N° de acessos:

sábado, 24 de março de 2012

Deus da Carnificina

Deus da Carnificina (Carnage) - 2011. Dirigido por Roman Polanski. Escrito por Yasmina Reza e Roman Polanski, baseado na peça Le Dieu du carnage de Yasmina Reza. Música Original de Alexandre Desplat. Direção de Fotografia de Pawel Edelman. Produzido por Saïd Ben Saïd. Constantin Film Produktion, SBS Productions e SPI Poland / França |Alemanha | Polónia | Espanha.


Deus da Carnificina começa com um plano aberto que mostra o pátio de uma escola. De longe, como que para não induzir á parcialidade, alguns garotos são mostrado;, um conflito começa entre alguns deles, a câmera faz uma leva aproximação e mostra quando um dos meninos ataca outro com uma vara, atingindo-o no rosto... Toda esta sequência é conduzida pela trilha sonora de Alexandre Desplat, que já dá nestes primeiros minutos o tom aflitivo e ao mesmo tempo cômico, que o filme adotará em seu desenvolvimento. Terminados os créditos de abertura, que acontecem simultaneamente à esta sequência, somos levados para a residência de Penelope (Jodie Foster) e Michael Longstreet (John C. Reilly), os pais do garoto que fora ferido na briga. Nancy (Kate Winslet) e Alan Cowan (Christoph Waltz), os pais do garoto agressor, vão até lá para tentar resolver o problema da maneira mais civilizada possível, através do diálogo, no entanto não é isso que acontece... À medida que o roteiro avança, numa tempestade verborrágica, que só se faz intensificar, as máscaras socais de cada um dos personagens vão caindo e eles são desnudados, para serem assim compreendidos ou ao menos analisados.

A casa dos Longstreet é o cenário onde todo o filme se desenvolverá, a sala de estar se torna, tal como no teatro, um palco para a exploração dos conflitos que se dão entre os personagens, conflito este motivado pelo atrito entre as diferenças de suas respectivas visões de mundo e da intolerância nutrida por cada um deles. A dificuldade de perdoar e de compreender a posição do outro e o pré-julgamento que fazem, expõem um lado obscuro e animalesco do ser humano. Em um diálogo, na tentativa de justificar o próprio comportamento, um dos personagens diz: “eu acredito no Deus da carnificina, que reinou sobre todos nós há milhares de anos...”; vem desta declaração o título da obra, ela, dado o contexto no qual é dita, não poderia ser mais pertinente, uma vez que a mesma intolerância e egocentrismo que gera o conflito entre os personagens, é também aquela tem gerado conflitos de proporções e conseqüências bem maiores desde os primórdios da história da humanidade. No decorrer do filme, o comportamento e a racionalidade dos personagens se definham, passando pela infantilidade (o que nos remete à cena inicial do filme) até chegar à animalização, status no qual eles passam a reagir, não mais pela razão, mas tão somente pelos seus instintos, expondo assim uma natureza que chega a ser assustadora.


Roman Polanski não nos permite perder a noção de que estamos diante de uma encenação, uma alegoria, e não de algo que busque ser uma remontagem perfeita do real. O foco narrativo do filme, não é o caso envolvendo as crianças, nem os sentimentos dos quatro personagens centrais, mas sim a forma com que seus comportamentos, quando reunidos sob um mesmo teto, servem de metáfora para o comportamento social, com seus vícios de caráter e desvios morais. Ao analisarmos a obra por esta perspectiva, percebemos o quanto há de crítica social nela, tal viés se manifesta na abordagem de temas como a desestruturação familiar e a criação de filhos, onde se salientam os preconceitos e o egocentrismo... Em uma passagem um dos personagens se gaba de morar em Nova Iorque e de ter valores ocidentais, este comentário carregado de xenofobia é uma clara alfinetada em nós como sociedade, afinal tal como ele, achamos que somos mais civilizados, racionais e coerentes, que os demais quando na verdade às vezes basta um pequeno impulso pare que exibamos um comportamento digno de vergonha.


A convergência entre teatro e cinema, que o roteiro proporciona, não chega a ser um problema, como já o foi em diversas outras produções que tentaram seguir a mesma linha. O encontro entre as linguagens funciona bem na maior parte do filme, e mais que isso, ele serve ao propósito principal do longa, o de ser uma sátira social, esta conotação confere a Deus da Carnificina uma roupagem que nos remete à comédia de costumes como gênero, no entanto a acidez da trama não nos induz à gargalhadas e o absurdo que presenciamos causa mais estranhez do que risos. Este entrelaçamento entre linguagens diferentes influenciam diretamente nas atuações, Kate, Judie, Christoph e John esbanjam talento em seus respectivos papéis, suas atuações são inspiradas e cheias de técnica, porém vazias de sentimento (não confundir com o sentimento dos personagens), isto que poderia um problema também acaba funcionando a favor do filme, uma vez que o foco, como eu já disse, não está nos sentimentos nem na "verdade" das atuações, mas sim nos comportamentos dos personagens e em suas reações às atitudes alheias. 


A situação em torno da qual o filme gira, dois casais em conflito, nos faz lembrar do formato adotado por Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (1967) de Mike Nichols, outro que saiu dos teatros para ganhar as telas. Apesar de sus histórias se firmarem sob circunstâncias diferentes, a semelhança transcende o formato e pode ser observada também na acidez de suas tramas, na verborragia e situações absurdas de seus roteiros e obviamente na crítica que ambos tecem à família como instituição e às máscaras sociais, atrás das quais muitos se escondem. Ambos quebram a camada de verniz social para assim descobrir o quão repugnante é o que existe por baixo, aquilo que tentamos manter oculto à vista dos outros.


Um dos aspectos que salvam Deus da Carnificina de se tornar mais uma obra falha na pretensão de aproximar a linguagem teatral da cinematográfica, é, sem dúvidas, a direção de Roman Polanski, a habilidade do cineasta de captar o essencial de situação e de manter um ritmo crescente durante todo o filme contam muito para o resultado final. Os enquadramentos, por vezes inusitados, ajudam a formar em nós espectadores a impressão de se estar invadindo aquele lar e explorando cada um dos personagens como animais presos em uma jaula. São percepções e detalhes como estes que comprovam que o filme é mais que uma mera transposição de um texto teatral, ele é cinema e cinema de ótima qualidade!


