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sábado, 6 de agosto de 2011

The Walking Dead - A Série


Metáforas sobre a natureza humana em um mundo pós apocalíptico tomado por zumbis


Quando a série The Walking Dead estreou no Brasil em meados do ano passado, eu ainda estava cheio de incertezas quanto a ela. A princípio ela não despertou minha curiosidade e eu achava quase impossível que uma história sobre mortos vivos pudesse se sustentar por diversos capítulos, quiça por diversas temporadas. Acho que dificilmente eu teria tido contato com a série, se não fosse a gentileza de um amigo, que me indicou e me passou a primeira temporada completa... The Walking Dead foi uma das séries mais elogiadas de 2010, o que eu achava impossível aconteceu, a crítica especializada aplaudiu de pé a produção capitaneada pelo cineasta Frank Darabont, que tem no currículo filmes como À Espera de um Milagre (1999) e Um Sonho de Liberdade (1994).

O seriado foi inspirado na HQs homônima, escrita por Robert Kirkman, Tony Moore e Charlie Adlard. Desde o princípio Darabont sabia que esta não seria uma história para o cinema contar e sim para a TV, segundo ele: “Você pode contar um tipo de história nas duas horas de um filme, é um foco mais restrito, que você tem que manter se vai fazer a coisa direito, sem alienar a platéia. Na TV você tem essa maravilha que é o tempo para desenvolver uma trama.” Pelo visto Darabont estava apostando todas as suas cartas nesta aventura pela produção televisiva, em um tom que expressa amargura e frustração, ele chegou a comentar que na televisão é onde estão as oportunidades de contar histórias com temáticas mais adultas e complexas e que o cinema, com raras exceções, estaria substituindo a narrativa pelo abuso de efeitos espetaculares.

 

Por ironia do destino, ou não, justamente na semana em que eu assisti à primeira temporada da série, foi noticiada a decisão de Darabont de abandonar o barco, ele já tinha causado polêmica, quando demitiu todos os roteiristas, alegando que só trabalharia a a partir de então com freelancers. O canal de TV por assinatura AMC, que exibe a série, conseguiu contornar a situação, convencendo o produtor a trabalhar em parceria com roteirista Glen Mazzara. Com o anúncio da saída de Darabont, Mazzara passa a ser o nome mais cotado para assumir a função de produtor-executivo do seriado, cuja a segunda temporada começa em outubro nos Estados Unidos. Entre os motivos que podem tê-lo levado à decisão de abandonar a empreitada está justamente a castração criativa imposta pela emissora e a perda de recursos para outra série, que é a campeã e audiência deste canal. Certamente a TV não era de todo o que ele esperava.

Como eu já disse a primeira temporada do The Walking Dead foi um grande sucesso de crítica e de audiência, eu achava isso um absurdo até que decidi conferir. Tenho que reconhecer que a série é legal, a história é boa, as metáforas melhores ainda e que estou muito curioso para conferir os rumos que serão tomados nos episódios da sequência. No entanto a série ainda não conseguiu me convencer por completo, alguns pequenos deslises me impedem de ovacioná-la junto com a crítica especializada. Para explicar meu ponto de vista vou recorrer a um episódio da excelente série de comédia The Big Bang Theory, neste capítulo os personagens centrais conversam sobre os filmes do Superman, eles aceitam o fato de que ele tenha vindo de outro planeta, de que ele tenha super poderes e possa voar, mas não conseguem aceitar que ele possa salvar a Lois Lane, enquanto ela cai de um helicóptero em um dos filmes, conforme eles explicam o choque entre o encontro deles no ar faria com que ele, que é o “homem de aço”, cortasse o corpo dela em dois.

 

Sou o primeiro a reconhecer que nós como espectadores devamos dar uma “licença poética” às tramas quando se trata de ficções científicas, como já deixei claro na resenha que fiz do filme A Origem (2010), mas o que acho inadmissível são alguns absurdos, que parecem passar despercebidos e que furtam todo o sendo de realidade(!) da história. Penso que uma coisa é aceitarmos que uma epidemia, ainda não explicada, possa levar a “ressurreição” de mortos e a volta destes como zumbis, outra coisa é admitir que um homem possa passar quase um mês em coma, sem água e sem alimentação, e de repente simplesmente se levantar do leito, só um pouquinho desorientado, como se tivesse apenas tomado um porre na noite anterior, ou que pessoas possam sair ilesas de um capotamento de um carro em alta velocidade. Até aceitamos este tipo de coisa em filme de aventura e de fantasia, que têm propostas bem diferentes daquela que Frank Darabont quis dar a The Walking Dead.


Depois de tanta divagação, vamos à trama: O episódio piloto começa com os policias Rick Grimes (Andrew Lincoln) e Shane Walsh (Jon Bernthal) conversando na viatura em um momento de tranquilidade, que é rapidamente quebrado. Eles são chamados pelo rádio para ajudar a interceptar um veículo que era perseguido em uma rodovia por outra viatura. Eles montam uma barreira de contenção na estrada, mas antes de atingi-la, ao passar por garras que furam os pneus, os fugitivos perdem o controle do carro que capota diversas vezes. Absurdamente, os homens que estavam sendo perseguidos saem com pouquíssimos ferimentos e começam uma troca de tiros com os policiais. No tiroteio, os três bandidos são mortos, mas Rick também fica gravemente ferido ao ser atingido duas vezes.


