N° de acessos:

domingo, 11 de dezembro de 2011

Minha história de leitura... qual a sua?


Foi por causa do post homônimo da amiga blogueira Joicy Doux Sorcière que decidi subverter a linha editorial que adotei este ano aqui no Sublime Irrealidade e escrever um artigo ainda mais pessoal e intimista... Pretendo falar rapidamente sobre a minha experiência com a literatura e como ela transformou, sem nenhum exagero, a minha visão de mundo e a minha forma de interagir com outras pessoas e seus pensamentos... Sempre estudei em escola pública e hoje faço a triste constatação de que foram poucos os professores que se preocuparam em tornar a mim e meus colegas devoradores de livros. Minha mãe aprendeu a ler sem nunca ter ido à escola, isso de alguma forma colaborou para que a leitura não se tornasse um de seus hábitos, ela não tinha consigo as melhores condições para se tornar uma incentivadora... Este contexto fez com que eu estabelecesse um relacionamento já tardio com a literatura, que veio a acontecer na minha adolescência, o pouco contato que tivera antes disso, fora através de alguns livros da Coleção Vaga-lume, aqueles cuja a leitura escassa era obrigatória em algumas escolas. A maior parte da minha turma os lia por obrigação, ou simplesmente não os lia, eu no entanto lia com o maior prazer do mundo.

Mas a verdadeira revolução artística e cultural que experimentei começou a acontecer quando eu tinha 13 anos, foi quando se deu o meu primeiro contato com a música como forma de arte, pode parecer que estou mudando de assunto, mas não, eu passara então a experimentar a música não mais como uma simples forma de entretenimento, mas como um canal para novas ideias e pensamentos, no auge de minha utopia eu acreditava que a música, não só ela, mas toda expressão artística poderia mudar o mundo e torná-lo melhor, mas eu queria ir além, eu queria ir até a fonte de tais pensamentos que eu considerava revolucionários. Foi nesta época que estabeleci meus primeiros contatos com a filosofia. Enquanto o meu professor desta disciplina tecia interpretações mesquinhas do mito da caverna de Platão, eu mergulhava em clássicos como Utopia de Thomas More, O Príncipe de Maquiavel, O Contrato Social de Russeau e outras obras e fragmentos de Marx, Bakunin, Malatesta, Emma Goldman, Proudhon, Kropotkin e outros...


O contato com a filosofia política me levaria à leitura de clássicos de outras correntes filosóficas, foi então que conheci Nietzsche, com quem desenvolvi uma relação de amor e ódio, Epicuro, um de meus favoritos, Spinosa, Erasmo e é lógico aqueles que seriam a base de todo o pensamento ocidental, Sócrates, Platão e Aristóteles, sendo este último aquele com o qual eu mais me identifico. A crise ideológica que experimentei algum tempo depois direcionaria o meu olhar para os clássicos ficcionais, durante um bom tempo eu preferi me distanciar, não da filosofia, mas do radicalismo que eu havia adotado como estilo de vida, foi neste período de antítese que conheci o meu autor favorito: Franz Kafka. De uma forma assustadora sua obra conseguia materializar todas as dúvidas, angústias e crises que eu então experimentava. Li O Processo e enxerguei ali uma alegoria da minha própria viva e esta identificação foi devastadora e se repetiu quando eu li A Metamorfose.

Foi também neste mesmo período que li Os Sofrimentos do Jovem Werter de Goethe, outra obra que deixaria marcas profundas em mim e que exemplifica bem a forma com que eu sempre dialoguei com os livros que lia, quando eu o li eu vivia uma situação parecida com a que levara o personagem central ao suicídio na história, porém, ao invés de despertar em mim sentimentos negativos, similares ao vividos por Werter, o livro trazia era algo de mágico, uma espécie de confirmação de que tudo aquilo que eu estava vivendo era digno de uma das maiores obras da literatura mundial, o que tornava meu sofrimento quase poético. O meu constante diálogo com os livros faria com que em muitas situações eu visse confundidas a minha história com a dos personagens com quem eu interagia.

A literatura se tornou então o código secreto que confirmava para mim que a minha existência tinha algo de superior, ao contrário do que tudo à minha volta dizia. Eu era alguém, eu era um indivíduo diferente dos demais e justamente por isso eu era alguém. Foi a literatura que de alguma forma de libertou das amarras do determinismo, que constantemente me dizia que o meu destino já estava escrito e por isso seria intocável, eu estava condenando a ter o mesmo futuro mesquinho esperado por todos aqueles garotos que liam a Coleção Vaga-lume por obrigação nos tempos da escola. Ler não me tornou mais rico, ou mais poderoso (ainda!), mas me possibilitou a fazer uma leitura diferenciada do mundo á minha volta. Hoje, posso afirmar que a reação que tenho diante de um filme, ou de uma peça teatral está diretamente ligada às reações que tive a priori com a literatura.

Não lembro muito bem do meu primeiro livro, lembro apenas que ele tinha um caracol na capa e que o ganhei quando entrei na escola primária, já do segundo eu lembro, na verdade guardo ele até hoje, é O Burrinho Insatisfeito, um livro infantil que narrava a história de um burrinho que não contentava em ser burro, ele então encontra um mágico que passa a lhe conceder desejos e o transforma em vários outros animais que ele julgava ter uma vida mais fácil que a sua, no final ele chega à conclusão de que ser burro era de fato o que ele gostava... Lembrei desta história pois ela ilustra bem aquilo que a literatura nos proporciona, ela é este mágico que nos concede o desejo de ser ao menos por alguns instantes aquilo que não somos e este processo nos ajuda descobrir quem realmente somos...

No momento estou lendo lentamente Crime e Castigo de Dostoiévski e devorando A Insustentável Leveza do Ser de Milan Kundera...

