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domingo, 22 de abril de 2012

Em Busca da Palma de Ouro - Seleção do Oficial do Festival de Cannes 2012


Na última quinta-feira (19/04) foi divulgada a seleção oficial da 65° edição do Festival de Cannes, que acontecerá entre os dias 16 e 27 de maio. Serão exibidos ao todo 54 filmes de longa metragem, de 26 países diferentes, dentre eles estão os aguardados On the Road de Walter Salles e Cosmopolis de David Cronenberg. 

O cinema nacional será considerado convidado de honra nesta edição, ele será homenageado com a presença do documentário A Música Segundo Tom Jobim de Nelson Pereira dos Santos, que está entre os selecionados para a exibição especial, e dos cineastas Cacá Diegues e Ruy Guerra, ambos nomes seminais do Cinema Novo Brasileiro, que participarão como convidados especiais.

Na última edição do festival foram exibidas boa parte daquelas que eu consideraria as produções mais importantes de 2011. A minha expectativa é de que neste ano Cannes funcione novamente como vitrine para obras do mesmo nível de qualidade... Acompanhemos!


COMPETIÇÃO OFICIAL

De Rouille et d'os de Jacques Audiard (França)
Holy Motors de Leos Carax (França)
Cosmopolis de David Cronenberg (Canadá)
The Paperboy de Lee Daniels (EUA)
Killing Them Softly de Andrew Dominik (Austrália)
Reality de Matteo Garrone (Itália)
Amour de Michael Haneke (Áustria)
Lawless de John Hillcoat (EUA)
In Another Country de Hong Sangsoo (Coreia do Sul)
Le Go»t de L'argent de IM Sangsoo (Coreia do Sul)
Like Someone in Love de Abbas Kiarostami (Irã)
The Angel's Share de Ken Loach (Grã-Bretanha)
Dans la Brume de Sergei Loznitsa (Ucrânia)
Beyond the Hills de Cristian Mungiu (Romênia)
Après la Bataille de Yousry Nasrallah (Egito)
Mud de Jeff Nichols (EUA)
Vous n'Avez Encore Rien Vu de Alain Resnais (França)
Post Tenebras Lux de Carlos Reygadas (México)
Na Estrada de Walter Salles (Brasil)
Paradis: Amour de Ulrich Seidl (Alemanha)
The Hunt de Thomas Vinterberg (Dinamarca)

FORA DE COMPETIÇÃO

Moonrise Kingdom de Wes Anderson (EUA) - filme de abertura
Thérèse Desqueyroux de Claude Miller (França) - filme de encerramento
Io e Te de Bernardo Bertolucci (Itália)
Madagascar 3 - Os procurados de Eric Darnell (EUA)
Hemingway & Gellhorn de Philip Kaufman (EUA)

MOSTRA UM CERTO OLHAR

Miss Lovely de Ashim Ahluwalia (Índia)
La Playa de Juan Andres Arango (Colômbia)
Les Chevaux de Dieu de Nabil Ayouch (Marrocos)
Trois Mondes de Catherine Corsini (França)
Antiviral de Brandon Cronenberg (Canadá)
7 dias en la Habana de Benicio del Toro, Pablo Trapero, Julio Medem, Elia Suleiman, Juan Carlos Tabio, Gaspar Noé e Laurent Cantet (EUA, Espanha, Argentina, Palestina, Cuba, França)
Le Grand Soir de Benoît Delépine e Gustave Kervern (França)
Laurence Anyways de Xavier Dolan (Canadá)
Despues de Lucia de Michel Franco (México)
Aimer à Perdre la Raison de Joachim Lafosse (Bélgica)
Mystery de Lou Ye (China)
Student de Darezhan Omirbayv (Cazaquistão)
La Pirogue de Moussa Touré (Senegal)
Eléphant Blanc de Pablo Trapero (Argentina)
Confession d'un Enfant du Siècle de Sylvie Verheyde (França)
11.25 The Day he Chose his Own Fate de Koji Wakamatsu (Japão)
Les Bêtes du Sud Sauvage de Benh Zeitlin (EUA)

EXIBIÇÕES ESPECAIS

Der Müll im Garten Eden de Fatih Akin (Alemanha)
Roman Polanski: A Film Memoir de Laurent Bouzereau (França)
The Central Park Five de Ken Burns, Sarah Burns, David McMahon (EUA)
Les Invisibles de Sébastien Lifshitz (França)
Journal de France de Claudine Nougaret e Raymond Depardon (França)
A Música Segundo Tom Jobim de Nelson Pereira dos Santos (Brasil)
Villegas de Gonzalo Tobal (Argentina)
Mekong Hotel de Apichatpong Weerasethakul (Tailândia)

EXIBIÇÃO ESPECIAL PELO 65° ANIVERSÁRIO

Une Journée Particulière de Gilles Jacob e Samuel Faure (França)

SESSÃO DA MEIA-NOITE

Dario Argento's Dracula de Dario Argento (Argentina)
Ai to Makoto de Takashi Miike (Japão)


sexta-feira, 20 de abril de 2012

X-Men: Primeira Classe

X-Men: Primeira Classe (X-Men: First Class) - 2011. Dirigido por Matthew Vaughn. Escrito por Ashley Miller, Zack Stentz, Jane Goldman e Matthew Vaughn. Direção de Fotografia de John Mathieson. Música Original de Henry Jackman. Produzido por Gregory Goodman, Simon Kinberg, Lauren Shuler Donner e Bryan Singer. Bad Hat Harry Productions, Donners' Company, Marvel e Twentieth Century Fox Film Corporation / USA.


