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quinta-feira, 23 de junho de 2011

O Último Imperador

O Último Imperador (The Last Emperor) - 1987. Dirigido por Bernardo Bertolucci. Escrito por Mark Peploe / Bernardo Bertolucci, baseado no livro autobiográfico de Aisin-Gioro Pu Yi. Direção de Fotografia de Vittorio Storaro. Música de David Byrne, Ryûichi Sakamoto e Cong Su. Produzido por Jeremy Thomas. Columbia Pictures / UK|Itália|França|China.

O Último Imperador (1987) pode ser considerado, na minha opinião, a obra mais “acessível” de Bernardo Bertolucci e isso explica em parte o sucesso de público e crítica deste grandioso épico. Na trama o cineasta pincela alguns dos temas que também estavam presentes no roteiro de alguns de seus clássicos, como O Conformista e O Último Tango em Paris. A politização e o erotismo (desta vez mais velado) estão presentes na obra, que assim como nos dois outros filmes citados, parte da visão de indivíduos e dos microcosmos habitados por eles para retratar a realidade social na qual estão inseridos. Se a beleza estética já era estonteante em seus primeiros filmes, neste, que contou com grande apoio de uma grande produtora, não podia ser diferente. Bertolucci corria o risco de fazer um filme nos moldes do cinema mainstream e assim acabar perdendo qualidade no roteiro, mas felizmente isso não aconteceu, sob a batuta deste verdeiro gênio, tal tipo de risco se tornou quase nulo.

O Último Imperador conta a história de Aisin-Gioro Pu Yi, o último representante da dinastia Qing, coroado aos 3 anos de idade, em 1908 na China. Pu Yi conservou o título de imperador mesmo depois da proclamação da república no país, ele continuou reinando, mas só do lado de dentro da Cidade Proibida, uma grande fortaleza situada no centro de Pequim, que o servia de palácio. A Cidade Proibida funcionava como uma espécie de prisão de luxo, onde o menino imperador era cuidado e mimado, porém sem o mínimo de liberdade. Em 1917 houve uma tentativa de reedificar a monarquia e então Pu Yi foi novamente colocado no trono, até que em 1924 as tropas do partido Kuomintang ocuparam Pequim e tomaram o controle da Cidade Proibida, expulsando o imperador seus servos.


Desde que foi expulso de seu palácio, Pu Yi contou com o apoio da embaixada japonesa e do imperador daquele país. Em 1931, o Japão invadiu a região da Manchúria, ao norte da China e Pu Yi foi novamente nomeado imperador em 1934. Durante 11 anos ele reinou mas não governou, ficando conhecido como o imperador-fantoche dos japoneses. Com o fim da segunda guerra mundial, a manchúria foi reanexada ao território chinês e Pu Yi foi capturado e deportado pelos soviéticos que invadiram o país. Em 1949 ele foi entregue aos comunistas, que haviam tomado o poder na China naquele ano, foi então acusado de crime de guerra e internado em um campo de reeducação política e ideológica, onde permaneceu 10 anos, até que o regime o considerasse “convertido” e apto a voltar a viver em liberdade. Pu Yi foi libertado em 1959 e se tornou jardineiro, passando a levar uma vida comum em Pequim. Já no fim de sua vida, ele foi encorajado a escrever uma autobiografia, que inspiraria o filme de Bertolucci.


O cineasta italiano foi o primeiro a conseguir autorização da República Popular da China para filmar no interior da Cidade Proibida, o que comprova o prestígio que ele tinha entre os comunistas. O Último Imperador se tornaria um ícone do contexto histórico no qual foi produzido, o do fim da guerra fria e da revisão da bipolaridade do mundo político. A simpatia de Bertolucci pelo comunismo é claramente perceptível em suas obras, seus melhores filmes podem ser vistos como odes á ideologia libertária e ao engajamento político do homem comum. No entanto neste filme fica claro que sua posição não vem de uma postura cega, o cineasta direciona o foco da trama para a falta de autonomia e manipulação do imperador, que ora é mostrado como vítima, ora como produto dos sistemas políticos que se sucedem no poder na China. Eu entendo tal angulação como uma forma de defesa da liberdade antes de qualquer outra coisa, liberdade esta que deveria se sobrepor a qualquer instituição política ou ideológica. Pu Yi consegue sobreviver a cada alternância de poder, mas sem experimentar uma real liberdade.


O Último Imperador não é na minha opinião o melhor, nem o mais clássico dentre os trabalhos de Bertolucci, mas sem sombra de dúvidas é um ótimo filme que merece ser assistido. Cada um dos atores, mesmo as crianças, estão realmente convincentes em seus respectivos personagens, o que confere uma maior credibilidade à trama, que é tida como altamente fiel á história real que a inspirou. A parte técnica do filme realmente merece aplausos de pé, o belíssimo conjunto formado pela direção de arte, fotografia, edição e figurino conferem ao filme o status de obra de arte, o que não é nenhuma novidade em se tratatando de um filme de Bertolucci. Apesar de parecer um pouco demorado demais, o longa vale por cada um de seus 160 minutos (existe um versão estendida com 218 minutos), ele vai muito além do mero entretenimento. É um filme para ser refletido e apreciado em cada um de seus detalhes. Altamente indicado!


O Último Imperador ganhou cada um dos Oscars para os quais foi indicado, nove no total. O longa recebeu a estatueta de: Melhor Filme, Diretor, Fotografia, Direção de Arte, Figurino, Edição, Trilha Sonora, Edição de Som e Roteiro Adaptado.


Assistam ao trailer de O Último Imperador no You Tube, clique AQUI !

Confiram também, aqui no SUBLIME IRREALIDADE, as resenhas de
dois clássicos absolutos de Bernardo Bertolucci!

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quarta-feira, 22 de junho de 2011

Dudu Lima e Emerson Nogueira no ViJazz & Blues

.Bom show, mas com um gosto amargo de quero mais!.