Termino este post com um agradecimento emocionado a alguns mestres que me ajudaram a descobrir e/ou aprimorar o gosto pelos livros, obrigado Carla Fagundes (por ter lecionado sobre a literatura brasileira com a maior paixão do mundo), Carla Silva Machado, (por ter me apresentado, dentre outros, O Retrato de Dorian Gray de Oscar WildTaís Alves, (por ter me apresentado a Zuenir Ventura e ao jornalismo literárioMaria do Carmo Mello (pelas ótimas discussões literárias e filosóficas e por ter me apresentado a O Mundo de Sofia de Jostein Gaarder) e Robson Terra (pelas brilhantes análises das obras de alguns dos mais importantes teóricos da comunicação)!


Visitem meu profile no Skoob, uma rede social sobre livros! 


sábado, 10 de dezembro de 2011

Caché

Caché - 2005. Escrito e Dirigido por Michael Haneke. Direção de Fotografia de Christian Berger. Produzido por Veit Heiduschka. Les Films du Losange e Wega Film / França | Áustria | Alemanha | Itália | USA.


Ao escrever esta resenha, como em qualquer outra, eu consciente ou inconscientemente seleciono e escolho aspectos, nuances e temas sobre os quais pretendo discorrer. Do mesmo modo, quando discursamos ou fazemos uma apresentação, ou até mesmo quando, antes de dormir, recapitulamos e “organizamos” as memórias de nosso dia, mesmo não tendo ciência disso, nós preservamos aquilo que de alguma forma nos toca ou nos marca e deletamos todo o resto que acreditamos não ter para nós significativa relevância. Constantemente estamos fazendo uma espécie de edição daquilo que dizemos, pensamos e apreendemos. Caché (2005) fala implicitamente sobre isso, sobre esta seleção a qual por vezes recorremos para manter encobertos nossos traumas, ressentimentos e falhas. A problemática em tudo isso é que muitas vezes aquilo que escondemos possui uma relevância infinitamente maior do que aquilo que convenientemente decidimos preservar.

Ao olharmos para a família focada pela trama de Caché, enxergamos um casal aparentemente feliz e bem sucedido, eles têm uma boa situação financeira, bons relacionamentos e um filho saudável e talentoso nos esportes, mas esta primeira impressão não passa de mera aparência, tal como todos nós, estes personagens realizam constantemente a edição de suas próprias vidas e de suas realidades. Aquilo que vemos a priori é apenas uma espécie de simulacro, o produto final de tal processo de edição. Um segundo olhar, sob uma nova angulação mostra que aquela família enfrenta uma séria crise, que transcende aquilo que seria em princípio o mote do longa. O roteiro do filme levanta as seguintes questões: O que acontece quando somos tomados pelo medo de não estarmos mais seguros? Como reagir diante de uma situação tão inesperada, quando inexplicável, que de repente ameaça expor sem cortes toda a nossa intimidade, que com o maior esforço do mundo tentamos camuflar e dissimular?


Georges Laurent (Daniel Auteuil) e Anne (Juliette Binoche), o casal envolta do qual a história se desenvolve, leva uma vida aparentemente normal, ele é o apresentador de um bem sucedido programa sobre literatura e ela trabalha em uma editora (!), eles são cultos, transitam com desenvoltura pelos circuitos intelectuais e possuem amigos que os visitam com frequência. A aparente estabilidade do lar é quebrada, quando eles recebem um fita cassete com imagens amadoras que mostram a faxada da residência onde moram. O vídeo fora deixado em uma sacola na entrada da casa, sem nenhuma outra informação que pudesse esclarecer quem fizera aquilo ou por qual motivo o teria feito. Um segunda fita chega, desta vez acompanhada de um desenho, aparentemente feito por uma criança, que mostra um rosto vomitando sangue, desta vez o vídeos trás outras imagens que de alguma forma estão relacionadas aos personagens e na sequência outras pessoas ligadas à família recebem desenhos parecidos.


O casal é então tomado pelo pânico induzido pela sensação angustiante de estar sendo vigiado e pelo temor provocado pela insegurança. Grande parte do medo advém da ameaça de verem revelados aqueles segredos que tanto lutaram para esconder ou superar. Em determinado momento da história a suspeita recai sobre o soturno Majid (Maurice Bénichou), ele é um filho de imigrantes argelianos, seus pais, que eram funcionários da família Laurent, foram mortos durante uma manifestação árabe em Paris nos anos 60 e por pouco ele não fora adotado pelos pais de Georges. Majid é um personagem misterioso, o desenrolar da trama nos induz a crer que ele fora no passado o responsável por algo que deixou profundas marcas em Georges, este começa a ter visões e pesadelos com ele depois de receber as primeiras fitas. O filme tem um andamento bem lento, o que potencializa ainda mais a sensação que ao meu ver ele pretende despertar, porém o suspense que ele cria é fantástico, tal como os personagens nós espectadores somos tomados pela ansiedade de ver solucionado todo aquele mistério...


Ao final da exibição cheguei à conclusão de que o que importa não é o mistério, ou os vídeos enviados para o casal, o que é de fato importante são as relações que eles desenvolvem e suas reações diante da situação que lhes angustia. Uma das sequências do filme, na qual um dos personagens conta uma história sobre um cachorro que morrera no dia de seus nascimento, é emblemática, pois esboça o tipo de pretensão que o filme aparenta ter. Na minha opinião ele pode ser analisado como uma espécie de tratado sobre os diversos tipos de reação que indivíduos diferentes têm quando estão diante da “realidade” que experimenta, tal realidade pode ser suas própria vidas, um vídeo amador, ou até mesmo um filme... Somos então reféns não só da edição que consciente ou inconscientemente fazemos, mas também daquela que os outros fazem por nós, sendo assim se torna ainda mais complicado distinguir o que de fato é importante e o que não é, o que é mentira e o que é verdade...


