N° de acessos:

domingo, 19 de fevereiro de 2012

O Espião que Sabia Demais

O Espião que Sabia Demais (Tinker Tailor Soldier Spy) - 2011. Dirigido por Tomas Alfredson. Escrito por Bridget O'Connor e Peter Straughan, baseado na obra de John le Carré. Direção de Fotografia de Hoyte Van Hoytema. Música Original de Alberto Iglesias. Produzido por Tim Bevan, Eric Fellner e Robyn Slovo. Studio Canal / UK | França | Alemanha.


Há alguns dias atrás, o amigo Julio Pereira, crítico do blog Lumi7, usou o filme O Espião que Sabia Demais (2011) como ilustração em um de seus posts em, um grupo sobre cinema no facebook, sua intenção não era analisar o longa, mas dar início a um debate sobre aquilo que eu em seguida chamei de “processo de idiotização do cinema”. É curioso, mas conforme temos observado existe uma intolerância por parte do público, em relação às obras que não conseguem compreender, o resultado disso está perceptível nas cabines e salas de cinema vazias durante a exibição de alguns títulos e nos fóruns sobre filmes de arte ou que tenham uma trama um pouco mais complexa. Nas redes sociais, O Espião que Sabia Demais foi vítima deste fenômeno, os que se perderam durante o desenrolar de sua trama, que nem é tão complexa assim, fizeram questão de execrar o filme e todos aqueles que não tiveram nenhum problema em compreendê-lo... Reconheço que por diversas vezes eu já me perdi durante a exibição de algumas obras, no entanto eu não posso atribuir a culpa disso à produção, ao seu roteiro ou à sua montagem. Se eu me perdi (quando outros não se perderam), a culpa na maioria das vezes é tão somente minha e isso de forma alguma quer dizer que o filme seja ruim ou que ele tenha sido mal feito.

A verdade é que parte do público parece ter preguiça de pensar durante um filme, por isso vêm as produções tão somente como entretenimento. Quando por desaviso estes se deparam com uma obra não tão raza, que instigue a reflexão ou o raciocínio lógico, logo passam a odiá-la, como se ela os tivesse agredido por exigir algo que não estão dispostos a dar. Este mesmo fenômeno também acontece na música, na literatura e em tantas outras expressões artísticas. O público está alheio à contemplação artística e à reflexão e a indústria cultural está a priori nivelada a ele. Este público é o mais favorável aos interesses das produtoras, por estar propenso a um modelo de consumo padronizado e contínuo, que valoriza sempre o novo em detrimento do clássico e o superficial em oposição ao profundo...


Pois é, me empolguei e acabei me distanciando do foco original do texto que era o de falar sobre O Espião que Sabia Demais. Mas, ainda que tal introdução tenha sido pertinente, voltemos ao filme (foco José Bruno, seus leitores lhe cobram objetividade!)... O filme, dirigido por Tomas Alfredson, é de um tipo cada vez mais raro, ele não pode ser considerado uma produção conceitual ou autoral, ele não toca em tabus e tão pouco evoca grandes questionamentos filosóficos, mas ele tem justamente aquilo que o cinema mainstrean aparenta ter perdido nos últimos anos, ele tem um roteiro bem escrito, que não subestima em nenhum instante a  inteligência de nós espectadores... É como se ao assisti-lo estivéssemos sendo convidados a entrar na história e no mesmo tipo de dilema dramático no qual os personagens estão envoltos. Honrando a alcunha de filme de espionagem, ele nos transforma em uma espécie de agentes observadores, que contemplam de longe a sequência de acontecimento e buscam juntar as peças para que tudo aquilo faça algum sentido.


George Smiley (Gary Oldman) é o personagem central da história que fora adaptada de um best-seller de John le Carré, ele faz parte do Circus, a divisão de elite do serviço secreto inglês. Já na primeira sequência somos apresentados ao mote da trama: Existe um agente duplo dentre os membros da inteligência britânica. Um espião é enviado à Budapeste para receber de um militar, que estava prestes a desertar, uma informação sigilosa que esclareceria quem de fato era o infiltrado, porém esta missão acaba de forma trágica. Control (John Hurt) é responsabilizado pelo desastre, o que o leva a um pedido antecipado de aposentadoria e a dispensar Smiley, seu subordinado. Quando surge a suspeita de que o infiltrado é um dos quatros membros remanescentes do Circus, Smiley é convocado para entrar novamente em ação, sua missão é descobrir quem é o agente duplo. Seu atual distanciamento e o conhecimento que ele tem sobre cada um dos ex-colegas, o tornam o agente ideal para o serviço. Em sua missão ele contará com a ajuda do jovem agente Peter Guillam (Benedict Cumberbatch), a quem ele foi autorizado a convocar. No contato entre os dois personagens fica notável, ainda que de forma sutil, o choque entre diferentes gerações e suas distintas formas de abordagem e de pensamento.


Quem começou assistir O Espião que Sabia Demais, esperando algo no estilo das franquias de 007 ou  Missão Impossível, certamente se decepcionou, o atrativo aqui é outro. Não existe glamour, nem lindas  garotas apaixonadas pelos espiões. Não há perseguições de carro, nem lutas de tirar o fôlego. Todo o filme é conduzido lentamente por uma trilha sonora melancólica, composta por Alberto Iglesias, que cria a atmosfera perfeita para que venha á tona os dramas pessoais do personagem central, que vê no serviço uma tentativa de dar um sentido maior á carreira que chegara ao fim e à própria vida solitária. George Smiley é um personagem icônico por carregar consigo o pesado fardo de seu tempo, uma época de temores e apreensões, sua postura representa de forma alegórica a situação de seu país, que parecia estar apenas perdido em meio a um conflito que não era mais seu, lutando apenas para que o fogo cruzado não fosse iniciado por nenhum dos dois lados (leia EUA e URSS). 


