N° de acessos:

quarta-feira, 1 de maio de 2013

De Tanto Bater Meu Coração Parou

De Tanto Bater Meu Coração Parou (De Battre Mon Coeur s'est Arrêté) - 2005. Dirigido por Jacques Audiard. Escrito por Jacques Audiard e Tonino Benacquista, inspirado no roteiro original de James Toback. Direção de Fotografia de Stéphane Fontaine. Produzido por Why Not Productions / França.


Às vezes deixamos de lado os sonhos que tínhamos e enveredamos por caminhos que em algum momento nos pareceram mais práticos e convenientes, em boa parte das vezes uma má escolha deste tipo é sucedida por um paralisante comodismo, que nos mantém presos à estrada errada e cada vez mais distantes do sonho de outrora. Este é o drama vivido por Thomas Seyr (Romain Duris), o personagem central de De Tanto Bater meu Coração Parou (2005), filme dirigido pelo cineasta francês Jacques Audiard. Em sua trama, o longa, que é uma releitura do americano Fingers (1978), retrata os obstáculos que o personagem supracitado se vê obrigado a transpor quando decide abandonar uma vida de contravenções e se dedicar a uma atividade que lhe traz prazer e autorrealização. 

Thomas deixara de lado uma promissora carreira de pianista para trabalhar ao lado do pai, Robert Seyr (Niels Arestrup), que ganha a vida com negócios sujos ligados à especulação imobiliária. As atividades ilícitas que realizam juntos incluem o emprego da violência na cobrança de aluguéis atrasados, o despejo de pessoas que invadem imóveis abandonados (o que também é feito de forma violenta) e a prática de trapaças para desvalorizar imóveis que estão à venda (como soltar ratos em seus aposentos). Este é um negócio lucrativo para ambos, porém Thomas sabe dos riscos que eles correm por estarem se envolvendo com gente perigosa, isso, somado à sua falta de realização neste trabalho, o faz voltar-se para o seu antigo sonho, o de ser pianista, que fora reacendido após um convite para uma audição. 


A música possui ainda outro significado para o rapaz, ela é a herança que lhe fora legada por sua mãe, que também era pianista, dela ele herdou ainda a sensibilidade artística, que em diversos momentos da trama acaba se chocando com a brutalidade do meio em que ele atua. Ciente de que precisa retomar a velha forma antes da audição, Thomas decide voltar a estudar música e sua busca por um professor o leva até Miao Lin (Linh Dan Pham), uma pianista chinesa residente em Paris, que se dispõe a discípula-lo. Miao não fala uma palavra sequer em francês e isso dificulta a comunicação entre eles, no entanto, pouco a pouco, a própria música insurge como uma linguagem universal capaz de tornar compreensível aquilo que cada um deles sente e busca.


Evocando um contexto que já é característico dos filmes de Jacques Audiard, De Tanto Bater meu Coração Parou adota em sua narrativa um realismo seco, indigesto, que só é amenizado na trama quando os personagens entram em contato com o sublime através da arte. Num brutal cenário de poucas oportunidades e de parca esperança, Thomas luta para não perder aquilo que ainda é capaz de alimentar seu sonho, a sua sensibilidade, o que remete ao significado poético do belíssimo título dado ao remake. É como se a própria sensibilidade de Thomas fosse a causa de sua ruína artística, por medo de sentir tanto, ele um dia negou seu próprio dom, esperando com isso silenciar seu coração, que lentamente volta a bater no decorrer da trama, à medida que ele se dispõe a lutar contra o fatalismo de sua vida... 


Romain Duris, Niels Arestrup e Linh Dan Pham estão ótimos em seus personagens. Duris interpreta de uma forma magistral as dúvidas e o dilema ético que acomete Thomas e a briga que ele trava contra si mesmo para reascender em seu coração o ardor de algo que um dia alimentou sua alma. Arestrup também dá vida a um personagem complexo, que reconhece a própria falência e a do mundo à sua volta, mas não consegue se imaginar em uma vida diferente da que leva, a sutileza da atuação do ator veterano é o que torna Robert tão humano, mesmo sendo tão desprezível em algumas passagens. Dan Pham também está muito bem naquela que talvez seja a atuação mais complicada do filme, mesmo dizendo poucas palavras compreensíveis, ela consegue, através de gestos sutis, olhares e expressões, expressar de forma clara os sentimentos, incertezas e temores de sua personagem.