Toda a montagem de Caché é feita de forma que nós espectadores possamos entrar em conflito durante a exibição, em diversas sequências não fica claro se o que vemos é o filme, ou então o filme dentro do filme, já outras passagens nos é mostrada partindo de pontos de vistas distintos, o que comprova o quanto uma determinada angulação pode influenciar na forma com que decodificamos tudo aquilo que vemos. Michael Haneke acertou em deixar para o expectador a responsabilidade de encontrar a resposta (ou seriam respostas?) acerca da trama... Mas se partirmos daquilo proposto pelo próprio filme, entenderemos que a resposta que realmente interessa está lá desde a primeira sequência, de forma totalmente explícita. Caché não precisa de uma trilha sonora, nem de uma fotografia estupenda ou locações exuberantes para atingir aquilo a que se propõe, basta a desconstrução da linguagem para que a obra se torne de fato imperdível para todos aqueles que amam e pensam o cinema como obra de arte. Ultra recomendado!


Caché foi o vencedor no Festival de Cannes nas categorias de
Melhor Direção, Prêmio do Júri e Prêmio da Crítica Internacional.

Assista ao trailer de Caché no You Tube, clique AQUI !


terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Ilha do Medo

Ilha do Medo (Shutter Island) - 2010. Dirigido por Martin Scorsese. Escrito por Laeta Kalogridis, baseado na obra literária de Dennis Lehane. Direção de Fotografia de Robert Richardson. Música Original de Robbie Robertson. Produzido por Martin Scorsese e Mike Medavoy. Phoenix Pictures, Appian Way Productions e Sikelia Productions / USA.


Ainda não sei explicar a má recepção de Ilha do Medo (2010) por boa parte do público e da crítica. O filme parece ter simplesmente passado batido, sem grandes efeitos, até mesmo por aqueles que consideram Martin Scorsese um dos maiores cineastas em atividade. Antes de assistir ao filme, eu cheguei a ler uma resenha que apontava a “falta de intimidade do diretor com o gênero suspense” como a culpada pelo seu aparente insucesso, esta é uma constatação um tanto equivocada, em primeiro lugar porque afirmar isso é negar a existência de Cabo do Medo (1991), na minha opinião um dos melhores filmes de Scorsese e um clássico do gênero, segundo porque rotular Ilha do Medo tão somente como suspense é simplesmente reduzi-lo à apenas uma das vertentes narrativas pelas quais ele transita. A trama mescla elementos de filmes de guerra, policial, noir, drama e suspense psicológico e o resultado é uma obra de inegável qualidade, que consegue nos prender e nos surpreender de uma forma arrebatadora.

O roteiro, baseado no romance de Dennis Lehane, explora mais uma vez a fragilidade da linha conceitual que separa a sanidade da loucura e mergulha no mais profundo da mente humana para de lá trazer à tona os piores fantasmas. A história está centrada em Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio), um agente do FBI que recebe a missão de ir até uma ilha, onde funciona um manicômio judicial, para tentar encontrar uma das pacientes mais perigosas que estava desaparecida, ela supostamente fugira de uma cela de onde seria impossível escapar. Antes de chegar a ilha, Teddy é apresentado ao seu novo parceiro, Chuck Aule (Mark Ruffalo), que o acompanhará durante as buscas. A paciente a quem eles procuram é Rachel Solando (Emily Mortimer), ela é uma maníaca depressiva que afogou seus três filhos durante uma crise psicótica, seu sumiço misterioso intriga a todos e só faz aumentar a suspeita de que coisas estranhas acontecem naquele lugar.


A instituição sediada na ilha desenvolve tratamentos alternativos para tentar reabilitar criminosos psicóticos que se encontram impossibilitados de serem reinseridos na sociedade devido aos seus comportamentos altamente agressivos. O clima opressivo do lugar reascende em Teddy conflitos internos provocados por traumas de seu passado, ele nunca conseguiu superar as barbáries que vivenciou quando esteve na guerra, nem a perda da esposa, que morrera em um incêndio criminoso. O contato com os internos parece torná-lo cada vez mais parecido com um deles, ele é então tomado por forte dores de cabeça e por constantes visões de sua falecida esposa e dos horrores que vivera no campo de batalha, com isso ele se torna cada vez mais agressivo com todos à sua volta. A recusa dos administradores da instituição de lhe conceder acesso irrestrito a todos os aposentos, corrobora sua suspeita de que aquele lugar se aproxima mais de um campo de concentração do que de um hospital para criminosos mentalmente perturbados.


A administração e funcionários do lugar parecem estar dispostos a dificultar ao máximo o andamento das investigações. O enigmático Dr. Cawley (Ben Kingsley), o diretor da instituição, aparenta estar constantemente escondendo algo dos agentes, no entanto é o sarcástico Dr. Naehring (Max von Sydow), quem mais intriga Teddy, este associa sua figura sinistra à dos oficiais nazistas com quem se encontrara na guerra durante a tomada de um campo de concentração. Pouco a pouco mistérios vão sendo revelados e descobrimos então o que realmente teria levado o investigador federal à ilha. Por se tornarem uma espécie de ameaça a tudo que é feito naquele hospital, Teddy e Chuck passam a ser vistos como obstáculos por aqueles que os receberam, é então que eles descobrem que não conseguirão sair daquela ilha tão facilmente. O limiar entre a loucura e sanidade praticamente desaparece depois que uma forte tempestade deixa a ilha sem eletricidade, libertando todos os pacientes de suas respectivas “celas”.


Cheguei a ter uma impressão negativa no início do filme, as atuações, com exceção a de Leonardo DiCaprio, me pareciam forçadas demais, como se faltasse naturalidade nos diálogos e como se os personagens estivessem deslocados da trama, na qual deveriam estar inseridos, o decorrer do filme prova que isso não é um fato nem um pouco negativo, pelo contrário, aí está um dos melhores aspectos do filme e a verdadeira genialidade de cada um dos atores do elenco principal... vou parando por aqui para não correr o risco de revelar nenhum detalhe mais importante sobre a trama. O suspense, que remonta ao estilo Hitchcockiano, é durante todo o filme amparado pela belíssima fotografia, que torna o lugar ainda mais soturno, e pela trilha sonora, que dita o ritmo com uma sonoridade dissonante , densa e angustiante.