Na última década houve um revival dos filmes de super-heróis e de adaptações de HQs, alguns  personagens ganharam as telas pela primeira vez e outros tiveram suas histórias revisitadas em versões bem diferentes das anteriores. A maioria das obras do gênero produzidas desde então foram construídas sobre uma mesma fórmula, que consiste em mesclar uma trama rasa a uma boa dose de ação, efeitos espetaculosos e situações cômicas. Os longas que subverteram este molde já saturado foram ao meu ver os mais bem sucedidos, temos como o melhor exemplo disso o excelente Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008) de Christopher Nolan, que é na minha opinião simplesmente o melhor filme de super-herói já produzido... prequel X-Men: Primeira Classe não alcança nem de longe o nível de qualidade do filme de Nolan, ele também não está totalmente fora da fórmula anteriormente citada (afinal ele reproduz alguns de seus clichês mais batidos), e mesmo não propondo nenhum tipo de abordagem ou narrativa que não sejam as convencionais, ele ainda pode ser considerado um filme bem acima da média.

A franquia protagonizada pelos mutantes já havia rendido uma trilogia - encerrada com o controverso X-Men - O Confronto Final (2006) - e um Spin-off - X-Men Origens: Wolverine (2009) - e nenhum destes escapou da maior polêmica que geralmente acomete as adaptações: a questão da fidelidade aos originais. Isto fez com que cada um deles dividisse a opinião de cinéfilos e de fãs da HQ, da qual eles foram adaptados. Em X-Men: Primeira Classe a situação tenderia a se agravar, uma vez que sua trama entra em conflito não só com a história original, mas também com passagens presentes nos filmes rodados anteriormente e não dá para considerá-lo um reboot, o que o tornaria independente dos demais, por causa das inúmeras referências que ele faz aos outros longas, que vão de cenas revisitadas a pequenas pontas de atores. Este aspecto da fidelidade pode ser sem dúvidas um grande desmotivador para os fãs mais radicais (estes existem aos montes), porém para aqueles, que como eu, decidirem analisar o filme como uma obra individual, isto fará pouca ou nenhuma diferença. 


A história de X-Men: Primeira Classe se passa durante um período da guerra fria que ficou marcado pela "crise dos mísseis de Cuba". Historicamente, em 1961, em meio á corrida armamentista, os Estados Unidos instalaram mísseis em bases localizadas na Turquia. Como resposta a União Soviética montou cerca de quarenta silos que deveriam abrigar mísseis nucleares no território cubano. A possibilidade de que um dos lados pudesse atacar deixou todo o mundo em polvorosa, nunca a ameaça de uma guerra nuclear fora tão iminente. No filme, o roteiro desconstrói este fato histórico, inserindo nele a questão dos mutantes como o fator que teria provocado o acirramento da tensão de ambos os lados. Como já era de se esperar, a trama assume um caráter altamente tendencioso ao adotar o lado americano. No filme os oficiais e militares russos são personagens unilaterais e estereotipados, construídos sob uma personalidade vilanesca que não condiz precisamente com a realidade, enquanto os americanos são retratados como os bons moços que se encarregam de salvar o mundo de uma quase inevitável devastação nuclear.


No centro da trama de X-Men: Primeira Classe estão dois mutantes, o jovem superdotado Charles Xavier (James McAvoy) e o sobrevivente do holocausto Erik Lehnsherr (Michael Fassbender), suas vidas se cruzam quase que por acaso, uma vez que eles são movidos por intenções bem diferentes. Xavier está disposto a lutar pela afirmação daqueles que desenvolveram as mutações provocadas pela presença do gene "x" em seus DNAs, enquanto o que Erik mais quer é se vingar do responsável pela morte de sua mãe em um campo de concentração. Após se conhecerem, ambos se juntam à uma divisão da CIA, liderada pela jovem agente Moira MacTaggert (Rose Byrne), para combaterem inimigos em comum. O oficial nazista que assassinara a mãe de Eric, Sebastian Shaw (Kevin Bacon), se aliara a militares da URSS com o simples objetivo de acelerar o confronto bélico entre as duas potências mundiais. Ele acredita que uma provável guerra nuclear poderia por fim à sociedade tal como a conhecemos, o que deixaria os seres humanos "normais", que por ventura pudessem sobreviver ao conflito, vulneráveis à imposição de um domínio mutante.


Quando as circunstâncias se tornam ameaçadoras para os mutantes que tinham optado por levar uma vida normal, Xavier decide romper com a CIA e criar uma espécie de escola, onde os "evoluídos" pudessem aprimorar seus poderes e aprender como usá-los da melhor maneira possível, como uma arma na manutenção da paz entre os "normais" e os geneticamente modificados (qualquer semelhança com a corrida armamentista não é mera coincidência). Na primeira turma formada, que seria uma espécie de embrião dos X-Men, estavam também Mística (Jennifer Lawrence), que crescera junto com Xavier, e o pesquisador da CIA Hank McCoy (Nicholas Hoult), ambos personagens importantes também nas outras partes da franquia. Outros mutantes são convidados a fazerem parte do grupo, alguns deles bem interessantes e outros nem tanto (preste atenção em quem aparece em uma ponta recusando um dos convites)... 


O filme não falha em sua proposta de explicar como tudo começou, ainda que haja alguns tropeços pelo caminho. Tocar ainda que de forma superficial em um fato histórico da dimensão da crise dos mísseis foi uma das melhores sacadas do roteiro, que o faz de forma forma bem surpreendente. A ambientação nos anos 60 dá todo um charme ao filme, que ganha uma estética bem diferente da dos outros.

No tocante às atuações, o maior destaque do filme é inquestionavelmente Michael Fassbender, mesmo interpretando um personagem relativamente raso (o que é algo normal, dado o gênero do filme), ele impressiona,  a caracterização que ele dá ao seu personagem, sem com isso perder aquilo que o define, é impressionante. No geral, o elenco todo dá conta do recado, apresentando desempenhos medianos, porém bem satisfatórios. Confesso apenas que tive um pouquinho de decepção com a atuação de January Jones, que interpreta no filme uma das aliadas de Sebastian Shaw, eu esperava bem mais dela, talvez por já ser um grande admirador de seu trabalho na série Mad Men.


