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segunda-feira, 14 de março de 2011

Inverno da Alma

Inverno da Alma (Winter`s Bone) - 2010. Dirigido por Debra Granik. Roteiro de Debra Granik & Anne Rosellini, baseado no romance de Daniel Woodrell. Fotografia de Michael McDonough. Música de Dickon Hinchliffe. Produzido por Anne Rosellini & Alix Madigan. Califórnia Filmes / EUA.


Inverno da Alva (2010) nos transporta para uma minúscula cidade localizada nas montanhas geladas, no interior do meio oeste americano, povoada por poucas famílias formadas por homens durões e mulheres submissas... este bem que poderia ser um bucólico cenário para histórias sobre o lento decorrer do tempo em um lugarejo tão afastado, geograficamente e culturalmente, da influência dos grandes centros. Mas esta é apenas nossa primeira ilusão aos nos depararmos com este filme. Os caipiras, com seus banjos a tira colo e casacos xadrez surrados, que povoam este drama de Debra Granik, nem de longe correspondem ao aparente bucolismo do cenário onde estão inseridos.

Inverno da Alma retrata a realidade atormentadora de uma dentre várias cidades isoladas do interior americano, que sobrevivem basicamente da produção e do comércio de drogas. A realidade pós-apocalíptica do lugarejo sem lei emana sofrimento e decadência, que estão impressos nos rostos abatido da maioria dos personagens. O filme se desenvolve lentamente, com longas tomadas de clouse-up ou de contemplação da natureza morta e gélida dos arredores da cidade. Mas, toda a melancolia e morbidez do cenário são apenas uma sutil metáfora, quando comparadas ao estado de espírito perturbador daquelas pessoas que buscam sobreviver em um meio tão hostil.


Como podemos perceber através da realidade da personagem principal de Inverno da Alma, a sobrevivência é uma das primeiras lições que aquele povo precisa aprender. Como se não bastasse o frio extremo e a escassez de insumos e alimentos, as drogas, que oferecem para estas pessoas oprimidas uma espécie de fuga trágica das demais adversidades, destroem vidas e levam famílias à ruína. Assustadoramente a maior parte da população é composta de dependentes químicos e/ou pessoas que estão direta ou indiretamente envolvidas na produção e no comércio dos entorpecentes.

Ree Dolly (Jennifer Lawrence), de apenas 17 anos, está inserida neste dura realidade, ela cuida sozinha da mãe, que sobrevive em um estado de aparente catatonia, causado pelos desgostos da vida, e dos dois irmãos mais novos. Seu pai, que esteve diretamente ligado ao tráfico, chegou a ser preso, mas saiu da cadeia em liberdade condicional, que deveria ser paga através de fiança. Porém o julgamento se aproximava e ele tinha desaparecido, já fazia alguns dias, sem pagar a fiança. Para complicar ainda mais a situação de sua família, ele oferecera a casa e a propriedade como garantia do pagamento da fiança, em alienação fiduciária.


A ameaça de perder a casa faz com que Ree parta em uma desesperada busca pelo pai. Sua busca a conduzirá a um mundo obscuro de homens violentos e mulheres que por trás da submissão escondem uma força inimaginável. Curiosamente, são sempre as mulheres que lhe abrem o caminho para chegar até aqueles que na verdade são quem controlam o pequeno lugarejo. Ela buscará a ajuda de seu tio Teardrop (John Hawkes, numa ótima atuação), que também é viciado. A princípio ele apenas a ajuda com um pouco de dinheiro e drogas, que ele acredita que ajudará a sobrinha a enfrentar a situação. A determinação da jovem irá coloca-la em sérios riscos e a fará descobrir sobre o pai coisas que irão lhe surpreender.


O sofrimento latente não nos permite vislumbrar um happy end nos moldes do cinema mainstrean, mas a perseverança da jovem em sua postura de não se “contaminar” com sua realidade e sua dedicação em tentar dar uma educação digna para os irmãos nos acende um fio de esperança, quanto à sua realidade e nos ajuda a juntar forças para enfrentar nosso próprio “inverno” cotidiano. Creio que de alguma forma a diretora Debra Granik quis também, através deste longa, exaltar a força feminina e mostrar que a submissão é nada mais que um outra ilusão e que a perseverança é a melhor estratégia para atravessar as geleiras mais intransponíveis.


Inverno da Alma é também uma prova da qualidade indiscutível de algumas das subjulgadas produções do cinema indie americano, sendo desta forma um alerta para que comecemos (ou continuemos) a direcionar nosso olhar para além da magia de Hollywood. Preste atenção na exuberante e ao mesmo tempo tempo mórbida fotografia e na trilha sonora composta por folks e música countrys, que dão um o arremate a este filme de ótimas atuações e roteiro impecável. Estou certo de que relativamente pouca gente o verá, realmente não é um filme para as massas. Mas é imperdível para quem busca o que se tem produzido de melhor fora do circuíto controlado pelas grandes produtoras. Recomendo!

Inverno da Alma foi indicado aos Oscars de Melhor Filme, Atriz (Jennifer Lawrence), Ator Coadjuvante (John Hawkes) e Roteiro Adaptado. Recebeu também uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme Dramático (Jennifer Lawrence).


Assista ao trailer de Inverno da Alma no You Tube ! (clique no link)


Confiram aqui no Blog SUBLIME IRREALIDADE a resenha de outros longas que concorreram ao Oscar de Melhor Filme 2011:

O Discurso do Rei (The King`s Speech) - Vencedor
A Rede Social (The Social Network) - Indicado
Minhas Mães e Meu Pai (The Kids are All Right) - Indicado
Cisne Negro (Black Swan) - Indicado
O Vencedor (The Fighter) - Indicado
A Origem (Inception) - Indicado
127 Horas (127 Hour`s) - Indicado
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sábado, 12 de março de 2011

Os Excêntricos Tenenbaums

Os Excêntricos Tenenbaums (The Royal Tenenbaums) - 2001. Dirigido por Wes Anderson. Roteiro de Wes Anderson & Owen Wilson. Fotografia de Robert D. Yeoman. Música de Mark Mothersbaught. Produzido por Wes Anderson; Barry Mendel & Scott Rudin. American Empirical; Touchstone / EUA.