Ilha do Medo pode parecer uma obra menor quando comparado aos clássicos de Scorsese, mas não se engane, ainda assim este é um ótimo filme. A explicação para isso, talvez seja a de que o diretor buscou as referências certas para construção de tudo que vemos no longa, desde a trilha sonora, à direção de arte, passando pela temática e pelo tipo de abordagem. O filme foi muito bem sucedido ao tentar recriar uma época, com todo um contexto como pano de fundo, que remonta de acordo com o próprio Scorsese ao período do macartismo e da caça às bruxas na década de 50. Leonardo DiCaprio está fantástico como sempre, seria mera repetição dizer aqui que ele é um dos melhores atores do mundo em atividade. Ben Kingsley, Max von Sydow, Mark Ruffalo, Emily Mortimer e Michelle Williams (que interpreta a esposa de Teddy) também estão muito bem em seus personagens... Como eu jé disse, é apenas com o desenrolar da trama que passamos a ter uma noção do real desempenho de alguns deles. Ilha do Medo é sem dúvidas uma ótima pedida, evite ler muita coisa sobre o filme antes de assisti-lo e apenas se entregue às emoções diversas que ele pode lhe causar! Recomendo!


Assista ao trailer de Ilha do Medo no You Tube, clique AQUI !

Confira também aqui no Sublime Irrealidade as resenhas críticas de
Cabo do Medo, e de Os Infiltrados,
obras primas de Martin Scorsese!


sábado, 3 de dezembro de 2011

Alphaville

Alphaville - 1965. Escrito e dirigido por Jean-Luc Godard, inspirado em um poema de Paul Éluard. Direção de Fotografia de Raoul Coutard. Música Original de Paul Misraki. Produzido por André Michelin. Athos Films, Chaumiane, e Filmstudio / França | Itália.


Dizem que a pretensão original de Alphavile era a de ser uma desconstrução dos gêneros ficção científica e noir, mas este filme, um dos clássicos dirigidos por Jean-Luc Godard, durante o auge da Nouvelle Vague, transcende sua própria premissa. Contrariando a visão comum que se tem dele, eu prefiro não o analisar como uma filme “futurista”, apesar de que mesmo depois de quase 50 anos ele ainda continue a nos convencer disso. Pretendo o analisar como uma alegoria da época na qual ele fora produzido, partindo do pressuposto de que a sua trama se desenvolve, não em algum lugar do futuro, mas em uma realidade alternativa atemporal, onde passado, presente e futuro convivem gerando a antítese que serve de conflito para a trama. No filme, o personagem principal parece ter saído de uma produção cinematográfica dos anos 40 e ter sido inserido em uma realidade, inspirada em especulações sobre o porvir, na qual ele não consegue se adaptar.

Alphaville materializa em seu roteiro o temor experimentado pela consciência coletiva nos anos 60. Direta ou indiretamente, ele explora o medo da ameaça de uma guerra nuclear e a tensão constante do mundo bipolarizado. Como artista que é, Godard aponta para a poética como o elemento salvador tanto do indivíduo quanto da sociedade. De acordo esta visão, capitalismo e socialismo seriam nada mais que dois lados de uma mesma moeda, uma vez que ambos representavam, mesmo que de forma distinta, o controle exercido pela sociedade sobre o indivíduo. Na realidade paralela criada no filme, a sociedade é controlada por um super computador, o Alpha 60, que usa o raciocínio lógico para reprimir qualquer manifestação de sentimento ou humanidade e punir aqueles que subvertem as normas por ele impostas. O controle social alegorizado no filme mescla a selvageria destruidora do capitalismo ao dogmatismo comunista.


Na trama, Lemmy Caution (Eddie Constantine) é um agente secreto vindo dos "países exteriores" que chega em Alphaville, disfarçado de jornalista, com a missão encontrar e se preciso exterminar o professor Leonard Nosferatu aka von Bran (Howard Vernon), que estava desaparecido. Logo após sua chegada na “cidade” (o filme não deixa claro se Alphaville é uma cidade, um planeta ou uma galáxia), Caution vai ao encontro de Henri Dickson (Akim Tamiroff), outro agente que já estava lá há algum tempo. Henri mora em um grande prédio ocupado por outros indivíduos tidos como “anormais”, eles são em sua maior parte pensadores e poetas, que frequentemente se sucumbem diante da repressão imposta pelo sistema, sendo alguns deles levados até ao suicídio. No filme os “países exteriores” representam uma espécie de oposição política e cultural à Alphaville. No desenrolar da trama, percebemos que há a constante ameaça de uma grande guerra entre os dois eixos, o que não é nada mais que outra metáfora acerca da época em que o roteiro fora escrito. 


Em seu encontro com Henri, Caution consegue uma poderosa arma que usará ao seu favor, um livro de poemas. Ele pretende combater a ditadura imposta pelo super computador entorpecendo-o com poesias, que seu senso lógico é incapaz de decodificar. No hotel onde se hospeda, Caution conhece e acaba estabelecendo contato com Natasha (Anna Karina), uma funcionária do lugar encarregada de lhe proporcionar “entretenimento”, por acaso ela é filha do professor Leonard Bran, a quem ele busca. Tal como os outros habitantes de Alphaville, Natasha desaprendeu a amar e o significado de palavras tidas como perigosas, como “consciência”. Ela teve parte de sua memória apagada e nem se recorda de que não é natural de Alphaville, seu pai a levara para lá, em condições adversas, quando ainda era criança. Durante todo o tempo, ela transita pelos dois lados e o roteiro explora a dúvida então criada, seria ela capaz de reaprender o amor e tantos outros sentimentos que há tempos tinha esquecido?


