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domingo, 2 de outubro de 2011

A Viagem de Chihiro

A Viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no kamikakushi; 千と千尋の神隠し) - 2001. Escrito e Dirigido por Hayao Miyazaki. Direção de Fotografia de Atsushi Okui. Música Original de Joe Hisaishi. Produzido por Toshio Suzuki. Studio Ghibli, NTV, Dentsu, Mitsubishi, Tokuma Shoten, Touhoku Shinsha e Walt Disney Pictures / Japão | EUA.

 

A Teoria do Autor concebida por François Truffaut, Jean-Luc Godard e outros críticos da revista Cahiers du Cinéma fazia a apologia de um cinema mais conceitual, onde a figura do diretor viesse a substituir a do produtor como o principal responsável pela obra. Nesta concepção o filme alcançaria o status de obra de arte, superando a condição inicial de um mero produto industrializado. Através da observação analítica da obra de alguns cineastas como Hitchcock e Howard Hawks, Godard e Truffaut identificaram traços comuns que se repetiam nos filmes, advindos da inevitável influência da personalidade de seus realizadores. Em Hitchcock, por exemplo, eles observaram temas recorrentes como o repúdio á autoridade e a obsessão pela culpabilidade, aspectos estes que funcionavam como uma assinatura nos longas do mestre do suspense.

O cineasta japonês Hayao Miyazaki talvez tenha sido o único a desenvolver uma filmografia totalmente autoral no gênero animação. Lembro de já ter lido em algum lugar, me perdoem mas não lembro onde, que ele seria de fato um diretor único, uma vez que ele não teve influência direta de nenhum outro cineasta que tenha feito o mesmo tipo de filme e dificilmente seu gênero deixará herdeiros. A Viagem de Chihiro (2001) se tornou seu trabalho mais aclamado pela crítica e o deu visibilidade no ocidente, o filme ganhou o Urso de Ouro, prêmio máximo do Festival de Berlim, e o Oscar de Melhor Animação. Neste longa Miyazaki retorna com brilhantismo à temática de Meu Amigo Totoro (1988), o seu quarto longa. Ambos têm seus focos direcionados para a infância e para os sonhos, medos e transformações inerentes à esta fase da vida.

 

A Viagem de Chihiro é considerado por muitos como uma releitura do clássico literário Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll, na história contada pelo filme, Chihiro acaba de mudar com os pais para uma nova cidade, no caminho para a nova casa eles se perdem e vão parar no que parece ser um parque de diversões abandonado. O curioso desta parte do filme, é que são os pais os curiosos para desbravarem o lugar e a menina a detentora da prudência, que a faz temer o desconhecido e ser excessivamente cuidadosa. Em meio a barracas e lojas abandonadas, eles encontram um restaurante em pleno funcionamento, porém sem uma viva alma lá. Os pais de Chihiro se fartam com a comida que está sobre as mesas, mesmo sendo alertados pela menina que se recusa a provar dos alimentos.

 

A noite chega rapidamente e algo muito estranho começa a acontecer, o lugarejo morto começa a ganhar vida, vultos estranhos surgem por toda a parte. Chihiro é então alertada por um garoto estranho que surge do nada e a aconselha a ir embora antes que seja descoberta, amedrontada a menina corre de volta para o restaurante e se depara com os seus pais metamorfoseados em porcos, eles já não a reconhecem mais. Envolta pelo que parece ser uma realidade paralela, Chihiro se recusa a acreditar que tudo aquilo é real, o menino estranho, chamado de Mestre Haku, aparece novamente e desta vez a aconselha a pedir emprego em uma espécie de casa de banhos para espíritos, que funciona no local, ele garante que isso a manteria a salvo das estranhas criaturas que habitam o lugar, que a tratam como um repudiante invasor.

 

Chihiro precisa então lutar contra os seus medos e contra si mesma para conseguir permanecer naquela realidade até que consiga um meio de libertar seus pais e escapar de tudo aquilo. As experiências da garotinha neste mundo novo funcionam como uma alegoria das descobertas da infância e do rito de passagem para uma nova etapa da vida (temas presentes também em Meu Amigo Totoro). Ela precisará tomar decisões, se responsabilizar por seus atos e se virar sem a ajuda de seus pais. A história é repleta de metáforas que simbolizam a arrogância, a ganância e a avareza da humanidade e até mesmo o desrespeito ao meio ambiente.

 

Em uma das sequências mais belas do filme, um espírito fedorento chega a casa de banho, todos empurram a tarefa de conduzi-lo à banheira para Chihiro, ela, com a ajuda de um outro ser misterioso, vence seu medo e encara o árduo serviço. Durante o banho, ela percebe que tem algo prezo no corpo daquele ser asqueroso. Contando agora com a ajuda de todos os outros, ela consegue desprender o objeto e junto com ele o espírito expele uma quantidade enorme de lixo e outros detritos. É então que todos descobrem que aquele não era um espírito do fedor e sim um deus dos rios. Em outra sequência a ganância leva alguns personagens a transformarem algo que era bom em uma força totalmente descontrolada, novamente Chihiro é única que não se deixa levar pelos impulsos que tomam os demais.

