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domingo, 17 de abril de 2011

A Liberdade é Azul

A Liberdade é Azul (Trois Couleurs: Bleu) - 1993. Dirigido por Krzysztof Kieslowski. Roteiro de Krzysztof Kieslowski; Krzysztof Piesiewicz; Agniezka Holland; Slavomir Idziak & Edward Zebrowski. Música de Zbigniew Preisner. Direção de Fotografia de Slavomir Idziak. Produzido por Marin Karmitz. CAB; CED; Eurimages; France 3; MK2 & Tor / França-Polônia-Suiça.

 

Na última segunda-feira (11/04), a lei que que proíbe o uso do véu islâmico integral (aquele que só deixa uma pequena abertura na altura dos olhos) entrou em vigor na frança. O uso da burca está proibido nas ruas, transportes públicos, lojas, escolas, agências de correio, tribunais, hospitais e prédios da administração pública . As mulheres que desobedecerem a lei estarão sujeitas a uma multa de 150 Euros e a um curso de educação cívica. A lei vem causando polêmica desde quando ainda estava tramitando no congresso francês, a população está dividida, há quem vê a lei como um atentado à liberdade individual e de crença e há os que a vêm como uma forma de proteger as mulheres contra o uso do véu, que conforme justificam seria ago arbitrário, imposto pela religião e pelos maridos das seguidoras do islamismo mais radical. 

Achei interessante mencionar este tema tão atual no início desta resenha, pois ele ilustra categoricamente como o ideia da liberdade pode se tornar por vezes ambígua e contraditória. Na polêmica dos véus podemos perceber que ambos os lados recorrem à liberdade para justificarem seus pontos de vista. Curioso é que o mesmo país que ostenta em sua bandeira uma cor que representa o ideal da liberdade, que reprime a prática de um costume, cuja a decisão de praticar deve, ao menos em tese, partir da pessoa que escolhe seguir àquela tradição religiosa. A fragilidade do ideal tem tudo a ver com a Trilogia das Cores de Krzysztof Kieślowski, já deixei isso bem claro na resenha dos outros dois filmes e não é diferente em A Liberdade é Azul (1993). Neste filme, o primeiro na ordem cronológica, encontrei mais uma peça que ajudou a dá um sentido mais amplo às outras duas histórias.


 

Julie (Juliette Binoche – linda e exuberante como sempre) se vê diante do que poderia ser a liberdade completa, ela está livre do casamento, das obrigações familiares e da administração de seu lar. Mas esta liberdade não é nada boa, na verdade este parece ser o pior momento de sua vida, ela acabou de perder o marido e a filha de 5 anos em um acidente automobilístico e agora ela tenta se desapegar da antiga rotina para simplesmente continuar vivendo. Esta história simples trouxe a peça que me faltava para uma compreensão mais ampla da trilogia e que só agora eu consegui encontrar: os ideias em si não podem nos trazer a felicidade, esta só pode encontrada nos relacionamentos e nos sentimentos compartilhados. Isto também pode ser percebido nos outros dois filmes, em A Igualdade é Branca (1994), o personagem principal não encontra mais a felicidade que tinha no casamento, nem depois de concretizar sua vingança contra a ex-esposa, em a Fraternidade é Vermelha (1994) entendemos que a fraternidade pode destrutiva, ao vermos que uma boa ação pode destruir o já fragilizado relacionamento de uma família.

Nesta história, Patrice, o marido de Julie, estava compondo o Concerto Pela Unificação da Europa antes de morrer. A música deveria ser executa simultaneamente por orquestras de diversos países do velho continente. A conclusão da obra inacabada é atribuída a Julie, que também é compositora, mas ela não consegue encontrar dentro de si o sentimento de união que a composição demanda. Ela que está despedaçada pela perda, não consegue materializar o sentimento que o marido falecido começara a dar à música. Nesta situação percebemos outra vez que a ventura que se deseja alcançar não está nas abstrações de conceitos filosóficos e sim nos sentimentos de cada indivíduo, que por sua vez é moldado e influenciado pela fragilidade de suas relações.


 

Após assistir aos três filmes, fica bem mais fácil ensaiar uma interpretação mais ampla da Trilogia das Cores, cada um dos filmes são alicerçados pela ideia da morte das ideologias e da fragilidade do ser humano em suas relações. As histórias transferem para a espera dos relacionamentos de cada indivíduo a felicidade que ele busca em ideias que estão tão desfigurados e tão distantes. De acordo com este ponto de vista, a liberdade, a igualdade e a fraternidade são sim coisas positivas, mas em determinadas situações é melhor estar preso ao que se ama do que ser livre, é melhor ter as diferenças respeitadas e compreendidas do que ser igual e é melhor não ser fraterno, quando tal fraternidade fizer mais bem ao nosso ego que a pessoa a quem é destinada.

 

A Liberdade é Azul é tão formidável quanto A Fraternidade é Vermelha, mais uma vez a fotografia, a trilha sonora, as atuações nos deixam boquiabertos. A poesia parece saltar de cada uma das cenas. Em alguns momentos parece ser quase palpável a dor que a personagem principal sente e os artifícios usados para isso são fantásticos, preste atenção em como a tela enegrece quando Julie mergulha na dor que está sentindo e nas cenas de close-up em que apenas a canção e a fotografia dão o tom do estado de espírito da personagem. Não tem como descrever a cena em que percebemos apenas pela sonoplastia e pela expressão facial de Julie, tomada pela frieza da cor azul, o suspense e a brutalidade de algo, que acontece fora de seu apartamento, que não nos é mostrado. Em outra sequência impecável a canção que toca é alterada à medida que a personagem reflete sobre as possíveis alterações a serem feitas na composição.

 

Vale lembrar que tal como os outros dois, este é um filme de sutilezas, ele possui um ritmo um pouco mais lento e mais melancólico que os outros, sem com isso deixar de ser maravilhoso. As sutilezas vão desde pequenas metáforas, que estão em todo o filme, à repetição de uma cena que aparece em circunstâncias um pouco diferentes em cada um dos filmes e à inserção de personagens das outras histórias que aparecem em algum momento da trama.