Tecnicamente também o filme é muito bom, as sequências de ação e os efeitos especiais são ótimos, estes aspectos ajudam a manter o desenvolvimento da história em um ritmo rápido, que não permito que nós espectadores sequer percebamos o decorrer do tempo e o filme não se torna chato ou cansativo em momento algum. 

Uma continuação já está prevista para 2014 e, segundo declarações do produtor Simon Kingberg, sua trama estará focada no personagem Erik Lehnsherr, o Magneto, e na trajetória que ele percorre até se tornar um dos grandes vilões da franquia.

A verdade é que X-Men: Primeira Classe não pode ser considerado uma obra prima de seu sub-gênero e na minha opinião nem dá para apontá-lo como o melhor "pipoca" do ano passado como muitos fizeram (eu ainda prefiro O Planeta dos Macacos - A Origem), no entanto há de se reconhecer que seu resultado final é altamente positivo, tendo-se em vista que o seu propósito original era tão somente o de entreter...  Recomendo!


Assistam ao trailer de X-Men: Primeira Classe no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra, 


terça-feira, 17 de abril de 2012

O Palhaço

O Palhaço - 2011. Dirigido por Selton Mello. Escrito por Selton Mello e Marcelo Vindicato. Direção de Fotografia de Adrian Teijido. Trilha Sonora Original de Plínio Profeta. Produzido por Vânia Catani e Carlos Eduardo Rodrigues. Bananeira Filmes / Brasil.


Sinto um prazer enorme quando me deparo com um filme nacional capaz de reascender em mim a esperança de que nosso cinema possa um dia se libertar por completo de suas fórmulas manjadas e da influência negativa da linguagem televisiva. O Palhaço (2011), segundo filme dirigido por Selton Mello, é quase uma preciosidade neste sentido, ele não escapa de reproduzir alguns dos estereótipos já saturados, contudo ele cumpre de forma excelente a sua proposta. Felizmente não vemos nele o pseudorrealismo característico de produções que travestem suas tramas de crítica social e tão pouco somos agredidos pela enxurrada de palavrões de fitas que exploram uma veia cômica pressupostamente mais popularesca. É este aspecto que o torna diferenciado de boa parte dos filmes nacionais que atingem o grande circuíto e as principais salas de cinema.

Selton Mello parece ter bebido bastante da fonte de Federico Fellini, ainda que inconscientemente, a influência do cineasta italiano é nítida em O Palhaço. No filme o burlesco se mistura à reflexões de cunho intelectualizado e a ambientação mescla o tom carnavalesco do espetáculo circense aos olhares melancólicos e às marcas de expressão de um povo visivelmente sofrido. A cultura popular, a religiosidade e o onírico se misturam em uma atmosfera tipicamente Felliniana, onde o lúdico e o surreal parecem estar entrelaçados à própria percepção da realidade. Na trama acompanhamos o pequeno circo Esperança que viaja por cidades pobres do interior de Minas Gerais levando alegria e entretenimento com seu espetáculo simples, porém encantador. Em cada lugarejo onde a lona é erguida há uma pausa no sofrimento, o povo se reúne diante do picadeiro e se permite rir e se emocionar com cada uma uma das apresentações,   principalmente com as piadas e estrepolias da dupla de palhaços. 


Benjamim (Selton Mello) nasceu e foi criado no circo, a vida que ele sempre levou nunca lhe permitiu criar raízes. Vivendo sempre na estrada, viajando de uma cidade para outra, ele nunca teve tanto tempo para si, a rotina nunca lhe deu a chance de se aventurar em outro tipo de vida na qual ele podesse se sentir realizado, isto então o tornou melancólico. Seu pai, Valdemar (Paulo José), é o dono do circo, ele é um homem lutador que sempre batalhou para conseguir manter sua trupe atuante e satisfeita em suas necessidades, contudo ele representa tudo aquilo que seu filho não quer se tornar, Benjamim quer ser diferente, ele quer se autoafirmar e trilhar seus próprios caminhos. O atrito do jovem consigo mesmo o conduz à uma tristeza cada vez mais profunda, que coloca em risco a apresentação do número mais bem sucedido do circo, que ele apresenta ao lado do pai, eles são respectivamente os palhaços Pangaré e Puro Sangue.


Benjamim consegue com facilidade colocar um sorriso nos rostos de crianças e adultos dos lugares por onde o circo passa, no entanto ele não tem ninguém que lhe faça sorrir. Em uma das cenas do filme um policial o aborda e o pede o alvará que concede o circo a licença para se apresentar e os documentos pessoais dele, o palhaço retruca dizendo que o circo ainda não tem a licença e que o único documento que ele trás consigo é a sua certidão de nascimento. Esta passagem é emblemática e ela diz muito sobre o personagem, a certidão de nascimento que ele tem prova a sua existência, mas não quem ele é. Em outro momento ele pondera: "preciso resolver este problema de identidade...", é nesta passagem que fica ainda mais claro que o problema ao qual ele se refere não se resume tão somente à burocracia de tirar um documento... Seguindo a cartilha dos road movies, no filme o trajeto percorrido pelo personagem alegoriza o amadurecimento e a mudança de paradigmas que ele experimenta, se tornando para ele uma espécie de rito de passagem.


