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sábado, 29 de dezembro de 2018

O Público e as Verdades da Arte


Oscar Wilde chegou a afirmar, por meio de um de seus personagem mais emblemáticos, Lord Henry Wotton de O Retrato de Dorian Gray (seu alter-ego), que o "objetivo da arte é revelar a obra e esconder o artista"... eu concordo em partes com este pensamento. Se por um lado é impossível, por exemplo, compreender a grandiosidade da obra de Kafka (também escritor) sem conhecer, ainda que superficialmente, a sua trajetória e o contexto em que ele viveu, por outro o foco demasiado no artista pode relegar em segundo plano aquilo de mais importante que sua obra possui, e isso frequentemente acontece. Vivemos atualmente uma inversão extrema do pensamento de Oscar Wilde; a mídia cumpre o papel de desnudar a vida do artista, enquanto o público busca nela, e não na obra, os elementos de identificação capazes de produzir empatia. 

Discorrerei rapidamente sobre três situações que vivenciei recentemente e depois tentarei propor uma breve reflexão sobre o assunto. 

- Em agosto deste ano, Oswaldo Montenegro tocou em Piacatuba, distrito de Leopoldina/MG, no Festival de Viola e Gastronomia. Naquele dia, minutos antes de sua própria apresentação ele estava no meio do público assistindo ao show de dois violeiros locais, um casal então se aproximou dele e pediu para tirar fotos, ele não negou, mas enquanto os flashes eram disparados ele permaneceu na mesma posição em que já estava, de braços cruzados e olhar direcionado para o palco. 

- No último dia 8, na edição do festival Circuíto Banco do Brasil, realizada no Rio de Janeiro, a banda americana MGMT foi vaiada por uma parte do público e um dos motivos foi não ter sido "cordial com a platéia". Uma adolescente, fã da banda que tocaria na sequência, que estava logo à minha frente durante a apresentação resumiu o motivo de sua indignação: "entraram e saíram sem ao menos dar boa noite". 

- No último sábado, Maria Rita se apresentou aqui em Ubá, no Festival de Música Ary Barroso. Apesar de ter feito uma apresentação memorável, ela foi criticada por alguns dos que estavam presentes por não ter recebido o público para uma sessão de fotos e autógrafos. Algumas pessoas chegaram a criticar a organização do evento por tê-la trazido, isso pelo simples fato de não ter conseguido se aproximar dela. 

Chegamos ao ponto: O tratamento seco dado pelo Oswaldo Montenegro ao casal que o abordou, a falta de interação verbal do MGMT com o público e a recusa de Maria Rita a receber admiradores em seu camarim, nenhum destes fatos definitivamente não tornou nenhuma das apresentações menos impactantes pra mim e isso porque o essencial, ao meu ver, não é, e nunca será, a postura do artista em relação aos fãs, mas a proposta e a representatividade que sua obra tem para mim. 

Pode parecer uma afirmação dura, mas artista nenhum tem obrigação de paparicar seu público. Admiro muito aqueles que relacionam de forma natural com seus fãs e repudio os que o faz de forma forçada, por mero sentimento de obrigação. Uma parcela do público aparentemente não consegue compreender isso e para ela bom continua sendo o artista estrangeiro que arrisca algumas palavras em português no palco, o que força sorrisos na hora do selfie e o que bajula o público com frases feitas e falsas afirmações.

Pode parecer contraditório eu escrever uma nota com este conteúdo, afinal sou dos que curte ter o disco original autografado e um dedo de prosa com algum artista cuja a obra eu admiro ou respeito. Mas, a questão é que é preciso separar as coisas, não confundir o artista com a obra, pois tal tipo de simbiose na maioria das vezes não se dá de forma tão harmônica. Quem faz este tipo de confusão corre o risco de acabar frustrado ao descobrir que um determinado compositor não é bem aquilo que se pressupunha que ele era divido à uma interpretação pessoal de suas letras.  

Aqui cabe uma rápida reflexão sobre o que é apreciação artística e sobre a forma com que ela se dá. Quando nos colocamos diante de uma obra (seja ela uma música, um filme ou até mesmo um quadro) estamos diante de pelo menos três verdades que podem ou não ser divergentes, a primeira delas é a que é idealizada pelo artista antes e durante o processo de criação, a segunda é a resultante deste processo, que absolve influências externas, inclusive de outras pessoas envolvidas com ele. A terceira e última verdade é a de quem se coloca diante da obra, que é influenciada pela visão de mundo e pela bagagem que cada um traz consigo. 

O que geralmente ocorre é que uma parte do público confunde a sua verdade com a verdade do artista e por isso passa a exigir dele posturas e comportamentos que validem aquilo que até então não passava de meras impressões. Há neste fenômeno uma negação de todo o processo de criação e de consumo da arte. Desconsidera-se o poder que a obre tem de impactar por si própria e o dever de provocar este impacto é delegado ao artista, como se nele se esgotasse todo o processo. Dai surgem as aberrações criadas pela indústria cultural: os artista cuja obra se resumem à uma única verdade, previamente fabricada para um público que já está de antemão apto para decodificá-la e digeri-la sem maior trabalho.

Felizmente ainda existem artistas cuja grandiosidade de suas obras transcende suas próprias posturas, algumas vezes mesquinhas... Oswaldo Montenegro, MGMT e Maria Rita fazem parte deste grupo! 


Escrito originalmente em 20 de novembro de 2014


quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Festival Mundial das Artes pela Paz


A estimativa era de que cerca de 1800 artistas de 118 países estariam presentes na edição do Festival Mundial das Artes pela Paz que foi realizada em Ubá/MG entre os dias cinco e 15 de novembro, mas não foi o que aconteceu. O público, formado em sua grande maioria por pessoas que já estão são ligadas direta ou indiretamente à produção cultural local, foi relativamente pequeno, o povo não compareceu. Já o número de artistas presentes fez parecer utópica a quantidade mencionada acima. Algo deu errado e este já era um desastre anunciado. O amadorismo que pode ser observado na realização do evento caracterizou também aquela que deveria ter sido a fase de planejamento. Muito pouco do que fora prometido na cerimônia inaugural, na qual Ubá foi oficialmente anunciada como sede do Festival, foi cumprido. Todavia, não se pode culpar apenas os realizadores, afinal trazer para uma cidade do interior um evento do porte pretendido não era uma tarefa fácil e talvez o grande erro dos envolvidos no projeto tenha sido o de acreditar que o seria. Ubá está acostumada a consumir entretenimento, não arte, e esta realidade já representava desde o início um grande desafio a ser enfrentado.

