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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A Árvore da Vida

A Árvore da Vida (The Tree of Life) - 2011. Escrito e dirigido por Terrence Malick. Direção de Fotografia de Emmanuel Lubezki. Música Original de Alexandre Desplat. Produzido por Brad Pitt, Grant Hill, Sarah Green e Dede Gardner. Brace Cove Productions, Cottonwood Pictures, Plan B Entertainment e River Road Entertainment / USA.


Os homens ensinaram que a vida segue dois caminhos, o caminho da natureza e o caminho da graça. Você tem que escolher qual dos dois irá seguir. A graça não atende a indulgências, atende ao desprezo, esquecimento, indiferença... aceita insultos e golpes. A natureza busca somente a sua satisfação e não a satisfação dos outros.

A graça e a natureza... Passei os últimos tempos imerso em profundas questões acerca do porquê de algumas situações que eu estava vivendo, confesso que não sei lidar bem com o sofrimento, tenho dificuldade de compreender e aceitar coisas que são inerentes à nossa existência. Diante de tais situações me rendi à uma das questões mais antigas da humanidade: “se Deus é amor, por que então ele permite o sofrimento?”.  Foi justamente neste período que me deparei com um passagem bíblica, que me incomodou durante meses, ela está no livro de Jó e diz “Porque ele faz a chaga, e ele mesmo a liga; ele fere, e as suas mãos curam”. Demorou para que eu chegasse perto de uma compreensão acerca de tudo isso e tal discernimento só potencializou o efeito que A Árvore da Vida (2011) exerceu sobre mim.


A reflexão que Terrence Malick propõe com esta película, resguardada as devidas proporções, é semelhante à esta que forçadamente experimentei. Fica evidente que o livro de Jó foi uma das principais fontes de inspiração para a construção da trama, que alegoriza de forma magistral o relacionamento entre o homem e Deus. Através de narrações e conduções de fluxo de pensamentos em off, personagens questionam suas próprias condições e a existência de um criador capaz de os ama-los e de os perdoar apesar de seus defeitos. A pequenez do ser humano diante da grandiosidade do universo é usada, assim como na história de Jó, para ilustrar o quão insignificante seria um indivíduo, diante de tudo que existe. Malick recorre a uma citação do livro bíblico para abrir o filme. Na passagem “Onde estavas quando eu lançava os fundamentos da terra”, é como se Deus, do alto de sua onipotência, colocasse Jó em seu devido lugar no universo, afinal quem era ele para questionar o angustiante silencio de seu criador.


O mais belo do filme, é a distinção que ele faz em sua trama entre a natureza e a graça. A natureza seria a condição original humana, que torna cada indivíduo egoísta e indiferente às questões alheias, já a graça seria uma espécie de completa doação, de total entrega ao outro, é a graça que definiria a relação entre Deus e os homens. Mas se Deus é gracioso, voltamos então à questão original, porque há sofrimento? A relação familiar dos O`Brien tenta nos guiar até a resposta, ou então à outras inúmeras questões envoltas no assunto. A Senhora O`Brien (Jessica Chastain), que alguns apontam como uma personificação da graça, é uma mãe cuidadosa e permissiva, ela zela pelo lar e se dedica, em total entrega, ao marido e à família. O Senhor O´Brien (Brad Pitt), diferente dela, é mais rigoroso, chegando a ser autoritário em alguns momentos, de acordo com a interpretação comum ele seria a personificação da natureza. Eu no entanto vejo de forma diferente, acredito que o casal seria na verdade a personificação de dois aspectos da natureza divina, de um lado o amor incondicional, cheio de aconchego, e de outro a disciplina, que apesar de sua dureza, seria guiada também pelo amor e pela graça.


No epicentro da história estão Jack (Hunter McCracken na infância), R.L. (Laramie Eppler) e Steve (Tye Sheridan), os filhos dos O`Brien, eles levam uma vida normal, semelhante a de qualquer outra criança fruto de uma família americana de classe média alta nos anos 50, eles passam o dia entre a escola e as brincadeiras no jardim e nas redondezas da enorme casa onde moram. Jack, o primogênito, passa a se sentir desprezado desde o nascimento do segundo filho do casal, mesmo sendo ainda muito pequeno, ele sente ciúmes do irmão e desenvolve um comportamento violento e arredio, o que seria ao meu ver a verdadeira personificação da natureza no filme. A trama reencontra Jack (Sean Penn na vida adulta) 50 anos mais tarde, ele se tornou um arquiteto bem sucedido, mas nunca superou a morte prematura de um dos irmãos. É o plantio de uma árvore no pátio do suntuoso prédio onde trabalha que o leva a mergulhar em reminiscências de sua infância.



A Árvore da Vida percorre um espaço de tempo ainda maior que o coberto por 2001 – Uma Odisseia no Espaço (1968) de Stanley Kubrick, sua trama volta na criação do universo, mostrada à luz da teoria darwinista da evolução, para ao final chegar no que seria uma espécie de fim do mundo. O filme é todo preenchido com belíssimas imagens, captadas com uma sensibilidade estonteante, cada fotograma é simplesmente perfeito no tocante à fotografia e consegue provocar mais efeitos do que um diálogo normalmente poderia induzir. Nós espectadores somos conduzidos à uma viagem de sensações, sentimentos e filosofia, a qual eu não encontro nenhum similar á altura na história do cinema. Mas o filme não é apenas uma sequência de belas imagens, como alguns reducionistas taxaram, ele possui uma trilha sonora simplesmente maravilhosa e as atuações são poderosíssimas, Hunter McCracken merecia, na minha opinião, ao menos uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, sua entrega ao personagem é impressionante.