A situação que relembrei na introdução desta resenha pontua bem o quanto as reflexões propostas por Krzysztof Kieślowski acerca dos ideias são atuais e capazes de ainda causar polêmicas e discussões exaltadas. O diretor conseguiu descrever magistralmente a situação do indivíduo na pós-modernidade, que se encontra cada vez mais carente de relacionamentos que não sejam superficiais e cada vez mais confuso diante de um mundo que se sustenta sobre pilares que estão ruindo. Indico cada um dos três filmes, com a ressalva de que A Igualdade é Branca, apesar de ser o favorito do diretor, não merece o status de obra prima, que os outros alcançam com tamanho mérito. Recomendo!


Confiram a resenha crítica dos outros dois filmes da  Trilogia das Cores aqui no Sublime Irrealidade:


Assista ao trailer de A Liberdade é Azul no You Tube ! (clique no link)

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sábado, 16 de abril de 2011

A Fraternidade é Vermelha

A Fraternidade é Vermelha (Trois Couleurs: Rouge) - 1994. Dirigido por Krzysztof Kieslowski. Roteiro de Krzysztof Kieslowski & Krzysztof Piesiewicz. Música de Bertrand Lenclos & Zbigniew Preisner. Direção de Fotografia de Piotr Sobocinski. Produzido por Marin Karmitz. CAB; France 3; Canal+; MK2; Tor & TSR / França-Polônia-Suiça.

 

Tive algumas restrições quanto ao A Igualdade é Branca (1994), o primeiro filme que assisti da Trilogia das Cores. Como deixei claro na resenha que postei aqui no Sublime Irrealidade, algumas coisas na trama me pareceram estar desconexas, cheguei até a questionar a qualidade da obra em alguns momentos. Porém descobri que o problema não era o filme e sim a minha falta de entendimento. O segundo, pela ordem que escolhi assistir, realmente mudou meus conceitos sobre o primeiro e através dele eu finalmente compreendi onde estava a genialidade do diretor. A Fraternidade é Vermelha (1994), cronologicamente o último filme da Trilogia de Krzysztof Kieślowski, é simplesmente soberbo! Acho que não é exagero nehum dizer que o filme beira a perfeição. A trilha sonora é linda e a fotografia é exuberante, principalmente nas sequências em que a imagem é tomada pelo vermelho, que explode sobre o cenário para representar paixões, dores e outras emoções dos personagens. A câmera em travelling, que passeia graciosamente pelas cenas, sem deixar de registrar as circunstâncias mais banais, que ajudam a compor a gama de signos que o filme nos oferece, é mais uma vez um aspecto que precisa ser destacado.

As atuações de Irène Jacob e Jean-Louis Trintignant também são ótimas, ambos os atores, se entregam aos seus respectivos personagens de uma forma quase sobrenatural. As interpretações não parecem em nenhum momento superficiais e conseguem transmitir toda a densa carga emocional que os personagens trazem consigo. Preste atenção nas expressões facias, nos olhares e nos simples movimentos de cada uma deles, é todo sublime. Com uma excelente produção técnica e ótimas atuações só faltaria um bom roteiro e uma mente brilhante por trás das câmeras, para não por tudo a perder e assim tornar o filme um verdadeiro clássico moderno. É este o ponto em que eu queria chegar, pois é justamente o roteiro e a direção que merecem os maiores destaques, tais aspectos acentuam o poder desta obra e a transforma num dos filmes mais belos e mais importantes da década de 90.

 

Na história, a modelo Valentine Dussaut (Irère Jacob) estava voltando para casa quando acidentalmente atropelou uma pastora alemã, ela recolheu a cachorra que está ferida em seu carro e a levou ao endereço indicado na coleira. A cadela pertencia a um juiz aposentado (Jean-Louis Trintignant), que tomado pela angústia existencial, passava a vida espionando as ligações telefônicas de seus vizinhos, através de um aparelho que captava ondas de rádio. O contato de Valentine com o juiz irá mudar as vidas de ambos, mas não sem antes acontecer um verdadeiro choque entre a ética pessoal de cada um e a forma com que eles encaram a vida. A vida pessoal de Valentine não está legal, o namorado que está em Londres não a dá a atenção e a importância que ela merece, o irmão mais novo está envolvido com o crime e com com drogas, mas apesar de tudo, ela mantém uma visão positiva do mundo, ao contrário do juiz que não consegue mais acreditar nas pessoas e não tem mais esperanças em relação à próprio vida.

 

É curiosa a forma com que a questão da fraternidade é trabalhada no roteiro, cada um dos personagens parece explorar cada um dos aspectos que a história pretende mostrar. Valentine é idealista, ela acredita na fraternidade e nas boas ações que faz, como levar a cadela ferida para casa de seu dono. O juiz é a oposição a este idealismo, ele considera todo a boa ação egoísta, pois no mínimo quem a pratica deseja se sentir melhor consigo. Nesta visão a atitude de Valentine de socorrer a cadela teria sido motivada apenas pelo seu medo de conviver com a culpa de tê-la ferido. Ainda na visão do juiz, a fraternidade não seria em si algo completamente positivo, em algumas circunstancias ela poderia causar mais danos do que bons resultados. Numa das sequências Valentine ameaça contar para esposa de um dos vizinhos do juiz, que o marido dela tem um caso com outro homem, o que teria ficado bem claro numa ligação entre os amantes. O juiz a dissuade de fazer isso, uma vez que a notícia poderia desestruturar toda aquela família, a ação fraternal da moça é então desestimulada pelo dano que poderia causar. Na mesma situação o juiz acaba sendo fraterno ao impedí-la, mas sua atitude também é egoísta, uma vez que se deve à sua preocupação em não ser descoberto como espião de ligações.

 

Tal como em A Igualdade é Branca, nesta história fica clara a falta de referências da sociedade atual e a fragilidade das ideologias em que tantos acreditam. De alguma forma, Kieślowski parece mesclar a visão dos dois protagonistas numa reflexão filosófica que não traz respostas, apenas indagações sobre a eficácia daquilo em que acreditamos, a controvérsia de nossa ética pessoal e as dores que tentamos aplacar com conceitos abstratos. A Fraternidade é Vermelha precisa ser visto e com um olhar que transcenda a simplicidade a história contada. Preste atenção nas sutilezas e se precisar assista mais uma vez, garanto que vale a pena. Tenho ainda algumas observações a fazer, sobre algumas curiosidades, deste em relação a primeiro que assisti da trilogia, como uma cena que se repete em ambos e a inserção de personagens de um no outro, mas acho que é melhor deixar isso para a última resenha, a de A Liberdade é Azul (1993). Este foi o último filme de Krzysztof Kieślowski, que faleceu em 1996 aos 54 anos. Seu desfecho pode ser visto como uma espécie de conclusão das outras duas histórias e também como um pingo de esperança que o diretor lança sobre a frágil condição humana, que abordou tão bem nesta trilogia.