De Tanto Bater meu Coração Parou não é um feel good movie, nem tão pouco uma história sobre superação, portanto, não se pode esperar dele um desfecho reconfortante. Mantendo o viés realista, o roteiro sabiamente descarta em seu desfecho qualquer apelo motivacional e assim evita cair na armadilha de querer dar uma resolução para cada um dos conflitos surgidos no decorrer da história. Aqueles que esperam dele uma abordagem diferente desta podem acabar decepcionados, por outro lado, os que entendem que o valor artístico de uma obra cinematográfica não está no fato dela ser cativante ou triunfalista certamente irão reconhecer que estão diante de uma grande obra, um filme bruto e ao mesmo tempo sensível, tal como a vida por vezes o é. Ultra recomendado!


Assistam ao trailer de De Tanto Bater meu Coração Parou no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.


Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a crítica de Ferrugem e Osso (2012), também dirigido pelo Jacques Audiard.

sábado, 27 de abril de 2013

Detona Ralph

Detona Ralph (Wreck-It Ralph) - 2012. Dirigido por Rich Moore. Escrito por Rich Moore, Phil Johnston, Jim Reardon e Jennifer Lee. Música Original de Henry Jackman. Produzido por Clark Spencer. Walt Disney Animation Studios / USA.


Detona Ralph (2012) é o tipo de produção capaz de ganhar o apreço de diversas faixas etárias sem precisar ser apelativo para tal, ele não é uma obra-prima, nem tão pouco nos coloca diante de algo novo ou de alguma situação capaz de nos surpreender. Aquilo que o torna um filme tão bom também não está na qualidade de seus aspectos técnicos e artísticos, esta pequena centelha que o torna especial em meio a tantas produções do gênero, que chegam aos cinemas todos os anos, está na forma com que ele nos cativa com a simplicidade de sua história, na nostalgia presente em todo o seu desenvolvimento devido às inúmeras referências aos games eletrônicos das décadas de oitenta e noventa e principalmente na importância de algumas de suas abordagens. Diferente do que acontece em Frankenweenie, animação dirigida por Tim Burton, aqui as referências não se sobressaem à trama, uma vez que a própria trama cnstitui a maior de todas as referências.

A história de Detona Ralph se passa em uma casa de jogos eletrônicos repleta de fliperamas, praticamente toda a ação acontece em um mundo cibernético, localizado no interior das máquinas. Quando a loja é fechada os personagens de cada um dos jogos interagem entre si, voltando àquelas que seriam suas vidas normais, como se os games fossem para eles só uma espécie de trabalho. Ralph (voz do John C. Reilly), o personagem central da animação, é o vilão do arcade Conserta Felix Jr., um jogo que está prestes a completar 30 anos, depois de tanto tempo sendo o antagonista, ele decide se tornar um herói, ele almeja ter o mesmo reconhecimento que seu rival Felix Jr. tem. O cansativo trabalho de destruir prédios, que logo em seguida são reparados pelo martelo mágico do herói, perde completamente o sentido para ele e isso o leva a tentar uma mudança radical em sua vida. 


Em busca de uma medalha que ateste seu heroísmo, Ralph sai de seu jogo e invade um outro, mais moderno e muito mais radical, ele consegue sua medalha, porém, após uma sequência de desacertos ele acaba indo parar em um terceiro mundo, o do jogo Corrida Doce. Lá ele conhece Vanellope von Schweetz (Sarah Silverman), uma garotinha excluída pelas demais participantes da competição por ter um tilt (um daqueles problemas que costumavam travar os jogos). Ela se sente sozinha por ser desprezada pelas outras garotas e pelo rei, que se empenha em mantê-la o mais distante o possível da corrida. Apesar de alguns atritos motivado pelas temperamentos difíceis de ambos, Ralph e Vanellope acabam se identificando um com o outro, tal identificação vem do fato de que ambos enfrentam em seus respectivos jogos o mesmo problema, a exclusão social. 


Uma das melhores surpresas que Detona Ralph me proporcionou foi o inesperado contato com uma trama  que vai muito além daquilo que já estamos acostumados a ver em uma animação da Disney, mesmo tendo um vilão maniqueísta, o roteiro ganha pontos ao explorar personagens que são dotados de qualidades e defeitos, o que pode ser observado principalmente nos dois protagonistas, Ralph é, em diversos momentos, violento e egoísta e Vanellope se mostra à princípio incapaz de compreender o drama do novo amigo, o que dura até ela perceber que ele é vítima das mesmas situações que a aflige. O aprendizado que os personagens vivem na trama oferece uma uma boa oportunidade para a abertura de diálogo com crianças, tanto em casa quanto na escola, sobre a importância de olhar o outro além de seus 'defeitos' aparentes e de conhecer de fato quem as pessoas são por detrás das imagens que a sociedade cria para elas, desta forma o filme pode se tornar uma arma de potencial eficácia contra os preconceitos que são alimentados desde a infância.


