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sábado, 13 de novembro de 2021
terça-feira, 12 de outubro de 2021
"Persépolis" de Marjane Satrapi - Livro
Marjane Satrapi ainda era criança quando em 1979 rebeldes xiitas insurgiram contra Xá, autoridade máxima no Irã na época, e o depuseram, instalando em seguida um regime ditatorial e extremamente sanguinário.
Ela cresceu em meio à imposição de regras de comportamento e de vestimenta que cerceavam toda e qualquer expressão de liberdade individual.
A situação de seu país piora com o início da guerra entre Irã e Iraque, conflito que foi financiado por países do ocidente. O número de mortos e desaparecidos só aumenta e diante da ameaça iminente os pais de Marjane decidem mandá-la para a Suíça.
Já na Europa Marjane tem seu primeiro contato de fato com o movimento punk e a filosofia anarquista, até então seu contato mais próximo com o movimento era através de fitas K7 que circulavam clandestinamente entre seus amigos.
Marjane passa então a ter contato com uma liberdade quase absoluta, e, acaba não sabendo lidar com ela, indo ao fundo do poço após o término de um relacionamento, ela chega a morar na rua antes de voltar para o Irã. De volta pra casa dos pais, ela passa a ter contanto com um viés de seu país tão cruel quanto a própria guerra: a discriminação.
Resiliente, Marjane consegue vencer seus próprios fantasmas interiores e bater de frente com costumes, tabus e princípios. Ciente de que nunca mais caberá naquele mundo, ela parte de vez para a França, onde começa a escrever uma nova história...
Em Persépolis, Marjane desnuda de forma crua e muitas vezes angustiante a realidade que vivenciou em seu país e fora dele. O preconceito por não seguir a doutrina islâmica, por ser questionadora, por ser iraniana, por ter morado na Suíça, por não ser a esposa ideal, todos estes são na verdade males menores diante de um mal muito maior: o fato de ela ter nascido mulher em uma sociedade extremamente machista e autoritária...
Persépolis é uma obra prima em quadrinhos, um livro obrigatório, que nos fará entender e respeitar o outro étnico e valorizar a liberdade que ainda temos...
Escrito em 12 de outubro de 2015 e publicado originalmente no Facebook.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021
O Cortiço de Aluísio de Azevedo - João Romão e os recalques de uma classe média ascendente
Terminei minha pequena maratona por clássicos de nossa literatura com a leitura de “O Cortiço” do Aluísio de Azevedo. O livro rende inúmeras análises que vão do racismos estrutural presente em sua narrativa à sua abordagem de dois problemas que estão presentes até hoje na maior parte das cidades brasileiras, a não universalidade da moradia digna e a precarização do trabalho.
Mas, optei, nesta breve análise, por falar não sobre estes assuntos, mas sobre a forma com que um personagem da obra em especial ilustra um fenômeno também observado em nossos dias. O personagem é João Romão e o fenômeno é a ascencao econômica de pessoas pertencentes a classes menos favorecidas, que resulta na formação de uma nova classe média.
João Romão é um Português que vem tentar a vida no Brasil, ele acaba assumindo o pequena venda onde trabalhava depois que o dono, também português, decide voltar para o país de origem e lhe entrega o controle do comércio como forma de quitação de salários atrasados. Pouco tempo depois, ao vislumbrar uma oportunidade de alavancar o seu negócio, João inicia um relacionamento e uma sociedade comercial com Bertoleza, mulher negra, ainda escrava, que fazia quentinhas para vender.
Com a ajuda de Bertoleza, que trabalha incansavelmente sete dias por semana, João prospera. Com o dinheiro do comércio e da venda de quentinhas, ele compra parte de uma pedreira e constrói moradias precárias para aluguel. Contudo, quando Miranda, vizinho da venda e do cortiço, conquista um título de nobreza, o de barão, João vê despertada em si uma grande insatisfação com tudo o que construiu. Ele é tão rico quanto Miranda, mas não tem a mesma “classe” que ele.
Diante da notícia de que Miranda dará uma grande festa para comemorar a conquista do título, João se angustia. Ao ser convidado para a festa ele reconhece que não seria capaz de se infiltrar no meio ao qual Miranda pertence. Ele não se imagina vestindo sapatos, luvas ou conversando sobre arte e política com outros homens da alta sociedade. Ele não foi educado para as regras de etiqueta, tão pouco tem conhecimento da realidade do país ou sensibilidade artística para conversar sobre o que conversam.
João ganhou muito dinheiro às custas da exploração do trabalho alheio e da aplicação de pequenos golpes, isso, no entanto não lhe torna menos parecido com as pessoas que moram em seu cortiço. O drama que ele vive vem da necessidade de se elevar, de se diferenciar dos seus, para assim ser aceito pela elite de seu tempo.
Em sua busca por um atalho para alcançar seu objetivos, João pesará a mão sobre os seus inquilinos, na esperança de que o poder exercido sobre eles lhe alce a uma posição superior. Bertoleza se apresenta, em seus devaneios, como um grande obstáculo para a realização destes intentos. Como ser aceito pela elite racista estando ainda amasiado com uma negra?