A cena seguinte já mostra Shane entrando no quarto em que Rick está internado no hospital, toda esta sequência é mostrada pela perspectiva deste, que percebe vagamente os movimentos ao seu redor, enxergando-os borrados e fragmentados. Ao tentar conversar com o colega, Rick percebe que ele já não está mais no quarto e que as flores que ele deixara já haviam murchado pelo visto há bastante tempo. Ele percebe que tem algo de muito estranho e tenta pedir socorro, mas ninguém atende ao seu chamado. Ao se levantar com um pouco de dificuldade e sair do quarto, ele percebe que o hospital fora completamente destruído e que está aparentemente abandonado há semanas. Rick não demora muito pra compreender o que aconteceu, ao sair do hospital, ele se depara com o primeiro zumbi e ainda neste episódio ele se encontra com outros personagens que o explicam o que aconteceu. A cidade fora tomada por uma epidemia, que teria levado á zumbificação dos mortos, não sobrou quase ninguém vivo nas redondezas. Rick mantém a esperança de que sua mulher e filho estejam a salvo em algum lugar seguro... Vou parar por aqui para não correr o risco de revelar nada sobre os próximos episódios.


O melhor aspecto da série, na minha opinião, além da parte técnica que é excelente, são as metáforas criadas pela história. Para quem assistiu Ensaio Sobre a Cegueira (2008) de Fernando Meirelles, ou leu a obra que deu origem ao filme, escrita por José Saramago, será ainda mais fácil fazer tal tipo de leitura nas entrelinhas. Tal como nas obras citadas, o contexto pós apocalíptico é o catalizador que faz aflorar o lado mais obscuro da natureza humana, imersos em uma situação extrema os personagens deixam escapar aquilo que sempre tentaram mascarar, o que de fato eles realmente são. Apesar de alguns clichês, a série explora bem temas difíceis como preconceito, machismo e suicídio. Os personagens, mesmo sendo construídos sobre alguns dos estereótipos mais manjados, conseguem a proeza de serem ambíguos e não penderem para o maniqueísmo. 

Por fim, os zumbis seriam de acordo, com o próprio Frank Darabon, uma ótima alegoria da corrupção do homem, eles representariam “a falta de racionalidade da espécie humana, e como somos perigosos, destruidores e estúpidos em grupos…” Tenho que reconhecer também que nenhum filme, ou produção, sobre mortos vivos tinha sido até então, tão intrigante e cheio de significados quanto esta série. Em tempos de vampiros afeminados, isso ai é o que está tendo de melhor quando se trata de criaturas apavorantes. The Walking Dead, apesar das pequenas falhas, é uma das grandes promessas da TV americana, que pode ser ofuscada apenas pela genialidade de uma outra produção da rede de TV AMC, a aclamada série Mad Men... Recomendo!


Assistam ao trailer da série The Walking Dead no You Tube,
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terça-feira, 2 de agosto de 2011

The Strokes - Is This It - O disco que "salvou" o Rock!

 

No dia 30 de julho de 2001, o disco Is This It foi lançado na Austrália, o lançamento mundial só viria a acontecer no dia 25 de setembro daquele ano. Dez anos se passaram e muita coisa mudou no cenário musical desde então. Este, que é o primeiro álbum do The Strokes, chegaria ao mercado musical provocando um verdadeiro rebuliço, a banda era apontada pela parte mais entusiasta da crítica como a “salvação do Rock”, uma outra parte no entanto os acusavam de ser uma farsa, um projeto para fazer sucesso, que já tinha de antemão tudo para dar certo. Os integrantes da banda já eram ricos e tinham pais influentes, ou seja, eles não precisariam de ralação para chegar ao topo, o pai do vocalista Julian Casablancas, por exemplo, é o dono da Elite Models, simplesmente a maior agência de modelos do mundo, o pai do guitarrista Albert Hamond Jr já era um músico respeitado e renomado nos EUA.

Os dois lados da crítica no entanto estariam equivocados em seus respectivos apontamentos, na verdade o Rock não estava, nem nunca esteve precisando de salvação (a cena Underground que o diga), e o fato de  serem filhos de figurões do meio pode ter facilitado as coisas, mas eles batalharam bastante antes de alcançarem um merecido sucesso, curiosamente, eles tiveram que conquistar primeiro o mercado inglês para depois ganharem os Estados Unidos. O sucesso do The Strokes impulsionou um Hipe, que pode ser considerado similar ao que aconteceu em Seatle no início dos anos 90, os olhares se voltaram mais uma vez para a cena alternativa, que insurgia como uma fonte abundante de criatividade, que viria na contramão do mais do mesmo apresentado à exaustão pelo circuíto mainstrean.