Acredito que assistir à peça seja uma experiência fantástica e talvez ainda mais forte que esta proporcionada pelo filme, mas a verdade é que Deus da Carnificina cumpre muito bem seu papel de adaptação, ele pode não ser a melhor obra do diretor, nem dos atores envolvidos, contudo é um filme que merece muito ser conferido, talvez até mais de uma vez, para que possamos assim compreendê-lo da melhor maneira possível...  Ao assisti-lo, preste atenção no timing preciso desenvolvido pelos atores nos diálogos, que se dão numa espécie de ping-pong, na trilha composta por Desplat, que marca cada uma das passagens em que ganha destaque e nas entrelinhas dos diálogos, pois são elas que fazem toda a diferença...  Não espere desta produção uma comédia pastelão, nem tão pouco um dramalhão, ela é apenas uma encenação satírica do lado mais feio e reprovável da natureza humana... Eu o recomendo para todos!


Deus da Carnificina estreou no Festival de Veneza, onde recebeu o Prêmio Pequeno Leão de Ouro. O filme recebeu duas indicações no Globo de Ouro na categoria de Melhor Atriz de Comédia ou Musical (Jodie Foster e Kate Winslet).

Assistam ao trailer de Deus da Carnificina no You Tube, clique AQUI

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra, 
portanto não devem ser consideradas spoilers!

terça-feira, 20 de março de 2012

Alien, o Oitavo Passageiro

Alien, o Oitavo Passageiro (Alien) - 1979. Dirigido por Ridley Scott. Escrito por Dan O'Bannon e Ronald Shusett, baseado no livro de Dan O'Bannon. Música Original de Jerry Goldsmith. Direção de Fotografia de Derek Vanlint. Produzido por Gordon Carroll, David Giler e Walter Hill. Brandywine Productions e Twentieth Century-Fox Productions / USA | UK.


São pouquíssimos os filmes de ficção científica que conseguem ultrapassar décadas sem se tornarem datados e consequentemente obsoletos, Alien, o Oitavo Passageiro (1979) de Ridley Scott é um destes, se por um lado o impacto dos sustos que ele provoca foi diminuído com o tempo, uma vez que algumas sequências hoje beiram o grotesco, por outro o suspense que conduz o seu ritmo permanece intacto, assim como a direção de arte, que mais de 30 anos depois, ainda consegue nos convencer de que a trama se passa de fato dentro de uma nave espacial, sem que esta se pareça com uma barca iluminada por pisca-piscas de natal. Apenas com algumas ressalvas, no que tange o visual dos personagens e o monstro propriamente dito, que nos remetem de imediato à época na qual o filme foi produzido, todos os outros aspectos fazem com que sejamos facilmente convencidos de que ele poderia ter sido filmado nos dias de hoje.

Alien realizou o elogiável feito de transpor os limites dos gêneros sob os quais sua trama está firmada, o terror e a  sci-fi., se tornando assim um venerado clássico cultque rendeu três continuações e mais alguns spin-offs caça niqueis. Todo o alarde em torno dele não é de todo injustificável, uma vez que ele vale a pena ser visto não só pelo fato de ter envelhecido bem, mas também pela sua inegável qualidade técnica e estética, pelos nomes envolvidos e pela excelente condução de seu suspense. 


Quase toda a trama de Alien se desenrola dentro da nave espacial Nostromo, que realiza uma espécia de arqueologia espacial, a embarcação é tripulada por 7 astronautas, figuras peculiares, cada um deles tem uma função específica na missão, da qual já estão de retorno. Eles estão já na rota de volta para a Terra, quando recebem uma mensagem, que não conseguem decifrar, vinda de um outro planeta, eles decidem pousar e investigar. Durante a missão de reconhecimento um dos astronautas é atacado por uma criatura que se gruda ao seu rosto, seus companheiros o socorrem e o levam de volta para a nave, deixando para trás o planeta desconhecido. Já na nave, após algumas tentativas frustradas da equipe, a criatura se desprende da face do homem e morre logo em seguida. Todos acreditam que a história está acabada e decidem continuar a viagem de volta, sem saberem que um novo tripulante está a bordo: o oitavo passageiro...


Em minha opinião, os melhores aspectos do filme continuam sendo a o peso da regência de Ridley Scott, a direção de arte e os efeitos visuais. Ridley é o responsável pelo filme não ter se tornado uma espécie de horror cômico, daqueles que chamam atenção mais pela sua falta de destreza em tentar nos assustar do que pelos seus atributos dramáticos e técnicos. A direção de arte e os efeitos visuais auxiliam à direção no árduo trabalho de fazer o longa se tornar aquilo que ele se tornou com o tempo: um clássico cultuado por diversas gerações de críticos e cinéfilos. Alien aproveitou da melhor forma possível a influência dos filmes de monstro e produções “B” das décadas anteriores, buscando nelas a temática, que seu roteiro sabiamente transformaria não tão somente em um terror convencional, mas em um intenso suspense psicológico...


A sensação de claustrofobia nos dutos e corredores escuros da Nostromo é indescritível, a ambientação neste caso causa mais apreensão que o próprio monstro. O alienígena raramente aparece em cena, o que torna menos risível sua imagem meio tosca (dada a tecnologia da época) e ainda aumenta o temor acerca de como e quando ele aparecerá novamente, fomentando desta forma o suspense da trama... Outro aspecto legal do filme é podermos através dele conferir o desempenho de atores, como John Hurt e Sigourney Weaver nos primórdios de suas carreiras; Hurt protagoniza uma das sequências mais memoráveis do filme e da história do cinema (a clássica cena do café da manhã), a Weaver interpreta aquela que é no mínimo uma das personagens mais importantes de toda a franquia... Contudo, as atuações em si não trazem praticamente nada de tão extraordinário.