Em cada enquadramento, O Espião que Sabia Demais nos impacta com a beleza estonteante de suas imagens. Os membros do departamento de fotografia da Academia só podem estar cegos, só isso para explicar a não indicação deste filme ao Oscar nesta categoria. A direção de arte, a montagem e os figurinos também são irrepreensíveis, o que prova que um filme pode combinar de forma harmoniosa excelência técnica, qualidade de narrativa, e excelentes atuações. Gary Oldman está fantástico, este é sem dúvidas um dos melhores momentos de sua extensa carreira, sua indicação ao Oscar foi mais que merecida! John Hurt, Colin Firth, Mark Strong, Toby Jones, Benedict Cumberbatch, Ciarán Hinds, David Dencik e Tom Hardy, também têm um desempenham notável o que valoriza os seus personagens, ainda que nem todos sejam tão significativos e presentes na trama. Alberto Iglesias dá um show que dispensa qualquer comentário, só peço a você leitor que, ao assistir o filme, você preste atenção na música que toca enquanto Smiley deixa seu posto de trabalho após ser compulsoriamente aposentado... 


Este é o tipo de filme capaz de nos dar prazer real diante da tela, não um prazer induzido por técnicas já manjadas, mas um prazer de estar diante de uma verdadeira obra prima, capaz de nos desafiar a um confronto que se desenvolve a cada sequência. O Espião que Sabia Demais é cinema de qualidade e sem qualquer tipo de frescuragens, ele mais uma obra que entra com louvor em meu top 10 de 2011. Coloquemos os nossos cérebros para funcionar e apreciemos! Ultra recomendado!


O Espião que Sabia Demais está indicado aos Oscars de Melhor Ator (Gary Oldman), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original. 

Assistam ao trailer de O Espião que Sabia Demais no You Tube, clique AQUI !


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Cavalo de Guerra

Cavalo de Guerra (War Horse) - 2011. Dirigido por Steven Spielberg. Escrito por Lee Hall e Richard Curtis, baseado na obra de Michael Morpurgo. Direção de Fotografia de Janusz Kaminski. Música Original de John Williams. Produzido por Steven Spielberg e Kathleen Kennedy. DreamWorks SKG e Reliance Entertainment / EUA.


Cavalo de Guerra (2011) é o filme mais fajuto de Spielberg desde..., bem desde Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (2008), seu último trabalho como diretor. Certamente eu teria o considerado uma obra prima se tivesse o visto quando eu ainda era uma criança, contudo presumo que hoje meu senso crítico esteja ao menos um pouquinho mais aguçado, o que torna quase impossível a digestão de algo tão medíocre em quase todos os aspectos. Tenho um sério problema com obras que têm animas como protagonistas e sem dúvidas este foi  um dos fatores que afetaram negativamente minha apreciação desta película, contudo dos desacertos do filme este é o menor. Cavalo de Guerra só não é um verdadeiro desastre, pois John Williams e Janusz Kaminski estavam lá para salvá-lo, mas toda a beleza conferida pela trilha sonora e pela fotografia parece ter sido desperdiçada ao ser associada a um roteiro tão fraco e tão apelativo.

O belo visual funciona como um disfarce, que traveste o filme de clássico (prestem atenção nas referências visuais a ...E o Vento Levou (1940) e outras obras dos anos 40), no entanto o espetáculo proporcionado pelas imagens não consegue esconder a superficialidade da trama e seu excessivo apelo emocional. O longa se vale de alguns dos clichês mais batidos para nos sensibilizar e isso se torna um incômodo já nos seus primeiros minutos de duração. Felizmente eu permaneci imune à esta canastrice de Spielberg, comigo a indução às lágrimas não funcionou. Perdoem minha insensibilidade, mas eu não consigo me emocionar com sequências do tipo daquela na qual um garoto (o protagonista) coloca um cabresto no cavalo, para em seguida força-lo a trabalhar até a exaustão. Se tiver uma emoção que uma cena de um homem explorando um animal me desperta, esta é tão somente a raiva. E foi raiva e repúdio e não comoção, aquilo que senti em quase todas as sequências de Cavalo de Guerra.


O longa subestima a nossa inteligência com a desculpa de estar prestando uma homenagem a algumas produções dos anos 40, cujas tramas eram simplórias e infantilizadas, o problema é que tal homenagem não fica tão aparente e o que sobre é apenas uma sequência ininterrupta de cenas de superação ou de despedidas, que parecem querer extrair o choro do espectador a qualquer preço. Ao contrário do que aqueles que ainda não viram o filme podem imaginar, isso não acontece só no final da história e é justamente por isso que tal aspecto se torna um excesso. Cavalo de Guerra parece estar preso à "síndrome dos últimos minutos", pois a sensação é a de que o filme irá acabar a qualquer momento, tamanha apelação dramática. O artifício de usar um clímax atrás do outro definitivamente não funciona e prejudica todo o desenrolar da trama, que poderia ter sido bem melhor se não tivesse uma proposta tão mesquinha.


A história gira em torno de Joey, o cavalo ao qual o título se refere, e de Albert (Jeremy Irvine), um de seus donos. A trama folhetinesca começa a ser desenrolada ainda no nascimento do equino, que logo é separado de sua mãe para em seguida ser levado a leilão. Quase que por impulso, o pai de Albert que estava bêbado, acaba comprando o animal por uma grande quantia em dinheiro, o que deixa sua família financeiramente em maus lençóis. Após alguns clímaces e reviravoltas (ainda estamos no primeiro ato), o cavalo acaba sendo vendido para o exército inglês e levado para a guerra, a partir daí o que se segue é uma série de capítulos que mostram a tentativa de sobrevivência do animal durante o conflito e a jornada de seu dono para trazê-lo de volta...