 

Como sempre acontece, a indústria cultural busca no celeiro, onde foi gerado algo de “novo”, outras novidades para compor o seu casting, os olhares estavam então todos voltados para Nova Iorque (e não era só por causa dos ataques terroristas daquele ano). Outras bandas da cidade, como Yeah Yeah Yeahs, Interpol e The Rapture, ganhariam as páginas de publicações especializadas e as rádios comerciais quase que instantaneamente, deixando enlouquecidos os executivos de grandes gravadores, que tentavam a todo custo achar um “novo Strokes”. A indústria cultural se apressou ao reciclar o rótulo “Indie Rock”, para classificar os principais nomes desta efervescência musical, que já tomava proporções mundiais, o fato é que não só NY tinha excelentes bandas, ainda sem visibilidade. Era a vez das bandas de garagem virem à tona, de novo. The Hives (de Estocolmo, Suécia), The White Stripes (de Detroit, EUA), The Vines (de Sidney, Austrália) e The Libertines (de Londres, Inglaterra) foram alguns dos associados pela mídia à esta nova onda, mesmo que alguns deles fossem bem antecessores à esta badalação.

Voltamos então a falar de Is This It, o disco não trás musicalmente nenhuma novidade, mas suas referências sonoras são as melhores. O álbum representa a volta ao básico, às bandas compostas apenas por vocal, baixo, guitarra e bateria, sem muitos efeitos de estúdio e sem muitas frescuragens. O estilo remonta à new wave e ao rock de garagem setentista, lembrando bandas como Television, Velvet Underground, The Jam e Buzzcocks. A simplicidade a la Ramones também está presente em todo o disco, as músicas são simples, com letras ás vezes banais e melodias chicletes, que em conjunto proporcionam um agradável clima retrô. Is This It começa com a faixa título, que tem uma introdução lenta e arrastada. "The Modern Age", a segunda canção, já vem com um pegada mais rápida e contagiante, que é mantida em "Soma", a terceira. "Barely Legal", que vem na sequência, foi a primeira música que escutei da banda, ainda na ocasião do lançamento do disco no Brasil, no programa Alto-Falante exibido pela TV Cultura.

 

O disco continua com "Someday", "Alone, Together", "Last Nite" (que já pode ser considerada um clássico do Indie Rock), "Hard to Explain" (que foi o primeiro hit da banda e a primeira do disco a ser lançada em Single), "New York City Cops" (que foi retirada da edição americana do disco, por sua letra ter sido associada aos ataques de 11 de setembro), "Trying Your Luck" (uma das minhas preferidas do disco), até chegar a última "Take It or Leave It", que encerra o disco de forma bem diferente da que começou, nela Casablancas berra o refrão “and take it or leave it” até quase perder a voz, fechando com chave de ouro aquele que talvez seja o disco mais importante da última década. Is this It é um disco que beira à perfeição em cada uma de suas 11 faixas. Como raramente acontece comigo, o disco parece melhor a cada vez que o escuto. Se o The Strokes não foi de fato a “Salvação do rock”, ao menos eles abriram as portas para o que de melhor seria produzido nos anos seguintes. "I try but you see, it's hard to explain"! 

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segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Shocking Blue

Shocking Blue - 2010. Dirigido por Mark de Cloe. Escrito por Céline Linssen. Direção de Fotografia de Rob Hodselmans. Música Original de Lawrence Horne. Produzido por Wilant Boekelman, Koji Nelissen e Jan van der Zanden. Waterland Film & TV / Holanda.

 

Desde que reformulei o Sublime Irrealidade e as resenhas cinematográficas se tornaram o carro chefe do Blog, eu tenho recebido indicações de filmes de amigos e conhecidos. Confesso que na maioria das vezes são filmes que não me despertam nem um pouco o interesse, mas de vez em quando algumas pérolas caem em minhas mãos e com isso a minha lista de filmes “a assistir” só tem aumentado. Além daqueles que mal consigo me conter de curiosidade para assistir, têm também os ilustres desconhecidos que se acumulam sobre minha escrivaninha. O mais natural seria seguir uma ordem definida pela intensidade da curiosidade despertada, no entanto eu nem sempre sigo pelo caminho mais comum. Às vezes prefiro me expor ao desconhecido, pois este pode me surpreender ainda mais que os clássicos já consagrados e me proporcionar experiências inesperadas.

Foi pensando desta forma, que escolhi assistir Shocking Blue (2010) ao invés de algum dos grandes títulos de minha modesta coleção, que ainda permanecem inéditos para mim. O filme poderia ter sido uma decpção, mas se assim o fosse, não seria algo de todo algo inesperado, afinal eu não tinha nem ideia de sua sinopse e sendo assim comecei a assisti-lo sem criar grande expectativa. A história do longa, dirigido por Mark de Cloe, gira em torno das relações entre alguns jovens, que vivem em um lugarejo que fica nos arredores de uma cidade holandesa. O início da trama dá a entender que os personagens Thomas (Ruben van Weelden), Cris (Jim van der Panne) e Jaques (Niels Gomperts) são amigos de longa data e que são quase inseparáveis. Thomas mora com o pai e a irmã e se interessa muito por botânica, que parece ser o ganha pão de sua família.



Em uma noite, durante uma festa local, Thomas troca olhares com a linda Manou (Lisa Smit), depois de criar coragem para falar com a garota, ele percebe que o amigo Jaques já tomara a iniciativa e chegara na frente, ele fica desconcertado ao vê-los juntos, mas não faz nada a respeito, guardando um forte ressentimento consigo. No dia seguinte, os três amigos estavam colhendo as petúnias no campo cultivado pelo pai de Thomas, quando um grave acidente aconteceu. Jaques tentava se equilibrar sobre as rodas do trator em movimento e acabou caindo, sendo atropelado pela máquina. Thomas, que estava conduzindo o trator, se culpa pelo acidente e pela morte do amigo e depois desta tragédia ele se fecha em seu próprio mundo e acaba se distanciando até mesmo de Cris. Contudo, à medida em que se aproxima de Manou, ele começa a se abrir novamente e lentamente tudo começa a caminhar para uma situação mais confortável.