A qualidade das apresentações musicais salvou o Festival de ser um enorme fiasco, pois o que se viu durante os onze dias de programação foi uma série de erros grosseiros... Um dos vídeos promocionais, divulgado poucos dias antes do evento, convidava o público para conhecer o mural Guerra e Paz de Cândido Portinari, obviamente tratava-se de uma réplica, mas a chamada não deixava isso claro. A grande surpresa, no entanto, foi descobrir que não só Guerra e Paz era uma réplica, mas também boa parte das obras expostas na galeria improvisada. A má qualidade da impressão conferiu às telas reproduzidas um tom desbotado, que comprometeu seriamente o impacto que acredito que elas seriam capazes de causar aos visitantes. Sem a cor e a textura original, sobrou apenas o tecido descolorido sobre a moldura e sua intenção de recriar aquilo que o originou representava. Destituídas de qualquer valor artístico, tais cópias poderiam ao menos funcionar como material didático (ainda que esta não fosse a proposta do Festival), mas isso também não aconteceu, boa parte dos quadros não tinham nenhum tipo de identificação, o que tornava impossível para um leigo como eu descobrir, por exemplo, em que ano eles foram pintados ou quem eram os autores e os seus países de origem - informações essenciais como estas foram simplesmente negligenciadas. 

Em meio ao grande número de cópias de má qualidade se sobressaiam as obras originais de artistas e artesões da região, estas sim merecedoras de todo o respeito do público presente. Tenho a impressão de que o evento teria sido melhor sucedido se tivesse aberto mais espaço para obras como estas. Tudo poderia ter funcionado melhor se não fosse a megalomania dos realizadores do evento, que chegaram a considerar irrelevante a participação de artistas da cidade e região, mal sabiam eles que estes possuíam algo que o Festival como um todo não teve: a capacidade de dialogar e interagir com o público não erudito. Penso que talvez tenha faltado aos realizadores um pouco mais de conhecimento sobre as diversas expressões artísticas presentes no Festival e acima de tudo sensibilidade, isso justifica tropeços tão grotescos quanto o de posicionar a frente de um palco atrás de uma grande pilastra, quando suas laterais estavam livres (!)... Não tenho dúvidas, onde abundou negociatas, trocas de favores e politicagem faltou um trabalho sério e competente de curadoria. 

Todavia, há que se reconhecer também os aspectos positivos do evento, que não eliminaram, mas ao menos diminuíram os efeitos dos equívocos cometidos. Infelizmente, por questões de saúde, não consegui estar presente em todos os dias, o que eu queria muito ter feito, sei que com isso acabei perdendo muita coisa boa, mas ainda assim tive a oportunidade de conferir espetáculos memoráveis, como o excelente show da banda Cosmosoul, que foi formada em Barcelona na Espanha por músicos de diversas nacionalidades, e o retorno da banda americana Santa Esmeralda, que voltou à cidade quase um ano após o trágico show em que o baterista Brad Parker teve uma parada cardíaca no palco, enquanto tocava, e veio a falecer a caminho do hospital. As duas bandas presenteou o público minguado com ótimas performances, que mereciam um contingente de pessoas muito, muito maior...

Ainda que não tenha acontecido como o planejado e tenha deixado tanto a desejar, o Festival veio para somar. Só o fato de termos um evento cultural a mais na cidade (ainda que tenha sido uma única edição) já é um motivo para grande comemoração. Por hora, apenas torço para que os erros cometidos sejam reconhecidos e nos tragam algum aprendizado. Vale lembrar também que as críticas, por mais devastadoras que elas possam parecer, também servem para abrir os olhos e colocar pés flutuantes no chão... 

Algumas lições que precisam ser lembradas: Nunca prometa o que não pode cumprir. Jamais pense em cobrar ingressos de um evento que teve a 'entrada franca' divulgada. Convide/contrate pessoas que entendam de fato do assunto para ajudar na organização. Não venda a arte da mesma maneira que se vende um móvel. Aumente o tamanho da letra nos outdoors.  Valorize a produção local. Planeje. Não deixe nada para a última hora. Faça um cronograma compreensível e respeite-o. E, acima de tudo, respeite o público e os artistas convidados... Este já um começo! 

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

2° Festival de Cinema de Visconde do Rio Branco


Aconteceu dentre os dias 12 e 18 de agosto a segunda edição do Festival de Cinema de Visconde do Rio Branco, o evento foi realizado pela Associação dos Amantes do Cinema, com o apoio da Revista Atual, do Museu Municipal de Visconde do Rio Branco e da Prefeitura da cidade, através da Secretaria de Cultura e Turismo. Foram inscritos filmes de Ubá, Cataguases, Rio de Janeiro, Viçosa e Visconde do Rio Branco. As obras foram avaliadas em três categorias: longa-metragem, curta-metragem e documentário. 

Tive a honra de ser convidado para fazer parte do juri, estive presente em todas as sessões e acabei testemunhando algumas situações simples, porém dotadas de um significado profundo e belo. A primeira foi a reação de uma parte do público, que foi à mostra para se ver no 'cinema'. Via-se durante os intervalos entre uma sessão e outra a magia que o 'reconhecer-se na tela' representava e isso podia ser percebido claramente em alguns olhares emocionados, cheios de orgulho; ouso dizer que nem os maiores clássicos da história da sétima arte seriam capazes de proporcionar para esta parcela do público presente este mesmo efeito. Este fenômeno atesta a importância do fomento à produção local, com o fortalecimento da cena e seu constante aprimoramento (acordem empresários, acorde poder público, isso é investimento!!!). 

Outro ponto que merece ser destacado tem relação direta com o efeito que as novas tecnologias têm provocado na produção cinematográfica independente. A relativa democratização dos meios de produção tem tornado cada vez mais fácil e barato a realização de um filme e diante deste contexto o que se sobressai é a criatividade e a originalidade de cada realizador; mais do que nunca é válida a máxima glauberiana  que diz serem necessárias apenas "uma câmera na mão e uma ideia na cabeça" (não por acaso, criatividade e originalidade foram quesitos determinantes no processo de eleição dos vencedores). Mas, o mais interessante é que a criatividade não estava presente só nos argumentos dos filmes exibidos, mas também nas alternativas encontradas para custeá-los, divulgá-los e distribuí-los. 

O longa A Onda da Vida, do diretor José Augusto Muleta, (vencedor na categoria de Melhor Longa Metragem) recebeu patrocínios, mas sua realização não seria possível se não fosse a colaboração entre os envolvidos em sua produção, o filme foi feito entre amigos e isso reduziu os gastos com cachês e com a terceirização da mão de obra técnica. Zé do Pedal - As Fronteiras do Mundo, dos diretores Fabricio Menicucci e Bruno Lima, (vencedor na categoria de Melhor Documentário) foi realizado graças a uma campanha de crowdfunding (financiamento coletivo através de doações) realizada na internet. O Intruso, dirigido por Filipe Ruffato, (vencedor na categoria de Melhor Curta Metragem) também foi realizados entre amigos e provou que uma boa ideia pode valer muito mais do que um sofisticado aparato técnico. 

