Metáforas sobre a natureza humana em um mundo pós apocalíptico tomado por zumbis
Quando a série The Walking Dead estreou no Brasil em meados do ano passado, eu ainda estava cheio de incertezas quanto a ela. A princípio ela não despertou minha curiosidade e eu achava quase impossível que uma história sobre mortos vivos pudesse se sustentar por diversos capítulos, quiça por diversas temporadas. Acho que dificilmente eu teria tido contato com a série, se não fosse a gentileza de um amigo, que me indicou e me passou a primeira temporada completa... The Walking Dead foi uma das séries mais elogiadas de 2010, o que eu achava impossível aconteceu, a crítica especializada aplaudiu de pé a produção capitaneada pelo cineasta Frank Darabont, que tem no currículo filmes como À Espera de um Milagre (1999) e Um Sonho de Liberdade (1994).
O seriado foi inspirado na HQs homônima, escrita por Robert Kirkman, Tony Moore e Charlie Adlard. Desde o princípio Darabont sabia que esta não seria uma história para o cinema contar e sim para a TV, segundo ele: “Você pode contar um tipo de história nas duas horas de um filme, é um foco mais restrito, que você tem que manter se vai fazer a coisa direito, sem alienar a platéia. Na TV você tem essa maravilha que é o tempo para desenvolver uma trama.” Pelo visto Darabont estava apostando todas as suas cartas nesta aventura pela produção televisiva, em um tom que expressa amargura e frustração, ele chegou a comentar que na televisão é onde estão as oportunidades de contar histórias com temáticas mais adultas e complexas e que o cinema, com raras exceções, estaria substituindo a narrativa pelo abuso de efeitos espetaculares.
Por ironia do destino, ou não, justamente na semana em que eu assisti à primeira temporada da série, foi noticiada a decisão de Darabont de abandonar o barco, ele já tinha causado polêmica, quando demitiu todos os roteiristas, alegando que só trabalharia a a partir de então com freelancers. O canal de TV por assinatura AMC, que exibe a série, conseguiu contornar a situação, convencendo o produtor a trabalhar em parceria com roteirista Glen Mazzara. Com o anúncio da saída de Darabont, Mazzara passa a ser o nome mais cotado para assumir a função de produtor-executivo do seriado, cuja a segunda temporada começa em outubro nos Estados Unidos. Entre os motivos que podem tê-lo levado à decisão de abandonar a empreitada está justamente a castração criativa imposta pela emissora e a perda de recursos para outra série, que é a campeã e audiência deste canal. Certamente a TV não era de todo o que ele esperava.
Por ironia do destino, ou não, justamente na semana em que eu assisti à primeira temporada da série, foi noticiada a decisão de Darabont de abandonar o barco, ele já tinha causado polêmica, quando demitiu todos os roteiristas, alegando que só trabalharia a a partir de então com freelancers. O canal de TV por assinatura AMC, que exibe a série, conseguiu contornar a situação, convencendo o produtor a trabalhar em parceria com roteirista Glen Mazzara. Com o anúncio da saída de Darabont, Mazzara passa a ser o nome mais cotado para assumir a função de produtor-executivo do seriado, cuja a segunda temporada começa em outubro nos Estados Unidos. Entre os motivos que podem tê-lo levado à decisão de abandonar a empreitada está justamente a castração criativa imposta pela emissora e a perda de recursos para outra série, que é a campeã e audiência deste canal. Certamente a TV não era de todo o que ele esperava.
Como eu já disse a primeira temporada do The Walking Dead foi um grande sucesso de crítica e de audiência, eu achava isso um absurdo até que decidi conferir. Tenho que reconhecer que a série é legal, a história é boa, as metáforas melhores ainda e que estou muito curioso para conferir os rumos que serão tomados nos episódios da sequência. No entanto a série ainda não conseguiu me convencer por completo, alguns pequenos deslises me impedem de ovacioná-la junto com a crítica especializada. Para explicar meu ponto de vista vou recorrer a um episódio da excelente série de comédia The Big Bang Theory, neste capítulo os personagens centrais conversam sobre os filmes do Superman, eles aceitam o fato de que ele tenha vindo de outro planeta, de que ele tenha super poderes e possa voar, mas não conseguem aceitar que ele possa salvar a Lois Lane, enquanto ela cai de um helicóptero em um dos filmes, conforme eles explicam o choque entre o encontro deles no ar faria com que ele, que é o “homem de aço”, cortasse o corpo dela em dois.