A Fraternidade é Vermelha foi indicado aos Oscars de Melhor Diretor, Roteiro e Fotografia e ganhou a Palma de Ouro (Krzysztof Kieślowski) no Festival de Cannes.


Confiram a resenha crítica dos outros dois filmes da Trilogia das Cores aqui no Sublime Irrealidade:.
A Igualdade é Branca (1993)

Assista ao trailer de A Fraternidade é Vermelha no You Tube ! (clique no link)

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sexta-feira, 15 de abril de 2011

Joey Ramone: a revolução e o estrago em minha vida...

.10 anos de silêncio....



Lembro daquele dia, há exatos 10 anos, quando cheguei na sala de aula e um amigo me disse que um dos caras do Ramones tinha morrido. Já fazia alguns meses que eu tinha escutado a banda pela primeira vez e desde então eu não conseguia pensar em outra coisa. Conheci o quarteto através de um primo distante que também era fã e me apresentou ao primeiro CD deles (junto com uma fitinha do Nirvana). Ele tinha quase toda a discografia oficial da banda, no entanto eu tinha pouco contato com ele e a partir daí cada material do Ramones que chegava em minhas mãos era um motivo de euforia. Dez anos atrás, ainda não era comum no meu grupo de amigos ter acesso regular à internet e o pouco de informação que nos chegava sobre o mundo da música vinha através de algumas poucas revistas especializadas (que pouco publicavam sobre a banda). Mais ou menos um mês antes de receber a trágica notícia na sala de aula, eu tinha conseguido comprar, na banca perto da escola, uma revista/poster do Ramones (uma Bizz que guardo até hoje), o texto na publicação não descartava a possibilidade de uma reunião da banda e, consequêntemente, a de que um dia eu pudesse vê-los ao vivo. O sonho acabou naquela manhã, no dia 15 de abril de 2001.


Sem dúvidas era mesmo o fim, quem conhece ao menos um pouco do Ramones sabe que seria inconcebível alguém tomar o lugar de Joey, que falecera vítima de um câncer linfático. Muitos podem até descordar, mas na minha opinião ele era a alma da banda, Dee Dee podia ser o maior compositor e o Johnny o cabeça do grupo, mas o Joey é que era o cara. Pela postura de palco e pelas entrevista ficava bem claro o quanto ele era diferente de qualquer estereótipo de punk ou de rocker que se tem até hoje. Ele tinha a simplicidade e o carisma que o fez ser respeitado por músicos dos mais variados estilos. Bono Vox descreveu isso numa declaração dada logo após a da morte do amigo (que partiu dessa para uma melhor ao som de In a Litle While do U2), na ocasião ele lembrou: “Quando eu assisti Joey no palco pela primeira vez em 1977, em Dublin, percebi que nada era mais importante para ele do que estar ali”. Realmente Joey parecia se entregar de corpo e alma ao que estava fazendo, mesmo que nem ele próprio tivesse a dimensão do que tudo aquilo significava. Muito tempo se passou até que banda se tornasse respeitada pela sua importância e pela revolução que começou no mundo da música. Hoje não se produz praticamente nada na música pop que não tenha sofrido influência direta ou indireta de seu jeito simples e despojado de fazer música, na minha opinião eles devem ser colocados no mesmo patamar de importância em que estão os Stones, Chuck Berry, Beatles, Led, Sabbath e outras bandas lendárias...


Qualquer esperança sobre uma possível reunião dos remenescentes foi definitivamente descartada com as mortes de Dee Dee e Johnny, em 2002 e 2004 respectivamente. Depois que a voz que entoava Gabba Gabba Hey se calou, sobrou apenas o estrago. Nada mais seria como antes, o mundo já não era mais o mesmo, foi provado que apenas 3 acordes (e quatro jaquetas de couro) bastavam. Minha vida também nunca mais seria a mesma, Joey e companhia apresentaram para mim a contestação estética do Punk pré-77 e abriram o caminho para a contra cultura e a reflexão política, nas quais eu mergulharia de cabeça nos anos seguintes. O Ramones ajudou a definir parte daquilo que sou hoje, boa ou má a influência foi profunda e duradoura, através desta influência conheci alguns dos melhores amigos que tenho hoje e vivi algumas das melhores experiências de minha vida. Este breve artigo é, mesmo em sua insignificância, uma forma de agradecimento á banda pelo estrago proporcionado! No entanto não há homenagem melhor que ligar o som no volume máximo e arredar o sofá!          1 – 2 – 3 – 4 ! ! !





quarta-feira, 13 de abril de 2011

A Igualdade é Branca

A Igualdade é Branca (Trois Couleurs: Blanc) - 1994. Dirigido por Krzysztof Kieslowski. Roteiro de Krzysztof Kieslowski & Krzysztof Piesiewicz. Música de Zbigniew Preisner. Direção de Fotografia de Edward Klosinski. Produzido por Marin Karmitz. CAB; France 3; Canal+; MK2; Tor & TSR / França-Polônia-Suiça.

 

Alguns críticos consideram A Igualdade é Branca (1994) o mais fraco dentre os filmes da Trilogia das Cores de Krzysztof Kieślowski e isto foi o que me levou à opção de assisti-lo antes dos outros dois, contrariando assim a ordem cronológica de lançamento dos filmes. Os três longas desenvolvem histórias independentes, cada uma delas pautada por um dos ideais da revolução francesa, que foram associados à cada uma das cores da bandeira do país. Como o título do filme no Brasil deixa claro, o tema deste seria a “igualdade”, aspecto que a meu modo de ver não está tão explicito na trama. A história é simples, porém cheia de sutilezas, que trazem um significado maior, além daquele que é transmitido pelos diálogos entre os personagens.