Terrence Malick conseguiu realizar um filme que simplesmente beira a perfeição, ele é arte e filosofia da primeira á última sequência. A maestria do diretor fez com que o risco de que o filme se tornassem um panfletário religioso fosse definitivamente eliminado. Ao assistir ao filme percebe-se que em nenhum momento ele estará tentando “vender” uma determinada verdade, acerca dos temas que aborda, ele se torna desta forma similar a um livro de filosofia, cujo o interesse é mais provocar a reflexão acerca de determinado assunto do que apontar respostas definitivas. Para mim, assistir A Árvore da Vida foi uma experiência única e maravilhosa, que tentarei repetir em pouco tempo, antes que ela comece a se apagar de minha mente, no entanto não sei se posso indicar o filme para todos sem restrições. Apesar de não ser um filme de tão difícil compreensão, ele será melhor apreciado por aqueles que já estiverem familiarizados com o tipo de questionamento por ele levantado, creio que isso explique o porquê de ter ocorrido uma evasão maciça do público no meio da projeção, em diversas salas onde o filme foi exibido. Recomendo para aqueles que tenham sensibilidade o suficiente para apreciar uma verdadeira obra de arte!


A Árvore da Vida ganhou a Palma de Ouro, prêmio máximo do Festival de Cannes.

Assista ao trailer de A Árvore da Vida no You Tube, clique AQUI !

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a crítica de 
Além da Linha Vermelha,
também escrito e dirigido por Terrence Malick.


sábado, 19 de novembro de 2011

Submarine

Submarine - 2011. Dirigido por Richard Ayoade. Escrito por Richard Ayoade, baseado no romance de Joe Dunthorne. Direção de Fotografia de Erik Wilson. Música Original de Alex Turner e Andrew Hewitt. Produzido por Ben Stiller, Marj Herbert, Andy Stebbing e Mary Burke. Film4, Wales Creative IP Fund, Warp Films e Red Hour Films / UK | USA.


Fui convencido a assistir Submarine (2010), mais pela trilha sonora, que tem canções do Alex Turner, vocalista e guitarrista do Artic Monkeys e do The Last Shandow Puppets, do que por qualquer outra coisa. Não sabia sequer a sinopse do filme, quando um amigo me convidou para assisti-lo. Sem nenhum exagero, este filme foi uma das melhores coisas que poderia ter me acontecido naquela noite fria de ontem. De uma forma assustadoramente perfeita, o filme parecia estar em sintonia com meu estado de espírito e o resultado disso eu simplesmente não consigo explicar, só posso garantir que foi muito bom. O filme, apesar de não trazer nada de novo ou de tão excepcional, consegue ser cativante e tocar algo de sensível que temos dentro de nós e nos deixar com a alma à flor da pele e uma gostosa sensação ao final da exibição.

Certamente não é um filme que agradará a todos, mas é uma grande pedida para quem está com os olhares atentos à produção atual do cinema indie. Os atrativos são os mesmos presentes em outros filmes similares como Ghost Word (2001) e A Pequena Miss Sunshine (2006), e incluem personagens caricatos, dotados tanto de vícios quanto de virtudes, histórias não convencionais e uma pequena dose de experimentalismos. Creio que a maior vantagem deste tipo de filme seja a de que eles já nascem desprovidos da pretensão de agradar a todo mundo, o que dá maior liberdade de criação aos seus realizadores e ao elenco. De fato a despretensão é um dos trunfos de Submarine, que se apresenta como nada mais que um filme sobre descobertas e desventuras da adolescência, mas que consegue ir muito além de tudo isso, não pelos temas em que toca, mas pela forma com que os aborda.


Submarine é contado pela perspectiva de Oliver Tate (Craig Roberts), um garoto que está vivendo uma ebulição de sentimentos e sensações, típicos de sua faixa etária, ele tem poucos amigos na escola e sofre com o bulling por ser considerado diferente. Ele está apaixonado por Jordana Bevan (Yasmin Paige), uma menina tão estranha quanto ele, em suas palavras ela seria “uma garota moderadamente impopular, cujo único problema são os eczemas de pele”. A vida pode não está tão fácil para Oliver na escola, mas é em casa que ele se vê na obrigação de enfrentar problemas bem maiores. Seu pai, Lloyd Tate (Noah Taylor) se tornou depressivo e não percebe que seu casamento está preste a acabar, a mãe Jill (Sally Hawkins) tenta dissimular sua própria angústia e o fracasso de sua vida familiar a empurra para um relacionamento extraconjugal com Graham (Paddy Considine), um guru new age que se mudará para a vizinhança.


Oliver consegue conquistar Jordana, à princípio ela se aproxima dele apenas para se vingar de um ex-namorado que a traíra, mas com o tempo ela passa a admirá-lo, mesmo que dificilmente reconheça isso. Eles conseguem desenvolver um cumplicidade raramente vista, o que chega a incomodar os outros garotos da escola, que não acreditam em relacionamentos duradouros. O conflito que norteia a trama surge quando Oliver descobre que terá que escolher entre dar atenção para sua namorada, que tem problemas até mais graves que os dele, ou se dedicar a salvar o casamento dos pais, que dado o estado em que se encontra parece uma missão quase impossível. Os problemas se multiplicam principalmente porque Oliver são se abre, nem com Jordana, nem com seus pais, nem com mais ninguém.