Certamente este filme será ovacionado pelo público médio, o mesmo que detestou A Árvore da Vida (2011), Melancolia (2011) e O Espião que Sabia Demais (2011). A diferença crucial entre ele e tais obras é simples, enquanto estes exigem reflexão e contemplação artística, Cavalo de Guerra só exige que o nosso cérebro esteja desligado. Spielberg, em um dos momentos mais vergonhosos de sua carreira, nos conduz a um show de sentimentalismo barato e superficial, ele, que manteve durante muito tempo a fama de manipulador das emoções, pisou em falso e derrapou feio, a alcunha que consegue com este filme é apenas a de pretensioso. Cavalo de Guerra está mais para filmes infantis típicos da Sessão da Tarde, como A Incrível Jornada (1993), do que para obras de excelência dramática de Spielberg como A Cor Púrpura (1985)A Lista de Schindler (1993)Amistad (1998). Não tenho dúvidas de que o filme irá agradar muita gente, porém a mim ele não cativou. Diante de toda espetacularização, os únicos aspectos que se sobressaem são os técnicos: fotografia, trilha sonora, figurinos e direção de arte. Algumas poucas sequências até são memoráveis, mas funcionariam bem melhor se estivessem em um dos filmes animados da Disney de outrora... 


Cavalo de Guerra está indicado aos Oscars de Melhor Filme, Trilha Sonora Original, Fotografia, Direção de Arte, Edição de Som e Mixagem de Som. No Globo de Ouro o filme recebeu indicações nas categorias de Melhor Filme - Drama e Trilha Sonora.

Assistam ao trailer de   Cavalo de Guerra  no You Tube, clique AQUI !


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A Fita Branca

A Fita Branca (Das weiße Band - Eine deutsche Kindergeschichte) - 2009. Escrito e Dirigido por Michael Haneke. Direção de Fotografia de Christian Berger. Produzido por Stefan Arndt, Veit Heiduschka, Michael Katz e Andrea Occhipinti. X-Filme Creative Pool, Wega Film, Les Films du Losange e Lucky Red / Alemanha | Austria | França | Itália.


O holocausto promovido pela Alemanha nazista nos assusta e nos intriga até hoje, durante muito tempo eu me perguntava como a população do país pode ser conivente com tal barbárie, em minha busca por respostas encontrei apenas hipóteses. Uma delas, bem aceita por muitos, diz que a alemães não tinha pleno conhecimento do que acontecia nos campos de concentração, outra diz respeito ao poder da comunicação de massa, explorada por Joseph Goebbels (o Ministro da Propaganda de Hitler), que segundo dizem teria manipulado e persuadido o povo. Ainda que uma dentre estas teorias fosse verdadeira, ou ainda que ambas fossem complementares, seríamos incapazes de encontrar, tão somente nelas, algo que explicasse a relativa facilidade com que a maioria da população "comprou" as idéias propagadas pelo Terceiro Reich... A Alemanha fora arrasada pela primeira grande guerra e após o final do conflito sua política e economia experimentavam uma das maiores crises desde a unificação tardia do país, o povo estava sem esperança e é neste contexto que surge a figura de Hitler, que passa a representar para a população mais do que um salvador, ele se torna um semideus, um escolhido para tirar o país da lama... Até aqui não é tão difícil de compreender, tal situação já se repetiu outras vezes na história de muitos outros países, o que fica complicado de entender é como o povo acatou a ideia da supremacia ariana e a rigidez de um sistema de governo ditatorial e repressivo.

A Fita Branca (2009), de Michael Haneke, tenta através de sua trama apontar alguns dos fatos sociais que serviram de base para a edificação de toda a ideologia nazista (incluindo a intolerância e a supressão dos direitos individuais) e para sua posterior aceitação pelas massas. Para tal, o filme retorna ao ano de 1913, um período em que boa parte daqueles que viriam a colaborar com a edificação do governo de Hitler ainda eram crianças. A pequena vila, onde a trama se desenvolve, funciona como um microcosmo da Alemanha às vésperas da primeira guerra mundial. No filme tudo é simbólico, desde a fotografia em preto e branco, que ressalta a frieza e o distanciamento das pessoas, até os elementos cênicos e a relação entre os personagens. Não é por acaso que o foco da narrativa está nas crianças do local, afinal o que se procura ali são sementes para algo que viria a acontecer mais de 20 anos mais tarde, época em que aqueles meninos já adultos vivenciariam a ascensão do Führer ao poder e a implantação de seu regime. Haneke nos propõe a seguinte questão: Existiria de fato algo naquele microcosmo que pudesse explicar a consciência coletiva da Alemanha no período do holocausto? Na história, o personagem narrador acredita que sim...


Os eventos que se passaram ali, naquele vilarejo, no início do século, são de extrema importância para se compreender os eventos dramáticos que aconteceriam na Alemanha, décadas depois...

Na trama, que é narrada por um jovem professor (Christian Friedel), uma sequência de acontecimentos estranhos começou quando o médico local sofreu um grave acidente enquanto cavalgava, seu cavalo tropeçou em um arame alçado entre duas árvores. Dias depois a esposa de um agricultor morreu após um grave acidente de trabalho. Não demora e começam surgir especulações na vila acerca dos fatos, que conforme tudo indica teriam sido criminosos, mas o tempo passa e ambos os acidentes são praticamente esquecidos. Algum tempo depois o filho de Barão desaparece, um grupo de busca o encontra no meio de uma floresta durante a noite, ele fora violentado. Outras coisas estranhas continuam acontecendo, a apreensão e a desconfiança se espalham por toda a localidade, a harmonia é então quebrada, dando lugar ao temor generalizado. Diante de tais ameaças ninguém consegue mais pensar direito, afinal o culpado pelos crimes pode ser qualquer um e estar mais perto do que se imagina... Tal como em Caché (2005), neste filme Haneke direciona o foco narrativo não para o mistério dos acontecimentos, mas para as suas conseqüências.