 

A sensibilidade e a sofisticação dos filmes de Hayao Miyazaki é algo indescritível, o que eleva seus trabalhos à condição de verdadeiras obras de arte. A predominante escolha pelos desenhos feitos com pincel e tinta, ao invés da computação gráfica, é uma prova disso. O mundo criado pelo realizador em seus filmes, remete às mais belas memórias de nossa infância, à simplicidade e às aventuras além das fronteiras do real, trilhadas pela nossa imaginação. Realmente é uma pena que o ocidente ainda não esteja preparado para suas obras, o que faz com a sensibilidade poética de seus filmes seja por vezes confundida com lentidão, o que leva alguns desentendidos a taxar o filme de chato. Eu acredito que só não é tocado por um filme como este quem não teve infância ou não tem coração! Ao assisti-lo preste atenção na qualidade magistral da animação e na belíssima trilha sonora composta pelo colaborador habitual de Miyazaki, Joe Hisaishi. Ultra recomendado!


A Viagem de Chihiro ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim 
e o Oscar de Melhor Animação.


Assistam ao trailer de A Viagem de Chihiro

no You Tube, clique AQUI !

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a resenha crítica de 
Meu Amigo Totoro, o segundo longa de Hayao Miyazaki

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sábado, 1 de outubro de 2011

Piratas do Caribe - Navegando em Águas Misteriosas

Piratas do Caribe - Navegando em Águas Misteriosas (Pirates of the Caribbean - On Stranger Tides) - 2011. Dirigido por Rob Marshall. Escrito por Ted Elliott e Terry Rossio, inspirado em um romance de Tim Powers. Direção de Fotografia de Dariusz Wolski. Música Original de Hans Zimmer. Produzido por Jerry Bruckheimer. Walt Disney Pictures e Jerry Bruckheimer Films / EUA.

 

Se a proposta de Piratas do Caribe – Navegando em Águas Misteriosas (2011) era realmente de voltar à simplicidade dos dois primeiros filmes da série, tenho que reconhecer que ele conseguiu, mas isso não foi o suficiente para coloca-lo á altura de seus antecessores. A Maldição do pérola Negra (2003) e O Baú da Morte (2006), apesar de não serem filmes impecáveis, traziamm consigo o gostinho da novidade aliado ao carisma de Johnny Depp e de seu personagem, que o ajudaram conquistar um estrondoso sucesso de público. Já no terceiro filme da franquia, No Fim do Mundo (2007), a coisa desandou e a trama ficou obscura e complexa demais para o público médio. A fórmula simples que mesclava aventura, um roteiro sem complicativos, efeitos especiais e uma boa dose de humor, que até então tinha funcionado maravilhosamente, fora inexplicavelmente abandonada. O erro de agora foi acreditar que voltar a esta fórmula seria uma garantia de sucesso, o resultado foi um filme simplificado demais e cheio de piadas que nem sempre funcionam como o esperado.

Depois de escapar da morte e do dos domínios de Davd Jones (Bill Nighy) em Piratas do Caribe – No Fim do Mundo, o capitão Jack Sparrow (Johnny Depp) está mais uma vez sem navio e sem tripulação. Ele chega a Londres para tentar resgatar Joshamee Gibbs (Kevin McNally), seu primeiro oficial, que está preso e corre o risco de ser enforcado. Jack consegue libertar Gibbs, mas ambos acabam sendo presos novamente. Na sequência, ao ser levado à presença do Rei Jorge II da Grã-Bretanha, Jack descobre que o Capitão Hector Barbossa (Geoffrey Rush) deixara a pirataria após perder o navio Pérola Negra em combate e atua agora como corsário real. Sparrow consegue fugir mais uma vez, em uma ação totalmente improvisada como lhe é comum. A visita ao monarca reforça um boato que corre nas ruas de Londres, que deixa Jack cada vez mais intrigado, o de que ele chegara na cidade e estaria juntando uma tripulação para zarpar em busca da fonte da juventude. Ele descobre então que alguém está se passando por ele.

 

Quem estava tentando se passar por Jack Sparrow era Angelica (Penélope Cruz), um de seus casos não tão bem resolvidos do passado. Ao ser descoberta por ele, Angélica o convence a retomar sua busca pela fonte da juventude, o que seria mais fácil agora que ele teria um navio e uma tripulação à sua disposição. O que ele não sabe é que ela é filha do temido pirata Barba Negra (Ian McShane) e que só o convidou para a expedição em busca da fonte por acreditar que ele já esteve lá. Barba Negra, por sua vez, está atormentado por conta de uma profecia, que garante que ele seria morto em pouco tempo por um homem de uma só perna, ele vê na fonte da juventude uma forma de enganar o próprio destino. Estão também na busca pela fonte, corsários espanhóis e ingleses, este últimos capitaneados pelo ressentido e vingativo Barbossa. Como não poderia faltar o já tradicional elemento sobrenatural, a jornada passa pela temida Baía das Espumas, região habitada pelas lendárias sereias, criatura tão belas quanto mortais. As sereias têm consigo um dos ingredientes primordiais para a conquista da juventude e não será nada fácil tirá-lo delas.

 

Feito um breve resumo da trama, vamos então a uma avaliação: O filme tem aventura, tem efeitos especiais, tem toques de humor e não é complexo. Se ele tem tudo isso, por que então ele não funciona? Não funciona porque a história se torna clichê ao tentar se amparar naquilo que já foi feito nos outros filmes, sem apresentar grandes novidades; os efeitos especiais não fazem jus a um filme do gênero, estando bem aquém até mesmo dos outros filmes da franquia; as piadas são construídas sobre temas também repetidos, que já perderam a graça desde o terceiro filme da série e como já disse o roteiro ficou simplificado demais, até para o público médio. Percebe-se o excesso de preocupação em deixar a história toda amarrada, o que prejudica a condução da trama e a construção dos personagens, afetando diretamente a reação das plateias. O desfecho é altamente previsível e não chega nem perto da tensão criada pelo segundo e das reviravoltas do primeiro.