A questão da exclusão social é outro tema de extrema importância e que também merece ser discutido, o filme o aborda de uma forma simples, porém eficaz, que facilita a compreensão das crianças e que desperta nos adultos a urgência da discussão sobre ele, o que mais uma vez dá uma enorme abertura para um diálogo mais aprofundado com os pequenos sobre o assunto, principalmente no que diz respeito às causas de tal exclusão, que pode ser o desrespeito à diferença, o machismo ou o preconceito contra um determinado grupo ou classe social... Todas estas situações estão presentes no decorrer da trama, Vanellope, por exemplo, é excluída por seu suposto 'problema' e Ralph, por sua vez, é julgado não pelo que é, mas tão somente pela atividade que exerce. Outro ponto interessante, é o fato do protagonista precisar de uma medalha para conseguir o respeito dos demais personagens de seu jogo, o que remete à excessiva valorização dos títulos, que é ensinada às crianças desde muito cedo.


Como eu disse, Detona Ralph não é nenhuma obra-prima do gênero, apesar de ser uma das melhores animações do ano passado, mas a força das abordagens que comentei acima são um grande diferencial que o tornam mais interessante e recomendável. Além de abrir o espaço para discussões e reflexões acerca dos temas que aborda, ele ainda funciona muito bem como um bom entretenimento, sua história simples e cativante é garantia de diversão, principalmente para os saudosistas, para quem as citações de games como Sonic the HedgehogStreet FighterQ-BertPac-Man e Mario terão um gostinho ainda mais especial. Recomendo!


Assistam ao trailer de Detona Ralph no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

terça-feira, 23 de abril de 2013

O Dia do Gafanhoto

O Dia do Gafanhoto (The Day of the Locust) - 1974. Dirigido por John Schlesinger. Escrito por Waldo Salt, baseado na obra literária de Nathanael West. Direção de Fotografia de Conrad L. Hall. Música Original de John Barry. Produzido por Jerome Hellman. Paramount Pictures e Long Road / USA.

Nos Estados Unidos, a gíria locust serve para designar pessoas que estão à margem: perdedores, solitários, estranhos e deslocados. O termo the day of the locust (“o dia do gafanhoto” em tradução literal) se refere ao dia em que um destes perdedores decide reivindicar de forma violenta o seu lugar na sociedade. A mais memorável representação de tal situação no cinema talvez esteja em Taxi Driver (1976) de Martin Scorsese, nele, Travis Bickle, o personagem central, é um típico “gafanhoto”, cuja vida monótona e opressiva o leva a tentar intervir de uma forma extrema em sua própria realidade. Recentemente outro filme explorou a mesma temática, foi Drive (2011) de Nicolas Winding Refn, cujo protagonista comete atos extremos após chegar ao seu limite. O Dia do Gafanhoto (1975), de John Schlesinger, foi um das primeiras produções a direcionar seu foco narrativo para este tipo de personagem e a abordagem dada por ele à temática é no mínimo interessante.

Baseado na obra literária de Nathanael West, o filme adota como “gafanhotos” as pessoas comuns, estabelecendo um contraponto entre estas e as celebridades de Hollywood da década de 30. No centro da trama está o designer de cenários Tod Hacket (William Atherton), que chegou à cidade sede da indústria cinematográfica para trabalhar em um grande estúdio, ele acaba se apaixonando por sua vizinha, a bela Faye (Karen Black), uma aspirante a atriz que está em busca de um marido rico que possa lhe abrir portas na indústria do entretenimento. Faye rejeita Tod por ele não ser rico, mas ele não desiste e se mantém próximo a ela, desenvolvendo assim uma relação que vai além de uma simples amizade. Em dado momento da trama, Faye se encontra com Homer Simpson (Donald Sutherland), um contador tímido e solitário, que também se apaixona por ela.