Através das relações entre os personagens, vão ficando cada vez mais evidentes os fatos sociais que o cineasta aponta como sendo os possíveis fundamentos do nazismo. O diretor sabe que a família é a alegoria perfeita para se analisar a sociedade como um todo e é justamente para dentro dos lares que a câmera de A Fita Branca é guiada. Aquela era uma sociedade patriarcal, sustentada por um rígido código moral e por rigorosos princípios religiosos. As crianças são as principais vítimas de tal repressão, que se manifesta na forma de imposição de restrições ou até mesmo na prática da violência. A repressão nasce das diferenças entre classes, da intolerância e até mesmo da prática religiosa. A fita branca, à qual o título do filme se refere, é usada pelo pastor local como forma de lembrar aos seus filhos dos pecados que eles cometeram e do padrão comportamental imaculável que devem seguir, a fita era ao mesmo tempo um símbolo de segregação e de vergonha para os garotos. O adereço é uma clara referência ao bracelete com a estrela de David que judeus seriam obrigados a usar em diversas cidades alemãs durante o período que antecederia o holocausto.


A rigidez moral frequentemente se converte em violência e se torna ainda mais grave ao ser embasada  e justificada através de princípios religiosos, surge então a intolerância em relação ao diferente, ao incapaz e ao pobre... O desprezo dos outros garotos por um menino portador de deficiência mental é uma prenunciação, a atitude de outro garoto, que sente inveja de um brinquedo da colega e a ataca, também. No entanto o comportamento violento e arredio não é algo natural, ele é tão somente uma resposta aos estímulos externos que eles recebem, é uma resposta coletiva às fitas brancas presas ao corpo, aos castigos físicos, às noites passadas amarrados às camas, aos abusos sexuais e à repressão; maus tratos estes que recebem de seus próprios pais, dentro de suas próprias casas, castigos disfarçados de amor e cuidado... No entanto, a violência recebida na infância pode até explicar em partes o comportamento da vida adulta, mas ela não é capaz de justifica-lo.


Michael Haneke consegue nos levar a uma reflexão que vai além da proposta de buscar explicações para o holocausto, a dissecação moral que ele faz de seus personagens nos remete à nossa própria sociedade e aos nossos próprios dogmas e padrões. O filme não faz juízo de valor em relação à atitude dos pais, e esta é uma decisão acertada, uma vez que eles também não são naturalmente maus, eles apenas reproduzem um padrão comportamental que talvez tenha sido aprendido durantes suas próprias infâncias. De acordo com a moral vigente aquele seria de fato o comportamento virtuoso, o que contudo não os isenta da culpa de serem fomentadores de uma violência que um dia iria explodir. Por mais que nos pareça distante, tal situação nos lembra, que também somos capazes, como sociedade, de cometer atrocidades e nome de uma moral estabelecida ou de um credo. Haneke nos alerta de que, ainda que resguardadas as devidas proporções, somos também sujeitos ao mesmo ódio social e preconceitos mostrados no filme e, tal como na história, o fazemos com a consciência limpa, cientes de que estamos fazendo o que é correto...


A Fita Branca não é o tipo de filme que agrada tão facilmente a todos, ele tem um desenvolvimento não tão ágil, e sua trama não tem clímax, ele é complexo e lento e sua narrativa parte de um olhar distante e sem a onisciência daquilo que observa, tais aspectos poderão tornar o filme indigerível para boa parte do público, ele exige reflexão e nem todos estarão dispostos a conceder isso a ele. Para quem curte filmes de arte e não têm preguiça de pensar diante da tela, ele é uma excelente pedida. Ao assisti-lo preste atenção na naturalidade das atuações e na beleza da fotografia, das locações e dos enquadramentos. E o mais importante, não se permita se perder diante de aspectos que não são o mais importante da trama... A Fita Branca é um excelente filme, verdadeiramente uma obra de arte, ainda que a ideia central de seu roteiro, inspirado pelos estudo de Theodor W. Adorno (um dos principais nomes da Escola de Frankfurt), seja frequentemente motivo de polêmica entre algumas correntes de estudiosos do holocausto... Recomendo, mas não para todos!


A Fita Branca foi indicado aos Oscars de Melhor Filme em Língua Estrangeira e Melhor Fotografia. Ele venceu o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e ganhou a Palma de Ouro, prêmio máximo do Festival de Cannes.

Assistam ao trailer de  A Fita Branca no You Tube, clique AQUI !

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a crítica de  Caché (2005) , também escrito e dirigido por Michael Haneke.


domingo, 12 de fevereiro de 2012

Vencedores do BAFTA 2012

A British Academy of Film and Television Arts realizou na noite de hoje (12/02) a entrega do BAFTA, o prêmio mais importante do cinema britânico. Conforme previsto, O Artista, que detinha o maior número de indicações, foi o grande vencedor da noite. O documentário britânico Senna, que conta a história do piloto brasileiro, ganhou nas categorias de Melhor Documentário e Melhor Edição. Ao meu ver a grande surpresa aconteceu na categoria de Melhor Filme em Língua não-Inglesa, na qual A Pele que Habito de Almodóvar quebrou o favoritismo do iraniano A Separação.