A reflexão proposta pelo roteiro do filme aborda a busca do indivíduo por algo que ele ainda não tem, que não lhe é ainda familiar, é nesta procura, que às vezes demora anos, que ele passa a conhecer a si mesmo, quais são suas aspirações e reais necessidades. Benjamim está vivendo este processo, ele procura por algo que lhe é estranho - que na verdade ele ainda nem conhece - e isso lhe leva a questionar sua vocação. Ser palhaço é até então algo que o define, mas não algo que ele é, explico, ele se apresenta junto com o pai no picadeiro simplesmente por ter sido criado para tal, sua vivência no circo o conduziu a este caminho, que ele traçou movido pelas circunstâncias e não por um propósito; esta é a sua vida e ele não se reconhece mais nela. Encontrar um propósito que seja realmente seu significa para ele encontrar a si mesmo e assim se tornar alguém. Valdemar o exorta a ter calma para não colocar risco o espetáculo, mas sua frustração só se faz aumentar e isso começa a ser percebido por todos à sua volta, principalmente depois que o show começa a perder a qualidade e a naturalidade...


Em Feliz Natal (2008), seu filme de estreia (que eu ainda não assisti), Selton Mello já havia abordado a temática da autodescoberta, sua volta ao assunto neste segundo trabalho aparentemente não indica repetição e isso pode estar mais relacionado à uma marca autoral, que ele como cineasta quer deixar impressa em seus trabalhos, do que à uma questão de limitação de criatividade. Ao assistirmos  O Palhaço é possível perceber o cuidado com que Selton apara cada uma das arestas do filme, deixando-o com ritmo lento, porém impregnado por uma poética, que nos conquista já desde as primeiras sequências. O longa no entanto peca um pouco em pelo menos dois aspectos, um deles são as atuações de uma pequena parte do elenco secundário, que simplesmente não consegue convencer, não há verdade nem naturalidade em suas interpretações, o que gera um contraponto com desempenhos formidáveis de Selton, de Paulo José e de outros renomados atores que aparecem em pequenas pontas, como Jackson Antunes e Moacyr Franco. Outro problema são algumas piadas que surgem totalmente deslocadas em determinados momentos da trama, penso se algumas delas tivessem sido deixadas de fora com certeza o resultado final seria ainda melhor.


No fim das contas, os problemas se tornam irrelevantes diante de tantos aspectos positivos que o filme tem  e este podem ser notados não só no roteiro e nas reflexões propostas pela trama, O Palhaço também merece aplausos de pé pela sua excelente qualidade técnica. A belíssima fotografia é um de seus aspectos que mais chama a atenção, ela valoriza a beleza natural das locações e o perfil psicológico dos personagem em cada enquadramento e iluminação. O esmero também podem ser observado nos figurinos, na direção de arte e na escolha das locações, este aspectos como um todo compõem o visual belo e fantástico que o filme tem. 


O filme teve um retorno considerável, ele conseguiu ser um grande sucesso de bilheteria, o que por si só já é um bom sinal, todavia este é um fato no mínimo curioso, uma vez que não é o tipo de filme que tende a agradar plenamente a todos os públicos. A sensibilidade e a serenidade que conferem lentidão à condução da trama não tende a ser vista com bons olhos pelo público médio, o que faz com que comentários do tipo: "que filme ruim, não acontece nada nele, quase dormi", não sejam exceções. A minha conclusão no entanto é a de que o longa foi muito bem sucedido ao inverter a história do menino que foge do circo para abordar a temática da autodescoberta, este é sem dúvidas um dos melhores filmes nacionais dos últimos tempos, que merece ser visto e apreciado por todos que nutrem a mesma esperança que eu em relação ao nosso cinema...


O Palhaço ganhou na edição do ano passado do Festival de Paulínia (que não acontecerá neste ano) os Prêmios de Melhor Direção, Roteiro, Figurino e Ator Coadjuvante (Moacyr Franco).

Assistam ao trailer de O Palhaço no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra, 


quinta-feira, 12 de abril de 2012

Shame

Shame - 2011. Dirigido por Steve McQueen. Escrito por Steve McQueen e Abi Morgan. Música Original de Harry Escott. Direção de Fotografia de Sean Bobbitt. Produzido por Iain Canning e Emile Sherman. Film4, See-Saw Films e UK Film Council / UK.


Brandon Sullivan (Michael Fassbender) é um executivo muito bem sucedido, ele mora em um belo apartamento e sua postura rígida e autoconfiante, aliada à sua boa aparência, o envolvem em uma imagem que nos remete a um padrão de sucesso e realização pessoal, no entanto isto constitui apenas um disfarce social, que nós expectadores vemos ser desfeito já na primeira sequência do filme. Brandon vive em uma constante e compulsiva busca pelo orgasmo, o prazer sexual se tornou para ele um vício tão incontrolável, que chega em determinados momentos a perder o sentido. O que lhe importa não é o ato sexual em si, também não é a conquista e muito menos os seus relacionamentos, que na verdade inexistem, é tão somente o momento do orgasmo e a explosão do prazer doentio. Nós espectadores somos introduzidos à realidade desde homem solitário e atormentado na condição de voyeurs, testemunhamos sua obsessão e sua consequente decadência psicológica, enquanto na trama as pessoas próximas a ele sequer desconfiam de sua tara.

À princípio Brandon se sente seguro no mundo particular que criou para si, ele não tem relacionamentos duradouros e o mais próximo que tem de um amigo é o seu chefe, que frequentemente o acompanha na noite. Nesta realidade quase alternativa em que vive, ele cria meios de dissimulação e métodos de escape para saciar sua compulsão, em casa ele tem uma maior liberdade e se expõe a conteúdos pornográficos e participa de chats e sessões de sexo virtual; e mesmo no trabalho, onde o risco é maior, ele acessa sites sobre sexo, entope a memória de seu computador com pornografia e se masturba, escondido no banheiro, em momentos de intervalo. Aparentemente com uma menor frequência, ele contrata prostitutas e as leva para casa, ou sai para flertar em boates e clubes noturnos. Sua boa aparência chama a atenção das mulheres, todavia sua dificuldade de se relacionar o impede de levar o flerte adiante. Curiosamente, ele não consegue alcançar com um relacionamento normal o mesmo prazer que encontra nos atos que lhe trazem vergonha, o que à primeira vista não nos parece fazer sentido.


