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quarta-feira, 27 de maio de 2020

A Terceira Via e seus Críticos - Livro

A Terceira Via e seus Críticos de Anthony Giddens. Lançado originalmente em 2001. Tradução de Ryta Vinagre. Rio de Janeiro. Record, 2001.


Tido como um dos grandes teóricos da nova social democracia, o sociólogo Anthony Giddens, influenciaria com suas obras os rumos de governos nos países desenvolvidos e nos emergentes. Seu pensamento seria adotado como um norte em um período em que boa parte da literatura econômica e social das décadas anteriores começava a não acompanhar a rapidez das transformações do mundo globalizado.

Tony Blair, Romano Prodi, Bill Clinton, Fernando Henrique Cardoso, dentre outros, na época em que o livro foi publicado, já colocam em prática parte daquilo que seria defendido na obra. A terceira via proposta por Giddens é na verdade um meio termo entre o liberalismo econômico e o estado de bem estar social, com uma forte inclinação para o primeiro lado.


O autor defende uma coexistência entre o mercado, o estado e a sociedade civil, que seria necessária, segundo ele, para a manutenção de uma democracia plena condizente com a nova conjuntura imposta pela globalização.


Ele não nega os conceitos de esquerda e direita, e inclusive chega a citar a obra de Noberto Bobbio, Direita e Esquerda - Razões e Significados de uma Distinção Política como uma leitura seminal sobre o tema. No entanto, o que ele propõe é uma alternativa, que não seria novidade, o próprio Bobbio já tinha classifica tal tendência como a "terceiro inclusivo".


O modelo proposto preserva a força do estado, o que se mostra como o principal ponto de discordância entre Giddens e os liberais, o que seria necessário para balizar a atuação do mercado e da sociedade civil e atuar na minimização das desigualdades, quando estas restringissem oportunidades de ascensão.


No entanto, não há neste pensamento qualquer tipo de subversão ao status quo, há a defesa da responsabilização do topo da pirâmide econômica pelas injustiças sociais, mas mecanismos de redistribuição de renda, como a tributação progressiva, são defendidos com certa timidez.


A globalização é vista como um processo já consolidado, o mercado chega a ser quase idolatrado como o ente detentor da capacidade de resolver os problemas sociais (a maioria decorrentes de sua própria atuação). A suposta igualdade de oportunidades, seria, numa leitura mais crítica da obra, apenas uma preocupação com a formação da mão de obra necessária à cadeia de produção e de meros consumidores.


A fragilidade da obra talvez esteja justamente no ponto em que o próprio autor considera a sua grande força: a capacidade de dar soluções adequadas para problemas do mundo atual. "A Terceira Via e Seus Críticos" foi publicado antes do atentado de 11 de setembro, antes da crise de 2008, antes do Brexit e de tantas outras transformações que tornam distante o contexto no qual ele foi publicado.


Por ironia do destino, apesar do governo FHC ser citado na obra como exemplo de uma das materializações práticas da terceira via, conforme proposta, são os governos Lula e Dilma que melhor representam a prática daquilo que fora proposto, inclusive com os pontos fracos, que levariam à queda do Lulismo e à crise política pela qual o Brasil passa hoje.


O pacto proposto por Giddens, ao menos por aqui, funcionou apenas até que a redução das desigualdades tornasse os pobres menos dependentes, o que desagradaria as elites tradicionais e levaria à quebra do pacto e a readoção de um modelo muito mais neoliberal do que o imposto ao país pelo FMI na década de 90.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Direita e Esquerda: Razões e Significados de uma Distinção Política - Livro


Direita e Esquerda - Razões e Significados de uma Distinção Política de Noberto Bobbio. Lançado em 1995. Tradução de Marco Aurélio Nogueira. São Paulo. Editora da Unesp, 1995.


A queda do muro de Berlim em 1989 simbolizou o final de uma era, a reunificação da Alemanha jogou por terra a ideia do mundo bipolarizado, dando início a um período de intensa crise das ideologias. O fracasso do comunismo na URSS levantou uma incômoda questão: ainda faria sentido distinguir esquerda e direita? Noberto Bobbio, jurista, cientista político, historiador e filósofo italiano, defendeu nesta obra magnífica que sim, a distinção entre esquerda e direita continuava naquela época, início dos anos 90, mais atual é necessária do que nunca. 

Bobbio ressaltou no livro a importância de não confundir as experiência totalitárias fracassadas como única forma de expressão do socialismo, ele chama a atenção para o fato de que as orientações antagônicas não têm relação direta com o tipo de governo (liberal ou totalitário), podendo o totalitarismo ser de esquerda (como o foi na URSS), ou de direita (como foi na Alemanha nazista). 

O que então, em última instância, distinguiria esquerda e direita? Para Bobbio seria o posicionamento em relação à igualdade, mais do que qualquer outra coisa. A direita tende a crer que as desigualdades são naturais e, sendo assim, inevitáveis, enquanto que a esquerda as considera como um fruto de uma determinada construção social e, como tal, passíveis de serem eliminadas ou amenizadas pela atuação do estado ou pela sua completa extinção. 

A resposta à pergunta "igualdade sim, mas entre quem, em relação a quê e com base em quais critérios?" seria, de acordo com o autor, capaz de posicionar um indivíduo, um partido político ou um governo em um determinado ponto da linha que tem a esquerda em uma de suas extremidades e a direita na outra. Bobbio, relembra ainda a máxima de aristotélica presente na obra "Ética a Nicômaco" que diz que o principio maior da justiça seria tratar os iguais de forma igual e os diferentes de forma desigual na medida de suas desigualdades. 