Vejo com bons olhos o caminho que o Festival tomou nesta edição e este foi um grande passo para consolidá-lo como um dos mais importantes eventos do gênero na região, algumas pequenas falhas ficaram como lição e acredito que na próxima edição elas já não serão cometidas. Se algumas barreiras levantadas pelo conflito de egos, que caracteriza o cenário político local, forem transpostas, certamente os frutos colhidos no próximo ano serão ainda mais notáveis, as sementes para isso já foram lançadas...


O grande homenageado desta edição do Festival foi cineasta rio-branquense Geraldo Santos Pereira, co-autor  do clássico Rebelião em Vila Rica (1958) (um dos primeiros filmes brasileiros fotografados em cores), que foi exibido na noite de encerramento, antes da premiação.


Confiram abaixo os vencedores:

Melhor Longa-Metragem: A Onda da Vida de José Augusto Muleta 
Confiram o teaser do filme no You Tube, clique AQUI !


Melhor Curta-Metragem: O Intruso de Felipe Ruffato
Confiram o curta completo no You Tube, clique AQUI !



Melhor Documentário: Zé do Pedal - As Fronteiras do Mundo de Fabricio Menicucci e Bruno Lima
Confiram um 'promo' do filme no You Tube, clique AQUI !


sábado, 31 de março de 2012

Milton Nascimento + Ponto de Partida + Meninos de Araçuaí - Ser Minas Tão Gerais

Ser Minas Tão Gerais. Roteiro, pesquisa musical e direção geral de Regina Bertola. Direção de Vídeo de Eder Santos. Direção de Fotografia de Evandro  Roger. Direção Musical e Arranjos de Gilvan de Oliveira.. Figurinos de Alexandre Rousset e Tereza Bruzz. Coreografias de Wagner Moreira e Ponto de Partida. Produção Geral e Realização de Ponto de Partida.


Em algum lugar do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, um povo castigado pela vida espera a chegada de uma espécie de salvador, alguém em quem eles depositam todas as suas esperanças, na expectativa de que um dia ele chegue e transforme suas vidas para melhor. Este é o mote do belíssimo espetáculo Ser Minas Tão Gerais, idealizado pela companhia teatral Ponto de Partida. Este musical é uma homenagem à mineiridade, à cultura popular e ao conjunto de mitos e crendices do estado e mais que isso, ele é uma ode à vida, à esperança e à perseverança em meio à adversidade. A montagem mescla poemas de Carlos Drummond de Andrade à canções selecionadas do repertório de Milton Nascimento e do coral Meninos de Araçuaí. Tanto Milton quanto o coral participam do espetáculo, transformando-o em uma convergência de diferentes expressões artísticas, o que resulta em algo belo e dotado de uma poética que só poderia ter saído da manifestação de uma riquíssima cultura popular.

O espetáculo é sensacional; o casamento entre os poemas de Drummond, as canções do Milton e dos Meninos de Araçuaí e as atuações dos membros do Ponto de Partida é formidável, é incrível a sintonia que o roteiro consegue forjar entre cada uma das obras que cita ou que remonta durante seu desenvolvimento. A peça emociona pelo seu lirismo que nos transporta direto para os tempos de meninice, para as brincadeiras de roda e para as manifestações religiosas características do interior. Contudo, a ambientação onírica da peça não perde de vista os problemas sociais, a dor e o sofrimento que imprimem marcas tão forte em um povo muitas vezes esquecido. A história no entanto contorna esta dura realidade ao apontar para o longe, para além do que vê, se apegando assim a uma fé tão forte que é capaz de poupar e preservar o último fio de esperança. De forma metafórica o roteiro aponta para a cultura como sendo o meio através do qual o povo será liberto de seu sofrimento, o que se configura em uma bela analogia aos projetos que o próprio grupo mantém em uma das regiões mais pobres do estado.


Assisti o espetáculo através do DVD, que fora gravado no ano de 2004 no Cine Teatro Central em Juiz de Fora., reconheço que esta experiência poderia ter sido bem melhor se não fossem alguns problemas técnicos bem primários que prejudicam e muito a apresentação. O principal deles está associado á edição e à montagem do vídeo, explico: A apresentação que vemos no DVD foi gravada na verdade em dois dias, um deles com a presença do público e outro com o teatro vazio, o problema surgiu na hora de juntar  as imagens capturadas nas datas diferentes; provavelmente para que não ficassem “buracos” na edição, os montadores recorreram à técnicas como a aceleração, desaceleração e repetição das imagens (era preciso sincronizar o áudio e o vídeo), o que definitivamente não funcionou. Os efeitos, que são bem toscos, tiram toda a naturalidade da apresentação e a noção de tempo cênico fica totalmente perdida. Em nenhum momento vemos os atores deixando o palco ou como se dá a transição de uma cena para outra, há tão somente algum corte abrupto que nos transporta direto para o próximo ato, intervenção que ao meu ver é simplesmente inconcebível.


Apesar dos problemas citados no parágrafo anterior, o DVD vale muito a pena ser conferido, até porquê o espetáculo não está mais em cartaz, o que faz com que esta seja a única forma de conferi-lo, e deixar de fazê-lo seria um verdadeiro pecado... Milton Nascimento mostrou que tem pouca destreza como ator, no entanto ele não precisa disso para nos encantar, à cada vez que ele solta sua voz inigualável é como se o espetáculo atingisse naquele preciso instante o seu ápice, o maravilhoso é que isso se repete em diversos momentos da encenação, na maioria das vezes em coro com os Meninos de Araçuaí ou com os atores do Ponto de Partida. A montagem tem pouquíssimos objetos cênicos, vemos no palco apenas o necessário para nos situar no contexto do "causo" contado. Os figurinos são muito bem feitos e fazem diversas referências à cultura mineira, aos congados e à arte barroca. A iluminação do palco foi muito bem arquitetada, ela ajuda a valorizar e reforçar os tons de amarelo desbotado dos figurinos, o que de acordo com os extras do DVD seria uma referência àquilo que sobrou da corrida pelo ouro, minério que fora tão abundante nas terras do estado...