O supercomputador Alpha 60 é quase onipresente, ele supervisiona os diálogos e demais interações de todos os habitantes da cidade, não demora muito e ele descobre o comportamento subversivo de Caution, ele então o leva à sua presença para um interrogatório. Através de cálculos, processamento de dados e das interpretações das declarações dadas pelo agente secreto, Alpha 60 conclui que pode usá-lo como espião durante o conflito que se aproxima, ao invés de induzi-lo ao suicídio ou a uma recuperação forçada em um “hospital”. Mas Caution tenta se manter fiel ao propósito que o levou à Alphaville, ele luta com todas as forças para quebrar o julgo que está sobre os habitantes daquele lugar tão estranho e sombrio, que não deixa, nem por um minuto, de lhe causar espanto e estranheza. É então que o personagem usa a arma que ganhara, o resultado é um dos diálogos mais poéticos e antológicos do filme.


Percebo em Alphaville uma alegoria não só da situação política vivida nos anos 60, mas também da própria produção cinematográfica do período. O filme pode ser analisado como uma contundente crítica ao tecnicismo e ao racionalismo que dominavam a cena de cinema francesa naqueles anos. A defesa engajada de Godard dos sentimentos e sensações, que deveriam se sobrepor à lógica, é uma das maiores marcas da fase mais áurea de sua filmografia. Prova disso são os cenários e locações do filme, que não têm em si nada de futuristas, eles são em sua maior parte aposentos de prédios públicos e saguões de hotéis... O que nos convence de que estamos em uma outra realidade, atemporal como já defendi, são as sensações que o filme nos provoca, a estranheza e o medo das ameaças que eram mais reais do que podemos hoje imaginar. Em alguns pontos o filme foi até profético, ele prenunciou a exaltação do conhecimento técnico em detrimento da reflexão e dos sentimentos e a angústia existência do indivíduo diante de um mundo que não consegue compreender, fatos sociais que viriam a se tornar tão comuns e banais nos dias de hoje.


Eddie Constantine interpreta com competência e maestria um personagem que foi claramente inspirado no tipo mais comum vivido por Humphrey Bogart, o homem rude, em certos pontos machista, mas detentor de um aguçado senso de ética e de justiça. Apesar da aparente dureza, Caution é o mais humano e sensível de todos os personagens (isto por si só já é uma desconstrução de um dos maiores mitos do cinema)... Anna Karina é na minha opinião um dos maiores atrativos do filme, falar dela é no entanto o mais complicado, corro o risco de ser imparcial, mas só posso afirmar que ela está sublime, toda a sua atuação está concentrada apenas no olhar (são nos seus olhos que Caution enxerga a esperança para Alphaville), a maquiagem que ela usa no filme parece potencializar o efeito de sua expressão facial, que carrega consigo tanta poesia quanto as palavras proferidas contra Alpha 60... É inquestionável a contribuição de Godard, não só para o dito cinema de autor, mas para toda a história da sétima arte, apesar de alguns críticos taxarem seus filmes de “difíceis”, eles não o são. Seus longas apenas exigem uma boa dose de sensibilidade, coisa que, convenhamos, são poucos que têm... para estes poucos este clássico é ultra recomendado!


Alphaville ganhou o Urso de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Berlim.

Assista ao trailer de Alphaville no You Tube, clique AQUI !

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a resenha crítica 
de outros clássico de Godard: Bande à Part e Tempo de Guerra !


segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Melancolia

Melancolia (Melancholia) - 2011. Escrito e dirigido por Lars von Trier. Direção de Fotografia de Manuel Alberto Claro. Produzido por Meta Louise Foldager e Louise Vesth. Zentropa Entertainments, Memfis Film, e Liberator Productions / Dinamarca | Suécia | França | Alemanha.


É inexplicável a reação de estar diante de uma verdadeira obra de arte e sendo assim seria uma tarefa árdua tentar convencer do contrário qualquer um que tenha apontado Melancolia (2011) como um filme chato e carente de um bom roteiro. Ele foi pra mim precisamente o oposto disso. Se trata de mais um exemplar daquele tipo raro de produção, que subverte totalmente a ideia de que o cinema serviria tão somente como bom entretenimento. Os desavisados que esperavam do longa uma boa história sobre catástrofes naturais certamente saíram do cinema amargando uma baita decepção. Lars von Trier consegue se superar e me surpreender a cada filme, eu, que considerei Anticristo (2009) uma espécie de ápice criativo, fiquei boquiaberto da primeira à última sequência de Melancolia. Se seu filme anterior evocava o asco ao expor sem atenuantes o mais brutal da natureza humana, neste ele reproduz de forma quase palpável a mais profunda angústia existencial, condição que ele mesmo experimentou nos últimos anos.

Melancolia tem sua trama focada em alguns dias na vida de duas irmãs, Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg), como de praxe Lars von Trier divide o filme em capítulos e dedica cada um deles a uma das irmãs. O primeiro, intitulado "Justine", acompanha a festa de casamento da personagem, ela não está empolgada com a cerimônia e está alheia à tudo que acontece à sua volta. A irmã, o cunhado e outros convidados exigem de Justine uma adequação às formalidades da ocasião, mas ela não deseja, nem consegue, cumprir as normas de etiqueta social que lhe cobram. Ele está imersa em um profunda depressão e todo o lampejo de alegria que esboça não passa de mera fantasia social. Sua melancolia é agravada pelas dúvidas que ela tem acerca de seu casamento, ela visivelmente tenta de tudo para agradar seu noivo, o gentil Michael (Alexander Skarsgård), mas isso também não passa de uma reação superficial, sem uma real entrega aos estímulos oferecidos pelo meio.