O vacilo de não ter percebido um simples detalhe e quase que um evento, que tudo para ser ótimo, se torna uma grande decepção. No último domingo (17/06) acordei cedo e peguei o ônibus para Viçosa, naquela manhã a minha expectativa era das melhores possíveis, afinal eu tinha passado boa parte da semana anterior ansiando pelo show do Emerson Nogueira, que aconteceria naquela tarde. Durante a viagem fui lembrando de alguns dos clássicos do rock´n´roll que estão no repertório daquele talentoso cantor e violonista... Eu nunca fui de render aplausos para covers, mas a playlist do cara é simplesmente formidável, ele fez fama tocando Beatles, Creedence, Pink Floyd, Police, Eagles, Surpertram e outros clássicos absolutos dos anos 60, 70 e 80.

O detalhe que me havia passado despercebido era quase banal e veio à tona quando, na casa de uma amiga em Viçosa, fiquei sabendo que o tal show nem estava na agenda do Nogueira. “Como assim?!?” Era verdade, aquilo que tinha me levado à Viçosa naquele domingo não era um show, mas apenas uma participação do cantor na apresentação do músico Dudu Lima, um virtuose do contrabaixo, que já tocou com Milton Nascimento, Stanley Jordan e outras feras. Antes do show começar a minha expectativa, que era até então das melhores, foi mudando e se convertendo em uma incômoda dúvida: “Como será esta tal participação?


Dudu Lima subiu no palco depois de mais de duas horas de atraso, mas para o delírio de quem gosta de boa música, ele mostrou que a espera tinha valido a pena. Com influências que vão da música mineira ao jazz, ele provou que o contra-baixo não é apenas um mero instrumento “tapa-buracos”. Depois de umas quatro cancões interpretadas apenas com baixo, bateria e teclado, ele convidou o Emerson Nogueira para lhe acompanhar. O cantor, meio sem jeito pela falta do já tradicional banquinho, contou que estava gripado, o que se notava pela sua voz rouca. No entanto a rouquidão desapareceu como em um passe de mágica no momento em que ele começou a cantar a primeira música.  

Quem conhece o Recanto das Cigarras, que fica dentro campus da UFV, entendo porque tão poucos eventos são realizados no local hoje em dia. O espaço cercado pelo verde da natureza já foi muitas vezes alvo de vandalismo. Durante festas e shows que aconteciam lá, as dependências da universidade eram depredadas e o espaço aos poucos destruído. Hoje o Recanto se encontra revitalizado e muito bem cuidado, trazendo uma confortante sensação de paz e calmaria, principalmente para quem, como eu naquela tarde, o visitava pela primeira vez. O contato com a natureza potencializou o efeito do show, foi indescritível a sensação de escutar uma versão de Pink Floyd, por exemplo, em um lugar tão agradável.


O evento só não foi perfeito, pois enquanto eu imaginava que o show estava apenas começando, o Emerson anunciava que aquela já seria a última música. Sua participação se resumiu a cinco ou seis canções, totalizando umas dez, se contarmos com as que Dudu Lima tocara antes. Ficou um amargo gostinho de quero mais e a vontade de que o anúncio feito pelo Nogueira, de que Viçosa receberá um show completo em breve, seja de fato verdade, se for, torço para que seja novamente no Recanto das Cigarras

P.S. O Show de Dudu Lima e Emerson Nogueira fez parte da edição 2011 do festival ViJazz & Blues, que aconteceu no dia 16 de junho em Ponte Nova/MG e do dia 17 ao dia 19 em Viçosa/MG.

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sábado, 18 de junho de 2011

Alta Fidelidade

Alta Fidelidade (High Fidelity) - 2000. Dirigido por Stephen Frears. Escrito por D.V. DeVincentis, Steve Pink, John Cusack e Scott Rosenberg, baseado na obra de Nick Hornby. Direção de Fotografia de Seamus McGarvey. Música de Howard Shore. Produzido por Tim Bevan, D.V. De Vincentis e Rudd Simmons. Touchstone Pictures / EUA.
 
A comédia romântica Alta Fidelidade (2000) parece ter se tornado quase um cult dentre os filmes do gênero, além de contar todos os ingredientes característicos, que incluem protagonistas cativantes e coadjuvantes engraçadinhos, esta produção se destaca pelos outros elementos que a compõem. Antes de qualquer outra coisa, o filme é um verdadeiro elogio ao mundo da música. Só quem sabe o que é ter acontecimentos e fases da vida marcados por determinada música, poderá compreender e se deliciar com este longa. A música Pop é quase uma personagem na trama que, como na maioria das comédias românticas, gira em torno das desventuras e desilusões amorosas do personagem principal. O diferencial neste caso acabam sendo o roteiro, muito bem escrito, e as atuações, principalmente a de John Cusack.

O que veio primeiro? A música ou a miséria? As pessoas se preocupam com crianças brincando com armas, vendo vídeos violentos, como se a cultura da violência fosse consumi-las. Mas ninguém se preocupa se escutam milhares de canções sobre sofrimentos, rejeição, dor, miséria e perda. Eu ouvia música pop porque era infeliz ? Ou era infeliz porque ouvia música pop ?” Rob Gordon, personagem de Cusack, abre o filme com esta fala, nesta sequência ele conversa diretamente com a câmera e em um tom quase confessional ele nos convida a mergulhar em cinco de seus casos amorosos, aqueles que mais o marcaram e lhe imprimiram o estigma da rejeição.


Rob foi abandonado pela atual namorada, Laura (Iben Hjejle), que parecia já estar cansada da inércia de sua vida, machucado pelo término “repentino” ele decide revisitar casos antigos em busca de explicações para as rejeições e as traições das quais foi vítima. Conhecendo suas antigas namoradas, conhecemos um pouco mais de Rob e ele, como personagem, vai se tornando ainda mais cativante até o final do filme. Ele, que é uma enciclopédia ambulante de música pop, é o dono de uma loja de discos de vinil, que parece estar a beira da falência. No elenco secundário estão, além de suas ex-namoradas, os dois funcionários voluntários da loja, o fanático Barry (Jack Black, outra grande atuação no filme) e o esquisito Dick (Todd Louiso).


Outro detalhe legal do filme, são os Top Fives que Rob, Barry e Dick vivem elaborando, 5 músicas para tocar no dia de sua morte, as 5 melhores do Lado B, 5 melhores profissões e por ai vai... Em alguns momentos dá até vontade de entrar no filme e nas discussões dos personagens sobre o fantástico universo da música. O roteiro também nos presenteia com algumas situações hilárias, como na sequência em Barry se recusa a vender um determinado disco para um cliente, ou em outra, na qual o atual namorado de Laura vai até a loja para tirar satisfações com Rob.


