O Espião que Sabia Demais (Tinker Tailor Soldier Spy) - 2011. Dirigido por Tomas Alfredson. Escrito por Bridget O'Connor e Peter Straughan, baseado na obra de John le Carré. Direção de Fotografia de Hoyte Van Hoytema. Música Original de Alberto Iglesias. Produzido por Tim Bevan, Eric Fellner e Robyn Slovo. Studio Canal / UK | França | Alemanha.
Há alguns dias atrás, o amigo Julio Pereira, crítico do blog Lumi7, usou o filme O Espião que Sabia Demais (2011) como ilustração em um de seus posts em, um grupo sobre cinema no facebook, sua intenção não era analisar o longa, mas dar início a um debate sobre aquilo que eu em seguida chamei de “processo de idiotização do cinema”. É curioso, mas conforme temos observado existe uma intolerância por parte do público, em relação às obras que não conseguem compreender, o resultado disso está perceptível nas cabines e salas de cinema vazias durante a exibição de alguns títulos e nos fóruns sobre filmes de arte ou que tenham uma trama um pouco mais complexa. Nas redes sociais, O Espião que Sabia Demais foi vítima deste fenômeno, os que se perderam durante o desenrolar de sua trama, que nem é tão complexa assim, fizeram questão de execrar o filme e todos aqueles que não tiveram nenhum problema em compreendê-lo... Reconheço que por diversas vezes eu já me perdi durante a exibição de algumas obras, no entanto eu não posso atribuir a culpa disso à produção, ao seu roteiro ou à sua montagem. Se eu me perdi (quando outros não se perderam), a culpa na maioria das vezes é tão somente minha e isso de forma alguma quer dizer que o filme seja ruim ou que ele tenha sido mal feito.
A verdade é que parte do público parece ter preguiça de pensar durante um filme, por isso vêm as produções tão somente como entretenimento. Quando por desaviso estes se deparam com uma obra não tão raza, que instigue a reflexão ou o raciocínio lógico, logo passam a odiá-la, como se ela os tivesse agredido por exigir algo que não estão dispostos a dar. Este mesmo fenômeno também acontece na música, na literatura e em tantas outras expressões artísticas. O público está alheio à contemplação artística e à reflexão e a indústria cultural está a priori nivelada a ele. Este público é o mais favorável aos interesses das produtoras, por estar propenso a um modelo de consumo padronizado e contínuo, que valoriza sempre o novo em detrimento do clássico e o superficial em oposição ao profundo...
Pois é, me empolguei e acabei me distanciando do foco original do texto que era o de falar sobre O Espião que Sabia Demais. Mas, ainda que tal introdução tenha sido pertinente, voltemos ao filme (foco José Bruno, seus leitores lhe cobram objetividade!)... O filme, dirigido por Tomas Alfredson, é de um tipo cada vez mais raro, ele não pode ser considerado uma produção conceitual ou autoral, ele não toca em tabus e tão pouco evoca grandes questionamentos filosóficos, mas ele tem justamente aquilo que o cinema mainstrean aparenta ter perdido nos últimos anos, ele tem um roteiro bem escrito, que não subestima em nenhum instante a inteligência de nós espectadores... É como se ao assisti-lo estivéssemos sendo convidados a entrar na história e no mesmo tipo de dilema dramático no qual os personagens estão envoltos. Honrando a alcunha de filme de espionagem, ele nos transforma em uma espécie de agentes observadores, que contemplam de longe a sequência de acontecimento e buscam juntar as peças para que tudo aquilo faça algum sentido.
George Smiley (Gary Oldman) é o personagem central da história que fora adaptada de um best-seller de John le Carré, ele faz parte do Circus, a divisão de elite do serviço secreto inglês. Já na primeira sequência somos apresentados ao mote da trama: Existe um agente duplo dentre os membros da inteligência britânica. Um espião é enviado à Budapeste para receber de um militar, que estava prestes a desertar, uma informação sigilosa que esclareceria quem de fato era o infiltrado, porém esta missão acaba de forma trágica. Control (John Hurt) é responsabilizado pelo desastre, o que o leva a um pedido antecipado de aposentadoria e a dispensar Smiley, seu subordinado. Quando surge a suspeita de que o infiltrado é um dos quatros membros remanescentes do Circus, Smiley é convocado para entrar novamente em ação, sua missão é descobrir quem é o agente duplo. Seu atual distanciamento e o conhecimento que ele tem sobre cada um dos ex-colegas, o tornam o agente ideal para o serviço. Em sua missão ele contará com a ajuda do jovem agente Peter Guillam (Benedict Cumberbatch), a quem ele foi autorizado a convocar. No contato entre os dois personagens fica notável, ainda que de forma sutil, o choque entre diferentes gerações e suas distintas formas de abordagem e de pensamento.
Quem começou assistir O Espião que Sabia Demais, esperando algo no estilo das franquias de 007 ou Missão Impossível, certamente se decepcionou, o atrativo aqui é outro. Não existe glamour, nem lindas garotas apaixonadas pelos espiões. Não há perseguições de carro, nem lutas de tirar o fôlego. Todo o filme é conduzido lentamente por uma trilha sonora melancólica, composta por Alberto Iglesias, que cria a atmosfera perfeita para que venha á tona os dramas pessoais do personagem central, que vê no serviço uma tentativa de dar um sentido maior á carreira que chegara ao fim e à própria vida solitária. George Smiley é um personagem icônico por carregar consigo o pesado fardo de seu tempo, uma época de temores e apreensões, sua postura representa de forma alegórica a situação de seu país, que parecia estar apenas perdido em meio a um conflito que não era mais seu, lutando apenas para que o fogo cruzado não fosse iniciado por nenhum dos dois lados (leia EUA e URSS).
Em cada enquadramento, O Espião que Sabia Demais nos impacta com a beleza estonteante de suas imagens. Os membros do departamento de fotografia da Academia só podem estar cegos, só isso para explicar a não indicação deste filme ao Oscar nesta categoria. A direção de arte, a montagem e os figurinos também são irrepreensíveis, o que prova que um filme pode combinar de forma harmoniosa excelência técnica, qualidade de narrativa, e excelentes atuações. Gary Oldman está fantástico, este é sem dúvidas um dos melhores momentos de sua extensa carreira, sua indicação ao Oscar foi mais que merecida! John Hurt, Colin Firth, Mark Strong, Toby Jones, Benedict Cumberbatch, Ciarán Hinds, David Dencik e Tom Hardy, também têm um desempenham notável o que valoriza os seus personagens, ainda que nem todos sejam tão significativos e presentes na trama. Alberto Iglesias dá um show que dispensa qualquer comentário, só peço a você leitor que, ao assistir o filme, você preste atenção na música que toca enquanto Smiley deixa seu posto de trabalho após ser compulsoriamente aposentado...
Este é o tipo de filme capaz de nos dar prazer real diante da tela, não um prazer induzido por técnicas já manjadas, mas um prazer de estar diante de uma verdadeira obra prima, capaz de nos desafiar a um confronto que se desenvolve a cada sequência. O Espião que Sabia Demais é cinema de qualidade e sem qualquer tipo de frescuragens, ele mais uma obra que entra com louvor em meu top 10 de 2011. Coloquemos os nossos cérebros para funcionar e apreciemos! Ultra recomendado!
O Espião que Sabia Demais está indicado aos Oscars de Melhor Ator (Gary Oldman), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original.






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