Karol Karol (Zbigniew Zamachowski) é um imigrante polonês que mudou para França após o casamento com Dominique (Julie Delpy), uma linda francesa. O casamento deles não estava indo bem há um bom tempo, no entanto Karol Karol se surpreende ao ser intimado a comparecer no Palácio de Justiça de Paris, para uma audiência relativa ao pedido de divórcio feito pela esposa. Ele parece não acreditar no que está acontecendo e por não conseguir se defender junto à Corte, uma vez que não fala quase nada em francês, além de ser obrigado a conceder o divórcio, ele ainda perde praticamente tudo na partilha de bens. Depois de vagar como um mendigo pelas ruas de Paris, Karol Karol, consegue voltar para a Polônia, com a ajuda de Mikolaj (Janusz Gajos), um outro imigrante polonês, que ele conheceu no metrô parisiense, onde passava as noites.


 

Após uma dura viagem, dentro de uma mala como clandestino, Karol Karol chega de novo na Polônia e lá volta a exercer a sua antiga profissão, a de cabeleireiro. Mas ao perceber que não conseguiria ganhar muito dinheiro desta forma, ele começa a buscar outro emprego e acaba se tornando o segurança particular de um mafioso local. Karol Karol consegue fazer fortuna depois de passar a perna em seu patrão e conseguir comprar alguns terrenos por uma mixaria e revendê-los em seguida por um dinheirão. Com a grana ele abre uma empresa que prospera rapidamente. É a partir de então que ele decide por em prática um plano de vingança contra a ex-esposa, por quem ainda nutre uma intensa paixão.

 

Confesso, que esta estava sendo uma das resenhas mais difíceis de escrever desde que reformulei o Blog, cheguei a sentir a necessidade de rever o filme, ou até mesmo de refletir melhor sobre ele, mas ao mesmo tempo pensei que as peças soltas poderiam (ou não) serem encontradas nas outras duas histórias da trilogia. Preferi, sendo assim, não terminar este artigo com um grande hiato. Ainda não sabia dizer bem ao certo o que tinha achado do filme, ainda não conseguia perceber nele a genialidade que atribuem a Krzysztof Kieślowski. Quando assisti A Fraternidade é Vermelha (1994) foi como se minha visão se expandisse sobre o primeiro filme. A abordagem sobre a fraternidade me ajudou a entender o que estava sendo dito sobre a liberdade

 

A questão sobre a igualdade, como havia dito, não é tão explícita, creio possa fazer uma análise sobre o tema, lançando um olhar um pouco mais atento sobre a questão de Karol Karol como imigrante e sua relação com sua esposa. A trama deixa bem claro que o país que tanto se vangloria de ser ser igualitário, não consegue ouvir nem julgar com equidade o estrangeiro. Na relação entre os protagonistas percebemos o tema sob uma outra ótica, o da igualdade conquistada, neste caso a de gênero. Dominique pede a anulação do casamento alegando que a união entre eles não está sendo consumada, uma vez que o marido é impotente, esta situação exemplifica como a igualdade é por vezes distorcida. Provando que pode se igualar aos homens, até na ideia de que o relacionamento só se sustenta com sexo, a mulher abre mão do casamento, numa decisão quase “machista”, mostrando que nem sempre o modelo a que se deseja igualar é o melhor.

 

Complicado dizer se o filme é uma exaltação da busca pela igualdade ou uma contundente crítica à forma com que ela é explorada. A conclusão a que chego é a de que Kieślowski talvez tenha tido a intenção de dizer com a trilogia que as pessoas, mesmo com seus ideais, estão totalmente perdidas e que nem as convicções, que elas tanto idolatram, podem mais lhes dar um norte ou um sentido maior diante da complexidade de suas vidas. A igualdade seria apenas uma abstração filosófica não palpável, em torno da qual existem ainda muitas indagações. Acreditamos que somos iguais, e agora? O que fazemos com nossa igualdade? Ela pode nos tornar mais felizes? Cheguei também à conclusão de que o brilhante olhar sobre as sutilezas é o que torna o diretor tão genial na forma de contar as histórias. Apesar da atuação do protagonista não convencer em alguns momentos, A Igualdade é Branca merece, e muito, ser visto. Preste atenção na fotografia, que trabalha as cores de forma magnífica e nos movimentos de câmera que captam as imagens como um olhar atento e curioso, que praticamente nos guia através dos acontecimentos e além deles. Indico! Se possível assista aos três em sequência!


Confiram a resenha crítica dos outros dois filmes da Trilogia das Cores aqui no Sublime Irrealidade:.

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domingo, 10 de abril de 2011

A Canção dos Pardais

A Canção dos Pardais (Avaze gonjeshk-ha) - 2008. Dirigido e produzido por Majid Majidi. Roteiro de Majid Majidi & Mehran Kashani. Música de Hossein Alizadeh. Direção de Fotografia de Turaj Mansuri. Majid Majidi Film Production / Irã.

 

Na 61° edição do Festival de Berlin, que aconteceu entre 10 de fevereiro, uma das cadeiras destinadas aos jurados permaneceu vazia durante todo o evento. O assento pertencia ao cineasta iraniano Jafar Panahi, que foi proibido de filmar e teve a prisão decretada pelo governo ditatorial de Mahmoud Ahmadinejad. A cadeira vazia se transformou em um protesto simbólico a favor da libertação do diretor, que tem no currículo filmes como O Balão Branco (1995)O Círculo (2000). Coincidência ou não o ganhador do Urso de Ouro, prêmio máximo do festival, e do Urso de Prata de Melhor Ator e Atriz, foi o longa, também iraniano A Separação (2011), de Asghar Farhadi. Tanto as manifestações, quanto as premiações nos ajudam a entender um pouco mais sobre o panorama atual da produção cinematográfica naquele país. Os filmes iranianos, com seu realismo pungente, sempre associado ao lirismos da cultura e história daquele povo, chamam a atenção pela força que carregam consigo, pelo humanismo das tramas, pela beleza da direção de arte e da fotografia e pelas ótimas atuações. A beleza estética dos filmes em alguns momentos parece nos fazer esquecer o contexto de censura, perseguição política e ameaças, dentro do qual eles têm sido produzidos.