As cortinas que mantém Brandon oculto em seu mundo particular começam a ser abertas com a chegada de  Sissy (Carey Mulligan), sua irmã caçula. Sem lugar para morar ela o procura e o pede para abrigá-la em seu apartamento, ele mesmo relutante a aceita. De um modo um tanto diferente, Sissy se torna vítima do mesmo mal que acomete o irmão - a busca pelo prazer constante em detrimento da manutenção de um relacionamento duradouro - sua visível melancolia se deve aos traumas provocados pelos relacionamentos  anteriormente desfeitos, pelo abandono. Diferente dele ela não quer a inconstância dos envolvimentos casuais, no entanto ela não consegue encontrar em nenhum de seus parceiros aquilo que procura... A presença da irmã em seu apartamento torna Brandon ainda mais arredio e em diversos momentos agressivo, a vergonha e o medo de ser descoberto vão se transformando em raiva à medida que ele percebe que sua sensação de segurança pode ser violada.


Shame (2011) me fez lembrar bastante de Drive (2011) - não apenas pela presença de Carey Mulligan no elenco - ambos os filmes trazem consigo temáticas que o tornam alegorias de diversos fatos sociais contemporâneos. Ambos são sombrios e melancólicos e exploram a realidade de indivíduos atormentados, deixando à mostra um lado obscuro da natureza humana. Contudo, enquanto Drive evoca a fábula do sapo e do escorpião para discursar sobre a natureza humana, da qual seria impossível fugir, Shame aponta para uma possível redenção, mas não de forma conclusiva, deixando em seu desfecho pairar no ar algumas das questões que direcionaram toda a sua trama... É possível para o indivíduo negar sua real natureza? Seria a compulsão o resultado de uma escolha consciente ou o fruto de um instinto proveniente do lado animalesco do comportamento humano? Até que ponto a própria sociedade seria a responsável pelo surgimento e alimentação de tal tipo de neurose? Estas são reflexões às quais o roteiro nos induz, sabiamente ele perpassa por elas, sem no entanto tentar nos fornecer possíveis respostas...


Brandon, tal como o personagem principal de Drive, representa um vértice, um extremo de um retrato obscuro de nossa própria sociedade, podemos perceber nele e em sua realidade a influência dos estímulos midiáticos, aos quais estamos tão acostumados, e a manifestação de comportamentos e atitudes que não nos são de todo estranhos. A vergonha que ele sente, induzida pelo fardo da culpa,  é similar aquela que sentimos quando nos vemos diante da frustração do desejo de nos enquadrarmos em um determinado padrão de comportamento, ou quando percebemos que somos incapazes de interferir no rumo de determinadas situações em nossas  vidas, sensações estas que têm se tornado cada vez mais comum em um mundo que cobra de nós um status social quase inatingível... O personagem central de Shame é humano e acima de tudo universal, seu comportamento nos parece à primeira vista repulsivo, mas passamos a observá-lo de uma forma totalmente diferente quando conseguimos perceber nele a dor provocada pelo peso da angústia existencial, sentimento tão familiar e marcante em nosso tempo.


O roteiro de Shame é ótimo, uma pena que uma grande parcela do público provavelmente o apontará como um filme pornográfico, carente de reviravoltas e cenas de ação, todavia aqueles que se dispuserem a vê-lo com um olhar um pouco mais aguçado irá perceber a profundidade de sua trama e o quanto as temáticas percorridas por ela são ainda mais contundentes que os nus frontais mostrados durante o seu desenvolvimento. Michael Fassbender está excelente, percebemos em cada uma de suas feições e até  mesmo nos seus momentos de total falta de expressão, a inadequação, a fissura e a angústia de seu personagem. Carey Mulligan também está muito bem, apesar de sua personagem neste filme lembrar aquela que ela interpretou em Drive, sua atuação não parece nem de longe uma reprodução da outra, ela protagoniza algumas das cenas mais marcantes do filme, como aquela em que ela canta em um bar uma versão melancólica da canção “New York, New York” de Frank Sinatra.


Como se não bastasse a relevância e a grandiosidade de sua temática, o bom desempenho do elenco e a habilidosa direção de Steve McQueen, o filme ainda se destaca pela beleza de sua estética e pela sua excelente parte técnica, a trilha sonora, por exemplo é simplesmente perfeita... Shame não é do tipo de filme recomendado para todos, porém sua qualidade é inegável, é sem dúvidas um excelente filme!


Shame foi indicado ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Ator - Drama (Michael Fassbender). No BAFTA, o filme recebeu indicações nas categorias de Melhor Filme Britânico e Melhor Ator (Michael Fassbender).

Assistam ao trailer de Shame no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra, 


domingo, 8 de abril de 2012

Canções de Amor

Canções de Amor (Les Chansons d'Amour) - 2007. Escrito e Dirigido por Christophe Honoré. Música Original de Alex Beaupain. Direção de Fotografia de Rémy Chevrin. Produzido por Paulo Branco. Alma Films / França.