A adoção de tal pressuposto, segundo ele, evitaria tanto o igualitarismo característico do totalitarismo de esquerda, quanto a manutenção do status quo, tão presente no pensamento e na práxis liberal. Para Bobbio a desigualdade deve ser valorizada como fator de multiplicidade, no entanto, o tratamento desigual se faria necessário quando houvesse o entendimento de que a desigualdade se torna um fator de opressão ou de exclusão. 

Apesar de ser uma obra relativamente pequena (127 páginas nesta edição), "Direita e Esquerda..." é de notável profundidade, o que a torna uma obra definitiva sobre o tema. Não é por acaso que ela tenha gerado e ainda gere tanta controvérsia. Ao escrever o prefácio da segunda edição italiana, Bobbio defendeu que as inúmeras críticas que recebeu na ocasião do lançamento apenas reforçavam a sua tese, os termos, criados no contexto da revolução francesa, continuavam vivos e ainda capazes de representar os dois espectros antagônicos da política.

Resenha escrita em 12/02/2017 e publicada originalmente no Skoob (rede social sobre livros). 

sábado, 29 de dezembro de 2018

O Público e as Verdades da Arte


Oscar Wilde chegou a afirmar, por meio de um de seus personagem mais emblemáticos, Lord Henry Wotton de O Retrato de Dorian Gray (seu alter-ego), que o "objetivo da arte é revelar a obra e esconder o artista"... eu concordo em partes com este pensamento. Se por um lado é impossível, por exemplo, compreender a grandiosidade da obra de Kafka (também escritor) sem conhecer, ainda que superficialmente, a sua trajetória e o contexto em que ele viveu, por outro o foco demasiado no artista pode relegar em segundo plano aquilo de mais importante que sua obra possui, e isso frequentemente acontece. Vivemos atualmente uma inversão extrema do pensamento de Oscar Wilde; a mídia cumpre o papel de desnudar a vida do artista, enquanto o público busca nela, e não na obra, os elementos de identificação capazes de produzir empatia. 

Discorrerei rapidamente sobre três situações que vivenciei recentemente e depois tentarei propor uma breve reflexão sobre o assunto. 

- Em agosto deste ano, Oswaldo Montenegro tocou em Piacatuba, distrito de Leopoldina/MG, no Festival de Viola e Gastronomia. Naquele dia, minutos antes de sua própria apresentação ele estava no meio do público assistindo ao show de dois violeiros locais, um casal então se aproximou dele e pediu para tirar fotos, ele não negou, mas enquanto os flashes eram disparados ele permaneceu na mesma posição em que já estava, de braços cruzados e olhar direcionado para o palco. 

- No último dia 8, na edição do festival Circuíto Banco do Brasil, realizada no Rio de Janeiro, a banda americana MGMT foi vaiada por uma parte do público e um dos motivos foi não ter sido "cordial com a platéia". Uma adolescente, fã da banda que tocaria na sequência, que estava logo à minha frente durante a apresentação resumiu o motivo de sua indignação: "entraram e saíram sem ao menos dar boa noite". 

- No último sábado, Maria Rita se apresentou aqui em Ubá, no Festival de Música Ary Barroso. Apesar de ter feito uma apresentação memorável, ela foi criticada por alguns dos que estavam presentes por não ter recebido o público para uma sessão de fotos e autógrafos. Algumas pessoas chegaram a criticar a organização do evento por tê-la trazido, isso pelo simples fato de não ter conseguido se aproximar dela. 

Chegamos ao ponto: O tratamento seco dado pelo Oswaldo Montenegro ao casal que o abordou, a falta de interação verbal do MGMT com o público e a recusa de Maria Rita a receber admiradores em seu camarim, nenhum destes fatos definitivamente não tornou nenhuma das apresentações menos impactantes pra mim e isso porque o essencial, ao meu ver, não é, e nunca será, a postura do artista em relação aos fãs, mas a proposta e a representatividade que sua obra tem para mim. 

Pode parecer uma afirmação dura, mas artista nenhum tem obrigação de paparicar seu público. Admiro muito aqueles que relacionam de forma natural com seus fãs e repudio os que o faz de forma forçada, por mero sentimento de obrigação. Uma parcela do público aparentemente não consegue compreender isso e para ela bom continua sendo o artista estrangeiro que arrisca algumas palavras em português no palco, o que força sorrisos na hora do selfie e o que bajula o público com frases feitas e falsas afirmações.

Pode parecer contraditório eu escrever uma nota com este conteúdo, afinal sou dos que curte ter o disco original autografado e um dedo de prosa com algum artista cuja a obra eu admiro ou respeito. Mas, a questão é que é preciso separar as coisas, não confundir o artista com a obra, pois tal tipo de simbiose na maioria das vezes não se dá de forma tão harmônica. Quem faz este tipo de confusão corre o risco de acabar frustrado ao descobrir que um determinado compositor não é bem aquilo que se pressupunha que ele era divido à uma interpretação pessoal de suas letras.  