A forma com que o roteiro brinca com as situações partindo da visão do personagem é a melhor sacada do filme, situações complexas como o perdão, a depressão e a perda não se tornam leves de uma hora para outra, mas ao menos se tornam mais fáceis de serem encaradas quando vistas pelo olhar de um adolescente cheio de criatividade e curiosidade. Em uma das sequências mais legais do filme, Oliver tenta imaginar como a notícia de sua morte repercutiria em meio aos seus colegas de escola, em outra cena ele enumera motivos que o possam impedir de desistir de sua própria vida, não passa de uma brincadeira, mas é no contexto da história uma clara evidência da forma com que o lar conturbado influencia na vida dele. As dores, os medos e incertezas que Oliver enfrenta o tornam muito mais que mero personagem de um romance adolescente, ele, Jordana e todos os outros personagens secundários são dotados de uma profundidade que vai muito além de suas falas, estando visível em suas atitudes, olhares e expressões.


As atuações de Craig e Yasmin merecem destaque à parte, apesar de jovens eles estão muito bem e apresentam desempenhos acima da média, em cada cena basta olhar para seus rostos para saber o que existe no mais profundo de seus personagens, tal fenômeno também ocorre cada vez que Noah e Sally entram em cena, mas no caso deles isso não é nenhuma novidade. A fotografia e as locações conferem ao filme um visual muito bonito e a direção de arte é impecável. Curioso, mas tal como o amigo com quem assisti ao filme comentou, Submarine parece atemporal, pois em nenhum momento fica claro em que época ele passa, pois apesar do visual retro que remete aos anos 60 ou 70, objetos e situações indicam que se trata de uma época mais próxima da atual, eu prefiro acreditar que isso foi proposital... A trilha sonora, como eu já esperava, é fantástica e cada uma das seis canções compostas por Alex Turner são belíssimas e casam perfeitamente com as cenas nas quais são encaixadas. Submarine é sem dúvidas uma ótima pedida. Recomendo!


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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Sem Medo de Morrer

Sem Medo de Morrer (The Life Before Her Eyes) - 2007. Dirigido por Vadim Perelman. Escrito por Emil Stern, baseado no romance de Laura Kasischke. Direção de Fotografia de Pawel Edelman. Música Original de James Horner. Produzido por Vadim Perelman, Aimée Peyronnet e Anthony Katagas. 2929 Productions / USA.


A despeito da opinião da crítica especializa, eu tenho que afirmar que Sem Medo de Morrer (2007) é um no mínimo um bom filme. Quando estreou com Casa de Areia e Névoa (2003), o diretor ucraniano, radicado nos Estados Unidos, Vadim Perelman conquistou respeito e muitos elogios, com um ótimo roteiro, excelentes atuações e uma direção precisa, seu primeiro filme arrebatou cinéfilos e críticos pelo peso e densidade de sua trama, mas esta é uma história para um outro post, o assunto de hoje é tão somente o seu segundo longa metragem. Sem Medo de Morrer não alcança o mesmo nível de qualidade de seu antecessor, mas isso não o torna um filme ruim. Se comparado a tanta coisa de qualidade duvidosa, que a crítica ovaciona de pé, eu até diria que ele é uma obra prima, no entanto a sensação que fica é a de que Perelman era capaz de ir ainda mais longe.

Penso que o que pode ter decepcionado parte do público que o assistiu tenha sido o ritmo no qual a história é desenvolvida, o filme sofre constante oscilações, indo da mais contemplativa lentidão ao mais visceral suspense em questão de segundos. Os mais desatentos não compreenderão a importância de algumas cenas e de alguns pequenos detalhes, mas são estes que no final das contas fazem toda a diferença. O filme é permeado, desde as primeira sequências até o final, por um sentimento pesado e doloroso, uma angústia que anuncia um final trágico, no entanto já conhecemos de antemão o desfecho, o que nos surpreende é a forma com que é feita a conclusão da história e é aí que está a melhor sacada do filme. Vou parar por aqui para não correr o risco de contar mais detalhes e assim diminuir de alguma forma o impacto causado pela obra.


Vamos então à sinopse: Diana (Evan Rachel Wood) é uma colegial que está vivendo uma espécie de rito de passagem para a vida adulta, ela é imediatista, insubmissa e está se afundando em um mergulho hedonista que inclui sexo e experimentação de drogas. Tudo isso que pode ser apontado como rebeldia, no caso dela é apenas imaturidade, ela não sabe o que quer para sua própria vida e a falta de um norte e de uma base não a incomoda nem um pouco. Sua melhor amiga Maureen (Eva Amurri) não poderia ser mais diferente dela, esta sabe o que quer para seu futuro, é responsável e não se deixa se levar pelas “maluquices” da amiga. Apesar da diferença de comportamento gritante, elas são inseparáveis na escola e fora dela. Elas estão prestes a terminar o ensino médio, quando algo acontece na escola.


15 anos se passam desde aquela primavera que anunciava a proximidade das férias de verão, somos então novamente apresentados para Diana (agora interpretada por Uma Thurman), ela se tornou professora de artes, se casou e teve uma filha, chamada Emma (Gabrielle Brennan), cujo comportamento lembra muito o seu quando era adolescente. Diana está angustiada com a proximidade da data na qual completariam 15 anos do ocorrido na escola, que mudara completamente o rumo de sua vida. Ela se mostra então mais frágil do que aparentava ser, ela passa a ser consumida pelo remorso do que acontecera em sua juventude. Ninguém a sua volta parece compreender a sua dor, nem o mesmo seu marido, que tem se tornado cada vez mais distante. A culpa e a pressão que ela impõe sobre si a faz perder em alguns momentos a noção de realidade, mas tudo pode ser apenas um ponte de vista, ou a vida passando diante dos olhos...