Às vezes uma sequência de acontecimentos pode nos deixar com a alma à flor da pele, geralmente neste estado as dores são mais intensas e cada perda parece mais dilacerante, mas é também nestes períodos que temos nossa sensibilidade artística ainda mais aguçada, em tal tipo de situação a arte parece trazer o alívio frente ao peso de todas as questões existenciais. Tenho passado por isso nos últimos dias. Ainda que o estresse teime em me tirar a concentração, eu tenho conseguido fazer um mergulho artístico cada vez mais fundo nas obras que tenho assistido... Precisei começar esta resenha com este toque um pouco mais pessoal, para que você meu caro leitor entenda o efeito bombástico que Canções de Amor (2007) provocou em mim nesta última semana. Ganhei o DVD de presente do amigo Cristiano Contreiras e desde que li a sinopse eu imaginei que fosse gostar, mas não de tal forma. Inexplicavelmente eu parecia estar em sintonia com com a aura do filme e com o tom melancólico que está presente na trama em cada uma de suas canções, que expressam sentimentos e sensações que vão da dor da perda à descoberta de um novo amor, experiências estas que são vividas por alguns dos personagens.

Ao contrário do que o título possa sugerir, o filme não é uma comédia romântica ou um melodrama açucarado, daqueles cuja trama se ancora em idealizações do amor, muito pelo contrário, ele funciona mais como um retrato poético e ao mesmo tempo doloroso e amargo dos relacionamentos contemporâneos.  Nele, a idealização romântica cede lugar à efemeridade e à inquietude da descoberta, o que torna os laços entre os amantes mais frágeis e a entrega ao outro desapegada e propositalmente isenta de sentimentos. Contudo, mesmo que de forma "não convencional", o diretor e roteirista Christophe Honoré cria no desfecho da história o contraponto a este tipo de relação e tal oposição se manifesta em uma frase dita por um dos personagens na última sequência do fim do filme: "Ama-me menos, mas ama-me por muito tempo".


No filme, o relacionamento de Ismael (Louis Garrel) e Julia (Ludivine Sagnier) está em crise, para tentar dar um fôlego novo ao namoro eles acabam se envolvendo em um ménage à trois com  Alice (Clotilde Hesme). Os três não poderiam ser mais diferentes um do outro, Julia é romântica e acredita no amor, Alice é niilista e prefere despir o envolvimento entre eles de qualquer tipo de sentimento, já Ismael, apesar de não negar seus sentimentos, está apenas à procura de experiências e não de relacionamentos duradouros. Outras concepções sobre o amor podem ser percebidas através do pensamento e das atitudes dos pais e das irmãs de Julia. Jeanne (Chiara Mastroianni), por exemplo, uma das irmãs de Julia, representa a imobilidade e a estagnação sentimental, diversos momentos do filme sugere que ela também sinta algo por Ismael, mas ela não faz nada em relação a isso e tão pouco expõe seus sentimentos.


Uma tragédia acaba separando os amantes e cada um dos personagens do filme reage de um forma distinta ao acontecimento, um deles a partir de então terá cada uma de suas concepções sobre o amor postas em cheque, o sofrimento lhe transformará... Honoré não poupa seus personagens da dor e da experiência trágica, através das canções que cantam eles se abrem e expõe aquilo e mais profundo que está encrustado em suas almas. Aquilo que geralmente não se diz, eles dizem através das letras, nelas estão delineadas as suas personalidades e descritos os seus medos e suas dores. O casamento entre o cinema e a música se dá de forma quase perfeita, as performances são naturais e inspiradas e em nenhum momento temos a sensação, tão temida pelo cineasta, de estarmos diante de uma sequência de videoclipes.


As canções compostas pelo músico francês Alex Beaupain são belíssimas, desde que assisti o filme pela primeira vez (sim, foram duas em menos de uma semana) não consigo parar de escutá-las. São ao todo 13 músicas que passeiam por diversos gêneros como o indie pop e o rock alternativo. Suas letras é de uma poética riquíssima capaz de descrever de forma tão singular aquilo que os personagens estão sentindo e ainda nos dizer tantas coisas relevantes sobre cada um deles, a maior parte delas de forma não tão explicita o que faz com que elas possam passar despercebidas pelos mais desatentos. Ao assistir o filme, eu recomendo que você ouça e principalmente sinta cada uma das canções, se permita ser tocado (a) por exemplo pela a dor angustiante de Delta Charlie Delta, ou pela sensualidade de As-tu dejá aimé?, músicas fartes e marcantes, impossíveis de serem esquecidas tão facilmente pós a sessão.


O elenco é outro grande trunfo do filme, Louis Garrel está fantástico, sua presença e expressão corporal diz muito sobre o constante movimento de seu personagem na trama. Ludivine Sagnier, Clotilde Hesme e Chiara Mastroianni (filha de Catherine Deneuve e de Marcello Mastroianni) também estão ótimas, elas conseguem dar a força dramática e a credibilidade que a complexidade, não tão explicita, que suas respectivas personagens exigem. Gregóire Leprince-Ringuet (intérprete de Erwann, personagem importante que surge no meio da trama) também dá um show de interpretação, seus gestos e olhares conseguem ser ao mesmo tempo contidos e ameaçadores, o que definitivamente não é fácil de fazer. Todo o elenco realmente consegue nos convencer nos momentos em que soltam a voz,  suas interpretações musicais não são tecnicamente irrepreensíveis, porém são carregadas de sentimento, que na verdade é o que interessa.