João Romão, em sua mesquinhez, avareza e ambição desmedida, em sua parca formação cultural, em sua limitação de visão para os fatos relevantes de seu tempo e em seu completo desprezo pelos que lhe servem de trampolim, se assemelha muito à significava parte da classe média atual, que se considera elite, sem o ser de fato, e insurge como antagonista dos desprivilegiados. Romão é um espelho da classe média que apoiou o golpe de 2016 e que elegeu um presidente fascista em 2018.
AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. Jaraguá do Sul: Editora Avenida, 2009.
quarta-feira, 24 de junho de 2020
Milagre na Cela 7
quarta-feira, 17 de junho de 2020
Felicidade ou Morte - Livro
O fenômeno é curioso porque em um país de poucos leitores e parco interesse pela dita alta cultura, eles se tornaram verdadeiros gurus, de quem se espera um posicionamento ou uma resposta para as inúmeras crises pelas quais o país passa.
Não é um disparate dizer que o sucesso dentre o público não universitário de humanas se deve ao trânsito fácil pela linguagem simples, ainda que não coloquial, que torna reflexões complexas acessíveis a todos os públicos, mas também ao notável domínio da retórica e da comunicação nas redes sociais.
Em "Felicidade ou Morte", livro constituído na forma de um diálogo entre os dois intelectuais sobre o tema proposto, ambos tecem reflexões acerca da ideia de felicidade, da resignação como forma de driblar a angústia existencial, da construção social e histórica do que se tem como padrões de vida bem sucedida e da inevitabilidade da dor, que torna a própria noção de felicidade efêmera.
Sem precisar recorrer a academicismos, os autores transitam pela história e pela filosofia em busca ora de respostas, ora de algum eco para aquilo que defendem. A escrita flui fácil e, em alguns pontos, o texto chega a parecer uma transcrição de um diálogo tal como ele se deu, sem cortes e sem qualquer outro tipo de edição.
Tal noção vem justamente do fato de que tanto o Barros Filho quanto o Karnal se fizeram conhecidos do grande público antes pelos vídeos e só depois pela escrita, o que ajuda explicar o fenômeno que citei no início desta rápida resenha.
A manutenção do mesmo tipo de linguagem presente nos vídeos, inclusive com passagens já contadas ou citadas em outras oportunidades, cria uma espécie de aproximação (por meio da autoreferência), que conta muito no processo de trazer os seguidores das redes para o consumo da obra escrita.
Em um tempo em que ainda há certo repúdio pelo conhecimento e pela complexidade da leitura de um mundo pautado pela velocidade e pelo imediatismo, vejo com bons olhos o hipe e popularização do pensamento e do ato filosófico.
quarta-feira, 10 de junho de 2020
Da Arte Poética - Livro
Apesar de pequena, a parte da obra que sobreviveu ao decorrer dos mais de dois mil anos é de uma densidade tamanha, dado o brilhantismo da análise, que serviria não só para esmiuçar cada um dos elementos narrativos da tragédia grega, mas como um verdadeiro manual sobre a literatura e o teatro clássico, que continuaria inspirando poetas, dramaturgos e cineastas até hoje.
É uma obra seminal pra entender a arte ocidental produzida nos dois últimos milênios, e aqui incluo a literatura, o teatro e o cinema. "Da Arte Poética" é tão importante que é cabível a simplificação de reduzir tudo o que veio depois como confirmação ou ruptura em relação às ponderações de Aristóteles.
Meu primeiro contato com a obra foi há quase 10 anos, por meio do livro "O Teatro do Oprimido" de Augusto Boal, que faz uma leitura crítica do pensamento de Aristoteles e, à luz das teorias de Brecht sobre o teatro épico, propõe uma superação do modelo clássico.
A crítica feita por Boal me deu uma noção ampla do quão arraigado o modelo trágico ainda está na produção literária/teatral/cinematográfica de nosso tempo. E, posições contrárias à parte, o que cabe destacar aqui é que o fato de ter perdurado por mais de dois mil anos por si só já é um indício da força que tal modelo possui.
Entender conceitos e elementos como a imitação, a peripécia, o reconhecimento, o patético e principalmente a catarse é essencial pra qualquer um que se proponha a compreender, analisar ou criticar qualquer obra dotada de narrativa.
quarta-feira, 3 de junho de 2020
A Morte de Ivam Ilitch - Livro
Há na história uma contundente crítica ao ideal de felicidade burguês, que inclui casamento, carreira e posse de bens. Na trama, o personagem central, Ivan Ilitch, é um renomado e respeitado juiz, que teve uma rápida ascensão no meio jurídico e se tornou, dentre seus pares, referencial de sucesso e prosperidade.
Sua constante preocupação em estar em conformidade com o padrão de vida, com hábitos e até com os trejeitos burgueses lhe garante acessos e posições cada vez mais alta na hierarquia do tribunal em que trabalha.
