creditado pela função), não era fazer juízo ou denunciar a atitude do personagem central, que se apaixona por uma adolescente na trama, mas sim, partir deste comportamento para propor uma reflexão sobre a subversão da moral e a fragilidade do comportamento humano diante dela. Tal propósito colocou o filme em sintonia com as transformações culturais que o mundo estava vivendo na época em que ele foi lançado, contudo, mesmo após a consolidação de algumas dessas mudanças, sua história continua sendo ousada e  polêmica. 


A narrativa de Lolita começa com uma passagem que mostra um reencontro entre dois personagens, esta sequência termina em um assassinato e então há uma volta no tempo para mostrar o início do desenrolar da trama. Tudo começa quando o  professor de inglês Humbert Humbert (James Mason) aluga um quarto na pensão de Charlotte Haze (Shelley Winters), conforme o filme deixa claro, ele não o faz pelos motivos expostos pela anfitriã, sua decisão é tomada no momento em que ele bate o olho na filha dela, a bela Lolita (Sue Lyon), que tem apenas quatorze anos. Charlotte vive sozinha com Lolita e a chegada do novo hospede é vista por ela como uma chance de conquistar um novo marido e por isso ela faz de tudo para tentar seduzir Humbert, mas ele só consegue pensar na menina. Passado o verão, ele não ver outra opção a não ser se render aos encantos da dona pensão, para assim poder continuar lá, ele então se casa com a mãe para continuar perto da filha. 
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Humbert faz de tudo para dissimular seu desejo e manter as aparências e o mais interessante é a postura de Lolita diante disso tudo, nos primeiros momentos do filme não fica tão claro se ela sabe ou não das intenções que ele tem e, por inocência ou por maldade, ela acaba alimentando o que ele sente. Uma das sequências mais emblemáticas do filme mostra o professor na cama com a nova esposa, ele finge dar atenção à ela, mas o seu estímulo vem é de uma fotografia de Lolita, posta na cabeceira. Nesta mesma sequência um comentário feito por Charlotte deixa claro para Humbert que ela é o maior obstáculo para a realização de suas fantasias sexuais, então ele, visivelmente atormentado, vira para o outro lado da cama e contempla uma arma, que está sobre este lado da cabeceira. O diálogo entre o casal continua normalmente, mas durante todo o tempo a arma permanece com relativo destaque na canto da tela. Esta passagem é genial, porque nela Kubrick trabalha de forma magistral o embate que o personagem trava consigo mesmo, sem precisar de extrair dele nenhuma declaração sobre este assunto.


Curiosamente, Lolita não foi injustiçado só pelos seus detratores na ocasião de seu lançamento, ainda hoje ele é tido por uma significante parcela da crítica como um dos 'filmes menores' de Kubrick, o que considero um absurdo (não concordo com este tipo de análise, que coloca obras de um mesmo autor, distintas entre si, em uma balança para ver qual tem o 'maior peso artístico'),  afinal, se trata de uma obra de incalculável valor estético e dramático, cuja complexidade é capaz de a sustentar independente do restante da filmografia de seu realizador. É possível perceber o peso da direção e do perfeccionismo de Kubrick em cada enquadramento, em cada movimento de câmera, na composição da  mise-en-scène e na sutileza com que o tema é abordado, sutileza esta que fica evidente já na cena que acompanha os créditos de abertura.


O veterano James Mason consegue expressar por meio de sua atuação a fragilidade emocional e cada um dos conflitos que seu personagem experimenta na trama, a jovem Sue Lyon, com toda sua sensualidade, também tem um desempenho digno de aplausos, o que comprova a eficácia do método de trabalho (questionado por muitos) que o cineasta desenvolvia com os atores de seus filmes. Todavia, no tocante às atuações os destaques são, sem dúvidas, Shelley Winters e Peter Sellers, este dá vida a um outro personagem do filme, por sinal um dos mais interessantes (preferi omitir comentários sobre ele para não revelar spoilers), Winters e Sellers roubam a atenção em cada uma das sequências em que aparecem. 

O impacto que Lolita é capaz de provocar permanece vivo, ainda que de forma não tão intensa quanto aquela testemunhada na época de seu lançamento, de fato é um filme que não envelheceu, um clássico absoluto de um dos cineastas mais importantes da história da sétima arte. Ultra recomendado! 


Lolita foi indicado ao Oscar na categoria de Melhor Roteiro Original.

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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.