Está prevista para 8 de junho deste ano, a estreia de Prometheus, obra mais recente de Ridley Scott, que promete ser uma espécie de prelúdio da franquia de Alien, este lançamente provavelmente provocará uma onda de revisitação à esta que foi a primeira obra a levar o monstrengo alienígena para as telas do cinema; aquele que embarcar nesta viagem espacial pela primeira vez irá se deparar com um dos filmes mais importantes e influentes do final dos anos 70, época prolífera de Hollywood, com um clássico bem envelhecido que continua funcionando maravilhosamente bem... Recomendo!


Alien ganhou o Oscar na categoria de Melhores Efeitos Visuais e recebeu 
uma indicação na de Melhor Direção de Arte.

Assistam ao trailer de Alien no You Tube, clique AQUI ! 

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra, 
portanto não devem ser consideradas spoilers!

sábado, 17 de março de 2012

O Capitão Saiu para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio - Charles Bukowski

O Capitão Saiu para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio de Charles Bukowski. Lançado postumamente em 1998. Com ilustrações de Robert Crumb.Tradução de Bettina Gertum Becker. Porto Alegre. L&PM Pocket, 1999.


Charles Bukowski nasceu e 1920 na Alemanha, filho de um soldado americano e de uma jovem alemã, aos três anos de idade ele foi levado pelos seus pais para viver nos Estados Unidos. Ele cresceu e passou a maior parte de sua vida na cidade de Los Angeles, convivendo desde cedo com a pobreza e com os marginalizados. Dos primeiros anos de sua vida no novo continente, ficariam as marcas da violência doméstica protagonizada pelo seu pai e a exclusão experimentada na escola e nos outros meios sociais que frequentava. Uma doença, que lhe causava inflamações na pele, lhe deixara com o rosto todo deformado, o que dificultava ainda mais a sua aceitação nos círculos, com os quais ele tentava interagir. Bukowski começou a escrever poesias quando ainda era um adolescente, por volta dos 15 anos, porém o reconhecimento só viria bastante tempo depois, já na década de 50, quando ele já estava beirando a casa dos quarenta. O sucesso seria o atalho para uma vida desregrada de intermináveis bebedeiras, jogatinas e frequentes orgias sexuais...

A obra de Bukowski tem sido frequentemente associada ao movimento beat, no entanto ele fazia questão de negar veementemente tal associação, ele se manteve suficientemente afastado daqueles que foram os principais nomes daquela corrente artístico-literária: Jack Kerouac (autor do clássico On The Road) e Allen Ginsberg. Contudo, tanto ele quanto os beatniks se tornariam parte de algo muito maior que ainda estava em fase de germinação: a contra-cultura. Bukowski, o último "escritor maldito" seria um dos precursores do desbunde cultural que ganharia ainda mais força durante a década seguinte. A crítica social, o desapego, o ideal do amor livre e a subversão, aspectos recorrentes de sua obra, estavam em perfeita sintonia com a ebulição do cenário político e cultural de sua época e não é exagero nenhum dizer que ele é parte da geração que ajudou a mudar o mundo - ainda que esta mudança não tenha sido aquela com a qual boa parte de seus contemporâneos sonharam...


"Talvez haja um inferno, será? Se houver, lá estarei e sabem o que mais? Todos os petas estarão lá, lendo seus trabalhos e eu vou ter que ouvir. Serei afogado por sua elegante vaidade, por sua transbordante autoestima. Se houver um inferno, este será o meu: um poeta atrás do outro lendo sem parar..."

O Capitão Saiu para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio reúne escritos do diário de Bukowski, que compreendem um período que vai de agosto de 1991 a fevereiro de 1993. Em cada um dos breves relatos de seu cotiano, ele expõe de forma seca e bem direta a sua frustração com a própria vida, o desgosto em relação ao mundo à sua volta, a sua birra com os demais artistas e intelectuais e a "marginalidade", que sempre lhe foi tão característica. De acordo com os relatos publicados, a vida do escritor, que fora tão agitada, se resumia agora em visitas diárias ao hipódromo de sua cidade durante o dia  (as apostas continuavam sendo um de seus vícios) e em escrever, como se aquele dia fosse o último, durante a noite. Os depoimentos deixam claro que o que ainda o mantinha vivo era a sua compulsão pela produção literária e a companhia da esposa Linda, que ele cita em quase todos os fragmentos.


"Ficar velho é muito estranho. A coisa principal é que você tem que ficar constantemente dizendo a si mesmo estou velho, estou velho. Você se vê no espelho quando desce no elevador, mas não olha diretamente para o espelho, dá uma olhada de lado, um sorriso amarelo... Você já deveria estar morto há 35 anos. isto é uma cena a mais, mais uma olhada no show de horror..."

Talvez este não seja a melhor obra para uma iniciação na literatura de Bukowski, contudo ele funciona perfeitamente como um caminho para a mente do escritor, onde se encontram todo o peso de uma intensa vida de excessos e imoralidades, que só então cobrava o seu alto preço... O aspecto que mais me chamou a atenção durante a leitura do livro, foi a forma com que o escritor abre algumas de suas feridas não cicatrizadas e mostra a nós leitores o sangue que escorre ainda fresco. Ele fala abertamente de sua senilidade e dos inúmeros problemas inerentes à ela, tais como a falta de destreza física, a perda progressiva da visão e até da incontinência urinária. "Buk" comenta ainda a sua falta de paciência com fãs e jornalistas e principalmente o seu desapontamento com o  sucesso conquistado, que fora para si uma espécie de "ouro de tolo". De cada um de seus relatos emanam raiva, angústia e ressentimento, sentimentos estes que ora se levantam contra o mundo, ora contra os outros escritores, ora contra ele mesmo...