Eu nunca tinha assistido nenhum filme do diretor Wes Anderson, quando uma amiga sugeriu que víssemos O Fantástico Sr. Raposo (2009). Confesso que não tive a princípio muita curiosidade em relação ao longa em Stop Motion, mas ao procurar mais informações sobre a animação que me foi sugerida, fui conhecendo um pouquinho mais sobre fama de Wes Anderson de fazer filmes estranhos. Talvez pelas críticas que tenho postado aqui no Sublime Irrealidade, já fique claro que eu tenho uma queda por produções que fujam dos clichês, das convenções e modelos pré-estabelecidos. Comecei então a procurar por algum filme do diretor e foi assim que Os Excêntricos Tenenbaums (2001) chegou em minhas mãos, digo ao meu computador.

Os Excêntricos Tenenbaums é um daqueles filmes difícil de conceituar, é excêntrico demais (com o perdão do trocadilho), dramático demais para ser uma comédia e cômico demais para ser um drama. A trama, sobre uma família desajustada, poderia ser construída sobre uma série de lugares comuns, dos quais já estamos mais do que saturados. Já existem por ai um bom número filmes moralistas, ou mesmo subversivos, no tocante ao conceito da família nuclear. Felizmente este é no mínimo diferente de todos os outros, nele você não encontrará lugares comuns, nem nenhum tipo de clichê. Um ótima fotografia, uma belíssima direção de arte (que fazem o filme parecer “de época” mesmo se passando nos dias atuais), e uma trilha sonora, que quase me levou ao êxtase em algumas sequências, ajudam a compor o estranho contexto estético de onde são tirados personagens bizarros e situações que beiram ao surrealismo.


O prólogo do filme, narrado por Alec Baldwin ao som de uma versão orquestrada de Hey Jude dos Beatles, apresenta cada um dos integrantes da família Tenenbaum, destacando suas características mais marcantes, características estas que definirão as suas atitudes ao longo da história. Já nesta bela introdução, que lembra a de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001), conseguimos compreender que aquela família, tida como modelo por ter gerado três crianças superdotadas, nunca foi de fato um exemplo a ser seguido. A Gênese das habilidades desenvolvidas pelos irmãos está justamente na fragmentação daquele lar. Quando o patriarca abandona a casa, deixando a esposa e os filhos, estes são obrigados a se virarem sozinhos. É a pressão exercida pela mãe a partir de então que transforma os meninos em pequenos prodígios, da ciência da arte e do esporte.


O mote do filme é a volta de Royal Tenenbaun (Gene Hackman) para casa depois de anos. O retorno é motivado pela falta de dinheiro e pela ameaça de perder a esposa, Etheline Tenenbaum (Anjelica Huston), para o contador Henry Sherman (Danny Glover), que a pedira em casamento... Pare ser novamente aceito pela ex-mulher e pelos filhos, Royal conta que tem um câncer terminal e muito pouco tempo de vida, o que deixa Etheline sensibilizada e acaba atraindo também os filhos de volta para o casarão onde cresceram. Ao contrário do que poderíamos imaginar, os pequenos gênios se tornaram adultos problemáticos, reclusos em seus próprios mundos e de certa forma solitários. Chas Tenenbaun (Ben Stiller), ao contrário dos irmãos, não consegue perdoar o pai e não se sensibiliza com a proximidade de sua morte. Chas, que fora um gênio das finanças, se tornou meio psicótico depois da morte da esposa em um trágico acidente aéreo, ele vive com os dois filhos (que se vestem identicamente a ele), a quem ele cerca de proteção e cuidados excessivos.


Margot Tenenbaum (Gwyneth Paltrow) foi adotada aos dois anos de idade e durante toda a vida teve que suportar o fato de que o pai a tratava como se fosse uma estranha, ou uma intrusa na família. Ela, que fora uma grande escritora na infância, agora é casada com o psiquiatra Raleigh St. Clair (Bill Murray) com quem não tem um bom relacionamento. Ela passa a maior parte do tempo trancada em seu quarto, vendo TV e fumando escondida. O vício que mantém desde os 12 anos é apenas um dos muitos segredos que ela guarda sobre sua vida aparentemente monótona. Richie Tenenbaum (Luke Wilson), o terceiro filho de Royal, fora um grande tenista, mas depois de um fracasso ele abandonou o esporte e se refugiou em um barco no oceano aberto, mantendo contato com a família a partir de então apenas por carta. Richie também guarda um grande segredo, ele tenta esconder aquilo que o teria feito perder a última partida de tênis e se tornar uma espécie de hippie solitário e melancólico.


Eli Cash (Owen Wilson) era o melhor amigo de Richie e vizinho da família desde a infância. Seu sonho sempre foi ser parte da família Tenenbaum, o que nunca conseguira de fato, agora ele está viciado em drogas e não consegue reconhecer que precisa de ajuda. De certa forma Eli também foi afetado pela crise que arruinava os Tenenbaums. Num dos melhores diálogos do filme Eli diz: “Sempre quis ser um Tenenbaum”, Royal reflexivo responde “Eu também, eu também...”. Royal é sempre acompanhado por seu criado pouco confiável, Pagoda (Kumar Pallana), que no passado salvara sua vida em condições no mínimo absurdas. Pagoga, que sempre colabora com as picaretagens de Royal, é o melhor dentre os personagens secundários, ele protagoniza algumas das melhores sequências, dentre elas a cena de um estranho esfaqueamento que dá a dimensão precisa da surrealidade deste filme.