Dentre todos os personagens, Homer Simpson é o mais interessante, ele é claramente o mais deslocado e solitário, ele não tem um grande sonho, nem grandes aspirações e acredita na providência divina como saída para seus dilemas, resumindo, ele é um típico locust e não é por acaso que ele é um personagem fundamental no último ato do filme, ele tem um papel importante no desfecho, que é digno da expressão que dá nome à obra... O roteiro avança em uma lentidão quase melancólica, que permite que cada personagem seja bem explorado em sua complexidade. As motivações que guiam cada um deles vão ficando aos poucos aparentes e à medida que a trama é desenrolada percebemos que ela caminha para um desfecho trágico, esta sensação é reforçada pela melancolia da trilha sonora e pela fotografia, que evita cores vivas e alegres.


O contraponto criado entre as pessoas tidas como comuns e as celebridades funciona ainda como uma crítica à indústria cinematográfica e à “Meca dos sonhos perdidos”, em uma das passagens um dos personagens, um produtor, chega à conclusão: “Acho que nós vendemos apenas ilusões ao público”. Público este que tenta se amparar em qualquer ilusão que lhe for dada, na esperança de achar algum sentido para suas vidas monótonas... Esta crítica fica ainda mais latente no último ato do filme, que obviamente não pretendo comentar aqui para não publicar spoilers. A Hollywood retratada pelo filme é diferente daquela que temos em nosso imaginário: se esta está associada ao glamour e à felicidade, a que o longa nos mostra denota o oposto, o que vemos nele são histórias de sonhos desfeitos, personagens vivendo num submundo de bordéis e rinhas de galo e por fim o distanciamento, em todos os sentidos, entre o público e as grandes estrelas da época.


O Dia do Gafanhoto foi indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Ator Coadjuvante (Burgess Meredith – que interpreta o pai da personagem Faye) e Melhor Fotografia. Ambas as indicações foram merecidas, Meredith está excelente em seu personagem e a fotografia do filme é muito bonita, sendo também um dos elementos mais importantes da narrativa, por ajudar a construir no filme a atmosfera opressiva que ela sustenta até o seu desfecho. Este filme parece ter sido esquecido pelo grande público e até mesmo pelos cinéfilos, o que é sem dúvidas uma grande injustiça, pois se trata de uma obra contundente, sobre uma temática que não nos é de todo estranha. Recomendo!



Assistam ao trailer de O Dia do Gafanhoto no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

Crítica escrita para o blog E o Oscar foi para..., publicada originalmente em 03 de outubro de 2012.

domingo, 21 de abril de 2013

Frankenweenie

Frankenweenie - 2012. Dirigido por Tim Burton. Escrito por Tim Burton, John August e Leonard Ripps. Direção de Fotografia de Peter Sorg. Música Original de Danny Elfman. Produzido por Tim Burton e Allison Abbate. Walt Disney Pictures / USA.


Frankenweenie (2012), apesar de ser um filme bastante irregular, é de longe o melhor trabalho do Tim Burton em anos, nele os elementos que caracterizam a marca autoral do cineasta aparentam estar em uma harmonia que não era vista desde A Noiva Cadáver (2005), curiosamente outra animação, o que não é por acaso. Burton tem demonstrado maior habilidade em um gênero no qual o exagero caricato da composição dos seus personagens e a superficialidade de suas histórias não constituem problemas tão graves quando notáveis. O roteiro do filme peca em alguns aspectos, que comentarei mais adiante, mas ainda assim ele consegue dar o suporte necessário para a narrativa, o que provavelmente não aconteceria caso se tratasse de um filme em live action, uma vez que naturalmente se espera um pouco mais de profundidade dramática de obras neste formato.

Ironicamente, a trama de Frankenweenie parece ter sido concebida tal como o cãozinho que é ressuscitado em sua história. Assim como o cachorro, o roteiro chama a atenção pelas colagens do qual é constituído e deixa aparente costuras e remendos que denotam o amadorismo, que caracteriza sua composição. Inúmeras referência à clássicos da literatura e do cinema de horror pipocam na tela a todo momento, o que à princípio até chega a ser algo interessante. É legal perceber, por exemplo, a influência dos cenários de O Gabinete do Doutor Caligari (1920), clássico do expressionismo alemão, na construção do sótão onde o garoto protagonista realiza suas experiências e a sátira bem humorada de lugares comuns do gênero, como o personagem soturno que relata uma lenda assustadora ou a revolta do povo contra um ser inocente acusado de trazer uma maldição.