Curiosa, foi a forma com que acabei me identificando com boa parte de seus escritos. Eu enxerguei a minha atual realidade em seus relatos sobre a vida que já não era mais vivida, os dias que eram tão somente "empurrados" e a angustiante repetição da rotina. Em alguns momentos da leitura eu me via, tal como ele, como um velho rabugento que não suporta mais o peso de sua própria existência... No entanto após um pouco de reflexão percebi, que o sentimento emanado de seus depoimentos, não eram assim tão exclusivos da dita "melhor idade", mas sim algo passível de ser experimentado por todos que são obrigados pelas circunstâncias a se enquadrarem em uma vida mesquinha, que parece não ter sido feita para eles... 


O Capitão Saiu para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio foi publicado quase quatro anos após a morte de Charles Bukowski, os fragmentos foram selecionados por ele mesmo pouco tempo antes de sua morte.

A edição do livro conta ainda com diversas ilustrações de Robert Crumb, que intentam retratar algumas das passagens contadas pelo escritor (vide imagem acima). 

O livro o é uma obra prima literária, mas ainda assim merece ser lido, creio que principalmente por aqueles que já estão familiarizados  com a obra do "velho safado" e que queiram embarcar nesta viagem pela sua mente atormentada e em constante ebulição!

Post dedicado à amiga Joicy Sorcière, pois foi por causa do artigo "Bukowski... cheio de estilo!", publicado por ela em seu blog, o Umas e Outras, que eu decidi comprar o livro... 


quarta-feira, 14 de março de 2012

Viver a Vida

Viver a Vida (Vivre sa Vie) - 1962. Escrito e Dirigido por Jean-Luc Godard, inspirado pelo livro Où en est la prostitution de Marcel Sacotte. Música Original de Michel Legrand. Direção de Fotografia de Raoul Coutard. Produzido por Pierre Braunberger. Les Films de la Pléiade e Pathé Consortium Cinéma / França.


Assistir a um filme de Godard é uma experiência única ao meu ver, é vivenciar, não tão somente o drama ou a ventura de seus personagens, mas a arte cinematográfica como um todo, que pode ser sentida como uma máquina pulsante, que trabalha à todo vapor, sendo desmontada e em seguida reconstruída, ciclicamente, sem que para isso seja necessário interromper seu pleno funcionamento. Por isso em seus filmes qualquer olhar reducionista e limitado pode prejudicar toda apreciação e todo o entendimento. Suas obras  geralmente trazem consigo uma gama de significados e conceitos, alguns aparentes e outros nem tanto, mas todos de extrema importância para uma plena compreensão de sua genialidade. Em seus filmes, entrelaçadas à trama e tão importantes quanto ela, estão a experimentação e a reinvenção constante do cinema como expressão artística e da forma com que se dá o "diálogo" com nós espectadores.

Tal como no modelo do Teatro Épico, proposto por Bertolt Brecht, nas obras de Godard o ser humano é apresentado como obejeto de investigação, passível de constantes transformações, e não como algo previamente conhecido e imutável, é justamente nesta característica que se encontra um dos principais vieses da reconhecida politização do cineasta. De acordo com tal visão, se o homem é um ser “inacabado”, ele pode ser instigado à permanente transformação, sendo que esta viria através da reflexão consciente, que é geralmente proposta pelo diretor/autor em seus roteiros. Este aspecto pode ser facilmente percebido na história e na montagem do excelente Viver a Vida (1962), uma de suas obras mais cultuadas.


Vivre sa Vie” (Viver a Vida) é uma uma gíria francesa usada como referência à prostituição, mas no filme, que narra as peripécias de Nana Kleinfrankenheim (Anna Karina), uma garota de programa, tal expressão ganha ainda uma outra conotação, falarei dela mais adiante, vamos primeiro à trama: Nana é uma linda jovem de 22 anos que deixou o marido e o filho, ainda bebê, para perseguir o sonho de ser atriz de cinema, o que ela não esperava é que a nova vida não seria nada fácil. Sem conseguir realizar suas pretensões, ela se vê compelida a se prostituir para se sustentar. O mote já trás explicita a conotação original da gíria, porém há a outra, que não está assim tão aparente, Vivre sa Vie” é também na trama uma referência à nossa existência, á condição que experimentamos quando tomamos ciência de quem realmente somos... No filme Godard brinca com a noção da realidade, criando assim uma alegoria do próprio cinema; em tons de metalinguagem ele propõe uma reflexão existencialista acerca de nossa percepção de nós mesmos, enquanto indivíduos, e da realidade à nossa volta.


Eu acho que sempre somos responsáveis pelo que fazemos, somos livres! Se eu levanto minha mão, sou responsável; se viro a cabeça para direita, sou responsável; se estou infeliz, sou responsável; se fumo um cigarro, sou responsável; se fecho os meus olhos, sou responsável... Eu esqueço que sou responsável, mas eu o sou...

Nana em um determinado momento do filme expõe seu desapontamento em perceber que por vezes suas palavras são vazias e mentirosas, mas a verdade é que elas não são assim por sua culpa, mas pelo simples fato de não pertencerem à ela, afinal ela é tão somente uma personagem (fato que o roteiro não faz questão de dissimular) e por mais que ela se afirme como responsável pelos seus atos, ela não o é... Ao se encontrar imersa em uma reflexão que lhe gera dúvidas profundas, Nana direciona seu olhar para a câmera, como se descobrisse pela primeira vez sua real condição, contudo, ela logo desvia o olhar e dá sequência ao diálogo, como se negasse aquilo que realmente é, penso que isto pode ser também compreendido como uma espécie de releitura da alegoria da caverna de Platão. 


Godard recorre ao modele de Brecht ao desconstruir a narrativa fílmica clássica, visando provocar com isso um desconforto em nós expectadores, que somos tirados da condição de público passivo e induzidos à reflexão e à tomada de decisões; isto pode ser observado em uma outra passagem, na qual um personagem recita um trecho de um livro de Edgar Allan Poe, que narra a história de um pintor que produzia um retrato de sua esposa, ele mergulha em sua arte de tal forma que a tela passa a ser sua realidade, só após termina-la e desprender-se dela, ele descobre que a sua esposa jazia morta atrás dele... Com esta história, por exemplo, somos instigados a questionar a nossa própria realidade; será que ela é de fato verdadeira, ou será que não passa de uma ilusão, assim como o quadro do conto, ou as sombras na caverna de Platão? A personagem central do filme se vê diante da mesma reflexão, ela no entanto é incapaz de responder por si, dada sua condição, mas nós não o somos, ao percebermos isso, abre-se uma porta para mudanças e transformações em nossa maneira de interpretar e de interagir com o mundo à nossa volta.