É possível perceber em Canções de Amor uma forte influência da Nouvelle Vague francesa, que está presente no experimentalismo da narrativa e da edição, que nos remete a alguns dos primeiros filmes de Jean-Luc Godard, e nas tomadas externas, principalmente naquelas que mostram movimento, que nos faz lembrar alguns clássicos de François Truffaut. Ainda que o filme funcione como uma espécie de tributo aos filmes e cineastas que deram vida nova ao cinema francês em décadas passadas, podemos sentir nele o peso e a relevância da marca autoral de Christophe Honoré no estilo narrativo e nos aspectos técnicos do filme, mas principalmente em seu roteiro, o cineasta transita com facilidade por questões que frequentemente geram polêmica, como libertação sexual e homossexualismo e ele o faz sem ser panfletário em instante algum e despido de qualquer preconceito...  Canções de Amor é uma pequena obra prima, um mergulho do qual não tem como não voltar desestabilizado, é filme poético e sensível, que consegue nos cativar de imediato com cada um de seus aspectos técnicos e artísticos, que são simplesmente encantadores... Ultra recomendado! (Aviso: dispa-se de qualquer ideia pre-concebida antes de assisti-lo)


Assistam ao trailer de Canções de Amor no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra, 

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Aliens, O Resgate

Aliens, O Resgate (Aliens) - 1986. Dirigido por James Cameron. Escrito por James Cameron, David Giler e Walter Hill. Música Original de James Horner. Direção de Fotografia de Adrian Biddle. Produzido por Gale Anne Hurd. Twentieth Century Fox Film Corporation, Brandywine Productions e SLM Production Group / USA | UK.


Quem conhece a filmografia de James Cameron já sabe o que esperar de suas obras: excelente qualidade técnica e efeitos espetaculosos; aspectos estes que servem tanto para impressionar o público quanto para camuflar o convencionalismo de suas tramas e o minimalismo de seus personagens. Isto seria em si um problema? Penso que depende do ponto de vista. Alguns de seus filmes foram pioneiros no uso de diversas tecnologias e quebraram  paradigmas no tocante ao uso da técnica, contudo seus roteiros são apenas mais do mesmo, não há neles experimentalismo, inovação ou qualquer tipo de marca autoral, suas tramas acabam tropeçando em alguns dos clichês mais manjados da sétima arte, cito como exemplo o do romance entre o rapaz pobre e a menina rica e do herói que se volta contra seu próprio povo para defender o modo de vida de uma outra civilização. Aliens, o Resgate (1986) não foge à esta regra, infelizmente, e isto o torna um filme bem diferente de Alien, o Oitavo Passageiro, o primeiro da franquia.

Aliens, o Resgate não é um filme ruim, longe disso, porém os seus atrativos são bem diferentes daqueles oferecidos pelo primeiro. Se no longa dirigido por Ridley Scott, o suspense com ares hitchcokianos era um dos aspectos que mais se destacava, ao lado da direção de arte, neste ele cede lugar a um modo bem mais  simplório de explorar as nossas emoções. Quando escrevi o artigo Hitchcock à Luz da Teoria da Persuasão, publicado aqui no Sublime Irrealidade, iniciei o texto com uma citação do mestre do suspense que define bem o seu "estilo", ele diz que: "Se explodirmos repentinamente uma bomba numa sala com duas pessoas, a emoção durará dez segundos. Mas anuncie que a bomba irá explodir e o suspense durará até o fim"; tal forma de incitar a tensão é semelhante a aquela que Ridley explora em seu filme, Cameron no entanto segue um outro caminho, ele prefere explodir uma bomba atrás da outra, o que no fim das contas aproxima seu filme muito mais do gênero ação do que do suspense...


Em Aliens, O Resgate, Ellen Ripley (Sigourney Weaver), sobrevivente da Nostromo, a nave que fora atacada pelo Alien no primeiro filme, é resgatada após vagar a ermo pelo espaço, ao acordar ela descobre que 57 anos se passaram desde que ela se fechou em uma câmara de hibernação, o que fora mostrado no final do longa antecessor. Ela, mesmo traumatizada pelos acontecimentos que vivenciou, decide voltar em uma missão militar que vai até um planeta dominado pela criatura extraterrestre para tentar resgatar possíveis sobreviventes... O roteiro parece querer dar ao filme um significado maior, que vá além da mera questão de sobrevivência , que era o que impulsionava a personagem principal na história anterior. Nesta, Ellen ganha novas motivações, mais do que sobreviver ela agora quer proteger uma garotinha órfã, encontrada no planeta colonizado pelos aliens, partindo deste mote a trama mergulha em uma sequência de clichês, que só não põe tudo a perder porque as sequências de ação funcionam muito bem. 



Eu percebo nos filmes de Cameron, uma tentativa de fazer referências a questões sociológicas e políticas através da alegorização e da metaforização, em Titanic (1997), por exemplo, há a temática da divisão de classes (que impede o romance entre os personagens centrais durante boa parte do filme), já em Avatar (2009) o cineasta faz uma clara referência à guerra do Iraque (e aos conflitos motivados pela questão do petróleo no oriente médio), contudo em ambos os filmes tais angulações acabam se tornando nada mais que tentativas frustradas de dar às obras uma áurea mais intelectualizada, o que é impedido pela superficialidade dos personagens e das tramas nas quais estão envolvidos. Analisando Aliens, o Resgate a partir de tal ponto de vista, podemos ver nele uma intenção, mais um vez frustrada, de alegorizar a guerra (com claras referências ao Vietnã); forçando um pouco tal interpretação vemos na personagem de Sigourney Weaver uma recriação da consciência dos soldados americanos, que estariam buscando motivações pessoais para lutar em batalhas que não eram suas e por razões nas quais eles não acreditavam... 


Cameron parece não ter o mesmo receio que Ridley tinha de mostrar o monstrengo alienígena, afinal neste filme, a tecnologia o torna aparentemente mais assustador e convincente. Se não há mais porquê escondê-lo, ele, ou melhor, eles, então aparecerão em boa parte das cenas, em planos abertos e até em close-ups. Como eu disse anteriormente,  Aliens, o Resgate  se aproxima mais da ação do que do suspense, e dentre os filmes deste gênero, ao qual ele pode ser melhor associado, eu diria que ele é um dos melhores de sua década. Eu, mesmo não sendo uma grande fã do cineasta, tenho que reconhecer  que ele é um dos mais talentosos diretores do "cinemão" americano, ele com tamanha facilidade consegue nos envolver com a trama minimalista e nos fazer experimentar a sensações experimentadas a priori pelos seus personagens e é isto que torna seus trabalhos dignos de serem vistos, ainda que no fim das contas eles funcionem tão somente como bons filmes pipoca. 