O filme possui um roteiro não linear que oscila entre o presente (Diana adulta) e o passado (Diana adolescente), a transição entre os espaços de tempo é bem feita, ponto para a montagem do filme. No entanto, visualmente, o que mais chama a atenção é a belíssima fotografia, Pawel Edelman o diretor responsável explora muito bem a luz solar e a iluminação natural, o que faz toda a diferença em locações abertas ao ar livre e mesmo em aposentos onde os raios de sol invadem trazendo ao ambiente uma claridade quase melancólica. Os pequenos detalhes como um minúsculo inseto sobre uma folha, ou a pétala em uma flor são meticulosamente fotografados, estes pequenos detalhes são crucias para que o filme seja, não só compreendido, mas também sentido pelo expectador.


Eu já vejo a Evan Rachel Wood como uma das melhores atrizes da nova geração de Hollywood, ela realmente tem talento, já Uma Thurman dispensa qualquer comentário, ambas estão muito bem no filme e conseguem dar consistência a personagem que interpretam (destaque também para semelhança física criada entre elas), Gabrielle Brennan também não faz feio e o elenco secundário, com algumas exceções, não deixa a peteca cair. Definitivamente não consigo apontar nenhum aspecto negativo tão significativo que justifique as tantas criticas ruins que o filme recebeu. Ele pode não ser um filme memorável nem uma obra prima, mas é sem dúvidas um filme que compensa ser assistido, principalmente pela contemporaneidade de alguns temas nos quais ele toca. Se tiver alguma oportunidade de vê-lo não a perca. Recomendo!


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terça-feira, 15 de novembro de 2011

Os Infiltrados

Os Infiltrados (The Departed) - 2006. Dirigido por Martin Scorsese. Escrito por Willian Monahan, baseado no roteiro original de Siu Fai Mak e Felix Chong. Direção de Fotografia de Michael Ballhaus. Música Original de Howard Shore. Produzido por Graham King, Brad Pitt e Martin Scorsese. Warner Bros. Pictures / USA | Hong Kong.


Toda vez que me deparo com a notícia de que estão produzindo mais um remake de alguma obra de sucesso, a minha primeira reação é a desconfiança. Geralmente o erro cometido nessas situações é tentar melhorar obras às quais o tempo tornou intocáveis e impossíveis de serem melhoradas. Não tenho curiosidade nenhuma de assistir, por exemplo, ao remake de Oldboy (2003) e com certeza passarei longe da produção que tentará recontar a história de Akira (1987), um dos clássicos da animação japonesa. Porém, em algumas situações, os nomes envolvidos tornam o projeto digno de ao menos uma conferida. Não assisti Conflitos Internos (2002), o longa produzido em Hong Kong que teria dado origem o roteiro de Os Infiltrados (2006) e para ser sincero, quando assisti à esta refilmagem hollywoodiana no cinema, no início de 2007, eu nem tinha ideia de que se tratava de um remake.

Ao menos em Os Infiltrados o peso negativo de ser um remake não desfavoreceu em nada e o segredo pode estar naquilo que já mencionei no parágrafo acima: os nomes envolvidos. De um lado, por detrás das câmeras, temos ninguém menos que Martin Scorsese, que conforme reza a lenda só veio a assistir a versão original depois que seu filme já estava pronto. Não é exagero nenhum afirmar que Scorsese tem no currículo algumas das maiores obras primas do cinema americano na segunda metade do século XX, também não é exagero dizer que ele praticamente reinventou o jeito de fazer filmes de gangster. De outro lado temos um elenco composto por nomes como Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Jack Nicholson, Mark Wahlberg, Martin Sheen e Alec Baldwin. Resumindo, são alguns dos mais respeitados atores em atividade sob a batuta de um dos mestres que ajudou a reinventar o cinema hollywoodiano, isto só poderia mesmo resultar em um enorme sucesso de público e de crítica e em uma boa quantidade de prêmios.


Ultra violência, tensão constante e paranoia permeando histórias sobre ganância, debilidade, glória e fracasso, estes têm sido temas recorrentes nos filmes de Scorsese. Os Infiltrados é a perfeita dosagem desta fórmula que transformou o cineasta em uma verdadeira lenda, cada um dos elementos mencionados estão presentes na trama se completando em uma perfeita harmonia, tal como em uma ópera trágica, que expõe seus personagens como peças em um tabuleiro de xadrez, para a partir daí criar uma expressão artística bela e ao mesmo tempo seca e indigesta. Em uma análise mais ampla, pode-se dizer que Os Infiltrados é um filme sobre estratégia, sai na frente quem tem a melhor tática, é assim na realidade violenta dos subúrbios de Boston, que o longa retrata com um realismo contundente. De um lado está a máfia, composta por homens sanguinários, capazes de qualquer coisa para manter o domínio que conquistaram, do lado oposto está a polícia, que tenta equilibrar justiça e corrupção, sendo tão sanguinária quanto aqueles a quem combate.


Na trama, Colin Sullivan (Matt Damon) foi adotado ainda criança por Frank Costello (Jack Nicholson), este um dos chefões da máfia irlandesa em Boston. Frank cuida da família e da educação do garoto com um único propósito, o de que ele se torne um oficial da polícia e passe, depois de então, a atuar como um espião da máfia no departamento. Billy Costigan (Leonardo DiCaprio) se forma na academia de militares no mesmo período que Colin, mas ao contrário deste, tudo indica que ele não terá uma ascensão rápida, nem conquistará facilmente o respeito dos colegas. Os parentes do lado paterno de Billy têm um extenso histórico criminal e ele durante boa parte da adolescência precisou conviver tanto com banda boa, quanto com a ruim de sua família, ele chegava a simular uma personalidade diferente a cada vez que ia passar o fim de semana no subúrbio, na casa do pai. Sua habilidade de transitar em meio a mafiosos e bandidos menores faz de Billy o homem certo para atuar como um infiltrado da polícia no meio dos criminosos, é isto o que lhe é proposto pelo chefe de polícia Oliver Queenan (Martin Sheen) e pelo sarcástico sargento Dignam (Mark Wahlberg).