O casamento infeliz, mantido às custas da aparência e do temor da reprovação social, faz com que Ivan se mergulhe em seu trabalho a ponto de quase aniquilar por completo a sua vida social. O progressivo distanciamento da esposa e dos filhos, uma clara tentativa de evitar conflito, se torna a justificava interior para as horas a fio diante de processos e de dossiês da repartição.
Ao apresentá-lo como personagem, Toltoi diz muito coisa com pouco mais de duas linhas: "A história da vida de Ivan Ilitch foi das mais simples, das mais comuns e portanto das mais terríveis". Em poucas palavras já fica decretada a tragédia do protagonista, já denunciada no título da obra e abordada já em seu primeiro capitulo.
Ivan sucumbirá diante de uma doença misteriosa, que lhe consome em pouco mais de três meses. A agonia e a angústia advinda da ciência da finitude da vida leva o personagem a questionamentos filosóficos acerca do porquê do sofrimento e sobre a existência ou não de um sentido maior para a vida.
Em dada passagem ele indaga a uma voz interior o porquê de tamanha agonia, e ela apenas responde: "Por nenhuma razão. É assim e pronto." Diante disso sobra apenas o vazio e o fatalismo de que a inevitabilidade da morte física é a única certeza (certeza esta que ele evitou por toda sua vida).
Ivan se apega então a um último questionamento: teria a sua vida válido a pena? Algo dentro de si lhe diz que sim, afinal ele cumpriu todos os requisitos reconhecidos pela sociedade como necessários para uma vida boa. Mas, as recorrentes memórias da infância, período em que fora de fato feliz, lhe induzem a crer no contrário. Tal percepção lhe machuca mais que a dor intermitente decorrente da doença.
A contundência da obra está no fato de que ela nos leva a questionar o nosso próprio padrão de felicidade, que muitas vezes nem é uma criação nossa, mas um mero fruto de uma construção social. É atormentadora a ideia de que o medo da morte que Ivan experimenta não é um medo de perder a vida, mas o arrependimento de não tê-la vivido de fato, somado à ciência de que já é tarde demais pra voltar atrás...
sexta-feira, 29 de maio de 2020
quarta-feira, 27 de maio de 2020
A Terceira Via e seus Críticos - Livro
Tony Blair, Romano Prodi, Bill Clinton, Fernando Henrique Cardoso, dentre outros, na época em que o livro foi publicado, já colocam em prática parte daquilo que seria defendido na obra. A terceira via proposta por Giddens é na verdade um meio termo entre o liberalismo econômico e o estado de bem estar social, com uma forte inclinação para o primeiro lado.
O autor defende uma coexistência entre o mercado, o estado e a sociedade civil, que seria necessária, segundo ele, para a manutenção de uma democracia plena condizente com a nova conjuntura imposta pela globalização.
Ele não nega os conceitos de esquerda e direita, e inclusive chega a citar a obra de Noberto Bobbio, Direita e Esquerda - Razões e Significados de uma Distinção Política como uma leitura seminal sobre o tema. No entanto, o que ele propõe é uma alternativa, que não seria novidade, o próprio Bobbio já tinha classifica tal tendência como a "terceiro inclusivo".
O modelo proposto preserva a força do estado, o que se mostra como o principal ponto de discordância entre Giddens e os liberais, o que seria necessário para balizar a atuação do mercado e da sociedade civil e atuar na minimização das desigualdades, quando estas restringissem oportunidades de ascensão.
No entanto, não há neste pensamento qualquer tipo de subversão ao status quo, há a defesa da responsabilização do topo da pirâmide econômica pelas injustiças sociais, mas mecanismos de redistribuição de renda, como a tributação progressiva, são defendidos com certa timidez.
A globalização é vista como um processo já consolidado, o mercado chega a ser quase idolatrado como o ente detentor da capacidade de resolver os problemas sociais (a maioria decorrentes de sua própria atuação). A suposta igualdade de oportunidades, seria, numa leitura mais crítica da obra, apenas uma preocupação com a formação da mão de obra necessária à cadeia de produção e de meros consumidores.
A fragilidade da obra talvez esteja justamente no ponto em que o próprio autor considera a sua grande força: a capacidade de dar soluções adequadas para problemas do mundo atual. "A Terceira Via e Seus Críticos" foi publicado antes do atentado de 11 de setembro, antes da crise de 2008, antes do Brexit e de tantas outras transformações que tornam distante o contexto no qual ele foi publicado.
Por ironia do destino, apesar do governo FHC ser citado na obra como exemplo de uma das materializações práticas da terceira via, conforme proposta, são os governos Lula e Dilma que melhor representam a prática daquilo que fora proposto, inclusive com os pontos fracos, que levariam à queda do Lulismo e à crise política pela qual o Brasil passa hoje.
O pacto proposto por Giddens, ao menos por aqui, funcionou apenas até que a redução das desigualdades tornasse os pobres menos dependentes, o que desagradaria as elites tradicionais e levaria à quebra do pacto e a readoção de um modelo muito mais neoliberal do que o imposto ao país pelo FMI na década de 90.