A inegável influência de Bertolt Brecht está também na montagem do filme, que faz com que cada sequência exista por si mesma, independente das demais. A trama é dividida em 12 partes e cada uma destas em "subtítulos" que anunciam de forma literal alguns dos acontecimentos daquela secção... A tensão é desenvolvida pelo andamento da trama e não pela prenunciação da solução dos conflitos dramáticos, aspecto também característico do Teatro Épico; esta constatação explica a forma seca com que Godard conclui o longa, sem catarse nem qualquer tipo de redenção, nem para a personagem, nem para nós nós expectadores... É interessante também a forma com a câmera relata a ação, capturando as imagens ora por ângulos improváveis, como na primeira sequência em que os personagens são focados pelas costas, ora de forma ensandecida, como na cena memorável em que Nana dança em um bar, se insinuando de forma sensual para os presentes.


Anna Karina é como sempre um destaque à parte no filme, sou meio suspeito para falar, pois para mim ela é uma das mais belas atrizes de todos os tempos, não tem como não se apaixonar por aquele olhar cheio de expressão e embebecido de sentimentos diversos... Acreditem ou não, ela chegou a acusar Godard, seu marido na época, de tê-la enfeiado no filme, acusação que, convenhamos, é simplesmente absurda! Ela, que atua durante quase todo o tempo com um cigarro entre os dedos e mantém uma postura constantemente sedutora, nos faz lembrar o estereótipo das femme fatales dos films noir da década de 40, porém a melancolia de seu olhar surge como um contraponto à tal imagem, tornando-a visivelmente sensível e angustiada.


Mas, não só de sua trama filosófica e de Anna Karina, vive o filme, dentre seus méritos estão também a bela fotografia em preto e branco dirigida por Raoul Coutard, contumaz parceiro de Godard e a áurea mágica dos anos 60, que ele exala junto o ranço característico das produções da Nouvelle Vague francesa, o que, resumindo, o torna praticamente perfeito em sua proposta. Este é um clássico obrigatório para todos os amantes da sétima arte! Dica: Ao assisti-lo preste atenção na passagem em que Nana assiste A Paixão de Joana D’Arc (1928) de Carl Dreyer e na memorável sequência em que ela contracena com o filósofo e ensaísta francês Brice Parain, que interpreta a si mesmo... Sim, é uma obra prima!


Assistam ao trailer de Viver a Vida no You Tube, clique AQUI !

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade as resenhas de outros filmes de Jean-Luc Godard: Tempo de Guerra (1963)Bande à Part (1964)Alphaville (1965)!

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra, 
portanto não devem ser consideradas spoilers!

domingo, 11 de março de 2012

Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres

Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres (The Girl with the Dragon Tattoo) - 2011. Dirigido por David Fincher . Escrito por Steven Zaillian, baseado no livro de Stieg Larsson. Música Original de Trent Reznor e Atticus Ross. Direção de Fotografia de Jeff Cronenweth. Produzido por Ceán Chaffin, Scott Rudin, Søren Stærmose e Ole Søndberg. Columbia Pictures / USA | UK | Alemanha | Suécia.


Reconheço que um cineasta tem alguma marca autoral, quando suas obras, por mais diferentes que sejam entre si, trazem consigo algo que remete às demais e as interligam em algo maior, capaz de evocar um significado mais amplo que aquele observado individualmente em cada uma de suas produções. David Fincher é um exemplo perfeito disso e esta sua característica pode ser mais uma vez observada em Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2011). Esta que é seu mais recente trabalho transcende sua condição original de adaptação para se tornar uma obra pessoal impregnada com o toque autoral de seu realizador. Fincher parece fascinado com histórias vindas do “underground”, de um circuíto que está além da vida convencional cotidiana, tal aspecto pode ser observado em Se7en (1995), em Clube da Luta (1999), na alienação social do personagem principal de A Rede Social (2010) e no mergulho do personagem central de Zodíaco (2006) no caso que ele investiga; todos estes personagens adentram em mundo de imundícia e degradação moral, que serve, ora como metáfora daquilo que geralmente tentamos esconder em nossa própria realidade, ora como encenação verossimilhante da realidade tal como ela é.

Millennium segue este mesmo caminho, sua trama também nos conduz à uma incursão em submundo de perversão, ressentimentos e preconceitos. O desenrolar de sua história, que se passa na gélida Suécia, começa quando o jornalista investigativo Mikael Blomkvist (Daniel Craig) aceita a proposta do poderoso industrial Henrik Vanger (Christopher Plummer) de investigar o desaparecimento de sua sobrinha, que ocorrera há mais de 40 anos. Mikael fora desacreditado e teve a sua carreira arruinada após uma denuncia que escreveu e não conseguiu comprovar, ele foi processado e a sentença judicial lhe custou todas as suas economias. Sem outra alternativa e confiando na promessa de Henrik, que lhe garantiu que o ajudaria a reaver sua credibilidade, o jornalista parte para uma ilha, que fica no norte do país, onde o empresário e boa parte de sua família moram. Aquele lugar quase inóspito tinha sido provavelmente o cenário do crime que acontecera nos anos 60. Todos os caminhos possíveis para a investigação aparentam já terem sido percorridos por Henrik, mas este confia no tino investigativo do jornalista e o escolhe para a empreitada, na esperança de que ele possa perceber, ao revirar o passado, algum detalhe que lhe tenha passado despercebido... Dispensável dizer que os principais suspeitos são os próprios membros do clã desestruturado e desunido do empresário.