O filme ainda mostra como pano de fundo a relação de Thomas com seu pai e com sua mãe, que teria abandonado a casa quando ele ainda era criança. A história não vai muito além disso e não se aprofunda muito em nenhum dos aspectos que aborda, o roteiro também é bem simples. O longa, que não é ruim, acaba valendo justamente pela despretenciosidade de sua trama, que se atém a fatos simples, sem clichês nem estereótipos. Shocking Blue não é nenhuma obra prima e pode passar despercebido aos olhos até mesmo dos cinéfilos mais atentos, porém quem assisti-lo da mesma mesma forma que eu, sem expectativas, com certeza não se decepcionará. Vale antes de tudo como um entretenimento de boa qualidade.

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domingo, 31 de julho de 2011

Fanny e Alexander

Fanny e Alexander (Fanny och Alexander) - 1982. Escrito e dirigido por Ingmar Bergman. Direção de Fotografia de Sven Nykvist. Música Original de Daniel Bell. Produzido por Jörn Donner. Cinematograph / Suécia|França|Alemanha.

 

Na época da faculdade, quando conseguimos que a biblioteca da instituição liberasse os DVDs de seu acervo para empréstimos, um dos primeiros filmes que peguei foi O Sétimo Selo (1956), aquele seria o meu primeiro contato com a obra de Ingmar Bergman. O impacto que o filme me causou foi algo que até então eu não tinha experimentado, eu já tinha assistido outros filmes autorais e considerados “difíceis” pelo senso comum, no entanto nenhum destes tinha ido tão longe quanto aquele foi, nenhum fora tão icônico, filosófico e ao mesmo tempo belo e perturbador. Minha admiração e respeito pelo talento e estilo singular do diretor sueco só aumentaria após eu assistir outras de suas obras primas como Morangos Silvestres (1957) e Persona (1966).

É praticamente impossível tecer qualquer análise sobre a filmografia de Bergman sem correlacioná-la à sua própria vida, pois em cada um de seus filmes há um pouco de seu pensamento e principalmente de seus sentimentos, artista e arte se misturam em produções que fazem jus ao rótulo de “cinema de arte”, o que não quer dizer que suas obras sejam facilmente rotuláveis, pois transitam por gêneros distintos, que vão da comédia ao drama, sem se perder pelo caminho, como frequentemente acontece. O estilo de Bergman ficaria marcado pelo forte teor filosófico e existencialista de seus filmes, alguns o acusam de ser pessimista e de estar completamente desacreditado na humanidade, o que não é de todo uma verdade. O onirismo de seus trabalhos, os transformam em alegorias da realidade observada e/ou vivenciada, e como tal eles podem indicar um caminho ou uma saída, que nem sempre se baseiam em preposições realista ou racionais.

 

De todos os filmes de Bergman, Fanny e Alexander (1982) talvez seja aquele em que a presença de seu eu lírico esteja mais evidente, é também a mais “acessível” de suas obras, mas isso não a torna menor ou menos complexa que os outros longas que citei acima. Tal como Fellini fez em Amarcord (1973) e Giuseppe Tornatore em Cinema Paradiso (1988), Bergman recorreu à memórias da infância para a construção da trama. O cineasta carregou por toda a sua vida as marcas da repressão religiosa, que vivenciara em casa na sua meninice, seu pai era um pastor luterano, que o castigava constantemente, principalmente lhe imputando sentimentos de culpa acerca de pecados. O autoritarismo do pai destruiria a relação entre eles. Viria da quebra deste vínculo familiar a principal motivação da descrença do cineasta nas instituições religiosas e de seus questionamentos acerca da natureza divina.

 

Na história, o menino Alexander (Bertil Guve) é uma espécie de alter-ego de Bergman, ele vive com os pais e a irmã Fanny (Pernilla Allwin), em um imenso casarão que pertence à sua avó materna. Seu avô fora o diretor do teatro da cidade e após a morte dele, o seu pai assumiu a administração. Toda a família está direta ou indiretamente ligada ao teatro e Fanny e Alexander têm uma vida cheia de amor, carinho e tudo o mais que uma criança poderia querer. A repentina morte do pai, no entanto muda completamente a vida dos meninos. A mãe deles se casa com um severo bispo Luterano, que a trata a partir de então como uma serva e as crianças como prisioneiros, quando ela percebe o erro cometido ao se casar de novo, já é tarde demais para tentar voltar atrás. Os tempos bons que ficaram para trás se tornam cada vez mais distantes. Apenas Alexander tem dentro de si uma rota de fuga, que pode o levar de volta para os tempos de alegria.