Para que o plano esteja acima de qualquer suspeitas, Billy é condenado e preso por agressão, depois de algum tempo ele retorna às ruas sem ter mais nenhum vínculo legal com a polícia. Billy usa a fama de seus familiares para conseguir o respeito de Frank Costello e entrar para sua gangue. É então que o jogo realmente começa. O contexto violento do meio empurra os peões em direção ao território inimigo, algumas peças poderão ser sacrificadas, pois por mais que se iludam, elas não passam de simples peões. O cerco começa a se apertar para os dois infiltrados, pois tanto no departamento de polícia, quando entre os bandidos, surge a suspeita de que algum traidor estaria colocando o adversário em posição vantajosa. Ambos não conseguem esconder a angústia que os toma, Colin até tenta dissimular mas está tão temeroso a aturdido quanto Billy. Ambos são tomados por reflexões forçadas acerca de questões relacionadas à ética, à lealdade e à justiça.


Scorsese dá uma verdadeira aula de cinema, mesmo em meio à explosão da violência pode-se perceber a indiscutível qualidade que ele confere à sua narrativa. Algumas sequências do filme parecem já ter nascido clássicas como a cena que se passa em um consultório de psiquiatria e aquela que encerra magistralmente o filme. Montagem e fotografia ajudam a compor o impacto visual que grande parte do filme nos provoca. A trilha sonora potencializa ainda mais o air clássico que o filme aparenta ter, Rolling Stones está presente, o que não é novidade em filmes do diretor. É sublime o forma com que as canções são usadas nas sequências mais violentas, o que nos leva a pensar que estamos diante de um espetáculo artístico e não de atos tão brutais.


O elenco está muito bem, Matt Damon reafirma mais uma vez sua competência para papéis que exigem muito. Jack Nicholson dá o show habitual que dispensa qualquer comentários. DiCaprio, cujo o estilo de atuação continua me lembrando demais o de Marlon Brando (preste atenção em uma cena que acontece no banco traseiro de um carro e me diga que ela não é uma referência a Sindicato de Ladrões), está excelente, a carga dramática que ele confere ao seus personagens é indescritível. Mark Wahlberg (com um penteado que só não consegue ser mais ridículo do que o de Javier Bardem em Onde os Fracos não Têm Vez) foi privilegiado ao ter a oportunidade de viver um ótimo personagem, mas a impressão que fica é a de que era o ator errado, mas isso não prejudica em nada ao filme. O restante do elenco possui atuações menos marcantes mas nem por isso menos louváveis. Os Infiltrados é, na minha opinião, um dos melhores filmes de Martin Scorsese e um dos mais importantes da década. Se você ainda não assistiu, o que está esperando? Ultra recomendado!

Os Infiltrados ganhou os Oscars de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Edição, tendo sido indicado também na categoria de Melhor Ator Coadjuvante (Mark Wahlberg). No Globo de Ouro o filme ganhou o prêmio de Melhor Diretor e foi indicado nas categorias de Melhor Filme de Drama, Melhor Ator de Drama (Leonardo DiCaprio), Melhor Ator Coadjuvante (Jack Nicholson e Mark Wahlberg) e Melhor Roteiro (William Monahan).


Assista ao trailer de Os Infiltrados no You Tube, clique AQUI !

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a crítica de Cabo do Medo,
também dirigido por Martin Scorsese.


sábado, 12 de novembro de 2011

Sherlock (Série)

Sherlock - 2010. Dirigido por Paul McGuigan. Escrito por Steven Moffat, Mark Gatiss e Steve Thompson. Direção de Fotografia de Steve Lawes e Fabian Wagner. Música Original de Michael Price e David Arnold. Produzido por Eric Watson. BBC / UK.


Ele continua arrogante, egocêntrico e perfeccionista, porém o contexto de 
suas histórias foi trazido do século XIX para os dias de hoje. 

Sherlock Holmes, criado por Sir Arthur Conan Doyle, é sem dúvidas um dos personagens literários mais lembrados e cultuados em todo o mundo. Suas aventuras já foram adaptados diversas vezes para a televisão e para o cinema (são mais de 200 filmes). Para lembrar apenas os mais recentes, podemos citar a adaptação cinematográfica Sherlock Holmes (2009), na qual Robert Downey Jr interpreta o personagem principal, e o seriado House, que pode ser considerado uma livre adaptação da obra escrita. No ano passado, quando qualquer possibilidade de criatividade em torno do personagem parecia já estar esgotada e a ousadia de renová-lo parecia improvável, a BBC estreou a minissérie Sherlock (2010), produção que transportou Holmes e seu fiel escudeiro, o Dr. John Watson, para os dias atuais e os inseriu em um contexto que surpreendentemente não os descaracterizou nem tão pouco caiu no ridículo, como era bem provável de acontecer.