Aqui cabe uma rápida reflexão sobre o que é apreciação artística e sobre a forma com que ela se dá. Quando nos colocamos diante de uma obra (seja ela uma música, um filme ou até mesmo um quadro) estamos diante de pelo menos três verdades que podem ou não ser divergentes, a primeira delas é a que é idealizada pelo artista antes e durante o processo de criação, a segunda é a resultante deste processo, que absolve influências externas, inclusive de outras pessoas envolvidas com ele. A terceira e última verdade é a de quem se coloca diante da obra, que é influenciada pela visão de mundo e pela bagagem que cada um traz consigo. 

O que geralmente ocorre é que uma parte do público confunde a sua verdade com a verdade do artista e por isso passa a exigir dele posturas e comportamentos que validem aquilo que até então não passava de meras impressões. Há neste fenômeno uma negação de todo o processo de criação e de consumo da arte. Desconsidera-se o poder que a obre tem de impactar por si própria e o dever de provocar este impacto é delegado ao artista, como se nele se esgotasse todo o processo. Dai surgem as aberrações criadas pela indústria cultural: os artista cuja obra se resumem à uma única verdade, previamente fabricada para um público que já está de antemão apto para decodificá-la e digeri-la sem maior trabalho.

Felizmente ainda existem artistas cuja grandiosidade de suas obras transcende suas próprias posturas, algumas vezes mesquinhas... Oswaldo Montenegro, MGMT e Maria Rita fazem parte deste grupo! 


Escrito originalmente em 20 de novembro de 2014


quinta-feira, 13 de julho de 2017

Vanguart - Beijo Estranho


Beijo Estranho, quarto disco de estúdio do Vanguart, tinha lançamento previsto para o dia 28 de abril. O single homônimo já tinha sido lançado no início daquele mês e denotava uma aventura da banda por uma sonoridade diferente da explorada nos trabalhos anteriores. A ansiedade de parte do público já era alta, mas havia o receio de que as expectativas pudessem ser frustradas, uma vez que não seria fácil manter o alto nível dos álbuns anteriores. Horas antes do previsto alguém queimou a largada, o disco foi postado em uma das plataformas de streaming, pouco tempo depois aconteceria o lançamento oficial nas outras plataformas.

Diante da notícia de que o álbum já tinha caído na rede, experimentei um daqueles raros momentos de realização em que o mundo todo pausa para que possamos fazer algo de extrema importância; eu não teria como descrever aqui a sensação de estar diante de um material inédito de uma das minhas bandas favoritas - Neste exato ponto desta resenha, penso que cabe lembrar que este é um texto pessoal, sem qualquer compromisso com a objetividade ou com qualquer tipo de distanciamento - naquele momento, estranhamente, era como se eu esperasse encontrar no disco não a banda, mas a mim mesmo.

Os discos Boa Parte de Mim Vai Embora e Muito Mais que o Amor marcaram fases distintas de minha vida e era natural, ao menos pra mim, que eu buscasse no novo álbum um fio que me reconduzisse de volta às experiências e reminiscências destes períodos. Mas, ao invés de um fio que me conduzisse de volta para o passado, encontrei uma porta que se abria para o desconhecido.



Dei o play no álbum no Spotify, optei por não pular a primeira faixa, a já conhecida faixa título, eu queria sentir o disco em sua totalidade, e sentir era mesmo a palavra mais adequada. Beijo Estranho, tal como seus antecessores, transbordava sentimentos e sensações. Ouvi o disco completo sem avançar nenhuma faixa, tentei absorver cada acorde, cada estrofe, cheguei ao final e voltei ao início, ouvi de novo e voltei outra vez, e outra, e outra... caminhava a madrugada a passos largos e à medida em que ela avançava, mais denso e interessante o disco ficava.

Mas, nestas primeiras audições ainda me faltava uma noção da totalidade, o disco ainda me soava fragmentado, como se cada canção transitasse por um universo próprio de questões e de sensações distinto das demais. Entretanto, a cada nova audição as pontas, que eu acreditava estarem soltas, se juntavam uma às outras deixando transparecer algo maior. Ao contrário do que eu cheguei a supor, havia sim uma unidade em Beijo Estranho, algo que o localizava entre a nebulosidade do Boa Parte de Mim Vai Embora e o clima ensolarado de Muito Mais que o Amor

Beijo Estranho, eu ousaria dizer, é um disco sobre amor e medo; não por acaso, estas são as palavras mais recorrentes nas letras das onze canções que o compõem; ouso dizer ainda que não só há uma unidade entre essas canções, como também há um todo maior que liga o disco aos seus antecessores. Beijo Estranho é uma espécie de continuidade dos álbuns de 2011 e de 2013, uma vez que a reflexão proposta em cada um está entrelaçada à temática predominante nos outros.

Boa Parte de Mim Vai Embora evocava a dor e o sofrimento advindos do rompimento com uma pessoa amada, enquanto que Muito Mais que o Amor era sobre redescobrir o amor idealizado, romântico em sua essência, aquele capaz de renovar as esperanças e a própria vida. Beijo Estranho ésobre descobrir a si mesmo, é sobre se reconhecer no amor que oferta a alguém. A vivência da auto-descoberta inclui tanto a noção  de que o amor pode ser doloroso e abrir feridas profundas quanto o reconhecimento de que é preciso vencer o medo que sufoca e tolhe a experiência do amor real, um  medo que paralisa e acomoda. 