 

O desfecho do filme é carregado de significados não aparentes e simbolismos, tão presentes em toda a filmografia do diretor. O constante entrelaçamento de sonhos e realidade expõe a visão artística de Bergman, que nos revela um olhar do cineasta/menino sobre sua própria vida e sobre a arte. Em uma entrevista ele chegou a comentar: “O privilégio da infância é podermos transitar livremente entre a magia da vida e os mingaus de aveia, entre um medo desmesurado e uma alegria sem limites (...) Eu sentia dificuldade para distinguir entre o que era imaginado e o que era real...” Uma das características da infância, que Bergman conseguiu preservar em sua obra, é a imaginação de uma outra realidade, que possa substituir a realidade de fato, por uma outra, mais lúdica, poética e que possa representar um significado maior que o vazio existencial. Não é Exagero dizer que Ingmar Bergman é o próprio cinema, ninguém mais que ele personificou tão bem o que pode ser que seja a sétima arte.

 

Ingmar Bergman é essencial para qualquer um que se diga cinéfilo e Fanny e Alexander é uma boa pedida para quem ainda não se aventurou pela riquíssima obra deste gênio do cinema. A fotografia e a direção de arte do filme são impecáveis, o que o confere uma beleza estética estonteante, porém este não é o foco do filme, apesar de ser uma obra completa, sua beleza visual faz pouca diferença para a trama, que nos convida a observar não o exterior, mas o interior de cada um dos personagens, os cenários e locações seriam, quando muito, uma extensão do corpo e da alma dos personagens que os habitam. Não sei dizer se Fanny e Alexander representou realmente uma despedida de Bergman do cinema como o dizem alguns críticos (depois deste filme, até sua morte em 2007, ele só produziu obras para a TV), mas é de fato uma das melhores representações do que de fato é o cinema. Recomendadíssimo!


Fanny e Alexander ganhou o Oscar nas categorias de Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Fotografia, Melhor Figurino e Melhor Direção de Arte, tendo sido indicado também nas categorias de Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original. O filme ainda ganhou o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, tendo também uma indicação ao prêmio na categoria de Melhor Diretor.


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terça-feira, 26 de julho de 2011

Foi Apenas um Sonho

Foi Apenas um Sonho (Revolutionary Road) - 2008. Dirigido por Sam Mendes. Escrito por Justin Haythe, baseado na obra de Richard Yates. Direção de Fotografia de Roger Deakins. Música Original de Thomas Newman. Produzido por Bobby Cohen e Sam Mendes. DreamWorks Pictures / EUA|UK.

 

Nos anos 40, no período do pós-guerra, o ideal do sonho americano, que fora concebido na década anterior, ganhava força. O país tinha se beneficiado muito com o desfecho do conflito entre Aliados e o Eixo, uma sensação de esperança começava a surgir no consciente coletivo e o fantasma da resseção econômica já não amedrontava tanto. O sonho americano renovava as forças e dava sentido para um povo castigado pela crise pós 1929. Este conceito abstrato de realização consiste na ideia de que na América qualquer um pode ser um vencedor, subir na vida e alcançar uma felicidade plena. O reaquecimento da economia transportara para o consumo quase todo o ideal de auto-realização, que se resumia em ter uma família perfeita, uma casa no subúrbio, um carro na garagem e um bom emprego. Posteriormente tal ideal se fundiria à ética protestante e, no mundo capitalista globalizado, transcenderia as fronteiras dos Estados Unidos nasceu, se espalhando também pelos países culturalmente influenciados pelo Tio Sam.

Apesar de ter sobrevivido durante décadas, o sonho americano é um ideal bastante frágil, pois a realização plena almejada dificilmente pode ser encontrada em bens compráveis, no entanto a ilusão coletiva faz com que isso apenas impulsione ainda mais o consumismo, tornando o padrão de posses a ser alcançado maior, a cada vez que o padrão anterior for atingido. O resultado deste círculo vicioso é facilmente perceptível na sociedade atual, que como nunca fomenta o surgimento de neuroses, motivadas por uma constante falta de realização de alguns indivíduos e pela frustração destes com aquilo que tinham idealizado. Certamente este tema renderia uma artigo á parte, mas creio que este não seja o momento, adentrei superficialmente no tema para falar de Foi Apenas um Sonho (2008), filme que considero um dos melhores e mais importantes da primeira década do presente século.

 

Sam Mendes, ao adaptar o livro de Richard Yates, escrito em 1961, tinha uma noção precisa do quanto a história ainda estava incrivelmente atual. O longa fala justamente da fragilidade do sonho americano, que comentei acima, e sutilmente faz uma contundente crítica ao “american way of life”. Em Beleza Americana (1999), Mendes teceu uma crítica ácida à hipocrisia de um povo que vive de aparências, pautado apenas por aquilo que o próximo poderia pensar de si. Neste as maquiagens sociais continuam sendo alvo da contestação do cineasta. Em oposição ao casal central, que vivencia a decadência do frágil ideal, são retratados outros personagens que vivem uma vida aparentemente tranquila e realizada, mas isso somente porque aceitam o próprio conformismo e se valem da abnegação como saída para enfrentar a realidade.

 

A história gira em torno dos Wheeler, uma família que tem tudo aquilo que qualquer outro americano sonharia em ter, uma bela casa com um grande jardim, um carro e dois filhos saudáveis, no entanto eles não estão realizados. O sonho de April Wheeler (Kate Winslet) era ser atriz, porém seus planos são frustrados quando ela descobre que não tem nenhum talento para a atuação. Frank Wheeler (Leonardo DiCaprio) segue os passos do pai, trabalhando em uma corporação que não lhe dá grandes expectativas. April é a primeira a se sentir incomodada com a vida que estão levando, ela não se encontra naquilo que construiu e há muito tempo que não se sente mais “viva”. Ela convence o marido a tomar uma decisão radical para salvar o casamento e suas próprias vidas, eles venderiam a casa e o carro e se mudariam para Paris, lá ela conseguiria um trabalho como secretária e ele teria tempo para descobrir o que realmente gostaria de fazer.