Mikael pede que tenha mais alguém à sua disposição, para lhe ajudar no processo de investigação, é então que lhe apresentam Lisbeth Salander (Rooney Mara), uma cyber punk sociopata que vive sob a tutela do Estado, foi ela quem traçou o perfil dele antes de ele ter sido escolhido por Henrik. O auto poder de dedução e de memorização que ela tem e o seu profundo conhecimento de informática, serão uma arma fundamental para que o mergulho no passado traga algum resultado relevante que possa levar ao responsável pelo desaparecimento misterioso da sobrinha do empresário. Lisbeth é uma das personagens através da qual o roteiro trabalha algumas de suas questões mais importantes, como as consequências da desestruturação moral e familiar e da convivência com o preconceito e a frieza da sociedade. Tanto o comportamento, quanto as habilidades da hacker parecem fazer parte de um mecanismo de auto-defesa criado como forma de adaptação à uma realidade machista e opressiva.


A trama que nos remete às história de Se7en e Zodíaco possuim sim algumas irregularidades, alguns aspectos quer não funcionam tão bem, mas creio que estes tenham sido herdados da obra literária e não concebidos pelo roteiro, contudo eles são irrelevantes diante dos fatores positivos do filme. A edição muito bem feita colabora com o a manutenção do suspense que vais crescendo à cada cena até chegar ao primeiro clímax, que acontece bem antes do final do filme, para depois ser remontado até chegar ao segundo clímax, que vem com desfecho, que por sua vez foi propositalmente concebido diferente do final do livro e do da primeira adaptação. A longa duração do filme (cerca de 2:40) parece passar em um piscar de olhos, se bem que é difícil piscar durante o filme, a fluidez da trama é excelente, o que seria um contraponto à produção sueca, que conforme dizem tem uma desenrolar mais lento e contemplativo.


Daniel Craig está muito bem em seu personagem, mas é Rooney Mara quem rouba cada uma das ceas em que aparece, ela está fantástica e seu mergulho no personagem vai muito além da maquiagem carregada, do figurino punk e dos inúmeros piercings que ela usa, ela protagoniza algumas das cenas mais fortes e marcantes do filme, que certamente permanecerão em nossa memória bastante tempo após o final da exibição... Fincher nos provou que tomou a decisão correta em tê-la escolhido para o papel, uma atriz sem tanto renome, ao invés de outras, já conceituadas, que estiveram cotadas ou que chegaram até a manifestar algum interesse, como Ellen Page, Mia Wasikowska,  Kristen Stewart, Anne Hathaway e Natalie Portman (se bem que eu ainda tinha um curiosidade enorme de ver a Natalie  papel, mas estou certo de que ele ficou em boas mãos).


Cheguei a questionar em alguns momentos, antes de assistir o filme, o porquê da história ter sido mantida na Suécia e não transportada, por exemplo, para algum ponto dos Estados Unidos, não que eu preferisse isso, mas teria sido o mais natural de acontecer, tendo-se em vista o histórico de adaptações cinematográficas e remakes que fizeram o mesmo. A resposta para esta minha dúvida surge já nas primeiras sequências do filme: A paisagem predominantemente branca e mórbida, que nos remete à frieza dos personagens, é de extrema importância para a composição do clima de frieza emocional que permeia o desenrolar da trama. Penso que nem nas regiões mais frias da América do Norte, o efeito poderia ser reproduzido com tamanho impacto. Tais quadros são capturados através de uma fotografia exuberante que acentua ainda mais a melancolia das locações escolhidas. O único lado negativo de terem mantido a história na Suécia é a estranheza provocada pelo idioma inglês, que parece quebrar um pouco da "verdade" da narrativa do filme. A trilha sonora composta por Trent Reznor e Atticus Ross casa perfeitamente com o suspense e a tensão da  história e é sem dúvidas outro aspecto elogiável do longa.


Ainda não assisti nenhum dos filmes que compõem a trilogia sueca, contudo acredito que seja uma injustiça considerar Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2011) um remake, uma vez que ele não parte da obra cinematográfica que o antecedeu, mas sim do texto original, o literário. Sem dúvidas ele merece ser lembrado mais como um filme de David Fincher, do que como mais uma adaptação de um best seller. Tê-lo assistido, despertou ainda mais a minha curiosidade de ver a obra sueca dirigida por Niels Arden Opley, contudo o mais curioso é que eu, leitor inveterado que sou, tenho ainda pouca curiosidade de ler os livros que compõem a trilogia escrita por Stieg Larsson... A minha recomendação é que você desconsidere alguns dos pequenos problemas da trama e mergulhe junto com os personagens no suspense provocado pelo mistério que eles tentam solucionar, estou certo de que a sessão valerá a pena! Ao assisti-lo se prepare para algumas cenas fortes, que definitivamente não são recomendadas para crianças, ou para aqueles que são mais sensíveis à violência nos filmes... para os demais ele é ultra recomendado!


Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres ganhou o Oscar na categoria de Melhor Montagem, tendo sido indicado também nas categorias de Melhor Atriz (Rooney Mara), Fotografia, Edição de Som e Mixagem de Som. No Globo de Ouro ele foi indicado nas categorias de Melhor atriz (Rooney Mara) e Melhor Trilha Sonora.

Assistam ao trailer de  Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres  no You Tube, clique AQUI !

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a crítica de A Rede Social, também dirigido por David Fincher!

Esta resenha não traz revelação da trama que não estejam já presentes  na sinopse ou
no trailer do filme!

sábado, 10 de março de 2012

Um Método Perigoso

Um Método Perigoso (A Dangerous Method) - 2011. Dirigido por David Cronenberg. Escrito por Christopher Hampton, baseado no livro de John Kerr. Música Original de Howard Shore. Direção de Fotografia de Peter Suschitzky. Produzido por Jeremy Thomas. Recorded Picture Company (RPC), Lago Film, Elbe Film e Talking Cure Productions / UK | Alemanha | Canada | Suiça.