A explicação para a aversão de Justine à tudo que está vivendo pode estar na relação de seus pais, que estão separados, sua mãe é uma mulher liberal que não acredita nem no casamento, nem na família, já o pai parece apenas aceitar toda a situação que está vivendo sem questionar ou reclamar. Creio que não é por acaso que o filme comece justamente em uma cerimônia de casamento, afinal não é de hoje que o cinema usa a família como alegoria para situações experimentadas pelo indivíduo e pela coletividade, o casamento fadado ao fracasso aponta para a decadência da família e da própria sociedade, situações que atenuam ainda mais a angústia existencial experimentada pelos indivíduos. Aqui está um ponto chave do filme, o sofrimento e suas consequências seriam algo inerente à condição humana, algo comum a todos os indivíduos, o que varia é apenas a forma com que cada um reage a isso.


A segunda parte do filme, "Claire", direciona o foco para a segunda irmã, é neste capítulo que é anunciada a possível catástrofe, um planeta (isso mesmo, um planeta), chamado Melancholia está em rota de colisão com a Terra. Cientistas defendem que não acontecerá um choque entre os dois planetas, não havendo portanto com o que se preocupar, mas teorias diversas se espalham pela internet e Claire se expõe à elas. Ao contrário do que poderíamos esperar, é Claire, e não Justine, quem se alarma com um possível fim do mundo. Seria este o fim da existência? Em um diálogo Justine afirma: “A Terra é má, não precisamos sentir pena dela... estamos sozinhos, a vida só existe na Terra e não por muito tempo...”. Na primeira parte do filme, Claire faz de tudo para reprimir as emoções da irmã, nesta é ela quem não consegue controlar aquilo que sente, ela é tomada pelo pânico e pelo medo de perder tudo aquilo a que está apegada.


O planeta que se aproxima não é um mero detalhe, mas é tão somente uma metáfora. Assim como os personagens e suas respectivas realidades não passam de alegoria do que seria de fato real. Para Lars apenas a dor é real e ela contagia cada um de seus personagens, nenhum deles fica ileso. No tocante à metáfora ilustrada pela aproximação do planeta, entendo que a pretensão do roteiro é construir uma associação entre a iminência de uma catástrofe e a forma com que nos relacionamos com a nossa dor e a nossa angústia. A melancolia de Justine a torna imune ao medo, pois ela não tem nada a perder, o fim do mundo significa, ao seu modo de ver, o fim do sofrimento. Já Clarie está completamente indefesa, pois é então que ela passa a ter noção de sua própria fragilidade, Melancholia então a assusta de uma forma bem diferente da dos outros personagens, seu marido, John (Kiefer Sutherland) se apóia na ciência para acalentá-la e para dissimular seu próprio temor.



Mais uma vez a ciência é a extensão da ignorância e da limitação humana, o que aponta para uma visão totalmente cética e niilista. O homem não pode confiar em Deus (estamos falando de Lars von Trier), não pode confiar em si mesmo, nem tão pouco na ciência... O que restaria seria apenas uma opção por se entregar à dor, sentimento que seria capaz de tornar o indivíduo mais forte, à medida que este estivesse exposto a ele. Percebe-se aqui mais um eco da filosofia de Nietzsche na obra de Trier (o roteiro de Anticristo também tem perceptível influência da obra deste pensador, conforme comentei na resenha crítica que fiz do filme), que se manifesta nesta ideia de que o sofrimento seria o estímulo capaz de livrar o indivíduo da sentença de pairar constantemente no ar, se distanciando da terra e do que seria a verdade experimentada. Esta condenação, da qual o homem é liberto, poderia leva-lo a se tornar um ser “semi-real”, sendo assim a dor seria o fardo que empurra para o chão, para a realidade.



O desfecho do filme, que muitos apontaram como o mais positivista de Lars von Trier, não passa, ao meu modo de ver, de mais uma piada do cineasta. Ele ironiza metaforicamente as ilusões criadas para trazer conforto e atenuar a dor que se sente. O filme termina e me sobra uma pequena dúvida, teria Justine transcendido sua condição melancólica e alcançado o ideal proposto por Nietzsche do “super-homem”? Na verdade encontrar a resposta para esta pergunta não é o mais importante, o que importa é ter chegado à ela. Reforçando sua condição de obra de arte, o filme nos conduz a esta reflexão e a tantas outras acerca de nossa natureza, de nossas relações sociais e de nossas angústias. Posso não concordar com esta visão, mas isso também não importa, o fato é que Melancolia é uma verdadeira obra prima, seja pela trama, pelas excelentes atuações ou pela belíssima fotografia. Sem dúvidas um dos melhores filmes deste ano, porém seria uma besteira recomendá-lo para todos...


Melancolia ganhou o prêmio de Melhor Atriz ( Kirsten Dunst) no Festival de Cannes.

Assista ao trailer de Melancolia no You Tube, clique AQUI !

Confira também aqui no Sublime Irrealidade a resenha crítica de
Anticristo, também escrito e dirigido por Lars von Trier!


domingo, 27 de novembro de 2011

Reino Animal

Reino Animal (Animal Kingdom) - 2010. Escrito e dirigido por David Michôd. Direção de Fotografia de Adam Arkapaw. Música Original de Antony Partos. Produzido por Liz Watts. Screen Australia e Porchlight Films / Austrália.


Se eu precisasse resumir minha experiência de ter assistido Reino Animal (2010) em apenas uma palavra, eu escolheria “decepção”... O filme tem boas atuações? Sim! A direção é precisa? Sim! Ele tem bons momentos de tensão? Sim! A visão melancólica e negativista e um fator positivo? Sim! Mas então o que teria feito o filme passar bem longe da expectativa que eu então criara? Penso que seja em parte por causa do roteiro, que apresenta algumas falhas quase gritantes e em parte pela badalação criada em torna da atuação de Jacki Weaver, que convenhamos, apesar de ser muito boa, se perde em meio à falta de uma base consistente que possa sustentar seu personagem. O filme marca a estreia do diretor e roteirista David Michôd, que não faz feio na direção, no entanto no roteiro ele se deixa levar pelo aspecto mais marcante da história, deixando assim de aparar algumas arestas, o que denota a carência significativa de uma linguagem mais amadurecida.