 

A vida em Paris surge então como uma oposição ao ideal do sonho americano, quando April propõe a venda dos bens que adquiriram para custear a mudança, ela está indo contra tudo aquilo que a sociedade em que vive valoriza. O plano é tido como ilusório e infantil e eles se tornam o alvo de críticas e de gozações de seus vizinhos, amigos e colegas. De fato são propósitos imaturos, mas ninguém consegue enxergar além disso, dentre todo o circulo social em que estão inseridos, eles são os únicos que conseguem enxergar que a vida que estão levando também é ilusória, e que pensam em fazer alguma coisa para mudar isso. Quando a mudança já era tida como certa, April descobre que está grávida e Frank recebe uma proposta de promoção no trabalho, é então que começam os conflitos.

 

Foi Apenas um Sonho é um filme para ser visto e “lido” nas entrelinhas, cada um de seus personagens trazem consigo uma enorme carga de significação, que ajuda a desenhar o contexto e que explica a situação aflitiva e angustiante que o casal está vivendo. A fragilidade e a efemeridade das ilusões que estão vivenciando são materializadas na figura de uma personagem, uma garota que se vê enganada e abandonada após ter se entregue a um homem que mal conhecia, ele sem cerimônias apenas bate a porta do apartamento, deixando-a sozinha após uma transa casual, que ela acreditava que pudesse ser o começo da realização de seus sonhos. O curioso também é que apenas um dos personagens consegue fazer uma leitura coerente daquilo que April e Frank estão vivendo, ele é John Givings (Michael Shannon), o filho da vizinha do casal. John é tido como louco, e acabara de sair de um hospício, ele não consegue se adaptar por ser agressivo e inoportuno.

 

Em uma das cenas mais fortes do filme, Jonh expõe toda a fraqueza e fragilidade dos Wheeler, em um discurso desafiadoramente crítico e carregado de lucidez. Voltando-se para Frank, ele diz: “O que aconteceu Frank? Deu para trás? Decidiu que ficará melhor aqui? Percebeu que é mais confortável aqui no velho vazio sem esperança?” A verdade incomoda e faz doer e a dor é tão profunda que pode levar a consequências terríveis, que vão de uma simples apatia à consequências mais extremas. Em um tom de ironia, o final do filme, carregado de simbolismo, mostra qual a solução mais simples para os questionamentos feitos por Frank e April, contudo a solução mais simples nem sempre é a melhor ou a mais coerente, no fundo ela pode ser apenas um tipo de fuga, que se apresenta em alternativas que podem ir da simples negação da verdade até a tomada de decisões que podem não ter mais volta.


A falta de realização e o sentimento de incompletude e de não pertencimento têm sido males que assolam cada vez mais o mundo pós-moderno, este mesmo vazio existencial já serviu de inspiração para a construção de roteiros ou de obras que deram origem a filmes belos, dolorosos e fortes, como o já citado Beleza Americana de Sam Mendes, Clube da Luta (1999), As Horas (2002), Ghost Word (2001) e Encontros e Desencontros (2003), talvez seja este o mau deste século... Foi Apenas um Sonho é também uma prova incontestável do talento de Leonardo e de Kate, ambos estão estupendos no filme, ela dá um show e nem precisa falar para expressar tudo aquilo que sua personagem está sentindo, é de assustar a forma com que ela entrou de corpo e alma em sua atuação, na minha opinião o Oscar que ela ganhou em 2009, deveria ter sido por esta atuação, que é enormemente superior ao seu trabalho em O Leitor (2008). Só não indico este filme maravilhoso, para quem espera encontrar nele uma espécie de continuação de Titanic (2007), para os demais é simplesmente imperdível!


Foi Apenas um Sonho foi indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Ator Coadjuvante (Michael Shannon), Figurino e Direção de Arte. O filme ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz - Drama (Kate Winslet), tendo sido indicado a este prêmio também nas categorias de Melhor Filme - Drama, 
Melhor Diretor e Melhor Ator - Drama (Leonardo DiCaprio).


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domingo, 24 de julho de 2011

Sem Destino

Sem Destino (Easy Rider) - 1969. Dirigido por Dennis Hopper. Escrito por Peter Fonda, Dennis Hopper e Terry Southern. Direção de Fotografia de László Kovács . Música de Hoyt Axton, Mars Bonfire, Roger McGuinn e Jimi Hendrix. Produzido por Peter Fonda, William Hayward, Bert Schneider e Bob Rafelson. BBS, Columbia, Pando e Raybert / EUA.

 

Os anos 60 representaram um período de declínio na história do cinema americano, enquanto o mundo passava por uma ebulição cultural e política, Hollywood ainda tentava sobreviver às custas dos grandes épicos e de musicais espetaculosos. A dissonância das produções americanas com relação ao contexto da década faria com que os olhares de parte do público e da crítica se direcionassem para os filmes de arte e autorais, que vinham da Europa e de outras partes do mundo. O período de crise no entanto fora positivo, as baixas bilheterias dos filmes que seguiam um modelo tradicionalista, abriria espaço para uma leva de novos cineastas, que inovariam na forma de contar as histórias e nos temas abordados.