Aliens, O Resgate, além  de sua excelência técnica, chama atenção pela boa atuação de Sigourney Weaver (que eu pessoalmente não julgo tão merecedora de uma indicação ao Oscar), porém o desempenho dela  chega a ser quase um contraponto quando comparado com o de parte do elenco secundário, como por exemplo o da atriz Jenette Goldstein, que tem uma atuação forçada e demasiadamente caricata (inexplicavelmente Cameron ainda a recrutaria para outras de suas produções)... Aliens, o Resgate não é nenhum clássico, nem chega ao nível qualitativo alcançado pelo primeiro de sua franquia, todavia ele merece ser apreciado por todos, mas tão somente por aquilo que ele realmente é, um típico filme cameroniano. Sim, eu o recomendo!


Aliens, O Resgate ganhou o Oscar nas categorias de Melhores Efeitos Especiais e Efeitos Sonoros, tendo sido indicado também nas categorias de Melhor Atriz (Sigourney Weaver), Direção de Arte, Montagem, Trilha Sonora e Edição Som. Ele recebeu uma indicação ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Atriz (Sigourney Weaver). 

Assistam ao trailer de Aliens, o Resgate no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra, 
portanto não devem ser consideradas spoilers!

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Vencedores do Framboesa de Ouro 2012

Foram anunciados na noite de ontem (01/04) os vencedores do Framboesa de Ouro 2012, o prêmio é uma espécie de Oscar às avessas, que de forma debochada e satírica se propõe a premiar os piores filmes e profissionais de Hollywood. A proposta é mais uma brincadeira do que algo para realmente se levar a sério, todavia nenhum profissional sério deve gostar de receber uma indicação e muito menos ser o vencedor em qualquer uma das categorias. Neste ano, pela primeira vez nos 32 anos de história da premiação, um mesmo filme venceu em todas as 10 categorias, o grande agraciado (ou deveríamos dizer desgraciado?) foi Cada um Tem a Gêmea que Merece (2011), longa no qual Adam Sandler representa um personagem e também a sua irmã gêmea, situação que justifica o fato de ele ter levado tanto o prêmio de Pior Ator, quanto o de Pior Atriz (sic).


Confiram abaixo a lista completa dos indicados, 
com os vencedores em destaque:

Pior Filme
Bucky Larson: Dotado para Brilhar
Cada um Tem a Gêmea que Merece
Noite de Ano Novo
Transformers: O Lado Escuro da Lua
A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 1

Pior Ator
Russell Brand – Arthur
Nicolas Cage – Fúria Sobre Rodas, Caça às Bruxas e Reféns
Taylor Lautner – A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 1 e Sem Saída
Adam Sandler – Cada um tem a Gêmea que Merece e Esposa de Mentirinha
Nick Swardson – Bucky Larson: Dotado para Brilhar

Pior Atriz
Martin Lawrence (“Momma”) – Vovó Zona 3
Sarah Palin (como ela mesma) – Sarah Palin The Undefeated
Sarah Jessica Parker – Não Sei Como Ela Consegue, Noite de Ano Novo
Adam Sandler (“Jill”) – Cada um tem a Gêmea que Merece
Kristen Stewart – A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 1

Pior Ator Coadjuvante
Patrick Dempsey – Transformers: O Lado Escuro da Lua
James Franco – Sua Alteza
Ken Jeong – Vovó Zona 3, Se Beber Não Case 2, Transformers 3
Al Pacino (como ele mesmo) – Cada um Tem a Gêmea que Merece
Nick Swardson – Cada um tem a Gêmea que Merece, Esposa de Mentirinha\

Pior Atriz Coadjuvante
Katie Holmes – Cada um tem a Gêmea que Merece
Brandon T. Jackson (“Charmaine”) – Vovó Zona 3
Nicole Kidman – Esposa de Mentirinha
David Spade (“Monica”) – Cada um Tem a Gêmea que Merece
Rosie Huntington-Whiteley – Transformers 3

Pior Elenco
Bucky Larson: Dotado para Brilhar
Cada um Tem a Gêmea que Merece
Noite de Ano Novo
Transformers: O Lado Escuro da Lua
A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 1

Pior Diretor
Michael Bay – Transformers: O Lado Escuro da Lua
Tom Brady – Bucky Larson: Dotado para Brilhar
Bill Condon – A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 1
Dennis Dugan – Cada um Tem a Gêmea que Merece e Esposa de Mentirinha
Garry Marshall – Noite de Ano Novo

Pior Remake, Cópia ou Sequência
Arthur
Bucky Larson: Dotado para Brilhar (cópia de Nasce uma Estrela e Boogie Nights)
Se Beber Não Case Parte 2 (pior sequência e remake)
Cada um Tem a Gêmea que Merece (cópia de Glen ou Glenda)
A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 1

Pior Dupla
Nicolas Cage e qualquer um em seus três filmes de 2011
Shia LeBeouf & A Modelo de Lingerie em Transformers 3
Adam Sandler & Jennifer Aniston ou Brooklyn Decker em Esposa de Mentirinha
Adam Sandler & Katie Holmes ou Al Pacino ou Adam Sandler em Cada um Tem a Gêmea que Merece
Kristen Stewart & Taylor Lautner OU Robert Pattinson em A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 1

Pior Roteiro
Bucky Larson: Dotado para Brilhar
Cada um Tem a Gêmea que Merece
Noite de Ano Novo
Transformers: O Lado Escuro da Lua
A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 1