 

Piratas do Caribe - Navegando em Águas Misteriosas é um filme ruim? Não, ele não é! Johnny Depp está muito bem (mais uma vez), Penélope Cruz (sempre belíssima) consegue dar um brilho especial a cada uma das cenas em que aparece, apesar de eu achar que seu personagem poderia ter sido melhor construído. A trilha sonora, que inclui canções da dupla mexicana Rodrigo y Gabriela, é muito boa, a fotografia não é excelente, mas também não deixa nada a desejar e apesar de tudo o filme tem algumas ótimas passagens, como aquela que mostra o aparecimento das sereias e a da fuga de Jack Sparrow no início do filme (esta última conta com uma ponta, pessimamente situada na história, da aclamada atriz inglesa Judi Dench). Keith Richards aparece mais uma vez como o Capitão Teague Sparrow, o pai de Jack, ele protagoniza ao lado de Deep um dos diálogos mais engraçados do filme...

 

Ainda consigo lembrar de quando assisti O Bau da Morte pela primeira vez (somente algum tempo depois eu consegui assistir A Maldição do Pérola Negra), aquele não tinha sido um dia bom, eu estava muito mal por conta de algumas coisas que tinham acontecido e ver o filme, de uma forma mágica, varreu pra longe minhas preocupações e me fez rir alto com as peripécias de Sparrow, de  Will Turner (Orlando Bloon) e de Elizabeth Swann (Keira Knightley), (estes últimos fazem falta nesta continuação). Sinto por não ter encontrado isso em Navegando em Águas Misteriosas, talvez se este tivesse sido o primeiro longa da série que eu viesse a assistir o efeito dele sobre mim pudesse ter sido bem diferente. Posso assegurar que para mim valeu a pena ter assistido ao filme, matei a curiosidade de ver a sequência de uma franquia da qual já gostei muito, vi Penélope na pele de uma pirata e me diverti bastante, mesmo que daqui a alguns anos eu não me lembre deste dia, ainda assim valeu a pena. Recomendo!


Do diretor Rob Marshall, recomendo também: Chicago (2002)
Memórias de uma Gueixa (2005) e Nine (2009).

Assistam ao trailer de Piratas do Caribe – Navegando em Águas Misteriosas
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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Cólera - O Último dos "Gigantes"

.Uma Homenagem Póstuma.
 ao Maior Ícone do Movimento Punk no Brasil.

 

Hoje, quando entrei no facebook pela manhã, recebi a notícia trágica: “Edson 'Redson' Pozzi, vocalista e guitarrista da banda punk Cólera, morreu nesta terça-feira (27), aos 49 anos”. Para a grande maioria das pessoas nem este nome, nem a notícia, têm sentindo algum, mas para mim a aquela manchete caiu como uma bomba! À medida que eu procurava por confirmação daquele fato na rede e percebia que ele ia se tornando mais real, fui sendo tomado por um inesperado sentimento de comoção. De repente eu já tinha sido transportado para uma das épocas mais agitadas de minha vida, o final de minha adolescência, período de transformações, traumas e contato com o que de mais real e cruel a existência pode nos oferecer. Acho que dentre as bandas que eu ouvia com maior frequência neste período, somente o Ramones tenha sido mais importante, do que o Cólera foi. Mas diferente da banda americana, que me ensinou o que era Rock de verdade, o trio paulista me deu algo que ia além de sua sonoridade, suas canções deram voz ao meu engajamento e às minhas utopias, que eram então o que de melhor que eu tinha.

O Cólera foi formado em 1979, sendo uma das primeiras bandas da cena punk, que surgira em São Paulo nos idos de 1978. Em 1982, a banda participou, ao lado de Inocentes e Olho Seco, do primeiro disco Punk lançado no Brasil, o clássico Grito Suburbano, em novembro do mesmo ano o trio se apresentou no lendário festival O Começo do Fim do Mundo, organizado pelo escritor e jornalista Antônio Bivar; o evento rendeu um LP com 19 faixas, uma de cada uma das bandas participantes (apenas o Ulster não quis participar da edição original do disco). No ano seguinte Redson criairia o Estúdios Vermelhos, que mais tarde passaria a se chamar Ataque Frontal, por este selo foi lançado Sub, outra coletânea clássica do período, que trazia o Cólera, o Ratos de Porão, o Fogo Cruzado e o Psykóze, cada uma das bandas com seis músicas. Em 1985 o Cólera lança, pelo selo de Redson, o seu primeiro álbum, intitulado Tente Mudar o Amanhã, que tinha nítida influência do punk/hc finlandês. No mesmo ano é lançado o Split LP, Ao Vivo na Lira Paulistana, junto com o Ratos de Porão.

 

Em 1986 foi lançado o disco mais clássico da banda, Pela Paz em Todo o Mundo, que trazia músicas como Medo, Direitos Humanos, Alucinado, Adolescentes e o hino Pela Paz. A temática pacifista indicava que a banda já havia alcançado a maturidade e era ainda um diferencial em uma cena onde ainda existia uma acentuada segregação entre as bandas da capital e as do ABC Paulista, contexto que favorecia o acontecimento de brigas e outros casos de violência. Diferente da cena de Brasília, onde os integrantes das bandas eram geralmente estudantes filhos de políticos e diplomatas, o cenário paulista era formado por jovens operários e desempregados, mas mesmo sem nenhum recurso aqueles "garotos do subúrbio" fizeram valer o do it yourself teorizado pelo punk inglês, prova disso foi que em 1987, o Cólera encarou uma turnê que passou por vários países da Europa, sem ganhar nenhum dinheiro com isso, apenas as passagens e o alojamento em squaters (casas abandonadas que são ocupadas por ativistas).