O grupo Ponto de Partida foi criado em 1980 na cidade de Barbacena, que se tornou conhecida nacionalmente como a “cidade dos loucos” por já ter abrigado sete hospitais psiquiátricos. De alguma forma a trupe absolveu este aspecto histórico e cultural da cidade e hoje eles reconhecem que a “loucura” sempre fez parte do processo de criação de suas peças e isto pode ser facilmente percebido em Ser Minas Tão Gerais. A trupe tem no currículo 26 espetáculos e diversos prêmios conquistados no Brasil e no exterior, suas peças são caracterizadas pelo flerte constante com a literatura, com a música e com a cultura popular. O Meninos de Araçuaí nasceu através de um dos projetos sociais mantidos pelo Ponto de Partida, o Ser Criança desenvolvido pelo Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento na cidade de Araçuaí no Vale do Jequitinhonha. Eles lançaram o elogiado CD Roda que Rola, que vendeu mais de 35 mil cópias,   já se apresentaram ao lado de Milton Nascimento e Gilberto Gil e em 2003 receberam das mãos de Lula, então presidente da república, a Medalha do Mérito Cultural. Já o Milton, Bituca para os mais chegados,  dispensa qualquer apresentação... 


Ser Minas Tão Gerais é um nutritivo alimento para a alma de qualquer apreciador da MPB, do teatro e das expressões culturais de nossa gente brasileira. Recomendo para todos! 

Confiram no vídeo postado abaixo um trecho do espetáculo:



domingo, 11 de dezembro de 2011

Minha história de leitura... qual a sua?


Foi por causa do post homônimo da amiga blogueira Joicy Doux Sorcière que decidi subverter a linha editorial que adotei este ano aqui no Sublime Irrealidade e escrever um artigo ainda mais pessoal e intimista... Pretendo falar rapidamente sobre a minha experiência com a literatura e como ela transformou, sem nenhum exagero, a minha visão de mundo e a minha forma de interagir com outras pessoas e seus pensamentos... Sempre estudei em escola pública e hoje faço a triste constatação de que foram poucos os professores que se preocuparam em tornar a mim e meus colegas devoradores de livros. Minha mãe aprendeu a ler sem nunca ter ido à escola, isso de alguma forma colaborou para que a leitura não se tornasse um de seus hábitos, ela não tinha consigo as melhores condições para se tornar uma incentivadora... Este contexto fez com que eu estabelecesse um relacionamento já tardio com a literatura, que veio a acontecer na minha adolescência, o pouco contato que tivera antes disso, fora através de alguns livros da Coleção Vaga-lume, aqueles cuja a leitura escassa era obrigatória em algumas escolas. A maior parte da minha turma os lia por obrigação, ou simplesmente não os lia, eu no entanto lia com o maior prazer do mundo.

Mas a verdadeira revolução artística e cultural que experimentei começou a acontecer quando eu tinha 13 anos, foi quando se deu o meu primeiro contato com a música como forma de arte, pode parecer que estou mudando de assunto, mas não, eu passara então a experimentar a música não mais como uma simples forma de entretenimento, mas como um canal para novas ideias e pensamentos, no auge de minha utopia eu acreditava que a música, não só ela, mas toda expressão artística poderia mudar o mundo e torná-lo melhor, mas eu queria ir além, eu queria ir até a fonte de tais pensamentos que eu considerava revolucionários. Foi nesta época que estabeleci meus primeiros contatos com a filosofia. Enquanto o meu professor desta disciplina tecia interpretações mesquinhas do mito da caverna de Platão, eu mergulhava em clássicos como Utopia de Thomas More, O Príncipe de Maquiavel, O Contrato Social de Russeau e outras obras e fragmentos de Marx, Bakunin, Malatesta, Emma Goldman, Proudhon, Kropotkin e outros...


O contato com a filosofia política me levaria à leitura de clássicos de outras correntes filosóficas, foi então que conheci Nietzsche, com quem desenvolvi uma relação de amor e ódio, Epicuro, um de meus favoritos, Spinosa, Erasmo e é lógico aqueles que seriam a base de todo o pensamento ocidental, Sócrates, Platão e Aristóteles, sendo este último aquele com o qual eu mais me identifico. A crise ideológica que experimentei algum tempo depois direcionaria o meu olhar para os clássicos ficcionais, durante um bom tempo eu preferi me distanciar, não da filosofia, mas do radicalismo que eu havia adotado como estilo de vida, foi neste período de antítese que conheci o meu autor favorito: Franz Kafka. De uma forma assustadora sua obra conseguia materializar todas as dúvidas, angústias e crises que eu então experimentava. Li O Processo e enxerguei ali uma alegoria da minha própria viva e esta identificação foi devastadora e se repetiu quando eu li A Metamorfose.

Foi também neste mesmo período que li Os Sofrimentos do Jovem Werter de Goethe, outra obra que deixaria marcas profundas em mim e que exemplifica bem a forma com que eu sempre dialoguei com os livros que lia, quando eu o li eu vivia uma situação parecida com a que levara o personagem central ao suicídio na história, porém, ao invés de despertar em mim sentimentos negativos, similares ao vividos por Werter, o livro trazia era algo de mágico, uma espécie de confirmação de que tudo aquilo que eu estava vivendo era digno de uma das maiores obras da literatura mundial, o que tornava meu sofrimento quase poético. O meu constante diálogo com os livros faria com que em muitas situações eu visse confundidas a minha história com a dos personagens com quem eu interagia.

A literatura se tornou então o código secreto que confirmava para mim que a minha existência tinha algo de superior, ao contrário do que tudo à minha volta dizia. Eu era alguém, eu era um indivíduo diferente dos demais e justamente por isso eu era alguém. Foi a literatura que de alguma forma de libertou das amarras do determinismo, que constantemente me dizia que o meu destino já estava escrito e por isso seria intocável, eu estava condenando a ter o mesmo futuro mesquinho esperado por todos aqueles garotos que liam a Coleção Vaga-lume por obrigação nos tempos da escola. Ler não me tornou mais rico, ou mais poderoso (ainda!), mas me possibilitou a fazer uma leitura diferenciada do mundo á minha volta. Hoje, posso afirmar que a reação que tenho diante de um filme, ou de uma peça teatral está diretamente ligada às reações que tive a priori com a literatura.

Não lembro muito bem do meu primeiro livro, lembro apenas que ele tinha um caracol na capa e que o ganhei quando entrei na escola primária, já do segundo eu lembro, na verdade guardo ele até hoje, é O Burrinho Insatisfeito, um livro infantil que narrava a história de um burrinho que não contentava em ser burro, ele então encontra um mágico que passa a lhe conceder desejos e o transforma em vários outros animais que ele julgava ter uma vida mais fácil que a sua, no final ele chega à conclusão de que ser burro era de fato o que ele gostava... Lembrei desta história pois ela ilustra bem aquilo que a literatura nos proporciona, ela é este mágico que nos concede o desejo de ser ao menos por alguns instantes aquilo que não somos e este processo nos ajuda descobrir quem realmente somos...