Melhor Filme: O Artista

Melhor Diretor: Michel Hazanivicous - O Artista

Melhor Longa Animado: Rango

Melhor Ator: Jean Dujardin - O Artista

Melhor Atriz: Meryl Streep - A Dama de Ferro

Melhor Ator Coadjuvante: Christopher Plummer - Toda Forma de Amor

Melhor Atriz Coadjuvante: Octavia Spencer - Histórias Cruzadas

Melhor Filme Britânico: O Espião que Sabia Demais

Melhor Filme Britânico de Estreia de um Roteirista, Diretor ou Produtor: Tyrannosaur - Paddy Considine (Diretor), Diarmid Scrimshaw (Produtor)

Melhor Filme em Língua não-Inglesa: A Pele Que Habito (Espanha)

Melhor Roteiro Original: Michel Hazavanicious - O Artista

Melhor Roteiro Adaptado: Bridget O’Connor, Peter Straughan - O Espião que Sabia Demais

Melhor Documentário: Asif Kapadia - Senna

Melhor Trilha Sonora Original: Ludovic Bource - O Artista

Melhor Fotografia: O Artista

Melhor Edição: Senna

Melhor Design de Produção: A Invenção de Hugo Cabret

Melhor Figurino: O Artista


Melhores Efeitos Visuais: Harry Potter e As Relíquias da Morte - Parte 2

Melhor Maquiagem: A Dama de Ferro

Melhor Curta Animado: A Morning Stroll

Melhor Curta: Pitch Black Heist


sábado, 11 de fevereiro de 2012

Os Descendentes

Os Descendentes (The Descendants) - 2011. Dirigido por Alexander Payne. Escrito por Alexander Payne, Nat Faxon e Jim Rash, baseado na obra de Kaui Hart Hemmings. Direção de Fotografia de Phedon Papamichael. Produzido por Alexander Payne, Jim Burke e Jim Taylor. Fox Searchlight Pictures / EUA.


Os Descendentes (2011) não é melhor filme de Alexander Payne e também não traz a melhor atuação da carreira de George Clooney… Mas não, eu não o considero superestimado, cada um dos elogios que ele recebeu e prêmios aos quais ele foi indicado, foram realmente merecidos. Pode parecer que eu estou me contradizendo, mas não, este é o tipo de filme no qual o atrativo transcende qualquer uma de nossas noções de técnica, narrativa, ou de atuações. O impacto causado pelo longa não pode ser explicado tão facilmente, não é algo que pode ser mensurado e não tem nenhuma categoria em festivais ou premiações que valorize tal tipo de efeito. A reação que ele nos provoca é subjetiva e se dá de uma forma sutil, sem qualquer tipo de apelação, é um impacto causado pelo realismo desmascarado, sem fantasias ou adornos... O foco da narrativa de Os Descendentes é uma família nuclear não tão bem estruturada, como em tantos outros filmes que abordam tal temática, neste as relações conjugais e entre pais e filhos apontam para uma crise maior, que não é algo ficcional, é uma crise generalizada que afeta ameaça a família como instituição.

Matt King (George Clooney) é um advogado havaiano bem sucedido em sua profissão, ele é um dos herdeiros de uma verdadeira fortuna em terras e é também o depositário do fundo que administra os bens de sua família. Ele, diferente de seus parentes, prefere trabalhar duro a contar com a riqueza acumulada pelos seus antepassados, mas é por trabalhar demais que ele acabou se distanciando da esposa e das duas filhas. Um evento inesperado trará segredos à tona e lhe fará rever sua postura como marido e como pai, ainda que seja tarde demais para reparar alguns erros cometidos no passado. Elizabeth (Patricia Hastie), a esposa de Matt, sofreu um grave acidente no mar, enquanto praticava um esporte radical, ela entrou em coma e ele se viu obrigado a cuidar sozinho de Amara Miller (Scottie), sua filha caçula de 10 anos. Percebendo a necessidade de reunir sua família, Matt vai ao encontro de Alexandra (Shailene Woodley), a filha mais velha de 17 anos, ela estava morando em uma outra ilha, onde estudava em um colégio interno, ela é rebelde e seu comportamento, ao que tudo indica, é um resultado de sua conturbada relação com seus pais.


Meus amigos do continente pensam que só porque eu moro no Havaí eu vivo no paraíso, como férias permanentes, que nós só vivemos tomando drinques, mexendo os quadris, pegando onda… Eles são loucos? Eles acham que nós somos imunes à vida? Como eles podem pensar que nossas famílias são menos fracassadas, que nosso câncer é menos fatal, ou que nossos infartos são menos dolorosos? Há 15 anos que não subo em uma prancha, droga!

Como se não bastasse a relação complicada com as filhas e o estado de saúde delicado da esposa, Matt ainda tem que lidar com os interesses de seus primos ambiciosos, que esperam que ele conclua o mais rápido possível a venda das terras pertencentes á família. O problema é que dois dentre os descendentes não aprovam a transação, gerando intrigas e divisões. Além disso, a venda da propriedade iria impactar de forma negativa na vida dos habitantes da ilha, que de uma forma ou de outra dependiam daquele espaço e de seus recursos para sobreviverem, isso faz com que Matt seja visto como um vilão pela população local. Em meio a este turbilhão de coisas, que estão acontecendo ao mesmo tempo, ele precisará sair de sua aparente situação de conforto para enfrentar a vida que se levanta contra ele, para isso ele e suas filhas precisarão amadurecer, não como indivíduos, mas como família...


Na sutileza que lhe é característica, Payne vai desenhando a fragmentação e o distanciamento da família de Matt a cada sequência. Diversas situações no filme apontam para a desestruturação e consequente decadência não só do lar retratado, mas da família como instituição, em uma das cenas um dos primos de Matt lhe diz: "Vamos processá-lo Matt. Só porque você é advogado, não significa que o resto de nós terá medo de processá-lo... Mas ninguém quer fazer isso, somos uma família!". Tal declaração chega a ser quase irônica dado o contexto no qual ela é dita, o "somos uma família" que ele diz cai quase como uma bomba sobre nossas próprias convenções e deixa clara a angulação temática que o filme segue... Ainda que a esposa de Matt esteja em coma, seus primos só conseguem pensar no dinheiro que conseguiriam ao vender suas herdades, em nenhum momento os vemos tentando consolar as garotas ou dizendo algo que soasse no mínimo sincero. Mas o próprio Matt também capenga no quesito relação familiar, em determinado momento no início do filme, ele se preocupa mais em descobrir a melhor forma de dar as más notícias para os familiares e amigos, do que em dar o apoio e a atenção que suas filhas precisam naquele momento. 