Sem Destino (1969) é um dos maiores exemplos da fase de renascimento do cinema hollywoodiano. O filme teve um orçamento baixíssimo, se comparado ao de outras produções do período, e conseguiu um sucesso de público e crítica, que nem seus realizadores esperavam, rendendo centenas de vezes o custo de sua produção. O filme foi um dos primeiros a mostrar os Estados Unidos sob uma nova ótica, focando a realidade da gente simples, de vilarejos pobres e de comunidades alternativas, expondo através de seu roteiro a hipocrisia da sociedade americana, que apesar de se gabar de ser livre, não conseguia aceitar o diferente e o libertário.

 

[Eles] não têm medo de vocês, mas do que vocês representam... Para eles vocês representam a liberdade... é legal, mas falar e vivê-la são duas coisas bem diferentes. É difícil ser livre quando se é comprado e vendido no mercado. Mas nunca diga a ninguém que ele não é livre, porque ele vai tratar de matar e aleijar para provar que é... Eles falam sem parar de liberdade individual mas, quando vêem um indivíduo livre, ficam com medo...

A citação acima é dita por um dos personagens em um momento de reflexão induzida pelo consumo de drogas, no entanto ela é extremamente lúcida e ilustra bem o posicionamento contestador do filme. O preconceito que parece estar intrínseco à natureza social do americano fica evidente em diversas cenas e leva a história a um desfecho trágico. O filme também foi ousado ao abordar temas polêmicos como o sexo livre e o consumo de drogas sem nenhuma censura. Numa das cenas mais loucas do filme, os personagens principais tomam LSD na companhia de duas prostitutas em um cemitério. Cada um tem uma viagem diferente, que expõe medos e sentimentos que até então eles tentavam esconder. Reza a lenda que todo o consumo de maconha mostrado no filme é real e que a substância era consumida tanto pelo elenco quanto pela equipe de filmagem.

 

A história do filme é bem simples, e começa quando a dupla Billy (Dennis Hopper) e Wyatt (Peter Fonda) ganham uma boa grana, por transportarem cocaína através da fronteira com o México (curiosidade: o receptador da droga é interpretado pelo lendário produtor musical Phil Spector). Com o dinheiro em mãos eles decidem viajar de moto pelos Estados Unidos, em busca de experiências e de liberdade. Eles viajam em direção a Nova Orleans, onde acontecerá o festival Mardi Gras (uma espécie de carnaval americano), mas eles não se prendem a uma rota específica, nem se atêm a questões de datas e horários. Em uma das pequenas cidades interioranas por onde passam, eles são presos por acompanharem um desfile, mas conseguem sair da cadeia com a ajuda do advogado George (Jack Nicholson), este se junta a eles na viagem de motocicleta. George é um playboy que rejeita as normas e os padrões impostos por sua família e pela sociedade, vem dele boa parte do discurso ideológico do filme.

 

Sem Destino foi fruto de uma parceria despretensiosa entre Hopper e Fonda, o projeto independente foi levado em frente mesmo com descrença até dos amigos mais próximos da dupla. O elenco era constituído apenas por novatos e por amadores e eles não tinha um roteiro pronto, a trama foi sendo escrita à medida que as filmagens eram feitas. Sem estúdios, a estrada foi o principal cenário. Convenções, como não filmar contra a luz do sol e não deixar em que reflexos expludam na imagem capturada, foram subvertidas. Seria uma das primeiras vezes que o cinema americano teria anti-heróis como protagonistas, primeira vez também que um nu feminino seria mostrado sem nenhum pudor. Sem Destino inauguraria o conceito de Road Movie e o cinema americano nunca mais seria o mesmo, as portas já estavam abertas para Coppola, Spielberg, Scorsese e outros realizadores que dariam continuidade à transformação iniciada.

 

Talvez a maior revolução que o filme tenha feito no cinema dos Estados Unidos, seja a abertura para obras nas quais os produtores não eram tidos como os responsáveis pela criação, eram os ecos da Nouvelle Vague Francesa e do Néorrealismo Italiano chegando à Hollywood, como uma semente do cinema autoral. A valorização da direção e das atuações compensariam os baixos gastos com a parte técnica e tornaria o cinema mais realista e menos pomposo e glamouroso. Por falar em atuações, as de Sem Destino são excelentes, Dennis Hopper, Peter Fonda é Jack Nicholson estão formidáveis em seus papéis. A grandiosidade da obra é completada pela ótima trilha sonora, que inclui alguns dos maiores ícones da contra-cultura dos anos 60, como Jimi Hendrix, The Band e The Byrds. A clássica Born to be Wild do Steppenwolf se tornaria o hino de uma geração e seria entoada até hoje nos encontros de motociclistas mundo afora. O filme se tornaria então um ícone da contracultura e do movimento hippie, um verdadeiro clássico que merece, e muito, ser assistido!


Sem Destino foi indicado ao Oscar de Melhor Roteiro e Ator Coadjuvante. Em Cannes o filme ganhou o prêmio de Melhor Diretor Estreante, tendo sido também um dos indicados à Palma de Ouro.