A Canção dos Pardais (2008) é uma grande prova disso, dirigido pelo cultuado realizador Majid Majidi, o filme nos coloca diante de todos os elementos que fizeram do cinema iraniano tão admirado nos circuitos alternativos de todo o mundo. O longa conta a história de Karim (Mohammad Amir Naji), um homem pobre, já de meia idade, que trabalha em um criadouro de avestruzes, emprego com o qual ele sustenta a esposa e os três filhos. A aparente tranquilidade da família é abalada quando Karim é demitido ao ser responsabilizado pela fuga de uma das aves, que valia uma alta quantia de dinheiro. Para manter as provisões para sua casa e comprar um novo aparelho de surdez para a filha mais velha, ele começa a trabalhar na capital, Teerã, como moto-taxi, ramo no qual entrou quase acidentalmente. Paralelo a isso, acompanhamos a história de Hussein (Hamid Aghazi), filho de Karim, que junto com outros meninos de sua vizinhança, sonha em transformar um antigo depósito de água, onde só tem lama e lixo, em um aquário cheio de peixes dourados.


 

A trama é simples e o ritmo do filme, apesar de não ser muito rápido, também não é lento demais. Creio que eu possa o classificar como um filme realista, porém cheio de sutilezas e simbolismos subliminares. Pode ser um devaneio, mas interpretei a disposição de Karim em manter as coisas estáveis e a de Hussein em tornar seu sonho realidade, como uma metáfora para a atual situação do Irã. Enquanto o filho, quase utópico, em sua infantilidade, busca intervir em sua realidade, transformando-a, o pai, que está preocupado apenas com a sobrevivência, tenta construir uma vida melhor se aproveitando daquilo que já não tem mais utilidade para outros (todos os dias ao voltar de Teerã, ele traz consigo coisas velhas que foram encontradas no lixo e entulhos de construção, material que para ele teria um grande valor). Entendo isso como uma bela representação da dicotomia entre o conservadorismo e a ruptura, que faz parte da realidade atual do país islâmico, neste embate, enquanto uns se apegam aos destroços do que já foi descartado, para reconstruir a estabilidade, outros têm a chance de ao menos sonhar com o novo e com um mundo melhor. Sonho este, que mesmo ao ser frustrado, não deixa morrer a esperança que os dão força para continuar em frente.

 

A Canção dos Pardais também tem o incrível poder de nos colocar em contato com o outro étnico, fazendo nos compreender uma realidade tão diferente e ao mesmo tempo tão parecida com a nossa. O filme nos ajuda a quebrar o preconceito, que muitos de nós nutrimos, de que o oriente médio está tomado apenas pelo fanatismo religioso, pelos conflitos étnicos e políticos e pela violência dos grupos terroristas. O filme nos mostra ainda que naquela região tão instável do mundo existem pessoas, que têm os mesmos medos e sentimentos que nós temos. O ótimo roteiro nos apresenta a personagens desprovidos de qualquer maniqueísmo e de uma humanidade tamanha, que nos servem de prova de que não só a dor, mas também sentimentos como o amor, a amizade e a solidariedade são universais.

 

Qualquer pai de família pode se reconhecer nas preocupações que movem Karim e que o coloca diante de diversos dilemas e conflitos éticos. Mesmo sendo por vezes egoísta, nervoso e rabugento, a ingenuidade e simplicidade do personagem é o que o caracteriza e o que mais nos comove. Em uma das cenas com maior carga simbólica, Karim se encontra diante do reservatório de água, que fora completamente limpo pelos meninos e que agora tinha se transformado em um ninho de pardais. É neste momento que o homem percebe que deveria ter dado um valor maior para os sonhos do filho, que começam a se tornar realidade, e o som que vem do interior do reservatório, a canção dos pardais, é a verdadeira metáfora para a esperança que é representada no filme pelos sonhos e pela persistência das novas gerações.


Há quem diga que os filmes iranianos trazem consigo uma forte carga ideológica, como resultado da influência direta do do regime de Ahmadinejad, outros defendem que os filmes seriam apolíticos. Ambos os pontos de vista se sustentam sobre a premissa de que a censura e a condição do estado, como maior financiador do cinema no país, seriam a prova cabal de que a criação artística estaria, se não atrelada aos interesses do governo, imparcial quanto às questões que ainda são tabus no país. De fato a premissa é verdadeira apenas no tocante à supervisão abusiva do estado, mas, tal como aconteceu no Brasil na época da ditadura militar, a perseguição ideológica se converte numa espécie de fomento às produções mais poéticas, que abordam apenas subliminarmente as questões que não podem ser abordadas abertamente. O resultado disso, têm sido obras primas como este filme, que é um dos mais lindos que já assisti. A produção iraniana merece uma atenção bem maior, tanto da crítica quanto do público, de lá podem sair alguns dos maiores clássicos dos próximos anos, a menos que a ganância de poder de alguns líderes de estado impeçam a concretização do sonho de alguns poucos cineastas utópicos.


Recomendo A Canção dos Pardais para qualquer um que queira viver a experiência tão fascinante de adentrar em uma realidade tão dura quanto cativante. Ao assistir, preste atenção nas lindas locações, na ótima fotografia, nos enquadramentos precisos e, principalmente, na atuação magistral de Mohammad Amir Naji, que trás impressas em seu rosto todas as dores e lutas de seu povo sofrido. É um filme extraordinário, bem diferente do estilo espetaculoso de Hollywoody e detentor de um lirismo tão pungente, que pode nos fazer chorar, sem que ao menos percebamos. Para mim A Canção dos Pardais representou também a abertura de mais uma porta no mundo da sétima arte, ainda conheço pouco do cinema iraniano, mas creio que o resultado de minhas pesquisas e procura por outros filmes daquele circuíto poderá ser conferido em breve aqui no Sublime Irrealidade. Aguardem!


Assista ao trailer de A Canção dos Pardais no You Tube ! (clique no link)

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O Besouro Verde

O Besouro Verde (The Green Hornet) - 2011. Dirigido por Michel Gondry. Roteiro de Seth Rogen & Evan Goldberg. Música de James Newton Howard. Direção de Fotografia de John Schwartzman. Produzido por Neal H. Moritz. Columbia Pictures / EUA.