No momento estou lendo lentamente Crime e Castigo de Dostoiévski e devorando A Insustentável Leveza do Ser de Milan Kundera...

Termino este post com um agradecimento emocionado a alguns mestres que me ajudaram a descobrir e/ou aprimorar o gosto pelos livros, obrigado Carla Fagundes (por ter lecionado sobre a literatura brasileira com a maior paixão do mundo), Carla Silva Machado, (por ter me apresentado, dentre outros, O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wild) Taís Alves, (por ter me apresentado a Zuenir Ventura e ao jornalismo literário) Maria do Carmo Mello (pelas ótimas discussões literárias e filosóficas e por ter me apresentado a O Mundo de Sofia de Jostein Gaarder) e Robson Terra (pelas brilhantes análises das obras de alguns dos mais importantes teóricos da comunicação)!


Visitem meu profile no Skoob, uma rede social sobre livros! 


quarta-feira, 22 de junho de 2011

Dudu Lima e Emerson Nogueira no ViJazz & Blues

.Bom show, mas com um gosto amargo de quero mais!.


O vacilo de não ter percebido um simples detalhe e quase que um evento, que tudo para ser ótimo, se torna uma grande decepção. No último domingo (17/06) acordei cedo e peguei o ônibus para Viçosa, naquela manhã a minha expectativa era das melhores possíveis, afinal eu tinha passado boa parte da semana anterior ansiando pelo show do Emerson Nogueira, que aconteceria naquela tarde. Durante a viagem fui lembrando de alguns dos clássicos do rock´n´roll que estão no repertório daquele talentoso cantor e violonista... Eu nunca fui de render aplausos para covers, mas a playlist do cara é simplesmente formidável, ele fez fama tocando Beatles, Creedence, Pink Floyd, Police, Eagles, Surpertram e outros clássicos absolutos dos anos 60, 70 e 80.

O detalhe que me havia passado despercebido era quase banal e veio à tona quando, na casa de uma amiga em Viçosa, fiquei sabendo que o tal show nem estava na agenda do Nogueira. “Como assim?!?” Era verdade, aquilo que tinha me levado à Viçosa naquele domingo não era um show, mas apenas uma participação do cantor na apresentação do músico Dudu Lima, um virtuose do contrabaixo, que já tocou com Milton Nascimento, Stanley Jordan e outras feras. Antes do show começar a minha expectativa, que era até então das melhores, foi mudando e se convertendo em uma incômoda dúvida: “Como será esta tal participação?”


Dudu Lima subiu no palco depois de mais de duas horas de atraso, mas para o delírio de quem gosta de boa música, ele mostrou que a espera tinha valido a pena. Com influências que vão da música mineira ao jazz, ele provou que o contra-baixo não é apenas um mero instrumento “tapa-buracos”. Depois de umas quatro cancões interpretadas apenas com baixo, bateria e teclado, ele convidou o Emerson Nogueira para lhe acompanhar. O cantor, meio sem jeito pela falta do já tradicional banquinho, contou que estava gripado, o que se notava pela sua voz rouca. No entanto a rouquidão desapareceu como em um passe de mágica no momento em que ele começou a cantar a primeira música.  

Quem conhece o Recanto das Cigarras, que fica dentro campus da UFV, entendo porque tão poucos eventos são realizados no local hoje em dia. O espaço cercado pelo verde da natureza já foi muitas vezes alvo de vandalismo. Durante festas e shows que aconteciam lá, as dependências da universidade eram depredadas e o espaço aos poucos destruído. Hoje o Recanto se encontra revitalizado e muito bem cuidado, trazendo uma confortante sensação de paz e calmaria, principalmente para quem, como eu naquela tarde, o visitava pela primeira vez. O contato com a natureza potencializou o efeito do show, foi indescritível a sensação de escutar uma versão de Pink Floyd, por exemplo, em um lugar tão agradável.


O evento só não foi perfeito, pois enquanto eu imaginava que o show estava apenas começando, o Emerson anunciava que aquela já seria a última música. Sua participação se resumiu a cinco ou seis canções, totalizando umas dez, se contarmos com as que Dudu Lima tocara antes. Ficou um amargo gostinho de quero mais e a vontade de que o anúncio feito pelo Nogueira, de que Viçosa receberá um show completo em breve, seja de fato verdade, se for, torço para que seja novamente no Recanto das Cigarras. 

P.S. O Show de Dudu Lima e Emerson Nogueira fez parte da edição 2011 do festival ViJazz & Blues, que aconteceu no dia 16 de junho em Ponte Nova/MG e do dia 17 ao dia 19 em Viçosa/MG.

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terça-feira, 26 de abril de 2011

1° Festival de Teatro de Ubá - Boas Peças Para Um Público Pequeno


Há quase 4 anos, desde a última edição da Mostra Vicenzia, Ubá não sediava um festival de teatro. Em 2007, quando o último evento do tipo aconteceu, a cena na cidade estava um pouco diferente, a quantidade de grupos em atividade era maior e mesmo quem estava por fora do circuito, percebia uma certa rivalidade que existia entre os grupos “pequenos” e os “grandes”. Atualmente a situação é bem diferente, não dá pra falar que o teatro perdeu força na cidade, mas a verdade é que o teatro perdeu muito do incentivo que chegou a ter outrora. Hoje a quantidade de grupos é bem menor e, apesar de termos ganho um espaço para encenações na cidade, a Sala Chiquinha Dias Paes, a quantidade de peças continua pequena e o público restrito. As coisas pioraram em alguns aspectos, mas isso acabou tendo um impacto positivo, a rivalidade que existia no passado parece ter acabado e foi graças a união daqueles que ainda persistem na batalha pela cena, que o 1° Fetuba pode acontecer.

By Cleverson Montanha

Recolocar Ubá no circuíto dos Festivais não foi nada fácil e a principal dificuldade foi conseguir patrocínio, fato curioso em uma cidade onde circula tanto dinheiro. Graças a uns poucos incentivadores e à persistência dos organizadores, o evento aconteceu, mesmo sem grande apoio dos empresários locais. Entre os dias 21 e 24 de abril, trupes de Juiz de Fora, São João Del Rei, São João Nepomuceno, Guaçuí (ES), Conselheiro Lafaiete, Rio Espera, Senhora de Oliveira e Cataguases se apresentaram na cidade. Os espetáculos aconteceram na Sala Chiquinha Dias Paes e na Sede da antiga estação ferroviária da cidade (prédio tombado pelo patrimônio cultural do município).