Este grandioso elenco não deixa a peteca cair em nenhum momento e dão todo o suporte às extravagâncias do do roteiro e às gags visuais que estão presentes do início ao fim do longa. Gwyneth Paltrow, por exemplo, consegue personalizar e expressar de forma singular todo o tédio no qual sua personagem está imersa e Gene Hackman dá um show à parte, o que no caso dele não é nenhuma novidade. Os Excêntricos Tenenbaums, como eu já disse, não é de forma alguma um filme clichê, nem tão pouco um daqueles feitos apenas para parecer estranho, sem a naturalidade da livre criação. É um filme que consegue ser mágico sem a necessidade do apelo à espetacularidade hollywoodiana. Estou certo de que não me esquecerei tão cedo de sequências como a que Royal sai para “passear” com os filhes de Chas ou aquela na qual os segredos de Margot são revelados cronologicamente ao som de Judy is a Punk, clássico dos Ramones.

Ao menor deslize, eu poderia me perder ao tentar comentar cada um de qualidades deste ótimo filme, poderia neste texto aprofundar em cada um destes aspectos, mas prefiro fazer apenas um panorama geral e deixar que você tire suas próprias conclusões ao assisti-lo. O fato, indubitável, é que se trata de um dos filmes mais originais do presente século. Assista!

 

Os Excêntricos Tenenbaums foi indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original.
 
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quarta-feira, 9 de março de 2011

127 Horas

127 Horas (127 Hours) - 2010. Dirigido por Danny Boyle. Roteiro de Danny Boyle & Simon Beaufoy, baseado no livro Between a Rock and a Hard Place de Aron Ralston. Fotografia de Anthony Dod Mantle & Enrique Chediak. Música de A. R. Rahman. Produzido por Christian Colson, John Smithson, Danny Boyle & Sharan Kapoor. Fox Searchlight / EUA.


Creio que o mais importante que tenho a dizer sobre 127 Horas (2010), é que se trata de um filme basicamente sensorial. Ao narrar a história verídica do alpinista Aron Ralston, o filme nos embarca numa viagem de sensações fortes, sem se preocupar com reflexões filosóficas profundas acerta do tema sobre o qual se desenvolve o roteiro. Cheguei a perceber, principalmente em comunidades em redes sociais, o quanto este filme estava sendo comparado ao Na Natureza Selvagem (2007) de Sean Penn. Apesar de ambos de certa forma abordarem a Fuga Juvenil (tema sobre o qual já discorri aqui neste Blog), eles têm angulações bem distintas entre si. O personagem real de 127 Horas é bem diferente de Chris McCandless, cuja história foi contada no filme de 2007, este é movido pela reflexão que o leva a fuga do que lhe é familiar. Já Aron parte para o desconhecido apenas em busca de aventura e não de uma verdade maior, se ele chega a ensaiar alguma reflexão sobre o significado de tudo que lhe acontece, isto é apenas um resultado do que lhe ocorreu e não a causa de sua "fuga".


Voltemos então á questão sobre o apelo sensorial deste filme. Desde as primeiras cenas somos surpreendidos com uma uma maravilhosa sequência de imagens capturadas em campo aberto no deserto de Utah, enquanto seguimos Aron no início de sua jornada. As primeiras tomadas do filme nos transmite um leve sensação de liberdade, que compartilhamos então com o protagonista. Mas de repente o acidente que ele sofre elimina toda esta boa sensação. Aron, ao tenter descer em uma fenda ingrime em um cânion, acaba tendo o braço preso por uma rocha que se desprende do paredão. A partir daí passamos a compartilhar com ele é uma angustiante sensação de claustrofobia, que em nós só é atenuada pela ruptura oferecida pelos flashbacks que nos ajudam a compreender um pouco da personalidade do alpinista.


James Franco realmente está em um bom momento (apesar de eu não concordar que ele seja merecedor do Oscar ao qual foi indicado), ele consegue transmitir apenas pela expressão facial os diversos sentimentos, como dor, euforia, angústia e resignação que seu personagem experimenta. E realmente não é fácil atuar com câmera focando diretamente seu rosto, sendo que grande parte das cenas são constituídas de close-ups. Algumas destas, são as que Aron, sem esperanças de sobreviver, se despede da família e dos amigos, tentando, numa espécie de reality show gravado com sua câmera portátil, descrever sua situação desesperadora.


A cena, que já é a mais famosa do filme, na qual Aron corta seu próprio braço para se desprender da rocha, nem é, na minha opinião, tão difícil assim de assistir, como têm dito por ai. Na verdade ela é atenuada não pelo que é mostrado, mas pela tensão que já era  desenvolvida desde o início do filme, reforçada pela sensação de claustrofobia que a situação de Aron em si e a sonoplastia nos passa. Mas de qualquer modo não é uma cena que vai agradar a todos e quem tiver problemas com mutilações e sangue é melhor pulá-la, ciente de que fazendo isso estará perdendo uma das mais importantes sequências do longa. Talvez eu deva esclarecer que não tenho nenhum gosto especial por este tipo de cena (acredite, tem gente que tem), nunca fui fã de filmes no estilo da franquia de Jogos Mortais, que o exploram, mas pular uma cena de tamanha importância é, na minha opinião, deixar de apreciar o filme em sua totalidade.


127 Horas é um ótimo filme que ainda tem a seu favor a façanha de nos prender, do início ao fim, a uma história da qual já conhecemos o final, e que se desenvolve, quase que por completo dentro da fenda de uma rocha (!). Mérito, que pelo que tenho lido, o longa Enterrado Vivo (2010) também consegue, em parte, realizar. A trilha sonora e a fotografia, essenciais para aquilo a que o filme se propõe, também merecem destaque. Resumindo é um grande trabalho da mesma dupla (diretor + roteirista) de Quem Quer Ser Milionário (2008), que merece ser visto e acima de tudo sentido. Em se tratando de trágica aventura real, o meu preferido continua sendo Na Natureza Selvagem, contudo recomendo 127 Horas sem restrições!

127 Horas foi indicado aos Oscars de Melhor Filme, Ator (James Franco – um dos piores apresentadores da cerimônica de entrega do Oscar que já vi), Melhor Roteiro Adaptado, Trilha Sonora, Canção Original e Edição. Ao Globo de Ouro, recebeu indicações nas categorias de Melhor Ator – Drama (James Franco), Roteiro e Trilha Sonora Original.