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sábado, 23 de julho de 2011

Irreversível

Irreversível (Irreversible) - 2002. Escrito e dirigido por Gaspar Noé. Direção de Fotografia de Benoît Debie e Gaspar Noé. Música Original de Thomas Bangalter. Produzido por Christophe Rossignon. 120 Films, Eskwad, Grandpierre, Les Cinémas de La Zone, Nord-Ouest Productions, Rossignon e Studio Canal / França.

 

NÃO RECOMENDO IRREVERSÍVEL! Antes de escrever qualquer outra coisa sobre este filme de Gaspar Noé, é preciso deixar isso bem claro. Além de ser do tipo “não recomendável para qualquer um”, o longa não justifica, ao menos em minha opinião, o status de obra prima, que alguns lhe atribuem, apesar de ser sem dúvidas um dos filmes mais ousados que já assisti, Noé avançou limites até então intransponíveis no cinema. Resguardadas as devidas proporções, o efeito deste foi semelhante ao provocado pelo lançamento de O Último Tango em París (1972) de Bertulucci. Irreversível (2002) é polêmico, forte, nojento e incômodo, como nem Lars Von Trier jamais foi, nem em seus filmes mais pesados. Na ocasião de seu lançamento o filme dividiu as opiniões da crítica especializada, uns o consideravam um atentado contra tudo que se tinha como aceitável e outros o reconheceram como pura arte. 

Duas sequências brutais do filme entrariam para a história: a primeira é um espancamento que acontece já nos primeiros minutos, o agressor destrói o rosto de um homem com golpes dados com um extintor de incêndio; na segunda, uma personagem é violentada, em uma passagem filmada em apenas um take, com mais de 10 minutos de brutalidade. Apesar do peso de cenas deste tipo, este não foi o aspecto que me incomodou, a minha decepção foi motivada pela perda do ritmo a partir da segunda metade do filme. A narrativa criada é linear, porém contando os fatos da trás para frente, com constantes cortes que nos levam aos acontecimentos antecedentes. Tal proposta é louvável, porém ao contrário de Chistopher Nolan, que conseguiu dar ao ótimo Amnésia (2000que também é desenvolvido ao reverso) dois clímax, um no início e outro no final, Noé mantém o ápice de sua história apenas nos primeiros takes.

 

Da metade para o final, a câmera inquieta que girava ensandecida pelas locações se tranquiliza, a trilha sonora construída com fragmentos sonoros estranhos vai se normalizando, passando a ideia de que a “viagem” acabou, ou ainda não tinha começado. O filme se torna então menos incômodo, mas também menos atrativo, Gaspar Noé começa o processo de desconstrução dos seus personagens, o que poderia ser a melhor parte do filme, se transforma em algo vazio, sem muitas novidades. O que se percebe é que a montagem foi valorizada em detrimento da trama, que se fosse um pouquinho mais complexa, poderia afastar ainda mais os cinéfilos da obra. O cineasta pecou, no meu modo de ver, por não levar também a história em si até o limiar da experimentação.

 

A história de Irreversível começa com o espancamento que já mencionei acima. Nesta sequência, Marcus (Vincent Cassel) entra em uma boate gay a procura do estuprador de sua namorada, a bela Alex (Monica Bellucci), ele se envolve em uma violenta briga e iria se dar muito mal se não fosse salvo pelo amigo Pierre (Albert Dupontel), que ataca o homem com o extintor de incêndio. À medida que a história avança/retrocede, vamos conhecendo um pouco sobre cada um dos três e compreendendo a sequência de acontecimentos que levaram ao final trágico. O chato é que a trama não passa disso, como disse, o clímax está apenas no início. A história abre caminho então para reflexões acerca do tempo, do destino e da consciência, o que até salva esta segunda metade do filme de ser completamente descartável.

 

Gaspar Noé escolheu filmar no formato 16mm, para assim ter mais liberdade de movimentação com a câmera, que poderia ser bem menor e mais prática do que alguns dos modelos usados na captação do formato mais comum, o de 35mm. Noé usa requintes de crueldade para provocar o desconforto de quem assiste ao filme. Nas primeiras cenas a câmera gira, como se quisesse nos colocar na mesma perspectiva do personagem que ela persegue, os movimentos rápidos e aparentemente entorpecidos aumentam a sensação de incômodo, o que parece ter sido a principal intenção do diretor. A trilha sonora também é usada com o mesmo intuito, em algumas sequências a cena é preenchida com um ruído baixo e grave, gravado na frequência de 28Hz, que pode causar náuseas e tontura em quem ficar exposto à ele por muito tempo.

 

Ao contrário do que alguns críticos entusiastas previram acerca das opiniões sobre o filme, o meu pensamento sobre ele não foi determinado pela brutalidade de suas cenas. Eu nem o considero, como fizeram alguns que o criticaram, um motivador ou banalizador dos tipos de violência que retratou, apenas acredito que ele poderia ter sido melhor e mais grandioso em termos de conteúdo. Concluo portanto que Irreversível é ousado, agressivo e até brilhante em alguns momentos, porém sem conseguir nos livrar da sensação de que algo de muito importante está faltando...


Irreversível foi indicado à Palma de Ouro em Cannes


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