Alexandra busca fora do seio familiar o afago que precisa, é aí que entra em cena o estranho Sid (Nick Krause), um de seus amigos que ela trouxe para passar uma temporada com sua família, ele é um personagem que funciona como alívio cômico no filme, sua "inocência" e falta de noção, além de o coloca-lo em diversas situações embaraçosas, ainda funcionam um facilitador, um canal para que algumas das verdades, que alguns dos personagens tentam camuflar, venham à tona (prestem atenção em alguns dos diálogos dele com Matt). É interessante perceber o quanto cada um dos personagens vão se transformando durante a trama, sem que isso seja mostrado como algo surreal ou forçado demais. Os Descendentes nos leva à uma reflexão necessária acerca do como uma família não tão bem estruturada pode ser tão nociva para cada um de seus membros, ainda que as aparências apontem para algo diferente. O filme transita por momentos duros, mas também por aqueles nos quais redescobrimos o quanto é importante estar realmente próximos daqueles a quem amamos, para algumas famílias estes momentos podem ser raros, mas quando acontecem são capazes de sobrepor a dor de todos os outros, por mais duros que eles sejam...


Só não considero Os Descendentes o melhor filme de Payne porque ele tem Sideways (2004) no currículo e esta só não é a melhor atuação de Clooney, simplesmente porque seu desempenho em Conduta de Risco (2007) chega a ser surreal de tão extraordinário. No entanto nada disso importa, a verdade é que  esta é uma pequena obra prima, à qual alguns poderão até ficar indiferentes pela falta de sensibilidade à abordagem intimista que o filme tem, contudo ele é na minha opinião uma daquelas produções que transcenderão o momento de glória proporcionado pelo entusiasmo da crítica especializada e pelos prêmios que tem ganhado. Este é um daqueles filmes capazes de nos emocionar e nos levar à uma reflexão profunda acerca de nossas próprias vidas e daquilo que valorizamos como indivíduos e como sociedade. O filme tem uma  bela fotografia, que valoriza muito bem cada uma das locações, e a trilha sonora composta por canções havaianas também é ótima, mas estes não são nem de longe os melhores aspectos do filme. Os Descendentes pode não ser o meu favorito na famigerada disputa ao Oscar 2012, mas se ele ganhar, ao menos terei a impressão de que alguma justiça foi feita. Recomendo!


Os Descendentes está indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Diretor, Ator (George Clooney), Roteiro Adaptado e Montagem. No Globo de Ouro, o filme venceu nas categorias de Melho Filme de Drama e Ator (George Clooney), tendo sido indicado também aos prêmios de Melhor Diretor, Atriz Coadjuvante (Shailene Woodley) e Roteiro.

Assistam ao trailer de   Os Descendentes   no You Tube, clique AQUI !

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a crítica de As Confissões de Schmidt (2002), também dirigido por Alexander Payne.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Um Gato em Paris

Um Gato em Paris (Une vie de chat) - 2011. Dirigido por Jean-Loup Felicioli e Alain Gagnol. Escrito por Alain Gagnol e Jacques-Rémy Girerd . Música Original de Serge Besset. Produzido por Jacques-Rémy Girerd. Folimage / França| Suiça | Países Baixos | Bélgica.


Se O Artista (2011) de Michel Hazanavicius é o contraponto perfeito para produções cinematográficas nas quais o avanço da técnica e os efeitos especiais se sobrepõem à trama e ao valor artístico, Um Gato em Paris (2011) de Jean-Loupe e Alain Gagnol, outro filme francês, é então a antítese perfeita das animações digitais produzidas atualmente por estúdios como Pixar e Dreanworks. O filme, feito praticamente sem computação gráfica, se vale do tradicional uso de telas e lápis coloridos e o resultado é surpreendentemente belo. Tanto O Artista, quanto Um Gato em Paris, nos fazem lembrar que tecnologias tidas como obsoletas podem ainda gerar obras geniais e inovadoras. Eles nos lembram ainda que a fantasia e a mágica das imagens em movimentos nem sempre estarão atreladas à espetacularização proporcionada pela tecnologia e que nada pode substituir o prazer de assistir uma história simples, cativante e cheia de poesia visual.

Um Gato em Paris não é do tipo de animação “recomendável á todas as idades”, não que ele possua temática ou linguagem adulta ou conteúdo desapropriado, mas por causa de seu estilo não tão convencional, que nos parece tão estranho à primeira vista. Tal sensação de estranhamento pode ser ainda maior nas crianças, dificultando assim a apreciação e compreensão da história e dos personagens. A trama do filme, é  até bem simples, porém cheia de pequenas nuances, ela pode ser apontada como uma espécie de realismo fantástico, pois apesar de fantasiosa, a história aborda temáticas bem reais. O longa ainda se difere de outros filmes do gênero por não humanizar a personalidade do felino ao qual o título se refere. Dino, o gato protagonista, apesar de demonstrar uma inteligência atípica, não anda sobre duas patas e tão pouco fala. Os personagens humanos, ao mesmo tempo que vivem dilemas e situações típicas da vida adulta, se comportam na maioria das vezes como meninos. Esta caracterização não tão bem definida entre adultos e crianças é uma das principais características do filme, ela influencia diretamente na forma com que nós espectadores o decodificamos.



Zoé, a dona de Dino, é uma garotinha que deixou de falar desde que o pai, um policial, foi morto por um bandido cruel. Ela mora com sua mãe, Jeanne (voz de Dominique Blanc), uma atarefada delegada de polícia, que tem pouquíssimo tempo para dar a atenção que a filha precisa. Zoé fica aos cuidados de uma babá de caráter duvidoso, porém passa a maior parte do tempo sozinha, não é atoa que o gato Dino é melhor amigo dela, ambos não falam e apesar disso conseguem se compreender, naquilo que parece ser um pacto de silêncio mútuo. Todos os dias à noite o bichano sai para longos passeios pelas ruas de Paris, sua dona não sabe para onde ele vai, tão pouco com quem ele vai… Ele acompanha Nico (voz de Bruno Salomone), um ladrão de jóias, em aventuras noturnas pelos telhados de casas e prédios da cidade luz. Quase que por acaso, Zoe, Dino e Nico, acabam cruzando o caminho do mafioso Victor Costa (voz de Jean Benguigui), o bandido que matou o pai da garota.