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Confiram aqui no Blog SUBLIME IRREALIDADE a resenha de outros longas que concorreram ao Oscar de Melhor Filme 2011:
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O Discurso do Rei (The King`s Speech) - Vencedor
A Rede Social (The Social Network) - Indicado
Minhas Mães e Meu Pai (The Kids are All Right) - Indicado
Cisne Negro (Black Swan) - Indicado
O Vencedor (The Fighter) - Indicado
A Origem (Inception) - Indicado
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terça-feira, 8 de março de 2011

Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos

Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos (Mujeres al Borber de Un Ataque de Nervios) - 1987. Dirigido, escrito e produzido por Pedro Almodóvar. Fografia de José Luís Alcaine. Música de Bernardo Bonezzi, C. Curet Alonso & Ventura Rodríguez. El Deseo, Laurenfilm / Espanha.


Pedro Almodóvar escolheu preencher cada um de seus longas com histórias que sempre permeiam o conturbado e fascinante universo feminino (povoado por mulheres, travestis e transexuais). A temática escolhida pelo cineasta para compor suas comédias melodramáticas não agradou a todos e até hoje ele é uma persona nom grata na Espanha, seu país de origem. No entanto seus filmes se tornaram cult no resto do mundo e o fizeram famoso pelas características marcantes de seus trabalhos, que vão do visual, com cores fortes e marcantes (cores de Almodóvar) aos temas, que geralmente abordam ressentimentos, traumas e neuroses.

Pra mim é uma grande prazer resenhar um filme de Almodóvar aqui no SUBLIME IRREALIDADE, conheci alguns de seus principais trabalhos na época da faculdade. Um amigo e eu mantínhamos um projeto de exibição de filmes na faculdade nos fim de semana, com rodas de discussão e debates sobre os temas abordados, o Cine no Campus. O sucesso inicial do projeto e a persistência dos professores coordenadores nos deram crédito junto à direção da instituição, que acatou a proposta de comprar novos títulos em DVD para a biblioteca, que já tinha alguns clássicos, daqueles lançados em coleções de revista. Algumas das felizes sugestões para a nova aquisição, foram alguns longas do diretor espanhol. E foi assim que assisti pela primeira vez: Tudo Sobre Minha Mãe (1999), Fale Com Ela (2002), Má Edução (2004) e Volver (2006).


Num período de corte de gastos, a Faculdade eliminou a Cia Teatral (da qual eu fazia parte), o projeto de leitura VaLendo (que eu também fazia parte) e o Cine no Campos. As atividades extra-curriculares ficaram para trás, mas a admiração por Almodóvar que aqueles filmes despertaram só cresceu. Em momentos distintos eu voltei a assistir alguns daqueles primeiros filmes, que pareciam me surpreender cada vez mais pela inaparente densidade de suas histórias. Assisti hoje, pela primeira vez, o clássico Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos (1987). Esta que é a primeira obra de expressão internacional do diretor, é uma ótima comédia, com um roteiro muito bem costurado e personagens excêntricos que se debatem em uma rede pequenos dramas pessoais.
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“Não há mulher perigosa sabendo-se tratá-la”, diz um taxista em determinado momento do filme, seu aforismo é comprovado pela trama, que explora o limiar da sanidade, que mulheres podem atingir quando maltratadas. Pepa (Carmem Maura) era amante de Iván (Fernando Guillén), um homem casado, com quem chegou a morar por um bom tempo, enquanto a verdadeira esposa estava internada em uma clínica de tratamento psiquiátrico. Porém, sem dar melhores explicações, Iván termina o relacionamento com Pepa e ela descobre que ele pretende viajar com uma outra mulher. Pepa, que trabalhava junto com Iván como dubladora de filmes, surta e decide colocar o apartamento em que moravam à venda para tentar esquecer o amante, mas antes ela deseja encontra-lo uma última vez para ter ao menos uma explicação condizente para o abandono repentino. 


Candela (María Barranco), amiga de Pepa, é uma moça ingênua que se envolveu com um terrorista xiita, este planejava um atentado em Madri e a usou para ter um lugar onde se refugiar na cidade, a casa dela. Quando o terrorista é preso, Candela passa temer que a polícia a acuse de ser cúmplice do ex-namorado e de seu bando, desesperada ela busca a ajuda de Pepa para tentar se livrar das possíveis acusações. Ela chega no apartamento de sua amiga no pior dia possível. Pouco depois dela, quem aparece é um jovem casal. Carlos (Antonio Banderas - no papel que lhe deu visibilidade internacional) e Marisa (Rossy de Palma – que confesso, achei à primeira vista se tratar de um dos “travestis de Almodóvar”) foram encaminhados pela imobiliária, para conhecer o apartamento, que Pepa pusera à venda. Os personagens, que ainda não se conheciam, descobrem que estão imersos na mesma teia de traições e intrigas.


Carlos, como Pepa descobre, é filho de Iván, ele acaba se abrindo com a amante do pai sobre a história de sua família e conta que pouco vê o pai e que não tem uma boa relação com a mãe, que sofria (ao que parece, ainda sobre) de distúrbios mentais. A situação, que já parecia caótica, promete se agravar quando Lúcia (Julieta Serrano), a esposa pirada de Iván e mãe de Carlos, aparece também no apartamento, decidida a matar o marido para se vingar de suas traições.

A trama, que mais parece história de novela mexicana, se desenrola através de situações absurdas e exageradas e nos conduz a um mundo de mulheres, enlouquecidas por suas paixões, ciúmes e medos e entorpecidas por calmantes e um estranho gazpacho (espécie de sopa espanhola), que ao ser “batizado” com tranquilizantes, provoca algumas das sequências mais engraçadas do filme. A perseguição que antecede o desfecho no aeroporto de Madri também é memorável e poderá render ótimas risadas.


Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos foi indicado ao Oscar, ao Globo de Ouro e ao BAFTA na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. É uma das obras primas de Almodóvar, para quem ainda não conhece o trabalho do diretor, é uma ótima forma de entrar em seu mundo melodramático, através de uma das produções que ainda não tendiam para os temas mais polêmicos que seriam abordados em seus próximos filmes. Recomendado!

De Pedro Almodóvar, recomendo também: Tudo Sobre Minha Mãe (1999), Fale Com Ela (2002), Má Edução (2004) e Volver (2006).


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Minhas Mães e Meu Pai

Minhas Mães e Meu Pai (The Kids are All Right) - 2010. Dirigido por Lisa Cholodenko. Roteiro de Lisa Cholodenko & Stuart Blumberg. Fografia de Igor Jadue-Lillo. Música de Carter Burwell, Nathan Larson & Craig Wedren. Produzido por Gary Gilbert, Celine Rattray, Daniela Taplin Lundberg & Jeffrey Levy-Hinte. Imagem Filmes / EUA.


Continuo em minha heróica e mesopotâmica missão (como bem diria o colunista José Simão) de assistir cada uma das produções que foram indicadas ao Oscar de Melhor Filme neste ano. Acabei a pouco de assistir o sétimo da lista: Minhas Mães e Meu Pai (2010). Confesso que nos primeiros minutos o filme me pareceu ser uma daquelas baita decepções, mas a medida que a trama vai se desenrolando, vai ficando mais perceptível cada um dos motivos que justificaram as indicações e premiações que o longa recebeu. O roteiro, que à primeira vista pode parecer ousado, na realidade é bem simples e cheio de sensibilidade, o que torna o filme delicioso de se assistir. A jogada de mestre, que evitou que o filme se tornasse um possível fracasso, também pode ser analisada através da constituição de cada um dos personagens, que são humanos e não meros estereótipos construídos sobre clichês e preconceitos.

No centro da trama está um casal de lésbicas, o que por si só já é motivo de sobra para inflamar os ânimos de determinados setores da sociedade. Por outro lado, alguns já atribuem o filme a alcunha de “um retrato da família pós moderna” Certa vez alguém me disse que alguns filmes que abordavam o tema homossexualismo, geralmente pretendiam convencer a nós espectadores da banalidade do tema, o que seria negativo para uns e positivo para outros. O fato é que Minhas Mães e Meu Pai não levanta nenhuma bandeira, não é um filme panfletário e sim um sensível olhar sobre uma família não convencional, que como qualquer outra passa por problemas e crises conjugais. As duas personagens que compõem o casal, como já disse, não tendem para a ideia comum que se tem sobre o tema, elas não são masculinizadas e não possuem os trejeitos, que geralmente a dramaturgia imprime nestes personagens.

Um sensível olhar sobre a família pós moderna

Nic (Annette Bening) e Jules (Julianne Moore) formam o casal de lésbicas, elas vivem em aparente harmonia e têm um casal de filhos, cada um gerado por uma delas, através de inseminação artificial. Joni (Mia Wasikowska) tem 18 anos e está prestes a ir para a faculdade, ela é sensível e inteligente, ao contrário do irmão mais novo, Laser (Josh Hutcherson), que é mais largado e prefere praticar esportes a estudar. É Laser quem convence a irmã a entrar em contato com a clínica de inseminação para tentar localizar o doador do sêmen, o pai biológico deles. Eles conseguem entrar em contato com o pai, Paul (Mark Ruffalo), ele é um solteirão dono de um restaurante, que no passado abandonou a faculdade para se dedicar ao empreendimento que começava. Paul é o mais cativante de todos os personagens, ele também escapa do ser retratado à luz do estereótipo do pai que abandonou os filhos e que agora tenta consertar o passado. É incrível a naturalidade que o ator imprime em cada diálogo e em cada gesto e olhar de seu personagem.

Annette Bening e Julianne Moore - um casal de lésbicas sem estereótipos
Joni e Laser acabam criando laços com Paul, com quem se identificam já no primeiro encontro, e Paul vislumbra a possibilidade de estar cada vez mais próximo dos filhos, que nem sabia que tinha. Mas a inserção de Paul no seio daquela família irá trazer à tona alguns dos conflitos que até então pareciam estar encobertos. É ai que percebemos que a relação de Nic e Jules já não estava mais a todo vapor e que a família não era tão “perfeitinha” quanto parecia ser.

 

Ah, vale mencionar aqui, que este filme funcionou, para mim, como uma espécie de redenção com Julianne Moore. Confesso que tinha ficado decepcionado depois de sua horrível performance no filme Pecados Inocentes (2007 – último filme que tinha assistido com a atriz), tanto ela quanto Annette Bening e principalmente Mark Ruffalo, nos presenteiam com atuações primorosas neste filme. Minhas Mães e Meu Pai não chega a ser, nem de longe, o meu preferido dentre os que concorreram ao Oscar de Melhor Filme, mas com certeza é um ótima produção que merece ser apreciada. E tal como na enologia é melhor se desfazer dos sabores amargos que vem cultivando (leia-se preconceitos), para degustar ao máximo esta deliciosa comédia de costumes.

Minhas Mães e Meu Pai foi indicado aos Oscars de Melhor Filme, Roteiro Original, Atriz (Annette Bening) e Ator Coadjuvante (Mark Rufalo). Ganhou o Globo de Ouro de Melhor Filme Comédia/Musical e Melhor Atriz Comédia/Musical (Annette Bening), tendo sido indicado também na categoria de Melhor Roteiro e uma segunda indicação para Melhor Atriz Comédia/Musical (Julianne Moore).