Sou o primeiro a reconhecer que nós como espectadores devamos dar uma “licença poética” às tramas quando se trata de ficções científicas, como já deixei claro na resenha que fiz do filme A Origem (2010), mas o que acho inadmissível são alguns absurdos, que parecem passar despercebidos e que furtam todo o sendo de realidade(!) da história. Penso que uma coisa é aceitarmos que uma epidemia, ainda não explicada, possa levar a “ressurreição” de mortos e a volta destes como zumbis, outra coisa é admitir que um homem possa passar quase um mês em coma, sem água e sem alimentação, e de repente simplesmente se levantar do leito, só um pouquinho desorientado, como se tivesse apenas tomado um porre na noite anterior, ou que pessoas possam sair ilesas de um capotamento de um carro em alta velocidade. Até aceitamos este tipo de coisa em filme de aventura e de fantasia, que têm propostas bem diferentes daquela que Frank Darabont quis dar a The Walking Dead.
Depois de tanta divagação, vamos à trama: O episódio piloto começa com os policias Rick Grimes (Andrew Lincoln) e Shane Walsh (Jon Bernthal) conversando na viatura em um momento de tranquilidade, que é rapidamente quebrado. Eles são chamados pelo rádio para ajudar a interceptar um veículo que era perseguido em uma rodovia por outra viatura. Eles montam uma barreira de contenção na estrada, mas antes de atingi-la, ao passar por garras que furam os pneus, os fugitivos perdem o controle do carro que capota diversas vezes. Absurdamente, os homens que estavam sendo perseguidos saem com pouquíssimos ferimentos e começam uma troca de tiros com os policiais. No tiroteio, os três bandidos são mortos, mas Rick também fica gravemente ferido ao ser atingido duas vezes.
A cena seguinte já mostra Shane entrando no quarto em que Rick está internado no hospital, toda esta sequência é mostrada pela perspectiva deste, que percebe vagamente os movimentos ao seu redor, enxergando-os borrados e fragmentados. Ao tentar conversar com o colega, Rick percebe que ele já não está mais no quarto e que as flores que ele deixara já haviam murchado pelo visto há bastante tempo. Ele percebe que tem algo de muito estranho e tenta pedir socorro, mas ninguém atende ao seu chamado. Ao se levantar com um pouco de dificuldade e sair do quarto, ele percebe que o hospital fora completamente destruído e que está aparentemente abandonado há semanas. Rick não demora muito pra compreender o que aconteceu, ao sair do hospital, ele se depara com o primeiro zumbi e ainda neste episódio ele se encontra com outros personagens que o explicam o que aconteceu. A cidade fora tomada por uma epidemia, que teria levado á zumbificação dos mortos, não sobrou quase ninguém vivo nas redondezas. Rick mantém a esperança de que sua mulher e filho estejam a salvo em algum lugar seguro... Vou parar por aqui para não correr o risco de revelar nada sobre os próximos episódios.
O melhor aspecto da série, na minha opinião, além da parte técnica que é excelente, são as metáforas criadas pela história. Para quem assistiu Ensaio Sobre a Cegueira (2008) de Fernando Meirelles, ou leu a obra que deu origem ao filme, escrita por José Saramago, será ainda mais fácil fazer tal tipo de leitura nas entrelinhas. Tal como nas obras citadas, o contexto pós apocalíptico é o catalizador que faz aflorar o lado mais obscuro da natureza humana, imersos em uma situação extrema os personagens deixam escapar aquilo que sempre tentaram mascarar, o que de fato eles realmente são. Apesar de alguns clichês, a série explora bem temas difíceis como preconceito, machismo e suicídio. Os personagens, mesmo sendo construídos sobre alguns dos estereótipos mais manjados, conseguem a proeza de serem ambíguos e não penderem para o maniqueísmo.
Por fim, os zumbis seriam de acordo, com o próprio Frank Darabon, uma ótima alegoria da corrupção do homem, eles representariam “a falta de racionalidade da espécie humana, e como somos perigosos, destruidores e estúpidos em grupos…” Tenho que reconhecer também que nenhum filme, ou produção, sobre mortos vivos tinha sido até então, tão intrigante e cheio de significados quanto esta série. Em tempos de vampiros afeminados, isso ai é o que está tendo de melhor quando se trata de criaturas apavorantes. The Walking Dead, apesar das pequenas falhas, é uma das grandes promessas da TV americana, que pode ser ofuscada apenas pela genialidade de uma outra produção da rede de TV AMC, a aclamada série Mad Men... Recomendo!
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