Como eu disse, em Um Gato em Paris mesmo os personagens adultos se comportam como crianças quando expostos à determinadas situações, isto pode ser percebido no viés cômico do vilão Victor Costa (apesar de ele ser um personagem malvado), no medo que ele provoca na mãe de Zoé (ela o imagina como uma espécie de “bicho Papão”, um monstro com tentáculos com quem ela tem pesadelos) e até na aparente falta de motivos que pudessem levar Nico a se tornar um ladrão, afinal ele não é um personagem ruim, ele age como um garoto que não tem consciência de que o que está fazendo é errado... Toda a história parece ser contada partindo da perspectiva de uma criança; para os pequenos o que torna um personagem ruim não é o fato de ele transgredir uma lei e sim algum ato de crueldade que ele possa ter cometido, ou vir a cometer contra alguns dos personagens bons, isso explica as conotações de caráter distintas com que Victor e Nico, mesmo sendo ambos ladrões, adquirem no filme.


Esta visão quase infantil de uma trama que não é tão infantil assim (se é que me entendem) é o que torna o filme especial. Ele de fato não parece ter sido feito para crianças pequenas e sim para adultos e para aquelas mais crescidinhas, que poderiam compreender e digerir bem uma trama que aborda temas sérios e controversos como assassinatos, perda de um ente querido, banditismo, vinganças e traumas. O mais interessante é que Um Gato em Paris é capaz de transportar a nós adultos à uma espécie de idealização da infância perdida, um lugar onde a nossa maturidade se confronta com a criança que fomos um dia, um lugar de sonhos e fantasias, onde a vida e as pessoas são mais simples. Nesta viagem algo de belo e poético acontece, sutilmente somos confrontados acerca de nossos julgamentos, de nossa ética e de nossa tão presumida maturidade. Por que nós espectadores nos flagramos torcendo em favor de um dos ladrões (a quem nos afeiçoamos durante a história) e contra o outro (a quem repudiamos desde a primeira vez que aparece), sendo que são ambos criminosos? 


Cada fotograma de Um Gato em Paris parece explodir em uma porção de cores, que se harmonizam entre si apesar das tonalidades fortes, criando assim quadros belíssimos. Ao assisti-lo preste atenção na sutileza dos movimentos dos personagens, nos detalhes do cenário e na forma com que o jogo entre sombra e luz é construído, fazendo com que cada ambiente pareça estár sendo iluminado à luz de velas. A trilha sonora do filme também é linda, ela ajuda a nos transportar para uma realidade bela, surpreendente e de uma belíssima poética, onde o nosso eu menino, embotado de emoções diversas, afronta a sabedoria do adulto que nos tornamos. Esta maravilhosa animação de Jean-Loupe e Alain Gagnol é a única capaz de subverter, com mérito real, o favoritismo de Rango (2011), que considero ótimo por outros aspectos, ao Oscar de Melhor Longa de Animação. Ultra Recomendado!


Um Gato em Paris está indicado ao Oscar na categoria de Melhor Longa de Animação. 

Assistam ao trailer de   Um Gato em Paris   no You Tube, clique AQUI !


sábado, 4 de fevereiro de 2012

Precisamos Falar Sobre o Kevin

Precisamos Falar Sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin) - 2011. Dirigido por Lynne Ramsay. Escrito por Lynne Ramsay e Rory Kinnear, baseado na obra de Lionel Shriver. Direção de Fotografia de Seamus McGarvey. Música Original de Jonny Greenwood. Produzido por Jennifer Fox, Luc Roeg e Robert Salerno. BBC Films e UK Film Council / UK | USA. 


Precisamos Falar Sobre o Kevin (2011), dirigido por Lynne Ramsay, adaptado da obra homônima de Lionel Shriver, é o tipo de filme cuja trama nos induz a uma infinidade de questões filosóficas e sociológicas. No entanto, ele apenas levanta tais questionamentos sem apontar nenhuma resposta e é aí que está parte de sua genialidade. A obra foge de qualquer lugar comum ao abordar temas como a educação infantil, a origem da maldade no indivíduo e o limiar da loucura. No livro, que ainda não li, a autora parte do ponto de vista de uma mãe, cuja vida foi destruída pelos atos violentos do filho, para contar a história, a narrativa se desenvolve através de cartas que a mulher envia para o marido, que sempre esteve ausente, nas correspondências ela relata suas dores e traumas. No filme, a mulher perde a condição de narradora e se torna um dos alvos da câmera que foca sua família de forma não passional e destituída de quaisquer sentimentalismo.

O filme se desenvolve de forma não linear, através de uma montagem sublime, que a princípio parece nos induzir a crer que situações mostradas através de flashbacks podem explicar o desfecho trágico da história, contudo não é tão simples assim.Na trama, Kevin (vivido por Ezra Miller na adolescência e por Jasper Newell e Rock Duer, em períodos distintos da infância) veio ao mundo como fruto de uma gravidez indesejada, desde bem pequeno ele demonstra um comportamento agressivo e arredio, curiosamente a situação se agrava quando ele está perto da mãe, Eva (Tilda Swinton), em diversas cenas ele aparentemente tenta chamar a atenção dela, fazendo desde pequenas bagunças a atos de crueldade. Franklin (John C. Reilly), o pai de Kevin, é na maior parte do tempo negligente e permissivo, para ele o comportamento do filho é normal em uma criança de sua idade. Tudo piora quando nasce Celia (Ashley Gerasimovich), a segunda filha do casal, Kevin não aceita a chegada da irmanzinha, uma vez que ela representa para ele o risco de perder a atenção constante que a mãe lhe devota.