Na trilha sonora estão grandes nomes do Rock e do Pop, mainstrean e independente, dentre eles The Velvet Underground, Belle and Sebastian, Bob Dylan, Queen, Stevie Wonder e até Stiff Little Fingers. Ao assistir ao filme preste atenção também nas participações de Catherine Zeta-Jones, como Charlie, uma das Ex de Rob, de Tim Robbins, como o vizinho do andar de cima de Rob, o estranho Ian 'Ray' Raymond, e de Bruce Springsteen, como ele mesmo. Curiosidade: se prestar um pouquinho de atenção você perceberá o disco Tropicália (Panis et Circencis), que aparece numa das prateleiras da loja no início do filme. Alta Fidelidade não é um filme que entraria facilmente em um de meus Top Fives, mas com certeza é um ótima dica, principalmente pra quem curte uma comédia romântica, com um ótimo roteiro e tiradas inteligentes.

Alta Fidelidade foi indicado ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Ator em Comédia/Musical (John Cusack).


Assista ao trailer de Alta Fidelidade no You Tube, clique AQUI !

Confiram também, aqui no SUBLIME IRREALIDADE, a resenha do filme 
também dirigido por Stephen Frears!

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segunda-feira, 13 de junho de 2011

La Iguana Rock Fest

.Sinais de Vida no Underground.


Desde a última edição do Ubá Rock, que aconteceu 23 de outubro do ano passado, que eu não ia em um festival do tipo, não posso esconder o fato de que eu tenho estado bem distanciado da cena nos últimos tempos, mas a verdade é que os “swowzinhos” são bem mais raros hoje em dia. Tem se tornado mais comuns as apresentações individuais de bandas em barzinhos e outros tipos de evento, o que acredito que se deve às dificuldades de se organizar um evento desses aqui na cidade. Temos as leis que regulam a entrada de menores, que estão bem mais rigorozas, temos a difuldade de conseguir apoio, de encontrar lugares que abram as portas para eventos do tipo e tem a séria questão do ego das bandas, que já gerou muitos problemas no passado. Neste contexto, o sucesso do La Iguana Rock Fest pode ser considerado um verdadeiro feito para a cena, o festival foi muito bem organizado, o som esteve legal na maior parte do tempo, não houve demora excessiva entre as bandas e a galera colaborou.
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Quando cheguei na Babilônia, local onde o evento foi realizado, a primeira banda já estava tocando. Era o The Horríveis e aquela era a primeira vez que eu os via ao vivo. Matei a curiosidade que tinha desde que as banda começou a tocar e a receber grandes elogios nas redes sociais. A banda mostrou um repertório bem eclético, que foi do Rock Nacional Oitentista ao Punk passando pelo Hard Rock e pelo Rock´n´Roll. O The Horríveis voltou àquelas que são as influências seminais e referências básicas de quem começa a escutar um som de qualidade, isso em qualquer outra situação poderia ser visto como falta de personalidade artística, mas não é este o caso, a banda sabe o que está fazendo e tragetória dos integrantes na cena mais uma vez é foi um grande peso a favor.

The Horríveis

A segunda banda a subir no palco foi o Macwaine, outra banda de Ubá que eu ainda não tinha visto ao vivo. Desde a primeira música já deu para perceber que os caras não estavam de brincadeira, a sonzeira da banda remonta aos clássicos dos anos 60 e 70, com influencias de Rock,n´Roll, Rhythm and Blues e Hard Rock. O repertório foi composto de músicas próprias e covers, dentre eles Hendrix, Stones, Guns e Dire Straits. O destaque, além do ótimo instrumental, é a proposta da banda de enveredar por um caminho pouco explorado por bandas da cidade. A decisão de não ser apenas mais do mesmo, acredito eu, vai contar muito para o futuro da banda.

Macwayne

Na sequencia veio o Sexta-Feira 13 com seu Rock´n´Roll cafageste. A banda fez um bom show com músicas próprias que deverão estar em seu 1° CD, Baseado em Fatos Reais, e covers. Continuo acreditando que a banda é uma grande promessa para a cena local, mas senti um pouco a falta da postura de palco irreverente da banda, o que pra mim é uma de suas melhores qualidades. Acredito também que se o repertório tivesse sido escalado de uma forma um pouco diferente, o show e a reação da galera teria sido ainda melhor. Faltou um pouco de feeling na hora de definir a ordem das músicas executadas (que acredito que deva variar um pouco de acordo com o lugar onde a banda se apresenta), o que passou, para alguns, a ideia talvez errônia de que as músicas são todas iguais. Mas a ordem do repertório foi só um detalhe, a banda continua muito bem sucedida em sua proposta de fazer um som visceral e descompromissado com rótulos e outras frescuragens.

Sexta-Feira 13

Mal deu tempo de me refazer da agitação do Sexta-Feira 13 e o Fliperama, de Juiz de Fora, já estava no palco. Como o próprio nome da banda sugere, eles buscam referências sonoras nos ruidosos anos 90, ótimas referências por sinal. Ficou claro que a maior influência da banda é o Red Hot Chili Peppers, perceptível até pelo visual a la Antonie Kiedis do vocalista. Naquela que talvez tenha sido a melhor apresentação da noite, a banda fez a galera agitar com clássicos da melhor fase do Red Hot e outros covers de Rage Against the Machine, Peal Jam, Foo Fighters, Nirvana e Raimundos. Destaque para o ótimo instrumental e para o vocal, que não deixaram nada a desejar em nenhuma dos músicas do set list..

Fliperama

Depois do show do Fliperama eu já tinha a certeza de que a noite e o ingresso já tinham valido a pena, mas ainda tinha mais, o festival ainda estava na metade. A quinta banda a se apresentar foi o Hard Desire, também de Juiz de Fora. Não sei explicar o porquê, mas desde sempre as bandas de heave metal tradicional, geralmente funcionam pra mim como um “chill out” nos festivais. A banda mostrou um grande entrosamente e um instrumental preciso, mas a verdade é que eles só conseguiram me empolgar nos covers do Black Sabbath e do Dio. Acredito que o que me incomoda é a surperficialida da postura poser, sou daqueles que ainda acredita que o Heave Metal tem que ser pesado, cru e sem frescuras. Apesar de não ser o estilo que me agrada, a banda mostrou um repertório próprio com nível de qualidade musical, que tem visíveis influências da NWOBHM.