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Confiram aqui no Blog SUBLIME IRREALIDADE a resenha de outros longas que concorreram ao Oscar de Melhor Filme 2011:
 
O Discurso do Rei (The King`s Speech) - Vencedor
A Rede Social (The Social Network) - Indicado
Cisne Negro (Black Swan) - Indicado
O Vencedor (The Fighter) - Indicado
A Origem (Inception) - Indicado
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segunda-feira, 7 de março de 2011

A General

A General (The General) - 1927. Dirigido por Buster Keaton & Clyde Bruckman. Roteiro de Al Boasberg & Clyde Bruckman. Fografia de Bert Haines & Devereaux Jennings. Música de Robert Israel & Willian P. Perry. Produzido por Buster Keaton & Joseph M. Schenck. United Artists / EUA.

 

A vida às vezes, ou na maioria delas, é injusta. Pessoas são imortalizados e veneradas por suas capacidades, habilidades e criatividade, enquanto outras de igual ou superior valor são esquecidas ou simplesmente confinadas em circuítos povoados apenas por poucos amantes da arte, pensamento ou técnica que desenvolveram. Qualquer um que tenha um mínimo de interesse por cinema se lembra de pelo menos uma cena de algum dos filmes de Charlie Charplin, mas poucos são os que conhecem, ou que se quer ouviram falar em Buster Keatom. Este foi considerado durante muito tempo uma espécie de rival de Charplin na ocasião do cinema mudo, o que na realidade não era verdade, eles se respeitavam e mantiveram uma duradoura relação de amizade. Apesar de ambos serem verdadeiros gênios da comédia, os seus estilos eram bem diferentes um do outro. Keaton, ao contrário de Charplin, não explorava o humor rindo de si mesmo, seus personagens eram sérios e as cenas cômicas eram produzidas por eles não conseguirem lidar com seus próprios fracassos.

As Gags (saltos, quedas, corridas e acrobacias) eram o artifício cômico mais explorado por Buster Keaton, que fora artista de circo durante a infância e a adolescência, se apresentando em trio com seus pais. Seus personagens, diferentes dos de Charplin, não expressavam com feições seus sentimentos e emoções, mantendo constantemente uma mesma expressão facial, o que fez com que Buster ficasse conhecido como “o homem que nunca ri”. Muitos consideram o ator/diretor uma espécie de precursor do método conhecido como “experiência Kuleshov”, que consiste na inserção de um rosto impassível em contextos diferentes. Mesmo não sendo alterada, a expressão facial parece se adaptar a cada uma das situações que se seguem. O espectador é induzido a acreditar, pela forma com que as imagens foram editadas, que o rosto expressa o sentimento que ele próprio teria diante da circunstância formada pelas imagens apresentadas em sequência. Buster Keaton ao usar deste artifício consegue construir um humor, no qual o espectador colabora emprestando seu próprio imaginário ao personagem e seu contexto, isso potencializa as reações hilariantes às sequências de gags.

 

A General (1927) é considerado por muitos o melhor filme de Keatom, nele o ator interpreta Johnny Gray, um jovem maquinista que vive no sul dos Estados Unidos na época da guerra civil americana. Johnny tem duas paixões, a locomotiva General (que dá nome ao filme) e a encantadora Annabelle Lee (Marion Mack). O maquinista tenta se alistar para lutar pelo sul na guerra, mas é dispensado pois os alistadores do exército entendem que ele é mais útil trabalhando com a locomotiva do que lutando como soldado. Annabelle fica decepcionada ao saber que seu namorado não vai pra guerra, ela acha que por covardia ele fugiu do alistamento. Johnny tem a chance de provar sua coragem quando a jovem é raptada junto com a locomotiva, ele parte sozinho em para salvar as duas amadas, seguindo em outra locomotiva pelos trilhos que levam em direção ao norte. O filme pode ser dividido em duas partes, a primeira inclui o prólogo e a perseguição de Johnny aos sequestradores da General e de Annabelle, na segunda ele tenta voltar para o sul viajando na locomotiva que recuperou com na companhia de sua namorada, que passa o admirar.

 

A história de A General foi inspirada em fatos que realmente aconteceram durante a guerra civil americana, e Buster Keaton sonhava em usar a verdadeira General, mas teve que se contentar com outra locomotiva. A excentricidade de Keaton fez deste um dos filmes mais caros da época do cinema mudo, em uma das cenas um locomotiva é totalmente destruída ao despencar de uma ponte que cai, os gastor foram enormes também com a quantidade enorme de figurantes contratados. Apesar do grande investimento, o filme não foi na época um grande sucesso de crítica e público. No ano seguinte Buster faria seu primeiro filme falado, que também não conquistaria muito sucesso e reconhecimento. Keaton jamis conseguiria atingir novamente o padrão de qualidade de seus filmes mudos. Ele foi resgatado do ostracismo, em que já se encontrava, em 1959 ao estrelar, junto com o amigo Charplin, o tocante Luzes da Ribalta.

 

Apesar de ter sido filmado há mais de 80 anos A General, que foi um dos primeiros road movies (ou deveria dizer railroad movie), consegue a façanha de não nos parecer tão datado. A crítica especializada já o considerou um dos filmes que conseguiram chegar o mais perto da perfeição em toda a história do cinema. A General é magistral em termos de humor, suspense, construção de personagens, estética, técnica e reconstituição histórica. É uma verdadeira obra prima, que está no mesmo patamar de Em Busca do Ouro (1925) e Luzes da Cidade (1931), sem sombra de dúvidas é um dos clássicos mais importantes e influentes de toda a história da sétima arte. É impossível não se divertir com as ótimas cenas de ação e comédia que compõem o filme do início ao fim, é uma ótima pedida. Ultra recomendado!


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domingo, 6 de março de 2011

O Vencedor

O Vencedor (The Fighter) - 2010. Dirigido por David O. Russel e escrito por Scott Silver, Paul Tamasy  e Eric Johnson. Fotografia de Hoyte Van Hoytema. Música de Michael Brook. Produzido por Dorothy Aufiero, David Hoberman, Ryan Kavanaugh, Todd Lieberman e Paul Tamasy. Paramount Pictures / USA.