A falta de autoridade de Franklin e incapacidade de Eva de lidar com Kevin sozinha apontam para o desfecho trágico, prenunciado desde o início do filme. Algo irá acontecer e Eva terá toda sua vida destruída, ela perderá a família, o emprego e passará a ser agredida, verbalmente e fisicamente, nas ruas. Já sabemos de tudo isso desde os primeiros minutos do longa, só não nos é revelado o que teria acontecido de tão grave, para deixar Eva no estado em que ela se encontra. Ainda que já soubéssemos de antemão o que iria acontecer isso faria pouca ou nenhuma diferença, uma vez que o que importa no filme não é o que acontece, mas os questionamentos a que ele nos leva em seu desenvolvimento.


A montagem, como eu disse acima, se vale de flashbacks para buscar na infância de Kevin os motivos de seu comportamento violento na adolescência, no entanto tais motivos não ficam claros. Curiosamente, na maioria dos flashbacks é mostrado o relacionamento de Kevin com a mãe e poucas vezes com os demais familiares ou com outras pessoas, a trama também deixa claro que o comportamento dele era bem menos violento com o pai do que com a mãe, isso me leva a concluir que a montagem propositalmente nos induz a enxergar Kevin como um personagem maniqueísta, passamos a vê-lo como alguém naturalemnte ruim (como a mãe o vê), quando na verdade não é bem assim. Quando se percebe que sua "maldade" não lhe é intrínseca, o leque de possíveis respostas ao questionamento central do filme se abre. A pergunta feita é: “Por que? Com qual propósito?”. O que teria levado Kevin aos atos violentos que destruiu a vida de sua mãe? Seria uma má criação? A incapacidade de Eva, ou talvez o distanciamento de Franklin? Ou seria a falta de diálogo entre ambos (conforme sugerido pelo título). Ou seria talvez culpa da sociedade? De fato o roteiro não nos aponta respostas para nenhuma destas perguntas… Talvez seja um conjunto de fatores associados ao psicológico do garoto que vê na mãe uma antagonista e ao mesmo tempo uma platéia para o seu show...


Precisamos falar sobre Tilda Swinton, ela está simplesmente perfeita no papel de Eva. Ela incorpora de forma assustadora as transformações que a personagem experimenta durante tempos distintos da narrativa, indo de um mãe dedicada, á uma mulher frustrada com a maternidade e incapaz de amar o próprio filho, isso para logo em seguida serem ambas imagens despedaçadas, dando lugar à uma figura melancólica, vazia, apenas um corpo sem alma, que parece experimentar uma espécie de morte em vida... Tilda torna os sentimentos e as dores de sua personagem quase palpáveis, a perfeição de sua interpretação está hora na expressão facial, que denota desespero ou raiva, ora no olhar vazio, no qual somos incapazes de identificar qualquer sentimento humano. Precisamos falar também de cada um dos atores que que interpretam Kevin, a atuação deles são também impecáveis (sem contar a aparência física entre eles), o que torna o personagem ainda mais real e repulsivo. Eles dão vida a um dos personagens mais odiáveis do cinema contemporâneo, uma verdadeira façanha, tendo em vista que tal personagem é (durante maior parte do filme) uma criança. Prestem atenção nos olhares trocados em diversos momentos do filme entre Tilda e e cada um dos três atores.


Precisamos falar também sobre a trilha sonora, a fotografia e a montagem, cada um deste aspectos são também dignos de aplausos de pé. [Alguém me explique como um filme deste é esquecido em quase todas as premiações da temporada…] A trilha sonora, composta por Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead, é excelente, ela ajuda a criar a atmofesra opressiva e angustiante, que predomina em todo o longa, e ainda a fazer alguma ligação entre as sequências fragmentadas. A fotografia é belíssima, ela, assim como a trilha, parece colaborar diretamente com a montagem produzindo rimas visuais, como por exemplo o uso da cor vermelha, que ganha destaque em diversas cenas, com o intuito de estabelecer uma relação entre diferentes espaços de tempo da trama... A montagem é caracterizada por tal tipo de rima, que parece costurar cenas de momentos narrativos diferentes, gerando assim uma espécie de mosaico, formado com cacos de lembranças que nos remetem à fragmentação da mente dos personagens centrais.



A direção de Lynne Ramsay é surpreendente, por não permitir que o filme se tornasse apenas mais uma adaptação ancorada no sucesso da obra que lhe originou. Ramsay ao que tudo indica respeitou a história original, porém ciente de que adaptações na trama seriam necessárias para que o filme não pendesse para lugares comuns, como a exploração da comoção do expectador ou apontamento de respostas fáceis para os questionamentos propostos. O roteiro assinado por ela, em colaboração com Rory Kinnear, consegue dar ao filme uma vida própria, tornando-o grandioso, sem que ele para isso dependa do livro que o originou, o resultado final não denota nenhum problema relacionado à transição de linguagem, como frequentemente acontece. Precisamos Falar Sobre o Kevin é arte, é cinema, é o tipo de adaptação que nos faz ficar curiosos e ao mesmo tempo receosos em relação à obra original, afinal, será que ela alcança tamanho nível qualidade? Acho que não precisamos falar mais nada sobre nada… Simplesmente o assista!


Precisamos Falar Sobre o Kevin foi indicado ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Atriz (Tilda Swinton). No Bafta, ele está concorrendo nas categorias de Melhor Filme Britânico, Melhor Diretor e Melhor Atriz (Tilda Swinton). O filme ainda foi selecionado para a mostra principal no Festival de Cannes, onde concorreu à Palma de Ouro.

Assistam ao trailer de  Precisamos Falar Sobre o Kevin no You Tube, clique AQUI !