Hard Desire

A próxima banda foi o Metheora, de Santos Dumont, moderninhos eles tentaram buscar influências não nos clássicos, mas em bandas ditas “pesadas”, mas que têm forte apelo radiofônico. O estilo explorado é um misto de Evanescense e Metal Alternativo, o instrumental da banda não é ruim, mas o vocal deixou muito a desejar. Não senti em nenhuma das músicas empolgação ou entrega em nenhum dos integrantes. A performance quase teatral da vocalista não condiz com sua empostação vocálica, sobra caretas e expressão corporal diante uma cantarola pouco empolgada. A gota dágua foi um cover do Nirvana, mais deslocado impossível. Minha empolgação foi-se embora, levada pelo repertória da banda. Simplemente já não tinha mais forças para continuar a maratona e decidi voltar pra casa. Ainda me arrependo de não ter ficado para ver o Rawborne, cujo show no Ubá Rock, no ano passado, foi muio bom, e o Black Butterffly, banda que eu estava realmente muito curioso para assistir.

Metheora

Sinceramente espero que o evento tenha dado o restorno esperado pelos organizadores e que o sucesso desta edição sirva de incetivo para a realização de muitas outras. E quem sabe o Babilônia passe a ser a nova casa da galera underground? Mais uma vez, me vem a esperança que bons e novos tempos se aproximam para a nossa cena. Continuo apenas observando de longe, na certeza de que, por mais tortuoso que pareça, este é o caminho certo! Rock´n´Roll can never die!!!
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Uma Garota Dividida em Dois

Uma Garota Dividida em Dois (La Fille coupée en deux) - 2007. Dirigido por Claude Chabrol. Roteiro de Cécile Maistre e Claude Chabrol. Direção de Fotografia de Eduardo Serra. Música de Matthieu Chabrol. Produzido por Patrick Godeau. Alicéléo / França | Alemanha.


Claude Chabrol é um dos nomes seminais da Nouvelle Vague Francesa, ele foi um dos primeiros colaboradores da lendária revista Cahiers du Cinéma, periódico que publicou também artigos de François Truffaut, Jacques Rivette e Jean-Luc Godard. Chabrol tal como seus colegas se engajou na defesa do cinema autoral, que insurgia como contraponto ao cinema dito “de produtoras”. Um das características mais marcantes do cineasta foi o humor negro, que ele frequentemente usava como elemento de construção de suas sátiras da burguesia francesa. Ele desenvolveu um olhar perspicaz sobre os vícios, a hipocrisia e a baixeza do comportamento burgues, um olhar que criticava o conformismo sem perder o senso de humor.


Uma Garota Dividida em Dois (2007) foi o último filme de Claude Chabrol, que morreu em 12 de setembro de 2010. Neste longa ainda estão perceptíveis alguns dos temas que marcaram sua trajetória como cineasta: a satirização dos costumes e da pompa da burguesia e o questionamento de tabus e valores, que variam conforme o meio e a classe social. A trama foi inspirada na história real do arquiteto nova-iorquino Stanford White, morto em 1906, as situações e os personagens são alterados e a narrativa é transportada para Paris dos dias de hoje. A história gira em torno do triangulo amoroso, que tem em uma das pontas Gabrielle (Ludivine Sagnier), uma bela garota do tempo de um jornal de TV a cabo, em outra Paul Gaudens (Benoît Magimel), um jovem playboy, herdeiro de uma grande fortuna e na terceira Charles Saint-Denis (François Berléand) um renomado escritor de meia idade.



Gabrielle está dividida entre os dois e tudo que eles passam a representar em sua vida, que passa também por transformações intensas na área profissional. Paul e Charles no entanto não poderiam ser mais diferentes, um é a materialização do antagonismo do outro. Enquanto Paul representa a segurança de uma vida familiar estável dentro dos padrões sociais, Charles representa o oposto disso tudo, ele a conquista é pela inconstância e pela antítese de seu comportamento, que ela enxerga como indicativo de experiência de vida. O escritor está frequentemente cercado por mulheres lindas, dentre elas Capucine (Mathilda May), sua editora e assessora de comunicação e sua esposa, a quem ele chama de “santa”, pelo comportamento recessivo dela diante de suas constantes traições.


Gabrielle estava vivendo uma louca paixão por Charles, até ser colocada pra escanteio, ao se cansar do caso que estava vivendo com ela, ele, sem dar explicações, apenas troca a fechadura do apartamento de solteiro onde eles se encontravam no centro de Paris. Ela inconsolada com o término repentino da relação, se deixa seduzir por Paul, com quem parte em uma viagem para Portugal, lá ela acaba aceitando seu pedido de casamento, como uma forma de tentar silenciar aquilo que ainda sentia por Charles. Ao vermos a forma com que os três personagens se deixam dominar pelas suas paixões e as tentativas de Gabrielle, de se adaptar a um mundo com o qual não se identifica e a vida conjugal com alguém que não ama, percebemos que a história caminha para um final trágico, que vai sendo desenhado sutilmente, com uma imensa naturalidade, pelo roteiro.


Ao contrário do que alguns críticos afirmam, eu não creio que o filme seja uma afirmação das opiniões ou do estilo de vida de algum dos personagens, ele funciona mais uma observação à distância de um mundo de hipocrisia e aparências, do que como uma ferramenta moralizante ou desmoralizante. O filme não é nenhuma obra prima, nas atuações não tem nada de tão espetacular e alguns cortes abruptos que surgem nos momentos mais improváveis são um tanto estranhos. Mas ainda assim o filme vale a pena, principalmente por não ser dramalhão e por não descambar no romantismo pedante. Curioso o fato de eu tê-lo assistido justamente no dia dos namorados, pois tal como o ótimo Closer (2004), de Mike Nichols, este retrata os relacionamentos como eles são de verdade, na maioria das vezes, sem magia, sem romantismo e sem glória no final.