Foto publicada originalmente no site A Gambiarra

"Quente é o Medo" não é a minha música favorita, mas talvez seja a mais emblemática do disco (abro um parêntese aqui para defender que ela deveria ter dado nome ao disco), é uma canção que possui certa dubiedade e que, por isso, abre margem para interpretações diversas e principalmente para reflexões sobre - adivinhem - amor e medo. Outras faixas dão sequência à mesma reflexão; "Todas as Cores", que começa em um tom de conselho, fala sobre o aprendizado adquirido por meio dos erros cometidos, um aprendizado que ajuda a vencer o medo de apaixonar de novo. "Quando Eu Cheguei na Cidade" fala sobre a coragem de se reabrir para um amor que já causou muita dor. "Menino" incita a fazer o seu próprio tempo ao invés de esperar o tempo certo, que talvez nem exista.

"Casa Vazia", que também diz muito sobre o álbum como um todo, em seus versos lembra que a natureza do amor é determinada mais pelo amante do que pelo objeto deste amor, o que está diretamente ligado à ideia de reencontrar, conhecer e amar a si mesmo antes de oferecer amor a outrem. "Homem Deus" dá ares filosóficos à reflexão; em seus versos, todos (o homem, Deus, a natureza) são um só e o amor é o elemento que confere tal unidade. O amor é o elemento capaz de elevar o homem e colocá-lo em contato com o sublime.

Vencido o medo, vem a oportunidade de viver uma entrega plena, capaz de proporcionar a vivência do amor real. Nesta onda de reflexão vêm "Beijo Estranho", que aborda a auto-descoberta de alguém que dedicara a própria vida à outra pessoa e finalmente descobre o quão destrutivo era este  relacionamento. "E o Meu Peito Mais Aberto que o Mar da Bahia" fala sobre a entrega irrestrita, exaltando a felicidade e a liberdade que dela decorrem. "Eu Preciso de você", minha favorita do disco, é outra ode à entrega - perfeita a metáfora do trem desgovernado. A derradeira do álbum, álbum, "Pancada Dura", condensa em si toda a reflexão que permeia o disco, ela o fecha falando de coragem e conclui: vale a pena morrer de amar!

Musicalmente, apesar da mudança recente na formação, a banda aparenta estar no ápice de seu entrosamento e potencial criativo. Helio Flanders e Reginaldo Lincoln tiraram de suas mangas verdadeiras pérolas, ambos estão cantando como se estivessem com a alma a ponto de sair pela boca. O violino da Fernanda Kostchak nunca esteve tão expressivo, ele geme, grita, chora, sorri e corre solto se destacando mesmo nas faixas em que surge acompanhado por outros instrumentos de corda (em belíssimos arranjos). O baixo do Reginaldo e a guitarra do David Dafré, estão lá, também em perfeito entrosamento, para nos lembrar porque o Vanguart é o Vanguart.

Destaco as participações especialíssimas do lendário Wagner Tiso (autor dos arranjos de boa parte dos clássicos do Clube da Esquina), que compôs os arranjos de "Homem-Deus", do Thiago França (Metá Metá), que gravou o Sax e a Flauta na canção "Quando eu Cheguei na Cidade" e do eterno Vang Luiz Lazzaroto, que gravou o órgão em "Menino".

Relevem o fato de que nesta resenha a persona fã gritou mais alto que a do jornalista e crítico e anotem o que eu estou dizendo: "Beijo Estranho" figurará em algumas listas dos melhores do ano, mas certamente será um disco que crescerá com o tempo. Ele fará, junto com os seus antecessores, que o Vanguart seja lembrado daqui a alguns anos como uma das melhores e mais originais bandas de nosso tempo. Anotem.

Dá o play no disco e aciona o repeat!



quinta-feira, 13 de abril de 2017

[Escrito em 13/04/2017] - Por quanto tempo a gente consegue ir acumulando e silenciando sentimentos, dores, angústias. Por quanto tempo conseguimos calar o nosso corpo. Os sapos que engolimos, os desaforos não respondidos, os ataques suportados e as dores aparentemente aplacadas, pra onde vai tudo isso? Seguimos, crentes de que tudo está bem, mas a ferida continua aberta. Fingimos que ela não existe, até que ela reaparece enorme e, assustados, não sabemos lidar com ela. Ansiedade é isso, é o corpo que grita, que pede socorro e clama por reação.

Convivi com a ansiedade por muito tempo, até o momento que eu acreditei que ela estava vencida e que não voltaria mais a atingir níveis tão incômodos. Superei ela mudando a perspectiva sobre as coisas à minha volta, com atividades que durante muito tempo eu usei como terapia (o blog, por exemplo), mas nunca cheguei fazer acompanhamento profissional ou qualquer tipo de intervenção medicamentosa.

Aplaquei a ansiedade adotando um ritmo de vida extremamente acelerado: trabalho, ativismos, estudos, leitura, mais trabalho, mais estudos, correria ensandecida. Foi bem enquanto o ritmo foi mantido, ou eu consegui me enganar que estava indo bem. Mesmo nas minhas últimas férias a correria foi mantida. Nesta, eu resolvi diminuir o ritmo, estranhamente foi pior.

Situações que estão fora do meu controle e que têm me causado apreensão e angústia trouxeram novamente à tona a sensação de medo constante, a vontade de chorar sem motivo aparente (mesmo sem qualquer tipo de tristeza), a vontade de fugir e algo que eu não tinha experimentado até então: uma barreira com relacionamentos, erguida pelo medo, por uma estranha expectativa que paira no ar de que em algum momento algo muito ruim irá acontecer, de novo.