A partir de determinado momento, no entanto, o roteiro perde toda a sua sutileza e as referência se tornam mais escrachadas, passando a chamar mais a atenção do que o desenrolar da trama em si. Isso não chega a tornar o filme ruim, mas tira dele aquilo que, em se tratando de Tim Burton, faria toda a diferença: a originalidade. Principalmente no último ato, tudo o que acontece parece ser justificado apenas pela tentativa de se fazer um diálogo com outras obras e com isso ganhar a simpatia do espectador, tal proposta até poderia ser considerada nobre se fosse usada com sobriedade, mas não é o que acontece. Percebe-se então muito daqueles que influenciaram Burton em seu estilo, enquanto a expressão de sua própria personalidade artística fica limitada a alguns dos elementos técnicos do filme. 


Victor Frankenstien (voz de Charlie Tahan) é um garoto tímido, de poucos amigos, cuja principal companhia é Sparky, seu fiel cachorrinho. Imerso em uma solidão autoimposta, ele aproveita o isolamento para dar asas à sua criatividade, ele transforma o sótão de sua casa em um verdadeiro laboratório, onde realiza experimentos científicos e põe à prova teorias aprendidas em sala de aula. O mote da trama surge quando Sparky morre em um atropelamento, Victor fica desolado e no afã de ter seu amigo de volta ele decide usar os conhecimentos adquiridos na escola para ressuscitá-lo. Ele desenterra o cachorro, costura seu corpo dilacerado e consegue, com a ajuda de uma descarga elétrica provocada por um raio (tempestades com raios são frequentes na cidade onde a história se passa), trazê-lo de volta do mundo dos mortos. 


Na primeira sequência do filme, Victor mostra para seus pais um filme amador que rodara tendo o cãozinho como protagonista, nesta passagem é praticamente impossível não ver no garoto e no contexto em que ele vive uma referência à infância do próprio Tim Burton, este viés autobiográfico poderia ter sido a grande sacada do filme, no entanto, ele se perde rapidamente, dando lugar às tentativas desajeitadas do cineasta de explicar a origem de sua marca autoralDrácula (1931)King Kong (1933)O Lobisomem (1941)Godzilla (1954)A Múmia (1959)Gremlins (1984)O Cemitério Maldito (1989) e Jurassic Park (1993) são alguns dos filmes aos quais Frankenweenie reverencia, o aspecto positivo que pode ser observado em meio à tantas citações é a nostalgia que nos salta aos olhos durante o desenvolvimento da trama, que tem um pé fincado nos clássicos do terror e outro nos filmes juvenis da década de 80. 


As citações usadas por Burton aponta para a humildade que ele demonstra ter ao reconhecer aqueles que o influenciaram, mas é através delas também que ele faz uma crítica sutil à Disney, a produtora do filme, a mesma que o demitiu nos anos oitenta por considerar o curta que daria origem a Frankenweenie sombrio demais (na ocasião ele ainda era apenas um animador). Em uma cena rápida é possível perceber que o filme Bambi (1942), um dos clássicos da produtora, está em cartaz em um cinema da cidade, segundo o próprio cineasta tal referência é apenas uma lembrança de que historicamente a trajetória da Disney também está maculada pela exploração de cenas inapropriadas para crianças. Em uma entrevista concedida à agência de notícias Reuters ele lembrou que a morte da mãe do Bambi é tão sombria quanto os temas explorados por ele em seus filmes.


A qualidade técnica de Frankenweenie é indiscutível, o que já esperado de qualquer filme do Tim Burton, mesmo dos mais facos. A animação em stop motion é muito bem realizada, o que pode ser percebido pela meticulosidade dos  movimentos dos personagens e pela riqueza de detalhes presente em cada fotograma do filme. O visual sombrio, muito bem elaborado, está condizente com a temática e a trama do filme, a fotografia em preto e branco destaca e potencializa a morbidez das ambientações, que parecem saídas de um conto do ultra-romantismo. A ausência de cor é mais um elemento que remete aos clássicos do terror das décadas de 20, 30 e 40. A trilha sonora do filme é outro aspecto técnico que merece ser destacado, as canções, que são muito bem usadas em seu desenvolvimento, conciliam tanto o viés sombrio quanto o cômico, gerando um resultado condizente com a proposta do roteiro de mesclar o horror à leveza das comédias infanto/juvenis. 


Como eu disse no início desta resenha, Frankenweenie, apesar de seus excessos e derrapadas, ainda é uma das melhores obras que o Tim Burton dirigiu nos últimos anos. O que preocupa é que mesmo tendo um considerável nível de qualidade, perceptível em vários de seus aspectos técnicos e artísticos, o filme ainda é incapaz de lançar uma luz de esperança sobre a obra do cineasta, que parece condenado a repetir à exaustão fórmulas já desgastadas... Felizmente, aqui não temos mais uma parceria entre Burton, Johnny Depp e Helena Bonham Carter, o que, convenhamos, é bom para todos! 