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domingo, 12 de junho de 2011

Matar ou Morrer

Matar ou Morrer (High Noon) - 1952. Dirigido por Fred Zinnemann. Roteiro de John W. Cunningham e Carl Foreman, baseado no conto “The Tin Star” de John W. Cunningam. Direção de Fotografia de Floyd Crosby. Música de Dimitri Tiomkim. Produzido por Carl Foreman e Stanley Kramer. Stanley Kramer / EUA.


Um faroeste sem perseguições à cavalo, sem matança de índios e sem nenhum tiro até a sequência final, esta pode muito bem ser a fórmula para desagradar os menos maleáveis fãs do gênero que consagrou diretores como Sergio Leone e John Ford e atores como John Wayne e Clint Eastwood. Mas ao assistir Matar ou Morrer (1952) eu tinha um trunfo a meu favor, eu não sou, como já deixei claro aqui no Sublime Irrealidade, um grande fã do gênero, por isso a ausência dos elementos acima não me decepcionaram nem um pouco, pelo contrário fez do filme ainda mais interessante. Matar ou Morrer é na minha opinião mais fácil de ser enquadrado no gênero suspense psicológico do que no western, mas como também não sou afoito à rotulações, não irei me ater a estas questões de classificação, às quais os críticos de cinema geralmente se apegam.

Matar ou Morrer é do tipo raro de filme cuja a proposta vai bem além das sequências projetadas na tela e sendo assim ele merece uma reflexão um pouquinho mais aprofundada. Ele foi produzido durante a época do marcatismo e da caça às bruxas (falei um pouco deste período na resenha que fiz de Sindicato de Ladrões) e qualquer um que o assistir com um olhar mais atento, poderá ver as metáforas que o roteiro cria daquela época, que deixou muita gente em Hollywood assombrada. O estado intensificava a perseguição aos comunistas no meio artístico, muitos atores, diretores e roteiristas foram presos e torturados, alguns destes foram assassinados em condições misteriosas. Alguns dos perseguidos se renderam às pressões e acabaram mudando de lado, passando de subversivos a delatores, como foi o caso do diretor Elia Kazan. De uma forma velada e incrivelmente poética, o longa consegue exprimir toda a apreensão e o medo daqueles que temiam ser entregues ou descobertos a qualquer momento pelos anti-comunistas. John Wayne, um verdadeiro reacionário de direita e um dos delatores durante a caça às bruxas, conceituou o filme em uma entrevista cedida à Playboy em 1971, como: “A coisa mais antiamericana que eu alguma vez vi em toda a minha vida


Matar ou Morrer trata da solidão e do abandono social, mesma realidade vivida pelos perseguidos pelo marcatismo, a trama gira em torno do delegado Will Kane (Gary Cooper), que conseguira capturar há cinco anos o perigoso bandido Frank Miller, desde então a pequena cidade de Hadleyville gozava de relativa paz. O sossego do lugarejo é quebrado quando Ben Miller, irmão de Frank, chega à estação ferroviária do lugarejo acompanhado de mais dois bandidos, eles trazem a notícia de que Frank fora absolvido pela corte do norte e que ele chegaria no trem do meio dia com um único intuito, a vingança. O delegado acabara de se casar com a quaker Amy Fowler (Grace Kelly) e planejava mudar de cidade, deixando um substituto em seu lugar. Ao receber a notícia de que Frank estava voltando, ele é aconselhado a deixar a cidade antes mesmo das comemorações do casamento, ele aceita fugir, mas acaba voltando devido à honra, que deseja preservar, e à sua preocupação com os moradores da cidade.


Will Kane tenta reunir um grupo de homens para defender a cidade dos bandidos, porém o medo do perigo iminente dispersa qualquer rompante de coragem que eles pudessem ter, o juiz que condenou Frank Miller é o primeiro a sair da cidade as outras autoridades também se recusam a ajudar o delegado e até mesmo seus amigos mais próximos o abandonam na hora mais difícil. Amy não aquenta ver o marido se colocando em risco e por não concordar com nenhuma manifestação de violência, não importando de que lado ela venha, ela decide sair da cidade no mesmo trem que trará o bandido. Helen Ramirez (Katy Jurado) também planeja ir embora neste mesmo trem, ela é uma das personagens mais misteriosas na trama, conforme percebe-se em alguns diálogos, ela já foi amante de Kane e amiga de Miller.


O curioso é que Kane parece não conseguir aceitar o fato de que terá que enfrentar os bandidos sozinho, ele bate à porta da casa de amigos, passa pelo saloon e tenta encontrar ajuda até na igreja. Num dos diálogos mais tensos, o delegado que o antecedera no posto, com toda a experiência que a idade e a vivência lhe conferiram, lhe explica: “Você se arrisca para pegar bandidos e depois um júri os liberta, para eles voltarem e te matarem, se você for justo, sua vida torna-se miserável. E você acaba morrendo abandonado em uma rua qualquer. Para que isso? Para nada, por uma estrelinha... É assim mesmo, tudo acontece muito rápido. As pessoas falam sobre justiça e ordem mas não fazem nada a respeito, talvez porque no fundo simplesmente não se importam...


A cada sequência vamos compreendendo, junto com Kane, que cada habitante da cidade só está realmente preocupado com o bem estar próprio. O fato de acreditarem que Miller quer se vingar apenas do delegado, justifica a recessividade de cada um daqueles que o abandonaram, eles fingem se esquecer de que Kane se colocou nesta situação, tão somente para defender a cidade e seus habitantes, que viviam há muito sobre o julgo opressor do bandido. A hipocrisia daquela gente fica evidente em uma sequência que não está no filme por acaso: os homens de bem estão congregados na igreja local e cantam com rompante: “Deus é bom, Deus é pai, é seu filho Jesus Cristo que nos une por amor... Deus nos fez comunidade para vivermos como irmãos, braços dados todos juntos caminhando sem parar...”.