No início deste ano, quando o filme estava concorrendo ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, os olhares de críticos e cinéfilos se voltaram para ele, e não faltaram comentários exaltados, como o de que este seria uma espécie de O Poderoso Chefão de saias ou o de que a antagonista do filme seria uma das personagens mais odiáveis dos últimos tempos, pela sua sagacidade e crueldade. Na minha humilde opinião, ambas afirmações são completamente infundadas, para defender meu posicionamento, preciso apresentar meu ponto de vista acerca da trama do filme. Mas antes de tecer qualquer comentário sobre a história contada no longa, preciso, para não correr o risco de ser injusto, lembrar que se trata de um filme, que apesar das falhas, merece algum crédito por ter se originado fora do circuíto Hollywoodiano e por ter conseguido significativo sucesso nos festivais em foi apresentado e até mesmo no mainstrean da sétima arte.


A trama é construída em torno de uma família que está completamente envolvida com a criminalidade em uma cidade australiana. Toda a história é contada partindo da perspectiva de Joshua “J” Cody (James Frecheville), um jovem de 17 anos. Na primeira sequência do filme, ele perde a mãe vítima de uma overdose de heroína, sem outra alternativa ele pede a ajuda da avó, Janine “Smurf” Cody (Jacki Weaver), que o leva para morar com ela e os 3 tios dele, Andrew “Pope” Cody (Ben Mendelsohn), Craig Cody (Sullivan Stapleton) e Darren Cody (Luke Ford). Todos eles são extremamente perigosos e estão envolvidos com o tráfico local, com assaltos e outros crimes. Apesar de estar em família, “J” não consegue se tranquilizar nem botar um pingo sequer de confiança na avó e nos tios. Desde que ele era pequeno, sua mãe tentou o manter afastado da família dela, mas por sua própria causa ele estava agora sob a tutela de seus parentes.


O filme quase consegue ser brilhante ao estabelecer uma analogia entre a situação enfrentada por “J” e a lei da sobrevivência no mundo animal. Ele precisa se amparar em alguém mais forte para se manter a salvo, no entanto ele não sabe ao certo de quem precisa se salvar, se é da polícia ou se é de sua própria família. A situação piora quando Barry 'Baz' Brown (Joel Edgerton), um assaltante amigo da família, é morto por policiais. Pope, o mais velho dos tios de “J” é covarde e doentio, combinação que o torna bem mais perigoso que seus irmãos, é ele quem arquiteta um plano para vingar a morte de Baz. Numa emboscada, ele e os irmãos matam dois policiais que faziam a ronda noturna. É neste momento que o detetive sargento Nathan Leckie (Guy Pearce) aparece em cena, ele é a antítese perfeita daquilo que a família Cody representa, ele é ético, preza pela justiça e consegue manter um bom relacionamento familiar apesar do estresse e da responsabilidade inerentes ao seu trabalho.


Vamos então ao meu ponto e vista: O filme não deixa claro a gravidade dos crimes cometidos pela família Cody, mas a impressão que fica no fim das contas é a de que eles não passavam de bandidos pequenos, vagabundos metidos em pequenos delitos e não uma rede criminosa organizada, que justificasse a comparação com O Poderoso Chefão ou a mobilização policial que vemos no filme. Se por outro lado, tais crimes fossem assim tão graves, por que então eles não tinham sido pegos antes. Em um dado momento “J” comenta que um de seus tios seria capaz de cortar a garganta de alguém para não ser pego durante um assalto, tudo indica que, mesmo sendo capaz, ele nunca tinha feito isso. Não parametrizar as ações da família/quadrilha é a falha mais evidente de Reino Animal, mas ela não é a única. “J” é muito inocente para quem conviveu em um ambiente hostil com uma mãe drogada, à ponto de presenciar a morte dela por overdose. Outra dúvida surge, se ela, a mãe dele, queria realmente protege-lo de sua família, por que então não o protegia de si mesma?


A matriarca Smurf não mete tanto medo assim e como eu já disse ela é um personagem que carece de fundamentos. É atribuída a ela uma inteligência que ela não aparenta ter e sua crueldade é mais uma consequência do cerco que se fecha contra ela do que uma característica inerente à sua personalidade. No tocante às atuações, considero a de Ben Mendelsohn, superior a de Jacki Weaver, ele tem uma expressão facial fantástica e, apesar de ser o mais franzino dos irmãos, ele consegue pelo olhar provar que é um sujeito perigoso, que precisa ser temido. Se Smurf é a leoa que rodeia o bando para o proteger dos ataques de inimigos, ele é o leão que descontrolado é capaz de sacrificar a própria família para se manter vivo e escapar das garras de seu predador. Este personagem inserido em um roteiro melhor escrito poderia ter rendido um filme infinitamente melhor... Reconheço que Reino Animal não é um filme ruim, muito pelo contrário, como já disse ele tem bons momentos, porém ele me decepcionou...


Reino Animal recebeu o Grande Prêmio do Jurí – World Cinema no Festival de Sundance, o maior festival de filmes independentes dos Estados Unidos. O filme ainda recebeu indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante (Jacki Weaver).

Assista ao trailer de Reino Animal no You Tube, clique AQUI !


sábado, 26 de novembro de 2011

Hora de Voltar

Hora de Voltar (Garden State) - 2004. Escrito e dirigido por Zach Braff. Direção de Fotografia de Lawrence Sher. Música Original de Chad Fischer. Produzido por Pamela Abdy, Gary Gilbert, Dan Halsted e Richard Klubeck. Camelot Pictures / USA.