Frankenweenie não é uma obra-prima e está bem aquém do que se espera de um cineasta que já realizou obras como Edward Mãos de Tesoura (1990)Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas (2003), todavia, ainda é uma boa pedida, principalmente para quem espera dele só um bom entretenimento, recomendo!


Assistam ao trailer de Frankenweenie no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.


Confiram também aqui no Sublime Irrealidade as críticas de A Noiva Cadáver e Sombras da Noite, também dirigidos por Tim Burton!

sábado, 20 de abril de 2013

Em Busca da Palma de Ouro - Seleção do Oficial do Festival de Cannes 2013

Foi divulgada na última quinta-feira (18/04) a seleção oficial da 66° edição do Festival de Cannes, que acontecerá entre os dias 15 e 26 de maio. Neste ano o juri será presidido pelo Steven Spielberg, que já tinha participado do festival em três ocasiões, com os filmes Asfalto Quente, seu primeiro longa-metragem, em 1974, E.T. em 1982 e A Cor Púrpura em 1986. Dentre os selecionados estão os novos trabalhos dos irmãos Coen, de Steven Soderbergh, François Ozon, Alexander Payne, Roman Polanski, Asghar Farhadi e Nicolas Winding Refn.

.

FILMES EM COMPETIÇÃO

Inside Llewyn Davis - Joel e Ethan Coen
The Past - Asghar Farhadi
Jeune & Jolie - François Ozon
Nebraska - Alexander Payne
Venus in Furs (La Vénus à la fourrure) - Roman Polanski
Behind the Candelabra - Steven Soderbergh
Only God Forgives - Nicolas Winding Refn
The Immigrant - James Gray
Un Chateau en Italie - Valeria Bruni-Tedeschi
Michael Kohlhaas - Arnauld Despalliere
Jimmy P. (Psychotherapy of a Plains Indian) - Arnaud Desplechin
Heli - Amat Escalante
Grisgris - Mahamat-Saleh Haroun
A Touch of Sin (Tian Zhu Ding) - Jia Zhangke
Like Father, Like Son (Soshite Chichi Ni Naru) - Hirokazu Kore-eda
La Vide d'Adele - Abdellatif Kechiche
Wara No Tate (Shield of Straw) - Takashi Miike
La Grande Bellezza (The Great Beauty) - Paolo Sorrentino
Borgman - Alex Van Warmerdam


MOSTRA UN CERTAIN REGARD

Bling Ring: A Gangue de Hollywood - Sofia Coppola
As I Lay Dying - James Franco
Fruitvale Station - Ryan Coogler
Miele - Valeria Golino
L'Image Manquante - Rithy Panh
Les Salauds - Claire Denis
Omar - Hany Abu-Assad
Death March - Adolfo Alix Jr.
Norte, Hangganan Ng Kasaysayan - Lav Diaz
L'Inconnu du Lac - Alain Guiraudie
Bends - Flora Lau
La Jaula de Oro - Diego Quemada-Diez
Anonymous - Mohammad Rasoulof
Sarah Préfère la Course - Cloé Robichaud
Grand Central - Rebecca Zlotowski


TRIBUTO A JERRY LEWIS

Max Rose - Daniel Noah


SESSÕES DA MEIA-NOITE

Monsoon Shoutout  - Amit Kumar
Blind Detective - Johnnie To


SESSÕES ESPECIAIS

Weekend of a Champion - Roman Polanski
Seduced and Abandoned - James Toback
Stop the Pounding Heart - Roberto Minervini
Bite the Dust / Otdat Konci - Taisia Igumentseva


SESSÃO DE GALA TRIBUTO AO CINEMA INDIANO

Bombay Talkies - Anurag Kashyap, Dibakar Banerjee, Zoya Akhtar, Karan Johar


FORA DE COMPETIÇÃO

Blood Ties - Guillaume Canet
All Is Lost - J.C. Chandor


COMPETIÇÃO CURTAS

Olena - El?bieta Benkowska (Polônia)
Bishtar az do saat - Ali Asgari (Irã)
Mont Blanc - Gilles Coulier (Bélgica)
Whale Valley - Guðmundur Arnar Guðmundsson (Islândia e Dinamarca)
Safe - Moon Byoung-gon (Coréia do Sul)
Condom Lead - Mohammed Abou Nasser e Ahmad Abour Nasser (Palestina e Jordânia)
The Meteorite and Impotence - Omoi Sasaki (Japão)
Ophelia - Annarita Zambrano (Polônia)