 

O lançamento de O Besouro Verde (2011) marcou o início da nova invasão de super heróis nas telonas, que ainda deve dar o que falar neste ano. Muitos outros mascarados e/ou super poderosos vêm por ai. A maior expetativa em torno do lançamento deste filme se devia à equipe, que convenhamos não era nada convencional. A direção, depois de várias especulações, acabou ficando com Michel Gondry, diretor de filmes indies como Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2004). O papel principal, do herói, foi representado por Seth Rogen, ator obscuro de veia cômica, que tem raízes fincadas na stand-up comedy e não menos estranha foi a escolha de Jay Chou para interpretar a parceiro do herói (papel que fora de Bruce Lee no seriado exibido na década de 60, que se tornaria cult com o passar dos anos). Jay Chou é um mega astro de música pop, “conhecidíssimo no oriente e desconhecidíssimo no ocidente”, ele não era ator e não sabia falar inglês, quando foi convidado para fazer os testes para o papel. Conforme contou em entrevista, Chou nunca tinha precisado fazer teste para nada antes deste convite.

Quando interrogado sobre se pretendia fazer um filme artístico ou um grande brokebuster, Michel Gondry, sem pensar conforme conta, disse apenas que queria fazer um grande filme comercial. Muitos fãs do diretor devem ter torcido o nariz com esta declaração, outros tantos devem ter tido a curiosidade fomentada. O resultado desta mistura improvável deixa bem claro que o diretor não estava sendo irônico ou blefando ao dar a declaração. O Besouro Verde não vai muito além do que outros filmes do gênero propõem em matéria de reflexão e profundidade de roteiro. A história é bem simples e se apóia nas boas sequências de ação e nas pitadas de humor que são espalhadas no decorrer de toda a história.

 

A história do herói (ou seria anti-herói?) também não é nada convencional, Britt Reid é um playboy que vive às custas do pai milionário. Quando o pai morre repentinamente, ele se vê na obrigação de conduzir os negócios do velho, dentre eles um jornal de grande circulação. É neste período, em que está completamente sem rumo, que Britt conhece Kato, o mecânico e fazedor de cafezinho(!) de seu pai. Kato é o personagem mais interessante da trama, ele é na verdade mais do que um simples mecânico, ele já vinha a algum tempo trabalhando em alguns projetos para o pai de Britt, que se tornara paranóico em relação à própria segurança. À medida que vai descobrindo os dotes de Kato, Britt começa a querer se aproveitar destes dons para encontrar algum sentido para a sua vida monótona. É assim que acaba nascendo o Besouro Verde. Após descobrirem que podem ajudar pessoas e assim satisfazem os próprios egos, eles passam a sair fantasiados à noite para combater a criminalidade na cidade. Britt usa o jornal que herdou para dar visibilidade ao Besouro. O que eles não imaginavam é que a brincadeira de bancar os vigilantes ia mexer com os interesses de gente perigosa, como o mafioso local (Christoph Waltz, mais uma vez roubando a cena).

 

O Besouro Verde é legal e melhor que muitos outros longas de heróis que estrearam nos últimos anos. Mesmo que você, assim como eu, não tenha assistido a nenhum dos 26 episódios da série dos anos 60 e tão pouco ouvido as transmissões das aventuras do herói na rádio, nos anos 30 nos EUA, o filme vale como uma boa diversão, daquelas indicadas para qualquer público, por não ter pretensões audaciosas, nem elementos complicativos, que possam dificultar a compreensão do espectador médio. Meu único medo é de que esta experiência hollywoodiana venha a desestimular Michel Gondry de investir em projetos mais autorais, que me agradam muito mais que os "comerciais". Independente de qualquer coisa, fica a minha dica de um bom filme para uma boa sessão pipoca!


Do diretor Michel Gondry, indico também Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2004).

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quarta-feira, 6 de abril de 2011

Quem Tem Medo de Virginia Woolf?

Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (Who`s Afraid of Virginia Woolf?) - 1967. Dirigido por Mike Nichols. Roteiro de Ernest Lehman, baseado na peça de Edward Albee. Música de Alex North. Produzido por Esnerst Lehman. Chenault; Warner Bros / EUA.


No último dia 23 de março, o cinema perdia mais uma de suas grandes divas. Elizabeth Taylor faleceu na manhã daquele dia, aos 79 anos de idade, após uma cirurgia no coração. Quando recebi a notícia a primeira coisa que me veio em mente, foi tentar lembrar cada um dos filmes que tinha assistido com ela, foi decepcionante chegar à conclusão de que só me recordava do clássico Gata em Teto de Zinco Quente (1958). Veio-me então a ideia de conferir alguma dentre as suas melhores performances para assim poder postar uma resenha, em tons de homenagem, aqui no Sublime Irrealidade. Quem Tem Medo de Virginia Woolf ? (1966), que dera a ela o Oscar de Melhor Atriz, pareceu ser uma boa escolha. Encontrei o filme, mas só agora consegui assisti-lo.

O filme transcorre basicamente entre os diálogos afiados entre os dois casais que compõem o elenco. Toda a história se passa apenas em um final de noite. Na trama, que fora adaptada da peça homônima de Edward Albee, temos o casal de meia idade formado por George (Richard Burton) e Martha (Elizabeth Taylor – gorda como nunca se tinha visto, porém com a mesma exuberância), ele é professor universitário de história, ela filha do dono da universidade. Naquela madrugada eles voltavam para a casa após uma festa, ambos já estavam bem altos e ainda assim decidem tomar algumas saideiras (!). É neste momento que começa a lavação de roupas sujas do casal. No meio da discussão chegam os convidados, que eles mal conheciam, são eles Nick (George Segal), o novo professor de biologia da universidade e sua esposa Honey (Sandy Dennis). O jovem casal vinha da mesma festa, e por morarem longe foram aconselhados pelo pai de Martha a pernoitarem na casa dela. Eles também já estão bem alcoolizados.


Nick e Honey se tornam à princípio uma platéia para o circo formado pelo casal anfitrião, que continuam a trocar farpas na frente dos convidados. Induzidos por George, todos mergulham no que parece jogo de verdades e confissões, onde à cada declaração suas vidas vão sendo expostas. À medida que o teor alcoólico dos personagens aumenta, deixamos de distingir o que é verdade, mentira ou mero devaneio. As acusações e injuriais vão se intensificando e nos induz à previsão de que antes do amanhecer uma tragédia pode acontecer. O final, que nos surpreende e ajuda a encaixar algumas das declarações dadas pelos personagens durante a história, é também o que, na minha opinião, faz o filme valer a pena e ser digno de uma reassistida.