Um Método Perigoso (2011) foi a primeira obra que assisti (confesso) da filmografia de David Cronenberg e esta primeira impressão foi um tanto negativa... O filme torna mesquinho e enfadonho o seu propósito megalomaníaco de abordar o surgimento da psicanálise e os atritos entre seus dois maiores percursores, Sigmund Freud e Carl Jung, o resultado disso é em diversos pontos simplesmente vergonhoso. O longa tropeça em praticamente todos os riscos que correm as cinebiografias e adaptações. O mais evidente dos problemas é a falta de ritmo e de uma linguagem própria. O roteirista e dramaturgo Christopher Hampton, que tem no currículo obras elogiáveis como Ligações Perigosas (1988) e Desejo e Reparação (2007) demonstra aqui uma notável falta de habilidade em fazer a transição da linguagem teatral (ele já tinha adaptado o livro para os palcos) para a cinematográfica, o que chega a ser estranho tendo-se em vista sua extensa carreira. Os personagens são todos excessivamente caricatos e seus diálogos parecem ter tido a complexidade amenizada para facilitar assim o entendimento do público médio. Tal conjunto de erros torna o filme cansativo e facilmente esquecível.

O ponta pé inicial da história contada pelo filme é a internação da jovem Sabina Spielrein (Keira Knigthley), que sofre de histeria, em um manicômio, lá ela é submetida a um método tido como inovador, uma terapia baseada apenas na conversação, quem ministra o tratamento é o jovem psiquiatra Carl Jung (Michael Fassbender). Ele não deixa de nutrir uma espécie de fascínio pela condição da moça, que apesar de estar mentalmente perturbada, se mostra cordial e inteligente. Sabina é quem servirá de ponte para o desenvolvimento da relação de amizade e colaboração entre Jung e Sigmund Freud (Viggo Mortensen), este havia lançado com suas pesquisas as bases do tratamento que estava sendo colocado em prática em Sabina. Freud passa a ver em Jung uma espécie de discipulo, alguém capaz de dar continuidade às suas ideias e colaborar com o difícil processo de aceitação da psicoterapia por parte da comunidade médica da época.


O tratamento de Sabina se mostra muito bem sucedido, as crises histéricas dela diminuem e ela aprende a lidar melhor com seus fantasmas, a recuperação lhe permite ingressar na faculdade de medicina e desta forma seguir alguns dos caminhos percorridos pelo seu psicoterapeuta... Os conflitos dramáticos de Um Método Perigoso começam a ser delineados quando a relação entre Jung e Freud se torna conflituosa, pela discordância de seus respectivos pensamentos e teorias, enquanto a de Jung com Sabina se torna perigosamente próxima, pela atração que começa a surgir entre eles, situação que leva o médico a contundentes dilemas éticos, que envolvem seu casamento e sua carreira... O mote é plausível e sem dúvidas poderia ter rendido um resultado bem melhor, no entanto não é o que acontece, toda a complexidade e profundidade que a trama poderia ter tido se perde frente a personagens mal estruturados, diálogos superficiais e situações irrelevantes.


Eu que antes do filme estava preocupado de me perder durante a explanação de temas com os quais não tenho tanta familiaridade, acabei me decepcionando, afinal não tem como se perder diante de algo tão reducionista e mastigado. De inteligente as conversações entre os personagens não têm nada, para quem conhece um mínimo do pensamento de Jung e Freeud, aquilo que o filme mostra não é nem um feijão com arroz... Me pergunto qual teria sido o público alvo que esta produção se propoz a alcançar, uma vez que leigos sobre o assunto, provavelmente ficarão indiferentes e os já iniciados perceberão a canastrice daquilo que lhes é mostrado. Talvez o tempo se encarregue de torná-lo obrigatório, mas apenas como atividade em planos de ensino e em grades acadêmicas de faculdades de psicologia de quinta categoria, talvez não por acaso a história pareça ter sido escritas por professores de tais tipos de instituição...


A bela Keira Knigthley parece ter se perdido em uma atuação que lhe exigiu algo que aparentemente está além da suas atuais capacidades, seu esforço é visível, porém ele se torna irrisório, uma vez que ela parece não ter encontrado a verdade de sua personagem, atuando apenas de forma mecânica sem experimentar aquilo que ela de fato estaria sentindo. Fassbender e Mortensen estão bem, mas seus personagens não ajudam, o Freud do filme, por exemplo, parece estar constantemente posando para uma de suas fotos mais famosas (estereotipação maior impossível), o que se pode notar não só pela pose, que é quase uma constante, mas também pela expressão facial, pelo figurino e pelo charuto entre os dedos... A atuação mais plausível do filme, na qual ainda pode ser percebido um “q” de verdade, é a de Vincent Cassel, que interpreta Otto Gross, um psicoterapeuta controverso que se coloca, seguindo a orientação de Freud, na condição de paciente de Jung... 


Um Método Perigoso é um ótimo exemplo de algo sobre o qual tenho falado já há algum tempo, que a cinebiografia como gênero constitui um dos piores aspectos do cinema contemporâneo. Com raras exceções, o que se pretendo com elas é aproveitar o renome das personalidades biografadas como uma espécie de garantia de atenção do público e da crítica. A minha constatação é a de que a obra de Cronenberg não é uma exceção (por mais que ela tente sê-la), ela é um triste exemplo da citada regra. Todos os outros prováveis propósitos do filme são postos a perder e o que sobra é apenas a pretensão de explorar os conceitos e a mitificação criada em torno biografados. Pois é, faltou destreza e habilidade para evitar os tropeços, que já são previamente anunciados nestes casos... Recomendo o filme apenas para um daqueles dias em que realmente não se tem nada melhor para fazer, caso contrário, não perca seu tempo!


Um Método Perigoso estreou no Festival de Veneza, onde concorreu ao Leão de Ouro. Ele ainda recebeu uma indicação ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Ator Coadjuvante (Viggo Mortensen).

Assistam ao trailer de  Um Método Perigoso no You Tube, clique AQUI !