O medo tem me paralisado e eu não estou sabendo lidar com ele. Fisicamente, reapareceram outros sintomas, com uma intensidade muito maior, as crises de gastrite, as cólicas intestinais, sensação de fadiga, mãos suando o tempo todo, problemas na pele. C'est la vi, companheiros, ela não está fácil, mas a gente vai levando...



terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Certa vez, um revolucionário, hoje já esquecido, recomendou aos que o seguiam que amassem ao próximo.

E, mesmo depois de passados dois milênios, a recomendação ainda era lembrada, todavia, estavam todos mais próximos dos bens que acumularam do que de seus iguais.

Naquele tempo, o amar ao próximo virou outra coisa.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Descompasso

Hoje pela manhã provei de um sonho
que tinha gosto de lembrança

E no caminho, não sei dizer como,
a andança dos pés ficou mais veloz
que a correria errante da memória.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

À procura de Lois Weber - Uma Ousada Tentativa de Revisão da História

A história, tal como nos é contada, é por vezes excludente, unilateral e, por isso, cruel com a memória daqueles que deveriam ser lembrados mas são legados ao ostracismo. É verdadeira a máxima atribuída a George Orwell que diz que 'a história é escrita pelos vencedores', pressupondo-se aí a exclusão da versão dos vencidos. É necessário que, em qualquer narrativa, questionemos quem são naquele contexto os 'ganhadores' e os 'perdedores'. Penso que todo relato, por mais simples e objetivo que ele seja, está sujeito às opiniões e visões de mundo de quem o escreve. Não acredito em imparcialidade, nem quando o narrador a tem como meta, tão pouco quando seu objetivo é justamente destruir ou reforçar alguma convenção ou construção social. A história do cinema e de seus principais personagens está repleta de injustiças, descréditos, subvalorizações e distorções da verdade, o caso de Lois Weber é apenas um dentre tantos. 

A pergunta que motivou a pesquisa e que norteará a reflexão proposta por este breve artigo é a seguinte: Por que tão pouco se fala da genialidade e pioneirismo de Lois Weber? - Na verdade, eu poderia ter escolhido, como objeto de estudo, a história (ou falta dela) de Alice Guy, Max Linder e tantos outros nomes de importância imensurável na história da sétima arte, que hoje estão ausentes das rodas de debate tanto na academia quanto nas discussões informais entre cinéfilos. Optei por Lois Weber porque no caso dela a injustiça é ainda maior, pois o crédito de seus feitos continua sendo concedido a outrém. É importante não só que lembremos suas realizações (o que chega a ser necessário, visto que é quase impossível achar publicações sobre ela em português), mas também que analisemos os porquês delas serem frequentemente negadas pela história oficial. 


A trajetória de Lois Weber me impressionou desde o primeiro momento em que eu soube de sua existência, não creio que seja exagero afirmar que o cinema tal como o conhecemos hoje é um legado dela, bem como o é de tantos outros que ousaram, experimentaram e caminharam à frente de seus tempos. Ela, durante o tempo em que esteve em atividade, dirigiu, de acordo com dados do The Internet Movie Database (IMDb), 135 filmes, escreveu 114 e atuou em 100. Seu mérito, no entanto, não está na quantidade, mas na qualidade de suas obras. Weber criou planos ousados, foi a primeira a usar o split screen, técnica que consiste na divisão da tela para mostrar ações simultâneas e, o mais importante, ela inovou na forma de contar uma história, rompendo com a narrativa entrecortada e episódica, que caracterizou o cinema em seus primeiros anos, para dar unidade dramática à obra. 

D. W. Griffith, diretor de obras como O Nascimento de uma Nação (1915) e Intolerância (1916), continua sendo apontado na academia e fora dela como o "pai da narrativa fílmica clássica", quando na verdade, apesar da importância de seus feitos, este mérito não pertence tão somente a ele, mas também a Lois Weber (e, talvez, a tantos outros também esquecidos), que já utilizava em seus filmes elementos que mais tarde seriam apontados, por estudiosos e teóricos (dentre eles o também cineasta Serguei Eisenstein), como inovadores nas obras de maior renome de Griffith, que, diga se de passagem, são posteriores às dela. Em Suspense (1913), aquela que talvez seja a sua obra mais lembrada e uma das poucas que sobreviveram ao passar dos anos, Weber antecipa o estilo de narrativa que dois anos mais tarde seria tido como genial em O Nascimento de uma Nação. Não por acaso, durante muito tempo a autoria de Suspense foi creditada a Griffith e não a ela.


Para que se possa tentar intender a injustiça da qual Lois foi vítima é preciso voltar aos primórdios do cinema nos Estados Unidos, na primeira década do século passado a grande indústria ainda não existia, na década seguinte ela começava a engatinhar com o surgimento de estúdios como a Universal (1912), a Paramount (1916), a Fox (1915) e a United Artists (1919). Naquela ocasião, fazer cinema era coisa pra louco, um investimento megalomaníaco e de alto risco, que atraia o interesse mais de gente ligada às artes do que de executivos. Ainda sem a noção do quão promissor poderia ser aquele negócio, as primeiras produtoras atraiam artistas e outros profissionais que optaram por seguir à margem do que era tido como "alta cultura" na época. Por não ser um negócio muito bem visto e por não ser levado à sério, era natural que o cinema despertasse o interesse de mulheres, imigrantes, escritores sem espaço no mercado editorial e outras minorias. Este foi um dos períodos de maior ebulição artística do cinema americano, afinal de contas ainda existia uma relativa liberdade de criação.