O Sherlock interpretado por Benedict Cumberbatch mais parece um jovem saído de uma banda de Indie Rock, o visual retro com estilo blasé contrasta com os cabelos desgrenhados e acentua a estranheza daquela figura que dificilmente consegue se relacionar com pessoas “normais”. Ele conserva a astúcia e perícia do personagem original, é incrivelmente inteligente e possui uma alta capacidade de dedução, o que deixa todos à sua volta boquiabertos. Tal como nos livros, ele cultiva o gosto pela música clássica e ainda toca violino. Porém algumas mudanças sutis podem ser percebidas no enredo e no personagem, que seriam decorrentes da influência da época atual, na qual a série foi produzida. Por exemplo: Nos escritos de Conan Doyle, o investigador era viciado em cocaína, droga liberada na Inglaterra do século XIX, na minissérie ele é dependente apenas dos adesivos de nicotina, que compensam a falta do tabaco, que ele abandonara recentemente. Outra “adaptação” diz respeito à personalidade de um dos inimigos de Sherlock, revelada no último capítulo da temporada.


Na série, tal como nas histórias que a originaram, Sherlock se vale de todo aparato tecnológico que tem à sua disposição, mas se na época em que os livros foram escritos a análise de impressões digitais era o que se tinha de mais avançado, hoje se tem muito mais, no entanto a tecnologia à qual ele recorre não possui nada de tão extravagante ou tão avançado, são apenas mensagens de celulares, GPSs, internet e quem diria, a televisão. Outro personagem que sofreu a inevitável influência da época do politicamente correto foi Watson (Martin Freeman), ele é o primeiro personagem a aparecer no primeiro capítulo da produção e, pasmem, o cenário é o da guerra no Iraque. Após ser ferido em combate, o jovem médico do pelotão volta para Londres, onde começa a procurar emprego e um lugar para morar, através de uma indicação ele chega até Sherlock, com quem começa a dividir o lendário apartamento localizado na rua Baker Street 221 B.


Watson fica impressionado com a capacidade de dedução do novo colega e seu interesse por ele só se faz aumentar quando começa a acompanha-lo em suas investigações. Geralmente Sherlock entra em cena quando a Scotland Yard não consegue resolver alguns casos, ele tem seus contatos na polícia e estes recorrem a ele quando se vêm diante de situações estranhas e complexas. Ele não cobra nada pelos serviços prestados, pois de alguma forma, o prazer de ver o caso resolvido compensa toda sua dedicação e esforço. Além do incrível poder de dedução, existe outro fator que torna Sherlock apto a mergulhar fundo nas situações que investiga, ele conhece o tipo de mente que se esconde por trás da maioria dos crimes e a explicação para isso é simples: Ele é um sociopata, um desajustado que possui o mesmo tipo de mente fria e calculista.


A primeira temporada teve apenas três capítulos, cada um deles com uma hora e meia de duração, o que justifica a classificação de minissérie, mesmo que esta tenha sido apenas a primeira temporada. Curiosamente eu só fui me dar conta de que cada episódio tinha mais de uma hora, quando estava assistindo à segunda parte. Sherlock possui um ritmo frenético que não permite que você desgrude os olhos da TV, se trata de suspense e mistério da melhor qualidade. A fotografia, os figurinos e a direção de arte são primorosos e compõem o belíssimo visual da série. Londres é quase uma personagem e as cenas filmadas ao ar livre são um atrativo á parte. Cumberbatch e Freeman estão muito bem em seus respectivos personagens. Sherlock pode deixar a parcela mais radical dos fãs dos escritos de Conan Doyle com uma pulga atrás da orelha, afinal se trata de uma releitura, mas posso garantir uma coisa, a minissérie vale a pena e talvez seja uma das melhores produções já feitas sobre Holmes. Se recomendo? Elementar meus caros leitores!


Assistam o trailer da minissérie Sherlock no You Tube, clique AQUI !



segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Pi

Pi - 1998. Dirigido por Darren Aronofsky. Escrito por Darren Aronofsky, Sean Gullette e Eric Watson. Direção de Fotografia de Matthew Libatique. Música Original de Clint Mansell. Produzido por Eric Watson. Protozoa Pictures / EUA.


9:13. Anotação pessoal. Quando eu era criança, minha mãe disse para não olhar para o sol. Mas quando eu tinha seis anos, olhei. Os médicos não sabiam se eu voltaria a enxergar. Fiquei apavorado, sozinho naquela escuridão. Devagar, a luz do dia penetrou através das ataduras e consegui ver, mas algo mudara dentro de mim, naquele dia tive minha primeira dor de cabeça... 

Pi (1998) se inicia com a narração em off do texto acima, feita por Maximillian Cohen (Sean Gullette), o personagem central do filme, ele é um gênio da computação e da matemática que vive recluso da sociedade e imerso em suas pesquisas e experimentos. Ele dificilmente sai de seu minúsculo apartamento e raramente se relaciona com outras pessoas, em alguns momentos ele até tenta ser gentil com seus vizinhos, mas sem muito sucesso, sua compulsão pelo trabalho o torna paranoico e arredio e a pressão psicológica só faz aumentar a intensidade de suas constantes dores de cabeça.

Neste filme, seu longa de estreia, Darren Aronofsky explora a ideia de que é realmente tênue a linha que separa a genialidade da loucura. Esta, que talvez seja a mais autoral de suas obras, tem sua trama construída sobre a obsessão, temática que ele trabalharia em quase todos os seus filmes. Max Cohen trilha o mesmo caminho que seria percorrido pelos personagens centrais de Réquiem para um Sonho (2000), de O Lutador (2008) e de Cisne Negro (2010), sua compulsão o leva a um desempenho sobre-humano, mas também o conduz à autodegradação. Como uma doença, a ideia fixa que ele tem o contamina e o destrói pouco a pouco. Mesmo tendo exemplos à sua volta, ele não consegue aceitar a ideia de que seu trabalho o consumirá e se mantém em um ritmo visceral, sustentado pelo uso descontrolado de remédios e pelo consumo de drogas.