 

Em 1987 a banda lançou o disco ao vivo European Tour '87, gravado durante a excursão do outro lado do Atlântico, e o seu segundo álbum, intitulado Verde, Não Devaste, que trazia uma urgente mensagem ecológica em faixas como Verde, Dont Waste It e Presídio Zoo, isso em uma época em que o ambientalismo ainda não era moda. Em 1992 lançaram o regular Mundo Mecânico Mundo Eletrônico, cujo o principal destaque é uma regravação, a da faixa 1.9.9.2., presente no primeiro disco. Após seis anos sem lançar nada de novo, o Cólera grava o excelente Caos Mental Geral, que chega a soar como uma volta aos primórdios. O disco traz músicas memoráveis como a faixa título, Cultural Revolução, Fuck I.U.R.D. e Dia e Noite, Noite e Dia, além de regravações de lados B e músicas presentes até então só em coletâneas como, Dê o Fora, Subúrbio Geral e Quanto Vale a Liberdade?, esta última, a melhor música da banda na minha opinião.

 

Mais outros seis anos sem novidades e então a banda nos presenteia com Deixe a Terra em Paz!, disco que mesclou o pacifismo de Pela Paz em Todo o Mundo e o Ambientalismo de Verde, Não Devaste, em músicas que mostravam uma sofisticação nunca antes experimentada pela banda. A poesia marginal expressa em letras diretas dão lugar a metáforas e alegorias, que ilustram reflexões sobre temas mais maduros e complexos, tirando o foco que até então estava na sociedade e direcionando-o para o indivíduo. Os destaques do disco são as faixas Espelho no Quintal, De ET pra ET, Samba-Core, Circocore, Aperta o Nó, Águia Filhote e São Paulo é Gig. Foram ao todo seis álbuns de estúdio, pode parecer pouco, mas foi o suficiente para transformar a banda em uma lenda, uma verdadeira instituição do movimento punk brazuca. Mesmo nos anos em que não gravou nada de novo, a banda continuou excursionando e se apresentando nos quatro cantos do país.

 

Nenhum dos integrantes chegaram a conseguir viver da banda, eles conciliaram durante anos os shows com seus respectivos empregos, sem nunca conseguirem sucesso comercial, o que fato não era o interesse da banda. O Cólera conseguiu atravessar três décadas se mantendo fiel à sua proposta original, sem se deixar levar por modas e pela pressão do mercado convencional. A banda é na minha opinião a que melhor representou não só a cena punk, mas todo o underground brasileiro nos últimos anos. Como você pode perceber no decorrer deste post, onde tentei resumir a trajetória da banda, eles foram os pioneiros de tudo aquilo que sustentou e ainda sustenta o meio alternativo até hoje. Com a morte prematura de Redson, devido a uma parada cardio-respiratória, a banda encerra suas atividades (uma vez que é quase inconcebível alguém o substituir) deixando um aperto no coração de quem presenciou e viveu ao menos parte desta respeitável trajetória.


Redson - um verdadeiro guerreiro do movimento punkl 
Só quem viveu as mesmas coisas que eu e alimentou as mesmas utopias pode compreender o impacto que a banda provocou em um dos melhores, apesar de tudo, e mais loucos períodos de minha vida... Precisei registrar aqui esta tentativa de homenagem á voz que um dia bradou: “Gostaria de te escutar, gostaria de te entender, por que você é Alguém! Se você quiser pode dizer o que sente, pode até gritar...”. Que traduziu minha indignação: “Às vezes tenho raiva, às vezes sinto que a ilusão me faz recuar, pois muita gente mente, pois muita gente dá a mão só pra empurrar...”. Que me ajudou a tecer inúmeras reflexões: “Se você não se virar pro espelho, sempre vai ter esse vulto por trás, um vulto estranho que te dá medo. Não corra não, é só você. O mundo dá voltas, o mundo dá voltas e a vida se entorta pra gente enxergar. O mundo dá voltas, o mundo dá voltas e a gente volta pra se reencontrar...”. E me deu a noção precisa da força que eu tinha em minhas mãos: “Você percebe que o tempo se vai, como as águas de um rio, vai se afastando, se encolhe mais, deixando um vácuo, um vazio. Voltar, voltar, voltar. Não tem por onde. Onde?! Você está solto, pode se afundar, ou pode se controlar! Forte e grande é você!”... Valeu camarada!
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domingo, 25 de setembro de 2011

Missão Madrinha de Casamento

Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids) - 2011. Dirigido por Paul Feig. Escrito por Kristen Wiig e Annie Mumolo. Direção de Fotografia de Robert D. Yeoman. Música Original de Michael Andrews. Produzido por Judd Apatow, Barry Mendel e Clayton Townsend. Universal Pictures. / EUA.

 

Se no Brasil o trâmite de atores e atrizes entre o cinema e a televisão na maioria das vezes não funciona bem, nos Estados Unidos tal fenômeno tem se dado de forma bem diferente. Em terras tupiniquins, atores são selecionados mais pela aparência física do que pelo talento, o que não faz tanta diferença em se tratando de televisão, deviso à baixa qualidade artística da maioria das produções. Salvo em raras exceções, os rostinhos bonitos da TV não conseguem fazer bem a transição de linguagem e acabam fazendo feio no cinema. Isso explica aquela sensação de estar assistindo a uma novela da Globo, que experimentamos em boa parte das produções de visibilidade do cinema nacional. Ainda pretendo tentar tecer aqui no blog uma análise crítica acerca do cinema nacional, mas isso é conversa para uma outra hora. Recorri a esta relação, por vezes conflituosa, entre o cinema e a televisão, para falar de Missão Madrinha de Casamento (2011), uma das comédias mais elogiadas do ano.