Luis Weber e Alice Gyy (outra grande figura dos primórdios do cinema, que dirigiu mais de 400 filmes e foi a primeira mulher à frente de um grande estúdio) são apenas dois exemplos de mulheres que se destacaram neste período. Mais da metade dos filmes produzidos na embrionária Hollywood até o final da década de 30 foram escritos por mulheres, algo impensável nos dias de hoje. Porém, com a consolidação da indústria e mais tarde com o advento do cinema sonoro, que era muito mais caro e difícil de ser realizado, o cenário começa a sofrer grandes alterações. A descoberta tardia de que o que existia naquele caldeirão era uma mina de ouro esperando para ser explorada despertou o interesse de homens de negócios de Wall Street e a partir daí a arte começa a ceder espaço para o dinheiro, e é aqui, neste ponto, que a história começa a ser reescrita. A concepção da máquina de produzir sonhos abrangia não só a perspectiva de futuro, mas também a reconstrução do passado; era preciso criar os primeiros mitos e estes precisavam ser homens, brancos e enquadrados na linha ideológica de quem passou a comandar Hollywood: as grandes corporações financeiras.


Luis Weber não se enquadrava neste estereótipo, ela era ousada e estava décadas à frente de seu tempo, ela, para se ter uma ideia, filmou o primeiro nu frontal feminino da história do cinema em Hypocrites (1915) e abordou temas como aborto (com uma visão conservadora para os dias de hoje, mas ousada para a época) e controle de natalidade em Where Are My Children? (1916); D. W. Griffith, ao contrário de Weber, era perfeito para o modelo de herói que o cinema comercial intentava criar, ele era branco, americano, de posições ultra-conservadoras e, o principal, ele era homem, e isto era o que bastava para que a autoria de vários filmes de Lois passasse a ser atribuída a ele, juntamente com o crédito pelas inovações técnicas e pela ousadia estética presentes nas obras dela... uma grande injustiça que ainda precisa ser reparada.

Penso que cabe a nós, jornalistas, blogueiros, cinéfilos e demais interessados, o dever de questionar sempre a história oficial e duvidar de supostas verdades absolutas. A noção de que a história é maleável, estando sujeita a interesses escusos, e de que os relatos estão na maioria das vezes impregnados de ideologias das mais diversas é importantíssima para que possamos chegar o mais perto possível de uma verossimilhança dos fatos. Vou além e ouso afirmar que cabe a nós o dever de recolocar nomes injustiçados, como o de Lois Weber, nas rodas de discussão, nos blogs, nas revistas, livros, documentários e em qualquer outra mídia ou meio que assuma para si a responsabilidade de contar a história da sétima arte de seus personagens mais importantes... À memória dos esquecidos! 


Confiram abaixo o filme Suspense (1913), uma obra-prima de Lois Weber:


quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Um conto sobre intolerância e medo...

Faltava pouco para meia noite quando dona Madalena, aos prantos, empurrou a porta principal e se dirigiu trôpega à mesa grande que ficava na outra ponta do saguão. Ela veio acompanhada de Lúcia, uma vizinha, que em vão tentava acalmá-la. Aquela era a primeira vez que entrava em uma delegacia de polícia e um mal pressentimento a atormentava mais do que a falta de informação sobre o que estava acontecendo. Ainda não conseguia imaginar o porquê de Ricardo, o filho único, ter sido detido. O susto que levou ao receber a ligação do distrito policial foi tamanho, a ponto dela sequer prestar atenção na última informação que lhe foi passada, a de que o filho estava hospitalizado e, provavelmente, só estaria à disposição da polícia para prestar depoimento e outros procedimentos padrões na manhã do dia seguinte - "Cadê meu filho, o que vocês fizeram com ele?" - O desespero aumentou quando contaram a ela que ele estava ferido... 

Ricardo cursava o quinto período de geografia, não era muito de sair de casa e seus companheiros mais frequentes eram os livros, que ele teimava em deixar espalhados pelo quarto sempre que vinha passar o final de semana na casa da mãe. Dona Madalena estranhara o fato de que nos dois últimos finais de semana ele passara muito pouco tempo em casa, o que definitivamente não era normal... Naquela manhã quando saiu, disse apenas que tinha compromissos no centro da cidade. Mesmo não compreendendo a mudança repentina ela não o questionou. "Ele nunca me deu motivos para preocupação", pensou, "talvez seja melhor eu confiar nele"... Tudo tinha se tornado mais complicado após a morte de Antônio, o pai do Ricardo, Madalena fazia milagres com a pensão deixada pelo marido e com a renda que obtinha em sua atividade de costureira. O filho chegou a pensar na possibilidade de trancar o curso e arrumar um emprego fixo para ajudar em casa, mas ela logo o repreendeu, "vê-lo formado era o maior sonho do seu pai, não jogue tudo fora agora"...