São 10:40 da manhã quando Kane, saindo da cerimônia de casamento, recebe a notícia sobre a volta do facínora, faltam então apenas 1:20 para a chegada do trem do meio dia, o filme transcorre quase que em tempo real e o passar do tempo é um dos elementos mais importantes do roteiro. A cada passagem, relógios surgem para anunciar que a hora fatídica se aproxima, a tensão que se cria progressivamente é embalado pela belíssima canção High Noon (Do Not Forsake Me, Oh My Darlin’). Gary Cooper realmente fez por merecer o Oscar que ganhou pela sua atuação, ele está simplesmente perfeito na pele de Will Kane, sua expressão facial e corporal compõem uma primorosa personificação da ansiedade, do medo e do abandono. Grace Kelle está um tanto apagada na trama, mas não faz feio nas cenas e que aparece, no entanto o segundo maior destaque é Katy Jurado, a atriz mexicana está muito bem na pele da enigmática Helen. 

É uma verdadeira pena que o desfecho da história não esteja tão à altura de seu desenrolar, mas isso não tira nem um pouco o mérito do longa. Matar ou Morrer é um clássico que precisa ser visto por qualquer um que se diga amante da sétima arte. Ultra recomendado!


Matar ou Morrer ganhou os Oscars de Melhor Ator (Gary Cooper), Melhor Edição, Trilha Sonora e Canção ( High Noon), tendo sido indicado também nas categorias de Melhor Filme, Diretor e Roteiro.

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terça-feira, 7 de junho de 2011

O Conformista

O Conformista (Il Conformista) - 1970. Dirigido por Bernardo Bertolucci. Roteiro de Bernardo Bertolucci, baseado no livro de Alberto Moravia. Direção de Fotografia de Vittorio Storato. Música de Georges Delerue. Produzido por Giovanni Bertolucci e Maurizio Lodi-Fe. Maran-Marianne-Mars / Itália-França-Alemanha Ocidental. 


Mesmo 50 anos depois, aquela que talvez tenha sido a década mais louca do século XX, os anos 60, ainda despertam a curiosidade, a admiração e a nostalgia de estudiosos, artistas e pessoas comuns, que, assim como eu, buscam naquele período referências no que de melhor se produziu na música, no cinema e na cultura em geral nas últimas décadas. Quando digo que aqueles anos foram loucos, não me refiro às viagens lisérgicas ou ao misticismo que levaram muitos à perda da razão, me refiro sim às pequenas e às grandes revoluções que aconteciam mundo afora, que estavam presentes na contracultura, nos movimentos pacifistas ou contra ditatoriais, na resistência libertária e principalmente nas mentes em ebulição de um parcela da juventude, que se engajava nos movimentos guiados pelos ideias de transformar o mundo.

Os anos 60 marcaram o cinema como a fase da desconstrução do antigo e o advento de novos modelos e formas. Desde que o cinematógrafo foi inventado, no final do século XIX, muitos ícones e mitos já haviam se firmado e já se tinha definida uma boa parte dos padrões que o cinema mainstream seguiria até os dias de hoje. O que a geração sessentista fez foi subverter boa parte das normas e dos pressupostos vigentes até então, nasciam assim os dois maiores movimentos da sétima arte daquele período, a Nouvelle Vague francesa e o Cinema Novo. Nesta época Bernardo Bertolucci ainda era um jovem universitário e um poeta, já respeitado no circuito artístico de Roma, toda a vivência e aprendizado adquiridos naquele meio de efervescência cultural o transformariam em um dos nomes mais importantes do cinema mundial. Dispensável dizer que aqueles anos de antítese seriam uma grande influência e um tema recorrente na obra do futuro cineasta.


Em O Conformista, seu primeiro longa de expressão internacional, Bertulucci volta aos anos 30 e à Itália fascista de Mussolini para traçar uma das mais belas metáforas sobre a passividade das massas, que também podia ser observada nos anos 60 e 70. Enquanto uma minoria lutava por transformações e pelo direito de todos, a grande maioria queria apenas a estabilidade e o sossego de uma vida em conformidade com o sistema vigente. Esta população recessiva é personificada no filme pelo jovem Marcello Clerici (Jean-Louis Trintignant), um professor de filosofia que, mesmo num contexto opressivo, busca apenas a normalidade de um vida familiar convencional. Marcello enxerga o aparato fascista como uma eficiente ferramenta de controle social, que pode lhe garantir a concretização de seu ideal de felicidade. Mesmo não sendo politicamente engajado, ele passa a trabalhar para o governo como agente da polícia secreta e sua  vida muda completamente a partir de então.


Depois de se casar com uma burguesa, Giulia (Stefania Sandrelli), cuja admiração pelo fascismo se confunde com a ingenuidade, ele viaja com ela para Paris. A lua de mel é apenas uma desculpa, pois o verdadeiro motivo da viagem é uma missão que Marcello tem que cumprir com urgência. Ele tem que eliminar um dos mais importantes líderes anti-fascistas que está exilado na França. O regime acredita que ele é a pessoa certa para a missão, pois o intelectual a ser assassinado fora seu professor na faculdade de filosofia. Ao se encontrar com Quadri (Enzo Tarascio), o ex-professor, e com sua esposa Anna (Dominique Sanda - belíssima) em Paris, Marcello começa a questionar o porquê de sua missão. 


Em meio aos seus questionamentos éticos e ideológicos, percebemos que a gênese de sua postura conformista talvez esteja em um trauma reprimido de sua infância, sutilmente descrito através de flashbacks. Numa das sequências mais carregadas de simbolismos, Marcello se encontra no meio de um salão, envolto por uma multidão que dança eufórica, ele é cercado pelos dançarinos, sem ter como escapar, ele apenas olha à sua volta com uma expressão que esboça ao mesmo tempo temor, fragilidade e indecisão. 


O Conformista é do tipo de filme que realmente merece a classificação de “filme de arte”, a fotografia, dirigida por Vittorio Storaro, é estonteante de tão bela, cada fotograma parece um quadro que se pinta a cada movimento da câmera. O filme é de uma beleza estética quase inigualável, em alguns momentos parece que a qualidade visual vai se sobrepor à qualidade da trama, mas então percebe-se que uma está conduzindo e completando a outra. Bertolucci conseguiu captar toda a áurea mágica que pairava sobre sua geração. O Conformista é político, poético e contestador, como poucos filme foram, sua mensagem continua sendo ainda válida, mesmo em tempos de crise das ideologias e das utopias. 