Confesso que fui assistir ao filme com um pouquinho de preconceito, eu não esperava que ele fosse tão legal quanto a crítica especializada tem dito que ele é. Mas para minha surpresa, eu estava errado mais uma vez. Missão Madrinha de Casamento é uma comédia leve e simplesmente hilária, sem para isso precisar apelar para os clichês mais batidos do gênero ou para o besteirol. Algo curioso, e que tem sido muito comentado, é o fato de ser uma comédia protagonizada por um grupo de mulheres, o que não se via há muito tempo. Ao contrário do que os mais machistas podem achar, não é um filme para garotas. As situações vivenciadas pelos personagens na trama são universais e por isso conseguem com tanta facilidade arrancar o riso, mesmo dos mais “machões”.

 

A versatilidade do elenco e sua habilidade com a comédia, não é surpresa na maioria dos casos, uma vez que boa parte da equipe vem de humorísticos da televisão (eles conseguem fazer a transição de linguagem da forma mais natural possível). Kristen Wiig, que interpreta a personagem central do filme, faz parte do elenco de Saturday Night Live há seis anos, Maya Rudolph, também trás no currículo uma passagem pelo programa no período de 2000 a 2007, Melissa McCarthy acabou de receber o Emmy de Melhor Atriz em Série de Comédia pela sua atuação no sériado Mike & Molly e Ellie Kemper está no elenco atual do ótimo seriado The Office. A surpresa é ver atores como Jon Hamm, o sério e enigmático Dom Draper da série Mad Man, e Rose Byrne, a Ellen Parsons da série Damages, tão bem em papéis cômicos.

 

Na história, Annie (Kristen Wiig) é uma mulher cuja vida está uma verdadeira bagunça, a crise levou seu negócio, uma confeitaria, à falência. Junto com a loja ela perdeu o namorado, este se foi quando percebeu o cheiro de prejuízo no ar. Sem ter outra opção, ela começa a trabalhar como balconista em uma joalheria, empregou que a mãe lhe conseguiu. Ela tenta manter uma relação com o bon vivant Ted (Jon Hamm), mas este não quer compromisso, apenas o sexo casual. Por não querer voltar para a casa da mãe, Annie divide um pequeno apartamento com dois imigrantes, Gil (Matt Lucas) e sua irmã tapada Brynn (Rebel Wilson). No meio de todas estas loucuras, ela só consegue encontrar afago na amizade que mantém desde a infância com Lillian (Maya Rudolph).

 

Contudo, a bela amizade entre as duas se vê ameaçada quando Lilian anuncia que vai se casar e convida Annie para ser sua madrinha. Diferente do Brasil, nos Estados Unidos é a madrinha quem organiza a festa e todas as etapas do casamento, ou seja são mais problemas para a já problemática Annie. Aquilo que parecia impiorável, piora com o aparecimento da jovem socialite Helen (Rose Byrne), a nova amiga de Lilian. Helen é casada com um homem rico e tem muito dinheiro para gastar com futilidades, o que a torna a pessoa perfeita para desempenhar o papel que foi confiado a Annie, esta começa a alimentar um ciúme doentio de tudo que está acontecendo de novo na vida da melhor amiga, sentimento este que se acentua com o surgimento de Helen em sua vida. O time fica completo com a chegada das outras madrinhas, a maluca Rita (Wendi McLendon-Covey), a certinha Becca (Ellie Kemper) e a masculinizada Megan (Melissa McCarthy – excelente no papel).

 

Missão Madrinha de Casamento explora os recursos da comédia sem ser excessivamente apelativo em nenhum momento, as gags presentes no filme são ótimas e algumas cenas são realmente hilárias. Quando assisti-lo, preste atenção na cena que se passa em um avião, na passagem em que Annie e Lilian brigam para decidir quem dirá a última palavra no discurso de noivado e na sequência que se passa em uma loja de vestidos, onde as personagens vão após uma passagem por um restaurante de comida brasileira (!)... Mesmo em meio a tantas piadas visuais e situações embaraçosas, um fio dramático é tecido a partir da vida de Annie, o que torna a personagem humana e ainda mais convincente. Cheguei a ler que este filme seria uma versão feminina de Se Beber Não Case (2009), porém com uma alma, ainda não assisti ao filme de Todd Phillips, mas não há dúvidas de que o diferencial de Missão Madrinha de Casamento, quando comparado com outras comédias, é esta “alma” que ele tem.

 

Se a Academia não tivesse mudado os parâmetros para a indicação ao Oscar de Melhor Filme, estou certo de que Missão Madrinha de Casamento figuraria na lista. De fato não é uma obra prima, mas é do tipo de filme que fará surgir uma boa quantidade de similares. Cada uma das críticas positivas que ele vem recebendo são realmente merecidas. Tenho que assumir, eu estava enganado mais uma vez em meu preconceito, pois esta obra se trata de entretenimento da melhor qualidade. Aproveite para assisti-lo na tela grande enquanto ele ainda está em cartaz. Esteja certo(a) de que o risco de arrependimento é quase nulo, este longa certamente irá agradar os mais diversos tipos de público, dos mais exigentes, àqueles que entrarão na sala de projeção apenas para acompanhar as namoradas, dos totalmente leigos, aos fãs dos programas de TV, dos quais os atores são oriundos. Recomendo!