Eram oito e meia da manhã quando o celular tocou, Ricardo, que ainda escovava os dentes, demorou para atender. Pela insistência de quem ligava, parecia ser algo urgente... "Porra cara, estamos te esperando aqui já tem mais de meia hora!", era o Adriano, "O Adriano, calma aí cara, tô atrasado mas nem tanto, ainda faltam 20 minutos para as nove, chego aí em 10". "Nove horas? Combinamos às oito e já está todo mundo aqui, agiliza aí!" A confusão de horários fez com que Ricardo desistisse de tomar o café da manhã, ele apenas guardou na mochila aquilo que tinha separado aos pés da cama e desceu apressado, na escada quase trombou com a mãe que voltava de aguar as plantas do pequeno jardim que tinham na frente da casa - "O filho, aonde você indo tão cedo?" - "Tenho alguns compromissos no centro da cidade mãe...". 

Enquanto percorria o caminho entre a sua casa e a praça onde tinha combinado de encontrar Adriano e os outros, Ricardo pensava sobre o sentido daquelas ações. Ele, que nunca fora de se expressar, estava a caminho de sua terceira manifestação. Mesmo tomado por dúvidas acerca da eficácia daquilo que estava a fazer, ele sabia que não podia mais ficar calado, nos últimos meses ele testemunhara o avanço de ideais altamente perigosos, o que muito lhe preocupava. O medo e a intolerância pareciam se propagar como uma onda, que pouco a pouco ia tomando e inundando todos os espaços. O discurso de ódio estava presente na sala de aula, na fila do banco, até na conversa de boteco e não demorou para que tudo aquilo deixasse de ser apenas um discurso. Tinha aumentado assustadoramente os casos de agressão e de linchamento público e o estopim das manifestações fora a morte de Natan, 18 anos, esfaqueado a dois quarteirão de sua casa por estampar em sua camisa uma afirmação de sua sexualidade. 

"E onde que tá o pai do rapaz?", perguntou o delegado após ser abordado por Madalena. "Eu sou a mãe dele, pelo amor de Deus, meu filho é um menino bom, eu sei que ele não fez nada de mal", "Senhora, calma lá que aqui nós não prendemos nenhum menino bom, o filho da senhora é bandido!" 

Ricardo desceu do ônibus a alguns quarteirões de sua casa, apesar de ser uma sexta-feira a rua estava vazia, ouvia-se um latido ou outro ao longe e nada mais. A mãe não gostava que ele voltasse pra casa nas sextas à noite, ela preferia que ele o fizesse nos sábados de manhã - "O bairro está cada vez mais perigoso meu filho" - Ele, no entanto, queria aproveitar parte da madrugada pra adiantar um trabalho e imaginou que fosse ter mais paz em casa do que no alojamento da universidade, onde aconteceria uma festa... Ao dobrar uma esquina ele se deparou com um grupo de homens, um deles, aparentando estar bastante alcoolizado, o encarou e lhe perguntou com um sorriso sarcástico que lhe meteu medo: "Onde a mocinha pensa que vai?" - Ele não respondeu, seguiu andando em meio aos risos do grupo; chegou em casa trêmulo, subiu direto para o quarto e não contou nada para a mãe... Não demorou muito tempo e o silêncio da rua foi quebrado pelo burburinho das pessoas que saiam de suas casas e em seguida pelo som das sirenes das viaturas. Natan fora encontrado já sem consciência, com três perfurações no abdome, morreu a caminho do hospital, nenhum testemunha, ninguém viu nada...

A tropa de choque da polícia tentava dispersar a passeata, aparentemente em vão, o número de manifestantes só aumentava, e não demorou até que recorressem à repressão ultra violenta, que já se tornava costumeira. Cassetetes, balas de borracha, bombas de gás. Ricardo acabou se perdendo de Adriano no meio do tumulto. O suor frio descia e borrava a tinta preta, sinal de luto, em seu rosto. Quando a primeira bomba de gás lacrimogênio explodiu, ele ficou sem reação por alguns segundos. Mas, de repente, veio-lhe a consciência de que, sendo ou não uma ação eficaz, era ali que ele precisava estar. Tomou coragem, tirou a câmera de mochila e começou a capturar as cenas da repressão. A segunda bomba explodiu e desta não foi a consciência que lhe fugiu por alguns instantes, foi a visão. Ao conseguir abrir os olhos, ainda vacilantes, ele se deparou com aquele mesmo sorriso sarcástico - "Onde a mocinha pensa que vai?" - Uma forte pancada no rosto e ele apagou, acordou sob a acusação de ter tentado agredir um policial... 

Quando Madalena chegou ao hospital o filho já não estava mais lá. Tentaram convencê-la de que Ricardo tinha fugido. Todavia, o instinto materno lhe dava a certeza de que não era isso que tinha acontecido. Sabia como ninguém que o filho não era bandido, sabia que ele não tinha porque fugir... 

Ela nunca se conformou com a ideia de que Ricardo não mais voltaria.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Sobre muralhas, segredos e silêncios intransponíveis...

Quanto tempo é necessário para se conhecer alguém de verdade? Paulo se acomodou no sofá e em silêncio continuou a fitar Mariana, que assistia a novela enquanto acariciava Julia, a filha caçula de seis anos que adormecera em seu colo. Em menos de um mês eles estariam completando dez anos de casados. Tinham dois filhos, bons empregos e uma vida invejável. Naquele dia Paulo chegara mais cedo do trabalho, coisa rara, beijou a esposa, a filha e foi direto para o banho. Demorou mais do que de costume e quando voltou para a sala de estar se viu perdido em seus próprios pensamentos. Nem se deu conta quando, antes de adormecer, a filha o chamou e apontou em um comercial algo que todas as outras meninas da escola tinham, só ela não. Mariana, que tinha chegado bem antes de seu trabalho, se mantinha concentrada na novela enquanto o marido divagava em seus universos interiores. 