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Desde o lançamento do filme em 1970, o mundo realmente mudou, algumas coisas para melhor e muitas outras para pior. O espetáculo do cinema se divorciou da contemplação e a substituiu pela sensação, já não se acredita mais em revoluções como antigamente e ser poético se tornou inadequado em um mundo que cultua a velocidade. O que não mudou é o fato de que continuamos a ser conformistas... Este é um filme, para ver, ouvir, contemplar e refletir! Um clássico absoluto!

O Conformista foi indicado ao Oscar de Melhor Roteiro. No Festival de Berlin, ganhou o Prêmio Interfilme e o Prêmio Especial dos Jornalistas, tendo sido indicado também ao Urso de Ouro.


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Confiram também aqui no Sublime Irrealidade, a resenha crítica de 
 outro clássico de Bertolucci !

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domingo, 5 de junho de 2011

O Lutador

O Lutador (The Wrestler) - 2008. Dirigido por Darren Aronofsky. Roteiro de Robert D. Siegel. Direção de Fotografia de Maryse Alberti. Música de Clint Mansell. Produzido por Darren Aronofsky e Scott Franklin. Fox Searchlight Pictures - Paris Filmes / EUA. 


Tal como em outros filmes de Darrem Aronofsky, em o Lutador (2008) podemos aprender uma dura lição sobre a existência, mesmo estando longe de ser moralizante, o filme nos serve de alerta sobre os riscos de uma vida desregrada. É como se a história tivesse berrando para nós espectadores: “Tá vendo é isso que acontece quando não reconhecemos ou não aceitamos nossos próprios limites”. Se em Cisne Negro (2010) Aronofsky invade os bastidores de uma das expressões artísticas mais belas, o balé, neste, o sub-mundo a ser observado é o da luta livre, uma das expressões “artísticas” mais baixas e menos glamourosas. Entre estes dois filmes percebemos alguns temas que são recorrentes nas obras do diretor, dentre eles a dicotomia que define os objetivos que movem os seus personagens: são de um lado jovens que buscam a realização pessoal, e de outro, personagens mais maduros que lutam contra o ostracismo, ambos dispostos a pagar qualquer preço por aquilo que buscam. Esta mesma dicotomia também está presente em outro longa do cineasta, no ótimo Réquiem para um Sonho (2000).


Randy "The Ram" Robinson (Mickey Rourke), o personagem principal de O Lutador, fora um campeão de luta livre em meados dos anos 80, mas mais de 20 anos se passaram desde então, o tempo levou consigo a fama, o dinheiro e tudo que ele conquistou em sua melhor fase. Agora ele está velho e pobre, mas insiste em continuar lutando, pois somente nos ringues ele consegue encontrar um significado para a própria vida. Desde o início, o roteiro deixa claro que as lutas são armadas, já se sabe antes do combate quem vai ser o vencedor, no entanto isto não torna as apresentações menos violentas. Os lutadores se machucam e chegam a se mutilar para tornar o espetáculo mais verdadeiro e convincente (qualquer semelhança com Cisne Negro não é mera coincidência). The Ram vai muito além de seus limites, não mais para estar no topo, mas para simplesmente continuar sobrevivendo naquele universo.


Por incrível que pareça, os dramas vividos pelo lutador nos ringues são bem menos atormentadores do que aqueles que destroem sua vida pessoal e a metáfora que se constrói entre as duas realidades diz respeito mais à farsa, das lutas e de seus relacionamentos, do que às batalhas travadas. À medida que a trama de desenrola, percebemos que ele não é de todo um homem ruim ou egoísta, ele é respeitado e admirado pelos lutadores mais jovens e retribui este apreço incentivando-os. The Ram, tal como a Nina de Cisne Negro, não é um tipo de personagem maniqueísta, ele é apenas um homem que fez escolhas e tomou atitudes erradas e infelizmente terá que pagar muito caro por isso. Como a luta livre não garante mais seu sustento, Randy trabalha duro no depósito de um grande supermercado durante a semana e para esparecer ele frequenta uma boate de streptease à noite. Os sinais de que o corpo de Randy não aguenta mais a rotina, que ele lhe impõe, ficam claro quando ele sofre um infarto após uma violente luta. Ciente de seu estado de saúde, ele decide abandonar os ringues, desistindo de uma grande luta que já estava marcada, que seria contra o seu maior rival, o Aiatolá.

 

Randy tenta buscar sentido, que substitua o que as lutas lhe davam, em um relacionamento com a striper Cassidy (Marisa Tomei) e numa reaproximação com a filha Stephanie (Evan Rachel Wood), as duas tentativas são frustradas e ele não vê outra alternativa senão voltar para os ringues. Ao contrário de outros filmes sobre lutadores, cujo o foco é a superação que os personagens principais buscam, em O Lutador já não existe um ideal de superação a ser alcançado, o que sobra é apenas a busca por um sentido em um mundo que se desmorona. E se este sentido motivador não é encontrado, então não sobra mais nada. Em um diálogo, The Ram diz que a música boa era a dos anos 80 e que o culpado de os anos 90 terem sido um merda era o Kurt Cobain (vocalista do Nirvana). Curiosamente, uma frase da carta de despedida de Kurt, que suicidou em 1994, descreve bem o desfecho da trajetória do lutador: “é melhor arder, do que apagar aos poucos...


O Lutador é um filme pesado, brutal, mas também de uma humanidade pungente, as sequências mais simples do filme, são também as mais tocantes. Ao assisti-lo, preste atenção na cena que mostra o primeiro dia de trabalho de Randy no balcão de frios do supermercado e em um diálogos onde surge uma referência ao filme Paixão de Cristo (2004), pois é em momentos como estes que se percebe o quanto o filme é denso e capaz de nos tocar com a realidade que nos é apresentada. Mickey Rourke está perfeito na pele do lutador, a precisão de sua atuação é de causar arrepios. Curiosamente, a trajetória do personagem se confunde com a do ator e o papel parece ter sido feito sobre medida, Rourke viveu na pele a decadência e o ostracismo, que atormenta Randy Robinson na trama. Marisa Tomei também está fantástica, ela, já quarentona, transborda beleza e sensualidade e Evan Rachel Wood faz bonito em cada cena que aparece, o que pra mim não é nenhuma surpresa. Vale também destacar aqui a ótima trilha sonora, composta por clássicos do Hard e do Heavy Rock oitentista (incluindo a arrasa quarteirão Balls to the Wall do Accept e uma canção do Bruce Springsteen, feita especialmente para o filme). O Lutador é uma obra prima de Aronofsky e uma ótimo exemplo daquilo de melhor que o cinema americano tem produzido nos últimos anos. Um dos melhores filmes da década, do tipo que realemente marca. Recomendo!