SELEÇÃO CINÉFONDATION

The Norm of Life - Evgeny Byalo (Rússia)
The Magnificent Lion Boy - Ana Caro (Reino Unido)
O Šunce - Eliška Chytková (República Tcheca)
Duet - Navid Danesh (Irã)
Needle - Anahita Ghazvinizadeh (Estados Unidos)
Waiting for the Thaw - Sarah Hirtt (Bélgica)
Stepsister - Joey Izzo (Estados Unidos)
In the Fishtank - Tudor Cristian Jurgiu (Romênia)
Seon - Kim Soo-Jin (Coréia do Sul)
Babaga - Gan de Lange (Israel)
Contrafábula de una Niña Disecada - Alejandro Iglesias Mendizátabal (México)
Going South - Jefferson Moneo (Estados Unidos)
Danse Macabre - Malgorzata Rzanek (Polônia)
Mañana Todas Las Cosas - Sebastián Schjaer (Argentina)
Asunción - Camila Luna Toledo (Chile)
Exil - Valdilen Vierny (França)
Pandy - Matúš Vizár (República Tcheca)
After the Winter - Zhi Wei Jow (França)


quarta-feira, 17 de abril de 2013

Oblivion

Oblivion - 2013. Dirigido por Joseph Kosinski . Escrito por Joseph Kosinski, Karl Gajdusek, Michael Arndt e Arvid Nelson. Direção de Fotografia de Claudio Miranda. Música Original de Anthony Gonzalez, M.8.3 e Joseph Trapanese. Produzido por Joseph Kosinski, Peter Chernin, Dylan Clark, Barry Levine e Duncan Henderson. Universal Pictures / USA.


Oblivion (2013) é o tipo de filme cujo bom funcionamento depende mais do espectador do que de seus atributos próprios. Tê-lo assistido sem grandes expectativas certamente foi determinante para que eu o valorizasse por aquilo que ele é, um bom filme pipoca sem grandes pretensões. Teria sido um grande equívoco esperar dele algo além de um bom entretenimento, pois, ao contrário de alguns clássicos, aos quais ele presta reverência, ele não funciona como alegoria ou metáfora de um outro contexto, nem tão pouco nos incita à reflexões sobre as temáticas que aborda. Isso pode ser um problema, mas, como eu disse, é algo que depende de cada espectador e do que ele de antemão espera encontrar.

O longa dirigido por Joseph Kosinski cumpre com relativa facilidade aquilo a que se propõe, na verdade, o fato dele não ser uma produção tão pretensiosa acaba o favorecendo, acredito que quem reconhecer isso vai apreciá-lo com uma maior facilidade, tal como eu fiz. Apesar de ter algumas reviravoltas em seu desenvolvimento, ele não é um filme difícil de ser compreendido, seu ritmo rápido e as boas cenas de ação apelam para o sensorial, o que pode ter colaborado com uma das impressões que eu tive, a de que as suas duas horas de duração passaram em um piscar de olhos. Esta sensação de fluidez é ao ver essencial em um filme onde não há tanto espaço para análises e reflexões.


Fazendo jus ao rótulo de ficção científica, o roteiro de Oblivion transita por temas manjados do gênero, como invasão alienígena, viagem no tempo, clonagem, inteligência artificial e sobrevivência em futuro pós apocalíptico. Apesar de perpassar por tantas temáticas, a trama se desenrola sem grandes problemas, amarrando de forma satisfatória o emaranhado de assuntos em seu desfecho. O que impede o filme de alcançar um patamar que o coloque acima da média das produções do gênero são a falta de novidade, a relativa previsibilidade da história e o texto, que deixa muito a desejar em diversas passagens, por não conseguir sair do lugar comum e por deixar uma impressão de que houve uma grande preocupação em simplificar ao máximo uma narrativa promissora, mas que poderia desagradar o grande público por sua potencial complexidade.