Por alguns instantes, Paulo pensou no quanto ele próprio havia mudado nesta última década e de repente se sentiu um estranho em sua própria casa. Sabia que estava longe de ser um modelo de pai e marido; apesar de não fazer muito o tipo viciado em trabalho, passara a chegar cada vez mais tarde em casa e, mesmo acompanhando de perto todo o processo de formação dos filhos, ele se sentia alheio a tudo, um invasor, alguém que estava a ponto de ser posto para fora - Imaginou como seria se naquele exato momento policiais adentrassem a sala e o retirassem de lá sob a acusação de invasão de domicílio - Seu devaneio foi interrompido por um singelo chamado do mundo real, era Mariana que, percebendo o seu distanciamento, o trouxe de volta apenas com um olhar, um daqueles seus olhares carregados de algo que poderia ser facilmente confundido com empatia, que foi seguido por um sorriso ameno que denotava, ainda que de forma sutil, carinho e compaixão. 

Paulo, no entanto, se sentiu ainda mais incomodado com aquele sorriso. Era o mesmo sorriso do tempo de namoro, da época em que se conheceram na faculdade, ele cursando direito, ela economia. Foi então que ele se deu conta de que, diferente dele, Mariana não tinha mudado praticamente nada. Ela continuava a mesma, no olhar, no jeito calmo de defender um ponto de vista, na escolha minuciosa das palavras quando se dirigia a um estranho... Mas, naquele dia o estranho era ele. Imaginou que ela, após o sorriso compassivo, estivesse a escolher mentalmente a melhor maneira de perguntá-lo como foi no trabalho e se estava tudo bem. Ela não o fez, continuou em silêncio, mudou levemente a posição de Julia em seu colo e se voltou novamente para a novela.

O contato com a realidade durou pouco, Paulo foi novamente tomado pelo fluxo de pensamentos que jorrava como nunca antes acontecera. De súbito ele se viu imerso em lembranças de um dia específico, um dia que ele aparentemente, sem saber o porquê, tinha deletado de sua memória. Mais de quatro anos se passara desde a tarde em que, ao chegar em casa, ele fora abordado pela vizinha, uma doce senhora, que lhe entregou uma carta sem remetente endereçada à Mariana, que por engano fora deixada na caixa de correios da casa errada. Era estranho, mas podia ser qualquer coisa; um folder com promoções de uma loja, um convite para algum evento, um panfleto político talvez... Ficou curioso, mas relutou em abrir uma correspondência que não lhe pertencia. 

Mariana não conseguiu esconder o desconforto que a entrega da carta lhe causou. O olhar apreensivo contrastava e muito com o olhar ameno ao qual Paulo já estava tão acostumado. Ele quis perguntar do que se tratava, mas, ao tentar seguir a esposa até o quarto, foi impedido por Lucas, o filho mais velho, que tentava lhe mostrar o novo recorde que acabara de bater no vídeo game... Ninguém mais falou sobre a misteriosa correspondência, mas, no meio da noite Paulo acordou e se deparou com a esposa sentada à beira da cama. De costa para ele, ela tentava esconder um choro silencioso, reprimido. Ele a abraçou, como se tentasse protegê-la de uma ameaça que ele próprio desconhecia, e perguntou o que tinha acontecido, quase sussurrando ao seu ouvido, como se ali no quarto existisse mais alguém à espreita. Ela apenas enxugou as lágrimas, sorriu e respondeu que não era nada. O silêncio preencheu novamente cada canto do aposento; Mariana adormeceu primeiro...

Paulo se viu de novo no sofá e, mesmo não tendo dormido, sentiu como se tivesse despertado naquele instante, foi só então que percebeu que a televisão já estava desligada e Mariana já tinha ido levar Julia para o quarto dela e neste momento já devia estar no quarto de Lucas ordenando que ele desligasse o computador e fosse para a cama. Atormentado pelas dúvidas que voltaram à tona, Paulo foi para a varanda, acendeu um cigarro e se debruçou sobre o parapeito - De quem seria aquela carta? Por que ela deixara Mariana tão desconcertada? Por que a memória daquele dia parecia ter sido deletada de sua mente? - Veio-lhe então o pensamento de que talvez naquela madrugada, quando abraçou a esposa tentando confortá-la, eles tenham vivido o último momento real de suas vidas e que desde então tudo se tornara apenas um simulacro do casamento que um dia idealizaram... Talvez tenha sido naquele dia que a relação começou a esfriar e o sexo deixou de ser como era no princípio. Não sabia dizer ao certo, mas era bem provável que o fosse. 

Mais uma vez foi Mariana quem trouxe Paulo de volta para a realidade, desta vez com um carinho delicado em seu rosto, ele se virou um tanto assustado e ela disse apenas: "você precisa fazer a barba". Mariana tirou um cigarro do maço que estava sobre o parapeito, acendeu e se pôs ao lado do marido. Ambos permaneceram calados, lado a lado por longos minutos, os olhares perdidos como se contemplassem algo ao longe... Paulo resolveu quebrar o silêncio e comentou: "falta menos de um mês, a gente precisa começar a planejar a festa"...