O Lutador ganhou o Leão de Ouro, prêmio máximo do Fstival de Veneza. Ganhou o Globo de Ouro  de Melhor Ator em Filme Dramático (Mickey Rourke) e de Melhor Canção Original (The Wrestler, de Bruce Springsteen), tendo sido indicado ao prêmio também na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante (Marisa Tomei). O filme também recebeu duas indicações ao Oscar, nas categorias de Melhor Ator (Mickey Rourke), Melhor Atriz Coadjuvante (Marisa Tomei).


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Confiram também aqui no Sublime Irrealidade, a resenha crítica de Cisne Negro !

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Tudo o que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo Mas Tinha Medo de Perguntar

Tudo o que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo Mas Tinha Medo de Perguntar (Every Thing You Always Wanted to Know About Sex * But Were Afraid to Ask) - 1972. Dirigido e escrito por Woody Allen, inspirado pelo livro homônimo de David Reuben. Direção de Fotografia de David M. Walsh. Música de Mundell Lowe. Produzido por Charles H. Joffe. MGM Home Entertainment / EUA.


Tudo o que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo Mas Tinha Medo de Perguntar (1972) faz parte da primeira fase de Woody, marcada por um senso de humor primitivo e ao mesmo tempo inteligente e sofisticado. O estilo de fazer comédia desta primeira fase de Woody lembra bastante o estilo do grupo inglês Monty Python, que teve grande influências em humorísticos brasileiros como Casseta e Planeta e TV Pirata, este estilo é construído sobre situações absurdas e tramas anárquicas, que disparam farpas na direção do conservadorismo da sociedade e de suas instituições. Confesso que os filmes desta fase chegam a me parecer menores, quando os comparo com outras produções mais sérias do realizador. No entanto, sei que seria de fato um pecado quase imperdoável comparar Tudo o que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo com clássicos como Interiores (1978), Manhattan (1978) e Crimes e Pecados (1989).

Tudo o que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo é baseado no livro homônimo de David Reuben, que trazia alguns esclarecimentos, um tanto polêmicos para a época, sobre a sexualidade. O que Woody fez ao “adaptar” a obra, foi montar situações que ilustrassem alguns dos capítulos do livro, resultando em 7 sketches, independentes entre si, que abordam de forma ousada temas que vão desde a frigidez à ejaculação e a sodomia. Na primeira sketche, Os afrodisíacos funcionam?, Woody Allen é um um bobo da corte que nutre um ardente desejo pela rainha, aconselhado pelo fantasma do pai, ele a dá uma poção do amor preparada por um feiticeiro. O afrodisíaco funciona, mas seus planos podem ser frustrados por um cinto de castidade que ela usa.


Em O que é sodomia?, um médico renomado é procurado por um paciente armeno, que relata seu grande problema, ele é pastor e se apaixonou por uma de suas ovelhas, o médico acha a situação absurda e considera seu paciente doentio e repulsivo, mas sua opinião muda completamente quando ele conhecer a ovelha. Em Por que algumas mulheres tem problemas de orgasmo? (uma verdadeira homenagem de Woody ao cinema italiano), um homem não consegue provocar o prazer em sua esposa, ele acredita que ela é frigida até descobrir seu fetiche por transas em lugares movimentados. Os travestis são homossexuais?, a quarta sketche, conta o drama de um homem casado que adora vestir roupas femininas em segredo, ele se mete em uma situação bem embaraçosa ao ser descoberto pela família e pela sociedade.


Em O que são perversões sexuais?, um programa de televisão explora as taras e fantasias sexuais dos participantes. Esta sequência é toda fotografada em preto e branco, simulando a imagem de televisores antigos. A próxima parte, Os experimentos e as pesquisas sobre sexo feitas pelos cientistas médicos são válidas?, faz referência à história de Frankenstein e lembra a trama de The Rocky Horror Picture Show (1975), nesta sketche dois jovens, um pesquisador e uma repórter vão para um castelo de um cientista louco que estuda a sexualidade, lá eles são surpreendidos pelas teorias improváveis do cientistas e pelos seus experimentos, dentre eles um peito gigante, que os ataca e começa a destruir a cidade.


Na última parte, O que acontece durante a ejaculação?, nos deparamos com a mais bizarra alegoria do ato sexual: o corpo masculino é mostrado como um máquina controlada pelas diversas partes de sua anatomia (numa paródia que lembra filmes de viagens espaciais), que batalham pelo objetivo de chegar ao orgasmo. A luta para alcançar um bom grau de ereção e os espermatozoides, que questionam o que pode ter do outro lado, são hilários. Esta última é sem dúvidas a melhor dentre as 7 partes do filme. O filme se encerra com a mesma cena inicial, que mostra uma ninhada enorme coelhos, deixando bem claro que o comportamento sexual é tão instintivo nos homens, quanto nos animais e que dificilmente pode ser explicado e compreendido como uma ciência exata. 


Mesmo não sendo um dos melhores filmes de Woody Allen, Tudo o que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo merece ser assistido. A ousadia e o absurdo do filme pode nos surpreender e arrancar boas risadas. Definitivamente não é um filme família e pode não agradar a todos. As referências presentes no roteiro, que vão de Shakespeare ao clássico E o Vento Levou (1939), podem não ser compreendidas facilmente e outros, num rompante de moralismo, podem achar tudo pervertido demais. No entanto a avaliação que faço é a de que se trata de um bom filme, regular em se tratando de Woody Allen, mas ainda assim uma grande comédia, com direito à trilha sonora jazzística e questionamentos morais e filosóficos. 


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Confiram também, aqui no Sublime Irrealidade, outras resenhas de filmes de