Assistam ao trailer de Missão Madrinha de Casamento no You Tube,
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Por Uma Vida Melhor

Por Uma Vida Melhor (Away We Go) - 2009. Dirigido por Sam Mendes. Escrito por Dave Eggers e Vendela Vida. Direção de Fotografia de Ellen Kuras. Música Original de Alexi Murdoch. Produzido por Peter Saraf, Edward Saxon e Marc Turtletaub. Focus Features. / EUA | UK.

 

Sempre acreditei e defendi que no tocante à música a nossa época seria lembrada por aquilo que está sendo produzido na cena underground e não pelos produtos comercias do mainstream. Os independentes têm a vantagem de não estarem submissos a padrões criativos e estéticos impostos pela indústria, o que favorece a criatividade e a originalidade de seus trabalhos. Cada vez mais me convenço que tal fenômeno, que observo no meio musical, também vale para o cinema. Algumas das melhores obras que assisti nos últimos anos tiveram origem na prolífera cena indie, que tem rompido fronteiras e, graças às novas tecnologias, está presente até mesmo em países que não tinha até então nenhuma tradição no meio. Alheios às megalomanias hollywoodianas, os filmes indies têm conquistado público e ganhado cada vez mais espaço em circuítos maiores. E não é de se estranhar que mesmo realizadores já renomados escolham uma volta ao básico, a um tipo de modelo de produção no qual a liberdade de criação conta mais que o sucesso de bilheteria. 

Por Uma Vida Melhor (2009) (também lançado no Brasil com o título de Distante nós Vamos), o quarto longa de Sam Mendes, é um exemplo perfeito do nível de qualidade que a cena indie tem alcançado, ele é um dentre muitos filmes que podem justificar a premissa que expus acima, a de que a relevância destas obras ainda será apontada no futuro como um dos melhores aspectos do cinema contemporâneo. O longa consegue mesclar a leveza e a despretensiosidade, características marcantes deste estilo de filmes, com a direção precisa de Sam Mendes e um roteiro muito bem escrito. O resultado disso no entanto não é um sucesso imediato de bilheteria e sim um filme simples, delicioso de se assistir e dotado de uma inteligencia tamanha, que pode fazer com que os mais despercebidos não compreendam que estão diante de uma pungente crítica ao “way of life” americano, o que em se tratando de Sam Mendes já era bem esperado. O diretor estaria se repetindo? De forma alguma!

 

Em Por Uma Vida Melhor, Mendes retrata novamente a realidade de uma família nuclear americana, mais uma vez o ideal do sonho americano é o alvo das críticas que seu filme tece. Se em Foi Apenas um Sonho (2008) o foco está sobre uma família que tem tudo aquilo que a sociedade considera necessário para ser feliz e não o consegue ser, desta vez o centro da trama é um casal que não tem nada disso e está a procura de algo que lhe possa trazer realização. Ambos estão um pouco frustrados por considerarem que suas vidas se estacionaram e que eles não chegaram nem perto do ideal comum de felicidade, que se sentem pressionados a alcançar. Burt (John Krasinski – o Jim do seriado The Office) é um analista financeiro que trabalha no ramo de seguros e Verona (Maya Rudolph – ex-Saturday Night Live) ganha a vida como ilustradora de livros de anatomia, ambos trabalham em casa. Na primeira sequência do filme, Burt descobre da maneira mais improvável possível que Verona está grávida. Um corte e já nos deparamos com Verona no sexto mês de gravidez.

 

Burt e Verona se vêm sozinhos na missão de criar e educar o filho que está prestes a chegar, quando os pais dele, que moravam relativamente perto, decidem viajar para Bélgica e lá ficarem por dois anos. É então que o casal decide pegar a estrada, num itinerário predeterminado por Verona, para tentar reencontrar parentes e amigos e achar o melhor lugar para viver a partir de então. Como em qualquer road movie, a viagem trará experiências e autoconhecimento que irão transformar a maneira com que eles enxergam o mundo e a vida familiar. Os personagens com quem eles encontram em cada cidade por ondem passam, apesar de excêntricos e caricatos, representam da melhor forma possível a fauna americana que habita debaixo de um mesmo teto. São diversas concepções de família e várias formas de encarar a paternidade, mas em nenhuma delas Burt e Verona conseguem se encontrar, tal processo mostrado no filme, funciona como uma desconstrução do sonho americano e de toda a concepção deturpada que se tem da vida conjugal e da relação com os filhos.

 

O roteiro de Por Uma Vida Melhor é simplesmente magnífico e faz com que nós expectadores experimentos diversas emoções durante a exibição. Este é um daqueles filmes raros, cujas cenas conseguem nos fazer rir e chorar ao mesmo tempo, tamanha sensibilidade. O longa está repleto de sequências hilárias e memoráveis, como uma na qual uma mãe aponta os defeitos do próprio filho e diz que a filha de 12 anos parece "sapatão", ou na ótima cena que envolve um casal que leva uma vida “alternativa” e um carrinho de bebês... A angulação dramática do filme vem à tona em excelentes diálogos entre os personagens, como na cena em que Burt e Verona conversam sentados em uma cama elástica, à noite no jardim da casa do irmão dele em Miame. Em uma outra passagem, um personagem secundário, que levava uma vida aparentemente feliz, lamenta: “Pessoas como nós esperam até os 30 anos e aí se surpreendem quando fica difícil fazer filhos. E a cada dia, outro milhão de garotas de 14 anos ficam grávidas sem tentar”. Como não ver neste tipo de declaração a falência da família como instituição e consequentemente a do sonho americano?