Confesso que a primeira hora do filme (que tem pouco mais de 2 horas) foi bem arrastada, compensada apenas pelas ótimas atuações de todo o elenco. Porém à partir de determinado momento a trama parece ganhar um impulso, que é salientado pelas indagação que vão surgindo em torno de algumas questões que vêm à tona. Lembro que cheguei a ler em uma resenha, que o filme é ótimo para quem está solteiro e quer confirmar a premissa que diz que “antes só que mal casado” e na verdade é mais ou menos isso que acontece. Ao retratar dois casais da classe média alta americana, o filme reproduz bem a hipocrisia e a conveniência que sustentam muitos destes matrimônios, que seriam fruto apenas de um jogo de interesses dos envolvidos. A surpresa que o final nos revela deixa bem claro a que nível chegou as ilusões e as aparências na vida do casal principal, o que, resguardada as devidas proporções, acontece o tempo todo na vida de muitos casais reais.


Ao meu modo de ver, Quem Tem Medo de Virginia Woolf? vale muito mais pelas atuações formidáveis, que pela história em si. O ritmo rápido dos diálogos, apesar de nos confundir em alguns momentos, não cansa, mas também não nos permite refletir sobre o que está acontecendo. No fim das contas fica apenas uma sensação estranha de ter presenciado mais de duas horas de uma discussão de relação, uma daquelas bem chatas. A impressão que também fica é a de que a típica linguagem teatral não funcionou bem ao ser adaptada e que o roteiro realmente deve causar mais impacto nos palcos do que nas telas. Nunca é fácil fazer uma resenha negativa de um clássico, talvez eu tenha que reconhecer que o filme tem lá seus méritos e que estes não são poucos. Além das atuações, a fotografia, a direção de arte e os movimentos de câmera, que produzem tomadas marcantes e ousadas, merecem o devido destaque. No entanto o filme não extrapolou minhas espectativas...


O título Quem Tem Medo de Virgina Woolf? é uma referência, feita, com jogos de palavras, à canção “Quem Tem Medo do Lobo Mau” (Who’s afraid of the bad Wolf no original), famosa pelo filme Os Três Porquinhos (1933) da Disney, e não tem nenhuma relação direta com a obra ou a vida da escritora inglesa. 

Na época que o filme foi produzido, Elizabeth Taylor ainda era casada com Richard Burton, a parceria do casal nas telas já tinha sido vista em Cleopatra (1963). Na vida real, tal como em Quem Tem Medo de Virginia Wolf?, o relacionamento deles foi marcado pelos problemas de ambos (principalmente dele) com o alcoolismo. Este foi apenas um dos oito casamentos da atriz.

Quem Tem Medo de Virginia Woolf? ganhou os Oscars de Melhor Atriz (Elizabeth Taylor), Atriz Coadjuvante (Sandy Dennis), Fotografia Preto-e-branco (último vencedor dessa categoria), Figurino Preto-e-branco e Direção de Arte Preto-e-branco. O filme ainda foi indicado nas categorias de Melhor Filme, Diretor, Roteiro Adaptado, Ator (Richard Burton), Ator Coadjuvante (George Segal), Montagem, Som e Trilha Sonora.
 
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Elizabeth Taylor
"Tenho o corpo de uma mulher e os sentimentos de uma criança."
*27/02/1932     + 23/03/2011
 

domingo, 3 de abril de 2011

Anticristo

Anticristo (Antichrist) - 2009. Dirigido e Escrito por Lars Von Trier. Direção de Fotografia de Anthony Dod Mantle. Música de Kristian Eidnes Andersen. Produzido por Meta Louise Foldager. Zentropa Entertainments / Dinamarca.


Lembro do dia, uma segunda feira, em que cheguei pela manhã na cidade onde trabalho, que tem pouco mais de 30 mil habitantes, pouco depois de descer do ônibus, ao passar em frente a uma locadora, vi que algumas pessoas se aglomeravam no outro lado da rua com uma forte expressão de espanto. O motivo era o cartaz que estava exposto do lado de fora da locadora, era o do filme Anticristo (2009), que mostrava explicitamente um casal em posição sexual sob uma árvore de onde saiam vários braços (mesma foto reproduzida no cartaz acima). O espanto daquelas pessoas não era nem um pouco  de se estranhar, o título do filme associado à foto era um verdaeiro atentado contra os "bons costumes". Qualquer um desinformado, que visse aquela imagem, imaginaria que se tratava de um filme de terror e/ou de de cunho pornográfico., confusão feita até por aguns críticos. Dias depois nas mesmas circunstâncias, um colega que descera do ônibus junto comigo comentou: “a julgar pela capa, o filme deve ser horrível, não deve ter conteúdo nenhum”. Ele aparentou mudar de opinião quando eu disse que se tratava de um filme do mesmo diretor do aclamado Dogville (2003), que ele já tinha visto. Porém na maioria dos casos o curriculum do cineasta não foi suficiente para sustentar a ousadia desta produção. Assistindo ao filme percebe-se que o choque provocado pela imagem do cartaz é pouco, se comparado à intensidade do suspense psicológico e ao choque das situações extremas vividas pelos personagens.

Anticristo é desconfortável, agressivo, angustiante, claustrofóbico e, antes de tudo, grandioso! E como é comum no caso de obras que exigem um mergulho além da superficialidade da imagem representada na tela, este longa totalmente autoral de Lars Von Trieur parece ter sido incompreendido. Logo após sua exibição, na Premier no Festival de Cannes, um jornalista do periódico inglês Daily Mail bradou: “Francamente, acho que é preciso lavar meu cérebro”; para em seguida pedir uma explicação sobre o que tinha acabado de assistir: "Já defendi os filmes de Von Trier antes. Dogville foi odiado, mas defendi seu direito de fazer aquele filme. Mas agora quero que ele explique por que fez isso e o que isso representa". Lars, que afirmou sarcasticamente se considerar o melhor diretor do mundo, se defendeu: "Eu não acho que tenha que justificar nada... Eu trabalho para mim mesmo, não fiz este pequeno filme para você ou para o público, por isso não acho que deva explicar nada a ninguém". Se o jornalista citado tivesse um mínimo de noção, saberia antes de se manifestar, que não se pede para um artista a explicação sobre sua obra.