Quando escrevi a resenha crítica de Cisne Negro cheguei a tecer um paralelo entre a sua história e a do conto O Artista da Fome de Franz Kafka, pois ambos abordam de forma semelhante a angústia de indivíduos que se martirizam em nome de sua expressão artística. Não sei até que ponto a obra do escritor checo serviu de referência para Aronofsky, mas a verdade é que tal inflência, tenha sido ela direta ou indireta, está nitidamente presente também em Pi. Tal como Kafka, o cineasta construiu em suas produções um verdadeiro tratado sobre culpa, sofrimento e expiação, o que diferencia suas respectivas abordagens é apenas a percepção de cada um sobre a questão da culpa. Se em Kafka, tal sentimento está intrínseco nos personagens determinando suas atitudes, em Aronofsky ele não está tão explícito, funcionando mais como um elemento catártico, cujo o alvo somos nós expectadores e não os personagens.


Diferente de Kafka, para quem a simples existência e a culpa eram indissociáveis, o cineasta parece acreditar que o “pecado” está em ir além de suas próprias forças, em extrapolar seus limites em busca de um desempenho transcendente. Não é exagero dizer que os filmes de Darren Aronofsky são de certo modo moralizantes, de alguma forma eles estão nos dizendo: “cuidado, não enveredem por estes caminhos, ou também terão de pagar o mesmo preço”. Nos filmes do diretor, edição, fotografia e trilha sonora colaboram de uma forma incrível para que nós espectadores sejamos inseridos no drama e na realidade experimentada pelos personagens. Astuto, Aronofsky utiliza diversos artifícios para a construção da situação trágica que culmina com a catarse. Em Pi os mais evidentes destes artifícios são a edição e a fotografia, a primeira confere ao filme um ritmo rápido, onde a noção de tempo e realidade são postas em cheque, a segunda busca referência no Expressionismo Alemão para construir um clima angustiante e opressivo.


"12:45. Reitero minhas suposições: 1 - A matemática é a linguagem da natureza. 2 - Tudo pode ser representado e compreendido através de números. 3 - Ao fazer gráficos de números de qualquer sistema, surgem padrões. Portanto há padrões em tudo na natureza. Evidências: Ciclo das epidemias, o aumento e a diminuição da população de caribus, os ciclos das manchas solares, a cheia e a baixa do Nilo... E a Bolsa de Valores? O Universo de números que representa a economia global, milhões de pessoas trabalhando, bilhões de mentes, uma vasta rede pulsante e viva, um organismo, um organismo natural. Minha hipótese: Na Bolsa há um padrão!"

Na história, Max está obcecado com a ideia de encontrar um padrão numérico que explique a criação, natureza e tudo o mais que existe, o número pi seria a chave deste segredo. Na matemática o Pi  é uma proporção numérica originada da relação entre as grandezas do perímetro de uma circunferência e seu diâmetro e equivale a aproximadamente 3,14. A progressão decimal do número se estende até o infinito, sem que já tenha sido observado nela nenhum tipo de padrão de repetição. É este padrão que Max tenta incansavelmente descobrir, para tal ele usa um super computador e uma teia de circuitos capazes de processar cálculos astronômicos.


A pesquisa de Max acaba despertando o interesse de gente muito poderosa e o coloca em perigo. Capangas armados de Wall Street começam a persegui-lo em todos os lugares para onde ele vai, eles lhe oferecem incentivos para trabalhar em parceria com eles, mas ele se recusa a se desviar de seu foco principal. Membros de uma corrente mística do judaísmo também passam a assediá-lo, eles acreditam que o padrão numérico que ele está prestes a descobrir seria uma espécie de tradução da linguagem divina, que se manifesta na criação do universo e nas escrituras sagradas. Um dos judeus, que se torna amigo de Max, o convence que cada sequência numérica representaria uma palavra na Torá, citando exemplos curiosos. O padrão buscado no Pi seria então a revelação do segredo e da natureza divina, que de alguma forma Deus queria revelar ao seu povo escolhido. Com tanta gente em seu encalço, Max se torna cada vez mais perturbado pela sua fixação. A realidade então se torna cada vez mais confusa, tanto para ele quanto para nós expectadores e surgem então os questionamentos acerca da veracidade de tudo que ele vivencia, no entanto são apenas perguntas que não necessariamente serão respondidas... 


O final aberto, característico dos filmes do diretor, associado à complexidade das questões levantadas e à estética simplicista do filme pode afastar e causar reações negativas no público médio, que não está acostumado à fragmentação e à dualidade deste tipo de produção. Mas quem valoriza obras instigantes e avessas aos moldes do mainstrean irá se deleitar com este filme. Pi foi uma das melhores estreias de um diretor na década de 90, ele foi o prenúncio do surgimento de uma das maiores mentes do cinema americano contemporâneo. Aronofsky conseguiu realizar a façanha de se inserir no mercado cinematográfico sem precisar se enquadrar nos padrões pré-estabelecidos pela indústria de Hollywood, o cunho autoral de suas obras é a prova mais concreta desta afirmação. Ao assistir Pi preste atenção nos enquadramentos e em algumas sequencias que parecem se repetir em outros dos filmes do diretor (como o caso de uma cena em um metrô que seria recriada em Cisne Negro). Pode não ser fácil encontrar o filme em DVD, portanto se você tiver a chance de assisti-lo não a desperdice! Ultra recomendado!

Conforme divulgado em meados deste ano, Darren Aronofsky está empenhado em realizar um de seus antigos projetos, rodar um épico sobre a história bíblica do patriarca Noé. Conhecendo o estilo do diretor, pode-se esperar que esta seja uma produção no mínimo "não convencional"...


Assista ao trailer de Pi no You Tube, clique AQUI !