Eu tinha planejado de assistir a cada uma das peças encenadas, mas devido à questões de horários, precisei fazer opção por apenas algumas delas. Assisti a um total de 7 espetáculos, sendo 2 deles na quinta-feira, 2 no sábado e 3 no domingo. Minha jornada no primeiro dia já começou com um leve pesar, eu já tinha perdido a peça Uai Zé, do grupo Os Mineirinhos de Senhora de Oliveira. A Dança da Escuridão Butoh, do grupo En-Cena de São João Nepomuceno foi então a minha peça de abertura. O espetáculo é inspirado em uma dança surgida no Japão do pós-guerra, e usa o corpo como forma de expressar a incompletude do ser humano. A peça, que retrata a angústia da condição humana, começa com uma cena em que dois personagens se tocam e se acariciam, parecendo explorar seus corpos, o contato com o outro lhes traz prazer, porém a dor vem logo em seguida, ela é anunciada pela trilha sonora melancólica que se desenvolve. Numa das cenas um personagem parece querer se livrar da própria pele, para assim fugir daquilo que sente. A peça é muito boa e os atores merecem aplausos pela ousadia daquilo a que se propuseram, falta um pouco de precisão nos movimentos, o que talvez venha com o tempo e com a prática.

Da Sala Chiquinha Dias Paes, fomos para a Estação, sem dúvidas, a próxima era a apresentação que eu mais esperava, era A Odisséia – Nunca Voltar Para Casa Foi Tão Difícil, inspirada na obra de Homero, encenada pelo grupo Manicômicos de São João Del Rei. O efeito da peça SerTão Menino, encenada pela mesma trupe no último festival, estava ainda bem vivo em minha memória, aquele fora um dos melhores espetáculos de minha vida. Não nego que acabei tendo um pingo de decepção aos assistir a remontagem da saga de Ulisses, mas apesar de não ser tão boa quanto a anterior, a peça provou mais uma vez a qualidade do trabalho que o grupo vem desenvolvendo. Os atores, alunos da 4° turma de atuação que os Mancômicos formaram, demonstraram agilidade e sintonia na adaptação, que se desprendeu com êxito do texto original. O não uso de cenários complexos e uma trilha sonora que se constrói ao vivo durante a peça, que parecem ser características da trupa, foram, também desta vez, um grande atrativo e um ponto a favor do espetáculo, que também contou com ótimas atuações.

A Cor Desta Noite, do grupo Gota Pó e Poeira de Guaçuí (ES), encena na Sala Chiquinha Dias Paes, foi a primeira peça que assisti no sábado. Com um roteiro inteligente, que aborda com maestria temas complexos como a identidade criativa, a reclusão e o conflito existencial. O espetáculo encena a relação de um artista, Pedro, com sua musa/modelo, Luiza. Ele prefere a reclusão de seu ateliê ao preto e branco da realidade, onde seria privado de seu dom criativo, ela, que parece enxergar o mundo de forma diferente, tenta lhe alertar dos riscos de sua reclusão e lhe trazer de volta para o mundo real. Luiza, que não aguenta mais fazer parte daquela fantasia, forjada com mentiras de ambos, tenta se libertar da presença de Pedro e de tudo que ela representa. O roteiro é muito bom e consegue manter o ritmo durante mais de uma hora de peça. Os atores deixam a desejar em alguns momentos, mas o simples fato de terem conseguido decorar todo o roteiro já é um mérito e os momentos de ápice da peça compensam os poucos deslizes.

Palhaço da Vida, monólogo do "grupo" Eu & Myself de São joão Nepomuceno, encenado na estação, veio logo em sequência. Na peça um ator decadente narra suas peripécias e lamenta o destino a que foi acometido, descrevendo sua tragetória desde o passado de glória até o presente, onde se encontra tomado por vícios, desilusões e pela loucura. O ator é excelente, pela forma com que mergulha em seu papel, diria que ele parece ser um dos adeptos do Método Stanislavski, a construção do personagem parece ter sido realmente muito bem trabalhada, porém a trama não se sustenta. O roteiro, mesmo tendo sido bem escrito, se torna um pouco cansativo com o tempo e se a peça só não se torna chata, o mérito é do ator. Não fiquei para conferir os vencedores do festival, mas não seria injustiça dar a ele o prêmio de melhor atuação da mostra.

No domingo à tarde, lá estava eu, indo de novo para a antiga Estação, quando cheguei o espetáculo tinha acabado de começar, a peça era uma releitura de A Megera Domada de Shakespeare, encenada pelo grupo Gota, Pó e Poeira. Foi a única comédia que assisti na mostra e ela me arrancou boas rizadas, algumas tiradas dos personagens durante a peça são impagáveis. A trupe ousou ao remontar a encenação original sob um novo contexto e com uma nova linguagem, mas a adaptação foi muito bem sucedida e alguns dos atores deram um verdadeiro show de interpretação. A interação com o público, que parecia ser um grande diferencial, acabou não o sendo, da metade para o final o ritmo parece ter sofrido alguma alteração e o abuso das “brincadeiras” com o público se tornaram a partir de então um fator mais negativo do que positivo, afinal o conteúdo colaborativo às vezes não sai conforme esperado. Ainda assim a peça é muito boa, arrisco a dizer que foi uma das melhores do festival. O grupo mostrou grande competência ao remontá-la, e isto ficou perceptível também pelos figurinos e maquiagens, ótimos. Era o sinal de que o final do domingo ainda prometia.

Tiro ao Alvo, encenado pelo grupo Criarte de Juiz de Fora, foi minha grande surpresa, foi na minha opinião a melhor dentre as peças que assisti, tanto em questão de roteiro, quanto em atuações, levando se em conta todo o elenco. O roteiro, escrito nos anos 60 pelo juiz-de-forano Flávio Márcio contém críticas ácidas à repressão que o país vivia na época e à hipocrisia de uma família da classe média, microcosmo que procura retratar. A Trama da peça gira em torna da família Santana, uma espécie de espelho deturpado do sistema social então vigente. A família tem valores invertidos, mas apesar disso, tem a mesma preocupação que a nossa sociedade tem em manter as aparências. O mote da peça é a desclassificação do filho do casal em uma competição de tiro ao alvo. A derrota cai como uma bomba no seio familiar e cada um dos personagens tentam achar uma justificativa para o fato, porém nos diálogos fica claro que a família não consegue se ouvir e estar enquadrado no sistema se torna, então mais importante para eles que qualquer outra coisa. A abertura da peça feita por um arauto, que anuncia ironicamente o que está por vir, é seguida por uma cena em que o pai injeta drogas na esposa e na filha, ao som de What a Wonderful Word de Louis Armstrong. Numa das melhores cenas, a filha confessa para a mãe, tremendo de medo, que ainda é virgem. A mãe a repreende e dia que vai contar para o marido tamanho desgosto. O humor ácido da peça, quase lhe tira a classificação de “drama”, a substituindo pela de “comédia de costumes”. Os comentários durante a encenação deixou claro, que pouca gente deve ter pescado as referências e citações que a peça faz, para a maior parte do público presente o mais marcante provavelmente foi a sequência que tornou a peça restrita a maiores de 16 anos.