 

Existe uma grande quantidade de filmes sobre lutadores que abordam o mesmo tema, a superação, talvez porque este tipo de esporte seja o que analogicamente melhor representa as pequenas e grandes batalhas cotidianas, com as quais aprendemos a apanhar, resistir, cair e levantar. O tema já foi abordado em clássicos como Touro Indomável (1980) e A Menina de Ouro (2003) e curiosamente tanto neste dois filmes quanto em O Vencedor (2010) o boxe é apenas a metáfora para os dramas que os personagens vivem em suas vidas pessoais. O Vencedor é, ao meu modo de ver, muito mais uma drama familiar sobre a superação de conflitos, vícios e mágoas, do que um filme sobre o esporte brutal dos ringues.
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Este foi o sexto filme que vi dentre os 10 que foram indicados ao Oscar de Melhor Filme neste ano, lembro de já ter comentado em resenhas anteriores sobre um paralelo que pode se fazer entre Cisne Negro (2010), A Rede Social (2010) e O Discurso do Rei (2010), tendo como foco o aspecto da “vitória”, que os personagens principais almejam. Cada um destes filmes aborda a vitória sobre determinada situação e ao serem analisados em conjunto podem nos proporcionar uma boa reflexão sobre o que realmente significa ser um vencedor. Um dos personagens do filme de David O. Russel nos ajuda a entender isso mais que nenhum dos outros. Mas antes vamos a uma breve sinopse de O Vencedor:

O Vencedor usa o boxe como alegoria para o drama familiar vivido pelo lutador

A história, inspirada em fatos reais, conta as batalhas pessoas do boxeador Micky Ward (Mark Wahlberg), até a conquista do título mundial de peso leve. Ward é agenciado por sua mãe, Alice (Melissa Leo), que o trata apenas como uma fonte de dinheiro e autopromoção. Ele é treinado por seu irmão mais velho, Dicky (Christian Bale), um ex-boxeador que apesar de se gabar da fama que teve no passado, está viciado em crack e envolvido em pequenos delitos. Dicky vê no irmão uma chance para sua própria alavancada de volta ao topo. Completam a família as outras sete irmãs de Micky, que também são parasitas que depositam no irmão a esperança de se enriquecerem. Já nas primeira sequências do filme fica bem claro que se trata das relações de uma família totalmente desajustada e imersa em problemas de difícil solução.

Melissa Leo e Christian Bale - atuações que lhes renderam o Oscar

Micky parece condenado ao fracasso e ao ostracismo por estar envolvido apenas em lutas injustas ou que não lhe garantirão uma significante visibilidade. A família não importa que o lutador seja massacrado no ringue, contanto que lucrem com cada uma das disputas. A situação começa a mudar quando o rapaz conhece Charlene (Amy Adans), que o alerta sobre as consequências do parasitismo de sua família. Com isso, a nova namorada de Micky desperta a ira da matriarca da família Ward, do irmão e das sete irmãs do lutador. O drama familiar se acirra quando Dicky é preso e substituído em sua função. Micky faz então um trato com o novo treinador e com o novo agente de manter sua mãe e irmão longe de seus negócios, para assim evitar mais confusões. A opressiva “unidade” familiar é desfeita e Micky se vê livre pra tentar vencer sua própria luta.

 

O fato de já conhecermos o final do filme (o próprio nome do longa já o esclarece), não nos priva de cada uma das emoções que o filme provoca. Há muito tempo não sentia tanta raiva de um personagem quanto senti de Alice neste filme, em certo ponto da trama percebemos que sua opressão e ganância é a causa da maioria dos problemas que afligem a família. A atuação de Melissa Leo é soberba, mas ainda fica devendo quando comparada à interpretação impecável e atormentadora de Christian Bale, que entrou de cabeça no papel que lhe foi dado, ele consegue expressar todo drama vivido pelo seu personagem real (ele precisou perder bastante peso para viver o viciado Dicky). É justamente o personagem de Bale, que melhor justifica o título de "o vencedor", principalmente por ter tido a coragem de reconhecer para o irmão que não era digno do mérito que lhe atribuíam e pela perseverança de vencer o vício que destruía sua vida (ao menos é esta a ideia que o filme passa). É ele quem consegue a façanha de vencer a si mesmo, que é muito mais difícil que derrubar um campeão do boxe nos ringues.

 

Mesmo pra quem, que como eu, não tem nenhum interesse por lutas, verdadeiros espetáculos de brutalidade, este filme é indispensável. E apesar do forte teor dramático, que é o que me atrai, O Vencedor também não vai desagradar aqueles que o assistirem apenas pelas lutas, as sequências de ação foram muito bem gravadas e dão uma impressionante sensação de realidade às cenas de pancadaria. O drama do vício do crack, mais atual do que nunca, é mostrado sem atenuantes no filme, e se materializa na decadência física e social do personagem de Christian Bale. É um filme 'atual', de atuações e temas fortes. Imperdível!

O Vencedor recebeu os Oscars de Melhor Ator Coadjuvante (Christian Bale) e Melhor Atriz Coadjuvante (Melissa Leo), tendo sido indicado nas categorias de Melhor Filme, Diretor, Atriz Coadjuvante (também pela atuação de Amy Adams) Roteiro Original e Melhor Montagem. O filme ainda ganhou o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante (Christian Bale) e Atriz Coadjuvante (Melissa Leo), tendo sido indicado ao prêmio em outras quatro categorias.


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sábado, 5 de março de 2011

Bande à Part

Bande à Part (Bande à Part) - 1964. Dirigido, escrito e produzido por Jean-Luc Godard, baseado no romance Fools' Gold de Dolores Hitchens. Música de Michel Legrand. Janus Filmes / França.

 

Em umas das primeiras sequências de Bande à Part (1964), uma professora de inglês explica que o moderno é, na verdade, igual ao clássico, para embasar sua afirmação ela lembra uma frase do poeta T S Eliot, que diz: “tudo que é novo é portanto, automaticamente, tradicional”. Creio que esta citação não foi inserida no roteiro por acaso, ela ajuda a explicar a relação de ruptura/continuísmo em relação a um modelo cinematográfico tradicional, proposta por Jean-Luc Godard, que pode ser percebida neste e em outros de seus clássicos. Alguns críticos consideram Bande à Part uma espécie de reverência do diretor aos filmes de gangsters das décadas anteriores, dos quais Godard era grande admirador. De fato esta homenagem realmente acontece, mas ela não é mera reprodução daquilo a que se propõe a reverenciar. O diretor parece brincar com o estilo e trejeitos daqueles que o influenciaram.