 

No final das contas, percebe-se que tudo não passa de hipocrisia a aparências, que na verdade é o que guia a sociedade americana (e a nossa por tabela) e o que Sam Mendes vem criticando desde Beleza Americana (1999). Ao contrário dos outros longas do diretor, este é alegre e chega a ser otimista, mesmo tocando em temas por vezes tão dolorosos. A história nos ajuda a compreender que a felicidade verdadeira está bem longe de qualquer ideal materialista e consumista. Entendemos então que os personagens não precisam estar casados, não precisam ter os melhores empregos do mundo, não precisam ter filhos perfeitos e não precisam atingir alguma meta imposta para alcançarem a felicidade, pois a felicidade está nas coisas mais simples da vida, como voltar ao passado e perceber que tudo está surpreendentemente diferente e que o presente precisa apenas ser vivido com a maior intensidade possível! A alegoria da árvore que não dava frutos, enfeitada pelas crianças com frutos falsos, é perfeita para ilustrar a ilusão da qual os personagens tentam escapar, ilusão esta que o cinema indie consegue superar com maestria inigualável.

 

Já poderia ter concluído esta resenha do filme, mas não posso deixar de comentar outros aspectos que o tornaram uma obra tão especial. A trilha sonora é apaixonante e está em perfeita sintonia com aquilo que o filme está tentando nos dizer sobre a simplicidade. Os enquadramentos e movimentos de câmera são muito bons, preste atenção na cena em que os personagens deslizam em uma esteira de um aeroporto, ou no enquadramento e fotografia da cena seguinte em que eles aparecem já no avião... O maior destaque, no entanto, fica por conta das atuações de John Krasinski e de Maya Rudolph, eles criaram tipos comuns, porém cheios de empatia, que nos parecem tão familiares e verdadeiros, ambos estão ótimos em seus personagens e conseguem nos cativar ainda mais à medida em que vamos os conhecendo melhor no decorrer do filme... Se você tiver uma oportunidade de assistir a este filme, não a perca! Por Uma Vida Melhor tem a beleza e a sensibilidade que raramente pode ser encontrada no cinema espetáculo! Ultra recomendado!



Assistam ao trailer de Por Uma Vida Melhor no You Tube,

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Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a resenha crítica de 
Foi Apenas um Sonho (2008), o terceiro longa de Sam Mendes.

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terça-feira, 20 de setembro de 2011

O Império dos Sentidos

O Império dos Sentidos (Ai no korîda, 愛のコリーダ) - 1976. Escrito e Dirigido por Nagisa Oshima. Direção de Fotografia de Hideo Itoh. Música Original de Minoru Miki. Produzido por Anatole Dauman. Argos, Oshima e Shibata. / Japão | França.

 

Nem consigo imaginar a reação das plateias que assistiram o polêmico filme O Império dos Sentidos (1976) na tela grande, quando ele estreou nos já longínquos anos setenta. O diretor japonês Nagisa Oshima, responsável pela obra, já tinha uma carreira consolidada e uma reputação construída dentro do movimento que ficou conhecido como Nuberu Bagu (a Nouvelle Vague japonesa), quando adaptou para o cinema uma história real acontecida no Japão na década de trinta. A película foi ousada ao recorrer a cenas de sexo explícito, que fazem a clássica cena “da manteiga” de O Último Tango em Paris de Bertolucci parecer coisa de novela das seis. O erotismo escancarado está presente do início ao fim do filme, o que me levou a questionar em alguns momentos o porque de ele não ser rotulado como um simples pornô, uma vez que este gênero já existia e tinha adeptos desde os primórdios do cinema.

Cheguei à uma conclusão apenas após o final da exibição. De fato eu não tenho como analisar um filme sem considerar o contexto cultural no qual ele foi produzido, fazer isso, principalmente neste caso, seria uma verdadeira injustiça. A época em que a película foi rodada era um período de intensas mudanças, de contestação e de liberação dos costumes. Quem ainda não o assistiu pode achar, pelo que estou dizendo, que O Império dos Sentidos é uma exaltação de tudo isso que aquelas décadas representaram, mas definitivamente não o é, e isso é algo que o diferencia de um pornô qualquer. Explico, Oshima, ao que me parece, não estava interessado em despertar a libido dos apreciadores da pornografia tradicional, o que ele pretendia era justamente chocar os cinéfilos comuns que tinham pouca, ou nenhuma, afinidade com o gênero.

 

Como já mencionei, a trama de O Império dos Sentidos é inspirada em um acontecimento real que chocou o Japão em 1936. Na história contada no filme, uma jovem prostituta, Sada (Eiko Matsuda), se muda para a casa de Kichi-Zo (Tatsuya Fuji) após a falência e endividamento de seu antigo amante. Kichi-Zo é casado e vive cercado de gueixas e serviçais, no entanto ele ignora isso e não tenta esconder a relação que começa com a nova empregada. Alheio a tudo que está acontecendo às suas voltas, ambos se entregam a uma paixão carnal avassaladora. O ato sexual é explorado pelo casal em todas as suas possibilidades e, tal como uma droga, ele vai consumindo ambos. Imersos em jogos sexuais que parecem não ter fim, eles transam sem se importar com gueixas e outras empregadas que os observam, algumas vezes ignorando, em outras assustados e constrangidos.