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O 1° Fetuba foi encerrado com brilhantismo pelo grupo Roda de Conselheiro Lafaiete, que trabalha principalmente montagens feitas com textos literários. A peça encenada foi Perfume de Rosas, que se baseia em fragmentos da obra de Clarisse Lispector, Cora Coralina, Adélia Prado e no texto O Último Discurso de Charlie Charplim (do filme O Grande Ditador), para propor reflexões sobre a inércia provocada pelo corre-corre e pela rotina da vida moderna. A encenação nos chama para a verdadeira vida, que começa apenas quando deixamos de estar acostumados com aquilo que o mundo ao nosso redor nos oferece. Recorro ao clichê para dizer que o encerramento foi feito com chave de ouro. Os cinco atores que participaram da peça/recital demostraram total entrega aos seus respectivos personagens. A montagem também se destaca pelo cenário, que evoca a esperança, que a encenação tenta passar, através das rosas que são lançadas e depois colhidas em meio a monte de folhas secas. O incenso e os cartissais que cercavam o cenário, aliados aos figurinos, trouxeram um clima dark à peça, que não constrata no fundo com a urgência da mensagem que estava sendo emitida.

Em cada uma das peça que assisti, pude perceber aquilo, que na minha opinião foi um dos pontos fracos do festival: a falta de educação de parte do público. Os cochichos e murmurações durante as peças e a porta lateral da sala que era aberta nos momentos mais inoportunos, incomodaram bastante, mas felizmente não foram suficientes para me furtar a apreciação de cada um dos espetáculos, nem mesmo os celulares, que tocaram em três das peças, o fizeram. No final voltei pra casa lamentando não poder ter assistido às outras apresentações e tomado por um grande desgosto com relação à situação cultural de Ubá... Na maioria das apresentações o público era constituído, em sua maior parte, de organizadores e integrantes de alguns dos outros grupos que estavam participando da mostra. Cheguei a me questionar se isso poderia ser devido à falta de informação (apesar da organização ter investido na divulgação, pouca gente sabia do evento), ou se seria realmente pela falta de cultura da nossa cidade provinciana, que ao que parece, sabe muito sobre produzir e vender móveis (somos o 3º polo moveleiro do país, báhh) e pouco sobre valorizar a cultura e arte. Tenho que reconhecer o grande mérito de cada um dos envolvidos na organização, principalmente aqueles que investiram dinheiro do próprio bolso na realização, pois infelizmente, promover cultura em Ubá realmente parece ser jogar pérolas aos porcos...

Não deixem de confirir o SlideShow feito com imagens do festival, capturadas pelo fotógrafo ubaense, Cleverson Montanha. Clique AQUI para assistir!
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sábado, 19 de fevereiro de 2011

Afinal, por que Glee é tão legal?

A série exibida pela Fox está na segunda temporada e já é sucesso de público e crítica


Uma série musical protagonizada por estudantes de um High School (colégio de ensino médio) americano poderia resultar em mais um produto midiático de sucesso fácil, porém de qualidade questionável. A franquia High Scool Musical (2006; 2007; 2008) é o melhor exemplo disso. No caso desta trilogia,  as canções pop, usadas como apelo ao público teen, estavam associada a um roteiro superficial e totalmente descartável. Hoje quando recomendo Glee para alguns de meus amigos, a primeira coisa que digo é que esta série criada por Ryan Murphy, Brad Falchuk e Ian Brennan é bem diferente e bem melhor que o musical de adolescentes colegiais da Disney. Confesso que teria feito a mesma comparação baseado em uma impressão preconcebida, se não tivesse sido convencido da qualidade da série, já no primeiro episódio que assisti ( "Wheels", o 9° da primeira temporada). Glee se tornou um fenômeno nos EUA, arrebatando vários prêmios e elogios por parte da crítica. Sem contar a venda de singles e CDs e número de músicas nas paradas de sucesso, que já bateram vários recordes.

Glee tem o simples, e ao mesmo tempo ousado, intuito de prestar reverência à cultura pop e seus ícones e personalidades. A série transita pelo universo de adolescentes, tendo como argumento seus amores, intrigas, sonhos e desafios impostos pela vida social em um colégio - Acho que estou complicando as coisas - Para quem ainda não assistiu, vai parecer que eu estou falando de algo que reza pela mesma cartilha de folhetins como Malhação e definitivamente não o é. Podem então me questionar: “o que de tão especial tem nesta série que a torna tão legal?” Acho que posso afirmar que se deve ao fato de que Glee foge da mesmice e do convencional, e de tudo aquilo de que já estamos saturados. Para explicar isso um pouco melhor, vamos à trama:

A história de Glee se passa no colégio McKinley, onde é formado o New Directions, um coral que acaba atraindo aqueles alunos que estavam na base da pirâmide social da escola, aqueles que buscam visibilidade e alguns outros que acabam entrando por situações diversas. O coral passa ser o pano de fundo para o nascimento de relacionamentos, confusões e muito aprendizado - Parace banal? Então vamos aos personagens:


Rachel Berry (Lea Michele) é uma espécie de líder do coral, ela foi inspirada na personagem Tracy Flick do filme Eleição (1999) de Alexander Payne. Quem já assistiu a este filme, sabe bem de que tipo se trata. Rachel foi criada por um casal de homossexuais e desde pequena alimenta o sonho de ser atriz da Broadway, ela é egoísta, e ambiciosa e vê a vida escolar como um trampolim para o sucesso a que acredita ser predestinada.

Finn Hudson (Cory Monteith) é no mínimo tapado. Ele é popular por ser quarterback do time de futebol americano do colégio, e acaba entrando para o clube coral por causa de uma chantagem feita pelo professor Schuester (Matthew Morrison), que via em sua participação, uma forma de atrair mais estudantes para New Directions. Schuester coloca maconha em sua mochila e o ameaça dizendo que irá denunciá-lo se ele não tentar se redimir no coral, ele então aceita sem questionar. Durante a primeira temporada Finn passa um bom tempo acreditando ser o pai do filho que sua namorada espera, mesmo nunca tendo transado com ela. Ela o convence de que a concepção aconteceu em um dia que ele ficou excitado, quando estavam semi nus em uma banheira de água quente, que seriam segundo ela condições mais que favoráveis para a fecundação(!), mais uma vez ele aceita sem questionar.