Não deixe de conferir também aqui no Sublime Irrealidade,
as resenhas críticas de Cisne Negro e de O Lutador !


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Um Convidado Bem Trapalhão

Um Convidado Bem Trapalhão (The Party) - 1968. Dirigido por Blake Edwards. Escrito por Blake Edwards, Tom Waldman e Frank Waldman. Direção de Fotografia de Lucien Ballard. Música Original de Henry Mancini. Produzido por Blake Edwards. The Mirisch Corporation / EUA.

 

Um Convidado Bem Trapalhão (1968) foi o último fruto de uma parceria de sucesso entre o ator Peter Sallers e o diretor Blake Edwards, que rendera a clássica franquia de A Pantera Cor de Rosa. Apesar de figurar em diversas daquelas famigeradas listas de melhores de todos os tempos, o filme não tem, ao menos ao meu ver, nada de tão excepcional. A habilidade da atuação de Sallers e o timing preciso de Edwards na construção das gags são claramente perceptíveis, mas durante todo o filme a impressão que fica é a de que falta algo que justifique a ovacionação dele pela crítica e por alguns cinéfilos. É uma comédia engraçada, mas não do tipo que te faz dar gargalhadas, a trama tem diversos pontos positivos e ótimos momentos, mas nada que já não tenhamos visto em outros clássicos do humor que o precederam.

Penso que o melhor do filme não é sua veia cômica, mas sim a crítica sofisticada que que ele faz aos bastidores de Hollywood. Produtores, diretores e atores são mostrados como indivíduos cheios de si e arrogantes, eles não conseguem assimilar o diferente e fazem de tudo para manter as aparências. Os toques de ironia espalhados pelo roteiro ficam evidentes nas interações entre Hrundi Bakshi (Peter Sallers), o personagem principal, uma espécie de intruso em um meio hostil, e seus anfitriões e demais convidados. Em uma das sequências mais memoráveis, Hrundi se apresenta dizendo que veio da Índia, seu interlocutor, um ator de faroestes, o confunde então com um indígena americano. Em outra sequência, um produtor tenta assediar uma atriz iniciante a quem introduzira no meio e dava “apoio”, esta uma alegoria perfeita da forma com que a indústria trata as novas ideias e os novos profissionais.

 

Não sei se esta crítica feita aos "hollywoodianos" foi ou não intencional, Blake Edwards nunca a admitiu publicamente, mas como o ano era 68 (o ano que não terminou como bem diria Zuenir Ventura), qualquer indício de politização e contestação era percebido rapidamente e a revista francesa Cahiers du Cinéma (que tinha em seu expediente Godard, Truffaut, Rivette e Chabrol) não deixou este passar batido, em seu artigo publicado no periódico o crítico Pascal Bonitzer resumiu: “Um ator que simboliza o terceiro-mundo destrói uma mansão que simboliza Hollywood – uma alegoria da revolução que vai revolucionar o cinema”. Tal interpretação pode ser um pouco exagerada, mas dada a época em que foi publicada, ela era realmente válida, pois de alguma forma o filme ilustrava uma parte da revolução política e estética que o cinema então experimentava.

 

Hrundi é um ator sem nenhum prestígio em Hollywood, ele não nasceu para ser galã e ainda tem um dom infalível para fazer burradas e atrair confusão. O prólogo do longa o mostra durante as filmagens de um épico no qual ele está atuando como coadjuvante. Ele consegue atrasar o andamento das gravações por não aceitar encenar a morte de seu personagem, um tocador de trombeta que se recusa a tombar ao ser atingido em batalha. Isso deixa o diretor do filme enfurecido, mas este é só o começo, em seguida o coadjuvante aparece em outra cena usando um relógio de pulso, algo inconcebível em filme que se passa em 1878. No entanto, a paciência do diretor vai para as aturas é quando Hrundi consegue acionar acidentalmente o detonador de um explosivo que destrói parte da locação antes da hora prevista.

 

O diretor garante que o desastrado nunca mais irá atuar nem no cinema nem na televisão, ele então liga para um dos magnatas de Hollywood e lhe propõe um boicote ao ator. A verdadeira confusão, que dá o mote ao filme, acontece no momento que este magnata anota o confuso nome do encrenqueiro, sem perceber ele escreve o nome no rodapé de uma lista de convidados para um festa de gala, que ele daria em sua mansão. Hrundi é então convidado por engano, dispensável dizer que ele aceita prontamente o convite e aparece na festa mesmo sem conhecer ninguém que estará lá. Durante boa parte da noite ele fica perdido tentando se relacionar com outros convidados, o que não é uma tarefa fácil, pois nenhum deles, com exceção do já citado ator de faroeste, consegue enxergar além de seus próprios egos.

 

Quando começou a rodar Um Convidado Bem Trapalhão, Blake Edwards tinha pouco mais de 50 páginas de roteiro escrito, quase tudo que vemos na tela é resultado da improvisação dele e do ator, que acreditavam já ter uma química bem desenvolvida, mas a verdade é que isso por si só não foi o suficiente. A carência de um roteiro fica explicita em algumas sequências bem irregulares, que parecem destonantes quando comparadas ao resto do filme. A sequência que mostra uma invasão hippie à festa, que acontece perto do final, é a melhor prova disso, esta é de longe a pior passagem do filme. A inserção de um animal de porte considerável em cena é apelativa e só aponta para a falta de algo que melhor retratasse o caos que se instalara no local. Este não é um filme ruim, tampouco um clássico indispensável, o recomendo para quem curta comédias pastelão e para os fãs de Sellers e de Edwards...


Assistam ao trailer de Um Convidado Bem Trapalhão
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