Esta resenha não traz revelação da trama que não estejam já presentes  na sinopse,
no trailer do filme ou nos fatos históricos que o inspiraram.


domingo, 4 de março de 2012

As Aventuras de Tintim

As Aventuras de Tintim (The Adventures of Tintin) - 2011. Dirigido por Steven Spielberg . Escrito por Steven Moffat, Edgar Wright e Joe Cornish, baseado nos quadrinhos de Hergé. Música Original de John Williams. Produzido por Steven Spielberg, Peter Jackson e Kathleen Kennedy. Columbia Pictures e Paramount Pictures / USA | Nova Zelândia..


Ainda me recordo de como Tintim se tornou um dos personagens favoritos de minha infância. Durante um extenso período eu mantive uma rotina quase religiosa, todos os dias às 7 horas da noite eu ia para a casa de um amigo para assistir aos desenhos da TV Manchete e logo em seguida As Aventuras de Tintim na TV Cultura. Como a única TV que tínhamos em casa era monopolizada pela minha mãe, com suas novelas, o jeito era ir para a a casa deste vizinho, que tinha em seu quarto uma daquelas TVs em preto e branco, cuja carcaça era similar a um caixote de madeira. Daquelas nostálgicas sessões diárias nasceu a minha paixão pelo personagem, do qual poucos de meus amigos gostavam, principalmente porque naquela ocasião ele substituiu o Doug na grade de programação da emissora. Eu no entanto era fascinado por suas aventuras, que o levavam a lugares fantásticos de diversas partes do mundo e o colocava em diversos apuros. 

Mesmo nutrindo um pouco de desconfiança, eu estava ansioso para conferir esta mais recente adaptação dos quadrinhos de Hergé, captaniada por Steven Spielberg. O filme As Aventuras de Tintim (2011) é inspirado nos álbuns Le Secret de la Licorne, lançado originalmente em 1943, e Le Crabe Aux Pinces D'or, de 1941. A história contada no filme começa quando Tintim (Jamie Bell) compra a réplica de um navio, que fora afundado por piratas no século XVII, não demora nada e ele descobre que gente perigosa também estava atrás da miniatura e que eles fariam de tudo para tê-la em suas mãos. Reza a lenda que aquela réplica conteria alguma pista que levaria a algo deixado por Francis Haddock, o capitão do embarcação afundada. Tintim decide investigar o caso e entra de cabeça nesta aventura, para a qual ele contará com a ajuda dos agentes Dupond e Dupont (que aparentam ser gêmeos, mas na história original não o são. A única diferença física entre eles é o 'penteado' do bigode) e do capitão Archibald Haddock (Andy Serkis), o último descendente de Francis que ainda vive.


Algo que percebi é que o trama do filme em determinados pontos se aproxima mais do desenho criado pela finada produtora canadense Nelvana, do que dos escritos originais de Hergé. O roteiro é quase um remake das duas partes do episódio do desenho intitulado de O Segredo do Licorne. Tal como na série animada, é nesta aventura, que envolve a réplica do antigo galeão, que o personagem Archibald Haddock se encontra pela primeira vez com Tintim, enquanto nos quadrinhos a amizade entre eles vem de antes da descoberta da réplica do galeão. Diversas outras situações aproximam o longa de motion capture do desenho e o distanciam dos quadrinhos, mas apesar disso, Spielberg fazer questão de deixar claro o seu respeito pelo criador do personagem, o que fica evidente desde a introdução (que lembra a de Prenda-me se For Capaz) até à cena em que o próprio Hergé aparece como um desenhista de rua, que faz uma caricatura de Tintim.


Há praticamente um consenso de que o filme seja tecnicamente irrepreensível e isso se justifica pelo excelente uso de uma tecnologia relativamente nova, que certamente ainda gerará bons frutos. A reconstrução da realidade através da técnica chamada de "captura de movimento" é tão bem usada aqui quanto foi em Planeta dos Macacos - A Origem, a diferença é que aqui todos cenários são criados digitalmente e com um realismo estarrecedor (preste atenção nos objetos, no movimento do mar e nos animais que aparecem em cena)... Já o roteiro não agradou a todos, alguns dentre os fãs de Hergé acharam que a  história foi demasiadamente infiel ao original e outros, no entanto, reclamaram da falta de novidade. Contudo, o mais curioso é que aqueles que ainda não conheciam o personagem reclamaram da simplicidade da trama, sendo que este é sem dúvidas o seu melhor aspecto. É a simplicidade que nos remete à nossa infância e as aventuras e descobertas com as quais sempre sonhamos e que torna o filme tão digno de apreciado por quase todas as idades (atenção à classificação etária).


As Aventuras de Tintim é o contraponto perfeito ao fraco Cavalo de Guerra (2011), também dirigido por Spielberg, apesar de serem ambos baseados em histórias infantis e merecedores da alcunha de "filmes família", eles não poderiam ser mais diferentes. Em Tintim o diretor deixa um pouco à parte seu lado canastrão e acerta ao se render às produções já existentes sobre o personagem (no caso os quadrinhos e a série animada) e o resultado é melhor do que o observado no outro filme. O excesso de autorreferências feitas por Spielberg quase chega a se tornar um incômodo, o que felizmente não acontece por bem pouco, algumas das sequências de ação do filme são claramente inspiradas por outros filmes do diretor, principalmente na franquia de Indiana Jones, porém lembremos que a semelhança não é mera coincidência... Eu como fã confesso do personagem, torço para que Spielberg e Peter Jackson decidam dar continuidade ao projeto, tornando esta a primeira parte de uma franquia e torço mais ainda para que eles não errem ao fazê-lo... Recomendo para todos sem restrições!


As Aventuras de Tintim ganhou o Globo de Ouro na categoria de Melhor Animação e ainda recebeu uma indicação ao Oscar na categoria de melhor Trilha Sonora Original. O filme não foi indicado ao Oscar de Melhor Animação porque a Academia não reconhece a "captura de movimento" como técnica de animação (o que penso que será mudado em breve, ou uma nova categoria provavelmente surgirá).

Assistam ao trailer de As Aventuras de Tintim no You Tube, clique AQUI !

Esta resenha não traz revelação da trama que não estejam já presentes  na sinopse ou
no trailer do filme.