E Anticristo é uma verdadeira obra de arte, da primeira à última cena e não é atoa que o diretor o considere a melhor obra de sua carreira. Isto pode soar estranho para quem já assistiu ao filme, pois por vezes costumamos esquecer que nem sempre a arte precisa ser agradável aos nossos olhos e aos nossos sentidos. A agressividade do filme, que gerou polêmica e dividiu até mesmo os fãs do cineasta, é uma grande prova de que o cinema de arte ainda pode ser contestador e inteligente. O longa parece ser um verdadeiro mergulho na mente do diretor dinamarques, que o dirigiu em um período no qual lutava contra uma forte depressão. Lars Von Trier chegou a considerar apenas o fato de ter concluído o filme uma grande vitória contra si mesmo. Em alguns momentos, segundo afirma, chegou a pensar que nunca mais conseguiria produzir outro filme. Quem conhece um pouco da excentricidade dele, entende o que ele quer dizer com “vencer a si mesmo”. Lars é o tipo de gênio que se maltrata e se angustia com a própria arte, do qual cada produção leva uma grande quantidade de suor e sangue.


A trama do filme gira apenas em torno de um casal interpretado por Willem Dafoe e Charllote Gainsbourg. Ela não consegue lidar com a culpa que sente pela morte acidental do filho bebê. Ele, tomado por pretensões psiquiátricas, decide cuidar da esposa e começa um tratamento nada convencional para encontrar aquilo que de fato seria a origem do medo, que sustenta nela o trauma pela perda da criança. A busca pelas resposta os leva de volta à uma cabana numa floresta chamada Edém(!), onde ela tinha passado uma temporada junto com filho, numa tentativa de se isolar para concluir um trabalho acadêmico. Naquele lugar solitário e sombrio eles vão mergulhar em suas próprias mentes e descobrir o quão sombria é a verdadeira natureza humana. Ao contrário do que boa parte da crítica vem dizendo, o filme é muito mais que um amontoado de cenas de sexo e tortura física e psicológica. Quem dá a pista para uma possível interpretação é o próprio Lars, que em uma entrevista contou, que não acredita em Deus e que o filme seria uma forma de Lhe passar todo que havia aprendido sobre Ele.


A obra filosófica O Anticristo, de Friedrich Nietzsche, que seria uma das influências indiretas do roteiro do filme, também se fundamenta, na minha opinião, sobre a questão que é central neste conto de Lar Von Trier: A angústia causada pela culpa dos erros cometidos e pela inevitável condição gerada pelo pecado original, que relega o homem a uma natureza má e perversa. Em sua obra Nietzsche propõe a extinção da moral cristã, que de acordo com seu entendimento seria o início do processo de libertação, daquilo que ele enxergava como amarras deterministas. No filme o drama vivido pelos personagens ilustra ao mesmo tempo as consequências da natureza maligna do homem sobre sua própria vida e o processo de libertação, tal como Nietzsche o havia proposto. Seguindo a merma cartilha pela qual o filósofo alemão rezava (me perdoem o trocadilho), o homem tenta mostrar para a sua esposa que ela precisa aprender a conviver com a culpa e que o sofrimento seria inerente à condição humana. Ele recorre à natureza, que em seu estado selvagem é vista como uma extensão da maldade que há no mundo. Em um dos diálogos a personagem de Charllote Gainsbourg diz que a natureza seria a verdadeira igreja de satã.


A história, em alguns momentos, faz referência às mulheres que foram perseguidas pela igreja no passado e que foram queimadas ou torturadas sob a acusação de bruxaria. A trama ainda recorre às tradições pagãs, que associavam a mulher à mesma impureza que emanava do mundo e que estaria presente também nas plantas e nos animais. A personagem do filme carrega o peso da culpa, não só por se considerar responsável pela morte do filho, mas também por pensar que pode, na condição de mulher, ser responsável pelo sofrimento pela propagação dos males que existem em todos os lugares. Também sob o ponto de vista de algumas correntes cristãs, a mulher (na figura de Eva) seria a principal culpada pela perda do paraíso, ela teria sido seduzida pela serpente e seria a responsável pela decisão do homem de provar do fruto proibido, pecado que os levaria à expulsão do Jardim do Édem. Lars inverte a história, ele retrata primeiro o pecado, mostrado em uma sequência perfeita no início do filme, para em seguida guiar o homem e a mulher de volta para o Édem. No filme o sexo e o prazer carnal são associados à contaminação dos personagens, é o ato sexual que motiva a tragédia no início da história e que serve de metáfora para a entrega de ambos às leis cruéis da natureza. O homem e a mulher, em sua decadência moral e psicológica e em suas personificações do bem e do mal, representam bem o estado de espírito do cineasta.



Anticristo é um contundente tratado de Lars Von Trier sobre o pecado e a culpa. A graça que poderia ser vista como uma redenção, tanto para ele, quanto para seus personagens, já foi anteriormente descartada. Em Dogville o realizador desenvolve uma abordagem crítica sobre a forma com que as pessoas, pela hipocrisia e ganancia pessoal, abusam da graça, quando esta lhe estende as mãos. O final surpreendente do filme de 2003 deixa clara a visão do cineasta sobre o perdão, que segundo a filosofia de Nietzche, só os fracos sabiam ofertar. Independente de concordarmos ou não com o ponto de vista defendido no filme, devemos reconhecer que estamos diante de uma das obras mais brilhantes do cinema contemporâneo. A excelente fotografia, que mostra que Von Trier deixou realmente para traz o Dogma 95, e as excelentes atuações de Dafoe e Gainsbourg conferem ao longa o status de clássico, que ao que parece, nasceu póstumo. Se tiver uma oportunidade assista ao menos a primeira sequência, que como já disse é simplesmente perfeita, fotografada em preto e branco, em câmera lenta, ao som da linda música gregoriana Lascia Ch'io Pianga , interpretada por Tuva Semmingsen. Quanto ao restante, creio que pouquíssimos irão apreciar...
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Anticristo, mesmo sendo vaiado pela maioria, ganhou o prêmio de Melhor Atriz (Charllote Gainsbourg) no Festival de Cannes.
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Do diretor Lars Von Trier, recomendo também Dogville (2003) e Dançando no Escuro (2000).

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