Se por um lado a simplificação travestida de complexidade pode agradar o grande público, por outro, este mesmo nicho pode estranhar alguns aspectos, como por exemplo o fato do filme tomar, em determinado ponto de seu desenvolvimento, um rumo diferente daquele que ameaçava seguir em seu primeiro ato. Novamente, depara-se com uma situação em que a expectativa do espectador é determinante, uma vez que uma impressão errada sobre a história, que pode ser provocada pelo trailer ou pela sinopse, pode por a perder aquilo de bom que o filme ainda tem a nos oferecer: o entretenimento. Portanto, faz-se necessário deixar um pequenino spoiler disfarçado de alerta: Oblivion está mais para Minority Report (2002) e Missão Impossível (1996), do que para Guerra dos Mundos (2005).


No centro da trama de Oblivion, que se desenrola no ano de 2077, está Jack (Tom Cruise), um agente americano que foi incumbido de permanecer na terra após uma guerra, contra invasores alienígenas, que devastou todo o planeta. Sua função é manter uma estrutura de produção de energia funcionando, bem como, auxiliar na manutenção de robôs programados para o extermínio de invasores. A única pessoa com quem ele ainda mantém contato é Victoria (Andrea Riseborough), sua parceira, que o ajuda em suas missões, porém sem sair da base, onde vivem sozinhos. Ambos tiveram suas memórias apagadas antes de darem início à esta missão, eles foram convencidos de esta era uma necessidade para a realização do trabalho, do qual pessoas que estão em uma estação espacial na órbita da Terra dependem para conseguirem partir para uma lua de saturno, onde o restante dos sobreviventes já se encontram. 


Jack, no entanto, é o único que questiona a realidade na qual estão inseridos, visões desconexas o ligam a um passado do qual ele não consegue se lembrar por completo, este frágil elo que ele consegue manter com as memórias que lhe foram tiradas acaba determinando alguns de seus atos na história e mudando os rumos que ela toma no decorrer do filme. Há algo não tão bem explicado na missão que o incomoda e isso potencializa as reflexões que ele faz sobre sua própria natureza (adianto que não é nada de tão profundo). Objetos, como discos e um livro, que ele encontra em meio a ruínas ajudam a aguçar sua sensibilidade, em alguns dos melhores momentos do filme ele entra em contato com elementos que o transportam para o mundo de antes da invasão, estas passagens são interessantes por retratarem sua busca interior por traços de humanidade que ele aparentemente perdeu.


Referências à clássicos da ficção científica estão presentes em todo o desenvolvimento do filme, citações diretas ou indiretas, algumas não tão perceptíveis, prestam homenagens à obras como 2001 - Uma Odisseia no Espaço (1968)Alien, o Oitavo Passageiro (1979) e Planeta dos Macacos (1968). Apesar de não soarem em nenhum momento como plágio, tais referências acabam minimizando a originalidade de Oblivion, por nos lembrarem de que tudo aquilo que vemos nele não é novo, tratando-se apenas de uma reciclagem de fórmulas que outrora renderam obras de qualidade infinitamente superior à dele. Mas ainda assim tais citações constituem um aspecto interessante do filme e uma curiosidade à parte para os cinéfilos que as reconhecerão. 


As atuações não deixam a desejar, porém, também não possuem nada além do 'arroz e feijão' típico dos brokebusters. Tom Cruise, por exemplo, está bem, mas, mais uma vez o que chama a atenção é apenas a jovialidade que emana de sua figura, apesar de seus 50 anos, e não seu desempenho em si. Morgan Freeman e Melissa Leo aparecem em papéis importantes para a trama, porém destituídos de uma composição que evidencie a qualidade das interpretações que seriam capazes de oferecer. A fotografia dirigida pelo oscarizado Claudio Miranda é bem realizada, ela salienta bem a falta de vida no que sobrou do planeta e o isolamento do protagonista no primeiro ato do filme, mas, ela também não apresenta nada de tão extraordinário. Os efeitos visuais são bons o suficiente para nos convencer do realismo daquilo que vemos na tela, mas são só uma bonita embalagem para um conteúdo de atrativos parcos. 


Oblivion não é nem de longe um filme irrepreensível, como eu disse acima, ele possui problemas que o prejudicam e suas qualidades não são o suficiente para torná-lo uma obra digna de elogios tão calorosos. Todavia, ele funciona bem como um filme de aventura, daqueles superficiais e facilmente esquecíveis, mas que conseguem ao menos nos oferecer bons momentos de diversão e escapismo. Para aqueles acostumados a desligarem seus cérebros diante da tela (às vezes isso é necessário) certamente o longa de Joseph Kosinski será uma boa pedida, já os que repudiam este tipo de filme devem passar o mais longe possível dele... Eu o recomendo para os primeiros! 



Assista ao trailer de Oblivion no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.