Ouvir uma música pela primeira vez. Voltar à cidade onde cresceu. Enterrar um porquinho da índia de estimação. Fazer algo que nunca fez antes. Estar em uma sala de espera de um consultório. Não saber nadar. Sentir saudades. Ter uma ideia original e ficar rico. Não saber o que fazer da vida. Encarar a culpa. Uma conversa na beira da lareira. Tomar conta de um abismo infinito. Dar um abraço protetor na pessoa amada. Ir a uma pedreira. Descobrir o sentido da vida. Simplesmente gritar... A banalidade da existência se torna fascinante pelo simples fato de estarmos perto de quem gostamos, Hora de Voltar (2011), a estreia de Zach Braff como diretor, é sobre isso. É sobre amor, sobre amizade e sobre perdão, principalmente sobre perdoar a si mesmo. Esta foi a terceira vez que assisti ao filme e o efeito dele sobre mim continuou o mesmo. Eu não tinha tido um dia legal quando o assisti pela primeira vez, mas de uma forma quase mágica ele me fez, não esquecer, mas olhar com outros olhos para tudo que eu estava vivendo. Não por acaso, eu não estava em um dos meus melhores momentos quando decidi o rever nas duas outras vezes.

Andrew Largeman (Zach Braff) tentou ser ator, mas fracassou, o único personagem pelo qual ele é lembrado é um portador de deficiência mental que interpretou em uma série de TV, tal reconhecimento nem sempre é positivo. Para ganhar a vida ele trabalha como garçom em um restaurante de comida vietnamita em Los Angeles, trabalho no qual não se sente nem um pouco motivado. A notícia da morte acidental da mãe faz com que Large volte para Garden State, a cidade onde nasceu e cresceu, ele passara mais de nove anos a exatos 4.827 quilômetros de distância da casa dos pais. Desde as primeiras cenas percebemos que Large é melancólico e tem um comportamento extremamente apático. Ele é dependente de lítio, medicamento prescrito para pacientes portadores de transtorno bipolar ou depressão. Já de antemão fica facilmente perceptível que o atual estado do rapaz é uma consequência de sua relação familiar. O medicamento que ele toma fora receitado pelo próprio pai, Gideon (Ian Holm), após um trauma vivido na infância.


Após o enterro da mãe, Large começa a reencontrar alguns de seus amigos de infância, dentre eles o coveiro Mark (Peter Sarsgaard), que tem uma família totalmente desajustada, Jesse (Armando Riesco) que ficou milionário após inventar e patentear um velcro silencioso e Kenny (Michael Weston), um ex-usuário de drogas que se tornou policial. Mark convida Large para uma festa em sua casa e este aceita o convite, pode parecer estranho ele ir a uma festa no dia em que sua mãe fora enterrada, mas ele parece estar completamente anestesiado, mesmo tendo parado com os remédios desde que saiu de Los Angeles. Na casa do amigo, o estado em que ele se encontra fica ainda mais evidente, ele experimenta drogas e mal consegue se levantar do sofá, passando quase toda a noite como um expectador daquilo que acontece à sua volta. O que se nota é que ele não está dando a mínima para si mesmo, para o que está sentido, ou para as pessoas à sua volta, é, como eu disse, a completa apatia.


Porém no dia seguinte, Large decide procurar um médico por causa de dores terríveis na cabeça, que ele já vinha sentindo a dias, esta consulta pode ser interpretada como uma tentativa dele de se livrar de tudo aquilo que seu pai lhe havia imposto até então. O médico conclui que ele não precisa tomar anti-depressivos e que seriam eles a causa de suas dores de cabeça. Ele sai completamente diferente do consultório, mas o que o mudou não foi o médico ou a consulta, foi o que aconteceu na sala de espera. Após uma sequência de acontecimento inusitados, Large consegue se interagir com uma garota que também estava lá, ela é Sam (Natalie Portman) uma mentirosa compulsiva (suas mentiras são quase inofensivas). Ela é praticamente o oposto dele, ela irradia alegria e esperança e seu alto astral é altamente contagiante. Ainda no consultório, em uma das cenas mais belas do filme, ele pergunta o que ela estava ouvindo, ela lhe empresta o fone e lhe apresenta à banda The Shins... A belíssima canção New Slang simboliza a quebra do gelo, a volta do sentir e da esperança a tanto perdida...


Tal como seus personagens, Hora de Voltar é cheio de imperfeições, mas estas não diminuem em nada sua maravilhosa capacidade de nos emocionar (continuo me emocionando a cada vez que escuto New Slang) e renovar em nós o brilho e o colorido da existência, que por vezes parece se esconder atrás de nossos medos, mesquinhez e falta de perdão. Zach Braff acertou em sua estreia como diretor principalmente por não tentar fazer nada de tão extravagante e tão extraordinário, a simplicidade do filme, alidada às ótimas atuações e aos personagens muito bem construídos, o tornam, não uma obra prima, mas algo extremamente belo e sensível, que precisa ser visto por todos, principalmente por aqueles que não acreditam que são capazes de serem felizes.


O principal destaque do filme fica por conta de Natalie Portman, ele está perfeita e linda como sempre. Não tem como não ser contagiado pela alegria estonteante de sua personagem, que consegue transformar o momento mais banal em uma experiência memorável. A trilha sonora, escolhida a dedo pelo próprio Zach, também é ótima e encaixa perfeitamente com o filme e com as sequências onde é utilizada. Dentre os temas estão canções do já citado The Shins, do Coldplay, do Zero 7 e de Simon & Garfunkel. Vale lembrar também a ponta feita pelo ator Jim Parsons, como o estranho Jim, que chega a lembrar seu personagem mais famoso, o Sheldon Cooper da série The Big Bang Theory. Se ao assistir ao filme, você experimentar metade do que senti em cada uma das três vezes que o vi, já terá valido a pena. Deixe passar algumas pequenas falhas e apenas aprecie a simplicidade e a autenticidade da história contada... Recomendo sem restrições o filme e a trilha sonora! O que está esperando, corra atrás!


Assista ao trailer de Hora de Voltar no You Tube, clique AQUI !