Quinn Fabray (Dianna Agron), a namorada de Finn no início da primeira temporada, era líder de torcida e presidente do clube do celibato e se posicionava contra os anti-concepcionais e qualquer outra coisa proibida pela bíblia. Ela entra no clube do coral como uma das espiãs que pretendiam espalhar a discórdia e manter a treinadora das líderes de torcida Sue Sylvester (Jane Lynch) - a vilã da série - a par de tudo que acontecia no coral. Seus planos e seu status de garota certinha são desfeitos quando Quinn engravida em uma transa casual com Puck (Mark Salling), o “perdedor” do colégio e melhor amigo de Finn.

Puck entra para o coral pela influência de Finn e por descobrir que tem uma boa voz ao participar da banda Acafellas, ele é grosso, insensível e não tem muita expectativa de futuro, se diverte bulinando os “excluídos” do colégio e faz bico como lavador de piscinas para se aproximar e transar com mulheres de meia idade, dentre elas algumas mães de seus colegas.

Santana (Naya Rivera) e Brittany (Heather Morris) também são líderes de torcida e entraram para o coral junto com Quinn Fabray como espiãs, mas assim como Quinn elas também passam a gostar do clube com o passar do tempo. Santana também é ambiciosa e um tanto safada, ela já teve um caso com Puck, Finn e Matt (um personagem secundário). Brittany é simplesmente burra e consegue ser mais tapada que o Finn, são dela algumas das melhores tiradas da série. No episódio especial de natal, da segunda temporada a turma descobre que ela ainda acredita em Papai Noel. Santana e Brittany estão sempre juntas, em vários episódios há a insinuação de que exista uma relação homo afetiva entre as duas, que seriam bissexuais.

Kurt Hummel (Chris Colfer – vencedor do Globo de Ouro 2011 na categoria de melhor ator coadjuvante de série de TV) é um garoto homossexual que toma coragem para sair do armário depois de entrar para o coral, durante a primeira temporada nutre uma paixão não correspondida por Finn, que até tenta lhe retribuir com uma boa amizade. Kurt é uma das principais vítimas de Puck e dos valentões da escola, principalmente por seu estilo espalhafatoso.

Mercedes é uma das melhores cantoras do grupo, mas sofre de baixa auto-estima por ser negra e gorda. Artie (Kevin McHale) é um garoto nerd, cujo o maior sonho é poder dançar, ao entrar no coral ele enfrenta vários desafios por ser cadeirante é ele quem toca guitarra em algumas das apresentações do Clube do Coral. Tina é feminista, um tanto rebelde, ms muito emotiva, seu principal problema é a baixo auto-estima que faz com seu talento fique reprimido. Quando entrou para o coral Tina convenceu a todos que era gaga, para que ninguém pensasse em se relacionar com ela.

Will Schuester é professor de espanhol no colégio, é ele quem tem a idéia de reativar o clube do coral, que fizera sucesso no passado, mas que fora fechado depois que o professor responsável foi acusado de abuso sexual. Will se considera um perdedor por sua vida familiar e projeta nos meninos do coral os sonhos que não conseguiu realizar em sua vida. Ele é dedicado e esforçado e um ótimo cantor, mas passa por um período de dificuldades financeiras e de crise no casamento.

Sue Sylvester (um dos melhores personagens da série) é a treinadora das líderes de torcida, ela não admite que tenha que repartir as verbas repassadas pela escola com o Will e seu grupo de “aberrações”, ela está sempre tentando sabotar os planos da turma, mas no fundo ela parece ter um bom coração, o que ficou evidente no último episódio da primeira temporada. O diretor da escola Mr. Figgins (Iqbal Theba - que parece um clono do famigerado Pr. Silas Malafaia) também é um personagem legal, apesar de ser secundário. Ele é corrupto e está sempre metido em escândalos que Sue usa para o chantagear.

Além destes tem mais um monte de outros personagens curiosos, como Terry Schuester, a esposa de Will, que finge uma gravidez para segurar o marido, Emma (Jayma Mays) a paranóica conselheira da escola e o antigo coordenador do coral, que fora acusado de abuso sexual, que aparece em vários episódios da primeira temporada. Como pode se observar os personagens de Glee não são nada convencionais, são contraditórios e ambíguos em suas personalidades e não são modelos pra adolescentes, nem foram concebidos para causar inveja nos expectadores, como acontece na maioria dos casos. As situações absurdas que eles provocam, por viverem os extremos de cada aspecto de suas personalidades, nos proporcionam alguns dos momentos mais divertidos da série. O exagero característico da trama é um dos melhores atrativos.

The Simpsons e Glee - um encontro entre 
duas das séries de maior sucesso da Fox 

O roteiro apesar de simples é outro grande diferencial. Enquanto nós como sociedade valorizamos apenas a vitória e os títulos que acumulamos, os criadores de Glee nadam na direção oposta com a história do New Directions, os personagens são tudo que não desejamos ser. São perdedores e por mais que tentem se esconder por trás de títulos mesquinhos e popularidade ilusória, eles são o exemplo dramático da futilidade da maioria das coisas que valorizamos. Apesar de toda a excentricidade das estórias e dos personagens caricatos, no final o que se sobrepõe é a lição sobre o respeito às diferenças e a valorização das amizades e de se fazer o que realmente gosta ao invés da busca desenfreada por troféus e status social.

O repertório de Glee é composto por sucessos do Pop, Hip Hop, R&B e clássicos do Rock, as performances são uma atração à parte. Mesmo eu, que tenho pouca ou nenhuma atração pela maioria das músicas que fazem e fizeram sucesso e estiveram no topo das paradas do Pop nos últimos anos, que constituem uma significativa parcela das interpretações da série, tenho que reconhecer que é legal ver cada canção sendo trabalhada para ilustrar alguma situação específica na trama. Conseguiram até tornar suportável os episódios especiais sobre Lady Gaga e Britney Spears e atrir um valor a mais a canções que não passavam de material comercial descartável.

Durante a primeira temporada teve momentos excepcionais, como o que o Glee Club canta Imagine de John Lennon junto com um coral de surdos, o midle entre Dont Stand so Close to Me do The Police e Young Girl de Gary Puckett, a interpretação de Artie para Dancing With Myself do Billy Idol (no primeiro episódio que assisti) e a apresentação de Bohemian Rhapsody do Queem no último episódio da temporada. Sem mencionar tantas outra releituras que em perte das vezes ficou bem melhor que a versão original. Vale a pena despir do preconceito e se render a esta série que é uma melhores coisas produzidas para a TV nos últimos tempos. O fato de que a Globo comprou a primeira temporada e decidiu não levá-la ao ar nas manhãs de sábado como fora previsto, sem dúvidas é um bom sinal. Recomendo!


Assistam ao trailer da primeira temporada de Glee no You Tube,
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