 

À medida que o filme vai se aproximando do fim, a tragédia iminente vai se materializando e as cenas vão ficando mais pesadas e indigestas. Em uma das cenas mais contundentes, alimentos são inserido na vagina da mulher para depois serem ingeridos... bizarro não? Pois acreditem, o final é mais bizarro ainda, assustador por nos lembrar que algo similar realmente aconteceu um dia. Não sei se tenho a resposta para quem me questionar o porquê deste filme figurar na maioria das listas de melhores ou mais importantes obras da história da sétima arte, mas acredito que quem se dispuser a vê-lo com um olhar que vá além das cenas de sexo, enxergará nele quase uma premonição de uma época de paixões fugazes e destrutivas, um tempo destituído de sentimentos e idealismos, onde prevalece apenas a sensação e o imediatismo. 

 

Além da forte carga erótica que o estigmatizou, o filme trás excelentes atuações, aspecto que o distancia ainda mais de um pornô comum, e uma história que consegue escapar da superficialidade, na qual poderia ter se perdido. Numa análise ainda mais profunda, a obra pode ser tida como uma contestação contra o consumismo e o materialismo que vinha tomando conta do país desde o final da segunda guerra, com a influência cultural norte americana. O cunho nacionalista, que se esconde na trama do filme, fica evidente em uma sequência em que Kichi-Zo caminha apressado pela rua no sentido oposto dos soldados que marcham, no que seria um prelúdio da entrada no Japão na segunda guerra, alheio a tudo isso o personagem só quer chegar em casa e dar continuidade aos jogos sexuais que o levarão à sua própria destruição. Eu, que cheguei a dormir durante a exibição (o que não é comum, mesmo nos filmes mais lentos), acho que não o incluiria na minha lista de filmes indispensáveis, no entanto não posso ignorar que talvez ele realmente seja um dos melhores filmes eróticos de todos os tempos!

Assista ao trailer de O Império dos Sentidos no You Tube, clique AQUI !

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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Vencedores do Emmy Awards 2011

 

A entrega dos prêmios da 63° edição do Emmy aconteceu ontem no Teatro Nokia em Los Angeles. A cerimônia não teve grandes surpresas, Modern Family e Mad Men confirmaram o favoritismo e levaram os prêmios de Melhor Série de Comédia e de Drama, respectivamente. A primeira pode ser considerada a grande vencedora da noite, por ter levado outros dois dos prêmios principais, o de Melhor Atriz Coadjuvante de Comédia (Julie Bowen) e o de Melhor Ator Coadjuvante de Comédia (Ty Burrel). A minissérie Mildred Pierce, outra dentre as favoritas, foi a vencedora em cinco das 21 categorias nas quais fora indicada, dentre elas a de Melhor Atriz em Minissérie ou Filme para TV (Kate Winslet - mais que merecido) e a de Melhor Ator Coadjuvante em Minissérie ou Filme de TV (Guy Pearce). Se eu tivesse que apontar uma injustiça nesta edição (tarefa difícil uma vez que não conheço todos os indicados), esta seria a não premiação de Steve Carrel na categoria de Melhor Ator de Comédia, ele não venceu em nenhuma das cinco vezes em que fora indicado ao prêmio e esta foi sua última oportunidade de recebê-lo pela sua excelente atuação como o excêntrico Michael Scott de The Office, esta foi sua última temporada na série. 


Vamos então à lista completa dos vencedores das principais categorias:

Melhor série dramática: Mad Men
Melhor série de comédia: Modern Family
Melhor ator em série dramática: Kyle Chandler, por Friday Night Lights
Melhor atriz de série dramática: Julianna Marguiles, por The Good Wife
Melhor ator de série de comédia: Jim Parsons, por The Big Bang Theory
Melhor atriz de série de comédia: Melissa McCarthy, por Mike & Molly
Melhor ator coadjuvante de série dramática: Peter Dinklage, 
por Game of Thrones
Melhor atriz coadjuvante em série de drama: Margo Martindale, 
por Justified
Melhor ator coadjuvante em série de comédia: Ty Burrel, 
por Modern Family
Melhor atriz coadjuvante em série de comédia: Julie Bowen, 
por Modern Family

Jim Parsons (The Big Bang Theory)
Melhor roteiro de série dramática: Friday Night LightsMelhor direção de série dramática: Martin Scorsese, por Boardwalk Empire
Melhor direção de série de comédia: Michael Spiller, por Modern Family
Melhor roteiro de série de comédia: Steve Levitan e Jeffrey Richman, 
por Modern Family
Melhor minissérie ou filme para TV: Downtown Abbey
Melhor ator em minissérie, série ou filme de TV: Barry Pepper, 
por The Kennedys
Melhor atriz em minissérie ou filme para TV: Kate Winslet, 
por Mildred Pierce
Melhor ator coadjuvante em minissérie ou filme de TV: Guy Pearce, 
por Mildred Pierce
Melhor atriz coadjuvante em minissérie, série ou filme de TV: Maggie Smith, 
por Dowron Abbey
Melhor direção de minissérie, filme ou especial dramático: Brian Percival, 
por Downtown Abbey
Melhor roteiro de minissérie, filme ou especial dramático de TV: 
Downton Abbey

Kate Winslet (Mildred Pierce)
The Daily Show, com Jon StewartMelhor programa de variedades, musical ou comédia: 
Melhor roteiro para programa de variedades, musical ou comédia: 
The Daily Show, com Jon Stewart
Melhor direção de programa de variedades, musical ou comédia: Don Roy King, 
por Saturday Night Live
Melhor reality show ou programa de competição: The Amazing Race