Comparo a relação de Godard com o cinema, com o ato do menino que acabou de ganhar um brinquedo novo e o desmonta para tentar entender como ele funciona. Bande à Part é uma das provas que Godard não só compreendeu o funcionamento e a importância e cada peça, mas também as remontou de uma forma diferente, dando origem a um novo brinquedo, este inusitado por não possuir todas as características de seu original. O menino desmonta seu brinquedo não porque este não o interessa e sim pelo fascínio e curiosidade que ele lhe desperta. Godard, tal como uma criança curiosa, não teve a arrogância de se considerar melhor que os que o antecederam, pelo contrário, a ruptura que ele propõe em seus filmes não é uma negação e sim uma desconstrução do que se tinha como tradicional, para que se pudesse compreender quais eram as possibilidades oferecidas pelo cinema, seja como mídia ou obra de arte. A remontagem das "peças" que daria origem a um novo modelo, ficaria conhecida como Nouvelle Vague, uma das mais importantes e ousadas escolas do cinema no século passado.

A sequência clássica em que os personagens correm no Louvre
seria revisitada por Bertolucci em Os Sonhadores

“Para os atrasados que agora chegam, oferecemos umas poucas palavras escolhidas aleatoriamente: Três semanas antes. Um monte de grana. Uma aula de inglês. Uma casa na beira do rio. Uma garota romântica”

A descrição acima é dada pelo narrador no início de Bande à Part, e praticamente resume a trama simples do filme. Ao contrário de alguns dos outros filmes de Godard, que são considerados de difícil compreensão, este, que é uma das produções mais lembradas da Nouvelle Vague, nos apresenta uma trama linear e sem muitos complicativos. O experimentalismo, que pôde ser observado na montagem e na construção das imagens nos primeiros trabalhos de Godard, agora está presente principalmente na sonoplastia e na edição de som. A ruptura característica da Novelle Vague toma forma em sequências em que através de jogos sonoros a “realidade” da estória é desfeita, dando lugar à noção consciente de que estamos diante de um filme e não de um fragmento do real. Isto acontece visivelmente em duas cenas, a que um dos personagens finge atirar em outro usando o dedo como revólver e realmente sai o som do tiro e a mais clássica em que os personagens decidem fazer um minuto de silêncio e enquanto nenhum deles diz nada, a cena prossegue sem trilha sonora ou ruídos ambientes.

A estória começou quando Odile (Anna Karina, esposa de Godard à época), a garota romântica , conheceu Franz (Sami Frey), "há três semanas" no curso de inglês e contou para ele sobre a grande quantia de dinheiro escondida num quarto na casa de Madame Victoria, sua patroa. Franz por sua vez conta o segredo para seu amigo Arthur (Claude Brasseur). Este é o mote para que ambos os rapazes planejem um grande roubo, justificado pela ideia de que o dinheiro guardado pudesse ser ilegal. Arthur, mesmo sendo arrogante e egocêntrico, consegue conquistar Odile e ele a convence a os ajudar a invadir a casa de Madame Victoria, que fica a beira de um rio. Como eu já havia esclarecido a trama é simples e se desenrola lentamente até um final, também bem simplório, o que não diminui em nada a importância desta obra prima.

Sequencia da dança em um bar inspiraria Tarantino em Pulp Fiction
e seria refilmada na primeira temporada da minissérie Aline

Apesar de simples a trama é carregada de sutilezas e nunces que tornam o filme delicioso de assistir. Anna Karina é um atrativo à parte, sua atuação como a moça inocente e tímida é perfeita, seu olhar, que expressa muito mais que suas falas, é perseguido pela câmera que parece enamorada pela atriz. A fotografia em preto e branco capta lindas imagens de Paris e ajuda a compor algumas cenas memoráveis. A montagem já amadurecida é uma das provas mais concretas que o brinquedo remontado pelo menino curioso pode ser melhor que o original. Algumas sequências emblemáticas foram imortalizadas e serviriam de inspiração para outros cineastas e para referências posteriores feitas pela cultura pop.

 

Bande à Part está dentre os filmes aos quais Bernardo Bertolucci presta homenagem em Os Sonhadores (2003). Théo, Isabelle e Mathew, os protagonistas do longa de Bertolucci, também correm pelos corredores e salões do Museu do Louvre com o intuito de quebrar o recorde conquistado justamente pelo trio de Bande à Part, numas das cenas mais clássicas de todo o cinema. A sequência em John Travolta dança com Uma Thurman em Pulp Fiction (1994) de Quentin Tarantino (cineasta que deu à sua produtora o nome de Band Apart) é uma referência direta à cena em que Odile, Franz e Arthur dançam em um bar, também memorável. A mesma sequência foi usada no clip da música dance with me da banda francesa Nouvelle Vague e teria sido a inspiração para uma sequência da primeira temporada da minissérie Aline (2009), em que os personagens de Maria Flor, Pedro Neschling e Bernardo Marinho dançam ao som de you know i'm no good, canção de Amy Winehouse.

Bande à Part ainda não apresenta o engajamento e a politização que Godard expressaria em alguns de seus filmes seguintes, como já disse este é um filme de sutilezas, e como tal, não tende a agradar ao grande público, ávido por velocidade e ação, mas é um deleite para quem ainda tem um pouco de sensibilidade artística (coisa rara nos tempos de hoje), ou que, como eu, tenha uma atração singular por uma época de sutilezas, paixões e ideologias pungentes. Não recomendo para qualquer um!


De Jean-Luc Godard, indico também: Acossado (1959) e Tempo de Guerra (1963)
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